27 junho 2016

O lundum e o fado


Travessa do Poço dos Negros, pelos Trovante, em que se atribui ao lundum (uma dança africana) a origem do fado. O Poço dos Negros era um poço que havia em Lisboa, no qual eram lançados os escravos negros que morriam. Os escravos não tinham direito a um enterro cristão


É quase um lugar-comum dizer-se que o fado nasceu em Lisboa a partir do lundum ou lundu, que é uma dança de origem africana trazida para Portugal por escravos negros. Como assim? Que muitos africanos vieram para Portugal, trazidos à força como escravos, é indesmentível. Que entre as danças que eles trouxeram para estas terras europeias se encontrava o lundum, também parece altamente provável. Mas daí até se poder afirmar que o fado descende do lundum, vai uma distância enorme. Basta comparar um e outro género musical, para se verificar que qualquer semelhança é pura coincidência.

Estou quase totalmente de acordo com José Lúcio Ribeiro de Almeida, que há mais de 40 anos investiga o fado, quando diz:

Para mim o Fado começa pelo descontentamento popular aquando da fuga da família Real para o Brasil. Aparece em Lisboa o personagem "o Fadista", há fome e miséria, a ordem e a lei é substituída pela vingança, encomenda-se a morte dos inimigos (tratar do destino — fado — de alguém que nos enganou), quem mandava em Portugal não eram os Portugueses… (…) Esta é a minha opinião, mas longe de ser a verdade do Fado, é simplesmente a minha opinião lógica. A lógica dos acontecimentos, das datas, do sentir do povo de Lisboa, que nada tem a ver com o mar, com o Tango, cantigas populares (de trabalho ou romarias), com o "Lundum" africano ou brasileiro. O Fado é uma canção urbana de Lisboa. O Fado não é a "Canção Nacional", é uma canção que os portugueses nacionalizaram. (…)
(in http://www.jose-lucio.com/Fado%202012/Fado%202012.htm)


Ao que tudo indica, já se dançava lundum em Lisboa muito antes da fuga de D. João VI para o Brasil. Trezentos anos antes! Com efeito, diz-se que já no séc. XVI se dançava lundum na capital portuguesa, o qual teria sido proíbido por D. Manuel I, por o considerar contrário aos bons costumes. Se isto for verdade, então não podemos acreditar na afirmação feita por muitos brasileiros, segundo a qual o lundum teria a sua origem em Angola. Além de não me constar a existência de qualquer dança com esse nome, ou parecido, em Angola, há a considerar o facto de que os escravos que eram trazidos de África para Portugal não vinham de Angola. Vinham de terras africanas muito mais próximas, desde a Mauritânia até à então chamada Costa dos Escravos, na atual Nigéria. O lundum, portanto, não deve ter nascido em Angola, mas sim na Guiné ou no Benim, por exemplo. Não nos esqueçamos de que também foram levados milhões de escravos destas partes de África para o Brasil, como o demonstram as crenças populares nos orixás e o uso da língua nagô no candomblé, por exemplo.



Um lundum de autor anónimo brasileiro do séc. XIX



Tudo isto é Fado, por Amália Rodrigues

23 junho 2016

O São João no Porto há 137 anos

Ilustração publicada no semanário humorístico O Sorvete, do Porto, em 1879 (Desenho de Sebastião Sanhudo)


Observando este desenho de há 137 anos, verificamos que, em vários aspetos, a tradição ainda é o que era. Em cima, veem-se muitos balões, muitos foguetes (atualmente usa-se mais fogo de artifício) e a chegada de uma família burguesa ao que parece ser um arraial. A meia altura, deve estar uma cascata (vê-se mal, mas é o que parece, à esquerda do centro), uma fogueira saltada por um folião e um bailarico. Em baixo, à esquerda, salta a rolha de uma garrafa de vinho do Porto (agora bebe-se sobretudo cerveja), garrafa esta que está cruzada com uma sombrinha (guarda-chuva não é, certamente, mas sim uma sombrinha, pois no São João não costuma chover) e com um objeto que não sei identificar. Vê-se ainda uma caleche, cuja representação não sei o que pretende significar, e um bêbado cambaleando.

O que não se vê, neste São João do séc. XIX, são alhos porros, que os martelinhos de plástico vieram substituir nos nossos tempos. Para mim, é uma grande surpresa não ver um só alho porro nesta ilustração. Será que a tradição do uso do alho porro no São João do Porto afinal não é assim tão antiga?

21 junho 2016

Estilo

Enquanto jogadores profissionais, que ganham fortunas obscenas e que nunca fizeram outra coisa na vida que não fosse jogar futebol, não conseguem marcar golos, este rapaz índio do Alto Xingu, no Brasil, mostra como é que se joga (Foto de autor desconhecido)

19 junho 2016

Noites encantadas

Fotografia vencedora do concurso internacional The World at Night 2016, mostrando uma aurora boreal sobre Lofoten, Noruega (Foto: Alex Conu)


Desde 2009, tem lugar todos os anos um concurso internacional de fotografia noturna, chamado "The World at Night" (TWAN). Este concurso está aberto a qualquer pessoa que a ele queira concorrer, independentemente de ser amadora ou profissional, de qualquer parte do mundo.

Foram agora tornadas públicas as fotografias vencedoras do ano 2016, classificadas segundo seis categorias e subcategorias, de entre as mais de mil que concorreram, tiradas em 57 países. Surpreendentemente, nenhuma fotografia tirada em Portugal concorreu este ano.

No vídeo que se segue, são passadas em revista as diversas fotografias que venceram este ano e também as menções honrosas. Recoste-se e sinta-se parte integrante do Universo, vendo esta galeria de imagens com auroras boreais e austrais, a Via Láctea vista de diferentes pontos da Terra (nas fotografias feitas com lente de grande angular parece formando um arco), eclipses do Sol e da Lua, arcos concêntricos feitos pelas estrelas em volta dos polos (nas fotografias tiradas com um longo tempo de exposição), luzes artificiais e muitas, muitas estrelas. São noites encantadas, estas, que nos são mostradas no vídeo.

A página oficial do concurso The World at Night 2016 pode ser acedida através do endereço http://twanight.org/newTwan/news2016-2.asp.



Fotografias vencedoras e menções honrosas do concurso internacional The World at Night 2016

15 junho 2016

Musiquinhas de praia dos anos 60

Aline, pelo cantor romântico francês Christophe



The Young Ones, por Cliff Richard & The Shadows


Os Beach Boys não podiam faltar. Ainda por cima, Brian Wilson, fundador da banda e autor da maior parte da sua música, atuou há poucos dias nesta cidade do Porto, num festival primaveril de rock. A sua atuação foi considerada o ponto mais alto do festival, tendo sido do maior agrado de todo o público presente, desde os avós até aos netos. Entre as várias canções que interpretou, Brian Wilson cantou esta, Surfin' USA



Milena (a da Praia), pelo Conjunto Académico de João Paulo



Surf City, por Jan & Dean


Derniers Baisers, por Les Chats Sauvages

12 junho 2016

Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda…

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada…
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor…
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora…
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua…

Alda Lara, poetisa angolana, falecida em 1962 com 31 anos de idade


(Foto: Adalberto Gourgel, 1968–2015)

10 junho 2016

O 10 de Junho no tempo do fascismo


10 de Junho — Inauguração do Estádio Nacional, um filme de António Lopes Ribeiro rodado em 1944


Foi provavelmente no dia 10 de junho de 1580 que o poeta Luís Vaz de Camões faleceu, razão pela qual a 10 de junho de cada ano é celebrado o Dia de Camões, tornado feriado nacional na década de 20 do século passado.

Após a implantação do Estado Novo, o ditador António de Oliveira Salazar quis dar um novo significado a este dia, que passou a chamar-se igualmente "Dia da Raça", fazendo dele um dia de exaltação do regime, das glórias do passado e da grandeza do Império Português.

Após o início da Guerra Colonial, mais concretamente a partir de 1963, o 10 de Junho passou essencialmente a ser um dia de homenagem às Forças Armadas Portuguesas. Nas cerimónias militares para esse fim organizadas, após o desfile das tropas em parada e dos discursos de circunstância, eram atribuídas as condecorações aos combatentes que mais se teriam distinguido no campo de batalha e era prestada homenagem aos mortos em combate. Este era o momento mais alto das comemorações, porque era o mais humano e o mais profundamente sentido.

Era pungente ver os rostos dos familiares dos militares mortos em combate, que compareciam às cerimónias para receber as condecorações a título póstumo. Viam-se rostos de pais e de mães de coração destroçado, rostos de mulheres muito jovens e tornadas já viúvas, rostos de crianças pequenas que não entendiam que todo o aparato militar que as rodeava significava que elas nunca mais voltariam a estar ao colo do pai. Enfim, viam-se rostos reais de um povo real, de um povo pobre, humilde e extraordinariamente sofredor, cujos filhos eram mandados como carne para canhão, fazer uma guerra a milhares de quilómetros de distância das suas famílias e das suas terras. Enquanto isso, os filhos dos dignitários do regime e dos detentores do poder económico escapavam à guerra, graças a uma rede de cunhas e de trocas de favores que chegavam a atingir os níveis mais altos da hierarquia militar.



Um pequeno excerto de um programa da série A Guerra, do jornalista Joaquim Furtado. Esta série tem vindo a ser retransmitida pela RTP Memória aos sábados, às 21 horas

08 junho 2016

Concerto de Varsóvia


Concerto de Varsóvia, de Richard Addinsell, pelo pianista inglês Philip Fowke acompanhado por uma orquestra não identificada, mas que é provavelmente a Orquestra Sinfónica da BBC

O Concerto de Varsóvia é uma peça musical para piano e orquestra, escrita pelo compositor inglês Richard Addinsell (1904–1977) para o filme de 1941 Dangerous Moonlight. Este filme é sobre a resistência da Polónia contra a invasão nazi de 1939 e tem como principal personagem um pianista e compositor polaco, que se torna piloto aviador para defender o seu país. No filme, o respetivo herói é visto compondo esta peça num piano, num edifício destruído após um bombardeamento da cidade de Varsóvia pela aviação alemã.

Inicialmente, os produtores do filme pretenderam que o autor da música fosse o pianista e compositor russo Sergei Rachmaninoff (1873–1943), mas este declinou o convite. Foi então que convidaram Addinsell, que aceitou e compôs a peça no estilo de Rachmaninoff. Embora esta obra se chame concerto, ela em rigor não o é, pois é constituída por um só andamento e não por três, como é habitual nos concertos.

O Concerto de Varsóvia constituiu um êxito extraordinário, tendo-se vendido milhões de discos em todo o mundo e acabando ele por ser tocado nos auditórios e salas de concerto, apesar do preconceito que então havia contra a música de filmes por parte dos músicos que se consideravam "sérios". As rádios de todo o mundo também transmitiram esta obra vezes sem conta ao longo das décadas de 40 e 50, com pleno agrado dos seus ouvintes.

06 junho 2016

Romance de D. Silvana ou do Conde de Alemanha

Estando a D. Silvana
Em uma grande agonia,
Acordou seu pai na cama,
Com o choro que fazia.
— Tu que tens, D. Silvana,
Tu que tens, ó filha mia?
— Das sete irmãs que nós somos
Já todas têm família.
E eu, que sou a mais formosa,
Sem me casar ficaria?
— Mas no meu reino não há
Ninguém que te merecia.
Já corri sete reinados,
Também lá os não havia.
Só o conde de Alemanha
Bem digno de ti seria.
— Mande-o chamar, meu pai,
Que esse bem me agradaria.
— Mas o Conde de Alemanha
É casado, tem família.
— Mande matar a condessa,
Que já livre ficaria.
Mandou-o El-Rei chamar,
Em missão de cortesia.
Passados alguns momentos,
O Conde à porta batia:
— Que deseja V. Alteza,
Que quer V. Senhoria?
— Que tu mates a Condessa,
Pra casar co’a filha mia,
E me tragas a cabeça
Nesta dourada bacia.
— A Condessa não a mato,
Que ela não o merecia.
— Mas mata-a e traz-me a cabeça
Nesta dourada bacia.
Regressou o Conde a casa,
Não falava nem comia.
Ao ver a sua tristeza,
A Condessa lhe dizia:
— Conta, Conde, Conta, Conde,
Conta-me a tua agonia.
— Vamos antes pró jardim,
Que eu aí te contaria.
Foram ambos pró jardim,
Nem um nem outro colhia.
— Conta, Conde, conta, Conde,
Conta-me a tua agonia.
— Vamos antes para a mesa,
Que eu aí te contaria.
Foram ambos para a mesa,
Nem um nem outro comia.
— Conta, Conde, conta, Conde,
Conta-me a tua agonia.
— Vamos antes para a cama,
Que eu aí te contaria.
Foram ambos para a cama,
Nem um nem outro dormia.
— Conta, Conde, conta, Conde,
Conta-me a tua agonia.
— El-Rei manda que te mate,
Pra casar co´a sua filha,
E levar a tua cabeça
Nesta maldita bacia.
— Não me mates querido Conde,
Não faças tal vilania.
Manda-me para meu pai,
Que ele me sustentaria.
— Mas El-Rei quer-te a cabeça
Nesta maldita bacia.
— Manda-me pôr numa torre
Que eu à fome morreria.
— Mas El-Rei quer-te a cabeça
Nesta maldita bacia.
— Manda chamar o barbeiro
Que me faça uma sangria.
— Mas El-Rei quer-te a cabeça
Nesta maldita bacia.
— Mata a nossa cadelinha
E manda-lha na bacia.
— Mas El-Rei é muito esperto
E logo descobriria.
— Deixa-me então despedir
Do meu querido jardim:
Adeus, cravos, adeus, rosas,
Adeus, flor do alecrim…
Venham agora os meus filhos,
Filhos do meu coração,
Que amanhã, por esta hora,
Comigo já não estarão.
Anda cá, filho mais velho,
Anda-me beijar a mão,
Que amanhã, por esta hora,
Outra mãe te arranjarão.
Anda cá, filho do meio,
Vou dar-te a minha bênção,
Que amanhã, por esta hora,
Já terás outra mansão.
Anda cá, filho mais novo,
Mama o leite da paixão,
Que amanhã por esta hora,
Já eu estarei no caixão.
Mama, mama, meu filhinho,
Este leite de amargura,
Que amanhã, por esta hora,
Já estarei na sepultura.
Tocam os sinos na Sé…
— Ai, Jesus, quem morreria?!
Responde o filho mais novo,
Que ainda falar não sabia:
— Morreu a D. Silvana,
Pela traição que fazia,
E o malvado do Rei,
Que também o merecia,
Por descasar bem-casados,
Coisa que Deus não queria!

Romanceiro popular, in Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro, de Joaquim Alves Ferreira


01 junho 2016

Tainá — A Origem


Trailer do filme brasileiro Tainá — A Origem

Hoje é o Dia Mundial da Criança. Para assinalar a data, proponho que se veja o filme infantil brasileiro "Tainá — A Origem", um filme cheio de aventuras passadas na Amazónia. A sua atriz principal é uma indiazinha de verdade, chamada Wiranu Tembé, que à data da rodagem do filme tinha cinco anos de idade e que desempenha o papel de uma menina que defende a floresta contra o mal.

O desempenho da pequena Wiranu, neste filme rodado no Pará, é verdadeiramente surpreendente. Nem parece ter apenas cinco anos. Quando foi selecionada para participar na rodagem do filme, Wiranu Tembé não sabia o que era o cinema, nunca tinha visto televisão, pois vivia numa aldeia sem eletricidade, e quase não sabia falar português, sendo a sua língua materna o tupi. Os seus brinquedos favoritos eram um arco e flechas, exatamente o mesmo arco e as mesmas flechas que ela traz consigo no filme. É também autêntica a espantosa facilidade com que ela trepa a uma árvore de açaí, para chegar aos cachos de deliciosos frutos. Nesta cena do açaí não houve qualquer truque ou efeito especial; ela trepou a árvore assim mesmo como se vê. É claro que havia proteções, que não são visíveis no filme, para que a menina não se magoasse no caso de cair.



Tainá — A Origem, filme completo

Junho

Junho, iluminura do livro Les Très Riches Heures du Duc de Berry