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24 Janeiro 2012

Auroras boreais

Uma aurora boreal fotografada na Noruega em 20 de janeiro de 2010 (Foto: Ørjan Bertelsen)

As auroras boreais são fascinantes fenómenos luminosos, que se observam por vezes, durante a noite ou o crepúsculo, no céu das regiões do planeta situadas nas proximidades do Polo Norte. Nas proximidades do Polo Sul também se podem observar fenómenos iguais. Neste caso, estes fenómenos chamam-se auroras austrais.

As auroras boreais e austrais manifestam-se sob a forma de cortinas de luz coloridas, que ondulam magicamente pelo céu. A sua cor predominante é o verde, mas também podem ter outras cores, como vermelho, azul, etc.

Estes estranhos fenómenos resultam do choque de partículas eletricamente carregadas, que o Sol lançou para o espaço, com as camadas mais altas da atmosfera da Terra. São fenómenos que acontecem quando ocorre uma erupção solar, à qual está associada a existência de manchas escuras na superfície do Sol, chamadas manchas solares. O número de manchas solares aumenta ciclicamente de 11 em 11 anos, aproximadamente. Presentemente, estamos a entrar num período de maior número de manchas, que se prolongará por mais três ou quatro anos. Isto quer dizer que há agora uma maior probabilidade de ocorrência de auroras boreais e austrais nas regiões próximas dos polos.

A probabilidade de acontecer uma aurora boreal em Portugal é extremamente pequena, porque Portugal está muito afastado do Polo Norte. Teria que haver uma ejeção de matéria solar em direção à Terra verdadeiramente gigantesca para que acontecesse uma aurora boreal no nosso país. Nos dias 1 e 2 de setembro de 1859 ocorreu uma ejeção assim. Foi a maior tempestade solar que foi registada até agora, a qual provocou auroras boreais no México, em Cuba e em Itália, entre outros países. Não sei se também se viu alguma em Portugal nesses dias, mas pode ter acontecido.

A origem e as causas das auroras boreais e austrais são explicadas de forma muito simples num sugestivo vídeo. Infelizmente não há nenhuma versão deste vídeo em português; só há em norueguês e em inglês. A versão em inglês é a que se pode ver a seguir, mas antes de a apresentar, permito-me fazer a seguinte tradução para português do que nele é dito:

«Nas noites árticas, a aurora boreal flameja frequentemente à noite no inverno. O que é e de onde é que ela vem?

É aqui que a história da aurora boreal e austral começa: no Sol, uma estrela de tamanho médio, entre milhares de milhões de outras estrelas da nossa Via Láctea.

O Sol funciona como uma enorme central de energia. A energia é criada bem dentro do núcleo do Sol. Aqui, a temperatura é superior a 14 milhões de graus e a pressão é tão gigantesca que os átomos de hidrogénio são fundidos uns nos outros, de modo a constituírem-se num outro elemento, o hélio. Esta reação nuclear liberta energia.

 Esta energia irradia a partir do núcleo do Sol. Nas camadas exteriores, a energia dirige-se para a superfície em gigantescas correntes elétricas induzidas de gás, chamadas células de convecção. Estas correntes de gás com carga elétrica criam campos magnéticos dentro do Sol. Em alguns lugares, fortes campos magnéticos irrompem através da superfície. Eles desaceleram as correntes induzidas de gás quente. A superfície arrefece e aparecem manchas solares mais escuras. O gás eletricamente carregado é chamado plasma. O plasma estende os campos magnéticos ainda mais para fora do Sol.

O campo magnético estica-se e torce-se como um elástico. A seguir, o elástico rompe-se. Vários milhares de milhões de toneladas de plasma são ejetados para longe do Sol. A isto dá-se o nome de tempestade solar.

A tempestade solar pode atingir velocidades de mais de 8 milhões de quilómetros por hora. Seis horas depois, ela passa pelo planeta Mercúrio. Doze horas depois, pelo planeta Vénus. E depois de passadas dezoito horas, a tempestade solar atinge a Terra.

Quando a tempestade solar atinge o nosso planeta, algo estranho acontece. Um escudo invisível -- o campo magnético da Terra -- desvia a tempestade. Os campos magnéticos do plasma solar e da Terra unem-se um ao outro e criam um funil, através do qual as correntes de gás se dirigem para o lado diurno dos polos. Estas são as auroras boreal e austral diurnas. A seguir, os campos magnéticos esticam-se mais para trás e unem-se um ao outro. O elástico magnético rompe-se e gás da tempestade solar encaminha-se através das linhas magnéticas em direção aos polos no lado noturno. Estas são as auroras boreal e austral noturnas.»



A seguir podemos ver um outro vídeo, que mostra uma aurora boreal registada no norte da Noruega. Neste vídeo, de belos efeitos, as imagens estão aceleradas.

22 Janeiro 2012

Oração do Anjo Custódio

Anjo Custódio, por Joan de Joanes (1523-1579), pintor renascentista espanhol

Espécie de diálogo entre o Diabo e a pessoa que está disposta a resistir-lhe:

Diabo: Custódio amigo, tu queres ser santo?

Pessoa:
Custódio sim, amigo não!
Quero sim pela graça de Deus,
e do divino Espírito Santo.

Diabo:
Hás-de dizer-me doze palavras ditas e retornadas. Quais (sic) delas é a primeira?

Pessoa:
A primeira é a casa santa de Jerusalém,
donde Cristo, senhor nosso, padeceu por nós, amen.

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas é a segunda?

Pessoa:
A segunda são as tabuinhas de Moisés
Donde (sic) Cristo, senhor nosso, pôs os seus divinos pés;
e a primeira (repete), etc.

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas é a terceira?

Pessoa:
A terceira são as três pessoas da Santíssima Trindade; e a segunda, etc. (repete 1ª e 2ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas é a quarta?

Pessoa:
A quarta são os quatro evangelistas; a terceira, etc. (repete a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas é a quinta?

Pessoa:
A quinta são as cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo; a quarta, etc. (repete a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas é a sexta?

Pessoa:
As seis são os seis celebrantes; a quinta, etc. (repete a 5ª, a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas são as sete?

Pessoa:
As sete são os sete pecados mortais; as seis, etc. (repete a 6ª, a 5ª, a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas são as oito?

Pessoa:
As oito são os oito coros de anjos; as sete, etc. (repete a 7ª, a 6ª, a 5ª, a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas são as nove?

Pessoa:
As nove são os nove meses de Nossa Senhora, que trouxe o seu amado filho no seu divino ventre; as oito são, etc. (repete a 8ª, a 7ª, a 6ª, a 5ª, a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas são as dez?

Pessoa:
As dez são os dez mandamentos; as nove, etc. (repete a 9ª, a 8ª, a 7ª, a 6ª, a 5ª, a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas são as onze?

Pessoa:
As onze são as onze mil virgens do Algarve (sic); as dez, etc. (repete a 10ª, a 9ª, a 8ª, a 7ª, a 6ª, a 5ª, a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas são as doze?

Pessoa:
As doze são os doze apóstolos; as onze, etc. (repete a 11ª, a 10ª, a 9ª, a 8ª, a 7ª, a 6ª, a 5ª, a 4ª, a 3ª, a 2ª e a 1ª).

Diabo:
Custódio, amigo meu, etc.

Pessoa:
Custódio sim, etc.

Diabo:
Hás-de dizer-me, etc. Quais delas são as treze?

Nossa Senhora respondeu:

Treze raios tem o Sol,
Treze raios tem a Lua;
Arrebenta Diabo,
Que esta alma é de Deus, não é tua!

Nota -- Esta oração também é eficaz contra as bruxas; apenas se começa a rezar tal oração as bruxas vêm ter com a pessoa e pedem-lhe que a acabe (Terra da Feira).

Dita por uma velha da Terra da Feira, in Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos, de Consiglieri Pedroso. Comparar esta oração com uma outra, publicada no blogue Sexto Sentido, do Brasil.

17 Janeiro 2012

Agumas músicas velhinhas de Angola


Kalumba ("Mocinha"), por Elias dia Kimuezo ("Elias das Barbas")



Maria dia Pambala, por Fernando Sofia Rosa



Ngongo ya biluka ("O sofrimento mudou"), por Lourdes van Dunem



Belita Kiri-Kiri, pelos Ngoma Jazz, de Cabinda



Sant'Ana, pelo músico cego Minguito

10 Janeiro 2012

São Pedro das Águias

A ermida de São Pedro das Águias, Granjinha, Tabuaço (Foto: jorgsant)

Há lugares que parecem ter feitiço. Depois de os termos visitado, não mais voltamos a ser os mesmos, porque uma parte nós ficou presa nesses lugares. A ermida cisterciense de São Pedro das Águias é um lugar assim. Parece que tem feitiço.

A ermida de São Pedro das Águias é um pequeno templo em estilo românico, supõe-se que construído por volta do séc. XIII, a avaliar pelos motivos escultóricos que apresenta. Fica nas proximidades de uma localidade chamada Granjinha, que pertence ao concelho de Tabuaço, e acede-se a ela a partir da estrada nacional que liga Tabuaço a Moimenta da Beira. A ermida fica situada sobre uma espécie de plataforma inclinada, entre um fraguedo e o fundo do vale do rio Távora, que é um afluente da margem esquerda do Douro.

A entrada principal da ermida (Foto: Município de Tabuaço)

O que mais surpreende nesta bela ermida é a sua extraordinária proximidade de uma escarpa rochosa, da qual dista muito menos de um metro, e é, sobretudo, o facto de a sua porta principal estar virada para a escarpa e não para o rio. Os fiéis que quiserem entrar na capela pela porta principal só conseguirão entrar um a um, porque terão que se esgueirar entre a capela e a escarpa! A razão para este facto aparentemente estranho reside na tradição cristã de construir os templos com a porta principal virada a poente e a capela-mor virada a nascente. Neste caso, o poente fica do lado da escarpa; logo, a porta principal está do lado da escarpa e não do lado contrário.

O portal da ermida, em estilo tipicamente românico (Foto: Município de Tabuaço)

Como tudo o que é antigo neste país tem uma lenda associada, a ermida de São Pedro das Águias também tem a sua lenda. E como quase todas as lendas neste país envolvem mouros, esta também envolve. A lenda de São Pedro das Águias é a seguinte:

Dois cavaleiros de Entre-Douro-e-Minho, D. Rosendo e D. Tendo, teriam passado o Douro para dar combate aos Sarracenos, então firmados na vertente meridionasl do rio Douro. A fama das façanhas dos dois guerreiros espalhou-se entre os próprios Mouros, a tal ponto que duas filhas do emir de Lamego teriam decidido fugir do alcácer paterno, disfarçadas em trajos masculinos, para se entregarem aos dois paladinos da cruz. Uma dessas jovens mouras, principalmente, de nome Ardinga, sentir-se-ia irresistivelmente propensa a abjurar da sua religião, para se consagrar à crença do guerreiro cristão, D. Tedo, que, ansiosamente, procurava, fugindo à perseguição dos emissários do Emir lançados no seu encalço. Ao cabo de muitos perigos, alcançaram um sítio ermo onde encontraram um eremita, a quem Ardinga teria pedido a aceitação da sua nova fé, a fim de poder contrair matrimónio com o guerreiro cristão, nessa ocasião, ausente. Consumada a abjuração, apareceu de súbito o Emir, com os seus homens de armas. As fugitivas foram aprisionadas e a mais rebelde foi, sem mais hesitações, degolada pelo próprio pai. D. Tedo, vindo pouco depois, quando já o chefe mouro havia regressado aos seus domínios de Lamego e Resende, e sendo informado pelo ermitão do que se passara na sua ausência, teria ficado tão abalado pela morte da jovem sarracena, por ele apaixonada e morta, que nesse mesmo momento teria feito voto de celibato, entregando-se à exclusiva luta pela doutrina de Cristo até à morte, ocorrida em combate em terras de Tabuaço, nas margens do rio que passaria a ter o seu nome, o rio Tedo.

Sant'Anna Dionísio, in Guia de Portugal, volume V (Trás-os-Montes e Alto-Douro), tomo II (Lamego, Bragança e Miranda)


Uma outra versão desta lenda conta que os dois nobres seriam de origem leonesa e que Ardinga, a princesa moura, apaixonada e correspondida num amor impossível, teria fugido não com sua irmã, mas com uma escrava para encontrar D. Tedão (e não D. Tedo), abrigando-se no Mosteiro de S. Pedro de Águias.

Joel Cleto e Suzana Faro, in S. Pedro das Águias, Tabuaço: Os Amores de D. Tedo e Ardinga. O Comércio do Porto. Revista "Domingo", 26 de Setembro de 1999, págs. 21-22

A ermida vista pelo lado norte (Foto: Carlos Castro)

08 Janeiro 2012

Uma história do Cebolinha


Um filme de desenhos animados com os incomparáveis bonecos criados por Maurício de Souza

01 Janeiro 2012

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen

31 Dezembro 2011

Música clássica no musseque

Elementos da Orquestra Infantil Kaposoka, de Luanda, Angola (Foto: Salucombo_Jr.)

No ano 2008, teve início no município da Samba, em Luanda, Angola, um projeto destinado a dar uma educação musical às crianças pobres do município. Este projeto materializou-se numa escola, chamada Escola de Música Kaposoka (julgo que esta palavra kaposoka tem um significado relacionado com o belo), da qual emana uma orquestra constituída por alunos da escola, a Orquestra Infantil Kaposoka. O projeto teve tanto êxito que em 2010 a escola já era frequentada por mais de 600 crianças! O resultado do notável trabalho produzido nesta escola pode ser avaliado no vídeo que se segue, em que se pode ver e ouvir a Orquestra Infantil Kaposoka.


Cânone em Ré Maior, de Johann Pachelbel (1653-1706), pela Orquestra Infantil Kaposoka, de Luanda, Angola


A Igreja Kimbanguista -- assim denominada por ter sido fundada por um pastor congolês chamado Simon Kimbangu -- é uma das mais antigas igrejas cristãs messiânicas africanas e é, certamente, a que tem maior número de fiéis. Está presente em vários países, entre os quais Portugal.

Em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, a Igreja Kimbanguista esteve na origem do aparecimento de uma orquestra sinfónica, a Orquestra Sinfónica de Kinshasa. Os músicos da orquestra são todos amadores, sem qualquer exceção, e pertencem aos mais variados estratos sociais, desempenhando as mais diversas profissões, mesmo as mais duras e humildes.

É evidente que não se pode comparar a amadora (no mais nobre sentido da palavra) Orquestra Sinfónica de Kinshasa com as orquestras sinfónicas profissionais do resto do mundo, tão grandes são as diferenças entre uma e outras. Mas permito-me realçar o extraordinário valor destes músicos congoleses que, em condições tão difíceis e com tanto sacrifício para as suas vidas pessoais, conseguem realizar o verdadeiro milagre que é esta Orquestra Sinfónica de Kinshasa e o seu coro. O vídeo que se segue é por demais elucidativo do que acabo de escrever, apesar de estar falado em francês e legendado em inglês.


Passagens do filme Kinshasa Symphony, sobre a Orquestra Sinfónica de Kinshasa e o seu respetivo coro

Como é possível que pessoas que têm umas vidas tão duras e tão sofridas, que são obrigadas a lutar todos os dias pela sua própria sobrevivência e pela dos seus filhos numa cidade caótica como Kinshasa, que tem 9 milhões de habitantes, conseguem arranjar ainda forças para produzir tamanha beleza? Isto é um milagre, e só em África é que este milagre é possível. A música que esta orquestra toca e que este coro canta pode ser europeia, mas a orquestra e o coro são eles mesmos 100% africanos na força da alma que transmitem.

No vídeo que se segue, que mostra alguns aspetos de um ensaio da orquestra e do coro, pode ver-se bem o cansaço e até o desânimo em muitos rostos, tal como é salientado por um dos seus elementos. No entanto, o resultado do esforço sobre-humano produzido por estes homens e por estas mulheres é verdadeiramente sublime.


Um ensaio da Orquestra Sinfónica de Kinshasa e do seu coro, em mais uma passagem do filme Kinshasa Symphony

Como se vê, as pessoas africanas não são as coitadinhas que os media europeus e americanos tanto gostam de retratar, talvez para calar a má consciência dos antigos colonizadores. São seres humanos que não precisam da nossa compaixão nem do nosso paternalismo. Merecem, isso sim, o nosso profundo respeito.

30 Dezembro 2011

A Vida, de António Carneiro

Tríptico A Vida, do pintor simbolista António Carneiro (1872-1930), composto pelas telas A Esperança, O Amor e A Saudade (da esquerda para a direita). Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão. Clicar na imagem para vê-la ampliada

25 Dezembro 2011

O chocalheiro de Bemposta, Mogadouro

A máscara atual do chocalheiro de Bemposta, feita pelo artesão Joaquim Santos (Foto: Município de Mogadouro)


Apesar da sua máscara terrível e medonha que faz ainda arrepiar muita gente, o chocalheiro é uma figura simpática e cheia de significado.

Vestido de linho grosseiro tingido de preto, o chocalheiro de Bemposta aparece como uma figura tauromórfica.

Nas pontas dos chifres ostenta duas laranjas espetadas; cai-lhe do "queixo uma barbicha de bode; na parte da nuca pende-lhe uma bexiga de porco cheia de vento; na testa tem um disco e, escorrendo pela face, uma pequena serpente; na mão segura uma tenaz e mostrando uma serpente de grande porte rodeada à cintura".

(...)

Dá-se início a todo o processo na véspera com a licitação do fato do chocalheiro.

O mordomo das festas, nomeado em altura própria (festas de S. Pedro, padroeiro da aldeia), abre as portas de sua casa onde todo o processo se desenrola. Os interessados, através de pessoas da sua confiança, ou mesmo os próprios, vão durante a noite e até à meia-noite fazer as suas “mandas” (acto de leiloar o fato do Chocalheiro) de forma a manter-se segredo quanto à identidade do vencedor.

Todos os concorrentes tentam tudo para ganhar o direito de ser o chocalheiro, para cumprimento de uma promessa.

Depois de terminar as mandas, pela meia-noite, os mordomos oferecem uma sobreceia a todos os participantes. O chocalheiro será aquele que mais mandou e mantém-se anónimo, regressando a sua casa ou ficando em casa do mordomo dissimulado.

A juventude passa essa noite junto da casa do mordomo, tentando ver chegar o candidato a mordomo, para o identificar, que debaixo de um manto ou usando vários estratagemas, teria que chegar sem ser reconhecido.

Cumpre-se assim a tradição, nos dias 26 de Dezembro, sai o chocalheiro “manso” e 1 de Janeiro o “bravo”, revertendo toda a receita recolhida pelo chocalheiro à volta da aldeia e de Lamoso, a favor de Nossa Senhora das Neves e do Menino Jesus, respectivamente.

No dia 26 de Dezembro o Chocalheiro “manso”, na companhia dos mordomos e conduzido por um deles, recebe esmola, que ninguém recusa dar e agradece com uma vénia, pois não pode falar para não ser reconhecido. Antigamente nem toda a gente tinha dinheiro disponível, uma maioria entregava o que tinha de melhor para o seu sustento: fatias de pão, fumeiro, fruta (laranja), ovos, etc., recolhidos em dois cestos barreleiros.


José Pereira e Manuel Fernandes, in Bemposta, onde pode ser lido o texto completo



Trecho de um vídeo feito para a televisão por Carlos Brandão Lucas

24 Dezembro 2011

Natal de 2011

Adoração dos Magos, de Jorge Afonso (c.1470-c.1540), Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rasto de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira (1927-1996), in Cancioneiro de Natal



Hodie nobis de cœlo, de D. Pedro de Cristo (c.1550-1618), pelo coro Vox Ætherea, de Coimbra

23 Dezembro 2011

Um Natal que quase foi (ainda mais) diferente

Cada embalagem de cartão canelado que se vê na imagem contém uma ração de combate. Por pouco, a nossa ceia de Natal tinha sido muito semelhante a isto... (Foto: Fernando Reis)

O que agora vou contar passou-se antes de 1974, na região dos Dembos, norte de Angola, que foi um dos palcos da Guerra Colonial. Vou tentar ser tão factual quanto possível na narração dos acontecimentos, tal como eles ficaram registados na minha memória.

Mas antes de entrar concretamente no assunto, lembro que já fiz neste blogue uma descrição, tão detalhada quanto me foi possível, da situação ignominiosa em que se encontravam os trabalhadores forçados (chamados bailundos, contratados ou monangambas) nas fazendas de café e em outras atividades económicas da colónia de Angola (aqui). O que quase não referi foi o uso que o próprio Exército Português fez, ou quis fazer, destes desgraçados.

Em pelo menos dois dos quartéis dos Dembos, havia grupos de bailundos que estavam às ordens do Exército. Estes homens tinham sido "contratados" para -- a golpes de catana (facão) e sob escolta militar -- procederem à destruição das culturas (a que se dava o nome de lavras) pertencentes à população civil local. A população dos Dembos, na sua esmagadora maioria, vivia refugiada nas matas, escapando ao controle colonial, e apoiava os guerrilheiros nacionalistas da UPA/FNLA ou do MPLA, conforme as zonas onde vivia. O que os comandantes militares portugueses pretendiam, com a destruição das lavras, era provocar a fome entre a população e obrigá-la a sair das matas para se apresentar às autoridades coloniais, retirando assim o apoio do povo à guerrilha.

Embora eu, na minha qualidade de alferes miliciano do Exército (isto é, alferes não profissional do Exército, prestando o serviço militar obrigatório), não estivesse instalado em nenhum dos quartéis referidos, fui também uma vez escalado para uma operação que visava a destruição de lavras. Nesta operação, em particular, iriam tomar parte algumas dezenas de bailundos, que seriam escoltados por três grupos de combate, entre os quais o meu.

Antes da partida, o comandante da operação (um outro alferes miliciano, que a guerra acabou por afetar psicologicamente para o resto da vida) chamou os restantes alferes (entre eles eu) e disse-lhes:

-- Nós não vamos destruir lavras nenhumas. É um crime e eu não quero ser criminoso. Há crianças, há doentes, há mulheres, há muitas pessoas inocentes que não têm culpa de viver numa região em guerra. Nós não temos o direito de aumentar ainda mais o sofrimento dessas pessoas, obrigando-as a passar fome. Isto é coisa que repugna à minha consciência.

Os outros alferes manifestaram de imediato a sua concordância e apoio incondicional. Discutiu-se, então, o que é que se iria fazer durante a operação, em vez da destruição das lavras. Ficou decidido que se iria, na mesma, até às lavras em causa, para que ninguém pudesse dizer que não tínhamos ido ao objetivo. Uma vez aí chegados, os três grupos de combate dividir-se-iam e seguiria cada um -- juntamente com os bailundos à sua responsabilidade -- por caminhos diferentes, a fim de recolher o máximo de informações sobre a zona, tomando nota de todos os indícios, rastos e vestígios que fossem encontrando. Também iriam deixar marcas da sua própria passagem pela zona, para que os turras (guerrilheiros da UPA/FNLA, neste caso) não se convencessem de que poderiam circular por ali à vontade, sem correrem o risco de encontrar a tropa pela frente.

A operação começou tal como tinha sido planeado mas, à chegada às lavras, ocorreu um incidente que muito nos impressionou. Numa curva do trilho por onde seguíamos, apareceu subitamente uma mulher. Esta, vendo que não tinha possibilidades de escapar, espetou no seu próprio peito a catana que trazia na mão e morreu no meio de uma poça de sangue. Os soldados que iam à frente balbuciaram:

-- Mas nós não queríamos fazer-lhe mal... Porque é que ela se matou? Nós não íamos fazer-lhe mal... Porquê? Porquê?

Passados os primeiros momentos de espanto e de incredulidade, os soldados manifestaram a sua admiração por aquela mulher, exclamando:

-- Que grande mulher! Preferiu morrer a entregar-se... É uma heroína! Que grande mulher!

Como já não havia nada a fazer para remediar a situação, pois a mulher já estava morta, procedeu-se ao seu enterramento. Completada a tarefa, improvisou-se uma cruz, que se colocou à cabeceira da sepultura. Antes de se retirarem finalmente do local, os soldados que eram crentes ainda se demoraram algum tempo a rezar pela alma da mulher.

Vínhamos todos calados e pensativos, ainda muito impressionados com o sucedido, quando a voz de um soldado rompeu o silêncio da mata:

-- Se a gaja não se matasse, quem a matava era eu.

Uma onda de indignação percorreu os restantes soldados, que lhe gritaram:

-- Ó seu grande filho da puta! Tu eras capaz de matar uma mulher, seu cobardolas de merda?! Seu cabrão! Cobarde!

Uma chuva de insultos desabou sobre o soldado que tinha falado e que não abriu mais a boca. A operação prosseguiu até ao fim sem que houvesse qualquer outra ocorrência digna de nota.

Quando regressávamos ao nosso quartel depois da operação, já montados em viaturas, tivemos que passar pelo comando da Área Militar de que dependíamos. Como acontecia sempre que passávamos por lá, parámos nesse quartel e o comandante da coluna (que neste caso era o alferes que comandou a operação) foi apresentar-se ao brigadeiro responsável pela Área. Assim que o alferes o informou de que as lavras não tinham sido destruídas, o brigadeiro teve uma reação irada.

-- O quê?! -- berrou -- Não foram destruídas? Eu mandei-os para lá com o propósito de destruírem as lavras e vocês não as destruíram? Isto é muito grave! É uma desobediência! Não pode ficar impune! Como castigo, vocês vão passar a noite de Natal lá, naquelas mesmas lavras, para aprenderem a obedecer às ordens que lhes dou! Quem não cumpre as minhas ordens, não merece festejar o Natal!

Quando foram informados da decisão do brigadeiro, os soldados reagiram de modo resignado.

-- Paciência -- disseram. -- De qualquer maneira, não podemos passar o Natal com as nossas famílias, que era o que nos importava... Tanto faz que o passemos no quartel, na mata ou noutro sítio qualquer. Isto aqui não é Natal nem é nada.

Quando, na manhã do dia 24 de dezembro, subimos para as viaturas que nos iriam conduzir de novo até perto da zona onde iríamos passar o Natal, senti um nó na garganta ao ver o ar sereno dos meus soldados, que iam de cabeça levantada, sem um queixume nem uma recriminação, dispostos a comer ração de combate à Consoada e a dormir ao relento, sobre pedras e raízes, na noite de Natal.

Mais uma vez, passámos pelo comando da Área Militar e, mais uma vez, o alferes comandante da coluna foi apresentar-se ao brigadeiro. Enquanto isso, eu dirigi-me à messe de oficiais da companhia de intervenção da Área Militar, que também estava lá aquartelada e que era uma companhia sacrificadíssima, pela qual eu tinha um imenso respeito.

-- O que é que estás aqui a fazer? -- perguntaram os alferes e o capitão que estavam na messe, admirados por me verem -- Hoje é véspera de Natal, não é suposto vocês andarem por aqui. Deveriam ficar no quartel a preparar a festa. O que é que vieram cá fazer?

Quando lhes expliquei que iríamos passar o Natal no meio da mata por não termos destruído lavras, como nos tinha sido ordenado, os meus interlocutores exclamaram:

-- Ó pá! Façam como nós! Nós também não destruímos as lavras, mas o brigadeiro pensa que sim...

E passaram a explicar como deveríamos proceder:

-- Como sabes, a base da alimentação da população daqui é a mandioca. Ora o que se come da mandioca está debaixo da terra, são os tubérculos, que são raízes. Acima da terra só está a rama, que não se come. Vocês podem destruir parcialmente a rama das mandioqueiras sem prejudicarem as raízes. Elas talvez até beneficiem com isso, pois será uma espécie de poda. Quando vocês tiverem que "destruir" lavras, façam um desbaste na rama das mandioqueiras e espalhem aquilo tudo muito bem, para dar a impressão de que a destruição foi muito grande a quem passar de avião. O brigadeiro, quando sobrevoar as lavras, vai pensar que elas foram destruídas, mas não; os tubérculos continuam intactos, debaixo da terra! O brigadeiro não percebe nada do assunto, é militar de carreira...

E a explicação continuou:

-- Isto é o que vocês devem fazer à mandioca e a outros tubérculos, como a batata doce. Agora quanto ao milho... NÃO TOQUEM NO MILHO. Como é evidente, se vocês cortarem o milho, ele perde-se totalmente, a menos que já esteja maduro. Se ele estiver maduro, então sim, podem cortar à vontade, sem problemas de consciência. Neste caso, como ele já estará completamente desenvolvido e pronto para ser apanhado, mais dia menos dia ele iria mesmo ser cortado pela população, a fim de colher as espigas.

Concluiram a explicação, acrescentando:

-- Nós temos feito sempre assim. Temo-nos dado muito bem com este método. O brigadeiro fica muito contente, porque pensa que as lavras foram destruídas, e não nos chateia. Por outro lado, a população não é prejudicada e nós não ficamos com problemas de consciência.

Enquanto isto acontecia, o alferes comandante da coluna tentava convencer o brigadeiro, no gabinete deste, a retirar o castigo que nos impusera e a permitir que regressássemos ao quartel, para passarmos o Natal na companhia dos nossos camaradas.

-- Eu é que fui o responsável pela não destruição das lavras, meu brigadeiro -- disse o alferes. -- Se quiser castigar alguém, castigue-me a mim. Os soldados não têm culpa nenhuma do que se passou. Eles limitaram-se a cumprir as ordens que eu lhes dei.

Depois de muita insistência, o brigadeiro acabou por anular o castigo, em troca da promessa de que, numa operação posterior, as lavras iriam mesmo ser destruídas.

Nunca foram. Já sabíamos como haveríamos de proceder...

Toda a minha companhia acabou assim por festejar o Natal no quartel, com rancho melhorado, bebidas à discrição, a doçaria possível e a música ao vivo proporcionada pelos camaradas mais talentosos.


P.S. -- Cerca de três meses depois, o meu heroico grupo de combate, completamente sozinho e comandado por um furriel miliciano apenas (eu estava de férias), conquistou a tiro e de peito descoberto uma importante base militar que a UPA/FNLA tinha na zona onde decorreu a ação acima narrada. Mas esta é uma outra história que não cabe aqui contar, uma história de valentia (dos meus subordinados) e de cobardia (do capitão que não teve escrúpulos em lançá-los "às feras" e abandoná-los à sua sorte, sem qualquer oficial a comandá-los, enquanto ele se deixou ficar na retaguarda com os seus numerosos homens, à espera do resultado dos combates e sem intervir fosse de que modo fosse).

18 Dezembro 2011

Requiescat in pace, Cesária Évora





16 Dezembro 2011

Alguns pelourinhos

O pelourinho da cidade de Pinhel (Foto: Geoppp)

O pelourinho é uma construção de pedra caracterizada, sobretudo, por uma coluna erguida verticalmente. A existência de pelourinhos em muitas vilas e cidades portuguesas testemunha o exercício, no passado, de um poder local efetivo, que no caso dos municípios era exercido pelos chamados "homens bons". Além de servirem como afirmação deste poder, os pelourinhos tinham como função exporem ao vexame público os criminosos, que eram amarrados  a eles.

Há muitos pelourinhos em Portugal, de muitas e variadas formas. Entre os mais espetaculares contam-se os pelourinhos de gaiola, abundantes sobretudo em Trás-os-Montes e nas Beiras, de que o pelourinho da cidade de Pinhel é um excelente exemplo.


O pelourinho da cidade de Bragança (Foto: Câmara Municipal de Bragança)

O pelourinho de Bragança tem a particularidade de assentar sobre um berrão, isto é, uma escultura pré-romana que representa um animal, geralmente identificado como uma porca ou, então, uma ursa. O berrão mais conhecido é uma escultura que existe em Murça e a que se dá o nome de "Porca de Murça".


O pelourinho da vila de Colares, Sintra (Foto: Dias dos Reis)

Na região da Estremadura abundam os pelourinhos manuelinos e renascentistas. Um belo exemplar de pelourinho manuelino é o de Colares, no concelho de Sintra, que é muito elegante e harmonioso.


O falso pelourinho do Porto (Foto: pitai)

A cidade do Porto não tem pelourinho. Tanto quanto eu julgo saber, nunca teve. A coluna salomónica que se ergue no Terreiro da Sé e a que geralmente se dá o nome de pelourinho, não o é de facto. É um pelourinho de faz-de-conta. É um pastiche pseudo-barroco, feito na década de 40 do séc. XX... Não é feio e preenche bem o vazio existente no Terreiro da Sé, mas o seu valor histórico é completamente nulo.


Pormenor do pelourinho de Vila do Conde (Foto: Manuel José Cunha)

Um pelourinho muito curioso é o de Vila do Conde. É encimado por um espigão de ferro, do qual sai um braço com uma espada em riste, afirmando um poder local forte e determinado. Não conheço outro pelourinho assim.


Pormenor do pelourinho da vila do Soajo, Arcos de Valdevez (Foto: soajo.net)

Ainda mais curioso é o pelourinho do Soajo, no concelho dos Arcos de Valdevez. É um pelourinho patusco, divertido e enigmático. Praticamente nada se sabe sobre ele. Alguns autores acham que ele é muito antigo, dada a sua rusticidade, outros respondem que não, pois o triângulo de pedra que o encima não seria mais do que um chapéu tricórnio, usado no séc. XVII.


O pelourinho do Soajo em "corpo inteiro" (Foto: Joseolgon)

Segundo uma interpretação corrente deste estranhíssimo pelourinho, ele não significaria mais do que uma lança ao alto, com um pão espetado na ponta. O pelourinho seria, assim, uma representação figurativa de uma ordem que o rei D. Dinis teria dado, segundo a qual os nobres não poderiam permanecer na vila do Soajo mais tempo do que leva um pão a arrefecer na ponta de uma lança...


Seria imperdoável falar do Soajo e não referir os seus espigueiros... Aqui estão eles. Parecem templos, mas não são mais do que celeiros dedicados à guarda do milho e de outros cereais. As cruzes que encimam os espigueiros têm como função abençoar os grãos que neles se guardam, protegendo-os de raios e feitiçarias (Foto: Josep Renalias)

11 Dezembro 2011

Cantiga de Amor, de Vianna da Motta


Primeira Cena (Cantiga de Amor), de Cenas Portuguesas, op. 9, nº 1, de José Vianna da Motta (1868-1948), pelo pianista Sequeira Costa

08 Dezembro 2011

O sol nasce a Oriente

(de um quadro de Malangatana)

Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi

De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sábia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.

De ti amo a denúncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente
David Mestre (1948-1997), poeta angolano


06 Dezembro 2011

«Mas porque é que isto me havia de acontecer a mim?»

O objeto circular que se vê na imagem é uma mina terrestre antipessoal. O outro objeto à sua esquerda parece ser uma granada e tem como finalidade reforçar o poder destruidor da mina. Se esta mina fosse pisada por alguém, a sua explosão provocaria a deflagração, por "simpatia", da granada ao seu lado. Daqui resultariam ferimentos muito mais graves ou mesmo a morte da vítima, do que se rebentasse apenas a mina. (Foto de autor desconhecido)


Um estalido metálico, seco, nítido, deflagrou no ar. A fila imobilizou-se. Meio dobrados sobre as automáticas, os homens esquadrinhavam todos os recantos, numa tensão feroz e atenta.

Bem a meio da picada o alferes não se moveu. Estava parado, muito direito, os dois braços ligeiramente afastados do corpo, o rosto petrificado em frente. Suspendia a arma pelo tapa-chamas, como quem assegura um contrapeso para um problemático equilíbrio.

-- Pisei uma mina! Pisei uma mina, caraças! -- repetiu, quase sem mexer os lábios para o furriel que se aproximava, inquieto. E havia nas palavras do alferes um tom de profunda tristeza, mais que grave ou compenetrado.

-- Meu alferes, por amor de Deus, não se mexa -- agitou-se o outro, com largos gestos tranquilizadores.

Durante uns momentos, o entendimento do alferes ficou totalmente embaciado, como se ele estivesse muito longe dali, imune à agitação em volta.

Ritmadamente, o coração tropeava-lhe no peito, em alto som. O furriel, que saltitava ao perto, distinguia-lhe a lividez da face, os lábios brancos, e continuava a produzir palavras, advertências, que o alferes já não ouvia. O espaço desfocara-se-lhe subitamente, numa confusão cinzenta de massas e de volumes. Uma dor fina, movente, foi-se entreafirmando, revolvendo-lhe as entranhas, o peito. Sentia as extremidades quase doridas, de frias, e o sangue a refluir, a tumultuar, em cachoeira, de envolto com o coração solto.

De um para outro relance, o pé que havia pisado a mina ora lhe parecia um trambolho pesado, de chumbo, ali plantado para a eternidade, ora uma extremidade oca, abandonada, de uma ligeireza etérea, flutuante, quase adormecida ao som da brisa.

O breve ruído metálico do percutor, clique, definitivo, vinha-lhe repetidamente aos ouvidos, em ecos pulsados.

-- Calma, -- murmurava o alferes baixinho, sem se ouvir -- calma, calma, pá!

A pouco e pouco, a razão foi voltando, clarearam-se os pormenores em volta. A angústia do medo misturou-se a um tremendo sentimento de injustiça. E o alferes foi tomado duma profunda piedade de si próprio, ingénua, ternurenta, infantil:

-- Mas por que é que isto me havia de acontecer a mim?

Extrato do conto "Era uma vez um alferes", de Mário de Carvalho, in Os Alferes, Editorial Caminho, Lisboa.

02 Dezembro 2011

Tomás Luis de Victoria (c.1548-1611)


Assinala-se este ano o 400º aniversário da morte do espanhol Tomás Luis de Victoria, que foi um dos mais relevantes compositores europeus de música sacra de todos os tempos. A efeméride tem passado praticamente despercebida aqui em Portugal, por razões que desconheço. Não é justo. A música de Tomás Luis de Victoria merecia ser mais divulgada e admirada, tendo em conta a sua altíssima qualidade.

Tomás Luis de Victoria foi um compositor renascentista. Como tal, a sua música persegue os ideais da perfeição, da beleza e da harmonia de uma forma tão completa quanto possível. Além disso, Tomás Luis de Victoria era espanhol. A sua música também reflete, portanto, o enorme misticismo que caracterizou muita da arte e da cultura da Espanha do seu tempo. O resultado da soma destes dois fatores -- Renascimento e Espanha -- é sublime.

Para comprová-lo, proponho a escuta da peça que se segue: a Primeira Lamentação para Quinta-Feira Santa, "Incipit Lamentatio", que é a primeira das nove Lamentações de Jeremias que Tomás Luis de Victoria compôs. A interpretação é do coro inglês The Tallis Scholars, dirigido por Peter Philips.

29 Novembro 2011

Iran

Iran dos Bidyogo, Arquipélago dos Bijagós, Guiné-Bissau, séc. XIX. Sociedade de Geografia de Lisboa

«O termo irã (irâm, irân ou hirâm) entrou no uso corrente mais com o significado de local da efectivação das cerimónias mágicas e, simultâneamente, do próprio objecto, natural ou artificial, sobre o qual, ou junto do qual, se realiza o ritualismo, ou seja o símbolo. No consenso geral, mesmo que este símbolo seja artificial -- confeccionado ou adaptado para identificar o feitiço, o irã -- ele incarna os espíritos de antepassados ou de entes sobrenaturais. Quer dizer, símbolo e local confundem-se num mesmo significado.

(...)

O irã -- forma de expressão simples e cómoda -- tem designações próprias na língua de cada tribo, mas todas com o significado a que antes fizemos alusão e é, em geral, simbolizado: por árvores de grande porte (especialmente poilões e calabaceiras); pequenos bosques ou tufos de vegetação espontânea; recantos de lalas ou de bolanhas; estacas de madeira, em bruto, vulgarmente em forquilha; esculturas em madeira representando figuras antropomórficas ou simples desenhos geométricos; e outras inúmeras formas de representação material do ídolo.»

António Carreira, in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XVI, nº 63, Julho de 1961. O texto completo está disponível na seguinte página do blogue Coisas da Guiné, publicado por A. Marques Lopes : http://coisasdaguine.blogspot.com/2011/05/187-simbolos-ritualistas-e-ritualismos.html.


Iran dos Bidyogo, trazido em 1853 da ilha da Caravela, Arquipélago dos Bijagós, Guiné-Bissau. Musée du Quai Branly, Paris

22 Novembro 2011

Ópera de Pequim


Ária Liang zhu shiba xiang. Peço desculpa, mas não sei a tradução

15 Novembro 2011

Entre as praias da Adraga e da Ursa, Sintra

(Foto: Rui Abreu)

Um dos trechos mais belos da costa continental portuguesa é, sem sombra de dúvida, o trecho situado a norte do Cabo da Roca, sobretudo aquele que fica compreendido entre a Praia da Adraga, a norte, e a Praia da Ursa, a sul, incluindo estas duas maravilhosas praias. Nem mesmo na Costa Vicentina e na do Sudoeste Alentejano conseguimos encontrar trechos que sejam mais belos do que este de Sintra.

O passeio que se pode fazer ao longo deste trecho, percorrendo o alto da falésia, é curto mas deslumbrante. Recomendo, a quem o quiser fazer, que parta da Praia da Adraga e regresse a ela. Se durante o passeio pretender descer à Praia da Ursa, pode fazê-lo, embora possa correr algum (pouco) risco; a extraordinária pureza e a enorme beleza desta pequena praia compensam sobejamente o esforço e a ginástica feitos.

Como descrição do passeio, valho-me das palavras que Raul Proença escreveu no seu enciclopédico Guia de Portugal, obra incomparável que Sant'Anna Dionísio completou. Partindo da Praia da Adraga, em Almoçageme, sigamos pois a descrição que foi feita há muitas dezenas de anos por Raul Proença.

«(...)
Volvendo alguns metros atrás e subindo à dir. por uma vereda aberta num monte coberto de zimbro, achamo-nos na plataforma abrupta sobranceira ao oceano, no alto das fragas silenciosas. Ali vamos admirar um dos mais soberbos trechos que pedras e águas, no seu embate eterno, recortaram ainda em costas atlânticas. Vem primeiro, entre duas rochas enormes, talhadas a pique, a Praia do Cavalo, que dá, com todo o frisson da grandeza, a impressão de uma paisagem das Berlengas -- o mesmo aspecto da falésia, a mesma pequenez da língua de areia, a mesma atracção de sonho e de mistério lá no fundo abismo temeroso e glauco. Em seguida, o chamado Fojo (...) escancara a boca hiante e negra. É um enorme funil fechado ao cimo em toda a volta, e do alto do qual nos debruçamos em vista horripilante para um medonho recesso onde as águas em fúria galgam as rochas e fazem soar um estampido de inferno. Solta-se os olhos do abismo fugindo à vertigem, e fica-se surpreendido ao ver o mar quase verde, orlado mais ao largo por uma franja de azul turmalina, enquanto do lado oposto refulge a casaria de Almoçageme, e no último plano o Castelo da Pena ergue no ar fino e transparente o seu altivo diadema. Para o norte segue a linha dourada da costa até à Ericeira, franjada de espuma, golpeada de pequenas abras e enseadas solitárias, até se fundir, ao longe, indecisa e diáfana, no azul do céu. -- A poucos passos a Pedra de Alvidrar (...), imensa penedia quase a prumo(...).

Mas é adiante da Pedra de Alvidrar que o aspecto da costa atinge a sublimidade na decoração fantástica. Mais do que nunca também o mar é verde. Diante dos olhos extasiados recortam-se contornos cenográficos, agulhas, pináculos, castelos medievais debruçados sobre abismos, eriçados cantábricos babujados pela nívea espuma. Um dos leixões (Pedra da Ursa) ergue-se isolado no mar, e toma o feitio de uma pirâmide; outros têm formas humanas, e num deles descobre-se mesmo a cara dum gigante, com os olhos, a testa, o mento, a boca fortemente acusados; no alto de outro, finalmente, parece que poisou agora mesmo uma ave marinha, e que está à espera de desferir voo pela amplidão sem fim. À luz viva do sol, o tom branco das rochas que se pegam à terra firme dá-lhes a aparência de estarem cobertas de neves eternas. Por fim, no extremo do cenário, e quebrando-lhes talvez um pouco o encanto, um farol -- o da Roca.

Continuando a percorrer a plataforma erguida sobre as ondas, em certa altura vemos lá ao fundo um dos mais belos aspectos desta admirável sucessão de paisagens. É a Praia da Ursa. Para ir até lá, há que descer uma íngreme colina, e seguir a margem dum pequeno ribeiro que vai desaguar nesse ponto da costa. (...)»

Raul Proença, in Guia de Portugal, I Volume, Generalidades -- Lisboa e Arredores

Acrescente-se que a Pedra de Alvidrar é um gigantesco paredão, em rampa inclinada para o mar, que era usado no tempo dos romanos como local para julgamentos, de onde se atiravam os acusados de crimes. Se sobrevivessem, considerava-se que estavam inocentes; se não, teriam sido mesmo culpados!


Eu não conheço a pessoa que aqui se vê. Encontrei esta fotografia na Web e coloquei-a aqui para dar uma ideia da beleza e das dimensões da paisagem entre Adraga e Ursa. A pessoa chama-se Dina Vieira e edita um saborosíssimo blogue chamado O Garfo Mágico.