06 Dezembro 2011

«Mas porque é que isto me havia de acontecer a mim?»

O objeto circular que se vê na imagem é uma mina terrestre antipessoal. O outro objeto à sua esquerda parece ser uma granada e tem como finalidade reforçar o poder destruidor da mina. Se esta mina fosse pisada por alguém, a sua explosão provocaria a deflagração, por "simpatia", da granada ao seu lado. Daqui resultariam ferimentos muito mais graves ou mesmo a morte da vítima, do que se rebentasse apenas a mina. (Foto de autor desconhecido)


Um estalido metálico, seco, nítido, deflagrou no ar. A fila imobilizou-se. Meio dobrados sobre as automáticas, os homens esquadrinhavam todos os recantos, numa tensão feroz e atenta.

Bem a meio da picada o alferes não se moveu. Estava parado, muito direito, os dois braços ligeiramente afastados do corpo, o rosto petrificado em frente. Suspendia a arma pelo tapa-chamas, como quem assegura um contrapeso para um problemático equilíbrio.

-- Pisei uma mina! Pisei uma mina, caraças! -- repetiu, quase sem mexer os lábios para o furriel que se aproximava, inquieto. E havia nas palavras do alferes um tom de profunda tristeza, mais que grave ou compenetrado.

-- Meu alferes, por amor de Deus, não se mexa -- agitou-se o outro, com largos gestos tranquilizadores.

Durante uns momentos, o entendimento do alferes ficou totalmente embaciado, como se ele estivesse muito longe dali, imune à agitação em volta.

Ritmadamente, o coração tropeava-lhe no peito, em alto som. O furriel, que saltitava ao perto, distinguia-lhe a lividez da face, os lábios brancos, e continuava a produzir palavras, advertências, que o alferes já não ouvia. O espaço desfocara-se-lhe subitamente, numa confusão cinzenta de massas e de volumes. Uma dor fina, movente, foi-se entreafirmando, revolvendo-lhe as entranhas, o peito. Sentia as extremidades quase doridas, de frias, e o sangue a refluir, a tumultuar, em cachoeira, de envolto com o coração solto.

De um para outro relance, o pé que havia pisado a mina ora lhe parecia um trambolho pesado, de chumbo, ali plantado para a eternidade, ora uma extremidade oca, abandonada, de uma ligeireza etérea, flutuante, quase adormecida ao som da brisa.

O breve ruído metálico do percutor, clique, definitivo, vinha-lhe repetidamente aos ouvidos, em ecos pulsados.

-- Calma, -- murmurava o alferes baixinho, sem se ouvir -- calma, calma, pá!

A pouco e pouco, a razão foi voltando, clarearam-se os pormenores em volta. A angústia do medo misturou-se a um tremendo sentimento de injustiça. E o alferes foi tomado duma profunda piedade de si próprio, ingénua, ternurenta, infantil:

-- Mas por que é que isto me havia de acontecer a mim?

Extrato do conto "Era uma vez um alferes", de Mário de Carvalho, in Os Alferes, Editorial Caminho, Lisboa.

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