23 junho 2018

Cós, Alcobaça


Grade de clausura da igreja do convento de Santa Maria de Cós, Alcobaça (Foto de autor desconhecido)

Quem passar pela estrada que liga a Nazaré ao Juncal e Cruz da Légua, a norte de Alcobaça, encontrará, mais ou menos a meio do trajeto, uma edificação de grande dimensões no fundo de um vale. É a igreja do convento de Santa Maria de Cós, que foi um dos conventos mais importantes da ordem de Cister em Portugal.

Do mosteiro de Alcobaça quase não vale a pena falar. Toda a gente sabe que este mosteiro é um dos mais belos e grandiosos monumentos que existem em Portugal. Eu não tenho palavras para descrever o que sinto quando me encontro dentro da grandiosa nave gótica da igreja do mosteiro de Alcobaça, que é tão pura e tão simples que faz elevar o meu espírito ao céu apesar do meu empedernido agnosticismo. Que me perdoem Pedro e Inês, cujos túmulos deslumbram quem os vê. Confesso que gosto mais da despojada nave da igreja do que dos decoradíssimos túmulos dos dois amantes, em estilo gótico flamejante.


Retábulo do altar-mor da igreja do convento de Santa Maria de Cós, Alcobaça (Foto de autor desconhecido)

O convento de Santa Maria de Cós, por seu lado, não existiria se não existisse o mosteiro de Alcobaça. Cós resulta de uma cláusula do testamento do rei D. Sancho II de Portugal, que tinha em vista albergar as mulheres viúvas que quisessem dedicar a Deus o resto dos seus dias e que contribuíssem com o seu trabalho para o bom funcionamento do mosteiro de Alcobaça. O convento de Cós poderá não ter a beleza e a importância do mosteiro de Alcobaça, mas é um monumento que também merece uma atenta visita, apesar da sua aparência exterior pouco apelativa.


Painéis de azulejos rodeando a pia de água benta da igreja do convento de Santa Maria de Cós, Alcobaça (Foto de autor desconhecido)

Dizem alguns historiadores que o convento de Cós foi fundado em 1279 por ordem do abade D. Fernando de Alcobaça, em cumprimento do referido testamento. Quase tudo o que hoje se vê em Cós, porém, é muitíssimo posterior. As vicissitudes da História, mormente o terramoto de 1755 e a extinção das ordens religiosas no séc. XIX, fizeram que quase só restasse nos nossos dias a igreja, do conjunto do edificado conventual original. Mesmo assim, vale a pena visitá-la. A talha dourada dos altares, os silares de azulejos nas paredes, a grade de clausura, as pinturas do teto e uma porta manuelina, entre outras preciosidades, merecem o nosso olhar muito atento.


Porta manuelina da igreja do convento de Santa Maria de Cós, Alcobaça (Foto: Karstenkascais)

20 junho 2018

Um grito de alerta



Benki Piyãko Ashaninka é o líder indígena (chamado cacique no Brasil) dos habitantes de etnia Ashaninka que vivem na bacia do Rio Amónia, na região do Alto Juruá, estado do Acre, Brasil. É costume, entre os indígenas brasileiros, usar o nome da sua tribo como último apelido (sobrenome no Brasil). O povo Ashaninka vive repartido entre o Brasil e o Peru.

O cacique Benki Piyãko Ashaninka tem vindo a receber ameaças de morte por parte de madeireiros, por causa da sua defesa da floresta amazónica. Estas ameaças devem ser levadas muito a sério, pois foi precisamente no Acre que o seringueiro Chico Mendes foi assassinado. A vida de Benki Piyãko Ashaninka corre, portanto, sério risco.

O texto que se segue, e que partilho com todo o gosto, é da autoria de Benki Piyãko Ashaninka e foi publicado numa sua página no Facebook.

Quero falar algumas palavras que representam o meu sonho de vida. Sou Benki, menino, filho da terra, representado pelo meu pai Antônio e minha mãe Francisca. A floresta para mim é parte de um ciclo de vida que tenho como Ashaninka, que me banho nos rios e respiro o ar puro das flores, trabalho de dia e descanso à noite, como as frutas, e canto com os pássaros e os animais. Minha alegria me dá força de enfrentar o mundo para ajudar o Planeta criando um plano estratégico para desenvolver uma sustentabilidade e um equilíbrio para a Humanidade.

Nós Ashaninka temos uma preocupação pelo que está acontecendo no mundo. Já temos muitas comprovações em pesquisas que apontam os problemas causados pelo desmatamento, pelos rios poluídos, pela mineração de ouro, extração de petróleo, criação de sementes modificadas, construção de estradas e barragens, poluição causada pelas indústrias e pelo lixo.

As políticas de governo agora nos levam a uma preocupação ainda maior, com seus empreendimentos para criação de barragens, destruição da floresta, extração de petróleo, minérios, redução de terras indígenas, investimento para a criação de gado e plantio de monoculturas com uso de venenos, destruindo nossos rios. O que vamos fazer se um governo não sabe refletir sobre seus planos socioeconômicos, levando o país para um desastre humano? Sei que nós, Ashaninka, estamos mostrando um pouco para o mundo nossa preocupação e levando projetos para ajudar a gerar sustentabilidade econômica e maior equilíbrio humano, com projetos sociais, para as escolas, gerando consciência de como manter um planeta limpo e mais rico para a Humanidade; plantando floresta e cuidando da terra como parte de nossa vida.

Queremos que as nações do mundo deem um grito de alerta para nosso governo acordar e voltar um pouco para trás. Para que admita o erro cometido que está matando a todos nós. Esta mensagem vem da Terra, como um pedido para a Humanidade entender que somos passageiros e não podemos olhar apenas para nós mesmos, mas temos que olhar para as futuras gerações e o que vamos deixar para eles. Temos que pensar nos nossos filhos e na Terra. Não podemos deixar um país pobre e envenenado, como já está acontecendo. Hoje já podemos ver os desastres acontecendo, pessoas emigrando de seus países em busca de água para beber e comida para comer. Vemos a guerra pelo dinheiro e a próxima será pela água e pela comida.

Prestem atenção no que falo. Vamos esperar ou mudar a história? Junte-se a nós!

Benki Piyako Ashaninka , filho da terra

19 junho 2018

Não digas nada


Poderemos dizer que Mário Cesariny plagiou Fernando Pessoa? A semelhança entre o poema de Cesariny, que publiquei no post anterior deste blog, e o poema seguinte de Fernando Pessoa é tão evidente que chega a ser chocante.

NÃO: NÃO DIGAS NADA!

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada; sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
5/6-2-1931, Fernando Pessoa (1888–1935)


Mais tarde Fernando Pessoa escreveu o seguinte poema, que tem um título quase igual.

NÃO DIGAS NADA!

Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada!
Deixa esquecer.

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz…
Não digas nada.

23-8-1934, Fernando Pessoa (1888–1935)


(Foto de autor desconhecido)

13 junho 2018

Faz-me o favor…

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor — muito melhor! —
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923–2006), in O Virgem Negra


(Foto de autor desconhecido)

10 junho 2018

Sinfonia "À Pátria"


Sinfonia "À Pátria", de José Viana da Mota (1868–1948), pela Orquestra do Estado Húngaro, dirigida por Mátyás Antal, com os seguintes andamentos:
1.º andamento — Allegro heroico — invocação às Tágides, formulada nos versos de Luis de Camões em Os Lusíadas;
2.º andamento — Adagio — simboliza o lirismo português;
3.º andamento — Scherzo — danças e cantigas nacionais;
4.º andamento — Final — decadência, luta na crise e ressurgimento da Pátria

06 junho 2018

Nanoescultura

Trust, de Jonty Hurwitz, a mais pequena escultura representando um ser humano jamais feita, no interior do buraco de uma agulha (Foto por microscópio eletrónico: Jonty Hurwitz)

«E vos digo mais: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus» (Mateus 19:24), disse Jesus Cristo. Pois o sul-africano Jonty Hurwitz não só consegue fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha, como até consegue fazer passar uma cáfila inteira, e ainda sobra buraco!

Uma das atividades a que Jonty Hurwitz se tem dedicado é a da nanoescultura, isto é, escultura feita em escala tão reduzida, que só com um microscópio se pode ver. Esta forma de escultura é tão pequena, que Jonty Hurwitz já perdeu o rasto a algumas das suas obras. Uma vez perdidas, são mais difíceis de encontrar do que uma agulha num palheiro, para voltarmos ao exemplo da agulha…

O processo utilizado por Jonty Hurwitz para produzir as suas obras encontra-se descrito em inglês na sua página na internet, onde, além da nanoescutura, se encontram outras formas de arte por ele produzidas, com destaque para a escultura anamórfica, em linha com a que foi produzida por muitos artistas maneiristas dos sécs. XVI e XVII.

A página de Jonty Hurwitz na internet tem o endereço https://www.jontyhurwitz.com/.


Trust, de Jonty Hurwitz, pousada num cabelo humano (Foto por microscópio eletrónico: Jonty Hurwitz)


Intensity, de Jonty Hurwitz (Foto por microscópio eletrónico: Jonty Hurwitz)


Reprodução da escultura Cupido e Psique de Antonio Canova, por Jonty Hurwitz, sobre a cabeça de uma formiga (Foto por microscópio eletrónico: Jonty Hurwitz)

30 maio 2018

André Reinoso


Milagre de S. Francisco Xavier, óleo sobre tela de André Reinoso, Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal

Quase nada se sabe sobre a vida do pintor André Reinoso. Apenas se sabe que foi o primeiro pintor barroco português, deve ter nascido por volta de 1590 na região das Beiras, esteve ativo a partir de 1610 e faleceu em 1641. Sabe-se ainda que em 1619 executou vinte pinturas sobre a vida e obra de Francisco Xavier, integradas numa campanha que tinha em vista a rápida canonização deste missionário jesuíta, a qual ocorreu em 1622. Além do seu valor artístico, esta coleção dedicada a São Francisco Xavier documenta de forma expressiva a diversidade étnica e cultural da população de Goa nos sécs. XVI e XVII.


Pregação de S. Francisco Xavier em Goa, óleo sobre tela de André Reinoso, Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal

Naufrágio de S. Francisco Xavier na viagem do Japão para a Índia, óleo sobre tela de André Reinoso, Igreja de S. Roque, Lisboa, Portugal

25 maio 2018

Ondas do mar de Vigo


Ondas do Mar de Vigo, cantiga de amigo de Martim Codax (este x pronuncia-se como em caixa ou em enxame), jogral galego que viveu entre meados do séc. XIII e princípios do séc. XIV, por intérpretes lamentavelmente não identificados. Tanto o poema desta cantiga de amigo como a sua música são originais do próprio Martim Codax, tal como figuram num pergaminho descoberto por Pedro Vindel no início do séc. XX e que por isso é chamado pergaminho Vindel

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai, Deus!, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Martim Codax (meados do séc. XIII – inícios do séc. XIV)

19 maio 2018

Uma viagem à Lua em 1902


A Viagem à Lua, filme mudo realizado em 1902 por Georges Méliès (1861–1938)

A Viagem à Lua é um filme mudo realizado em 1902 pelo cineasta francês Georges Méliès. Este filme, que é o primeiro filme de ficção científica da história do cinema, é também o primeiro filme a utilizar um conjunto de efeitos especiais que julgaríamos impossíveis de realizar naqueles tão recuados tempos. Não admira, porém, que tais efeitos tivessem podido ser levados a cabo. Além de cineasta, Méliès era um ilusionista, dos mais inspirados, inovadores e aplaudidos do seu tempo. A sua criatividade e imaginação fizeram deste filme um dos mais importantes filmes de sempre, que rasgou novos caminhos por onde muitos outros realizadores se aventuraram depois.

A história contada por este filme pode resumir-se da seguinte forma:

Num colóquio de astronomia, o professor Barbenfouillis surpreende o seu auditório quando lhe dá conta do seu projeto de uma viagem à Lua. De seguida, ele organiza uma visita às oficinas onde é construída uma cápsula espacial, que será disparada em direção à Lua por um canhão gigante de 300 metros de comprimento.

Feito o lançamento, seis astrónomos desembarcam na Lua e assistem a um erguer da Terra acima do horizonte lunar. Cansados da viagem, eles deitam-se no chão e adormecem. Aparecem sete estrelas, que representam a constelação da Ursa Maior, e a seguir dois astros: o planeta Saturno e o seu satélite Febo. Ocorre uma tempestade de neve provocada por Saturno e Febo, que os acorda. Refugiam-se numa abertura no solo, onde descobrem cogumelos gigantes, assim como selenitas, habitantes da Lua que os aprisionam e os levam à presença do seu rei. Um dos prisioneiros lança-se sobre o rei, atira-o por terra e conseguem todos escapar, perseguidos pelos selenitas. Um dos perseguidores agarra-se à fuselagem da cápsula que toma o caminho da Terra e cai no mar. Os sábios são recebidos como heróis e exibem triunfalmente o selenita como troféu. Uma estátua em homenagem a Barbenfouillis é erguida na praça principal da cidade, acompanhada da inscrição latina Labor omnia vincit (o trabalho tudo vence).

Este filme foi realizado, como não podia deixar de ser, numa película a preto e branco, pois a complexa fotografia a cores ainda não tinha sido inventada. No entanto, Georges Méliès fez colorir (o termo técnico é "colorizar") uma cópia deste filme. Esta "colorização" foi feita à mão, fotograma a fotograma, num total de 13 375 imagens. A cópia "colorizada" tinha sido dada como perdida, mas foi encontrada em Barcelona em 1993 e restaurada, num processo que custou, ao todo, cerca de 400 000 euros.

15 maio 2018

As Sonsas (conto popular português)


Lagoa das Sete Cidades, Ilha de São Miguel, Açores (Foto: Viagens Castor)

Havia um rei, e na sua corte andavam dois cavaleiros; um falava nas suas três filhas, que eram muito devotas e que não se importavam com as vaidades do mundo; o outro tinha uma filha só, que era muito alegre e divertida. Juntaram-se um dia muitas senhoras e falaram nas suas filhas, aonde estava também o príncipe, que, ouvindo as conversas, foi ter com a rainha e pediu-lhe as suas joias. Vestiu-se em adela e foi a casa do fidalgo que tinha as três filhas beatas. Bateu à porta; os criados foram chamar a dona da casa, mãe das meninas, e ela lhe disse:

— As minhas filhas não hão de querer agora joias, pois elas não fazem outra coisa senão rezar.

Mas a adela pediu que ao menos a recolhessem do ar da noite, e queria que a deixassem ficar no quarto das meninas, porque assim ficava mais segura com as joias que trazia, que eram de muito valor. A mãe falou nisto às filhas; e elas:

— Nós não queremos cá velhas; temos muito que rezar.

A mãe disse:

— Ela fica aí para um canto do quarto, porque não quero que em minha casa aconteça a desgraça de a roubarem.

A adela entrou para o quarto das meninas; deitou-se e fingiu que dormia. Lá por alta noite entraram três mancebos, que eram os namorados das três meninas, e cada um deixou uma coisa. A adela, assim que viu esses objetos, agarrou neles e abalou.

No dia seguinte, o príncipe que era a dita adela, esperou que anoitecesse, e foi a casa da filha do outro fidalgo, bateu à porta, veio a mãe da menina; disse que trazia ali umas joias, para ver se a menina quereria comprar.

Veio ela muito contente, esteve a ver as joias, e, como isto levou tempo, disse:

— Minha rica velhinha, eu não quero nada; mas como é tarde há de cá dormir, e fica no meu quarto.

Depois deram a ceia à velha, e ela foi deitar-se para o quarto da menina, que lhe deu também a sua cama. A velha fingia que dormia; a menina veio deitar-se. Penteou-se, rezou, despiu-se e deitou-se sem camisa na cama. A adela, assim que a apanhou dormindo, pegou na camisa e foi-se embora.

No fim de dias o príncipe mandou avisar, para todos os fidalgos irem ao palácio com as suas famílias; quando estavam presentes, chamou um cavaleiro e mostrou-lhe uma prenda e perguntou se a conhecia.

O cavaleiro disse que sim, e que a tinha deixado no quarto de uma menina. Fez mais perguntas iguais aos outros mancebos, e as três beatas estavam muito envergonhadas. Chegou por fim a vez da menina da camisa; chamou-a, e ela desatou a rir.

A mãe disse-lhe:

— Sustei-vos, filha, não vos rides.

— Ai, senhora! Agora é que eu vejo que o príncipe era a velha adela que me furtou a camisa.

O príncipe perguntou-lhe:

— Será esta a camisa?

— É, sim, senhor.

— Pois bem, aqui tem a sua camisa, e saiba que deste instante por diante fica minha verdadeira esposa, e a estas meninas dou-lhes a sentença que, como são muito beatas, se faça um convento para as meter para sempre.

Conto tradicional da Ilha de São Miguel, Açores, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843–1924)

11 maio 2018

Comerciantes do mato



[Depois de bem comidos,] Aristides, Armando e Sebastião passaram então à loja, que ocupava toda a parte direita da casa.

Sem horário de trabalho, era uma loja igual a tantas outras que comerciavam naquela época com os negros. Mais armazém do que estabelecimento de venda, guardava lá dentro uma profusão enorme de artigos, que pareciam não ter relação entre si. Havia de tudo: nas prateleiras corridas, peças de pintado, utensílios de mesa de esmalte e alumínio (canecas, pratos, travessas), miudezas de retrosaria (carros de linhas, agulhas, botões), pulseiras reluzentes de latão e colares coloridos de missangas; sobre o pavimento, espiras de tabaco escuro, fardos de pexelim e toqueia, sacos de fuba[g] e feijão; ao fundo, postos de pé e com as torneiras em baixo, dois barris de vinho.

Outros produtos deviam estar ali certamente, embora invisíveis: os cheiros que pairavam no ar não podiam provir só da mercadoria exposta, mas de alguma crueira, óleo de palma e petróleo guardados em qualquer sítio.

Por duas janelas estreitas que não abriam nunca, o sol entrava como que a medo, iluminando mal o ambiente. Quem se encontrasse aí pela primeira vez, ficaria surpreendido; admirado com o que via, teria nesse momento a impressão de que estava num sítio estranho, tão sombrio e misterioso como a caverna de Aladino.

Tolhido pela surpresa, Armando não disse nada; mas minutos depois, desabafava consigo próprio que era num lugar insólito como aquele, perdido no fim de mundo, que teria de lutar pelo futuro.

Mas como? Alguém poria as finanças em ordem vendendo a retalho tantas bugigangas? Ganharia sequer o suficiente para pagar aos fornecedores?

Parecendo vaidoso do seu estabelecimento, Aristides observou:

— Como estão a ver, não é com artigos valiosos que ganho e amealho uns cobres. Coitados dos biés!: eles jamais poderiam pagar coisas caras.

Formulou então a regra essencial que qualquer comerciante digno do nome devia cumprir para ter sucesso:

— Olhinhos!, olhinhos! O que há a fazer é comprar bem e vender melhor!

Duas ou três horas mais tarde, Armando compreenderia o significado de tal asserção.

De quindas na cabeça com os produtos colhidos das lavras, as mulheres vinham da mata, atravessavam em fila ruidosa o terreiro e entravam na loja; com um esforço que parecia desmesurado para os seus braços frágeis, alijavam a carga na balança.

Aristides pegava nos pesos, dava uma volta ao balcão, tapava com o corpo a luz esmaecida que passava pelas janelas. Desde que iniciava essa espécie de ritual, não se calava: em voz alta, meio em umbundo, meio em português, fazia as perguntas e dava as respostas.

No momento adequado, fingia fazer contas de cabeça, para concluir:

— Ora bem, vejamos, tantos quilos a tantos angolares dá tanto…

É claro que aqueles «tantos» todos ficavam sempre aquém, quer dos quilos indicados pela balança, quer dos angolares que deviam resultar da conta.

As mulheres coçavam a carapinha e franziam a testa. Com a ponta acesa do cigarro metida dentro da boca, não protestavam, pelo menos explicitamente. Quando recebiam a quantia anunciada, permaneciam de mão estendida, mostrando assim que aquele lombongo era pouco. Tão pouco que não chegava quase para pagar a fuba, o peixe seco e os condutos que compravam de seguida.

Aristides observava a propósito que o dinheiro era um maganão, ladino que nem um azougue: tão depressa lhe saía da gaveta quanto lhe entrava no bolso.

Quem não tivesse jeito para o ofício, que fosse cavar batatas e mudasse de ramo…

Excerto do romance Na Babugem do Êxodo, de Inácio Rebelo de Andrade (1935–2017). Texto reproduzido de Cultura — Jornal Angolano de Artes e Letras


GLOSSÁRIO

Pintado - Tecido estampado

Pexelim - Peixe seco miúdo do mar, o mesmo que peixelim

Toqueia - Peixe seco de rio, capturado nas anharas ou chanas (savanas alagadiças) do Leste de Angola

Fuba - Farinha de mandioca, de milho ou outros cereais

Crueira - Restos de mandioca ralada, que sobram depois de a respetiva farinha ter sido peneirada

Biés - Pessoas pertencentes a uma etnia de língua umbundo que deu o nome à província do Bié, no centro de Angola

Quinda - Cesta; balaio

Lavra - Campo de cultivo

Umbundo - Língua bantu falada nas províncias de Benguela, Huambo e Bié, assim como em regiões vizinhas das províncias do Cuanza Sul, Malanje, Huíla e Namibe. É a segunda língua mais falada em Angola, a seguir ao português

Angolar - Unidade monetária antiga de Angola

Lombongo - Dinheiro


07 maio 2018

Música negra das prisões do Texas



Negro Folklore from Texas State Prisons foi um disco de vinil, em formato LP, publicado em 1965 por Bruce Jackson, um etnomusicólogo, escritor, realizador de documentários, fotógrafo e professor da Universidade de Buffalo, no Estado de Nova Iorque, Estados Unidos da América. Bruce Jackson é um homem particularmente interessado no sistema prisional norte-americano e na música afro-americana. Movido por estes seus dois interesses, ele visitou, a partir de julho de 1964, diversas colónias penais agrícolas no estado do Texas destinadas só a negros, onde gravou um conjunto de canções de trabalho, blues, espirituais negros, pregações, narrativas improvisadas e ritmadas, etc. Do acervo reunido, Bruce Jackson selecionou algumas das gravações efetuadas e publicou-as no disco referido. O valor deste disco é enorme, porque documenta uma tradição que deixou de existir. As prisões do Texas deixaram de ser segregadas e a brutalidade que nelas era aplicada deixou de existir.

O que aqui se ouve não é "bonito"; é autêntico. Nada aqui foi "embelezado". À semelhança do que fizeram em Portugal Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça, José Alberto Sardinha e outros, Bruce Jackson gravou estas canções tal e qual como elas foram interpretadas, neste caso por autênticos presidiários negros do Texas.

Os títulos das faixas deste disco e os nomes dos seus intérpretes, assim como um texto explicativo em inglês, escrito pelo próprio Bruce Jackson, estão impressos na contracapa do disco, que é mostrada na imagem seguinte. Queira clicar na imagem para ampliá-la e ler o seu conteúdo.


01 maio 2018

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
António Gedeão (1906–1997)


(Foto: CGTP-IN)

25 abril 2018

Ser livre


(Foto de autor desconhecido)

Eu não nasci com fome de ser livre. Eu nasci livre — livre em todos os aspectos que conhecia. Livre de correr pelos campos perto da palhota da minha mãe, livre de nadar num regato transparente que atravessava a minha aldeia, livre de assar maçarocas sob as estrelas e montar os largos dorsos de bois vagarosos. Contanto que obedecesse ao meu pai e observasse os costumes da minha tribo, eu não era incomodado pelas leis do homem nem de Deus. (…) Só quando comecei a aprender que a minha liberdade de menino era uma ilusão, quando descobri, em jovem, que a minha liberdade já me fora roubada, é que comecei a sentir fome dela. (…) Calcorreei esse longo caminho para a liberdade. Tentei não vacilar; dei maus passos durante o percurso. Mas descobri o segredo: depois de subir uma alta montanha apenas se encontram outras montanhas para subir. Parei aqui um momento para descansar, para gozar a vista da gloriosa paisagem que me rodeia, para voltar os olhos para a distância percorrida. Mas só posso descansar um momento, porque, com a liberdade, vem a responsabilidade, e não me atrevo a demorar, pois a minha caminhada ainda não terminou. (…) Ser livre não é apenas livrar-se das próprias grilhetas, mas viver de uma forma que respeite e promova a liberdade dos outros. (…) Eu não tinha a menor dúvida de que o opressor tinha de ser libertado tanto quanto o oprimido. Um homem que tira a liberdade de outro homem está prisioneiro do ódio, está fechado atrás das grades do preconceito e da estreiteza de vistas. Não sou verdadeiramente livre se estou a tirar a liberdade a alguém, tão certamente quanto não sou livre quando me é roubada a minha humanidade. Tanto o oprimido quanto o opressor são espoliados da sua humanidade.

Nelson Mandela (1918–2013), trechos de Long Walk to Freedom, 1994, transcritos do Citador

23 abril 2018

André Gonçalves


Assunção de Nossa Senhora, c. 1730, óleo sobre tela de André Gonçalves (1686–1762), Palácio Nacional de Mafra, Mafra, Portugal

André Gonçalves foi um pintor barroco português, dos mais importantes do séc. XVIII. Rompendo com a arte predominante na sua época, que ele seguiu numa primeira fase da sua obra e que era caracterizada por um tenebrismo herdado da escola maneirista, André Gonçalves veio a pintar telas que apresentam uma claridade e uma luminosidade que, de certa maneira, podemos identificar com o reinado de D. João V, durante o qual ele viveu grande parte da sua vida. Para esta evolução da arte de André Gonçalves, contribuiram certamente a sua participação na obra do Convento de Mafra e os contactos que aí deve ter tido com artistas italianos e franceses, que o terão introduzido no radioso barroco italiano.

Muitos dos quadros que André Gonçalves pintou perderam-se em 1755, porque se encontravam no interior de igrejas que o terramoto desse ano destruiu. Pela qualidade das obras que conseguiram sobreviver a tão terrível cataclismo, podemos fazer uma ideia do enorme valor das que se perderam.


Adoração dos Magos, óleo sobre tela de André Gonçalves (1686–1762), Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra, Portugal

21 abril 2018

O jogo do ta



Jogo do ta, um jogo tradicional dos índios Kalapalo, que vivem no Parque Indígena do Xingu, Brasil

Brincar, conviver e divertir-se é próprio de todos os seres humanos, seja nas paragens mais geladas da Sibéria, seja nas zonas mais quentes de África. Onde quer que haja crianças ou, mesmo, adultos, há brincadeiras, jogos e diversões. Sempre e em toda a parte.

Existem jogos e brincadeiras numas partes do mundo que apresentam semelhanças espantosas com outros jogos e com outras brincadeiras de outras partes do mundo, habitadas por povos aparentemente muito diferentes. Os bosquímanos (também chamados Khoisan) da África Austral, por exemplo, têm uma brincadeira que apresenta semelhanças notáveis com a do "Bom Barqueiro" em Portugal. Só não cantam «— Bom barqueiro, bom barqueiro, / deixa-me passar. / Tenho filhos pequeninos / p'ra acabar de criar. / — Passarás, passarás, / mas algum deixarás. / Se não for o da frente, / há de ser o de trás.» Mas o resto da brincadeira é igual, incluindo a medição de forças no final. Não admira. A raça humana é uma só, o engenho humano é o mesmo em toda a parte e, por isso, não é de espantar que povos distantes e aparentemente muito diferentes acabem por ter jogos e brincadeiras semelhantes. Somos todos irmãos uns dos outros.

A brincadeira que se vê neste vídeo não tem equivalente na Europa dos nossos dias, tanto quanto eu sei. Na Europa abandonou-se o emprego do arco e da flecha desde que se generalizou o uso das armas de fogo e uma brincadeira deste tipo deixou de fazer sentido. Mas quem sabe se na Idade Média ou em épocas anteriores não terá existido na Europa um jogo semelhante a este, destinado a treinar a pontaria e a rapidez de reflexos com um arco e com uma flecha?

Esta brincadeira do povo indígena Kalapalo, do Brasil, consiste em tentar acertar com uma flecha numa rodela de palha envolvida pela casca verde de uma árvore chamada embira. Para tanto, formam-se duas equipas que se vão confrontar, as quais se dispõem em linha, a uma distância considerável uma da outra. Um membro de uma das equipas atira a rodela, chamada ta, em direção da equipa adversária, a qual terá que acertar com uma seta na rodela que passa, rolando, diante de si. Se algum jogador da equipa adversária conseguir acertar na rodela, o jogador que a tiver lançado é expulso do jogo e é substituído por um outro elemento da sua equipa, que volta a atirar a rodela. Se nenhum jogador da equipa adversária tiver conseguido acertar na rodela, invertem-se os papéis e caberá a um elemento da segunda equipa lançar a rodela na direção da primeira.

15 abril 2018

Conímbriga


Peristilo ajardinado e mosaico polícromo nas ruínas romanas de Conímbriga (Foto de autor desconhecido)

A cidade do Porto fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Portus Cale, de que tomou o nome. A cidade de Lisboa fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Olisipo, de que tomou o nome. A cidade de Braga fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Bracara Augusta, de que tomou o nome. A cidade de Coimbra fica no mesmo lugar onde anteriormente ficava Æminium. Porquê Æminium? Então Coimbra não vem de Conímbriga?

Conímbriga foi uma povoação antiquíssima, fundada, pelo menos, na Idade do Cobre, se é que ela não existia já na Idade da Pedra. O nome Conímbriga é de origem celta, como o de todas as povoações terminadas em "briga": Tongóbriga (perto do Marco de Canaveses), Cetóbriga (em Troia, em frente a Setúbal), Miróbriga (perto de Santiago do Cacém), Lacóbriga (que deu origem à cidade de Lagos) e muitas outras. Portugal é o país com maior percentagem de topónimos celtas da Europa, com exceção do Reino Unido e da República da Irlanda.

Conímbriga terá sido conquistada pelos Romanos em 138 A.C. e a sua romanização iniciou-se, sobretudo, no tempo do imperador César Augusto, o mesmo Augusto que era imperador de Roma quando Jesus Cristo nasceu. Durante o domínio romano, Conímbriga tornou-se uma cidade rica e importante, graças à sua localização estratégica na estrada que ligava Bracara Augusta (Braga) a Olisipo (Lisboa).


Mosaico romano em Conímbriga (Foto: Chris)

No séc. V, como é sabido, deu-se a queda do Império Romano, às mãos de povos bárbaros que o invadiram a partir do Norte e do Este. O território que corresponde ao Portugal atual foi invadido, numa primeira vaga, por três (nada menos do que três!) povos bárbaros, que ainda por cima eram dos mais temidos de todos: Suevos, Vândalos e Alanos. Os Suevos e os Vândalos eram germânicos, enquanto os Alanos eram caucasianos. Aqui chegados, estes bárbaros dividiram o território entre si, mas logo de seguida procuraram apoderar-se das terras uns dos outros, guerreando-se mutuamente. Destes combates resultou a vitória final dos Suevos sobre os Vândalos e os Alanos. Os Suevos ficaram cá, enquanto os outros dois povos se dirigiram para o sul da Península Ibérica, isto é, para a região que passou a chamar-se Vandália, nome este que evoluiu até à presente designação de Andaluzia. Da Andaluzia os Vândalos e Alanos atravessaram o estreito de Gibraltar e instalaram-se no Norte de África, onde fundaram o reino dos Vândalos, que se estendeu desde Marrocos até à Líbia atuais.

Os Suevos, que ficaram senhores da situação neste extremo ocidental da Península Ibérica, trataram de se apoderar das cidades deste território e das riquezas nelas existentes. Conímbriga não escapou à cobiça dos Suevos, tendo sido por eles pilhada e destruída no ano 468. A maior parte dos habitantes da cidade procurou refúgio numa povoação situada a perto de 20 quilómetros de distância e sobranceira ao Rio Mondego, chamada Æminium. Entre estes refugiados estava o bispo de Conímbriga. Como em Æminium passou a residir o bispo de Conímbriga, então a cidade deixou de se chamar Æminium para passar a chamar-se Coimbra, uma simplificação do nome Conímbriga.


Mosaico romano em Conímbriga (Foto: Chris)

Idácio, que foi bispo de Chaves e comandou a resistência desta outra cidade aos invasores suevos, tendo acabado por ser feito prisioneiro e posteriormente libertado, escreveu que os Suevos rapidamente trocaram a espada pela enxada. Quis Idácio dizer com isto que os Suevos acabaram por se estabelecer pacificamente nesta faixa de território, trocando a arte da guerra pela agricultura, que devia ser a sua atividade principal lá na Suábia de onde saíram. Isto mesmo foi atestado muitos séculos mais tarde pelo etnólogo Jorge Dias, que num trabalho publicado em 1948 revelou que o arado tradicional da região de Entre‑Douro‑e‑Minho é de tipo germânico.

Os Suevos fundaram um reino próprio, com capital em Bracara Augusta, a atual cidade de Braga. O reino dos Suevos foi passando pouco a pouco a chamar-se também reino de Portucale, tomando assim o nome da sua cidade portuária mais importante, a atual cidade do Porto. O território ocupado pelo reino dos Suevos compreendia toda a atual Galiza e a parte norte e centro do atual Portugal, estendendo-se até ao Rio Tejo e, por vezes, mais para sul ainda. Mais tarde o reino dos Suevos foi conquistado pelos Visigodos, um outro povo germânico entretanto chegado à Península, e estes, por sua vez, acabaram por ser derrotados pelos Árabes. Mas isto já não tem nada a ver com Conímbriga.


Mosaico romano em Conímbriga (Foto de autor desconhecido)

09 abril 2018

Portugal na Primeira Grande Guerra


9 de abril de 1918. O capitão Beleza dos Santos atravessa uma densíssima barragem de artilharia e consegue salvar a sua bateria, gravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa


9 de abril de 1918. Lacouture sob o bombardeamentogravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa


Uma sepultura portuguesa na terra de ninguém, 1918, gravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa


Uma encruzilhada perigosa, 1918, gravura a água forte de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa

Adriano de Sousa Lopes, de quem já aqui falei há cerca de seis meses, foi um pintor e desenhador português, que foi enviado para a frente de batalha em 1917, na qualidade de oficial encarregado de documentar iconograficamente a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial. Desta sua missão, resultou um conjunto de impressionantes desenhos a água forte, sob o título genérico de Portugal na Grande Guerra, em que o artista nos dá, em dramáticos instantâneos, um testemunho da vida nas trincheiras, dos combates travados pelo Corpo Expedicionário Português e das suas consequências, nos campos da Flandres.

Posteriormente, Sousa Lopes foi encarregado de documentar a mesma guerra em grandes telas que se encontram no Museu Militar de Lisboa, que fica em frente à estação de Santa Apolónia. Independentemente do valor artístico, que é enorme, de muitas das obras que podem ser admiradas em diversas salas do Museu Militar de Lisboa (de Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa e outros), acho que a secção do museu dedicada à Primeira Guerra Mundial é a única que merece verdadeiramente ser visitada, muito por causa do enorme dramatismo emprestado por Sousa Lopes às suas pinturas. Elas mostram-nos como a Primeira Guerra Mundial foi vivida pelo Corpo Expedicionário Português.


Destruindo o obus, dramática tela de Adriano de Sousa Lopes (1879–1944). Museu Militar de Lisboa

04 abril 2018

Crianças de África


Mafalala, Maputo, Moçambique (Foto: Grég E.)

Completa-se hoje meio século sobre o assassínio de Martin Luther King Jr. (1929–1968). O seu sonho de um mundo isento de ódio e de discriminação, atingível sem recurso à violência, parecia ter ficado definitivamente comprometido. Não ficou. É verdade que esse sonho não está realizado, longe disso, mas fizeram-se alguns avanços, que se deseja que possam continuar até ao fim.

Os rostos das crianças que figuram nesta pequena galeria de imagens, que colhi aqui e ali na internet, as quais vivem no continente do qual os antepassados de Martin Luther King Jr. foram levados à força para a América, são uma chama de esperança por um futuro mais livre, mais humano e mais justo, tal como ele sonhou.


Etnia Himba, Namíbia (Foto de autor desconhecido)


Axim, Gana (Foto: cdoadn)


Senegal (Foto: Jim Sohm)


Mali (Foto: Izla Photography)


Etnia Yoruba, Benim (Foto: Steven Goethals)


Ancuabe, Cabo Delgado, Moçambique (Foto: Augusto Rodríguez portraits)

01 abril 2018

Oratória da Páscoa


Oratória da Páscoa, BWV 249, de Johann Sebastian Bach (1685–1750), pelo Coro e Orquestra Barrocos de Amesterdão, dirigidos por Ton Koopman. Os cantores solistas não estão identificados no Youtube, mas deverão ser Lisa Larsson (soprano), Elisabeth von Magnus (meio-soprano, que nesta oratória canta como soprano e também como contralto), Bogna Bartosz (contralto), Gerd Türk (tenor) e Klaus Mertens (baixo). Os instrumentistas solistas deverão ser os músicos da Orquestra Barroca de Amesterdão Margaret Faultless (violino), Jaap ter Linden (violoncelo), Marcel Ponseele (oboé e oboé de amor), Wilbert Hazelzet (flauta transversal) e Stephen Keavy (trompete)

A Oratória da Páscoa (chamada Oratório da Páscoa no Brasil) é uma oratória composta pelo compositor alemão Johann Sebastian Bach, que foi apresentada ao público pela primeira vez em 1 de abril de 1725, ou seja, há precisamente 293 anos, que também foi Domingo de Páscoa. Após a sua estreia, a oratória sofreu duas revisões por parte do autor, a primeira em 1735 e a segunda alguns anos mais tarde. É a última versão desta oratória que se ouve nesta gravação.

Em vez de ter um narrador, como acontece, por exemplo, na Oratória de Natal, a Oratória da Páscoa de Bach é narrada por quatro personagens, que são o apóstolo Simão Pedro (tenor), o apóstolo João (baixo), Maria Madalena (contralto) e Maria mãe de Tiago (soprano), que encontraram o túmulo de Jesus Cristo vazio.