30 setembro 2006

No Parque Natural da Arrábida


Esta fotografia foi tirada num local chamado Fojo, que fica entre Alpertuche e a Serra do Risco, para oeste do Portinho da Arrábida. É um local muito frequentado por alpinistas, que vão para lá treinar.

Na imagem pode-se ver a referida Serra do Risco terminando a pique sobre o mar. Para se ter uma ideia das dimensões destas falésias, chamo a atenção para o que parece ser a ponta de um rochedo que aflora na água e que se vê ao fundo na fotografia. Não é a ponta de nenhum rochedo; é uma traineira que anda na faina da pesca.

Mais adiante, no sopé da falésia, existe uma praia que só é acessível por barco e a que os pescadores de Sesimbra chamam Praia da Mijona.

27 setembro 2006

Humor: como aprender a caminhar sobre a água

(Foto recebida por email)

25 setembro 2006

Dimitri Chostakovitch

Celebra-se hoje o centenário do nascimento do russo Dimitri Chostakovitch, que foi um dos mais importantes compositores do séc. XX.

Em termos musicais, Chostakovitch não foi propriamente um revolucionário, mas a sua música, mesmo assim, chocou os espíritos mais conservadores do seu tempo. É uma música que reflecte o ambiente da época por ele vivida, marcado pelo estalinismo e pela 2ª Guerra Mundial. Não é, por isso, uma música feita para ser "bonita", embora seja frequentemente irónica. As suas incursões por géneros mais ligeiros, por outro lado, conseguem agradar ao mais vasto público.

1º andamento (Allegretto) do Quarteto de Cordas nº 3 em Fá Maior, Op. 73, pelo Fine Arts Quartet

Andante, do Concerto para Piano e Orquestra nº 2

Valsa nº 2, da Suite de Jazz nº 2

24 setembro 2006

História das Palavras

Pintura de Elisabeth Nuti

Inácio Steinhardt é um nome conhecido de muitos portugueses, por ser o do correspondente em Israel de alguns órgãos de informação, como a TSF. Além de jornalista, o judeu português Inácio Steinhardt é também tradutor e historiador, tendo desenvolvido uma actividade de investigação sobre a trágica História dos judeus em Portugal.

Inácio Steinhardt é também um grande contador de histórias, como vim agora a descobrir, ao ler o seu novo blog História das Palavras. Fiquei fascinado pelas histórias que Inácio nos conta, mas também fiquei encantado pelo tom ameno e coloquial com que ele no-las conta.

Puxemos de uma cadeira, cheguemo-nos mais perto de Inácio Steinhardt e ouçamos o que ele tem para nos contar.

22 setembro 2006

O quadro mais repelente

Pieter Pauwel Rubens, A Cabeça da Medusa, c. 1617, óleo sobre tela

Até há pouco mais de 40 anos, esta pintura de Rubens esteve coberta por um pano para que não pudesse ser vista, por receio de que alguém se sentisse enojado e atentasse contra a sua integridade.

Desde que ela ficou à vista do público, ainda ninguém a tentou vandalizar. Pode ser admirada num dos dois sumptuosos museus existentes na Praça de Maria Teresa, em pleno centro monumental de Viena, o Kunsthistorisches Museum.

18 setembro 2006

Um dos mais belos poemas da língua portuguesa


Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes, os tristes,
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.


(João Roiz de Castelo-Branco, poeta do séc. XV, in Cancioneiro Geral)

13 setembro 2006

Amílcar Cabral

Foi só à noite que eu soube que ontem se completaram 82 anos sobre o nascimento de Amílcar Cabral. Não querendo eu deixar passar a efeméride, aqui o recordo, ainda que com um dia de atraso.


No seu blog Água Lisa (6), João Tunes evoca a personalidade de Amílcar Cabral no artigo Lembrando Amílcar Cabral, o Inimigo Libertador, afirmando nomeadamente:

(...) Se não se quiser entrar em fantasias panegíricas ou diabolizantes, Cabral só pode ser historicamente julgado pelo que foi e pelo que fez entre a sua juventude e 1973. E, neste campo, Amílcar Cabral avulta como uma das maiores e mais prolixas inteligências políticas de África e do Mundo em todos os tempos (*). Como homem de cultura, mestre em sínteses de sócio-culturas centrípetas, como político, ideólogo e diplomata, como chefe militar e organizador administrativo, Cabral foi exímio, criativo, exemplar e eficiente. Em tempo algum, os portugueses (alheando-nos da questão da legitimidade de quem, em cada momento, os representou em governo) se bateram, em guerra, contra um líder inimigo tão talentoso, tão persistente e tão eficaz. Talvez porque coincidiu, além das excepcionais capacidades próprias, que este inimigo de guerra, mais que qualquer outro que nos combateu em qualquer outro tempo e lugar, conhecia como os dedos da sua mão a cultura, o ser e o estar dos portugueses, sobretudo as nossas grandezas e misérias, além, é claro, as nossas sempre abundantes mediocridades. De tal forma foi tão bem construída a sua praxis que o seu slogan "combatemos o colonialismo português, não os portugueses" não foi nem figura de retórica nem esguicho de propaganda. E tanto foi assim, que os portugueses, combatendo-o e assassinando-o, em vez de o derrotarem, libertaram-se pela sua luta e pela sua liderança, pois foi muito devido ao PAIGC de Amílcar Cabral que tivemos o 25 de Abril, a democracia e a liberdade.

Recordar hoje Amílcar Cabral, pelo menos no meu caso de português que o combateu na guerra, resume-se a prestar-lhe tributo de homenagem como ilustre Inimigo Libertador.
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(*) - Leia-se esta excelente análise de Carlos Lopes.



O poema que se segue foi escrito por Amílcar Cabral e publicado na Revista "Mensagem", Ano I, nº 6, de Janeiro de 1949:

ROSA

Rosa.
Chamam-te Rosa, minha preta formosa,
E na tua negrura
Teus dentes se mostram sorrindo.
Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
Minha preta formosa, lasciva e ridente
Vais cheia de vida, vais cheia de esperança
Em teu corpo correndo a seiva da vida
Tuas carnes gritando
E teus lábios sorrindo...
Mas temo a tua sorte na vida que vives,
Na vida que temos...
Amanhã terás filhos, minha preta formosa
E varizes nas pernas e dores no corpo;
Minha preta formosa já não serás Rosa,
Serás uma negra sem vida e sofrente,
Serás uma negra
E eu temo a sua sorte.
Minha preta formosa não temo a tua sorte,
Que a vida que vives não tarda a findar...
Minha preta formosa, amanhã terás filhos
Mas também amanhã...
... amanhã terás vida!

11 setembro 2006

A morada dos deuses

(Foto: Orlando Rebelo)

«Verdadeiramente, os antigos deuses pagãos existem mesmo e esta é a sua morada». Foi esta a frase que me veio à cabeça quando cheguei ao Cromeleque dos Almendres e vi diante de mim as suas muitas dezenas de menires, talhados pela mão do homem há milhares de anos. A atmosfera que se respirava naquele lugar situado entre Évora e Montemor-o-Novo era de intenso mistério, acentuado pelas pesadíssimas nuvens cor de chumbo que pairavam sobre o recinto e ameaçavam desfazer-se em chuva a qualquer momento. Não podia haver atmosfera mais sobrenatural.

Observei praticamente todos os menires um a um, verificando que muitos deles apresentavam círcunferências e espirais gravadas. Demorei-me longamente naquele local e, quando me dei por satisfeito, voltei para o carro. Só então é que a chuva começou a cair, diluviana. Os deuses retiveram a água, até que eu acabasse a minha visita à sua morada. Agradeci mentalmente a Endovélico e aos seus companheiros a sua hospitalidade e empreendi o regresso, receoso de que o carro se atolasse nalgum lamaçal. Tal não aconteceu. Os deuses estiveram mesmo comigo. ;-)


O triângulo que tem como vértices Montemor-o-Novo, Évora e Alcáçovas é de uma riqueza arqueológica notável. Além do Cromeleque dos Almendres, na freguesia de Guadalupe, e não muito longe dele, fica a gigantesca Anta do Zambujeiro, que é a maior anta do país e uma das maiores da Europa. Perto da localidade do Escoural, no concelho de Montemor-o-Novo, existe a Gruta do Escoural, que é uma gruta que apresenta pinturas rupestres paleolíticas e restos de cerâmica neolítica, entre outras coisas. A pouca distância desta gruta, junto a uma estradinha que conduz à aldeia de S. Brissos, existe uma outra anta, que a devoção popular transformou em capela: a anta-capela de Nossa Senhora do Livramento. E a lista não acaba aqui.

07 setembro 2006

Uma aguarela do rei D. Carlos


Praia de Cascais, de Carlos de Bragança (1863-1908), Casa-Museu Anastácio Gonçalves (em frente à Maternidade Alfredo da Costa), Lisboa

02 setembro 2006

Exu, um orixá

Nunca é demais lembrar a trágica história do envio de milhões de africanos para o Brasil, na sua qualidade de escravos. As condições extremamente degradantes em que os antepassados dos afrobrasileiros foram capturados, transportados, vendidos e tratados são motivo do mais veemente repúdio e indignação. Impressiona verificar até que extremos o homem consegue levar a sua ganância e a sua insensibilidade perante o sofrimento que causa aos seus semelhantes. É impressionante também verificar até que ponto podem chegar a coragem, a tenacidade e a capacidade de resistência das suas vítimas, perante o mais cruel dos tratamentos.

Ao terem sido transportados para o Brasil, os escravos africanos levaram consigo as suas crenças e tradições, as quais são continuadas nos tempos de hoje pelos seus descendentes. De entre estas crenças, sobressaem as que dizem respeito aos orixás, esses entes sobrenaturais pertencentes à mitologia yoruba, da região da Nigéria e do Benim que antigamente se chamava Costa dos Escravos.

Está disponível na Web, para ser visto por todos, um trecho de um filme da X Filmes, de Salvador da Baía, que mostra e descreve os vários orixás cultuados no Brasil. Este trecho descreve apenas um dos orixás, de seu nome Exu, e inclui ainda uma muito pequena referência a um outro, chamado Ogum. O que se pode ver é de excelente qualidade e deixa um enorme desejo de ver o resto do filme.

01 setembro 2006

A vida "normal" vista de outra maneira


Contaram-me uma vez que um casal de cegos convidou um dia, para jantar, um homem que via normalmente. Na noite aprazada, quando o homem chegou à casa dos cegos, foi recebido... às escuras. Os cegos ficaram atrapalhadíssimos e pediram-lhe imensas desculpas, porque não tinham lâmpadas em casa -- pois não precisavam -- e não se lembraram de que o seu amigo não estava a habituado a jantar na escuridão.

Eu já não me lembro qual foi a solução encontrada, mas provavelmente pediram uma lâmpada emprestada a um vizinho. O casal de cegos tinha electricidade em casa, para alimentar o frigorífico e outros electrodomésticos, o que não tinha era lâmpadas.

Lembrei-me deste episódio quando vi este curto videoclip publicitário, que nos faz pensar um pouco sobre as dificuldades que os deficientes enfrentam nesta nossa sociedade, que tanto desprezo manifesta pelas suas necessidades especiais. Como reagiríamos nós -- os "normais" -- se tivéssemos que viver numa sociedade feita apenas à medida dos deficientes?