17 novembro 2017

Alfredo Keil


Leitura de uma Carta, 1874, óleo sobre tela de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Alfredo Keil (1850–1907) é conhecido, sobretudo, como tendo sido o autor da música do Hino Nacional de Portugal, "A Portuguesa". O autor da letra foi Henrique Lopes de Mendonça.

Nascido em Lisboa e de ascendência alemã, tanto por parte do pai como da mãe, o português Alfredo Keil foi um compositor de grande mérito, tendo escrito diversas obras musicais, de entre as quais se destacam "A Portuguesa" e a ópera "Serrana", que é a ópera portuguesa mais levada à cena.

Além de compositor, Alfredo Keil foi poeta, arqueólogo, colecionador de arte e, sobretudo, pintor. Nesta última qualidade, Alfredo Keil pintou centenas de quadros, os quais se inserem na corrente do Romantismo. Pintou sobretudo paisagens melancólicas e interiores requintados.


O Aterro em 1881; No Cais do Tejo, 1881, óleo sobre madeira de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal. Em Lisboa, o Aterro é a zona das docas compreendida entre o Cais do Sodré e o Cais de Alcântara, incluindo a Avenida 24 de Julho


Um Rebanho em Sintra, 1898, óleo sobre tela de Alfredo Keil, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

13 novembro 2017

A viola campaniça


A Viola Campaniça e o despique no Baixo Alentejo, um programa de Michel Giacometti (com a ampla calvície que o caracterizava), incluído na sua série de programas "Povo que Canta", que foi transmitido pela RTP em 1971

A viola campaniça é um instrumento tradicional de uma região do Alentejo que abrange os concelhos de Aljustrel, Ourique, Castro Verde, Almodôvar e parte do concelho de Odemira. Há ainda referências à existência deste cordofone, em tempos passados, em Beja, Serpa, etc.

A viola campaniça pertence ao conjunto de cordofones genericamente chamados violas de arame, conjunto este que inclui as violas braguesa (originária de Braga), ramaldeira (de Ramalde, Porto), amarantina (de Amarante), da terra (das regiões autónomas dos Açores e da Madeira), etc. A viola campaniça é a maior delas todas, com cerca de 95 cm de comprimento, apresenta uma "cintura" muito apertada e tem tradicionalmente dez cordas, ou melhor, cinco ordens de cordas duplas.

Quando, no princípio da década de 70 do século passado, o grande etnomusicólogo Michel Giacometti filmou para a RTP o seu programa sobre a viola campaniça, para a série "Povo que Canta", esta viola estava em franco declínio. Adivinhava-se já a sua completa extinção a breve prazo.

Nos anos 80, a viola campaniça já se encontrava quase extinta. Foi então que José Alberto Sardinha, que é um advogado apaixonado pela música tradicional portuguesa, a ponto de se tornar um respeitadíssimo etnomusicólogo, se interessou por ela e editou, em 1986, um disco em vinil intitulado “Viola Campaniça, o Outro Alentejo”, com gravações dos dois únicos tocadores desta viola que ainda estavam vivos: Manuel Bento e o seu tio Francisco António, naturais da Aldeia Nova (Ourique).

O trabalho de José Alberto Sardinha frutificou e despertou o interesse de outras pessoas, que deram continuidade à reabilitação e recuperação deste instrumento de som tão rústico e tão belo. Foi o caso dos produtores de rádio Rafael Correia, através do seu programa "Lugar ao Sul", transmitido para todo o país pela Antena 1, e José Francisco Colaço Guerreiro, através do seu programa "Património", transmitido pela Rádio Castrense, de Castro Verde.

Presentemente, a viola campaniça está viva e bem viva, graças, nomeadamente, à sua divulgação junto das escolas da região, e é completamente impossível falar-se dela sem fazer referência ao nome de Pedro Mestre, grande cultor e divulgador deste intrumento tradicional do Alentejo.


Viola Campaniça e Pedro Mestre, programa da série "O Povo Que Ainda Canta", realizada para a RTP por Tiago Pereira, mentor do projeto "A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria"

11 novembro 2017

O caminho das estrelas

Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda
sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

Simples nota musical
indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

preciso e inevitável
como o inevitável passado escravo
através das consciências
como o presente

Não abstrato
incolor entre ideais sem cor
sem ritmo entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
dos troncos sem raiz



Mas concreto
vestido do verde
do cheiro das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha das fogueiras infinitas nos capinzais violentados
harmonias spiritual de vozes tamtam
num ritmo claro de África

Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.

Agostinho Neto (1922–1979)


08 novembro 2017

The Negro Speaks of Rivers

I've known rivers:
I've known rivers ancient as the world and older than the
flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln
went down to New Orleans, and I've seen its muddy
bosom turn all golden in the sunset.

I've known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

Langston Hughes (1902–1967), poeta norte-americano


05 novembro 2017

As Índias Galantes


Rondeau "Forêts Paisibles", da ópera Les Indes Galantes, do compositor francês Jean-Philippe Rameau (1683–1764), por Patricia Petibon, no papel de Zima, Nicolas Rivenq, no papel de Adario, orquestra Les Arts Florissants, dirigida por William Christie, coro da Ópera de Paris e corpo de bailarinos executando uma coreografia de Blanca Li

02 novembro 2017

Uma escultura helenística


Alto-relevo em calcáreo, datado de ca. 325–300 A.C., provavelmente oriundo da cidade de Tarento, no sueste de Itália, que foi uma rica colónia grega. Esta escultura representa uma mulher e um guerreiro diante de um altar (parcialmente visível à esquerda), por certo chorando um outro guerreiro morto. Entre eles encontra-se um vaso para libações, no chão, e objetos pertencentes ao guerreiro falecido dependurados na parede do fundo: um elmo, uma couraça e uma espada. Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque, Estados Unidos da América

30 outubro 2017

Castro Marim


Igreja matriz de Castro Marim (Foto: José Varela)

Castro Marim é uma vila situada no extremo oriental do Algarve que, apesar de estar muito próxima da costa com todo o seu afluxo de turistas, tem permanecido, de certa forma, esquecida. A sua reduzida população o confirma: Castro Marim não chega a ter dois mil habitantes. No entanto, Castro Marim foi um importante reduto de defesa do território nacional contra as ambições expansionistas de Espanha, pelo menos até à fundação de Vila Real de Santo António na foz do rio Guadiana, ocorrida no séc. XVIII. As poderosas fortificações que em Castro Marim se encontram não enganam.


Atualmente, o castelo de Castro Marim vigia apenas os flamingos que frequentam o sapal (Foto de autor desconhecido)

Para quem quiser conhecer o Sotavento Algarvio (quero dizer o verdadeiro Sotavento em todas as suas múltiplas facetas), tem em Castro Marim um excelente ponto de partida. Praias, sapal, rio, salinas, serra, Espanha e, um pouco mais longe, a planície alentejana, tudo ou quase tudo está praticamente ao alcance da mão de quem se encontrar em Castro Marim. Poucas localidades algarvias oferecem uma tal variedade de paisagens, tradições e locais diferenciados.



Já que se fala de tradições, não se pode esquecer a arte da renda de bilros, que ainda se pratica em Castro Marim e, sobretudo, na freguesia do Azinhal. Não é preciso vir a Vila do Conde ou a Peniche para apreciar a enorme beleza de uma tão difícil arte. Basta ir ao concelho de Castro Marim.


Renda de bilros de Azinhal e Castro Marim (Foto: Baixo Guadiana)

Entre os muitos locais a merecerem uma atenta visita de quem se encontrar em Castro Marim, contam-se a Serra do Caldeirão e o Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. Agora que o sol se apresenta doirado e (relativamente) morno, com as temperaturas a tenderem a baixar (embora este ano o façam muito tardiamente), é uma excelente ocasião para se passear pela zona húmida e alagadiça do sapal, a sul, ou pelo interminável "mar" de cabeços rescendendo a alfazema e alecrim que constituem a serra, até para além de Alcoutim e do Barranco do Velho, a norte.


O pernilongo (Himantopus himantopus) é o símbolo do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António (Foto: Agostinho Gomes)

27 outubro 2017

Ao jeito cigano

Zigeunerweisen, do compositor espanhol Pablo de Sarasate (1844–1908), uma peça em dó menor inspirada nas csárdás da Hungria, pelo violinista israelo-americano Itzhak Perlman (que foi vítima de poliomielite quando tinha 4 anos de idade) e uma orquestra não identificada dirigida pelo maestro norte-americano James Levine

20 outubro 2017

Dor

Incêndio no histórico Pinhal de Leiria, um dos muitos incêndios florestais ocorridos em Portugal no passado domingo, 15 de outubro de 2017, de que resultaram mais de 40 mortos, cerca de 70 feridos (mais de uma dezena dos quais graves) e muitas centenas de desalojados. A povoação que se vê em primeiro plano é a vila de Vieira de Leiria, que o fogo não atingiu (Foto: Hélio Madeiras)

Uma dor assim, se tivesse podido prevê-la saberia suportá‑la.
Virgílio (70 A.C.–19 A.C.), poeta romano

15 outubro 2017

Sousa Lopes


Num Jardim de Paris, c. 1904-10, óleo sobre madeira de Adriano de Sousa Lopes, Museu Nacional de Arte Comtemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Adriano de Sousa Lopes (1879–1944) foi um eclético pintor e desenhador português, cuja obra oscilou entre o impressionismo e um certo academismo. Participou na 1.ª Guerra Mundial como oficial encarregado de representar graficamente a participação das tropas portuguesas nesse conflito, do que resultou um conjunto de notáveis gravuras a água forte, a que deu o nome de Portugal na Grande Guerra. Além das imagens de guerra, Sousa Lopes pintou e desenhou temas dos mais diversos tipos, como retratos, paisagens, naturezas mortas, cenas históricas, etc.


Caçador de Águias, 1905, óleo sobre tela de Adriano de Sousa Lopes, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


A Blusa Azul, c. 1920, óleo sobre tela de Adriano de Sousa Lopes, Museu de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

13 outubro 2017

Mais música vintage de Angola


Belita Palma, que faleceu em 1988 e foi uma das maiores divas da música popular angolana, interpreta duas canções, uma em quimbundo e outra em português, acompanhada pelo mítico conjunto Ngola Ritmos


Tchinina, cantora natural do Huambo, interpreta em umbundo Somaiangue (Soma Yange na ortografia atual)


A endiabrada Bazooka, de Carlos Lamartine e o seu conjunto Águias Reais. Certamente por razões políticas, no tempo colonial os discos de Carlos Lamartine não passavam na estação de rádio oficial A Voz de Angola. Só no Rádio Clube de Angola era possível ouvi-los. Depois do 25 de abril, com o fim da censura, Carlos Lamartine passou a poder ser tocado em todas as rádios e viu a sua canção Pala Ku Nu Abesa o Muxima tornar-se imediatamente um grande êxito


Manuelé, cantado em quimbundo por Sabu. Tal como aconteceu com Carlos Lamartine, Sabu estava proscrito da rádio oficial A Voz de Angola na época colonial. Era preciso sintonizar o Rádio Clube de Angola para que se pudesse ouvir a sua voz


Milá Melo, que foi outra diva da música popular de Angola, canta em umbundo Vamos à Anhara, acompanhada pelo conjunto Os Kiezos. Anhara ou chana é uma extensa superfície plana, arenosa e alagadiça, muito comum no leste de Angola

10 outubro 2017

Zero em comportamento



Zéro de conduite: Jeunes diables au collège, filme de Jean Vigo (1905–1934), rodado em 1932 e estreado em 1933


Agora que as aulas estão a funcionar em pleno, parece-me ser esta a ocasião indicada para vermos o filme "Zéro de Conduite", do cineasta francês Jean Vigo, falecido em 1934 com apenas 29 anos de idade. Este filme foi por muitos considerado anarquista, por incitar os alunos das escolas e colégios de França à indisciplina e à rebeldia, segundo diziam. Foi proibido pela censura até 1946, como sendo um filme «antifrancês». Esta proibição não impediu que o filme fosse exibido frequentemente nos cineclubes da Bélgica.

"Zéro de Conduite" é um filme marcante, que tem um lugar merecido na história do cinema. Foi rodado em 1932 no colégio para rapazes de Saint-Cloud, nos arredores de Paris, que o próprio realizador frequentou durante parte da sua infância.

No filme, terminadas as férias, os rapazes regressam ao colégio, que é um lugar sombrio e repressivo, onde eles são tratados severamente pelos professores, que lhes atribuem a nota zero em comportamento e os privam de liberdade e de criatividade. Um novo vigilante do colégio, chamado Huguet, torna-se aliado e cúmplice dos rapazes, que desencadeiam uma revolta por ocasião da festa do colégio. O filme termina com os rapazes caminhando livres pelos telhados da repressiva instituição.

06 outubro 2017

A saia de esquilhas


No Algarve (Foto de autor desconhecido)

Um homem rico tinha três filhas, e costumava ir passar o verão com elas para o campo; ao voltar para a corte ficou a filha mais velha, que era muito esperta, encarregada de arranjar a bagagem. Depois de ter tudo arrumado e pronto para partir, foi ter com a caseira da quinta, que andava no arranjo da sua casa. Em cima de uma caixa estava uma roca com estopa, e a menina pegou nela para se entreter:

— Menina, não pegue nessa roca; pode meter alguma pua pelas unhas, e olhe que faz grandes dores.

A velha continuou a governar a sua casa, quando sentiu um grito; veio ver o que era. Era a menina que tinha caído desmaiada, sem sentidos. Deu-lhe a cheirar alecrim, alfazema, mas ela não voltava a si. Apoquentada com aquela desgraça, escondeu a menina, e logo que anoiteceu foi deitá-la na tapada real; pôs-lhe uma almofada para recostar a cabeça e cobriu-a com uma manta, fingindo que estava ali a dormir. Passado outro dia foi lá ver se a menina teria dado acordo de si. Nada. Calou-se muito calada e voltou para sua casa.

O príncipe costumava sempre andar à caça, e num dia recolheu-se áquela tapada, porque lhe anoiteceu depressa; mas foi grande o seu espanto quando descobriu ali uma menina muito formosa, a dormir, sozinha. Esteve primeiro a olhar para ela muito tempo; já se sentia apaixonado, e quis acordá-la; ela estava corada e risonha, mas não se movia. O príncipe quis acordá-la, porque bem conhecia que não estava morta, queria-lhe falar. Foi tudo impossível. Ali ficou junto dela, e todas as vezes que podia, fingia que ia para a caça, mas não fazia senão vir sentar-se para o pé da menina que ele já amava com loucura. Só o criado que o acompanhava é que sabia do segredo. O príncipe vinha à corte de fugida só quando era preciso, e tornava para a tapada, onde guardava a menina adormecida, que ainda assim veio a ter três filhos.

As crianças foram crescendo, e cada vez se tornavam mais encantadoras; mas o príncipe tinha uma grande pena de a mãe estar naquele estado. Um dia, andando um dos pequeninos a brincar em cima da cama, começou a pegar nas unhas da mãe, e por acaso, sem saber como, fez-lhe saltar da unha a pua que causara aquela doença. O príncipe, que estava ali, ficou maravilhado por vê-la mexer-se logo e começar a falar e a beijar os filhos, como se tivesse voltado à vida. O príncipe contou-lhe tudo como se tinha passado até ali, e disse-lhe que os seus três filhos se chamavam Cravo, Rosa e Jasmim. A rainha já andava desconfiada daquelas ausências do filho, e tratava de ver se descobria alguma coisa.

Uma ocasião o príncipe teve de ir a uma grande feira, e perguntou à sua namorada se queria que lhe trouxesse de lá alguma coisa; depois de muitas instâncias sempre disse:

— Pois traz-me de lá uma saia de esquilhas.

Não havia lá isso, mas o príncipe mandou-a fazer de propósito; era uma saia cheia de guisos, que tintelintavam. A menina ficou muito contente com a lembrança. Mas a rainha que maquinava a sua vingança, e que pelo pajem que acompanhava o filho já sabia tudo, fez com que o príncipe se demorasse muitos dias na corte. O filho com medo do génio ruim da rainha não dizia nada, mas andava cheio de saudades; foi de uma vez que ela lhe ouviu um suspiro:

— Ai de mim,

Cravo, Rosa e Jasmim.

Isto lhe confirmou a verdade; a rainha chamou o pajem e disse-lhe:

— Vai já, quando não mando-te matar, e traz-me aqui o menino Cravo. Diz lá á minha nora que é ordem do príncipe, que me contou tudo.

O pajem trouxe o menino; mas a velha rainha entregou-o à criada, dizendo:

— Ensopa-me esse menino para o jantar.

Quando o filho estava jantando, e com fastio, porque andava muito triste, a mãe disse-lhe:

— Come, come, que teu é.

Passados dias a rainha deu ordem ao pajem para ir buscar a menina Rosa. Seguiram-se as mesmas coisas. Depois deu ordem para lhe trazer o menino Jasmim. O príncipe já andava doente, e a velha rainha dizia-lhe sempre à mesa:

— Come, come, que teu é.

Por fim, não contente ainda desta vingança, mandou dizer à nora, que viesse à corte, porque a queria casar com o seu filho. A menina que já andava morta de saudades, por se ver sem os seus filhos, vestiu-se à pressa com a sua saia de esquilhas, e partiu para a corte. A rainha estava à espera dela e assim que a viu, deixou-a entrar para um corredor, e lançou-lhe as unhas furiosa para a afogar. A menina lutou para ver se lhe escapava, e quanto mais lutava, mais barulho fazia a saia de esquilhas.

O príncipe, que estava de cama, assim que ouviu aquele som lembrou-se de sua mulher e levantou-se para ir ver o que era. Viu a rainha querendo estrangular a nora. Chamou gente; e foi então que se soube das ordens que a rainha tinha dado para matarem os netos. O príncipe ainda ficou mais aflito e começou a gritar:

— Ai de mim,

Cravo, Rosa e Jasmim!

Foi então que a criada da cozinha disse que não tinha cumprido as ordens da rainha, e que tinha escondido os meninos. A rainha foi condenada, e o pajem sentenciado à morte, e a cozinheira em paga foi feita dama da nova rainha.

Conto tradicional do Algarve, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

29 setembro 2017

O Mundo à Noite 2017

Fotografia vencedora da categoria Beleza do Céu Noturno — Categoria principal, feita no deserto de Huacachina, no Peru, por Camilo Jaramillo, da Colômbia. No céu, ao meio, ergue-se a majestosa Via Láctea. Mais abaixo, próximo do horizonte, vê-se a Lua e, à esquerda desta, o planeta Vénus


The World At Night (O Mundo à Noite) é um concurso internacional de fotografia que se realiza todos os anos sob os auspícios de uma organização chamada Astronomers Without Borders. Este ano teve lugar a 8.ª edição deste concurso, que contou com a participação de mais de mil imagens, feitas por fotógrafos de 65 países e territórios diferentes. Estas e outras fotografias podem ser vistas na página oficial do concurso.


Fotografia vencedora da categoria Contra as Luzes — Categoria principal. Os astrónomos abominam a poluição luminosa, produzida pelas iluminação artificial dos espaços urbanos, mas esta iluminação presta-se também a belíssimas fotografias. Aqui se pode ver a cidade de Bruxelas, fotografada do ar pelo piloto aviador Ulrich Beinert, da Alemanha


Fotografia vencedora da categoria Beleza do Céu Noturno — Categoria compósita, feita no Lago Duolin, Mongólia Interior, China, por Haitong Yu, também da China. Várias imagens sobrepostas mostram-nos uma "chuva" de estrelas cadentes, chamadas Perseidas por parecerem provir da constelação de Perseu


Fotografia vencedora da categoria Contra as Luzes — Categoria compósita, por Nicholas Römmelt, da Alemanha. Aqui podemos ver uma escalada noturna nas proximidades da queda de água Lehner, sobre o vale chamado Öztal, Áustria


Fotografia vencedora da categoria Beleza do Céu Noturno — Câmara Rápida e Sequência, feita na Sicília por Dario Giannobile, da Itália. Em primeiro plano, um espelho virado para Norte reflete o céu noturno em torno da Estrela Polar. Os arcos que se veem na imagem, tanto em primeiro como em último plano, resultam de um longo tempo de exposição da câmara fotográfica e mostram as estrelas no seu movimento aparente, à medida que a Terra vai girando em torno do seu eixo no seu movimento de rotação. O arco mais pequeno que se vê no centro do espelho é a própria Estrela Polar, que não indica rigorosamente o Norte, mas apenas muito aproximadamente


Fotografia vencedora da categoria Contra as Luzes — Câmara Rápida e Sequência, feita por Amirreza Kamkar, do Irão, no Parque Nacional Chitwan, Nepal. Os riscos verdes que se veem em primeiro plano foram produzidos por pirilampos


Fotografia vencedora da categoria A Beleza do Céu Noturno — Auroras Boreais e Austrais, feita na Ilha Senja, Noruega, por Nicholas Römmelt, da Alemanha


Fotografia vencedora da categoria Contra as Luzes — Auroras Boreais e Austrais, feita por Sigurður William Brynjarsson, da Islândia

25 setembro 2017

Morte na picada

ao José Gouveia
11-01-1971

O silêncio ouvia-se no ondular do capim
As aves emigravam antes de tempo
O ar não tinha cheiro
Cada palmo de picada era um segredo
Bem longe bebia-se whisky no jardim
Mas no mato a vida era um mísero momento
Seis tábuas a acolher o teu corpo
Se ficasses inteiro
Honras depois de morto
Uma medalha póstuma para calar o teu medo
E foste a enterrar com a raiva como mortalha
E até pensaram que morreste contente
Um funeral com a presença de uma alta patente
E um discurso a dizer que caíste de pé, como uma muralha
Eu fui e voltei
Maldizendo a hora em que não desertei
Uma mina fez crescer a minha revolta
Ao ver-te morto ali mesmo a meu lado
Um bom amigo, mas outro pobre soldado
Que é obrigado a ir e que não volta.
O fumo era muito mas deu para ver a tua dor
O ar tinha o aroma ácido do trotil
Embaciava o teu olhar sem vida a dizer adeus
O teu sangue a borbotar sem nada poder fazer
E senti ódio, sim, ódio, raiva, rancor
Ao ver a tua mão trémula a acariciar o fuzil
De que lado estavas tu, Deus
Que deixaste que nos treinassem para morrer?
31 de dezembro de 2003

Carlos Luzio (1947– 2004), ex-alferes miliciano em Moçambique, in Pescador de Sonhos (Poemas de Guerra), edição póstuma, 2005


Era assim, com a desumana frieza de um telegrama entregue por um estafeta dos CTT, que o regime fascista transmitia, aos familiares dos combatentes portugueses na guerra colonial em África, a notícia da morte do seu filho, irmão, marido ou o que quer que fosse o seu grau de parentesco. Quantas mães, muitas delas analfabetas, receberam um telegrama igual a este. Sobressaltadas, iam a correr chamar uma vizinha que soubesse ler, com o coração apertado, mais pequeno do que uma ervilha, adivinhando já o conteúdo do telegrama. A vizinha, que só tinha a terceira classe, lia-lhe (ou melhor, soletrava-lhe), com a voz embargada, a brutal notícia: «Sua Ex.cia Ministro do Exército tem pesar comunicar falecimento seu filho soldado (…) ocorrido dia 3 corrente Moçambique por motivo combate defesa da Pátria. Sua Ex.cia apresenta mais sentidas condolências. Comandante Depósito Geral Adidos Lisboa».

21 setembro 2017

Demarcação, já!

Canção a favor da demarcação das terras indígenas no Brasil, gravada numa ocasião em que os direitos dos índios brasileiros são seriamente postos em causa. Por exemplo, foi noticiada muito recentemente a provável chacina de um grupo de índios não-contactados na Amazónia

18 setembro 2017

Um cachimbo angolano

Cachimbo, de um escultor impossível de identificar, da província de Benguela, Angola. Existe, no boné da figura masculina, uma assinatura ilegível, que é certamente a assinatura do artista. As cabeças das figuras mexem-se. Real Museu da África Central, Tervuren, Bélgica

16 setembro 2017

Prémios Ig Nobel 2017

Desta, nem Erwin Schrödinger se lembrou: um gato pode ser sólido e líquido ao mesmo tempo? (Foto: g-stockstudio/iStockphoto)

Existem os prémios Nobel, cujos galardoados para 2017 só serão conhecidos lá mais para o fim do ano, e existem os prémios anti-Nobel, chamados prémios Ig Nobel, cujos galardoados foram agora tornados públicos, numa cerimónia ocorrida no Teatro Sanders da Universidade de Harvard, Estados Unidos, no dia 14 de setembro de 2017. Durante a cerimónia foi estreada uma ópera chamada Ópera da Incompetência, sobre o princípio de Peter e o efeito de Dunning-Kruger, que tentam explicar porque é que as pessoas incompetentes atingem o topo da carreira. Os galardoados com o prémio Ig Nobel 2017 receberam um prémio de 10 biliões de dólares do Zimbabwe, cujo valor real é de alguns cêntimos.

Os prémios Ig Nobel são atribuídos todos os anos pela revista humorístico-científica Annals of Improbable Research, que tem como lema «Investigação que faz rir primeiro e pensar depois». Os galardoados com o prémio Ig Nobel 2017 foram os seguintes:

Prémio Ig Nobel 2017 da Física — Marc-Antoine Fardin, por se servir da dinâmica dos fluidos para resolver a questão "Poderá um gato ser sólido e líquido ao mesmo tempo?";

Prémio Ig Nobel 2017 da Paz — Milo Puhan, Alex Suarez, Christian Lo Cascio, Alfred Zahn, Markus Heitz e Otto Braendli, por demonstrarem que tocar um didgeridoo (instrumento de sopro dos aborígenes australianos) é eficaz no tratamento da apneia obstrutiva do sono e no ressonar;

Prémio Ig Nobel 2017 da Economia — Matthew Rockloff e Nancy Greer, pelas suas experiências a respeito da influência do contacto com um crocodilo vivo sobre a vontade de participar em jogos de azar;

Prémio Ig Nobel 2017 da Anatomia — James Heathcote, pelo seu estudo médico "Porque é que os homens idosos têm orelhas grandes?";

Prémio Ig Nobel 2017 da Biologia — Kazunori Yoshizawa, Rodrigo Ferreira, Yoshitaka Kamimura e Charles Lienhard, pela sua descoberta de um pénis feminino e uma vagina masculina em insetos de uma caverna;

Prémio Ig Nobel 2017 da Dinâmica dos Fluidos — Jiwon Han, por estudar a dinâmica do derrame de líquidos, ao descobrir o que acontece quando uma pessoa anda para trás com uma chávena de café na mão;

Prémio Ig Nobel 2017 da Nutrição — Fernanda Ito, Enrico Bernard e Rodrigo Torres, pelo primeiro relato da existência de sangue humano na dieta dos morcegos vampiros de pernas peludas;

Prémio Ig Nobel 2017 da Medicina — Jean-Pierre Royet, David Meunier, Nicolas Torquet, Anne-Marie Mouly e Tao Jiang, por utilizarem uma tecnologia avançada de imagiologia cerebral para medirem até que ponto algumas pessoas não gostam de queijo;

Prémio Ig Nobel 2017 da Cognição — Matteo Martini, Ilaria Bufalari, Maria Antonietta Stazi e Salvatore Maria Aglioti, por demonstrarem que muitos gémeos idênticos não conseguem distinguir-se visualmente entre si;

Prémio Ig Nobel 2017 da Obstetrícia — Marisa López-Teijón, Álex García-Faura, Alberto Prats-Galino e Luis Pallarés Aniorte, por mostrarem que um feto humano reage mais fortemente à música tocada eletromecanicamente dentro da vagina da mãe, do que à música tocada eletromecanicamente sobre a barriga da mãe. Ao seu dispositivo musical vaginal puseram o nome de "babypod".

09 setembro 2017

Peguei na Serra da Estrela

Peguei na Serra da Estrela
para serrar uma cadeira
e apanhei um nevão
numa serra de madeira.

Com as linhas dos comboios
bordei um lindo bordado,
quando o comboio passou
o pano ficou rasgado.

Nas ondas do teu cabelo
já pesquei duas pescadas.
Olha para as ondas do mar,
como estão despenteadas.

Guardo o dinheiro no banco,
guardo o banco na cozinha.
Tenho cem contos de fadas,
que grande fortuna a minha.

Com medo que algum ladrão
um dia me vá roubar,
mandei pôr na minha porta
três grossas correntes de ar.

Encomendei um cachorro
naquela pastelaria;
quem havia de dizer
que o maroto me mordia?!

Apanhei uma raposa
no exame e estou feliz:
vejam que lindo casaco
com a sua pele eu fiz.

Entrei numa carruagem
para voltar à minha terra,
enganei-me na estação
e desci na Primavera!

Luísa Ducla Soares, escritora portuguesa


(Foto: José Varela)

03 setembro 2017

Johann Nepomuk Hummel

Concerto para bandolim em sol maior S. 28 (número 28 do catálogo elaborado por Joel Sachs), de Johann Nepomuk Hummel (1778–1837), por André Saint-Olivier, em bandolim, e a Orquestra de Câmara de Jean-François Paillard dirigida por Jean-François Paillard

Johann Nepomuk Hummel foi um compositor nascido em 1778 na cidade de Bratislava, que era então parte do Reino da Hungria, o qual se encontrava subordinado ao poder dos Habsburgos, que reinavam na Áustria. Diz-se, por isso, que ele era austríaco. Se fosse hoje, seria eslovaco. Faleceu em Weimar, na Alemanha, em 1837.

Johann Nepomuk Hummel foi aluno de Mozart, entre outros grandes mestres, e amigo pessoal de Beethoven. Distinguiu-se como pianista, um dos maiores do seu tempo, e mostrou-se muito interessado na guitarra e outros instrumentos de corda dedilhada, que também tocava com grande proficiência. Compôs numerosas obras dos mais diversos géneros, sobretudo para piano, mas não compôs uma única sinfonia. A sua música inseria-se na corrente clássica, evoluindo na continuidade da música de Haydn e de Mozart. Ao mesmo tempo, o revolucionário Beethoven rasgava o caminho de uma nova corrente musical, a corrente romântica. Com o triunfo do Romantismo sobre o Classicismo ao longo do séc. XIX, graças ao próprio Beethoven, Liszt, Schumann e muitos outros, a música de Hummel passou a ser considerada antiquada e mergulhou no quase esquecimento. De qualquer modo, enquanto foi vivo, Johann Nepomuk Hummel foi muito apreciado como compositor e muito aclamado como pianista.

Nos últimos anos tem-se assistido à redescoberta da música de Johann Nepomuk Hummel. As gravações e os concertos multiplicam-se pelo mundo. As rádios clássicas também vão passando cada vez mais música dele, sobretudo alguns dos seus concertos para piano e o seu concerto para trompete, que é talvez a sua obra mais popular. Todas as rádios clássicas? Não. Tal como a aldeia do Astérix, a Antena 2 resiste, insistindo em ignorar a música de Johann Nepomuk Hummel. Só por milagre é possível ouvir nesta rádio pública portuguesa alguma peça dele, e quando passa é sempre o concerto para trompete e é sempre na interpretação de Wynton Marsalis. É claro que Marsalis não tem culpa nenhuma, ele é um extraordinário trompetista, que toca jazz com tanto à-vontade como toca música clássica. Não é o Wynton Marsalis que ponho em causa, é a pouquíssima importância que a Antena 2 dá à música de Johann Nepomuk Hummel.


Concerto para trompete em mi bemol maior S. 49, de Johann Nepomuk Hummel (1778–1837), por Maurice André, em trompete, e o Ensemble Orquestral de Paris dirigido por Jean-Pierre Wallez