15 maio 2018

As Sonsas (conto popular português)


Lagoa das Sete Cidades, Ilha de São Miguel, Açores (Foto: Viagens Castor)

Havia um rei, e na sua corte andavam dois cavaleiros; um falava nas suas três filhas, que eram muito devotas e que não se importavam com as vaidades do mundo; o outro tinha uma filha só, que era muito alegre e divertida. Juntaram-se um dia muitas senhoras e falaram nas suas filhas, aonde estava também o príncipe, que, ouvindo as conversas, foi ter com a rainha e pediu-lhe as suas joias. Vestiu-se em adela e foi a casa do fidalgo que tinha as três filhas beatas. Bateu à porta; os criados foram chamar a dona da casa, mãe das meninas, e ela lhe disse:

— As minhas filhas não hão de querer agora joias, pois elas não fazem outra coisa senão rezar.

Mas a adela pediu que ao menos a recolhessem do ar da noite, e queria que a deixassem ficar no quarto das meninas, porque assim ficava mais segura com as joias que trazia, que eram de muito valor. A mãe falou nisto às filhas; e elas:

— Nós não queremos cá velhas; temos muito que rezar.

A mãe disse:

— Ela fica aí para um canto do quarto, porque não quero que em minha casa aconteça a desgraça de a roubarem.

A adela entrou para o quarto das meninas; deitou-se e fingiu que dormia. Lá por alta noite entraram três mancebos, que eram os namorados das três meninas, e cada um deixou uma coisa. A adela, assim que viu esses objetos, agarrou neles e abalou.

No dia seguinte, o príncipe que era a dita adela, esperou que anoitecesse, e foi a casa da filha do outro fidalgo, bateu à porta, veio a mãe da menina; disse que trazia ali umas joias, para ver se a menina quereria comprar.

Veio ela muito contente, esteve a ver as joias, e, como isto levou tempo, disse:

— Minha rica velhinha, eu não quero nada; mas como é tarde há de cá dormir, e fica no meu quarto.

Depois deram a ceia à velha, e ela foi deitar-se para o quarto da menina, que lhe deu também a sua cama. A velha fingia que dormia; a menina veio deitar-se. Penteou-se, rezou, despiu-se e deitou-se sem camisa na cama. A adela, assim que a apanhou dormindo, pegou na camisa e foi-se embora.

No fim de dias o príncipe mandou avisar, para todos os fidalgos irem ao palácio com as suas famílias; quando estavam presentes, chamou um cavaleiro e mostrou-lhe uma prenda e perguntou se a conhecia.

O cavaleiro disse que sim, e que a tinha deixado no quarto de uma menina. Fez mais perguntas iguais aos outros mancebos, e as três beatas estavam muito envergonhadas. Chegou por fim a vez da menina da camisa; chamou-a, e ela desatou a rir.

A mãe disse-lhe:

— Sustei-vos, filha, não vos rides.

— Ai, senhora! Agora é que eu vejo que o príncipe era a velha adela que me furtou a camisa.

O príncipe perguntou-lhe:

— Será esta a camisa?

— É, sim, senhor.

— Pois bem, aqui tem a sua camisa, e saiba que deste instante por diante fica minha verdadeira esposa, e a estas meninas dou-lhes a sentença que, como são muito beatas, se faça um convento para as meter para sempre.

Conto tradicional da Ilha de São Miguel, Açores, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843–1924)

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