19 fevereiro 2017

Belezas africanas


Etnia Zulu, África do Sul (Foto de autor desconhecido)


Etnia Tuaregue, Argélia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Mursi, Etiópia (Foto: Isabel Rubin de Celis)


Etnia não identificada, Chade (Foto de autor desconhecido)


Etnia não identificada, Moçambique (Foto: Víctor Hugo García Ulloa)


Etnia não identificada, Burkina Faso (Foto: Boaz)


Etnia Somali, Somalilândia (república separatista da Somália não reconhecida internacionalmente) (Foto: Eric Lafforgue)


Etnia não identificada, República Democrática do Congo (Foto: Marie Frechon/Nações Unidas)


Etnia Massai, Tanzânia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Muíla, Angola (Foto de autor desconhecido)


Etnia Himba, Namíbia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Turkana, Quénia (Foto: Eric Lafforgue)


Etnia Bijagó, Guiné-Bissau (Foto de autor desconhecido)

13 fevereiro 2017

A cara de boi

Pormenor de uma casa tradicional do Algarve (Foto: José Júlio Machado)


Era um rei, que tinha três filhos. Um dia disse:

— Pois, filhos, vão correr o mundo, e aquele que trouxer a mulher mais formosa é que há de ficar com o reino.

Partiram todos; os dois mais velhos acharam logo duas raparigas muito formosas, com quem se casaram. Uma era filha de uma padeira e a outra de um ferreiro. O mais novo andou por muitas terras, sem encontrar mulher que lhe agradasse.

Indo um dia por um descampado, cheio de fadiga, desceu do cavalo e deitou-se a uma sombra. Deu-lhe então na vista uma casa muito alta sem porta nenhuma, e só lá bem alto é que tinha uma janela. Esteve ali muito tempo, até que viu vir uma velha, que chegou ao muro da casa, bateu na parede e disse:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

Foi então que ele viu aparecer à janela uma trança de cabelo tão comprida, que ficou espantado com a sua beleza. A velha pegou-se a ela como se fosse uma corda e subiu para dentro de casa. Pouco tempo depois a velha tornou a sair, e o cavaleiro tendo desejo de ver de quem seria a trança, chegou-se à parede, bateu, e repetiu as palavras:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

A trança desceu pela janela abaixo, e o rapaz subiu. Ficou pasmado quando viu diante de si a cara mais linda do mundo. A menina deu um grande ai de aflição:

— Vá-se embora, senhor, que pode vir minha mãe, e tem artes de lhe causar todos os males que há.

— Não vou, sem a menina vir comigo, porque eu assim ganho o reino de meu pai. E se não quiser vir, boto-me desta janela abaixo.

Desceram ambos pela parede, e fugiram a toda a pressa no cavalo que estava folgado à sombra. Ainda não iam longe, quando ouviram uma voz:

— Para, para, filha cruel, não me deixes só no mundo.

E como a filha fosse sempre fugindo com o príncipe, a velha disse-lhe:

— Olha para trás ao menos, para receberes a bênção de tua mãe.

Assim que a menina se virou para trás, ela disse-lhe:

— Eu te fado, que essa cara linda que tens se torne em uma cara de boi.

Coitadinha, ficou logo com cara de boi.

Assim que o príncipe chegou à corte puseram-se todos a rir daquela figura horrenda, sem saber como ele se tinha apaixonado por cousa tão feia, que fazia fugir. O príncipe contou a sua desventura aos irmãos, mas quem é que se fiava? Estava quase a chegar o dia em que os três irmãos haviam de apresentar as suas mulheres diante de toda a corte, para se assentar qual era a mais linda, e qual deles é que havia de ficar com o reino.

A rainha velha tinha muita pena do filho, e lembrou-se de fazer demorar a cerimónia, para ver se a velha com o tempo perdoava à menina e lhe restituía a sua formosura.

Disse a rainha, que queria que antes da cerimónia da corte cada uma das suas três noras lhe bordasse um lenço. A filha da padeira e a do ferreiro não sabiam bordar, e trataram de enganar a rainha, arranjando quem lhes fizesse os bordados; a que tinha cara de boi pôs-se a chorar, e tanto chorou que lhe apareceu a velha, e disse:

— Não te rales mais; no dia em que tiveres de entregar o lenço à rainha eu cá to virei trazer.

Chegou o dia, e a velha veio entregar-lhe uma noz muito pequenina. A cara de boi foi levá-la à rainha, dizendo que ali estava o seu lenço. A rainha quebrou a noz e ficou pasmada com a mais fina cambraia, bordada com flores e ramos e aves.

Chegou o dia de irem à corte para serem apresentadas as três noras do rei; a cara de boi pôs-se a chorar, a chorar, até que lhe apareceu a velha que era mãe dela:

— Não chores mais; trago-te aqui um vestido para a festa. — Desdobrou-o; era todo bordado de ouro e pedrarias; a filha vestiu-o, mas quando o vestido era lindo, tanto ela ficava mais horrenda. E pôs-se a chorar, a chorar cada vez mais.

Quando já todos tinham entrado para a sala, faltava só ela; a velha disse-lhe:

— Vai agora tu.

A filha obedeceu, mais ia muito triste por ver-se tão medonha. Quando ia pelo corredor do palácio, a mãe disse-lhe cá de longe:

— Olha para trás. — E assim que a filha virou a cara, continuou: — Fica com a tua formosura. Mas não te esqueças de meteres nas mangas do vestido todos os bocadinhos de toucinho que puderes para me dar.

Então ela entrou na sala pelo braço do marido, e todos ficaram pasmados. A corte toda confessou que ela é que era a mais linda, e dali foram todos para a mesa do banquete. Enquanto estiveram jantando a menina não fazia senão meter bocadinhos de toucinho nas mangas do vestido; as outras duas, que a viam fazer aquilo, trataram de fazer o mesmo pensando que era moda. Acabado o jantar, começaram as danças, e a rainha ao ver o chão todo besuntado de gordura, e que a cada passo se escorregava em bocados de toucinho, perguntou quem é que fizera aquela porcaria. As damas disseram que o viram fazer à princesa herdeira, e por isso fizeram o mesmo. Começou cada uma a sacudir as mangas dos vestidos, e das mangas da menina começaram a cair aljofres e diamantes misturados com flores; as outras envergonhadas botaram-se pelas janelas fora, pelas escadas, corridas, e a que chamavam cara de boi é que veio a ser a rainha, porque o rei entregou a coroa ao filho.

(Faro, Algarve)

in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

07 fevereiro 2017

Um conto tradicional dos índios Bororo


Como nasceram as estrelas, um filme de animação brasileiro

02 fevereiro 2017

Peço a paz

Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz e o
silêncio

Casimiro de Brito, in Jardins de Guerra


28 janeiro 2017

A mais antiga panorâmica de Lisboa

Iluminura em pergaminho do códice manuscrito Chronica do Muito Alto e Muito Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques, Primeiro Rey de Portugal, publicado em 1505 por Duarte Galvão (1446–1517). Museu dos Condes de Castro Guimarães, Cascais


Esta iluminura mostra a mais antiga vista panorâmica que se conhece da cidade de Lisboa. Ela mostra a capital portuguesa tal como ela era no início do séc. XVI. Ao alto está o castelo de S. Jorge, que ainda há pouco tinha sido residência do rei de Portugal, sob a designação de Paço da Alcáçova. À data da publicação desta obra, o rei D. Manuel tinha acabado de se mudar para um novo palácio real, o Paço da Ribeira, construído junto ao rio Tejo. O Paço da Ribeira é a construção que se vê em baixo, à esquerda, que incluía uma alta torre, um jardim (presumo) e um longo edifício que entrava pelo rio dentro, acabando numa torre com uma varanda, da qual o rei e a sua corte assistiam à partida e chegada das naus da carreira da Índia. À direita do Paço da Ribeira, vê-se um vasto terreiro, que talvez fosse mais praia do que outra coisa, que era o Terreiro do Paço. No meio do casario, vê-se a Sé de Lisboa. Mais à esquerda, está uma vasta praça, que é o Rossio. No canto superior esquerdo ergue-se, altaneiro, o convento do Carmo.

Note-se que esta iluminura destina-se a ilustrar uma crónica de D. Afonso Henriques. Ela foi feita, portanto, para ilustrar a tomada de Lisboa aos mouros pelo primeiro rei de Portugal. Ora a tomada de Lisboa aos mouros aconteceu no séc. XII e não no XVI. Esta iluminura contém, portanto, um evidente anacronismo. A Lisboa quinhentista representada na iluminura seria, afinal, a Lisboa mourisca de 350 anos antes e, à sua volta, veem-se as tropas de D. Afonso Henriques, cercando a cidade e prontas para atacá-la. No Tejo está a armada de cruzados que auxiliou o primeiro rei de Portugal. Entre as várias embarcações que se veem no rio em frenta à cidade estão duas caravelas e duas naus, que são embarcações que ainda não existiam no séc. XII, o que constitui mais um anacronismo.

23 janeiro 2017

Sonata ao luar


Sonata para piano em dó sustenido menor, n.º 14, Op. 27, n.º 2, que foi chamada Ao Luar, de Ludwig van Beethoven (1770–1827), pelo pianista chileno Claudio Arrau (1903–1991)

16 janeiro 2017

Quando eu morrer

(para o Aniceto Vieira Dias e "Liceu" de "N'Gola Ritmos")

Quando eu morrer
eu quero que o N'Gola Ritmos
vá tocar no meu enterro.

Como Sidney Bechet
como Armstrong
eu gostarei de saber

que vocês
tocaram no meu enterro.

Lá no céu também há "angelitos negros"
e eu gostarei de saber
que vocês
me tocaram no enterro.

Se não puder ser
deixem lá
tocarão noutro lado qualquer
com lágrimas nos olhos
como naquela noite
em casa do Araújo
lembrarão o companheiro
das noites de Luanda
das noites de boémia
das tardes de moamba.

Ah! Quando eu morrer
já sabem
quero que o meu caixão
vá no maxibombo da linha do Cemitério
quero que toquem
a Cidralha
ou convidem a marcha dos Invejados.

É assim que eu quero ir
acompanhado da vossa alegria
bebedeiras seguindo o enterro
as velhas carpideiras de panos escuros
quero um kombaritókué dos antigos
que vai ser muito falado.

Não convidem mulatas
que sempre estragam tudo
Se vierem
não lhes vou rejeitar.
Cantem apenas
alguns dos meus poemas
até enrouquecer.

Ah! quando eu morrer
eu quero o N´Gola Ritmos
tocando no meu enterro.

Ernesto Lara Filho (1932–1977), poeta e jornalista angolano


TENTATIVA DE GLOSSÁRIO

Moamba — prato típico da culinária angolana, habitualmente de galinha
Maxibombo — autocarro; ônibus
Cidralha — nome de uma música tradicional do carnaval de Luanda
Marcha dos Invejados — nome de um grupo carnavalesco de Luanda
Kombaritókuè — (literalmente, "varrer as cinzas") tradição luandense que marca o fim do período de choro de um morto após o seu enterro, equivalente à missa do sétimo dia na tradição católica; funeral



Nzaji (Raio), pelo conjunto Ngola Ritmos, de Luanda, Angola

10 janeiro 2017

Para onde foram as andorinhas?


Um filme premiado sobre os efeitos das alterações climáticas, causadas pela destruição da floresta, na vida dos povos indígenas do Brasil

07 janeiro 2017

A tentativa do impossível

La Tentative de l'Impossible, de 1928, autorretrato do pintor surrealista belga René Magritte (1898–1967). Óleo sobre tela. Coleção particular

01 janeiro 2017

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago (1922–2010)

31 dezembro 2016

Dia de São Silvestre


Abertura (Sinfonia), do Te Deum de 1792 de João de Sousa Carvalho (1745–c.1798), pela Orquestra Gulbenkian dirigida por Pierre Salzmann

No séc. XVIII, tornou-se tradição em Lisboa o canto de um Te Deum no último dia de cada ano (dia de São Silvestre), a fim de agradecer a Deus a dádiva de um ano que passou. Esta tradição foi iniciada pelos jesuítas, que realizavam a cerimónia na Igreja de São Roque, que era o templo da Companhia de Jesus na capital portuguesa. Com o passar dos anos e com a intervenção do rei D. João V, esta celebração em São Roque foi ganhando cada vez mais solenidade e grandiosidade, até que no Te Deum que foi cantado no último dia do ano de 1719, da autoria de Cristóvão da Fonseca, tomaram parte quinze coros!

Um dos mais notáveis Te Deum, de todos quantos foram celebrados na Igreja de São Roque, foi cantado em 1734 e foi da autoria de António Teixeira (1707–1774). É um Te Deum para cinco coros, oito cantores solistas e orquestra. No Youtube, uma alma caridosa publicou a única gravação que existe deste magnífico Te Deum, repartida por sete "vídeos", o primeiro dos quais tem o endereço https://www.youtube.com/watch?v=MeRdUJ1WQnM.

Quando o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal, a Igreja de São Roque passou para as mãos da Misericórdia de Lisboa, em cuja posse ainda se encontra. O Te Deum de fim de ano passou então a cantar-se na Capela Real da Ajuda, de dimensões mais reduzidas do que as da Igreja de São Roque. Foi para esta capela que o notável compositor João de Sousa Carvalho (1745–c.1798) escreveu três Te Deum, celebrados no fim dos anos de 1769, 1789 e 1792. Aqui se dá a ouvir o início e o fim do Te Deum de 1792.

Há a destacar a seguinte característica nos Te Deum de fim de ano celebrados em Lisboa: começavam por uma Sinfonia, que era uma abertura apenas instrumental, seguida do hino O Salutaris Hostia. Só depois é que era interpretado o Te Deum propriamente dito, findo o qual era ainda cantado um Tantum Ergo Sacramentum.



Tantum Ergo, do Te Deum de 1792 de João de Sousa Carvalho (1745–c.1798), pela Orquestra e Coro Gulbenkian dirigidos por Pierre Salzmann

28 dezembro 2016

A igreja paroquial de Carcavelos, Cascais

Fachada principal da igreja paroquial de Nossa Senhora dos Remédios, Carcavelos, Cascais (Foto: Geraldo Salomão)


Quem só vir a igreja de Carcavelos por fora, não desconfiará do que ela tem por dentro.

Por fora, a igreja paroquial de Carcavelos, que é dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, é um templo muito simples e harmonioso, construído nos inícios do séc. XVII, rodeado de frondosas e frescas árvores e circundado por estreitas ruas e pequenas e tranquilas pracinhas. Quase nos julgaríamos a muitos quilómetros de distância das urbanizações-dormitórios, que dos anos 60 para cá transformaram radicalmente a paisagem dos arredores de Lisboa, Carcavelos incluída.

Esta igreja foi construída num tempo em que Carcavelos era uma aldeia saloia, rodeada de quintas banhadas pelo sol, das quais saía um precioso néctar, o vinho de Carcavelos, que era um vinho generoso que atingiu grande fama e era exportado para Inglaterra sob a designação de Lisbon wine. Hoje, o vinho de Carcavelos é uma raridade, quase em extinção. Só nas lojas especializadas em vinhos é que é possível encontrar à venda alguma garrafa de "Carcavelos D.O.C.". Em vão a encontraremos em algum supermercado.

Não se pode descrever o encantamento que se sente quando se entra na igreja de Carcavelos. Em vez de nos depararmos com uma igreja soturna e cheirando a bafio, transbordando de pesada e sufocante talha barroca por todos os lados, como são quase todas as igrejas de Portugal, vemo-nos dentro de uma igreja linda, com uma maravilhosa capela-mor coberta de preciosos e coloridos azulejos do séc. XVII, assim como uma nave cujas paredes também se encontram cobertas até meia altura por silhares de azulejos, igualmente seiscentistas e igualmente coloridos. A cor e a frescura dos azulejos fazem da igreja de Carcavelos um lugar de paz, de beleza e de refrigério sem par.


Capela-mor da igreja paroquial de Nossa Senhora dos Remédios, Carcavelos, Cascais (Foto: Alto do Lagoal e Vale da Terrugem)

25 dezembro 2016

José embala o Menino


José embala o Menino, cântico de Natal e canção de embalar tradicional portuguesa da região de Monsanto, Beira Baixa, numa harmonização do compositor português contemporâneo Eurico Carrapatoso (nascido em 1962), por solistas não identificadas, o Coro Infantil da Universidade de Lisboa e o Novo Coro Infantil de Amesterdão dirigidos por Érica Mandillo

24 dezembro 2016

Natal de camuflado

Natal em zala, Natal de camuflado e arma
ao alcance da mão, Natal com as constela-
ções voltadas ao contrário por cima da ca-
beça, Natal na grande catedral verde da
floresta com todas as portas abertas.

Natal de uma aliança a pesar toneladas
na mão esquerda, de vinte mil cordas aper-
tando lentamente a garganta, de uma gui-
tarra a não sei quantos biliões de anos-dor.

Natal transparente e puro e frágil como
os olhos de minha mãe, como as lágrimas
de minha mãe, como a recordação de minha
mãe.

Natal de uma senhora de presépio que eu
fiz, daquele mesmo pó que me entrou tantas
vezes nos pulmões, e era preciso molhar to-
dos os dias uma data de vezes, ir afagando
sempre com os dedos, para que não estalasse
antes do Natal.

Senhora que voltou a ser pó, pó na pista
de zala, no morro das pedras, em s. sebas-
tião, pó na picada de nambuangongo, a en-
trar nos pulmões de outros homens, também
de camuflado e arma ao alcance da mão,
cada um com vinte mil cordas apertando
lentamente a garganta, e uma guitarra, com
unhas de raiva, fazendo eco num poço sem
fundo dentro do peito.

José Correia Tavares, in Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial, de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi (Org.), Edições Afrontamento, Porto, 2011


Um recanto de Zala, quartel do Exército Português no coração da Guerra Colonial no norte de Angola, em julho de 1974 (Foto: Alberto Nogueira)

18 dezembro 2016

Joiku


The Joiku, da obra coral Primitive Music, da autoria do compositor contemporâneo finlandês Jukka Linkola, nascido em 1955. A interpretação é do Coro Infantil Hua Shin, de Taipé, Formosa (Taiwan). O joiku é uma técnica de canto usada na Carélia russa (região vizinha da Finlândia) e na Lapónia, que consiste numa espécie de descrição melódica de uma pessoa, de um animal ou de uma paisagem, como a tundra. No joiku, a melodia é mais importante do que as palavras, pode haver partes improvisadas e podem ser pronunciadas sílabas sem sentido.

17 dezembro 2016

Poesia depois da chuva

Depois da chuva o Sol — a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
— luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco — cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!… Pura imagem da Tarde…
Flor levada nas águas, mansamente…

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase…)

Sebastião da Gama (1924–1952), in Pelo Sonho é que Vamos



(Foto: Thomas Lhomme)

11 dezembro 2016

Mar

Mar

Nosso caminho
Nossa estrada…

Mar

Nosso confidente
E companheiro…

Mar

Nossa casa
E cemitério…

Mar!

Há no teu fundo
Esqueletos brancos
De corpos outrora negros…
Há esqueletos livres
De corpos outrora presos…
(Tu devoraste o ferro das correntes
E puliste os ossos…)
Há esqueletos de patrões e escravos,
Lado a lado!
…………………………………
E há um grito no Mar, continuamente,
Grito que nasceu e quedou morto
Nas mandíbulas cerradas
E falanges destroçadas
Dos esqueletos!

Mário António (1934–1989), poeta angolano


Museu Nacional da Escravatura, Luanda, Angola. Por esta capela do séc. XVII, chamada Capela da Casa Grande e situada no Morro da Cruz, em Luanda, passaram milhares e milhares de escravos. Nela, os escravos eram batizados antes de serem embarcados nos navios negreiros (Foto: Sapo Angola)

06 dezembro 2016

Tango é isto


Tango La cumparsita, de Gerardo Matos Rodríguez (1897–1948), pela Orquestra Típica Juan d'Arienzo, dirigida pelo maestro argentino Juan d'Arienzo (1900–1976)

01 dezembro 2016

Dezembro

Dezembro, iluminura do livro Les Très Riches Heures du Duc de Berry

28 novembro 2016

500 anos de relacionamento entre Portugal e o Vietname (Vietnã)

Vietname (Foto: Chế Quang Hậu)

Vês, corre a costa que Champá se chama,
Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
Vês Cauchichina está, de escura fama,
E de Ainão vê a incógnita enseada;
(…)
Luis de Camões, Os Lusíadas, canto X, estrofe 129


Foram portugueses os primeiros europeus a pisar solo vietnamita, o que aconteceu há 500 anos. É certo que naquele tempo ainda não existia um país chamado Vietname (Việt Nam), mas sim os reinos de Tonquim, Cochinchina e Champá, como os portugueses lhes chamaram. O Vietname, tal como o conhecemos hoje, resulta da unificação destes reinos, empreendida pelo imperador Gia Long em 1802.

A primeira referência a terras do atual Vietname feita por um europeu deve-se ao português Tomé Pires e data de 1515. Isto não significa que Tomé Pires tenha efetivamente desembarcado naquela parte do mundo. Teve, isso sim, conhecimento da sua existência e a ela fez referência na sua obra Suma Oriental.

Em 1516, Fernão Peres de Andrade, que à data era diplomata às ordens de Afonso de Albuquerque, por quem tinha sido encarregado de se deslocar à China a fim de estabelecer relações comerciais com este país, foi obrigado pela monção a aportar em terras vietnamitas. Foram, pois, Fernão Peres de Andrade e os seus companheiros os primeiros europeus a pisar solo vietnamita, acontecimento cujo quinto centenário foi assinalado neste ano da graça de 2016, tanto no Vietname como em Portugal.


Baía de Ha Long, Vietname (Foto de autor desconhecido)


O relacionamento entre o Vietname e Portugal (chamado Bồ Đào Nha em vietnamita) foi sempre pacífico. Nunca os portugueses procuraram conquistar ou colonizar o Vietname ou qualquer dos reinos que o vieram a constituir, contrariamente ao que fizeram a França no séc. XIX e o Japão e os Estados Unidos no séc. XX. A comprová-lo está a ausência de qualquer fortificação construída pelos portugueses em território do Vietname.

No Sudeste Asiático, Portugal não estava interessado em ocupar territórios, pois não dispunha de gente nem de meios suficientes para o fazer. Estava interessado, isso sim, em conquistar apenas as posições geográficas que lhe permitissem controlar as principais rotas comerciais marítimas da região. A tomada da cidade de Malaca, sobretudo, teve uma enorme importância deste ponto de vista, pois esta cidade controlava o único canal navegável que ligava o Mar do Sul da China ao Oceano Índico, que era o Estreito de Malaca.

De resto, Portugal procurou estabelecer relações diplomáticas com os reinos da região, com vista a obter vantagens comerciais para si. Mesmo assim, nalguns casos os portugueses tiveram de intervir militarmente em favor de um reino que estivesse em guerra com um reino inimigo, para poder receber mais tarde favores e privilégios por parte do reino auxiliado. Foi o que sucedeu com o reino de Sião (atual Tailândia), que recebeu ajuda militar portuguesa nas suas guerras com a vizinha Birmânia (atual Myanmar). Refira-se no entanto que, apesar de Portugal ter apoiado o Sião contra a Birmânia, há também neste último país uma pequena comunidade de descendentes de portugueses.

O Mar do Sul da China, no meio do qual se encontra o Vietname, tornou-se deste modo, no séc. XVI, um mar "português". Os negócios que se realizavam nos principais portos situados neste mar eram, inclusivamente, feitos em língua portuguesa. Mesmo muitos anos depois de os holandeses terem conquistado as principais posições que os portugueses detinham neste mar, sobretudo Malaca, já no séc. XVII, a língua portuguesa continuou a ser a lingua franca comercial falada naquela região do globo. Os novos conquistadores holandeses tiveram, eles mesmos, que aprender a falar português para se poderem relacionar com os habitantes dos territórios que tinham conquistado. O uso do português nos contactos comerciais havidos no Mar do Sul da China prolongou-se até ao séc. XVIII, quando a presença portuguesa na região já só se limitava à cidade de Macau.


O Mar do Sul da China, onde o Vietname ocupa uma posição central


Depois de Fernão Peres de Andrade, vários outros portugueses chegaram ao atual Vietname: uns no desempenho de missões oficiais a mando dos vice-reis da Índia, outros (a grande maioria) como mercadores, outros mais (sobretudo padres dominicanos e jesuítas) para fazerem a evangelização (perto de 8% da população do país é cristã) e outros ainda por terem naufragado nas suas costas. O mais famoso náufrago português a pisar solo vietnamita foi Luis de Camões, que naufragou em frente ao delta do rio Mekong, quando se dirigia de Macau para Goa, e chegou a terra nadando com uma mão, enquanto com a outra mão segurava a obra que estava a escrever, "Os Lusíadas".

O principal vestígio da presença de portugueses no Vietname não é de ordem material, isto é, não é nenhum forte nem nenhuma feitoria. É de ordem cultural. Basta pôr os olhos num texto escrito em vietnamita para o ver: é a escrita da língua vietnamita em carateres latinos.

Antigamente, a língua vietnamita era escrita em ideogramas semelhantes aos que são usados na escrita do chinês ou do japonês. Um padre jesuíta português, chamado Francisco de Pina, que se estabeleceu na Cochinchina por volta de 1618, decidiu-se a empreender a romanização da língua, isto é, uma mudança da escrita do vietnamita para carateres latinos, como os que são usados na escrita do português. Enquanto desenvolvia o seu trabalho, que se revelou muito complexo por causa das diversas variantes dialetais e da tonalidade da língua, outros padres se lhe foram juntando, de entre os quais se destacaram Gaspar do Amaral, António Barbosa e um padre italiano chamado Christoforo Borri, os quais, além de participarem no trabalho de transcrição do vietnamita (então chamado anamita) para carateres latinos, redigiram gramáticas e dicionários de anamita-português e português-anamita. Um outro padre, o francês Alexandre de Rhodes, coligiu, harmonizou e completou o trabalho dos seus antecessores, tendo publicado em Roma, em 1651, um dicionário anamita-português-latim, o Dictionarium Annamiticum — Seu Tunkinense cum Lusitana, & Latina declaratione, que foi a primeira obra impressa onde o vietnamita surge escrito em carateres latinos. A publicação deste dicionário marca o nascimento do Quốc Ngữ, isto é, da "língua nacional", como a nova transcrição passou a chamar-se.

Alexandre de Rhodes foi considerado o "pai" do Quốc Ngữ, tendo Francisco de Pina e os restantes padres caído no esquecimento. Este esquecimento foi profundamente injusto, pois um padre francês não teria desenvolvido um trabalho de romanização baseada na língua portuguesa, mas sim na língua francesa ou na latina. Porque o facto é este: o Quốc Ngữ é baseado na língua portuguesa. Por exemplo, o grupo de letras nh é pronunciado em vietnamita de modo semelhante ao português.

Se olharmos por um texto escrito em Quốc Ngữ, isto é, em vietnamita romanizado (que é agora a ortografia oficial da língua, por decreto do presidente Hồ Chí Minh, datado de 1945), veremos uma quantidade incrível de sinais diacríticos (acentos e outros) acrescentados às vogais latinas. Alguns destes sinais dacríticos nunca existiram em português. Poder-se-á perguntar: a que se deve uma tal abundância de sinais? Esta abundância deve-se ao caráter tonal da língua vietnamita, caráter que o português não tem. Em vietnamita e diversas outras línguas asiáticas, a pronúncia não chega para determinar uma dada palavra. O tom com que ela é pronunciada é igualmente importante. Existem seis tons em vietnamita e para se distinguir um tom dos outros é necessário recorrer-se aos referidos sinais diacríticos. Uma palavra pode ter significados diferentes consoante o tom com que é pronunciada. Por exemplo, a palavra ma significa "espírito",  significa "queixo",  significa "mas",  significa "túmulo",  significa "cavalo" e mạ significa "grão de arroz". Note-se que o til não é usado em vietnamita para nasalar a vogal sobre que se encontra, mas sim para indicar uma entoação bem determinada.


AGRADECIMENTO

Agradeço a Raul Silva, da Associação de Amizade Portugal-Vietname (Nampor), o valioso apoio prestado para a elaboração deste texto.


Faiança vietnamita de Bui Thi Hy (1420-1499), do Museu Palácio Topkapi, em Istambul, Turquia, e perspectiva de Hoi-An, da primeira década do século XX

Gravura da cidade de Lisboa no século XVI, numa foto do Museu de Lisboa, e faiança portuguesa do mesmo século, do Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Selos de correio emitidos conjuntamente no Vietname e em Portugal, comemorativos do 5.º centenário do relacionamento entre os dois países