20 março 2017

Oda a la Primavera

Primavera
temible,
rosa
loca,
llegarás,
llegas
imperceptible,
apenas
un temblor de ala, un beso
de niebla con jazmines,
el sombrero
lo sabe,
los caballos,
el viento
trae una carra verde
que los árboles icen
y comienzan
las hojas
a mirar con un ojo,
a ver de nuevo el mundo,
se convencen.
Todo está preparado,
el viejo sol supremo,
el agua que habla,
todo,
y entonces
salen todas las faldas
del follaje,
la esmeraldina,
loca
primavera,
luz desencadenada,
yegua verde,
todo
se multiplica,
todo
busca
palpando
una materia
que repita su forma,
el germen mueve
pequeños pies sagrados,
el hombre
ciñe
el amor de su amada,
y la tierra se llena
de frescura,
de pétalos que caen
como harina,
la tierra
brilla recién pintada
mostrando
su fragancia
en sus heridas,
los besos de los labios de claveles,
la marea escarlata de la rosa.
Ya está bueno!
Ahora,
primavera,
dime para qué sirves
y a quién sirves.
Dime si el olvidado
en su caverna
recibió tu vista,
si el abogado pobre
en su oficina
vio florecer tus pétalos
sobre la sucia alfombra,
si el minero
de las minas de mi patria
no conoció
más que la primavera negra
del carbón
o el viento envenenado
del azufre.

Primavera,
muchacha,
te esperaba!
Toma esta escoba y barre
el mundo.
Limpia
con este trapo
las fronteras,
sopla
los techos de los hombres,
escarba
el oro
acumulado
y reparte
los bienes
escondidos,
ayúdame
cuando
ya
el
hombre
esté libre
de miseria,
polvo,
harapos,
deudas,
llagas,
dolores,
cuando
con tus transformadoras manos de hada
y las manos del pueblo,
cuando sobre la tierra
el fuego y el amor
toquen tus bailarines
pies de nácar,
cuando
tú, primavera,
entres
a todas
las casas de los hombres,
te amaré sin pecado,
desordenada dalia,
acacia loca,
amada,
contigo, con tu aroma,
con tu abundancia, sin remordimiento
con tu desnuda nieve
abrasadora,
con tus más desbocados manantiales
sin descartar la dicha
de otros hombres,
con la miel misteriosa
de las abejas diurnas,
sin que los negros tengan
que vivir apartados
de los blancos,
oh primavera
de la noche sin pobres,
sin pobreza,
primavera
fragante,
llegarás,
llegas,
te veo
venir por el camino:
ésta es mi casa,
entra,
tardabas,
era hora,
qué bueno es florecer,
qué trabajo
tan bello:
qué activa
obrera eres,
primavera,
tejedora,
labriega,
ordeñadora,
múltiple abeja,
máquina
transparente,
molino de cigarras,
entra
en todas las casas,
adelante,
trabajaremos juntos
en la futura y pura
fecundidad florida.

Pablo Neruda (1904–1973), poeta chileno


19 março 2017

Dinu Lipatti



Concerto para piano e orquestra em lá menor, op. 16, do compositor norueguês Edvard Grieg (1843–1907), pelo pianista romeno Dinu Lipatti (1917–1950) e a Orquestra Philharmonia dirigida por Alceo Galliera


Completam-se hoje cem anos sobre o nascimento de Dinu Lipatti, um dos maiores pianistas do séc. XX, nascido na Roménia e falecido prematuramente aos 33 anos de idade, vítima de uma doença oncológica, o linfoma de Hodgkin.

Dinu Lipatti é um nome que eu conheço quase desde a minha infância, porque em minha casa existia uma coleção de dois discos de vinil, de formato pouco comum, contendo a gravação do último recital por ele dado, em 1950, no Festival de Besançon, três meses antes de morrer. Foi só à força de medicamentos que ele tocou e, mesmo assim, não foi capaz de interpretar a última peça prevista para o recital, que era uma valsa de Chopin. Saiu de cena profundamente combalido e voltou algum tempo depois para tocar, num último fôlego, Jesus, Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach. Esta última peça, porém, não ficou registada em disco.

Estive fortemente tentado a colocar aqui uma das peças por ele tocadas nesse recital, mas desisti. É angustiante ouvi-lo tocar no estado de saúde em que se encontrava. Dinu Lipatti tocou divinamente, como sempre, mas mais morto do que vivo, o que deu uma atmosfera de certo modo etérea ao seu desempenho.

Resolvi colocar aqui uma outra gravação de Dinu Lipatti, quando ele ainda tinha forças e era ovacionado de pé onde quer que atuasse. É o popular concerto para piano e orquestra de Edvard Grieg, uma das obras mais tocadas nas salas de concerto.

Se, mesmo assim, quiser ouvir o conteúdo integral dos discos que referi acima, com o último recital dado por Lipatti em vida, queira apontar para o link seguinte: https://www.youtube.com/watch?v=y8gG7lQdr_0.

16 março 2017

Nas estepes da Ásia Central



Nas Estepes da Ásia Central, poema sinfónico do compositor russo de origem georgiana Alexander Borodin (1833–1887), pela Orquestra Sinfónica Nacional Checa


O compositor Alexander Borodin descreveu assim o seu poema sinfónico Nas Estepes da Ásia Central:

«No silêncio das monótonas estepes da Ásia Central ouve-se o som pouco familiar de uma canção russa. Vinda de longe, ouvimos a aproximação de cavalos e camelos, assim como as notas bizarras e melancólicas de uma melodia oriental. Uma caravana aproxima-se, escoltada por soldados russos, e segue com segurança o seu caminho através do imenso deserto. Desaparece lentamente. As notas das melodias russa e asiática juntam-se numa harmonia comum, que se desvanece à medida que a caravana desaparece na distância.»

10 março 2017

"Renda" de granito


Remate superior do cruzeiro de São João, Castelo Branco (Foto: Direção Geral do Património Cultural)


Castelo Branco é uma cidade assente sobre granito. O granito é uma pedra pouco própria para a escultura, por causa da sua dureza e do grão grosseiro que habitualmente o caracteriza. Porém, não faltam em Castelo Branco esculturas de granito. Só no Jardim do Paço Episcopal há-as aos montes, figurando reis, apóstolos, santos e não sei que mais. Não há forasteiro que visite Castelo Branco e não dê uma volta por este jardim.

Não é, por isso, para as esculturas do Jardim do Paço que eu quero chamar a atenção, pois elas são bem conhecidas, mas sim para um cruzeiro que existe num largo vizinho do jardim, o Largo de São João. É o cruzeiro de S. João, também chamado cruzeiro de Castelo Branco, e está classificado como monumento nacional. Este cruzeiro é uma autêntica "renda" de granito, digna de toda a nossa admiração. Esculpido no séc. XVI, este cruzeiro situava-se em frente a uma igreja, a igreja de São João, que foi demolida em princípios do séc. XX. Segundo o Guia de Portugal, esta igreja não tinha grande interesse. Mesmo assim, foi património que se perdeu. Ficou o cruzeiro que, esse sim, tem muito interesse e merece que nos detenhamos a observá-lo.


Vista geral do cruzeiro de São João, Castelo Branco (Foto: Direção Geral do Património Cultural)

04 março 2017

Pontos


Dots, um filme de animação feito em 1940 por Norman McLaren (1914–1987), cineasta escocês naturalizado canadiano. Este filme foi desenhado por Norman McLaren diretamente na película de celuloide, fotograma a fotograma. O som deste filme também foi gerado por McLaren através de marcas feitas diretamente na banda sonora da película

25 fevereiro 2017

Os primeiros europeus a chegarem ao Butão


Moeda comemorativa cunhada pelo Butão para assinalar a chegada àquele reino do padre jesuíta português João Cabral

À data em que escrevo este artigo ainda não teve lugar a atribuição dos óscares para o ano de 2017. Por isso não sei se o filme Silêncio, de Martin Scorsese, ganhou o não o prémio de Melhor Fotografia. Como é sabido, Silêncio é um filme que aborda a presença de padres jesuítas portugueses no Japão no séc. XVII.

Não foram só a Índia, o Japão e a China os países asiáticos aonde os jesuítas portugueses chegaram. Imbuídos de grande fervor religioso e pondo em prática o intenso proselitismo que caracterizava a Companhia de Jesus, os jesuítas atingiram as mais recônditas paragens da Ásia, tendo sido os primeiros europeus a visitá-las. Por exemplo, o padre jesuíta português António de Andrade foi o primeiro europeu a chegar ao Tibete, facto que ocorreu no ano de 1624.

Pouco depois, dois outros jesuítas, os padres Estêvão Cacela e João Cabral, partiram em 1626 da cidade de Cochim, no sul da Índia, com destino aos Himalaias. Eles foram os primeiros europeus a chegar ao Butão, facto que ocorreu em 1627, assim como ao Nepal e ao Sikkim, um pequeno e antigo reino situado entre o Nepal e o Butão, que é hoje um estado da União Indiana. Mais: eles foram os primeiros europeus a viajar pelos Himalaias no inverno. Acabaram por atingir o Tibete, onde fundaram uma missão na cidade de Xigazê.

Tudo isto não seria mais do que uma mera curiosidade histórica, se não se desse o caso de a viagem destes dois padres portugueses ter tido uma importância fundamental para o estudo da História do Reino do Butão. Sem eles, nada ou quase nada se saberia sobre as circunstâncias em que ocorreu a fundação daquele pequeno reino budista dos Himalaias, empreendida pelo rei (Shabdrung) Ngawang Namgyal, assim como o modo como se então se vivia naquela parte do mundo.

Os padres Estêvão Cacela e João Cabral permaneceram oito meses no Butão. Durante esse tempo, o padre Cacela escreveu uma longa carta ao seu superior em Cochim, relatando a sua viagem e dando conta das observações que fez, nomeadamente no próprio Butão. Esta carta, chamada A Relação, está no Vaticano e é o único relato que se conhece sobre o Shabdrung Ngawang Namgyal e a fundação do Reino do Butão. Não admira, portanto, que Cacela e Cabral sejam duas personalidades que os butaneses conhecem bem dos seus livros de História.



Trailer de um filme da ONG alemã Pro Bhutan e.V. sobre a sua ação no Butão

O Butão é um país encravado nos Himalaias, entre a Índia e a China. Tem um comprimento de cerca de 300 km, uma largura de cerca de 150 km e uma área total de 38 394 km2. A sua altitude varia entre os 300 metros no sul e os mais de 7 mil metros no norte. A população atual ronda os 750 mil habitantes. A capital é Thimphu, com cerca de 100 mil habitantes. O principal produto de exportação do Butão é a eletricidade, que é gerada em barragens e vendida à Índia.

Politicamente, o Butão é desde 2008 uma monarquia constitucional, com um parlamento democraticamente eleito.

Nos anos 90 do século passado, o governo do Butão expulsou a população de etnia Lhotshampa, de origem nepalesa e que constituía um quinto da população total do país, e negou-lhe a cidadania butanesa, tornando-a apátrida. Alguns Lhotshampas têm sido ultimamente autorizados a regressar e a fixar-se em zonas desabitadas do sul.

Na língua oficial do país, chamada Dzongkha, o Butão é chamado Druk Yul, nome que significa "Terra do Dragão do Trovão", por causa das furiosas tempestades que vêm das montanhas dos Himalaias.

Por imposição constitucional, a floresta deve cobrir permanentemente pelo menos 60% da área do país.

A idade média da população butanesa é de 22,3 anos. Um terço da população tem menos de 14 anos.


(Foto: Claude Pesant)

A capital do Butão, Thimphu, é uma das duas únicas capitais asiáticas onde não existem semáforos para regular o trânsito. A outra capital é Pyongyang, na Coreia do Norte.

O Butão é o único país do mundo onde a venda de tabaco é proibida.

Com 7570 metros de altitude, Gangkhar Puensum é a montanha mais alta do Butão e é a mais alta montanha do mundo que nunca foi escalada.

Manda a tradição butanesa que, se alguém lhe oferecer comida, deve recusar, dizendo as palavras «meshu meshu» e cobrindo a boca com as mãos. Se insistirem mais uma ou duas vezes, então pode aceitar.

Se alguém matar um grou de pescoço negro, que é uma espécie de ave sagrada e em risco de extinção, pode ser condenado a prisão perpétua.

O Butão foi um dos últimos países do mundo a ter televisão e internet. A primeira emissão de televisão ocorreu em 2 de junho de 1999.

A religião oficial do Butão é o budismo, que é seguido pela maioria da população. A segunda religião é o hinduísmo.

Perto de 85,5 % dos adultos e quase 24 % dos jovens butaneses são analfabetos.

A primeira autorização dada a estrangeiros para visitarem o Butão como turistas foi dada em 1974.

O Butão é o único país do mundo que absorve mais dióxido de carbono do que emite.

Em vez de usar o Produto Interno Bruto como índice económico, o Butão usa a Felicidade Interna Bruta, com base no desenvolvimento sustentável, proteção ambiental, preservação cultural e boa governação.

Os sacos de plástico estão proibidos no Butão desde 1999.

Pintar falos nas paredes das casas é uma antiga tradição butanesa, destinada a proporcionar fertilidade e boa sorte.





(Fotos de autores desconhecidos)

AGRADECIMENTO

Agradeço a Raul Silva o apoio prestado para a elaboração deste texto.

19 fevereiro 2017

Belezas africanas


Etnia Zulu, África do Sul (Foto de autor desconhecido)


Etnia Tuaregue, Argélia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Mursi, Etiópia (Foto: Isabel Rubin de Celis)


Etnia Fula, Chade (Foto de autor desconhecido)


Etnia não identificada, Moçambique (Foto: Víctor Hugo García Ulloa)


Etnia não identificada, Burkina Faso (Foto: Boaz)


Etnia Somali, Somalilândia (república separatista da Somália não reconhecida internacionalmente) (Foto: Eric Lafforgue)


Etnia não identificada, República Democrática do Congo (Foto: Marie Frechon/Nações Unidas)


Etnia Massai, Tanzânia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Muíla, Angola (Foto de autor desconhecido)


Etnia Himba, Namíbia (Foto de autor desconhecido)


Etnia Turkana, Quénia (Foto: Eric Lafforgue)


Etnia Bijagó, Guiné-Bissau (Foto de autor desconhecido)

13 fevereiro 2017

A cara de boi

Pormenor de uma casa tradicional do Algarve (Foto: José Júlio Machado)


Era um rei, que tinha três filhos. Um dia disse:

— Pois, filhos, vão correr o mundo, e aquele que trouxer a mulher mais formosa é que há de ficar com o reino.

Partiram todos; os dois mais velhos acharam logo duas raparigas muito formosas, com quem se casaram. Uma era filha de uma padeira e a outra de um ferreiro. O mais novo andou por muitas terras, sem encontrar mulher que lhe agradasse.

Indo um dia por um descampado, cheio de fadiga, desceu do cavalo e deitou-se a uma sombra. Deu-lhe então na vista uma casa muito alta sem porta nenhuma, e só lá bem alto é que tinha uma janela. Esteve ali muito tempo, até que viu vir uma velha, que chegou ao muro da casa, bateu na parede e disse:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

Foi então que ele viu aparecer à janela uma trança de cabelo tão comprida, que ficou espantado com a sua beleza. A velha pegou-se a ela como se fosse uma corda e subiu para dentro de casa. Pouco tempo depois a velha tornou a sair, e o cavaleiro tendo desejo de ver de quem seria a trança, chegou-se à parede, bateu, e repetiu as palavras:

Arcelo, arcelo,
Deita o teu cabelo
Cá abaixo de repente,
Quero subir imediatamente.

A trança desceu pela janela abaixo, e o rapaz subiu. Ficou pasmado quando viu diante de si a cara mais linda do mundo. A menina deu um grande ai de aflição:

— Vá-se embora, senhor, que pode vir minha mãe, e tem artes de lhe causar todos os males que há.

— Não vou, sem a menina vir comigo, porque eu assim ganho o reino de meu pai. E se não quiser vir, boto-me desta janela abaixo.

Desceram ambos pela parede, e fugiram a toda a pressa no cavalo que estava folgado à sombra. Ainda não iam longe, quando ouviram uma voz:

— Para, para, filha cruel, não me deixes só no mundo.

E como a filha fosse sempre fugindo com o príncipe, a velha disse-lhe:

— Olha para trás ao menos, para receberes a bênção de tua mãe.

Assim que a menina se virou para trás, ela disse-lhe:

— Eu te fado, que essa cara linda que tens se torne em uma cara de boi.

Coitadinha, ficou logo com cara de boi.

Assim que o príncipe chegou à corte puseram-se todos a rir daquela figura horrenda, sem saber como ele se tinha apaixonado por cousa tão feia, que fazia fugir. O príncipe contou a sua desventura aos irmãos, mas quem é que se fiava? Estava quase a chegar o dia em que os três irmãos haviam de apresentar as suas mulheres diante de toda a corte, para se assentar qual era a mais linda, e qual deles é que havia de ficar com o reino.

A rainha velha tinha muita pena do filho, e lembrou-se de fazer demorar a cerimónia, para ver se a velha com o tempo perdoava à menina e lhe restituía a sua formosura.

Disse a rainha, que queria que antes da cerimónia da corte cada uma das suas três noras lhe bordasse um lenço. A filha da padeira e a do ferreiro não sabiam bordar, e trataram de enganar a rainha, arranjando quem lhes fizesse os bordados; a que tinha cara de boi pôs-se a chorar, e tanto chorou que lhe apareceu a velha, e disse:

— Não te rales mais; no dia em que tiveres de entregar o lenço à rainha eu cá to virei trazer.

Chegou o dia, e a velha veio entregar-lhe uma noz muito pequenina. A cara de boi foi levá-la à rainha, dizendo que ali estava o seu lenço. A rainha quebrou a noz e ficou pasmada com a mais fina cambraia, bordada com flores e ramos e aves.

Chegou o dia de irem à corte para serem apresentadas as três noras do rei; a cara de boi pôs-se a chorar, a chorar, até que lhe apareceu a velha que era mãe dela:

— Não chores mais; trago-te aqui um vestido para a festa. — Desdobrou-o; era todo bordado de ouro e pedrarias; a filha vestiu-o, mas quando o vestido era lindo, tanto ela ficava mais horrenda. E pôs-se a chorar, a chorar cada vez mais.

Quando já todos tinham entrado para a sala, faltava só ela; a velha disse-lhe:

— Vai agora tu.

A filha obedeceu, mais ia muito triste por ver-se tão medonha. Quando ia pelo corredor do palácio, a mãe disse-lhe cá de longe:

— Olha para trás. — E assim que a filha virou a cara, continuou: — Fica com a tua formosura. Mas não te esqueças de meteres nas mangas do vestido todos os bocadinhos de toucinho que puderes para me dar.

Então ela entrou na sala pelo braço do marido, e todos ficaram pasmados. A corte toda confessou que ela é que era a mais linda, e dali foram todos para a mesa do banquete. Enquanto estiveram jantando a menina não fazia senão meter bocadinhos de toucinho nas mangas do vestido; as outras duas, que a viam fazer aquilo, trataram de fazer o mesmo pensando que era moda. Acabado o jantar, começaram as danças, e a rainha ao ver o chão todo besuntado de gordura, e que a cada passo se escorregava em bocados de toucinho, perguntou quem é que fizera aquela porcaria. As damas disseram que o viram fazer à princesa herdeira, e por isso fizeram o mesmo. Começou cada uma a sacudir as mangas dos vestidos, e das mangas da menina começaram a cair aljofres e diamantes misturados com flores; as outras envergonhadas botaram-se pelas janelas fora, pelas escadas, corridas, e a que chamavam cara de boi é que veio a ser a rainha, porque o rei entregou a coroa ao filho.

(Faro, Algarve)

in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

07 fevereiro 2017

Um conto tradicional dos índios Bororo


Como nasceram as estrelas, um filme de animação brasileiro

02 fevereiro 2017

Peço a paz

Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz e o
silêncio

Casimiro de Brito, in Jardins de Guerra


28 janeiro 2017

A mais antiga panorâmica de Lisboa

Iluminura em pergaminho do códice manuscrito Chronica do Muito Alto e Muito Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques, Primeiro Rey de Portugal, publicado em 1505 por Duarte Galvão (1446–1517). Museu dos Condes de Castro Guimarães, Cascais


Esta iluminura mostra a mais antiga vista panorâmica que se conhece da cidade de Lisboa. Ela mostra a capital portuguesa tal como ela era no início do séc. XVI. Ao alto está o castelo de S. Jorge, que ainda há pouco tinha sido residência do rei de Portugal, sob a designação de Paço da Alcáçova. À data da publicação desta obra, o rei D. Manuel tinha acabado de se mudar para um novo palácio real, o Paço da Ribeira, construído junto ao rio Tejo. O Paço da Ribeira é a construção que se vê em baixo, à esquerda, que incluía uma alta torre, um jardim (presumo) e um longo edifício que entrava pelo rio dentro, acabando numa torre com uma varanda, da qual o rei e a sua corte assistiam à partida e chegada das naus da carreira da Índia. À direita do Paço da Ribeira, vê-se um vasto terreiro, que talvez fosse mais praia do que outra coisa, que era o Terreiro do Paço. No meio do casario, vê-se a Sé de Lisboa. Mais à esquerda, está uma vasta praça, que é o Rossio. No canto superior esquerdo ergue-se, altaneiro, o convento do Carmo.

Note-se que esta iluminura destina-se a ilustrar uma crónica de D. Afonso Henriques. Ela foi feita, portanto, para ilustrar a tomada de Lisboa aos mouros pelo primeiro rei de Portugal. Ora a tomada de Lisboa aos mouros aconteceu no séc. XII e não no XVI. Esta iluminura contém, portanto, um evidente anacronismo. A Lisboa quinhentista representada na iluminura seria, afinal, a Lisboa mourisca de 350 anos antes e, à sua volta, veem-se as tropas de D. Afonso Henriques, cercando a cidade e prontas para atacá-la. No Tejo está a armada de cruzados que auxiliou o primeiro rei de Portugal. Entre as várias embarcações que se veem no rio em frenta à cidade estão duas caravelas e duas naus, que são embarcações que ainda não existiam no séc. XII, o que constitui mais um anacronismo.

23 janeiro 2017

Sonata ao luar


Sonata para piano em dó sustenido menor, n.º 14, Op. 27, n.º 2, que foi chamada Ao Luar, de Ludwig van Beethoven (1770–1827), pelo pianista chileno Claudio Arrau (1903–1991)

16 janeiro 2017

Quando eu morrer

(para o Aniceto Vieira Dias e "Liceu" de "N'Gola Ritmos")

Quando eu morrer
eu quero que o N'Gola Ritmos
vá tocar no meu enterro.

Como Sidney Bechet
como Armstrong
eu gostarei de saber

que vocês
tocaram no meu enterro.

Lá no céu também há "angelitos negros"
e eu gostarei de saber
que vocês
me tocaram no enterro.

Se não puder ser
deixem lá
tocarão noutro lado qualquer
com lágrimas nos olhos
como naquela noite
em casa do Araújo
lembrarão o companheiro
das noites de Luanda
das noites de boémia
das tardes de moamba.

Ah! Quando eu morrer
já sabem
quero que o meu caixão
vá no maxibombo da linha do Cemitério
quero que toquem
a Cidralha
ou convidem a marcha dos Invejados.

É assim que eu quero ir
acompanhado da vossa alegria
bebedeiras seguindo o enterro
as velhas carpideiras de panos escuros
quero um kombaritókué dos antigos
que vai ser muito falado.

Não convidem mulatas
que sempre estragam tudo
Se vierem
não lhes vou rejeitar.
Cantem apenas
alguns dos meus poemas
até enrouquecer.

Ah! quando eu morrer
eu quero o N´Gola Ritmos
tocando no meu enterro.

Ernesto Lara Filho (1932–1977), poeta e jornalista angolano


TENTATIVA DE GLOSSÁRIO

Moamba — prato típico da culinária angolana, habitualmente de galinha
Maxibombo — autocarro; ônibus
Cidralha — nome de uma música tradicional do carnaval de Luanda
Marcha dos Invejados — nome de um grupo carnavalesco de Luanda
Kombaritókuè — (literalmente, "varrer as cinzas") tradição luandense que marca o fim do período de choro de um morto após o seu enterro, equivalente à missa do sétimo dia na tradição católica; funeral



Nzaji (Raio), pelo conjunto Ngola Ritmos, de Luanda, Angola

10 janeiro 2017

Para onde foram as andorinhas?


Um filme premiado sobre os efeitos das alterações climáticas, causadas pela destruição da floresta, na vida dos povos indígenas do Brasil

07 janeiro 2017

A tentativa do impossível

La Tentative de l'Impossible, de 1928, autorretrato do pintor surrealista belga René Magritte (1898–1967). Óleo sobre tela. Coleção particular

01 janeiro 2017

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago (1922–2010)

31 dezembro 2016

Dia de São Silvestre


Abertura (Sinfonia), do Te Deum de 1792 de João de Sousa Carvalho (1745–c.1798), pela Orquestra Gulbenkian dirigida por Pierre Salzmann

No séc. XVIII, tornou-se tradição em Lisboa o canto de um Te Deum no último dia de cada ano (dia de São Silvestre), a fim de agradecer a Deus a dádiva de um ano que passou. Esta tradição foi iniciada pelos jesuítas, que realizavam a cerimónia na Igreja de São Roque, que era o templo da Companhia de Jesus na capital portuguesa. Com o passar dos anos e com a intervenção do rei D. João V, esta celebração em São Roque foi ganhando cada vez mais solenidade e grandiosidade, até que no Te Deum que foi cantado no último dia do ano de 1719, da autoria de Cristóvão da Fonseca, tomaram parte quinze coros!

Um dos mais notáveis Te Deum, de todos quantos foram celebrados na Igreja de São Roque, foi cantado em 1734 e foi da autoria de António Teixeira (1707–1774). É um Te Deum para cinco coros, oito cantores solistas e orquestra. No Youtube, uma alma caridosa publicou a única gravação que existe deste magnífico Te Deum, repartida por sete "vídeos", o primeiro dos quais tem o endereço https://www.youtube.com/watch?v=MeRdUJ1WQnM.

Quando o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal, a Igreja de São Roque passou para as mãos da Misericórdia de Lisboa, em cuja posse ainda se encontra. O Te Deum de fim de ano passou então a cantar-se na Capela Real da Ajuda, de dimensões mais reduzidas do que as da Igreja de São Roque. Foi para esta capela que o notável compositor João de Sousa Carvalho (1745–c.1798) escreveu três Te Deum, celebrados no fim dos anos de 1769, 1789 e 1792. Aqui se dá a ouvir o início e o fim do Te Deum de 1792.

Há a destacar a seguinte característica nos Te Deum de fim de ano celebrados em Lisboa: começavam por uma Sinfonia, que era uma abertura apenas instrumental, seguida do hino O Salutaris Hostia. Só depois é que era interpretado o Te Deum propriamente dito, findo o qual era ainda cantado um Tantum Ergo Sacramentum.



Tantum Ergo, do Te Deum de 1792 de João de Sousa Carvalho (1745–c.1798), pela Orquestra e Coro Gulbenkian dirigidos por Pierre Salzmann

28 dezembro 2016

A igreja paroquial de Carcavelos, Cascais

Fachada principal da igreja paroquial de Nossa Senhora dos Remédios, Carcavelos, Cascais (Foto: Geraldo Salomão)


Quem só vir a igreja de Carcavelos por fora, não desconfiará do que ela tem por dentro.

Por fora, a igreja paroquial de Carcavelos, que é dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, é um templo muito simples e harmonioso, construído nos inícios do séc. XVII, rodeado de frondosas e frescas árvores e circundado por estreitas ruas e pequenas e tranquilas pracinhas. Quase nos julgaríamos a muitos quilómetros de distância das urbanizações-dormitórios, que dos anos 60 para cá transformaram radicalmente a paisagem dos arredores de Lisboa, Carcavelos incluída.

Esta igreja foi construída num tempo em que Carcavelos era uma aldeia saloia, rodeada de quintas banhadas pelo sol, das quais saía um precioso néctar, o vinho de Carcavelos, que era um vinho generoso que atingiu grande fama e era exportado para Inglaterra sob a designação de Lisbon wine. Hoje, o vinho de Carcavelos é uma raridade, quase em extinção. Só nas lojas especializadas em vinhos é que é possível encontrar à venda alguma garrafa de "Carcavelos D.O.C.". Em vão a encontraremos em algum supermercado.

Não se pode descrever o encantamento que se sente quando se entra na igreja de Carcavelos. Em vez de nos depararmos com uma igreja soturna e cheirando a bafio, transbordando de pesada e sufocante talha barroca por todos os lados, como são quase todas as igrejas de Portugal, vemo-nos dentro de uma igreja linda, com uma maravilhosa capela-mor coberta de preciosos e coloridos azulejos do séc. XVII, assim como uma nave cujas paredes também se encontram cobertas até meia altura por silhares de azulejos, igualmente seiscentistas e igualmente coloridos. A cor e a frescura dos azulejos fazem da igreja de Carcavelos um lugar de paz, de beleza e de refrigério sem par.


Capela-mor da igreja paroquial de Nossa Senhora dos Remédios, Carcavelos, Cascais (Foto: Alto do Lagoal e Vale da Terrugem)

25 dezembro 2016

José embala o Menino


José embala o Menino, cântico de Natal e canção de embalar tradicional portuguesa da região de Monsanto, Beira Baixa, numa harmonização do compositor português contemporâneo Eurico Carrapatoso (nascido em 1962), por solistas não identificadas, o Coro Infantil da Universidade de Lisboa e o Novo Coro Infantil de Amesterdão dirigidos por Érica Mandillo

24 dezembro 2016

Natal de camuflado

Natal em zala, Natal de camuflado e arma
ao alcance da mão, Natal com as constela-
ções voltadas ao contrário por cima da ca-
beça, Natal na grande catedral verde da
floresta com todas as portas abertas.

Natal de uma aliança a pesar toneladas
na mão esquerda, de vinte mil cordas aper-
tando lentamente a garganta, de uma gui-
tarra a não sei quantos biliões de anos-dor.

Natal transparente e puro e frágil como
os olhos de minha mãe, como as lágrimas
de minha mãe, como a recordação de minha
mãe.

Natal de uma senhora de presépio que eu
fiz, daquele mesmo pó que me entrou tantas
vezes nos pulmões, e era preciso molhar to-
dos os dias uma data de vezes, ir afagando
sempre com os dedos, para que não estalasse
antes do Natal.

Senhora que voltou a ser pó, pó na pista
de zala, no morro das pedras, em s. sebas-
tião, pó na picada de nambuangongo, a en-
trar nos pulmões de outros homens, também
de camuflado e arma ao alcance da mão,
cada um com vinte mil cordas apertando
lentamente a garganta, e uma guitarra, com
unhas de raiva, fazendo eco num poço sem
fundo dentro do peito.

José Correia Tavares, in Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial, de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi (Org.), Edições Afrontamento, Porto, 2011


Um recanto de Zala, quartel do Exército Português no coração da Guerra Colonial no norte de Angola, em julho de 1974 (Foto: Alberto Nogueira)