Aqui nesta praia
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen



Elogio do Ritmo, têmpera sobre papel, 2000, de Eleutério Sanches, artista angolano

Excerto da intervenção de Mia Couto na conferência internacional promovida pela RTP sobre "O Serviço Público de Rádio e Televisão no Contexto Internacional: A Experiência Portuguesa". O texto de onde retirei esta citação é da responsabilidade do semanário Savana, de Maputo, e pode ser lido aqui.


"Dippermouth Blues", pela King Oliver's Creole Jazz Band (1923)
"Weary Blues", por Sidney Bechet
"All Of Me", por Charlie Parker
"Cherokee", por Stan Getz e Lionel Hampton
"C Jam Blues", por Wynton Marsalis & Lincoln Center Jazz Orchestra
"Come Rain Or Come Shine", por Art Blakey & Jazz Messengers
"Oh So Hip", por Bill Evans


LIÇÃO PARA A SOCIEDADE CIVILIZADA
(...) Durante a longa permanência entre os índios, a única contribuição que talvez lhes tenhamos dado, foi mostrar aos civilizados que o índio brasileiro não é um selvagem agressivo e destruidor. Nós trouxemos a notícia de que eles constituem uma sociedade tranqüila, alegre. Ali, ninguém manda em ninguém. O velho é dono da história; o índio, dono da aldeia e a criança, dona do mundo. Nesse tempo todo em que vivemos perto deles, nunca assistimos a uma discussão, a uma desavença na aldeia ou a uma briga de marido e mulher. Se a criança faz alguma coisa que o pai desaprova, ele não a repreende. Apenas a tira de onde está e a leva para outro lugar. É admirável, também, o respeito que os pequenos têm pela natureza, valor que adquirem observando o comportamento dos mais velhos.
O chefe, ou cacique, é o líder cultural da aldeia. Ele goza de muitas prerrogativas, mas deve observar uma série de restrições: não pode falar alto, nem rir ou fazer gestos bruscos, por exemplo. Sua função não é impor regulamentos nem determinar tarefas, mas estabelecer uma ligação entre a comunidade e os pajés que se reúnem todas as tardes para conversar, fumar e deliberar sobre o bom andamento da tribo. O cacique não participa da conversa. Apenas ouve o que está sendo dito e na manhã seguinte, segurando o arco numa das mãos, dirige-se ao povo que se junta diante de sua maloca para escutar as recomendações dos pajés e, em seguida, colocá-las em prática. Supostamente os pajés nunca erram porque não têm outra preocupação além de ficar zelando pelo bem-estar da comunidade. (...)

LAÇOS AFETIVOS
(...) As mães são extremamente carinhosas. As crianças índias não aprendem a engatinhar porque saem do colo materno já podendo caminhar. A menina é criada sempre junto da mãe e o menino, assim que aprende a andar, passa a seguir os passos do pai, observando tudo o que ele faz e tentando imitá-lo porque intui que um dia será um homem com obrigações dentro da aldeia.
Nunca ouvi um indiozinho dizer não para pai e mãe e nem os pais dizerem não para os filhos. Apesar dessa aparente falta de limites, a criança não desenvolve maus comportamentos porque cresce copiando a conduta dos adultos.
As relações conjugais são serenas. Não há brigas entre marido e mulher. Se algum desentendimento surge, a queixa é levada para o pajé e o problema acaba sendo resolvido a contento. O homem pode ter até três mulheres. Se a primeira concordar, ele pode casar-se com a segunda e, se as duas estiverem de acordo, ele pode desposar a terceira. Elas, em geral, não se opõem porque o trabalho da primeira esposa passa a ser realizado pelas outras companheiras. Ela não carrega mais água, não arruma mais a maloca nem se levanta para comer porque é servida na rede. O marido, com um gesto, indica qual das outras duas deve armar a rede debaixo da rede dele. Essa fica responsável por manter o fogo aceso durante a noite toda porque o índio é muito friorento. Fazer o fogo, entretanto, é função do homem. Ele pega uma haste de urucum e a fricciona num pedaço de pau até sair a primeira fumacinha sob o olhar atento do curumim que se põe a soprar e a colocar folhinhas secas para dar força à chama.
A convivência entre os índios é marcada por comportamentos bastante pitorescos. Um homem volta da pesca trazendo uma fieira de peixes. Quando entra no pátio da aldeia, se ouve alguém gritar, registra quem foi porque na hora em que a comida estiver pronta, o primeiro pedaço será oferecido para o índio que gritou. Por isso, ele fica na espreita, escondido, e só corre para casa se não vê ninguém por perto. Sujeitos pouco precavidos, às vezes, têm que reservar quatro ou cinco porções para os companheiros que os viram passar com os peixes. E tudo é feito naturalmente, sorrindo, sem rixas nem desavenças. Pacíficos no interior da aldeia, eles se tornam agressivos quando vêem ameaçada de ocupação uma área importante para sua tribo. A beligerância só se manifesta quando interesses territoriais estão em jogo.
É um mundo diferente, habitado por gente que respeita tradições que o homem civilizado custa a entender. (...)


As imagens são de Eraldo Peres e documentam momentos do kwarup (conjunto de cerimónias fúnebres) realizado em 2003 pelos índios Kuikuro do Alto Xingu, no estado de Mato Grosso, em homenagem ao indigenista brasileiro Orlando Villas Bôas (na foto ao lado), que falecera algum tempo antes.
Santo António (Toni Malau), peitoral de latão de autor desconhecido do antigo Reino do Kongo, séc. XVIII, The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque
Abertura "1812", de Pyotr Ilyitch Tchaikovsky
Óculos de Sol, de Natércia Barreto, que foram surripiados ao Malhanga. Esta canção é certamente uma das mais apropriadas à silly season que agora vai começar. É uma típica canção de praia dos anos 60. É tão má que até dá vontade de gostar dela. É puro kitsch. Para se compreender melhor a importância desta musiquinha, é preciso ter em mente a época em que ela apareceu. Nos anos de chumbo da década de 60, que foram marcados pelo início da guerra colonial e pela emigração em massa para França e Alemanha, a música portuguesa que era dada a ouvir era quase exclusivamente constituída pelo abominável "nacional-cançonetismo", como João Paulo Guerra lhe chamou. A canção Óculos de Sol, com toda a sua ingenuidade, apareceu então como um raio de luz, rompendo as pesadas nuvens que se adensavam sobre um Portugal metido num beco sem saída.

(...) Pedro Pedrossem da Silva foi, por corruptela do nome Pedrossem, o Pedro Cem. Nasceu no Porto, Portugal, e ai faleceu em 9 de fevereiro de 1775. Residia na Reboleira, perto do Douro. Mercador riquíssimo, diretor da Companhia dos Vinhos, Juiz de Confraria, figura imponente, era usurário e orgulhoso. Casara com dona Ana Micaela Fraga e tivera três filhos: - Luiz Pedrossem, falecido no Porto em 1730, o cônego João Pedrossem que foi Deão da Sé do Porto, e Vicente Pedrossem, rico comerciante, falecido em 1806, cavaleiro da Casa Real, casado com uma moça de excelente família, dona Maria do Ó de Caminha Ossman. Vicente Pedrossem possui uma das grandes fortunas na região do Douro.
A lenda conta que o velho Pedrossem olhando da torre da Marca avistou, entrando pela barra, suas frotilhas de naus, vindas do Brasil e das Índias, carregadas de especiarias, jóias e produtos caros. Cheio de vaidade exclamara: - Agora, mesmo Deus querendo, eu não posso ficar pobre!...
Uma brusca tempestade destruiu-lhe a frota. Pedrossem perdeu tudo quanto possuía. Sem amigos, que sua ostentação afastara, mendigava nas ruas do Porto: - Esmola para Pedro Cem que tudo teve e nada tem!...
Jamais le fait réel ne manque, escreveu Van Gennep estudando a formação das lendas. Pedrossem, de milionário faustoso, ficou pobre mas não mendigo. A diminuição de sua riqueza foi tomada como castigo ao seu desdém. O nome prestava-se e ainda havia a repetição de Pedro Pedrossem que deu o fácil e humilhado Pedro Cem, rima para "que tudo teve e hoje não tem". A venda de suas propriedades, sua retirada do grosso comércio, o retraimento social, fizeram o ambiente para a lenda. Pedrossem estava pobre mas nunca mendigou. (...)
A palavra berrão vem de "varrão", palavra que significa porco macho não castrado e empregue na cubrição das fêmeas.
Regadinho, pelo Rancho Folclórico "As Lavradeiras do Minho do Cantão de Vaud", constituído por emigrantes portugueses na Suíça
Malhão, por um tocador de concertina não identificado
Cana Verde, pelo grupo Maio Moço


