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05 Fevereiro 2010

Nossa Senhora da Boa Nova


(Foto:
Coisas da Cultura)


Que construção é esta, afinal? É um castelo, uma capela ou nem uma coisa nem outra?

É uma coisa e outra ao mesmo tempo. Trata-se da capela-fortaleza gótica de Nossa Senhora da Boa Nova, situada a cerca de três quilómetros de Terena, concelho do Alandroal, no Alentejo profundo. Esta curiosa construção foi erigida no séc. XIV, diz-se que por ordem de D. Maria, que era filha do rei de Portugal D. Afonso IV e casada com o rei de Castela.

A "fermosíssima Maria" teria vindo pessoalmente a Portugal, para pedir a seu pai que ajudasse o rei de Castela a combater os mouros, naquela que ficou para a História como Batalha do Salado. D. Maria teria mandado construir este santuário no preciso lugar em que ela se encontrava, quando lhe foi dada a notícia (a "boa nova") de que D. Afonso IV aceitara participar na batalha.

É um templo verdadeiramente notável, tanto por fora como por dentro. O visitante não deverá desanimar se "der com o nariz na porta", encontrando a capela fechada. A chave costuma estar na posse de uma residente de uma das casas fronteiras à capela. Vale a pena ver o interior.

04 Fevereiro 2010

Carta do soldado Renato


Um exemplar de aerograma militar, o suporte em papel em que os soldados portugueses enviados para a guerra colonial escreviam a sua correspondência (Foto: Museu do Papel)


À da Canda, amor, aos morros do Seixel vai demoradamente fixar-se a amargura das noites de guerra. Calambata, sabes?, é uma trégua fuzilada, um morto que não morre mas adormece. Aqui o tens vivo, as mãos fechadas sobre a sua metralhadora. Pior do que estar de sentinela, pior que tudo são as chamas ao longe, os olhos que me vigiam. Sente-se um homem espiado pelas próprias árvores, ouvindo carrilhões impossíveis na calada da noite. Escrevo-te, amor, por não saber nem o dia nem a hora. Com o medo de estar apenas vivendo à beira do medo. Que escrevo. Colunas partem à Magina, recebem de volta a notícia dos ataques aos quartéis do Norte, o M'Pozo, a Mama Rosa, a Madimba, o Luvo, e a gente pensa que há-de ser um dia também a destruição de Calambata, amor. Amor, diz-se já que Calambata é apenas o som da nossa respiração: ama-se a vida devagarinho, como nos repugna o cheiro a bálsamo dos mortos que partem a qualquer hora do dia. Palavras dispersas pingam da infusa do silêncio. Palavras. As palmeiras, por exemplo. Os imbondeiros, as mulembas. Perderam a memória dos séculos. Um dia, amor, as armas serão somente objectos de museu: os campos hão-de lavrar-se com charruas, nas oficinas trabalharão bigornas, puas, enxós, o esmeril das mãos que nos combateram, e a piaçaba dos cabelos encher-se-á da poeira das madeiras, nas serrações. Era bom, amor, que se ouvissem os guindastes nos cais, os alcatruzes das noras, o uivo do vento nas grandes searas do Sul. Bom que o mar erguesse a voz um pouco acima do sal até à alegria das lágrimas. Amor, é provável que não existam brancos inimigos nas picadas de Nambuangongo. Os brancos não podem, amor, continuar, aqui nas serras da Calambata, a alimentar a morte das minas, dos morteiros e dos canhões. Será chegado o tempo, de se cobrirem as crateras das granadas, de despoletar os trilhos, de pintar os furos das balas no corpo das árvores da Binda. Por isso te escrevo, amor, antes da minha morte. Nunca pisei uma lavra de milho ou mandioca, sabes? Escrevo. Não chicoteio o suor do negro da tonga. Não troco meu sapato velho, minha cerzida camisa, meu garrafão de aguardente, pelo corpo da menina no alembamento. Escrevo, amor: reconstruí vós as sanzalas de quantos se foram embora, para que possam ainda regressar, viver. Pergunta-lhes por mim, amor. O que fazia. O que inventava por vezes. O que escrevi eu aqui. Que branco caçambuleiro esse, que diferente estava me chamar ainda? Que branco esse, polícia lhe tinha raiva, lhe estava sempre xingar a voz da denúncia, quase mesmo ia caindo na prisão do esquecimento? Que branco, amor? Minha pele tem o ardor das anchovas da ração de combate, da pasta de fígado (os perseguidos guerrilheiros sul-africanos, lembras-te, amor?). Mas tudo isso eu fui trocando pelo desejo e pelo gosto da moamba de galinha e pelo ácido do abacaxi com pancadinha discreta na curva do ombro, como a dizer: coragem!

É o que escrevo aqui, sentado na noite. No sítio onde estou, amor. De frente para os morros que cercam Calambata cercada de guerra pelo Norte. A pensar, amor, que há em mim um morto que não morre.

João de Melo, escritor português, in Autópsia de Um Mar de Ruínas

(Respigado de "Navegar é Preciso")

27 Janeiro 2010

Esperando o Sucesso, de Henrique Pousão


Henrique Pousão (1859-1884) foi um dos maiores pintores portugueses do séc. XIX. Morreu apenas com 25 anos de idade, vítima de tuberculose, quando tanto havia ainda a esperar do seu génio artístico. O quadro a óleo Esperando o Sucesso, acima reproduzido, é a sua obra mais famosa. Foi pintado em Itália e representa um rapaz napolitano no ateliê do artista, onde serviu de modelo, mostrando um desenho infantil feito por si. Esta e outras obras do grande pintor alentejano, natural de Vila Viçosa, podem ser admiradas no Museu Nacional de Soares dos Reis, aqui na cidade do Porto.

17 Janeiro 2010

Uma celebração dos Yawanawá



(Foto: Sérgio Vale - Governo do Acre/Divulgação)


Os Yawanawá são índios que vivem na parte sul da Terra Indígena do Rio Gregório, município de Tarauacá, estado do Acre, na Amazónia brasileira.

O Festival Yawá é uma antiga manifestação cultural e social que esta tribo tinha sido forçada a abandonar, mas que no ano 2002 retomou por decisão dos seus líderes. A partir de então, o festival é realizado anualmente e dura uma semana.



O Festival Yawá, dos índios Yawanawá, numa reportagem da TV Aldeia, de Rio Branco, Acre, Brasil

06 Janeiro 2010

O Maciço de Porto de Mós e o polje de Minde


Inundação no polje de Minde, no concelho de Alcanena (Foto: Rui da Eira)


O Maciço Calcário Estremenho, também chamado Maciço de Porto de Mós, é um maciço montanhoso situado a norte de Rio Maior, a sul de Porto de Mós, a este de Alcobaça e a oeste de Ourém. É composto pelas serras de Aire e dos Candeeiros e ainda pelos planaltos de São Mamede e de Santo António. O santuário de Fátima, nomeadamente, fica no planalto de São Mamede. A rocha que predomina neste maciço é o calcário, facto de que resulta a existência, neste maciço, de características geológicas deveras interessantes.

O calcário é uma rocha que é lentamente solúvel na água. Por isso, a água das chuvas que se infiltra nesta rocha vai, ao longo dos séculos e dos milénios, escavando galerias, grutas e algares, em cujo interior ela vai também construindo estalactites e estalagmites, de formas fantásticas e caprichosas. É isto o que se passa no Maciço Estremenho, onde o número de grutas existentes anda à volta de 1500! Mil e quinhentas grutas são muitas grutas! Este maciço está todo esburacado!

Algumas grutas do Maciço Estremenho estão abertas ao público, que as pode visitar e nelas pode admirar as belíssimas esculturas criadas pela interação entre a água e o calcário. Nomeadamente, podem ser visitadas as grutas de Alvados, Santo António, São Mamede e Mira de Aire. A mais grandiosa é a gruta de Mira de Aire e a mais bonita é talvez a de Alvados.

Embora este maciço tenha um clima bastante chuvoso, a sua vegetação é quase toda bastante rala, como se quase não chovesse nunca. A serra dos Candeeiros, então, impressiona por ser particularmente pedregosa. A escassa agricultura que nesta serra se faz, em que se aproveita a mais pequena parcela de solo arável para plantar uma videira ou uma oliveira, faz lembrar a da cultura da vinha na ilha do Pico, nos Açores, entre as vilas da Madalena e das Lages. Parece quase um milagre que se consiga cultivar alguma coisa no meio de tanta pedra.

A aridez deste maciço montanhoso, a despeito da abundância de precipitação, deve-se ao facto de que a água da chuva não fica retida à superfície o tempo suficiente para permitir o crescimento de vegetação. A água infiltra-se pela rocha dentro, escoa-se pelas grutas e galerias e acaba por alimentar os rios subterrâneos que no interior do maciço se formam. Um destes rios é o Alviela, que durante muitos anos tem dado de beber à cidade de Lisboa (embora o grosso da água que agora é fornecida à capital provenha do rio Zêzere) e que aparece à luz do dia saindo de uma gruta, nas imediações da localidade de Amiais de Baixo, no concelho de Alcanena.

Um outro rio que sai das entranhas do Maciço Estremenho não é de água doce, como qualquer rio que se preze, mas sim de água salgada! Tão salgada que até possibilita a existência de salinas nas proximidades de Rio Maior, longe do mar. O que é que se passa com tão estranho rio? É muito simples. No interior do maciço existe um depósito de sal-gema. O rio em questão atravessa o depósito, dissolve o sal à sua passagem e, quando sai cá para fora, vem salgado.

Até aos primeiros anos da década de 90 do século passado, as salinas de Rio Maior eram conhecidas por quem quer que viajasse de carro entre o Porto e Lisboa. Naquele tempo, ainda faltavam muitos quilómetros para que a auto-estrada A1 ficasse completa e o IC2 ainda não existia. Entre os Carvalhos e Aveiras de Cima só existia a Estrada Nacional nº 1 e mais nada. A norte de Rio Maior, esta estrada passava pelo chamado Alto da Serra, que era um dos pontos mais amaldiçoados pelos automobilistas, sobretudo pelos que viajavam no sentido sul-norte. Formavam-se então longas filas de trânsito, atrás dos muitos veículos pesados que muito lentamente subiam a estreita e tortuosa estrada, até que o Alto da Serra fosse atingido. As salinas de Rio Maior eram perfeitamente visíveis ao longo de uma boa parte da subida. Os condutores e seus acompanhantes tinham tempo mais do que suficiente para vê-las.


O polje de Minde costuma estar sempre seco, tal como se pode ver na foto da esquerda; em anos muito chuvosos ele fica inundado, formando um lago temporário, tal como se vê na foto da direita. A povoação que se vê à direita é a vila de Minde. (Fotos: Minderico - O Portal do Ninhou)


Um dos fenómenos mais interessantes do Maciço Estremenho é o que ocorre durante os Invernos mais chuvosos no chamado polje de Minde. O polje de Minde é uma depressão cársica que existe entre a serra de Aire e o planalto de Santo António. Nesta depressão ficam situadas as vilas de Minde e de Mira de Aire, no concelho de Alcanena. Habitualmente, a depressão está seca; a água da chuva escoa-se pelo maciço dentro sem deixar rasto. Mas quando a chuva é excepcionalmente abundante, o maciço não consegue escoar a água toda que lhe cai em cima e forma-se então um lago na depressão. Isto só acontece, como disse, nos Invernos mais chuvosos.

Um aspeto a salientar no lago temporário que se forma no polje de Minde é que nele não existe lodo, nem algas, nem nada que possa turvar a água. Esta é de uma limpidez tão cristalina que até apetece bebê-la. O suave céu azul e o sol dourado, próprios dos dias bonitos que por vezes ocorrem no Inverno, refletem-se no lago como num espelho de cristal. Só por isto vale a pena ir ao Maciço Estremenho ver o polje de Minde inundado. Não admira, portanto, que muitas pessoas o visitem quando tal acontece, e que não falte quem aproveite para praticar no lago mergulho, canoagem, vela, windsurf, etc. É uma alegria.


A água do lago temporário é extraordinariamente cristalina (Foto: Rui da Eira)


A auto-estrada A1 passa sobranceira ao polje de Minde no troço compreendido entre Fátima e Torres Novas. O polje só é visível para quem nela viaja no sentido norte-sul. Mas contrariamente ao que acontecia com as salinas de Rio Maior, aqui os viajantes praticamente não conseguem ver nada, por causa da grande velocidade a que circulam. Vêem o polje durante um instante e imediatamente a seguir já deixam de o ver.

Eu não sei se o polje de Minde está neste momento inundado ou não ou, em caso negativo, se tal ainda virá a acontecer neste Inverno. Até agora, o Inverno tem sido muito chuvoso, mas é possível que ainda não tenha caído água suficiente para inundar o polje. Seja como for, aqui fica a lembrança. Se a inundação ainda não aconteceu, ela pode vir a acontecer dentro em breve, se continuar a chover.


A vila de Mira de Aire reflectida nas águas do polje. (Foto: Rui da Eira)

01 Janeiro 2010

Deixa passar o meu povo


Go down, Moses, por Paul Robeson


DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar...
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harlem.
«Let my people go»
— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo —,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
«Let my people go».

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo...
(Dentro de mim,
deixa passar o meu povo,
«oh let my people go...»)
E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo...
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irmão — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho lumínoso do rádio
— «let my people go».
Oh let my people go.

E enquanto me vierem de Harlem
vozes de lamentação
e os meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
Let my people go
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.

Noémia de Sousa (1926-2002), poetisa de Moçambique



My Lord, What a Morning, por Marian Anderson

10 Agosto 2007

Aqui nesta praia

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

09 Agosto 2007

Memória de acontecimentos terríveis


A Igreja da Memória ou de Nossa Senhora do Livramento, Lisboa (Foto: http://www.tomasradil.net/)


A Igreja da Memória, em Lisboa, é um templo neoclássico de grande beleza, tanto por fora como por dentro. Fica situada na parte ocidental de Lisboa, perto do Mosteiro dos Jerónimos. Ela foi há poucos anos reaberta ao culto completamente restaurada, depois de ter sido seriamente danificada pela queda de um raio. Numa sua dependência, desprovida de símbolos religiosos, encontram-se os restos mortais do Marquês de Pombal.

Esta linda igreja foi mandada construir pelo rei D. José, em memória do atentado de que foi alvo naquele mesmo local, numa noite em que regressava de um encontro amoroso com Dona Teresa de Távora e Lorena, pertencente à poderosa família Távora. O rei não foi morto no atentado, mas ficou ferido num braço.

O incidente foi aproveitado pelo Marquês de Pombal para dirigir um devastador e mortífero ataque ao poder e influência da alta nobreza em geral e dos Távoras em particular. Fazendo-o, Sebastião José de Carvalho e Melo reforçou o seu próprio poder pessoal como despótico primeiro-ministro de D. José, talvez o rei mais inútil de toda a história de Portugal (D.Afonso VI não conta, porque era deficiente mental).

Nunca ficou completamente esclarecido se os Távoras tiveram ou não alguma responsabilidade no sucedido. Há quem diga que D. José poderá ter sido vítima de uma tentativa de assalto, sem qualquer relação com os Távoras, porque era de noite e ele viajava incógnito e sem escolta. O que é certo é que os elementos mais importantes da família Távora foram torturados e executados com requintes de ferocidade. Outros membros da família foram compulsivamente internados em conventos. Os bens da família foram confiscados. O brasão dos Távoras foi apagado, por picagem, das fachadas dos palácios que eles possuíam espalhados pelo país, como, por exemplo, o palácio do Duque de Aveiro em Vila Nogueira de Azeitão, no concelho de Setúbal, ou o Palácio dos Távoras em Mirandela, onde está agora instalada a Câmara Municipal da cidade.

Deixemos a Igreja da Memória e desçamos a Calçada do Galvão, passando ao lado do Jardim Agrícola Tropical, que é um dos jardins mais agradáveis de Lisboa. Viremos à esquerda, para a Rua de Belém. Imediatamente antes da casa dos pastéis de Belém, encontramos um pequeno beco irregular chamado Beco do Chão Salgado.

Era ali, no Beco do Chão Salgado e zona envolvente, que ficava o palácio dos Távoras em Lisboa. Este palácio foi mandado arrasar pelo Marquês de Pombal. O chão sobre que assentava o palácio foi salgado, para que nada mais pudesse crescer ali. Foi ainda colocada no local uma coluna de pedra com cinco anéis esculpidos, correspondentes aos cinco membros da família Távora executados em Belém. A coluna ainda lá está, a um canto do beco, praticamente encostada a umas casas. Na sua base, pode ler-se a seguinte inscrição:

"AQUI FORAO AS CASAS ARAZADAS E SALGADAS DE JOZE MASCARENHAS EX AUTHORADO DAS HONRAS DE DUQUE DE AVEIRO E OUTRAS E CONDEMNADO POR SENTENÇA PROFERIDA NA SUPREMA JUNTA DA INCONFIDENCIA EM 12 DE JANEIRO DE 1758 JUSTIÇADO COMO HUM DOS CHEFES DO BARBARO E EXECRANDO DESACATO QUE NA NOITE DE 3 DE SETEMBRO DE 1758 SE HAVIA COMMULADO CONTRA A REAL E SAGRADA PESSOA DE EL REI NOSSO SENHOR D. JOZE. NESTE TERRENO INFAME SENÃO PODERA EDIFICAR EM TEMPO ALGUM."

Apesar de ter ficado expresso que «neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum», a quantidade de casas que rodeiam a coluna mostra até que ponto é que a população de Lisboa desobedeceu à ordem deixada pelo Marquês para toda a eternidade... Só faltou construirem uma casa mesmo em cima da coluna... Já não há respeito!

Mas ainda bem que assim foi. Em vez de só termos ali um terreno vazio e estéril, temos os deliciosos pastéis de Belém mesmo ao lado do Beco do Chão Salgado.



A coluna de pedra no Beco do Chão Salgado, Lisboa (Foto: oceusobrelisboa)

07 Agosto 2007

N'um batuque

N'um batuque hontem andei,
onde vi certa morena,
tão gentil era a pequena
que nem eu dizel-o sei
- Como está? lhe perguntei
logo que de perto a vi,
- Quer dansar? lhe repeti,
não se acanhe minha bella, -
- tunda bobo, me disse ella,
Ou antes: - Saia d'aqui
- Seja meu par, oh menina
não se zangue por tão pouco; -
- Uá salúcia, é você um louco,
Gámessenâ'me qu'quina
- D'esse olhar a luz divina
fascinado me deixou!
se um beijinho, só, lhe dou
gozarei prazer infindo, -
- Quicolá, me disse, rindo,
logo de mim, se affastou.
- Por que foge? venha cá,
porque só me deixa aqui? -
- Uá móno... mundele inhi...
Guamiâme... ndé cuná
- Por favor, não se vá já,
é ainda, muito cedo, -
- Quiússuca, disse a medo
a moreninha tão linda
Caté mungo, disse ainda,
e retirou-se em segredo...

Eduardo Neves (1855-?), poeta de Angola


TENTATIVA DE GLOSSÁRIO DOS TERMOS EM QUIMBUNDO

Tunda bobo - Saia daqui
Uá salúcia (Wasalusya) - Endoideceu
Gámessenâ'me qu'quina (Ngamesenami kukina) - Não tenho que dançar
Quicolá (Kikola) - Não pode ser
Uá móno (Wamono) - Viu
Mundele inhi (Mundele inyi) - Que branco
Guamiâme (Ngwamyami) - Não quero
Ndé cuná (Nde kuná) - Vá para ali, vá para longe
Quiússuca (Kyusuka) - Acabou (?)
Caté mungo (Katé mungu) - Até amanhã



Elogio do Ritmo, têmpera sobre papel, 2000, de Eleutério Sanches, artista angolano

03 Agosto 2007

Arte papua


Pintura no tecto de uma casa destinada a abrigar espíritos, no vale do Rio Sepik, Papua Nova Guiné (Foto: Galen R Frysinger)

01 Agosto 2007

O cinema duplamente enlutado


Sessão de cinema no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, em Maio de 1953 (Foto: Cinemas do Porto)


Em menos de 24 horas, morreram dois dos mais brilhantes cineastas europeus de sempre: o sueco Ingmar Bergman e o italiano Michelangelo Antonioni.

Enquanto que a obra de Antonioni aborda, sobretudo, a vida moderna, a desumanização que a caracteriza e os problemas por ela provocados nas relações entre as pessoas, os filmes de Bergman têm um carácter quase místico, com a Morte a desempenhar um papel de particular importância.

Testemunhemos a originalidade e a criatividade destes dois grandes realizadores, assistindo às cenas que se seguem, de dois dos seus filmes mais importantes.

Cenas do filme Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman:



Cenas do filme Blow-up, de Michelangelo Antonioni:

31 Julho 2007

Desmontando e reconstruindo a ideia de lusofonia

Excerto da intervenção de Mia Couto na conferência internacional promovida pela RTP sobre "O Serviço Público de Rádio e Televisão no Contexto Internacional: A Experiência Portuguesa". O texto de onde retirei esta citação é da responsabilidade do semanário Savana, de Maputo, e pode ser lido aqui.


(...)
«Quando a lusofonia foi proclamada como um projecto supranacional houve interrogações que foram levantadas. Eu mesmo questionei o sentido desse projecto numa realidade plural em que parte dos seus cidadãos não fala português ou fala português como segunda língua. Evidentemente que eu me posicionava tendo, sobretudo, em conta a realidade do meu país. Não seria justo inventarmos um patamar de cidadania que excluía, à partida, mais de metade dos moçambicanos. A verdade é esta: apenas uma das nações de Moçambique já vive na lusofonia. Apenas parte dos moçambicanos já se reconhecem como falando e sendo falados pela língua portuguesa. Mas também é verdade que toda a grande nação moçambicana encontra no português a sua língua de construção, o idioma que a projecta num corpo unitário e que a torna capaz de viver na modernidade.

(...)
O lugar e o papel da língua portuguesa como idioma oficial em Moçambique foram debatidos, em 1962, no primeiro congresso da Frente de Libertação de Moçambique realizado na clandestinidade perto de Dar-es-Salaam. A maior parte das actas -- incluindo a decisão de adoptar o português como língua oficial -- foram redigidas em inglês. Os quadros com maior formação escolar tinham estudado nos países vizinhos. O português foi adoptado não como uma herança mas como talvez a mais valiosa ferramenta para forjar a unidade da futura nação. Se a adopção do português foi um acto de soberania, já a criação da lusofonia não resultou de iniciativa própria de Moçambique. O projecto lusófono surgiu, afinal, pouco tempo depois daquilo que em Portugal se chamou de "descolonização". Detenho-me na palavra "descolonização" porque ela é um exemplo claro de divergentes modos de ler o passado. O termo "descolonização" é emblemático do que Bernard Shaw disse do inglês: podemos ter uma língua comum para melhor nos desentendermos. Ainda hoje, para muitos portugueses, o que aconteceu em África foi que Portugal, com o 25 de Abril, aceitou, enfim, descolonizar, os territórios africanos. Ora, parece a nós, africanos, que é preciso acertar o sujeito do verbo. Não foi Portugal que descolonizou os países africanos. A descolonização só pode ser feita pelos próprios colonizados. E nós, todos nós, sem excepção, éramos colonizados. Descolonizámo-nos uns aos outros, uns e outros. Parece um detalhe, coisa de uma simples palavra. E as palavras traduzem modos de pensar. E esse passado que nos feriu a todos não pode ser superado apenas com apelos ao esquecimento. Não é de esquecer o passado que necessitamos. Mas de o entender. De qualquer modo, para Moçambique, o projecto da lusofonia surgiu pouco depois da ruptura colonial. Era natural que houvessem dúvidas. E parecia óbvio que os países africanos não se podiam reclamar da lusofonia do mesmo modo dos portugueses e brasileiros. A maior parte dos africanos ama as suas outras línguas maternas e esperava (e ainda espera) que esses idiomas não sejam votados ao esquecimento ou arrumados naquilo que se chama o património tradicional. Estamos, pois, perante um processo que necessitou de vencer inércias e superar desconfianças. A falta de confiança, porém, não estava reservada apenas à antiga potência colonizadora. Havia suspeições de parte a parte. Vale a pena recordar aqui uma espécie de "tesourinho deprimente" da nossa história recente. Todos nos lembramos como certos sectores da política portuguesa entraram em pânico com a adesão de Moçambique à Commonwealth. O que se passava? Os moçambicanos haviam traído a sua fidelidade ao idioma luso? As reacções de algumas facções foram de tal modo excessivas que só podiam ser explicadas por um sentimento de perda de um antigo império. A exemplo da síndrome do marido traído que, não reconhecendo autonomia e maioridade na ex-mulher, sempre se pergunta: com quem é que ela anda agora?

(...)
Na realidade, as autoridades moçambicanas não mudaram a sua política linguística e o português permaneceu na sua condição de língua oficial e unificadora. Fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O Governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que séculos de colonização. Mas não o fez por causa de um projecto chamado "lusofonia". Nem o fez para demonstrar nada aos outros ou para lançar culpas ao antigo colonizador. Fê-lo pelo seu próprio interesse nacional, pela defesa da coesão interna, pela construção da sua própria interioridade. Há poucos dias a televisão moçambicana contou a história de dois jovens aliciados na província de Nampula para virem trabalhar em Maputo. Era um triste exemplo das novas redes de trabalho escravo. Os jovens foram, sem o saber, transferidos para a Suazilândia onde foram mantidos numa espécie de cativeiro. Os contactos com a gente local estavam limitados: os jovens falavam apenas a sua língua (e-makua) e não entendiam uma palavra de seswati. Até que um dia, junto ao rio onde lavavam roupa, escutaram um grupo de jovens falando em português. Foi então que entenderam onde estavam e, ali mesmo em português, planearam a sua fuga para Moçambique. Este episódio parece isolado e circunstancial, mas ele traduz o quanto a língua portuguesa nos serve como cartão de identidade numa realidade linguística tão dispersa e fragmentada. Esta é a ironia da História e do modo como ela baralha os destinos: sabemos quem somos e onde estamos por via de um idioma que, antes, parecia ser dos outros e vinha de fora.

(...)
Temos um modo estranho de lidar com a realidade, como se o real fosse um contrabando a transportar para territórios que não são nossos. Um dos territórios a que nos habituamos que não fosse nunca nosso é o futuro. Os outros, de outras línguas, parecem sentir-se mais à vontade nesse lado de lá do tempo. Tanto nos disseram que éramos pequenos para ter presente que acabamos por encarar o futuro com suspeição. Contentamo-nos com viver de desbotadas memórias de um passado longínquo: É verdade que não podemos criar história fora do passado. Mas não podemos é fazer do passado a nossa História. Falo da dificuldade de nos projectarmos no Tempo porque aquilo que nos traz aqui hoje -- a lusofonia -- existe no futuro para ser pensado ontem e produzido hoje. A lusofonia é algo estranho, pois é um ser que existe para nascer. A lusofonia é qualquer coisa que é já nosso, mas que parece ainda não nos pertencer a todos por igual. De uma criatura assim seria mais fácil dizer mal e lançar suspeições. O projecto da lusofonia tem essa enorme desvantagem de ser preciso fazer qualquer coisa e de nos empurrar para fora desse invisível muro onde descansamos existências e lançamos culpas sobre os outros.

(...) será no que fizermos que nos converteremos realmente numa comunidade capaz de propor discursos inovadores e introduzir mudanças. Dizemos que a língua portuguesa não é apenas dos portugueses. E acreditamos que isso seja a manifestação de uma intenção política, de uma vontade adoptada. Mas não se trata de intenção ou vontade. Trata-se de uma questão histórica: há séculos que a língua portuguesa é também africana. O que seria do idioma português se não tivesse beneficiado das contribuições linguísticas dos árabes que ocuparam e viveram na Península Ibérica? Esses árabes ajudaram a tecer este grande tapete onde se deitam as nossas almas. Esses árabes são africanos, tanto como nós, os que habitamos mais a Sul. Há séculos que o idioma lusitano é um filho mestiço de namoros feitos entre as duas margens do Mediterrâneo.

E mesmo se nos quisermos abster à influência das línguas bantus nascidas depois do tempo das caravelas: há quanto tempo palavras como minhoca, cambada e candonga e tantas outras se instalaram na língua portuguesa? Pois eu vos digo, tomando apenas um exemplo: a palavra minhoca instalou-se no século XVI e hoje a maior parte dos portugueses nem sequer suspeita da sua origem longínqua. Meus amigos, a verdade é a seguinte: a lusofonia não começou hoje. A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto. De uma vez por todas, superemos receios e fantasmas. De uma vez por todas namoremos o futuro para que ele se enamore de nós.»

Mia Couto, escritor moçambicano.

25 Julho 2007

Mezinhas e rezas da tradição portuguesa


Uma canga ou jugo de Matosinhos (Foto: Museus na Escola)



Matar piolhos

Faz-se uma mistura de borralha (cinzas quentes) peneirada com petróleo ou laranja azeda. Mexe-se bem e esfrega-se a cabeça com esta pasta.

Aliviar as dores de ouvidos

No ouvido onde se sente a dor deita-se leite de uma mulher que esteja a amamentar.

Matar lombrigas

Dar às crianças, uma vez por mês, leite fervido com um dente de alho.

ou

Tomar uma colher de azeite com açúcar.

Eliminar o treçolho (inflamação na pálpebra)

Esfrega-se o dedo na palma da mão e coloca-se o dedo aquecido em cima do treçolho.

Tratar a papeira

Quando uma criança tem a papeira deve colocar o pescoço na canga do gado, acabado de descangar.

Parar o sangue solto pelo nariz

Colocar dois pauzinhos em cruz nas costas do doente.

Fazer baixar a febre

Coloca-se um pano molhado em água fria na testa do doente.

Eliminar os cravos nas mãos

Sem ninguém ver contam-se os cravos que se tem nas mãos. Depois por cada cravo coloca-se, dentro de um saco, uma areia de sal. Põe-se o saco numa fonte. Os cravos passam para a pessoa que levar o saco.

ou

Promete-se uma dúzia de cravos (flores) a São Bento.

Tratar uma íngua (inflamação nas virilhas)

Com as mãos faz-se rodar uma foice à volta da perna que tem a íngua e vai-se dizendo: «Íngua e forca vai a Roma, íngua e forca ficou». Reza três vezes o "Pai Nosso" e a "Avé Maria".

Eliminar a azia

Tomar uma colher de açúcar ou mastigar um rebento de oliveira.

Tratar impingens (erupções cutâneas)

Com uma mistura de borralha e azeite, unta-se a impinge com uma pena de galinha e diz-se a seguinte reza: «Impinga repinga sai-te daqui, cinza do lar é contra ti. Eu te talho, eu te corto, pela graça de Deus e da Virgem Maria, um Pai Nosso e uma Avé Maria».

Encontrar gado perdido

Vai-se a uma capela ou igreja que tenha a imagem de Nossa Senhora de Fátima e diz-se: «Nossa Senhora aparecida trazei-me o gado que perdi». Rezar 10 vezes a Avé Maria, 10 vezes a Santa Maria, 5 vezes o Pai Nosso e ficar um dia de jejum.

Fazer crescer a massa do pão

Depois de meter o pão no forno e com a porta aberta procede-se do seguinte modo: com a pá do forno faz-se uma cruz na porta e diz-se: «Cresça o pão no forno, a graça de Deus pelo mundo, vivam os lavradores e morram os malfeitores».

Contra o bruxedo / mau olhado

Prepara-se um caco de telha. Dentro colocam-se brasas, alecrim, erva da inveja, palhas alhas, sal virgem e pontas de vassoura de giesta. Defuma-se o animal ou pessoa em cruz e vai-se dizendo: «Deus que te deu, Deus que te criou, Deus que te tire o mau olhado que contigo entrou, pela graça de Deus e da Virgem Maria, reza-se um Pai Nosso e uma Avé Maria». Leva-se o caco a uma encruzilhada de caminhos.

Eliminar sangue pisado

No local do sangue pisado colocam-se várias sanguessugas (número de sanguessugas é de acordo com o tamanho da nódoa). Quando as sanguessugas estiverem cheias caem despegando-se da pele.

ou

Aquecem-se côdeas de pão de milho e amassam-se com vinagre quando estiverem bem quentes. Espalha-se essa pasta no local da nódoa e cobre-se com um pano.

Talhar a erisipela (doença cutânea)

«Pedro e Paulo foram a Roma. Encontraram Nossa Senhora que lhe perguntou: Onde vão? Vamos curar uzipela que muita gente morre dela. Ide e curai-a com sumo de oliva e pena de galinha. Por a graça de Deus e da Virgem Maria um Pai Nosso e uma Avé Maria».

Acalmar as trovoadas

Quando troveja as pessoas costumavam dizer a Santa Bárbara a seguinte reza: «Santa Bárbara Virgem se levantou e no seu livrinho de ouro pegou. O Senhor lhe perguntou: Para onde vais Bárbara? Vou juntar trovoadas que andam pelo mundo espalhadas. Pois Bárbara virgem [vai] e junta-as para onde não haja pão, nem vinho, nem bafo de menino, nem galo a cantar, nem boi a urinar. Pela graça de Deus e da Virgem Maria, reza-se um Pai Nosso e uma Avé Maria».

ou

Lança-se no lume da lareira três raminhos de oliveira benzidos no Domingo de Ramos.

"Deitar" galinhas

Faz-se um ninho de feno. Escolhem-se os ovos que têm de ser frescos e bons. Para ver a galadura do ovo, coloca-se o mesmo contra a luz de uma vela. Colocam-se os ovos no ninho, um a um e vai-se dizendo a seguinte reza: «São Salvador que nasça tudo pitas e um só galador».

ou

«Pito, pitão tudo pitas e um só galão».

(in Património Imaterial Galego-Português)



Uma junta de bois com a sua canga ou jugo (Foto: Coura: Magazine-Foto)

19 Julho 2007

Uma jam session virtual

15 Julho 2007

O Grupo do Leão, por Columbano


O Grupo do Leão, de Columbano Bordalo Pinheiro, 1885, óleo sobre tela, Museu do Chiado, Lisboa

Este quadro de Columbano retrata um conjunto de personalidades ilustres que, em 1885, frequentavam habitualmente a cervejaria Leão de Ouro, em Lisboa. Clicar na imagem para ampliá-la.

Sentados, da esquerda para a direita: Henrique Pinto, José Malhoa, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Moura Girão, Rafael Bordalo Pinheiro e José Rodrigues Vieira. De pé, da esquerda para a direita: João Ribeiro Cristino, um dos proprietários da cervejaria, um empregado de mesa chamado Manuel, Columbano Bordalo Pinheiro, outro proprietário do estabelecimento e Cipriano Martins.

13 Julho 2007

"Lição para a sociedade civilizada"


(Foto: Eraldo Peres)


LIÇÃO PARA A SOCIEDADE CIVILIZADA

(...) Durante a longa permanência entre os índios, a única contribuição que talvez lhes tenhamos dado, foi mostrar aos civilizados que o índio brasileiro não é um selvagem agressivo e destruidor. Nós trouxemos a notícia de que eles constituem uma sociedade tranqüila, alegre. Ali, ninguém manda em ninguém. O velho é dono da história; o índio, dono da aldeia e a criança, dona do mundo. Nesse tempo todo em que vivemos perto deles, nunca assistimos a uma discussão, a uma desavença na aldeia ou a uma briga de marido e mulher. Se a criança faz alguma coisa que o pai desaprova, ele não a repreende. Apenas a tira de onde está e a leva para outro lugar. É admirável, também, o respeito que os pequenos têm pela natureza, valor que adquirem observando o comportamento dos mais velhos.

O chefe, ou cacique, é o líder cultural da aldeia. Ele goza de muitas prerrogativas, mas deve observar uma série de restrições: não pode falar alto, nem rir ou fazer gestos bruscos, por exemplo. Sua função não é impor regulamentos nem determinar tarefas, mas estabelecer uma ligação entre a comunidade e os pajés que se reúnem todas as tardes para conversar, fumar e deliberar sobre o bom andamento da tribo. O cacique não participa da conversa. Apenas ouve o que está sendo dito e na manhã seguinte, segurando o arco numa das mãos, dirige-se ao povo que se junta diante de sua maloca para escutar as recomendações dos pajés e, em seguida, colocá-las em prática. Supostamente os pajés nunca erram porque não têm outra preocupação além de ficar zelando pelo bem-estar da comunidade. (...)



(Foto: Eraldo Peres)


LAÇOS AFETIVOS

(...) As mães são extremamente carinhosas. As crianças índias não aprendem a engatinhar porque saem do colo materno já podendo caminhar. A menina é criada sempre junto da mãe e o menino, assim que aprende a andar, passa a seguir os passos do pai, observando tudo o que ele faz e tentando imitá-lo porque intui que um dia será um homem com obrigações dentro da aldeia.

Nunca ouvi um indiozinho dizer não para pai e mãe e nem os pais dizerem não para os filhos. Apesar dessa aparente falta de limites, a criança não desenvolve maus comportamentos porque cresce copiando a conduta dos adultos.

As relações conjugais são serenas. Não há brigas entre marido e mulher. Se algum desentendimento surge, a queixa é levada para o pajé e o problema acaba sendo resolvido a contento. O homem pode ter até três mulheres. Se a primeira concordar, ele pode casar-se com a segunda e, se as duas estiverem de acordo, ele pode desposar a terceira. Elas, em geral, não se opõem porque o trabalho da primeira esposa passa a ser realizado pelas outras companheiras. Ela não carrega mais água, não arruma mais a maloca nem se levanta para comer porque é servida na rede. O marido, com um gesto, indica qual das outras duas deve armar a rede debaixo da rede dele. Essa fica responsável por manter o fogo aceso durante a noite toda porque o índio é muito friorento. Fazer o fogo, entretanto, é função do homem. Ele pega uma haste de urucum e a fricciona num pedaço de pau até sair a primeira fumacinha sob o olhar atento do curumim que se põe a soprar e a colocar folhinhas secas para dar força à chama.

A convivência entre os índios é marcada por comportamentos bastante pitorescos. Um homem volta da pesca trazendo uma fieira de peixes. Quando entra no pátio da aldeia, se ouve alguém gritar, registra quem foi porque na hora em que a comida estiver pronta, o primeiro pedaço será oferecido para o índio que gritou. Por isso, ele fica na espreita, escondido, e só corre para casa se não vê ninguém por perto. Sujeitos pouco precavidos, às vezes, têm que reservar quatro ou cinco porções para os companheiros que os viram passar com os peixes. E tudo é feito naturalmente, sorrindo, sem rixas nem desavenças. Pacíficos no interior da aldeia, eles se tornam agressivos quando vêem ameaçada de ocupação uma área importante para sua tribo. A beligerância só se manifesta quando interesses territoriais estão em jogo.

É um mundo diferente, habitado por gente que respeita tradições que o homem civilizado custa a entender. (...)

Orlando Villas Bôas



(Foto: Eraldo Peres)


GLOSSÁRIO

Pajés - pessoas de destaque em uma tribo indígenas. Em muitas tribos são considerados curandeiros, tidos por muitos como portadores de poderes ocultos ou orientadores espirituais. Assim como os Xamãs, podem assumir o papel de médicos, sacerdotes ou fazem o uso de plantas para fins medicinais ou invocação de entidades. Normalmente o conhecimento da utilização da planta correta para cada caso ou situação, é passado de geração em geração, trazendo assim uma responsabilidade para o último Pajé da tribo.

Maloca - grande choça coberta de palmas secas, us. como habitação por várias famílias índias, esp. sul-americanas.

Urucum - arvoreta da família das bixáceas (Bixa orellana), que chega a atingir até 6 metros de altura, nativa na América tropical.

Curumim - palavra de origem tupi que designa, de modo geral, as crianças indígenas.



(Foto: Eraldo Peres)


As imagens são de Eraldo Peres e documentam momentos do kwarup (conjunto de cerimónias fúnebres) realizado em 2003 pelos índios Kuikuro do Alto Xingu, no estado de Mato Grosso, em homenagem ao indigenista brasileiro Orlando Villas Bôas (na foto ao lado), que falecera algum tempo antes.

07 Julho 2007

Um Santo António africano

Santo António (Toni Malau), peitoral de latão de autor desconhecido do antigo Reino do Kongo, séc. XVIII, The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

Santo António foi um santo particularmente venerado no antigo Kongo, por influência de Kimpa Vita, também chamada Dona Beatriz, que viveu no séc. XVIII e fundou um movimento religioso chamado Antonianismo. Kimpa Vita acabou por ser morta na fogueira, acusada de heresia.

02 Julho 2007

Abertura "1812", de Tchaikovsky


Infantaria russa do tempo de Napoleão (Imagem: Collectible Toy Soldiers)


O russo Pyotr Ilyitch Tchaikovsky (1840-1893) foi um dos mais proeminentes compositores europeus do período romântico, período este que englobou praticamente todo o séc. XIX e o princípio do séc. XX. Muitas das obras deste compositor são conhecidas e admiradas em todo o mundo, graças às belas melodias que contêm e às sugestivas orquestrações que ele lhes fez. Tchaikovsky é, sobretudo, admirado pelos seus bailados, com particular destaque para "O Lago dos Cisnes", "A Bela Adormecida" e "O Quebra-nozes". No entanto, não podemos esquecer a sua celebrada "Sinfonia Patética", a sua ópera "Eugénio Onegin" ou a sua Sinfonia nº 5.

Igualmente dentro do estilo próprio da época romântica é a sua Abertura "1812", a qual atinge uma apoteose que é verdadeiramente inultrapassável. Esta abertura evoca a invasão da Rússia por Napoleão, ocorrida no ano 1812, e a subsequente derrota das tropas francesas.

A abertura começa por apresentar uma melodia leve e tranquila, que sugere a vida pacífica que os russos teriam naquela época. A partir de certa altura, o ambiente torna-se pesado e angustiado, dando a entender a ameaça que se começa a perfilar no horizonte. Os acordes da "Marselhesa", em tom triunfal, e o fragor dos combates evocam o avanço imparável das tropas francesas. A partir de certa altura, contrapõe-se à "Marselhesa" uma melodia popular russa, a qual sugere a organização da resistência por parte dos russos às tropas invasoras. Dá-se por fim o confronto entre russos e franceses, em que se ouvem tiros de canhão e tudo! Deve ter sido a primeira vez na História em que o canhão foi utilizado como instrumento musical... No fim da peça, o repicar dos sinos vem juntar-se ao fragor dos tiros de canhão, numa celebração da vitória russa sobre Napoleão.

Feita esta breve e incompleta apresentação da obra, proponho que a ouçamos.

Abertura "1812", de Pyotr Ilyitch Tchaikovsky

22 Junho 2007

Chegou o Verão


O Verão, de Giuseppe Arcimboldo (ca.1527-1593), óleo sobre tela, Musée du Louvre, Paris

Óculos de Sol, de Natércia Barreto, que foram surripiados ao Malhanga. Esta canção é certamente uma das mais apropriadas à silly season que agora vai começar. É uma típica canção de praia dos anos 60. É tão má que até dá vontade de gostar dela. É puro kitsch. Para se compreender melhor a importância desta musiquinha, é preciso ter em mente a época em que ela apareceu. Nos anos de chumbo da década de 60, que foram marcados pelo início da guerra colonial e pela emigração em massa para França e Alemanha, a música portuguesa que era dada a ouvir era quase exclusivamente constituída pelo abominável "nacional-cançonetismo", como João Paulo Guerra lhe chamou. A canção Óculos de Sol, com toda a sua ingenuidade, apareceu então como um raio de luz, rompendo as pesadas nuvens que se adensavam sobre um Portugal metido num beco sem saída.

21 Junho 2007

Pedro Cem


Silhueta da Torre da Marca, também chamada Torre de Pedro Cem, situada em frente ao Palácio de Cristal, no Porto, onde, segundo a lenda, Pedro Cem teria visto a sua frota de navios afundar-se à entrada da Barra do Douro (Foto: TeoDias)

(...) Pedro Pedrossem da Silva foi, por corruptela do nome Pedrossem, o Pedro Cem. Nasceu no Porto, Portugal, e ai faleceu em 9 de fevereiro de 1775. Residia na Reboleira, perto do Douro. Mercador riquíssimo, diretor da Companhia dos Vinhos, Juiz de Confraria, figura imponente, era usurário e orgulhoso. Casara com dona Ana Micaela Fraga e tivera três filhos: - Luiz Pedrossem, falecido no Porto em 1730, o cônego João Pedrossem que foi Deão da Sé do Porto, e Vicente Pedrossem, rico comerciante, falecido em 1806, cavaleiro da Casa Real, casado com uma moça de excelente família, dona Maria do Ó de Caminha Ossman. Vicente Pedrossem possui uma das grandes fortunas na região do Douro.

A lenda conta que o velho Pedrossem olhando da torre da Marca avistou, entrando pela barra, suas frotilhas de naus, vindas do Brasil e das Índias, carregadas de especiarias, jóias e produtos caros. Cheio de vaidade exclamara: - Agora, mesmo Deus querendo, eu não posso ficar pobre!...

Uma brusca tempestade destruiu-lhe a frota. Pedrossem perdeu tudo quanto possuía. Sem amigos, que sua ostentação afastara, mendigava nas ruas do Porto: - Esmola para Pedro Cem que tudo teve e nada tem!...

Jamais le fait réel ne manque, escreveu Van Gennep estudando a formação das lendas. Pedrossem, de milionário faustoso, ficou pobre mas não mendigo. A diminuição de sua riqueza foi tomada como castigo ao seu desdém. O nome prestava-se e ainda havia a repetição de Pedro Pedrossem que deu o fácil e humilhado Pedro Cem, rima para "que tudo teve e hoje não tem". A venda de suas propriedades, sua retirada do grosso comércio, o retraimento social, fizeram o ambiente para a lenda. Pedrossem estava pobre mas nunca mendigou. (...)

(in Jangada Brasil - nº 23 - Julho 2000, onde se pode ler uma interessantíssima narrativa em verso, da autoria do poeta popular brasileiro João Martins de Ataíde, impressa em Recife, Pernambuco, em Junho de 1932; recomendo vivamente a leitura deste poema)