25 abril 2007

Revolução dos Cravos



LETRA PARA UM HINO

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre



Lisboa, 25 de Abril de 1974. Na Rua do Arsenal, as tropas da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, detêm o avanço dos tanques do Regimento de Cavalaria 7, que ainda é fiel à ditadura. No momento retratado pela imagem, os soldados do RC7 desobedecem às ordens de disparar.

Mais tarde, o mesmo capitão Salgueiro Maia monta com as suas tropas um cerco ao quartel da GNR no Largo do Carmo, onde Marcelo Caetano se tinha refugiado. Do que no Largo do Carmo se passa, dá-nos conta a reportagem seguinte, que tivemos a oportunidade de ver nessa mesma noite na RTP, já sem censura.




TANTO MAR (1ª versão, de 1975, vetada pela censura no Brasil, ouvida em Portugal)

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


TANTO MAR (2ª versão, de 1978)

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque de Holanda

Comentários: 5

Blogger Maria Muadié escreveu...

As últimas palavras do livro "As Cidades Invisíveis" de Ítalo calvino:
"Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas:aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."

25 abril, 2007 03:50  
Anonymous O'Sanji escreveu...

Hoje, simplesmente, te deixo um cravo.

25 abril, 2007 16:08  
Blogger Denudado escreveu...

Prezada Maria Muadié,
Permita-me que discorde frontalmente de Ítalo Calvino. Ele não sabe do que fala. Num verdaderio inferno, não é possível a uma pessoa tornar-se parte dele até ao ponto de deixar de sofrer. Isso seria a negação da própria definição de inferno. Desculpe não me alongar mais sobre este assunto.

Amiga O'Sanji,
Muito obrigado pelo cravo. Retribuo com um beijo. Pode ser?

26 abril, 2007 01:06  
Blogger inominável escreveu...

não sei Denudado: acho que há pessoas que nem se apercebem que vivem no inferno... só assim se justifica que Salazar tenha ganho as "eleições televisivas"... POr isso, concordando contigo, não creio que o Calvino esteja completamente errado... as perspectivas das pessoas e o seu espírito crítico são tão diferentes e dependem de tantas coisas...

26 abril, 2007 09:11  
Blogger Denudado escreveu...

Cara Inominável, eu acho que se tem feito demasiado alarido à volta das "eleições televisivas" para o maior português de sempre, que foram "ganhas" por Salazar. Se as ditas "eleições" se tivessem baseado no princípio de um voto por pessoa, então sim, teríamos razão para ficarmos preocupados. Agora assim... Até o Miguel de Vasconcelos poderia ganhar, se houvesse um grupo de pessoas que se empenhasse muito nisso!

Tome este caso: quantos portugueses conhecem Aristides de Sousa Mendes? E no entanto ele ficou em 3º lugar! Eu não ponho minimamente em causa a classificação; até acho que foi merecidíssima. O que não acho é que ele seja assim tão conhecido, a ponto de obter uma tal pontuação.

Parece-me que Aristides de Sousa Mendes, que salvou a vida a muitos milhares de judeus, foi alvo de uma votação maciça por parte dos judeus portugueses, que assim quiseram homenagear o seu herói. Apesar de ser pequeníssima, a comunidade judaica portuguesa conseguiu colocá-lo em terceiro lugar.

Quanto à vitória de Salazar, ela só mostra até que ponto é que se está a mostrar aguerrida e atrevida a extrema-direita no nosso país. Este atrevimento, sim, é que é preocupante, pois os neofascistas, skinheads e outra escumalha do mesmo calibre podem ser perigosos, como já o demonstraram.

27 abril, 2007 00:20  

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