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09 janeiro 2026

Onde cairá o orvalho…

Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono
e história
e só as coisas torpes e destruídas
cobriram os campos e tornaram cinza o verde?

Oiço exércitos do norte do sul e do leste
fantasmas lançando o manto das trevas
os rostos exilando-se de si mesmos.
Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.
— Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,
o choro de uma criança?
Oiço os exércitos, oiço
os exércitos.

Quero reconstruir tudo — alguém disse
e ouvimos cair as árvores.
E vimos a terra coberta de acácias
e as acácias eram sangue.

Estamos à beira de um caminho
— que caminho é este?
Inventam de novo o voo dos
pássaros.
Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.

Maria Alexandre Dáskalos (1957–2021), poetisa angolana


(Foto de autor desconhecido)

2 comentários:

  1. Extraordinário poema!

    Obrigada pela partilha e um abraço, Fernando.

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  2. Maria Alexandre Dáskalos foi filha do poeta Alexandre Dáskalos, de quem tomou o nome, e era casada com um outro poeta angolano de grande mérito, chamado Arlindo Barbeitos, que também já faleceu.

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