31 janeiro 2015

Dobet Gnahoré


Nan, por Dobet Gnahoré, cantora, percussionista e bailarina da Costa do Marfim


Nko, por Dobet Gnahoré


Issa, por Dobet Gnahoré

25 janeiro 2015

Chegada das relíquias de Santa Auta ao Convento da Madre de Deus, Lisboa

Chegada das Relíquias de Santa Auta ao Convento da Madre de Deus, em Lisboa, de pintor anónimo da primeira metade do séc. XVI, provavelmente Cristóvão de Figueiredo. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

A pintura que aqui em cima se reproduz faz parte do chamado Retábulo de Santa Auta, que é um políptico que pertenceu ao Convento da Madre de Deus, em Lisboa, mas que agora se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga, também em Lisboa. Não se sabe ao certo quem foi o seu autor, mas supõe-se que tenha sido o pintor português Cristóvão de Figueiredo, que viveu na primeira metade do séc. XVI, com a colaboração provável, segundo alguns entendidos, de Garcia Fernandes.

A fundação do Convento da Madre de Deus deveu-se à rainha D. Leonor, mulher do rei D. João II e fundadora das Misericórdias, para nele ficar instalada a Ordem das Franciscanas Descalças. O que se representa no quadro é a chegada ao convento, em solene procissão, das relíquias de Santa Auta, as quais ainda se encontram na belíssima e riquíssima igreja do convento. Estas relíquias foram oferecidas a D. Leonor pelo imperador Maximiliano I, do Sacro Império Romano-Germânico, que era seu primo. A rainha D. Leonor encontra-se representada muito discretamente no quadro, vestida de preto, em sinal de luto pois já tinha enviuvado, e de mãos postas, ao fundo à esquerda.

18 janeiro 2015

As Quatro Estações, de Vivaldi


As Quatro Estações, do compositor veneziano Antonio Vivaldi (1678-1741), pela Orquestra de Câmara Inglesa dirigida por Leonard Slatkin


As Quatro Estações são os primeiros quatro dos doze concertos para violino que Antonio Vivaldi compôs sob o título conjunto de Il cimento dell'armonia e dell'invenzione ("A luta entre a harmonia e a invenção", numa tradução livre; a palavra "harmonia" significa, neste contexto, o rigor e a racionalidade da aplicação das regras da composição musical), os quais constituem o seu opus 8. Este conjunto de concertos foi publicado em 1725.

Vivaldi fez corresponder a cada uma das suas Quatro Estações um soneto. Não se sabe quem foi que escreveu os sonetos; há quem diga que terá sido o próprio Vivaldi. Por outro lado, também não se sabe se os concertos foram escritos antes dos sonetos ou depois. No fundo, esta é uma questão irrelevante, pois há uma correspondência biunívoca entre os concertos e os sonetos. Os concertos ilustram os sonetos ou, se se quiser, os sonetos ilustram os concertos. Tanto faz.

Segue-se uma tradução dos quatro sonetos associados às Quatro Estações, tradução esta que é atribuída a Ricardo de Mattos.

A Primavera

1º andamento: Allegro

Chegada é a Primavera e festejando
A saúdam as aves com alegre canto,
E as fontes ao expirar do Zeferino
Correm com doce murmúrio.

Uma tempestade cobre o ar com negro manto
Relâmpagos e trovões são eleitos a anunciá-la;
Logo que ela se cala, as avezinhas
Tornam de novo ao canoro encanto.

2º andamento: Largo

Diante disso, sobre o florido e ameno prado,
Ao agradável murmúrio das folhas
Dorme o pastor com o cão fiel ao lado.

3º andamento: Allegro

Da pastoral Zampónia ao Suon festejante
Dançam ninfas e pastores sob o abrigo amado
Da primavera, cuja aparência é brilhante.


O Verão

1º andamento: Allegro non molto — Allegro

Sob a dura estação, pelo Sol incendiada,
Lânguidos homem e rebanho, arde o Pino;
Liberta o cuco a voz firme e intensa,
Canta a corruíra e o pintassilgo.

O Zéfiro doce expira, mas uma disputa
É improvisada por Borea com seus vizinhos;
E lamenta o pastor, porque suspeita,
Teme feroz borrasca: é seu destino [enfrentá-la].

2º andamento: Adagio — Presto — Adagio

Toma dos membros lassos o repouso
O temor dos relâmpagos e os feros trovões;
E de repente inicia-se o tumulto furioso!

3º andamento: Presto

Ah! No mais o seu temor foi verdadeiro:
Troa e fulmina o céu, e grandioso [o vendaval]
Ora quebra as espigas, ora desperdiça os grãos [de trigo].


O Outono

1º andamento: Allegro

Celebra o aldeão com danças e cantos
O grande prazer de uma feliz colheita;
Mas um tanto aceso pelo licor de Baco
Encerra com o sono estes divertimentos.

2º andamento: Adagio molto

Faz a todos interromper danças e cantos,
O clima temperado é aprazível;
E a estação convida a uns e outros
Ao gozar de um dulcíssimo sono.

3º andamento: Allegro

O caçador, na nova manhã, à caça,
Com trompas, espingardas e cães, irrompe;
Foge a besta, mas seguem-lhe o rastro.

Já exausta e apavorada com o grande rumor,
Por tiros e mordidas ferida, ameaça
Uma frágil fuga, mas cai e morre oprimida!


O Inverno

1º andamento: Allegro non molto

Agitado tremor traz a neve argêntea;
Ao rigoroso expirar do severo vento
Corre-se batendo os pés a todo momento
Bate-se os dentes pelo excessivo frio.

2º andamento: Largo

Ficar ao fogo quieto e contente
Enquanto fora a chuva a tudo banha;

3º andamento: Allegro

Caminhar sobre o gelo com passo lento
Pelo temor de cair neste intento.

Girar forte e escorregar e cair à terra;
De novo ir sobre o gelo e correr com vigor
Sem que ele se rompa ou quebre.

Sentir ao sair pela ferrada porta,
Siroco, Borea e todos os ventos em guerra;
Que este é o Inverno, mas tal, que [só] alegria porta.

NOTAS:

1 — Eu estranhei a palavra "Zeferino" no terceiro verso da primeira quadra do soneto dedicado à primavera. Zeferino é um antropónimo, cuja presença no soneto não faz qualquer sentido. No original em italiano está zeffiretti, palavra que se pode traduzir por "zéfiros", que são brisas frescas e suaves.

2 — A palavra "Zampónia", no primeiro verso do segundo terceto do soneto dedicado à primavera, refere-se a zampogna em italiano, que é uma espécie de gaita de foles.

3 — A palavra "Suon", no mesmo verso, está errada com certeza. O verso em italiano diz: Di pastoral zampogna al suon festante. Isto significa "Ao som festivo da pastoril zampogna".

16 janeiro 2015

Lamento de uma mãe para um filho soldado nas colónias

Meu filho posto
soldado
levado para lá do mar

de negro ando vestida
chorando-te até chegares

Dois braços — sei — tu levavas
com quantos voltas não sei…

com duas pernas andavas
e com os olhos enxergavas
aqueles montes além

Meu filho neste baraço
de ódio que nunca vem…
uma farda te vestiram e uma arma te entregaram
a mando não sei de quem…

Puz cinza nos meus cabelos
e com um lenço os tapei

vou chorar-te dia e noite
nessa guerra de
                        ninguém

Dois braços — sei — tu levavas
com quantos voltas não sei…

Maria Teresa Horta, in Poesia Reunida, págs. 487-488, Edições Dom Quixote, Lisboa


Consequências do acionamento de uma mina terrestre por uma viatura militar portuguesa, Leste de Angola (Foto: João Petrucci)

10 janeiro 2015

As animações geométricas de Dave Whyte


Dave Whyte é um doutorando residente em Dublin, na Irlanda, que estuda a física das espumas, mas que tem vindo a ser mais conhecido como um talentoso autor de imagens geométricas animadas no formato gif.

Dave Whyte cria as suas animações recorrendo a uma linguagem de programação chamada Processing. Esta linguagem, que é open source e que, num primeiro relance, parece apresentar algumas semelhanças sintáticas com o C/C++, foi criada em 2001 com a finalidade de promover a aprendizagem da programação num contexto visual. A linguagem evoluiu de então para cá e acabou por se tornar numa ferramenta informática de nível profissional, sendo usada por dezenas de milhares de estudantes de artes visuais, designers, artistas plásticos, investigadores e simples curiosos. As enormes possibilidades gráficas desta linguagem são mostradas no primeiro vídeo ("Hello") de apresentação e demonstração da mesma, em http://hello.processing.org/editor/.

Dave Whyte afirma que os programas que cria para gerar as suas surpreendentes animações são muito simples, apenas lhe bastando escrever umas poucas linhas de código. Só assim se compreeende, aliás, que ele tenha tempo para fazer o seu próprio doutoramento, ao mesmo tempo que vai criando novas animações a um ritmo surpreendentemente elevado e que ele vai publicando no seu próprio blog, que recomendo, chamado Bees & Bombs.




04 janeiro 2015

A tradição ainda é o que era

Duas moças mumuílas, do grupo etno-linguístico Nyaneka-Humbi, na Serra da Leba, sudoeste de Angola (Foto: Adalberto Gourgel)

02 janeiro 2015

Os índios do Brasil vistos pelos próprios


Língua do Peixe, um filme de Awayunyc Kamayura, Karuarawi Aweti, Samurai Kamayura e Tawana Kalapalo, com Marrayury Jair Kuikuro e Samurai Kamayurá, realizado em 2012


Este vídeo não é apenas sobre índios brasileiros ou com índios brasileiros. É de índios brasileiros. Trata-se de uma curta-metragem de ficção, realizada pelos índios xinguanos Awayunyc Kamayura, Karuarawi Aweti, Samurai Kamayura e Tawana Kalapalo que, sob a orientação de Takumã Kuikuro e Bernard Belisario, participaram numa oficina de introdução ao vídeo chamada Cinema Índio. Esta oficina decorreu na aldeia Ipatse, do povo Kuhi Ikugu (vulgarmente chamado Kuikuro), no Alto Xingu, estado do Mato Grosso, Brasil, entre 28 de dezembro de 2011 e 16 de janeiro de 2012.

Este pequeno filme conta a história de dois índios, pertencentes a povos diferentes e falando línguas diferentes, que disputam um colar de caramujos, que é uma peça de adorno tradicional dos povos alto-xinguanos feita a partir de conchas de caramujo.

Chamo a atenção para a beleza e a pureza do ambiente em que o filme foi feito. O Parque Indígena do Xingu é uma ilha de floresta verde, rodeada por um oceano de áridos latifúndios que também já foram floresta. No Brasil e em outros países, os povos indígenas é que são os melhores garantes da conservação da Natureza.

Recomendo que se veja este vídeo em ecrã completo, para o que basta apontar para o símbolo de formato quadrangular que está em baixo, à direita, junto à palavra vimeo.

01 janeiro 2015

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

Fernando Pessoa (1888-1935)