Um Natal que quase foi (ainda mais) diferente
Cada embalagem de cartão canelado que se vê na imagem contém uma ração de combate. Por pouco, a nossa ceia de Natal tinha sido muito semelhante a isto... (Foto: Fernando Reis)
O que agora vou contar passou-se antes de 1974, na região dos Dembos, norte de Angola, que foi um dos palcos da Guerra Colonial. Vou tentar ser tão factual quanto possível na narração dos acontecimentos, tal como eles ficaram registados na minha memória.
Mas antes de entrar concretamente no assunto, lembro que já fiz neste blogue uma descrição, tão detalhada quanto me foi possível, da situação ignominiosa em que se encontravam os trabalhadores forçados (chamados bailundos, contratados ou monangambas) nas fazendas de café e em outras atividades económicas da colónia de Angola (aqui). O que quase não referi foi o uso que o próprio Exército Português fez, ou quis fazer, destes desgraçados.
Em pelo menos dois dos quartéis dos Dembos, havia grupos de bailundos que estavam às ordens do Exército. Estes homens tinham sido "contratados" para -- a golpes de catana (facão) e sob escolta militar -- procederem à destruição das culturas (a que se dava o nome de lavras) pertencentes à população civil local. A população dos Dembos, na sua esmagadora maioria, vivia refugiada nas matas, escapando ao controle colonial, e apoiava os guerrilheiros nacionalistas da UPA/FNLA ou do MPLA, conforme as zonas onde vivia. O que os comandantes militares portugueses pretendiam, com a destruição das lavras, era provocar a fome entre a população e obrigá-la a sair das matas para se apresentar às autoridades coloniais, retirando assim o apoio do povo à guerrilha.
Embora eu, na minha qualidade de alferes miliciano do Exército (isto é, alferes não profissional do Exército, prestando o serviço militar obrigatório), não estivesse instalado em nenhum dos quartéis referidos, fui também uma vez escalado para uma operação que visava a destruição de lavras. Nesta operação, em particular, iriam tomar parte algumas dezenas de bailundos, que seriam escoltados por três grupos de combate, entre os quais o meu.
Antes da partida, o comandante da operação (um outro alferes miliciano, que a guerra acabou por afetar psicologicamente para o resto da vida) chamou os restantes alferes (entre eles eu) e disse-lhes:
-- Nós não vamos destruir lavras nenhumas. É um crime e eu não quero ser criminoso. Há crianças, há doentes, há mulheres, há muitas pessoas inocentes que não têm culpa de viver numa região em guerra. Nós não temos o direito de aumentar ainda mais o sofrimento dessas pessoas, obrigando-as a passar fome. Isto é coisa que repugna à minha consciência.
Os outros alferes manifestaram de imediato a sua concordância e apoio incondicional. Discutiu-se, então, o que é que se iria fazer durante a operação, em vez da destruição das lavras. Ficou decidido que se iria, na mesma, até às lavras em causa, para que ninguém pudesse dizer que não tínhamos ido ao objetivo. Uma vez aí chegados, os três grupos de combate dividir-se-iam e seguiria cada um -- juntamente com os bailundos à sua responsabilidade -- por caminhos diferentes, a fim de recolher o máximo de informações sobre a zona, tomando nota de todos os indícios, rastos e vestígios que fossem encontrando. Também iriam deixar marcas da sua própria passagem pela zona, para que os turras (guerrilheiros da UPA/FNLA, neste caso) não se convencessem de que poderiam circular por ali à vontade, sem correrem o risco de encontrar a tropa pela frente.
A operação começou tal como tinha sido planeado mas, à chegada às lavras, ocorreu um incidente que muito nos impressionou. Numa curva do trilho por onde seguíamos, apareceu subitamente uma mulher. Esta, vendo que não tinha possibilidades de escapar, espetou no seu próprio peito a catana que trazia na mão e morreu no meio de uma poça de sangue. Os soldados que iam à frente balbuciaram:
-- Mas nós não queríamos fazer-lhe mal... Porque é que ela se matou? Nós não íamos fazer-lhe mal... Porquê? Porquê?
Passados os primeiros momentos de espanto e de incredulidade, os soldados manifestaram a sua admiração por aquela mulher, exclamando:
-- Que grande mulher! Preferiu morrer a entregar-se... É uma heroína! Que grande mulher!
Como já não havia nada a fazer para remediar a situação, pois a mulher já estava morta, procedeu-se ao seu enterramento. Completada a tarefa, improvisou-se uma cruz, que se colocou à cabeceira da sepultura. Antes de se retirarem finalmente do local, os soldados que eram crentes ainda se demoraram algum tempo a rezar pela alma da mulher.
Vínhamos todos calados e pensativos, ainda muito impressionados com o sucedido, quando a voz de um soldado rompeu o silêncio da mata:
-- Se a gaja não se matasse, quem a matava era eu.
Uma onda de indignação percorreu os restantes soldados, que lhe gritaram:
-- Ó seu grande filho da puta! Tu eras capaz de matar uma mulher, seu cobardolas de merda?! Seu cabrão! Cobarde!
Uma chuva de insultos desabou sobre o soldado que tinha falado e que não abriu mais a boca. A operação prosseguiu até ao fim sem que houvesse qualquer outra ocorrência digna de nota.
Quando regressávamos ao nosso quartel depois da operação, já montados em viaturas, tivemos que passar pelo comando da Área Militar de que dependíamos. Como acontecia sempre que passávamos por lá, parámos nesse quartel e o comandante da coluna (que neste caso era o alferes que comandou a operação) foi apresentar-se ao brigadeiro responsável pela Área. Assim que o alferes o informou de que as lavras não tinham sido destruídas, o brigadeiro teve uma reação irada.
-- O quê?! -- berrou -- Não foram destruídas? Eu mandei-os para lá com o propósito de destruírem as lavras e vocês não as destruíram? Isto é muito grave! É uma desobediência! Não pode ficar impune! Como castigo, vocês vão passar a noite de Natal lá, naquelas mesmas lavras, para aprenderem a obedecer às ordens que lhes dou! Quem não cumpre as minhas ordens, não merece festejar o Natal!
Quando foram informados da decisão do brigadeiro, os soldados reagiram de modo resignado.
-- Paciência -- disseram. -- De qualquer maneira, não podemos passar o Natal com as nossas famílias, que era o que nos importava... Tanto faz que o passemos no quartel, na mata ou noutro sítio qualquer. Isto aqui não é Natal nem é nada.
Quando, na manhã do dia 24 de dezembro, subimos para as viaturas que nos iriam conduzir de novo até perto da zona onde iríamos passar o Natal, senti um nó na garganta ao ver o ar sereno dos meus soldados, que iam de cabeça levantada, sem um queixume nem uma recriminação, dispostos a comer ração de combate à Consoada e a dormir ao relento, sobre pedras e raízes, na noite de Natal.
Mais uma vez, passámos pelo comando da Área Militar e, mais uma vez, o alferes comandante da coluna foi apresentar-se ao brigadeiro. Enquanto isso, eu dirigi-me à messe de oficiais da companhia de intervenção da Área Militar, que também estava lá aquartelada e que era uma companhia sacrificadíssima, pela qual eu tinha um imenso respeito.
-- O que é que estás aqui a fazer? -- perguntaram os alferes e o capitão que estavam na messe, admirados por me verem -- Hoje é véspera de Natal, não é suposto vocês andarem por aqui. Deveriam ficar no quartel a preparar a festa. O que é que vieram cá fazer?
Quando lhes expliquei que iríamos passar o Natal no meio da mata por não termos destruído lavras, como nos tinha sido ordenado, os meus interlocutores exclamaram:
-- Ó pá! Façam como nós! Nós também não destruímos as lavras, mas o brigadeiro pensa que sim...
E passaram a explicar como deveríamos proceder:
-- Como sabes, a base da alimentação da população daqui é a mandioca. Ora o que se come da mandioca está debaixo da terra, são os tubérculos, que são raízes. Acima da terra só está a rama, que não se come. Vocês podem destruir parcialmente a rama das mandioqueiras sem prejudicarem as raízes. Elas talvez até beneficiem com isso, pois será uma espécie de poda. Quando vocês tiverem que "destruir" lavras, façam um desbaste na rama das mandioqueiras e espalhem aquilo tudo muito bem, para dar a impressão de que a destruição foi muito grande a quem passar de avião. O brigadeiro, quando sobrevoar as lavras, vai pensar que elas foram destruídas, mas não; os tubérculos continuam intactos, debaixo da terra! O brigadeiro não percebe nada do assunto, é militar de carreira...
E a explicação continuou:
-- Isto é o que vocês devem fazer à mandioca e a outros tubérculos, como a batata doce. Agora quanto ao milho... NÃO TOQUEM NO MILHO. Como é evidente, se vocês cortarem o milho, ele perde-se totalmente, a menos que já esteja maduro. Se ele estiver maduro, então sim, podem cortar à vontade, sem problemas de consciência. Neste caso, como ele já estará completamente desenvolvido e pronto para ser apanhado, mais dia menos dia ele iria mesmo ser cortado pela população, a fim de colher as espigas.
Concluiram a explicação, acrescentando:
-- Nós temos feito sempre assim. Temo-nos dado muito bem com este método. O brigadeiro fica muito contente, porque pensa que as lavras foram destruídas, e não nos chateia. Por outro lado, a população não é prejudicada e nós não ficamos com problemas de consciência.
Enquanto isto acontecia, o alferes comandante da coluna tentava convencer o brigadeiro, no gabinete deste, a retirar o castigo que nos impusera e a permitir que regressássemos ao quartel, para passarmos o Natal na companhia dos nossos camaradas.
-- Eu é que fui o responsável pela não destruição das lavras, meu brigadeiro -- disse o alferes. -- Se quiser castigar alguém, castigue-me a mim. Os soldados não têm culpa nenhuma do que se passou. Eles limitaram-se a cumprir as ordens que eu lhes dei.
Depois de muita insistência, o brigadeiro acabou por anular o castigo, em troca da promessa de que, numa operação posterior, as lavras iriam mesmo ser destruídas.
Nunca foram. Já sabíamos como haveríamos de proceder...
Toda a minha companhia acabou assim por festejar o Natal no quartel, com rancho melhorado, bebidas à discrição, a doçaria possível e a música ao vivo proporcionada pelos camaradas mais talentosos.
P.S. -- Cerca de três meses depois, o meu heroico grupo de combate composto por vinte e poucos homens, completamente sozinho e comandado por um furriel miliciano apenas (eu estava de férias), conquistou a tiro e de peito descoberto uma importante base militar que a UPA/FNLA tinha na zona onde decorreu a ação acima narrada. Mas esta é uma outra história que não cabe aqui contar, uma história de valentia (dos meus subordinados) e de cobardia (do capitão que não teve escrúpulos em lançá-los "às feras" e abandoná-los à sua sorte, sem qualquer oficial a comandá-los, enquanto ele se deixou ficar na retaguarda com os seus numerosos homens, à espera do resultado dos combates e sem intervir fosse de que modo fosse).





Comentários: 5
Fernando querido,
Comovente! Natal para mim é isso que vocês demonstraram amor, fraternidade!
Para você e família um Natal abençoado, com amor, carinho, alegria e saúde. Girassóis sempre! Beijo.
Um texto-testemunho de uma Alma que também não foi fardada. (Apenas algumas almas se fardam e é com elas que se fazem guerras.)
Bom Natal
Cara Celina Dutra,
Nem sempre é fácil demonstrar amor e fraternidade no meio de uma guerra. Chegam a viver-se situações tão extremas, que algumas pessoas podem perder a noção do que é bem e do que é mal. Felizmente isso nunca aconteceu connosco.
Embora o soldado que disse que era capaz de matar a mulher não fosse meu subordinado -- e por isso eu não o conhecia bem --, custa-me a acreditar que ele estivesse a ser sincero ao fazer a afirmação que fez. Ele era uma pessoa que tinha dificuldades de relacionamento com os seus camaradas. Não sabia ser simpático e convivente com ninguém. A afirmação que ele fez, de que mataria a mulher se ela não se suicidasse, pode ter sido apenas uma tentativa de se afirmar junto dos outros, procurando dar-lhes a impressão de que era um valentão implacável. A verdade é que, durante os dois anos e três meses de duração da comissão militar, ele nunca cometeu qualquer ato condenável.
Caro Rogério Pereira,
Peço que me desculpe a má qualidade deste meu texto. Não tem qualquer comparação com a dos seus, que é verdadeiramente brilhante. Não só eu não tenho jeito nenhum para as Letras, mas também escrevi este texto "em cima do joelho", porque estava com falta de tempo.
Felizmente não faltaram almas não fardadas à minha volta durante a minha comissão militar, como pôde ler. Mas eu quero realçar agora as almas dos militares da companhia de intervenção da Área Militar nº 1 (antigo Setor dos Dembos) que -- apesar de serem obrigados a ter uma atividade operacional permanente, arriscada e esgotante -- nunca se deixaram fardar por brigadeiros, chefes de estado-maior e restante corja. Nós recebemos desses nossos camaradas muitos e valiosos conselhos, pois eles eram mais antigos do que nós, e tivemos com eles alguns momentos de convivência verdadeiramente memoráveis. Foi a todos os títulos notável, por exemplo, a forma extremamente fraterna como eles (que eram todos brancos) trataram os nossos soldados negros. No fundo, qualquer que fosse a cor da nossa pele, nós éramos todos civis, arrancados às nossas famílias para fazermos uma guerra que não desejávamos.
Meu bom Fernando,
cheguei a A Matéria do Tempo atrás de conhecer sobre Mr. Cunningham e a dança contemporânea. É um estudo que está em andamento - e o Cine-Teatro Vale Formoso sobreviverá para sempre, aqui nos meus escritos. MAS NADA SE COMPARA ao inimaginável histórico de um militar sensível às artes, a surpresa de saber que tivestes um natal desses, tão honrado. Aqui é Brasil, você sabe, arranca-se de tudo, pela raiz.
_que 2012 seja um bom ano pra ti_
prazer em conhecê-lo - abraços
Poeta Xandu
Prezado Poeta Xandu,
Muito obrigado pelas suas palavras tão amáveis, que não mereço. Apenas tenho que lhe corrigir o seguinte: eu não sou militar. Não sou, nunca fui, nem nunca seria um profissional da guerra. Nunca! Eu deveria ter deixado isto bem claro no texto. Não deixei e por isso o induzi em erro. Peço-lhe muita desculpa.
No Exército Português, no tempo da ditadura, a desginação "miliciano", quando era acrescentada à de um posto de sargento ou de oficial, significava que esse sargento ou esse oficial não era do quadro permanente, mas antes estava no cumprimento do seu serviço militar obrigatório. Tal como acontecia com a quase totalidade dos soldados, eu estive no Exército apenas no cumprimento do meu serviço militar obrigatório. Nunca aceitaria ser militar de carreira, fosse em que circunstância fosse. A quase totalidade dos militares de carreira que conheci durante a guerra eram uns sujeitinhos abomináveis, de que é exemplo o brigadeiro (o mesmo que major-general) desta história real.
Resumindo: quando afirmei que fui alferes miliciano, quis dizer que ocupei o posto mais baixo de oficial do Exército (o posto de alferes), mas que não era militar profissional.
Peço-lhe mais uma vez desculpa pelo engano que lhe provoquei e aceite o meu abraço.
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