25 abril 2017

Trovas do Mês de Abril

Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
Na esperança de um só dia.

Musa minha vem dizer o que nunca então disse
Esse morrer de viver por um dia em que se visse
um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
um só dia dos teus dias.

Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
musa minha onde contemplo os dias que se passaram
sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
a vida por um só dia.

Já muitas águas correram já muitos rios secaram
batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
Só os dias morreram em que era tão curta a vida
Por um só dia vivida.

E as quatros estações rolaram com seus ritmos e seus ritos.
Ventos do Norte levaram festas jogos brincos ditos.
E as chamas não se apagaram. Que na ideia a lenha ardia
Toda a vida por um dia.

Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas
A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:
Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida
Por um só dia vivida.

Manuel Alegre


O capitão Salgueiro Maia no Largo do Carmo, em Lisboa, no dia 25 de abril de 1974 (Foto: Alfredo Cunha)

24 abril 2017

Acabamos sempre por esquecer tudo

Acabamos sempre por esquecer tudo.

O tempo gera a traição do abandono
e a memória não passa de disfarce.

O que fomos
o que vimos
o que fizemos
o que nos fizeram,
esquecemos tudo.

Acabamos sempre por esquecer tudo.

Esvaiem-se os anos e os corpos
na escuridão que nos persegue.
Mantemos os olhos maquinalmente abertos
mas já nada vemos
do que passou
do que foi.
Já nada persiste.

Restam, talvez, algumas sombras disformes
um ou outro eco mecânico
palavras despidas
o sonho
o pesadelo
um nevoeiro acre e sem fundo…

Esquecemos tudo
nas oportunistas mãos do vácuo,
irmão incestuoso da morte.

Como foi possível esquecer-te, João Cabral?
E tu, Miguel,
e tu, Lourenço,
e tu, povo angolano,
e tu, soldado da minha guerra?!

Os vermes parasitam nossas recordações
cantando hinos de decomposição.

Onde estão o medo, os soluços, o desespero, a raiva?!
Onde estão os mortos, os vivos, as vítimas, os algozes?!

Quase não acredito no que já esqueci.

Mário Brochado Coelho, in Cinco Passos ao Sol, Edições Afrontamento, Porto.


Militares portugueses destacados para a Guerra Colonial, algures no norte de Angola, 1963 (Foto: A. Leitão)

19 abril 2017

Sabedoria indígena brasileira

Palavras de Ailton Krenak, índio da tribo Krenak, do estado de Minas Gerais, um dos mais respeitados líderes indígenas do Brasil

16 abril 2017

Cristo ressuscitado

Cristo Ressuscitado, parte do grupo escultórico de mármore "Ressurreição", do escultor francês Germain Pilon (c. 1528 – 1590), Museu do Louvre, Paris

15 abril 2017

Ya murió mi redentor

Ya murió mi redentor, de frei Vicente Ortiz de Zárate (1750–1791), compositor barroco do México, por Carol Ann Allred, soprano, e o quarteto Chatham Baroque

14 abril 2017

Stabat Mater

Stabat Mater Dolorosa, do compositor renascentista francês Josquin des Prez (c. 1440 – 1521), pelo agrupamento La Chapelle Royale dirigido por Philippe Herreweghe 

09 abril 2017

Tomamos a vila depois de um intenso bombardeamento

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?

Fernando Pessoa (1888–1935)


Em Aleppo, Síria (Foto: AFP)

07 abril 2017

Scott Joplin faleceu há cem anos

Pineapple Rag, de Scott Joplin, por um intérprete não identificado ao piano

No passado dia 1 de abril de 2017 completaram-se cem anos sobre o falecimento do compositor e pianista afro-americano Scott Joplin, com 49 anos de idade. Scott Joplin tornou-se famoso pelas suas composições do género ragtime, algumas das quais atingiram grande popularidade. Também compôs duas óperas, mas perdeu-se a primeira delas, chamada A Guest of Honor.

A segunda ópera de Scott Joplin chama-se Treemonisha, de cujo libreto ele também foi o autor, mas nunca conseguiu vê-la levada à cena. A ópera Treemonisha só foi estreada em 1972!

A ação desta ópera desenrola-se numa comunidade de antigos escravos que vive numa floresta isolada no sul dos Estados Unidos. A história tem como personagem principal uma jovem de 18 anos, chamada Treemonisha, a quem uma mulher branca ensinou a ler e que encabeça a sua comunidade contra a influência de charlatães, que se aproveitam da ignorância e da superstição das pessoas. Treemonisha é raptada e, quando está quase a ser atirada para o meio de um ninho de vespas, é salva pelo seu amigo Remus. A comunidade toma então consciência da sua própria ignorância e da importância da educação, escolhendo Treemonisha para sua professora e líder.


Cena da ópera Treemonisha, de Scott Joplin, por intérpretes não identificados

01 abril 2017

Há mais Castelos Brancos no mundo


Castelo Branco, ilha do Faial, Açores. Em primeiro plano, vê-se o morro de Castelo Branco, uma pequena península sobre a qual se ergueu uma fortificação que deu nome à freguesia. À direita, a ilha do Pico, com o seu imponente cone vulcânico que é o ponto mais alto de Portugal. Em último plano, recorta-se contra o céu o perfil irregular da ilha de São Jorge (Foto: Herbert Terra)


Vista aérea da freguesia de Castelo Branco, ilha do Faial, Açores, onde se localiza o aeroporto que serve a ilha. Ao fundo, o morro de Castelo Branco (Foto de autor desconhecido)


Há mais Castelos Brancos no mundo. Só em Portugal conheço mais dois e no Brasil deve haver mais alguns.

Além da cidade de Castelo Branco, na província dita da "Beira Baixa" ("Baixa" porquê? Acaso o cume da serra da Gardunha fica a uma altitude inferior à da cidade de Viseu, por exemplo?), há em Portugal pelo menos mais duas freguesias chamadas Castelo Branco. Uma fica na ilha do Faial, Região Autónoma dos Açores, e outra fica no concelho de Mogadouro, Trás-os-Montes.

É na freguesia de Castelo Branco, no concelho da Horta, que se situa o aeroporto que serve a ilha do Faial. O nome da freguesia deve-se à existência, no passado, de uma fortificação no cimo de uma pequena península, a qual contribuiu para a defesa da costa sul da ilha contra os ataques dos piratas. Esta fortificação foi construída com pedra vulcânica de cor clara, o que lhe valeu o nome de Castelo Branco. A própria península onde a fortificação se ergueu é constituída por rocha da mesma cor.

Quanto à freguesia de Castelo Branco, no concelho de Mogadouro, a sua origem é muito antiga, devendo-se o seu nome, certamente, à existência de um castro ou outra construção defensiva de cor clara, em contraste com a cor das rochas predominantes na região. O monumento que mais se destaca no Castelo Branco transmontano é, sem qualquer dúvida, um imponente palácio do séc. XVIII, que começou por pertencer aos Távoras e a seguir passou para as mãos dos Morais Pimentel. É o Solar dos Pimentéis, como lhe chamam. Na última vez em que passei por lá, já lá vão vários anos, o solar estava em restauro para vir a ser uma unidade de turismo rural. Entretanto parece que as obras pararam e o restauro ficou por concluir.


Solar dos Pimentéis, Castelo Branco, Mogadouro (Foto: Pedro Castro)


A freguesia de Castelo Branco, Mogadouro, coberta de neve

29 março 2017

Recortes chineses em papel



Proposta de candidatura à UNESCO dos recortes chineses em papel como Património Imaterial da Humanidade, que foi aprovada


A arte dos recortes em papel atingiu níveis extremamente refinados na China, onde ela é chamada jiǎnzhǐ (剪纸). Diz-se habitualmente que esta arte nasceu no séc. II, com a invenção do papel por Cai Lun, ou mesmo só no séc. VI, mas não falta quem refira que esta arte já existia anteriormente, quando os recortes eram feitos em couro, folhas de árvores, tecidos de seda, folhas de ouro e outros materiais.

Originalmente, os recortes em papel eram feitos na China com propósitos religiosos, de adoração aos deuses e de veneração aos antepassados. Atualmente, quase sempre são feitos para terem apenas uma função decorativa e destinam-se a exprimir emoções, anseios e desejos de felicidade. A cor vermelha é a mais usada, pois esta cor está associada na China à alegria e à sorte.


(Foto: U China Visa)

(Foto: U China Visa)

(Foto: Fanghong)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

(Foto: Wuhan Folks Art Publishing House)

26 março 2017

Uma pintura com tintas insólitas



A imagem acima mostra um aquartelamento do Exército Português em Quibala, Zaire, Angola, observado e pintado em 1966 a partir do morro existente no interior da própria Unidade. Pintura de Sérgio O. Sá, historiador e artista plástico, que foi primeiro-cabo enfermeiro da Companhia de Caçadores 1463.

Palavras do autor:
(…)por falta de materiais apropriados, teve de os produzir a partir de comprimidos de quinino diluídos, para os amarelos; tinta de escrever, para os azuis, cor que misturada com a dos quininos dava um esverdeado indefinido; anilina de pintar as botas, para os pretos; mercúrio cromo, para os vermelhos. O branco era o próprio papel suporte ou produzido com comprimidos de aspirina, em pasta. Os pincéis também foram improvisados a partir de pontas de cordel. Com o passar dos anos, as cores mais luminosas desapareceram, restando quase só o desenho da composição.
Sérgio O. Sá, in De Quibala a Malele (Norte de Angola) — No Decorrer de uma Guerra, edição do autor, pág. 289

20 março 2017

Oda a la Primavera

Primavera
temible,
rosa
loca,
llegarás,
llegas
imperceptible,
apenas
un temblor de ala, un beso
de niebla con jazmines,
el sombrero
lo sabe,
los caballos,
el viento
trae una carra verde
que los árboles icen
y comienzan
las hojas
a mirar con un ojo,
a ver de nuevo el mundo,
se convencen.
Todo está preparado,
el viejo sol supremo,
el agua que habla,
todo,
y entonces
salen todas las faldas
del follaje,
la esmeraldina,
loca
primavera,
luz desencadenada,
yegua verde,
todo
se multiplica,
todo
busca
palpando
una materia
que repita su forma,
el germen mueve
pequeños pies sagrados,
el hombre
ciñe
el amor de su amada,
y la tierra se llena
de frescura,
de pétalos que caen
como harina,
la tierra
brilla recién pintada
mostrando
su fragancia
en sus heridas,
los besos de los labios de claveles,
la marea escarlata de la rosa.
Ya está bueno!
Ahora,
primavera,
dime para qué sirves
y a quién sirves.
Dime si el olvidado
en su caverna
recibió tu vista,
si el abogado pobre
en su oficina
vio florecer tus pétalos
sobre la sucia alfombra,
si el minero
de las minas de mi patria
no conoció
más que la primavera negra
del carbón
o el viento envenenado
del azufre.

Primavera,
muchacha,
te esperaba!
Toma esta escoba y barre
el mundo.
Limpia
con este trapo
las fronteras,
sopla
los techos de los hombres,
escarba
el oro
acumulado
y reparte
los bienes
escondidos,
ayúdame
cuando
ya
el
hombre
esté libre
de miseria,
polvo,
harapos,
deudas,
llagas,
dolores,
cuando
con tus transformadoras manos de hada
y las manos del pueblo,
cuando sobre la tierra
el fuego y el amor
toquen tus bailarines
pies de nácar,
cuando
tú, primavera,
entres
a todas
las casas de los hombres,
te amaré sin pecado,
desordenada dalia,
acacia loca,
amada,
contigo, con tu aroma,
con tu abundancia, sin remordimiento
con tu desnuda nieve
abrasadora,
con tus más desbocados manantiales
sin descartar la dicha
de otros hombres,
con la miel misteriosa
de las abejas diurnas,
sin que los negros tengan
que vivir apartados
de los blancos,
oh primavera
de la noche sin pobres,
sin pobreza,
primavera
fragante,
llegarás,
llegas,
te veo
venir por el camino:
ésta es mi casa,
entra,
tardabas,
era hora,
qué bueno es florecer,
qué trabajo
tan bello:
qué activa
obrera eres,
primavera,
tejedora,
labriega,
ordeñadora,
múltiple abeja,
máquina
transparente,
molino de cigarras,
entra
en todas las casas,
adelante,
trabajaremos juntos
en la futura y pura
fecundidad florida.

Pablo Neruda (1904–1973), poeta chileno


19 março 2017

Dinu Lipatti



Concerto para piano e orquestra em lá menor, op. 16, do compositor norueguês Edvard Grieg (1843–1907), pelo pianista romeno Dinu Lipatti (1917–1950) e a Orquestra Philharmonia dirigida por Alceo Galliera


Completam-se hoje cem anos sobre o nascimento de Dinu Lipatti, um dos maiores pianistas do séc. XX, nascido na Roménia e falecido prematuramente aos 33 anos de idade, vítima de uma doença oncológica, o linfoma de Hodgkin.

Dinu Lipatti é um nome que eu conheço quase desde a minha infância, porque em minha casa existia uma coleção de dois discos de vinil, de formato pouco comum, contendo a gravação do último recital por ele dado, em 1950, no Festival de Besançon, três meses antes de morrer. Foi só à força de medicamentos que ele tocou e, mesmo assim, não foi capaz de interpretar a última peça prevista para o recital, que era uma valsa de Chopin. Saiu de cena profundamente combalido e voltou algum tempo depois para tocar, num último fôlego, Jesus, Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach. Esta última peça, porém, não ficou registada em disco.

Estive fortemente tentado a colocar aqui uma das peças por ele tocadas nesse recital, mas desisti. É angustiante ouvi-lo tocar no estado de saúde em que se encontrava. Dinu Lipatti tocou divinamente, como sempre, mas mais morto do que vivo, o que deu uma atmosfera de certo modo etérea ao seu desempenho.

Resolvi colocar aqui uma outra gravação de Dinu Lipatti, quando ele ainda tinha forças e era ovacionado de pé onde quer que atuasse. É o popular concerto para piano e orquestra de Edvard Grieg, uma das obras mais tocadas nas salas de concerto.

Se, mesmo assim, quiser ouvir o conteúdo integral dos discos que referi acima, com o último recital dado por Lipatti em vida, queira apontar para o link seguinte: https://www.youtube.com/watch?v=y8gG7lQdr_0.

16 março 2017

Nas estepes da Ásia Central



Nas Estepes da Ásia Central, poema sinfónico do compositor russo de origem georgiana Alexander Borodin (1833–1887), pela Orquestra Sinfónica Nacional Checa


O compositor Alexander Borodin descreveu assim o seu poema sinfónico Nas Estepes da Ásia Central:

«No silêncio das monótonas estepes da Ásia Central ouve-se o som pouco familiar de uma canção russa. Vinda de longe, ouvimos a aproximação de cavalos e camelos, assim como as notas bizarras e melancólicas de uma melodia oriental. Uma caravana aproxima-se, escoltada por soldados russos, e segue com segurança o seu caminho através do imenso deserto. Desaparece lentamente. As notas das melodias russa e asiática juntam-se numa harmonia comum, que se desvanece à medida que a caravana desaparece na distância.»

10 março 2017

"Renda" de granito


Remate superior do cruzeiro de São João, Castelo Branco (Foto: Direção Geral do Património Cultural)


Castelo Branco é uma cidade assente sobre granito. O granito é uma pedra pouco própria para a escultura, por causa da sua dureza e do grão grosseiro que habitualmente o caracteriza. Porém, não faltam em Castelo Branco esculturas de granito. Só no Jardim do Paço Episcopal há-as aos montes, figurando reis, apóstolos, santos e não sei que mais. Não há forasteiro que visite Castelo Branco e não dê uma volta por este jardim.

Não é, por isso, para as esculturas do Jardim do Paço que eu quero chamar a atenção, pois elas são bem conhecidas, mas sim para um cruzeiro que existe num largo vizinho do jardim, o Largo de São João. É o cruzeiro de S. João, também chamado cruzeiro de Castelo Branco, e está classificado como monumento nacional. Este cruzeiro é uma autêntica "renda" de granito, digna de toda a nossa admiração. Esculpido no séc. XVI, este cruzeiro situava-se em frente a uma igreja, a igreja de São João, que foi demolida em princípios do séc. XX. Segundo o Guia de Portugal, esta igreja não tinha grande interesse. Mesmo assim, foi património que se perdeu. Ficou o cruzeiro que, esse sim, tem muito interesse e merece que nos detenhamos a observá-lo.


Vista geral do cruzeiro de São João, Castelo Branco (Foto: Direção Geral do Património Cultural)

04 março 2017

Pontos


Dots, um filme de animação feito em 1940 por Norman McLaren (1914–1987), cineasta escocês naturalizado canadiano. Este filme foi desenhado por Norman McLaren diretamente na película de celuloide, fotograma a fotograma. O som deste filme também foi gerado por McLaren através de marcas feitas diretamente na banda sonora da película

25 fevereiro 2017

Os primeiros europeus a chegarem ao Butão


Moeda comemorativa cunhada pelo Butão para assinalar a chegada àquele reino do padre jesuíta português João Cabral

À data em que escrevo este artigo ainda não teve lugar a atribuição dos óscares para o ano de 2017. Por isso não sei se o filme Silêncio, de Martin Scorsese, ganhou o não o prémio de Melhor Fotografia. Como é sabido, Silêncio é um filme que aborda a presença de padres jesuítas portugueses no Japão no séc. XVII.

Não foram só a Índia, o Japão e a China os países asiáticos aonde os jesuítas portugueses chegaram. Imbuídos de grande fervor religioso e pondo em prática o intenso proselitismo que caracterizava a Companhia de Jesus, os jesuítas atingiram as mais recônditas paragens da Ásia, tendo sido os primeiros europeus a visitá-las. Por exemplo, o padre jesuíta português António de Andrade foi o primeiro europeu a chegar ao Tibete, facto que ocorreu no ano de 1624.

Pouco depois, dois outros jesuítas, os padres Estêvão Cacela e João Cabral, partiram em 1626 da cidade de Cochim, no sul da Índia, com destino aos Himalaias. Eles foram os primeiros europeus a chegar ao Butão, facto que ocorreu em 1627, assim como ao Nepal e ao Sikkim, um pequeno e antigo reino situado entre o Nepal e o Butão, que é hoje um estado da União Indiana. Mais: eles foram os primeiros europeus a viajar pelos Himalaias no inverno. Acabaram por atingir o Tibete, onde fundaram uma missão na cidade de Xigazê.

Tudo isto não seria mais do que uma mera curiosidade histórica, se não se desse o caso de a viagem destes dois padres portugueses ter tido uma importância fundamental para o estudo da História do Reino do Butão. Sem eles, nada ou quase nada se saberia sobre as circunstâncias em que ocorreu a fundação daquele pequeno reino budista dos Himalaias, empreendida pelo rei (Shabdrung) Ngawang Namgyal, assim como o modo como se então se vivia naquela parte do mundo.

Os padres Estêvão Cacela e João Cabral permaneceram oito meses no Butão. Durante esse tempo, o padre Cacela escreveu uma longa carta ao seu superior em Cochim, relatando a sua viagem e dando conta das observações que fez, nomeadamente no próprio Butão. Esta carta, chamada A Relação, está no Vaticano e é o único relato que se conhece sobre o Shabdrung Ngawang Namgyal e a fundação do Reino do Butão. Não admira, portanto, que Cacela e Cabral sejam duas personalidades que os butaneses conhecem bem dos seus livros de História.



Trailer de um filme da ONG alemã Pro Bhutan e.V. sobre a sua ação no Butão

O Butão é um país encravado nos Himalaias, entre a Índia e a China. Tem um comprimento de cerca de 300 km, uma largura de cerca de 150 km e uma área total de 38 394 km2. A sua altitude varia entre os 300 metros no sul e os mais de 7 mil metros no norte. A população atual ronda os 750 mil habitantes. A capital é Thimphu, com cerca de 100 mil habitantes. O principal produto de exportação do Butão é a eletricidade, que é gerada em barragens e vendida à Índia.

Politicamente, o Butão é desde 2008 uma monarquia constitucional, com um parlamento democraticamente eleito.

Nos anos 90 do século passado, o governo do Butão expulsou a população de etnia Lhotshampa, de origem nepalesa e que constituía um quinto da população total do país, e negou-lhe a cidadania butanesa, tornando-a apátrida. Alguns Lhotshampas têm sido ultimamente autorizados a regressar e a fixar-se em zonas desabitadas do sul.

Na língua oficial do país, chamada Dzongkha, o Butão é chamado Druk Yul, nome que significa "Terra do Dragão do Trovão", por causa das furiosas tempestades que vêm das montanhas dos Himalaias.

Por imposição constitucional, a floresta deve cobrir permanentemente pelo menos 60% da área do país.

A idade média da população butanesa é de 22,3 anos. Um terço da população tem menos de 14 anos.


(Foto: Claude Pesant)

A capital do Butão, Thimphu, é uma das duas únicas capitais asiáticas onde não existem semáforos para regular o trânsito. A outra capital é Pyongyang, na Coreia do Norte.

O Butão é o único país do mundo onde a venda de tabaco é proibida.

Com 7570 metros de altitude, Gangkhar Puensum é a montanha mais alta do Butão e é a mais alta montanha do mundo que nunca foi escalada.

Manda a tradição butanesa que, se alguém lhe oferecer comida, deve recusar, dizendo as palavras «meshu meshu» e cobrindo a boca com as mãos. Se insistirem mais uma ou duas vezes, então pode aceitar.

Se alguém matar um grou de pescoço negro, que é uma espécie de ave sagrada e em risco de extinção, pode ser condenado a prisão perpétua.

O Butão foi um dos últimos países do mundo a ter televisão e internet. A primeira emissão de televisão ocorreu em 2 de junho de 1999.

A religião oficial do Butão é o budismo, que é seguido pela maioria da população. A segunda religião é o hinduísmo.

Perto de 85,5 % dos adultos e quase 24 % dos jovens butaneses são analfabetos.

A primeira autorização dada a estrangeiros para visitarem o Butão como turistas foi dada em 1974.

O Butão é o único país do mundo que absorve mais dióxido de carbono do que emite.

Em vez de usar o Produto Interno Bruto como índice económico, o Butão usa a Felicidade Interna Bruta, com base no desenvolvimento sustentável, proteção ambiental, preservação cultural e boa governação.

Os sacos de plástico estão proibidos no Butão desde 1999.

Pintar falos nas paredes das casas é uma antiga tradição butanesa, destinada a proporcionar fertilidade e boa sorte.





(Fotos de autores desconhecidos)

AGRADECIMENTO

Agradeço a Raul Silva o apoio prestado para a elaboração deste texto.

19 fevereiro 2017

Belezas africanas


Etnia Zulu, África do Sul (Foto de autor desconhecido)


Etnia Tuaregue, Argélia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Mursi, Etiópia (Foto: Isabel Rubin de Celis)


Etnia Fula, Chade (Foto de autor desconhecido)


Etnia não identificada, Moçambique (Foto: Víctor Hugo García Ulloa)


Etnia não identificada, Burkina Faso (Foto: Boaz)


Etnia Somali, Somalilândia (república separatista da Somália não reconhecida internacionalmente) (Foto: Eric Lafforgue)


Etnia não identificada, República Democrática do Congo (Foto: Marie Frechon/Nações Unidas)


Etnia Massai, Tanzânia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Muíla, Angola (Foto de autor desconhecido)


Etnia Himba, Namíbia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Turkana, Quénia (Foto: Eric Lafforgue)


Etnia Bijagó, Guiné-Bissau (Foto de autor desconhecido)

13 fevereiro 2017

A cara de boi

Pormenor de uma casa tradicional do Algarve (Foto: José Júlio Machado)


Era um rei, que tinha três filhos. Um dia disse:

— Pois, filhos, vão correr o mundo, e aquele que trouxer a mulher mais formosa é que há de ficar com o reino.

Partiram todos; os dois mais velhos acharam logo duas raparigas muito formosas, com quem se casaram. Uma era filha de uma padeira e a outra de um ferreiro. O mais novo andou por muitas terras, sem encontrar mulher que lhe agradasse.

Indo um dia por um descampado, cheio de fadiga, desceu do cavalo e deitou-se a uma sombra. Deu-lhe então na vista uma casa muito alta sem porta nenhuma, e só lá bem alto é que tinha uma janela. Esteve ali muito tempo, até que viu vir uma velha, que chegou ao muro da casa, bateu na parede e disse:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

Foi então que ele viu aparecer à janela uma trança de cabelo tão comprida, que ficou espantado com a sua beleza. A velha pegou-se a ela como se fosse uma corda e subiu para dentro de casa. Pouco tempo depois a velha tornou a sair, e o cavaleiro tendo desejo de ver de quem seria a trança, chegou-se à parede, bateu, e repetiu as palavras:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

A trança desceu pela janela abaixo, e o rapaz subiu. Ficou pasmado quando viu diante de si a cara mais linda do mundo. A menina deu um grande ai de aflição:

— Vá-se embora, senhor, que pode vir minha mãe, e tem artes de lhe causar todos os males que há.

— Não vou, sem a menina vir comigo, porque eu assim ganho o reino de meu pai. E se não quiser vir, boto-me desta janela abaixo.

Desceram ambos pela parede, e fugiram a toda a pressa no cavalo que estava folgado à sombra. Ainda não iam longe, quando ouviram uma voz:

— Para, para, filha cruel, não me deixes só no mundo.

E como a filha fosse sempre fugindo com o príncipe, a velha disse-lhe:

— Olha para trás ao menos, para receberes a bênção de tua mãe.

Assim que a menina se virou para trás, ela disse-lhe:

— Eu te fado, que essa cara linda que tens se torne em uma cara de boi.

Coitadinha, ficou logo com cara de boi.

Assim que o príncipe chegou à corte puseram-se todos a rir daquela figura horrenda, sem saber como ele se tinha apaixonado por cousa tão feia, que fazia fugir. O príncipe contou a sua desventura aos irmãos, mas quem é que se fiava? Estava quase a chegar o dia em que os três irmãos haviam de apresentar as suas mulheres diante de toda a corte, para se assentar qual era a mais linda, e qual deles é que havia de ficar com o reino.

A rainha velha tinha muita pena do filho, e lembrou-se de fazer demorar a cerimónia, para ver se a velha com o tempo perdoava à menina e lhe restituía a sua formosura.

Disse a rainha, que queria que antes da cerimónia da corte cada uma das suas três noras lhe bordasse um lenço. A filha da padeira e a do ferreiro não sabiam bordar, e trataram de enganar a rainha, arranjando quem lhes fizesse os bordados; a que tinha cara de boi pôs-se a chorar, e tanto chorou que lhe apareceu a velha, e disse:

— Não te rales mais; no dia em que tiveres de entregar o lenço à rainha eu cá to virei trazer.

Chegou o dia, e a velha veio entregar-lhe uma noz muito pequenina. A cara de boi foi levá-la à rainha, dizendo que ali estava o seu lenço. A rainha quebrou a noz e ficou pasmada com a mais fina cambraia, bordada com flores e ramos e aves.

Chegou o dia de irem à corte para serem apresentadas as três noras do rei; a cara de boi pôs-se a chorar, a chorar, até que lhe apareceu a velha que era mãe dela:

— Não chores mais; trago-te aqui um vestido para a festa. — Desdobrou-o; era todo bordado de ouro e pedrarias; a filha vestiu-o, mas quando o vestido era lindo, tanto ela ficava mais horrenda. E pôs-se a chorar, a chorar cada vez mais.

Quando já todos tinham entrado para a sala, faltava só ela; a velha disse-lhe:

— Vai agora tu.

A filha obedeceu, mais ia muito triste por ver-se tão medonha. Quando ia pelo corredor do palácio, a mãe disse-lhe cá de longe:

— Olha para trás. — E assim que a filha virou a cara, continuou: — Fica com a tua formosura. Mas não te esqueças de meteres nas mangas do vestido todos os bocadinhos de toucinho que puderes para me dar.

Então ela entrou na sala pelo braço do marido, e todos ficaram pasmados. A corte toda confessou que ela é que era a mais linda, e dali foram todos para a mesa do banquete. Enquanto estiveram jantando a menina não fazia senão meter bocadinhos de toucinho nas mangas do vestido; as outras duas, que a viam fazer aquilo, trataram de fazer o mesmo pensando que era moda. Acabado o jantar, começaram as danças, e a rainha ao ver o chão todo besuntado de gordura, e que a cada passo se escorregava em bocados de toucinho, perguntou quem é que fizera aquela porcaria. As damas disseram que o viram fazer à princesa herdeira, e por isso fizeram o mesmo. Começou cada uma a sacudir as mangas dos vestidos, e das mangas da menina começaram a cair aljofres e diamantes misturados com flores; as outras envergonhadas botaram-se pelas janelas fora, pelas escadas, corridas, e a que chamavam cara de boi é que veio a ser a rainha, porque o rei entregou a coroa ao filho.

(Faro, Algarve)

in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

07 fevereiro 2017

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