17 abril 2019

A Crise Académica de 1969 em Coimbra


Durante a Crise Académica de 1969, em Coimbra, a presença da GNR a pé, a cavalo ou de jipe foi uma constante. Ao cimo, vê-se o edifício das Matemáticas, cuja inauguração em 17 de abril de 1969 desencadeou a crise


Em 1969, Portugal encontrava-se num beco sem saída. Um enquistado regime político autoritário e uma sangrenta guerra colonial provocavam a saída de milhares e milhares de portugueses para França, Alemanha e outros países, à procura de uma vida melhor, enquanto os jovens aguardavam a ordem de cumprirem o serviço militar e serem enviados para as colónias, a fim de fazerem a guerra.

Marcelo Caetano tinha subido ao poder, substituindo Salazar como chefe do governo, e tinha prometido uma abertura do regime. Deu-se então a chamada "Primavera marcelista", que foi de curta duração. Aproveitando esta abertura, os estudantes de Coimbra conseguiram autorização para realizarem eleições livres para a direção da Associação Académica, a qual se tinha mantido sob a tutela de uma comissão administrativa da confiança do regime. As eleições realizaram-se e dela resultou uma votação esmagadora na lista proposta pelo Conselho das Repúblicas (no qual participavam todas as repúblicas de estudantes, menos uma), encabeçada por um estudante de Direito chamado Alberto Martins.

Entretanto, estava prevista para o dia 17 de abril de 1969 a inauguração de um novo edifício da Universidade, o edifício das Matemáticas, que contaria com a presença do presidente da República Américo Tomaz e outras "altas individualidades", como se dizia naquele tempo. A nova direção da Associação Académica de Coimbra quis também intervir na cerimónia de inauguração, a fim de apresentar o ponto de vista dos estudantes, os seus anseios e as suas reivindicações. Este desejo foi negado pela reitoria da Universidade, que alegou que o reitor iria discursar e, como tal, iria representar a Universidade no seu todo. A direção da Associação Académica não aceitou a resposta e decidiu que o seu presidente, Alberto Martins, iria estar presente na cerimónia e iria pedir a palavra pessoalmente a Américo Tomaz. Além disso, apelou aos estudantes que comparecessem na cerimónia, a fim de dar força à sua pretensão.




Na manhã de 17 de abril, várias centenas de estudantes responderam ao apelo, apinhando-se nos passeios envolventes ao edifício a inaugurar e empunhando alguns cartazes.

Chegou a comitiva oficial, constituída pelo presidente Américo Tomaz, o ministro da Educação José Hermano Saraiva, o bispo de Coimbra (para abençoar o edifício) e outras "forças vivas", como se dizia naquele tempo, num ambiente tenso que muito a deve ter surpreendido. Depois dos desfiles em parada e outras cerimónias de boas-vindas, a comitiva entrou na sala onde iriam ser proferidos os discursos. Falou o reitor da Universidade, falou o minstro da Educação e mais não sei quem, até que Alberto Martins se levantou do meio da assistência e, dirigindo-se ao presidente, disse: «Em nome dos estudantes de Coimbra, peço a palavra».




Américo Tomaz respondeu: «Bem, mas agora fala o sr. ministro das Obras Públicas». O ministro Rui Sanches botou faladura e, assim que se calou, a comitiva levantou-se e saiu pela porta fora. Passou pelo meio dos estudantes que se apinhavam no átrio, os quais manifestaram o seu desagrado vaiando e gritando «vergonha, vergonha, vergonha».




Nessa noite teve início a repressão. Alberto Martins e outros dirigentes associativos foram presos pela PIDE e diversos estudantes foram espancados.




Na noite de 30 de abril, o ministro da Educação, José Hermano Saraiva, falou ao país pela televisão com cara de mau, acusando os estudantes de terem desrespeitado o venerando Chefe de Estado, de atentarem contra a ordem vigente e de outras malfeitorias mais, acrescentando que a ordem iria ser mantida a todo o custo. Disse ele a dada altura: «Sabemos que estão a caminho de Coimbra conhecidos agitadores». Estaria ele a referir-se a Zeca Afonso, que viria a dar um memorável recital nos jardins da Associação Académica?

O discurso do ministro soou aos ouvidos dos estudantes como uma declaração de guerra. Reunidos em assembleia magna da Academia, decretaram o luto académico e a greve aos exames. Cartazes colados nas paredes da Associação Académica e comunicados distribuídos à população da cidade verberaram ou ridicularizaram a atitude do ministro e deram conta da determinação dos estudantes em resistir-lhe.






O luto académico caiu muito mal na população de Coimbra, porque significava que a Queima das Fitas não se iria realizar. Os comerciantes, sobretudo, ficaram muito descontentes com a decisão. Contavam ganhar algum dinheiro durante a semana da Queima e esse dinheiro, afinal, não viria. Os estudantes resolveram então ter um gesto de gentileza para com os habitantes da cidade, lançando a "Operação Flor". Compraram todas das flores que havia em todas as floristas de Coimbra e ofereceram-nas aos habitantes, enquanto diziam: «Paz e Liberdade».




Noutra ocasião, lançaram a "Operação Balão". Compraram centenas de balões, nos quais escreveram palavras tais como Justiça, Liberdade, Paz, Democracia.




Partiram dos jardins da Associação Académica e dirigiram-se em cortejo até ao Largo da Portagem, junto ao rio Mondego, onde largaram os balões.




Enquanto tudo isto acontecia, Coimbra tornou-se uma cidade ocupada. Um numeroso contingente da GNR tomou conta das ruas da cidade, a PIDE foi reforçada, a própria Polícia Judiciária foi mobilizada para a repressão, muitas dezenas de estudantes foram presos, mas os exames não se fizeram. Só uma muito pequena minoria os fez, sob proteção da GNR. Alguns estudantes reagiram à repressão espalhando pregos nas ruas para furarem os pneus dos jipes e, até, lançando pimenta para o focinho dos cavalos da GNR.






As fotografias que acompanham este post são de diversos autores, assim como outras mais que estão no site https://pt.slideshare.net/marynauby/crise-acadmica-de-1969-universidade-de-coimbrareportagem-fotogrfica.

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