30 março 2006

Camelot?

Penedono
Parece o castelo do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, mas não é. Nem sequer fica na Grã-Bretanha. Este castelo gótico é português e fica em Penedono, no norte da Beira Alta, próximo do Alto Douro.

28 março 2006

Kianda


Durante a convivência que tive em Angola com pessoas pertencentes às classes populares, foram-me contadas diversas lendas e contos tradicionais daquele país. Além de uma ou outra fábula com animais, a maior parte das narrativas que ouvi envolveu a figura mítica da sereia.

As gentes do povo, em Angola, acreditam convictamente na existência de sereias, que dizem ser dotadas de poderes sobrenaturais. Em quimbundo, as sereias são chamadas ianda, no singular kianda. Cada meio aquático tem uma sereia, isto é, cada rio, cada lagoa, quase cada charco tem a sua kianda, que toma o nome do rio, lagoa ou cacimba. De certa forma, ela é a encarnação do próprio meio aquático.

As histórias de sereias que ouvi mais frequentemente relatavam o aparecimento de uma sereia a um homem pobre, a quem ela revelava a existência de um tesouro. Subitamente enriquecido, o homem passava a comportar-se de modo egoísta, gastando toda a riqueza em seu proveito pessoal e não em benefício da comunidade. Como castigo, a sereia acabava por fazer desaparecer o tesouro, ficando o homem na mais completa miséria. Por vezes, o castigo era mais duro e o homem ficava para sempre encantado no fundo do rio ou da lagoa.

Há histórias de sereias em que é toda a aldeia que se comporta de modo egoísta ou avarento, sendo neste caso o castigo aplicado a toda a comunidade, que fica então encantada no fundo do lago ou do rio. Há angolanos que juram mesmo, pelo «sangue de Cristo», que ouviram o som de mulheres a pilar, de cães a ladrar ou de galos a cantar vindo de uma aldeia condenada a viver para sempre no fundo da lagoa ou do rio.

O mar também tem a sua sereia, como não podia deixar de ser. Em quimbundo, o mar chama-se kalunga, mas a sereia não se chama Kalunga. Este nome é aplicado a um outro ser sobrenatural, chamado Kalunga Ngombe ou Kalunga Ngumba consoante as regiões, que é o espírito que preside ao reino dos mortos. Por vezes, em vez de se dizer que alguém morreu (uafu) diz-se que o falecido foi levado por Kalunga (Kalunga ua mu ambata). Este nome kalunga está portanto associado a algo que é eterno, como a morte, ou imenso, como o mar. Em umbundo, Kalunga significa Deus.

A sereia do mar, por conseguinte, não tem nome próprio. Pelo menos, eu nunca o ouvi. Ela é simplesmente chamada kianda. É a Kianda por excelência, escrita com K maiúsculo, a Sereia das sereias. Quando em Angola se fala na Kianda, sem se especificar de qual delas se trata, é à sereia do mar que as pessoas se referem. Ela é a mais poderosa de todas as sereias, cujos caprichos os pescadores procuram aplacar com oferendas. A Kianda em Angola e Iemanjá no Brasil são uma e a mesma sereia.

26 março 2006

Respostas de alunos em exames em França

Foto: holty


1) Galileu (1564-1642) foi condenado à morte porque foi o primeiro a fazer a terra andar à volta.

2) François Mitterrand sucedeu a François 1er.

3) Um braço de mar é um pedaço de mar em forma de braço.

4) O exemplo do Titanic serve para demonstrar a agressividade dos icebergs.

5) Os 4 pontos cardeais são a direita, a esquerda, em baixo e em cima.

6) A França tem 60 milhões de habitantes entre os quais muitos animais.

7) A 2ª guerra mundial foi um periodo de paz e de prosperidade para a Alemanha.

8) A 11 de novembro, armisticio da 1ª guerra, o presidente condecora os pais do soldado desconhecido.

9) Na guerra de 14 a 18, os soldados morriam várias vezes, primeiro por causa das bombas, e depois porque lhes davam lama para comer.

10) Os rios correm sempre no sentido da água.

11) Um quadrado é um rectângulo que tem um âgulo direito em todos os lados.

12) Um quadrado é um rectângulo um pouco mais curto.

13) O zero é o único número que permite contar até 1.

14) Um septuagenário é um losango de 7 lados.

15) Todos os números pares podem dividir-se por zero.

16) Uma linha recta torna-se curva quando vira.

17) Um compasso utiliza-se para medir os ângulos do círculo.

18) Uma raíz quadrada é uma raíz com 4 ângulos iguais.

19) Os chineses utilizam as suas bolas para fazer contas.

20) Para fazer uma divisão, é preciso multiplicar uma subtracção.

21) O álcool permite tornar a água potável.

22) Uma tonelada pesa pelo menos 100 Kg se ela for pesada.

23) O desembarque na Normandia teve lugar nas praias de Inglaterra.

24) A primeira guerra mundial fez uma dezena de mortos mas só do lado alemão

25) As bombas atómicas são inofensivas quando servem para fabricar electricidade.

26) Se não se estragassem, as máquina não seriam humanas.

27) Um relógio divide-se em 12 fusos horários de igual intensidade.

28) Arquimedes foi o primeiro a provar que uma banheira podia flutuar.

29) A datação com o carbono 14 permite saber se alguém morreu na guerra.

30) No cinema mudo, os actores falavam com palavras que escreviam por baixo dos filmes.

31) O cinema era uma energia ainda desconhecida no século XIX.

32) 1 litro de água a 20ºC + 1 litro de água a 20ºC = 2 litros de água a 40ºC.

33) Os agricultores nem sempre foram pessoas coléricas que queimavam pneus e batatas.

34) Uma língua morta é uma língua que só é falada pelos mortos.

35) Victor Hugo escrevia livros para os pobres miseráveis.

36) Em todos os quadros pintados vê-se bem que Napoleão escondia a sua grande barriga com a mão.

37) A gramática não serve para nada porque é muito difícil de perceber.

38) Napoleão é o sobrinho do seu avô.

39) Antes da guilhotina, os condenados à morte eram executados na cadeira eléctrica.

40) A guerra dos 100 anos durou de 1914 a 1918.

41) Uma biblioteca é como um cemitério para os livros velhos.

42) Nero servia-se dos cristãos para fazer lâmpadas, metendo-lhes fogo.

43) A leitura permite ao homem tornar-se míope.

44) Os latinos falavam o grego antigo.

45) A leitura é feita para aqueles que não gostam de escrever.

46) O livro de bolso foi inventado por Gutenberg.

(Recebido por e-mail).

25 março 2006

Vozes búlgaras

Foto: Le Mystère des Voix Bulgares

A música tradicional da Bulgária tem uma riqueza extraordinária: melodias estranhas, ritmos complexos, compassos exóticos, harmomias únicas e coros femininos límpidos e cristalinos.

Estou a tentar poupar na adjectivação, porque o que me apetece é desfazer-me em adjectivos superlativos para caracterizar esta música que hoje proponho ouvir. Que cada um avalie por si, depois de escutar esta canção, esta canção e esta canção.

23 março 2006

Reciclagem em Viena

Foto: Wikimedia

Hundertwasserhaus ("Casa de Hundertwasser") é o nome deste insólito edifício na capital da Áustria. Além do seu aspecto pouco ortodoxo, esta casa, concebida pelo pintor austríaco já falecido Friedensreich Hundertwasser, tem uma outra característica que a distingue das restantes edificações: ela foi feita com materiais recuperados de outras construções. É uma reciclagem ao vivo e a cores.

Apesar das atenções que atrai e dos muitos turistas que a vão ver, esta casa não é nenhum museu nem alberga nenhuma instituição de prestígio. Pertence à Câmara Municipal de Viena e é um complexo de habitação social que alberga famílias de fracos recursos económicos, entre elas algumas famílias de imigrantes.

Nem todos os circuitos turísticos de Viena incluem uma visita a esta casa. Embora não fique longe do centro da cidade, a Hundertwasserhaus não está na sua zona monumental, recheada de palácios e museus, que todos os turistas visitam. Ela situa-se numa zona residencial, que fica entre o centro histórico e o parque mais famoso da cidade, o Prater.

Foto: zanzig.com

21 março 2006

Dia Mundial da Poesia

O último adeus dum combatente

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

Vasco Cabral (1926-2005), poeta da Guiné-Bissau

20 março 2006

Os sargaceiros da Apúlia


Imediatamente a norte da Estela, no concelho da Póvoa de Varzim, fica a Apúlia, que é uma freguesia do concelho de Esposende. Apesar de a Apúlia estar situada à beira-mar, aquilo que a tornou famosa não está relacionado com a pesca, mas sim com a agricultura.

É a figura do sargaceiro, que apanhava as algas (sargaço) trazidas para a costa pelo mar, a fim de as utilizar na fertilização dos campos, depois de terem sido secas ao sol. Embora a actividade da apanha do sargaço esteja agora reduzida ao mínimo, ela na Apúlia teve uma grande importância no passado. Permitiu, inclusive, que se fertilizassem as dunas da Estela, transformando-as em campos produtivos, os chamados campos-masseira.

Os sargaceiros não eram profissionais da apanha do sargaço. Eram os próprios habitantes da terra (homens e mulheres) que, em determinadas ocasiões, abandonavam o trabalho nos campos e iam para a praia recolher sargaço e estendê-lo no areal para secar. Concluída a temporada da apanha do sargaço, regressavam à sua actividade agrícola.

A inconfundível indumentária que os homens vestiam para a apanha do sargaço é motivo de muita admiração. Não falta quem evoque as túnicas dos antigos romanos e as "saias" dos pauliteiros de Miranda (que na verdade não são saias; são camisas, que são tão compridas que parecem saias; digamos que os pauliteiros se "esqueceram" de vestir as calças e dançam em fraldas de camisa) para justificar o uso da chamada branqueta com saiote pelos sargaceiros da Apúlia.

Não são precisas grandes explicações. A razão para o uso de tal indumentária era eminentemente prática: permitir que o sargaceiro entrasse no mar, a fim de recolher o sargaço que flutuava na água.

Antigamente, como é óbvio, não existiam os tecidos sintéticos de secagem rápida que se usam nos modernos fatos de banho. As pessoas vestiam-se de linho, algodão ou lã que, uma vez molhados, demoravam muito tempo a secar.

Se o sargaceiro usasse calças, calções ou mesmo só cuecas, ele não poderia entrar na água, pois ficaria com um tecido molhado a roçar-lhe as virilhas durante horas, causando-lhe inflamações na pele e favorecendo o aparecimento de micoses. Por isso ele usava saias sem nada por baixo. Quase até aos limites impostos pelo pudor, as saias eram suficientemente curtas e com suficiente roda para que a água secasse rapidamente.

19 março 2006

Agricultura na areia

Campo-masseira. (Foto: Portal Póvoa de Varzim)

Não é preciso ir a Israel ou aos Emirados Árabes Unidos para se ver areia a produzir cebolas, tomates e pepinos. Basta ir à Estela e Aguçadoura, a norte da Póvoa de Varzim, aqui mesmo em Portugal.

Nessa região próxima do mar, os agricultores conseguiram transformar dunas de areia em campos férteis, que são os chamados campos-masseira. Alguns desses campos estão a escassos metros da praia, onde sopram os ventos marítimos carregados de sal. Até parece milagre, um milagre que atrai agrónomos de todo o mundo, até do Japão.

Para conseguir esse milagre, os lavradores escavaram rectângulos nas dunas (iguais ao que se vê na fotografia) até quase ao nível freático. Como os rebordos dos rectângulos são de areia, eles não são verticais, mas sim inclinados. Os campos tomam por isso a forma de gigantescos tabuleiros de amassar o pão, sendo chamados campos-masseira ou simplesmente masseiras. Estes campos encontram-se a um nível que está entre 1 e 2,5 metros abaixo do nível das estradas e caminhos.

Tradicionalmente, nos rebordos inclinados dos campos-masseira são plantadas vinhas, que consolidam a sua areia. No fundo dos campos cultivam-se diversas espécies hortícolas, sendo a mais cultivada a cebola, que é muito apreciada. «Não há cebola como a das masseiras», diz-se.

Como o fundo dos campos está próximo do nível freático, as raízes das plantas encontram aí a água de que necessitam para o seu desenvolvimento. O nível inferior a que os campos se encontram também protege as plantas do vento carregado de sal que sopra do lado do mar, assim como permite que elas sejam mais aquecidas pelo sol e assim se desenvolvam mais.

Como é evidente, a água e a areia, por si sós, não permitem o crescimento de plantas. É preciso que também haja nutrientes no solo. Como a areia não os tem, eles têm de ser acrescentados pelos agricultores. A fertilização dos campos-masseira é feita, sobretudo, por estrume de vaca, proveniente das inúmeras vacarias que existem na região (é nelas que estão as vacas que produzem o leite da marca Agros) e também por algum adubo químico. Ainda há alguns agricultores que preferem fertilizar os seus campos à moda antiga, com sargaço (algas) lançado para a praia pelo mar.

A apanha do sargaço para os campos-masseira e outros campos já não tem, de maneira nenhuma, a importância que teve no passado. Ela teve uma importância tal que permitiu a existência, na vizinha localidade de Apúlia, de uma figura muito característica, a do sargaceiro, que em vez de calças vestia um curto saiote. Hoje, a figura do sargaceiro já não existe, mas continua a ser um motivo de orgulho para as gentes da Apúlia, que a recriam no seu grupo folclórico.

17 março 2006

Questões de identidade e a construção do futuro

Passo a reproduzir algumas passagens de uma conferência feita na Associação Moçambicana de Economistas (AMECON), em 30 de Setembro de 2003, pelo escritor moçambicano Mia Couto:

Durante anos, dei aulas em diferentes faculdades da Universidade Eduardo Mondlane. Os meus colegas professores queixavam-se da progressiva falta de preparação dos estudantes. Eu notava algo que, para mim, era ainda mais grave: uma cada vez maior distanciação desses jovens em relação ao seu próprio país. Quando eles saíam de Maputo em trabalhos de campo, esses jovens comportavam-se como se estivessem emigrando para um universo estranho e adverso. Eles não sabiam as línguas, desconheciam os códigos culturais, sentiam-se deslocados e com saudades de Maputo. Alguns sofriam dos mesmos fantasmas dos exploradores coloniais: as feras, as cobras, os monstros invisíveis.

Aquelas zonas rurais eram, afinal, o espaço onde viveram os seus avós, e todos os seus antepassados. Mas eles não se reconheciam como herdeiros desse património. O país deles era outro. Pior ainda: eles não gostavam desta outra nação. E ainda mais grave: sentiam vergonha de a ela estarem ligados. A verdade é simples: esses jovens estão mais à vontade dentro de um video-clip de Michael Jackson do que no quintal de um camponês moçambicano.

O que se passa, e isso parece inevitável, é que estamos criando cidadanias diversas dentro de Moçambique. E existem várias categorias: há os urbanos, moradores da cidade alta, esses que foram mais vezes a Nelspruit que aos arredores da sua própria cidade. Depois, há uns que moram na periferia, os da chamada cidade baixa. E há ainda os rurais, os que são uma espécie de imagem desfocada do retrato nacional. Essa gente parece condenada a não ter rosto e falar pela voz de outros.

(...)
A nossa riqueza provém da nossa disponibilidade em efectuarmos trocas culturais com os outros. O Presidente Chissano perguntava num texto muito recente sobre o que é Moçambique tem de especial que atrai a paixão de tantos visitantes. Esse não sei quê especial existe, de facto. Essa magia está ainda viva. Mas ninguém pensa, razoavelmente, que esse poder de sedução provém de sermos naturalmente melhores que os outros. Essa magia nasce da habilidade em trocarmos cultura e produzirmos mestiçagens. Essa magia nasce da capacidade de sermos nós, sendo outros.

(...)
Faz todo o sentido, portanto, afirmarmos aquilo que é nosso. Mas a pergunta é: o que é verdadeiramente nosso ? Há aqui alguns mal-entendidos. Por exemplo: uns acreditam que a capulana é um vestuário originário, tipicamente moçambicano. Fiz por diversas vezes esta pergunta a estudantes universitários: que frutos são os nossos por oposição ao morango, ao pêssego, à maçã? As respostas, uma outra vez, são curiosas. As pessoas acreditam que são originariamente africanos: o caju, a manga, a goiaba, a papaia. E por aí fora. Ora nenhum desses frutos é nosso, no sentido de ser natural do continente. Outras vezes, sugere-se que a nossa afirmação se faça na base de vegetais usados na nossa culinária. O emblema do tipicamente nacional passa agora para o coco, a mandioca, a batata doce, o amendoim. Tudo produtos que foram introduzidos em Moçambique e em África. Mas aqui se coloca a questão: essas coisas acabam sendo nossas porque, para além da sua origem, lhes demos a volta e as refabricamos à nossa maneira. A capulana pode ter origem exterior mas é moçambicana pelo modo como a amarramos. E pelo modo como esse pano passou a falar connosco. O coco é indonésio, a mandioca é mais latino-americana que a Jennifer Lopez mas o prato que preparamos é nosso porque o fomos caldeando à nossa maneira.

(...)
África não pode ser reduzida a uma entidade simples, fácil de entender. O nosso continente é feito de profunda diversidade e de complexas mestiçagens. Longas e irreversíveis misturas de culturas moldaram um mosaico de diferenças que são um dos mais valiosos patrimónios do nosso continente. Quando mencionamos essas mestiçagens falamos com algum receio como se o produto híbrido fosse qualquer coisa menos pura. Mas não existe pureza quando se fala da espécie humana. Os senhores dizem que não há economia actual que não se alicerce em trocas. Pois não há cultura humana que não se fundamente em profundas trocas de alma.

(...)
O nosso continente corre o risco de ser um território esquecido, secundarizado pelas estratégias de integração global. Quando digo “esquecido” pensarão que me refiro à atitude das grandes potências. Mas eu refiro-me às nossas próprias elites que viraram costas às responsabilidades para os seus povos, à forma como o seu comportamento predador ajuda a denegrir a nossa imagem e fere a dignidade de todos os africanos. O discurso de grande parte dos políticos é feito de lugares-comuns, incapazes de entender a complexidade da condição dos nossos países e dos nossos povos. A demagogia fácil continua a substituir a procura de soluções. A facilidade com que ditadores se apropriam dos destinos de nações inteiras é algo que nos deve assustar. A facilidade com que se continua a explicar erros do presente através da culpabilização do passado deve ser uma preocupação nossa. É verdade que a corrupção e o abuso do poder não são, como pretendem alguns, exclusivas do nosso continente. Mas a margem de manobra que concedemos a tiranos é espantosa. É urgente reduzir os territórios de vaidade, arrogância e impunidade dos que enriquecem à custa do roubo. É urgente redefinir as premissas da construção de modelos de gestão que excluem aqueles que vivem na oralidade e na periferia da lógica e da racionalidade europeias.

Nós todos, escritores e economistas, estamos vivendo com perplexidade um momento muito particular da nossa História. Até aqui Moçambique acreditou dispensar uma reflexão radical sobre os seus próprios fundamentos. A nação moçambicana conquistou um sentido épico na luta contra monstros exteriores. O inferno era sempre fora, o inimigo estava para além das fronteiras. Era Ian Smith, o apartheid, o imperialismo. O nosso país fazia, afinal, o que fazemos na nossa vida quotidiana: inventamos monstros para nos desassossegar. Mas os monstros também servem para nos tranquilizar. Dá-nos sossego saber que eles moram fora de nós. De repente, o mundo mudou e somos forçados a procurar os nossos demónios dentro de casa. O inimigo, o pior dos inimigos, sempre esteve dentro de nós. Descobrimos essa verdade tão simples e ficamos a sós com os nossos próprios fantasmas. E isso nunca nos aconteceu antes. Este é um momento de abismo e desesperanças. Mas pode ser, ao mesmo tempo, um momento de crescimento. Confrontados com as nossas mais fundas fragilidades, cabe-nos criar um novo olhar, inventar outras falas, ensaiar outras escritas. Vamos ficando, cada vez mais, a sós com a nossa própria responsabilidade histórica de criar uma outra História. Nós não podemos mendigar ao mundo uma outra imagem. Não podemos insistir numa atitude apelativa. A nossa única saída é continuar o difícil e longo caminho de conquistar um lugar digno para nós e para a nossa pátria. E esse lugar só pode resultar da nossa própria criação.

O texto completo desta conferência de Mia Couto pode ser lido, por exemplo, nesta página.

16 março 2006

Sentir o chão a fugir-lhes debaixo dos pés


Sentir o chão a fugir-lhes debaixo dos pés, literalmente, foi o que quase aconteceu, no Triângulo Afar, a um grupo de cientistas da Universidade de Addis Abeba, em 26 de Setembro de 2005. Mal eles desceram de um helicóptero, a terra começou a tremer e a abrir-se em direcção a eles, como se fosse um gigantesco fecho éclair. Felizmente, o fenómeno parou antes de os atingir.

O chamado Triângulo Afar é uma região geologicamente muito activa, que engloba Djibuti e regiões vizinhas pertencentes à Eritreia e à Etiópia, a qual se prolonga para sul, pelo vale do Rift, ao longo de 6 mil quilómetros, até Moçambique. É uma região em que três placas tectónicas se encontram (duas partes da placa africana e a placa arábica), as quais estão a afastar-se umas das outras à velocidade de um centímetro por ano. Este facto leva ao afundamento da região, a qual deverá tornar-se um novo mar num futuro que será breve em termos geológicos, quando a água do Mar Vermelho e do Golfo de Aden acabar por inundá-la.

Vastas parcelas da região já estão a mais de 100 metros abaixo do nível do mar. Dentro de cerca de 30 milhões de anos, o Triângulo Afar e o Rift serão um mar tão vasto como o Mar Vermelho, onde se afundarão, também, os célebres montes Kilimanjaro e Nyiragongo.

Tremores de terra constantes, fracturas do solo que se têm multiplicado nos últimos anos e que atingem 500 metros de profundidade em alguns pontos, erupções vulcânicas a debitarem lava basáltica, emanações de fumos tóxicos escaldantes, ruído de magma a borbulhar, cheiro a enxofre e outros fenómenos repetem hoje aquilo que deu origem ao Mar Vermelho há 30 milhões de anos. Nessa ocasião, a Arábia ficou separada da África. No futuro, será o Corno de África que ficará separado do resto do continente.

Além de dar conta deste fenómeno em inglês, a revista alemã Der Spiegel tem no seu sítio fotografias bem ilustrativas do que se está a passar no Triângulo Afar. Elas podem ser acedidas a partir da página "Africa's New Ocean, A Continent Splits Apart".

15 março 2006

"Educação é Liberdade"

O que é isto? Hip-hop depois de Vivaldi?!

E porque não? O hip-hop também é cultura.

Na sequência do rap que ouvi no magnífico (sem favor) blog Às vezes (des)organizo-me em palavras..., que a angolana Pwo edita, rap esse que o grupo Kalibrados dedica a Luanda e de que gostei muito, resolvi, também eu, colocar aqui um rap.

Assim, proponho que se ouça "Educação é Liberdade", por Da Weasel, um dos mais populares grupos de rap portugueses. A letra é a seguinte:


Tenta perceber a tua identidade
Procura no teu íntimo a verdade
Não és apenas mais uma pessoa
Que aparece neste mundo à toa
Tenta encontrar as tuas raízes
Senão pode ser que algum dia as pises
Só assim perceberás quem tu és
No sangue que te corre da cabeça aos pés
Talvez daí tires uma lição
Sobre o que se passa neste mundo cão
Muitas vezes é preciso saber ouvir
Ir em frente quando apetece desistir

É mais forte o homem que sabe criar um filho
Do que aquele que apenas prime o gatilho
É mais fácil matar que ler um livro, verdade?
Mas a bala é a prisão, educação é liberdade

Cada terra com seu uso
Cada roca com seu fuso
Nasci em Angola, tenho mãe cabo-verdiana
Sempre vivi em terra lusitana
Três culturas que não vou separar
Todas têm muito para me ensinar
Prefiro antes fazer uma fusão
Porque a força vem da união
Nunca segui o caminho da violência
Constitui um atentado à minha inteligência
Podes ser o gajo mais teso, mais duro
Mas não é assim que vais sair do escuro

É mais forte o homem que sabe criar um filho
Do que aquele que apenas prime o gatilho
É mais fácil matar que ler um livro, verdade?
Mas a bala é a prisão, educação é liberdade

Tantos putos em idade de estudar
Passam o dia na rua a roubar
Essa situação não pode continuar
Todos temos um futuro a assegurar
Ou também queres como um burro trabalhar
E ser mais um para o patrão explorar
Escuta bem esta voz amiga
Pensa no sofrimento que nos liga
Não sejas mais um irmão que estagnou
E que para o outro lado se passou
Ficou pela delinquência
Olha em frente, tem prudência
Sabemos que este mundo não é perfeito
Mas unidos podemos dar um jeito

É mais forte o homem que sabe criar um filho
Do que aquele que apenas prime o gatilho
É mais fácil matar que ler um livro, verdade?
Mas a bala é a prisão, educação é liberdade

Écoute, écoute, je parle de l'éducation
Un problème qui fait partie de notre génération
Ouai, essai de comprendre ton identité
Cherche la vérité et t'auras la liberté
Tu ne vois pas ton avenir, clairement
Tu sais que tu vas souffrir et il y aura du sang
Qui coule de tes veines, personne n'aura de la peine
Mais ils vont demander pardon
Et repondre à mes questions
Sur la nation sur la tension
Pour qu'ils apprennent la leçon
Raciale, sociale, politique, économique
Car vers moi ils s'adressent sans aucune politesse
Ça me stresse il va faloir que cela cesse
Car tu n'es pas ici pour le plaisir de quelqu'un
Je ne sais pas si t'as saisi mais il faut trouver
Ton chemin,
Maintenant tout le monde ne pense qu'à l'argent
Ils se tuent tout le temps
Ils oublient l'important
Que la vie a une fin
La fin c'est la mort
Utilise ton instint
Tu seras le plus fort

Encontrei este rap numa página de Carlos Alberto Osório.

14 março 2006

A gata das botas

Foto: A. Leitão

Modelo de altíssima costura fotografado por A. Leitão e a que não pude resistir. Surripiei-lho à má fila de A Máquina do Tempo, um fotoblog recheado de belas imagens do Porto, Entre-os-Rios, Paris, Heidelberg, Marrocos, etc. etc. Um blog que realmente dá gosto ver.

13 março 2006

Música sublime

Antonio Vivaldi
É umas das mais sublimes jóias musicais, esta ária intitulada Gelido in ogni vena, da ópera Farnace, do grande compositor italiano Antonio Vivaldi, na insuperável interpretação da mezzo-soprano italiana Cecilia Bartoli e do agrupamento barroco italiano Il Giardino Armonico, sob a direcção de Giovanni Antonini.

Nesta gravação é tudo de Itália. É o génio italiano na sua máxima força. E que força!

12 março 2006

A esquecida Mongólia

A Mongólia, terra de origem dos terríveis guerreiros que fizeram um vastíssimo império que ia da China à Europa e à Índia, é hoje um território dividido e esquecido nos confins da Ásia Central. Uma parte é independente (a República da Mongólia) e a outra parte está incluída na China (a Mongólia Interior).

Mesmo na actualidade, a maior parte dos mongóis é nómada e vive da pastorícia, habitando tendas de feltro capazes de aguentar os rigores do Inverno. Mesmo que cá fora a temperatura seja de 30 ou 40 graus centígrados negativos, no interior das tendas ela pode estar bem acima dos 20 graus positivos.

Podem ser vistas muita e belas fotografias da Mongólia no sítio e-mongol.com.

Interior de uma tenda(Foto: davejlang600)

Botas tradicionais

(Foto: Marie-José Monfils)

11 março 2006

A praia mais ocidental da Europa


Não há, em Portugal, concelho como o de Sintra. Tem serras e tem planícies. Tem palácios e tem castelos. Tem subúrbios superlotados e tem quintas aristocráticas. Tem florestas e tem aldeias brancas. Tem pegadas de dinossauros e tem rochas de formas caprichosas. Tem antigos conventos católicos e tem antigos templos pagãos. Tem túmulos pré-históricos e tem cemitérios medievais. Tem vestígios romanos e tem aquedutos barrocos. Tem hortas e tem indústrias. Tem várzeas e tem charnecas. Tem mármores e tem nascentes de água pura. Tem queijadas e tem "fofinhos". Tem vinhos raros e tem leitão assado. E como se tudo isto ainda não bastasse, Sintra tem uma das mais belas costas de Portugal, com destaque para o trecho compreendido entre o Cabo da Roca e a Praia da Adraga.

Neste trecho de costa, não muito longe do Cabo da Roca, fica a pequenina Praia da Ursa, que é uma das praias mais puras e virginais que algumas vez encontrei. Lá em baixo, o dourado da areia, o azul do céu, o verde esmeralda do mar, a limpidez cristalina do fio de água que cai da falésia e o som das ondas quebrando no minúsculo areal dão-nos a nítida sensação de que o mundo acabou de ser criado naquele preciso momento.

Quando, ao fim da tarde, nos retiramos, subimos a encosta, olhamos para trás a meio do caminho e vemos o nevoeiro a começar a entrar pela terra dentro, vindo do mar, desejamos que aquele instante fique cristalizado para sempre e que nós fiquemos ali, eternamente enfeitiçados, a ver a praiazinha inundada de uma fina poalha de luz.

Foi este o instante que eu procurei fixar na foto que aqui mostro. À minha volta, espalhadas pela encosta, havia flores brancas, chamadas armérias da Roca ou pompons brancos, que só existem naquelas redondezas e em nenhuma outra parte do mundo. São as pequenas manchas brancas que se vêem em primeiro plano, por entre o verde dos chorões.

O nome Ursa vem do grande rochedo separado da terra firme que está mais à esquerda, o mais pontiagudo. Visto de um ângulo perpendicular ao da foto, ele apresenta um arco tal que parece nitidamente um urso gigantesco a beber a água do mar. (Um visitante deste blog refere, num comentário a este artigo, que o nome Ursa não terá vindo deste rochedo, mas sim de uma outra formação rochosa que estava situada mais a sul e que apresentava dois enormes arcos inclinados. Esta formação rochosa desmoronou-se há muitos anos.)

Já que falo da água do mar, chamo a atenção para o facto de que na Praia da Ursa ela é particulamente fria. Eu, que sou do Porto e estou por isso habituado, desde a mais tenra idade, ao mar frio das praias desta cidade, fiquei petrificado quando mergulhei nas ondas da Ursa. Nunca em dias da minha vida mergulhei numa água tão fria.

08 março 2006

Dia Internacional da Mulher


Eu já tencionava publicar um poema de Geraldo Bessa Victor, que é um autor angolano radicado em Portugal há muitas dezenas de anos, mas o poema não era este. Não faz mal, fica para outra ocasião.

Poema para a Negra

Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volúpia vã do pitoresco,
entoem madrigais á tua dor.

Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que têm sabor de manga.

Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista fácil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.

Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captação atónita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...

Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a própria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!

(Geraldo Bessa Victor, in Obra poética, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 2001)

07 março 2006

O ukulele

Isto que aqui está é um instrumento havaiano chamado ukulele. «Ora, ora», dirão, «instrumento havaiano... O que isto é, é um cavaquinho!» Pois é.

Por muito estranho que pareça, a verdade é que o ukulele não é mais do que o portuguesíssimo cavaquinho transplantado para o Havai. Ganhou tal aceitação em tão longínquas paragens, que se tornou no instrumento mais tocado pelos havaianos e pelos polinésios em geral, mais ainda do que a dengosa guitarra havaiana. O cavaquinho/ukulele passou a ser um elemento essencial da "música típica do Pacífico".

Como é possível que este pequeno cordofone, nascido ali para os lados de Braga, tenha ido parar ao outro lado do planeta?! A explicação está numa palavra: emigração.

O Brasil (onde também se toca cavaquinho, aliás) não foi o único destino para onde se dirigiu a emigração portuguesa no século XIX. O Havai, lá tão longe no meio do Oceano Pacífico, acolheu também bastantes emigrantes portugueses. Entre estes, estiveram três artesãos violeiros que continuaram lá a fabricar cavaquinhos. Estes instrumentos tiveram tanto êxito naquelas paragens, que até a realeza havaiana passou a tocá-los.

Quem quiser aprofundar um pouco a história do ukulele poderá ler, em inglês, a página "The Hawaii Ukulele Guide Presents Over Century Of Ukulele History".

05 março 2006

O Juiz de Barrelas

Segundo os investigadores, consta ter sido nesta aldeia de Fráguas que viveu e passou a lenda um famoso juiz eleito pelo povo e confirmado pelo rei. O Juiz de Barrelas.
(...)

Que o Juiz de Barrelas era homem desempoeirado e sem papas na língua, capaz de se desenvencilhar do caso mais intrincado sem afectar a sua verticalidade e sempre «dizendo de seu» através de sentenças da sua lavra, tão oportunas quanto justas e por isso sábias.

Que o dissesse um Ministro que lhe escreveu a pretender que ele alterasse uma decisão que condenara um fidalgo de Peva por ter tentado abusar de uma criança, o tratava de maneira não respeitosa e a quem respondeu:

«Senhor Ministro:

Se o cargo que ocupo de Juiz eleito pelo povo, permite a Vossa Mercê tratar-me por tu, cuspo para o cargo; se a minha condição humilde mas honesta, permite a Vossa Mercê tratar-me por tu, cuspo para mim; mas, se nem uma coisa nem outra consentem semelhante linguagem, cuspo para o tratamento.

Peço, pois a Vossa Mercê me informe sobre estas particularidades, para saber ao certo se devo então, cuspir em Vossa Mercê.

Aqui, a justiça é feita em nome de El-Rei e para seu prestígio».


Na verdade a justiça de El-Rei saiu prestigiada, que ainda hoje se fala dele como exemplo. E se conta a história de um assassinato por ele presenciado e por isso inteiramente conhecedor de quem era o criminoso, mas sem que pudesse intervir.

Acusado um inocente, contra quem se erguiam falsas mas avultadas provas circunstanciais e impedido de testemunhar em virtude das suas funções, o Juiz de Barrelas resolveu o caso com a notável sentença:

«Vi e não vi; sei e não sei; corra a água ao cimo; deite-se fogo à queimada; dê-se laço em nó que não corra, etc., etc...

Por tudo isto em face da plena prova do processo, condeno o réu na pena de morte -- mas dou-lhe cem anos de espera para se arrepender dos seus pecados. -- Cumpra-se!».

Juiz de Barrelas


(Inácio Nuno Pignatelli, in O Paiva, ou a Paiva... como também lhe chamam, pág. 71 e 72, Edições Afrontamento, Porto 1998)

A Ponte Velha de Vila Nova de Paiva, a antiga vila de Barrelas, na região do distrito de Viseu a que Aquilino Ribeiro chamou Terras do Demo. Quantas vezes terão o Juiz de Barrelas e Aquilino passado por esta ponte?

04 março 2006

Lenda da vitória régia

A maior lili aquática no mundo é a Vitória Régia, nativa da bacia do Rio Amazonas. Suas folhas arrendondadas atingem até 2 m de diâmetro e possuem as bordas pronunciadas e levantadas. A vitória régia flutua graciosamente na água e pode sustentar o peso correspondente ao tamanho de um pequeno animal. Quando floresce, suas pétalas são brancas ou levemente rosadas, com bordas esverdeadas. Há muitos anos, nas margens do majestoso Rio Amazonas, Naia, uma jovem e bela índia ficava a admirar e contemplar por longas horas a beleza da lua branca e o mistério das estrelas. Enquanto o aroma da noite tropical enfeitava aqueles sonhos, a lua deitava uma luz intensa nas águas, fazendo Naia subir numa árvore alta para tentar tocar a lua. Ela não obteve êxito. No próximo dia, ela decidiu subir as montanhas distantes para sentir com suas mãos a maciez aveludada do rosto da lua, mas novamente ela falhou. Quando chegou lá, a lua estava tão alta que retornou à aldeia desapontada. Ela acreditava que a Lua era um bonito guerreiro - Jaci, e sonhava em ser a noiva desse bravo guerreiro. Na noite seguinte, Naia deixou a aldeia esperando realizar seu sonho. Ela tomou o caminho do rio para encontrar a lua nas negras águas. Refletida no espelho das águas, lá estava a Lua, imensa, resplandescente. Naia, em sua inocência, pensou que a lua tinha vindo se banhar no rio e permitir que fosse tocada. Ela mergulhou nas profundezas das águas desaparecendo para sempre. A lua, sentindo pena daquela tão jovem vida agora perdida, transformou Naia em uma flor gigante - a Vitória Régia - com um inebriante perfume e pétalas que se abrem nas águas para receber em toda sua superfície, a luz da lua.

(Lendas Amazônicas)

Foto: Vésper Estudo Orientado

03 março 2006

Música angolana

Depois de ter hesitado um bocado, por causa das más condições em que se encontra, resolvi pôr em linha uma gravação que fiz no Noroeste de Angola. Peço, portanto, a quem a ouvir, que perdoe a sua má qualidade e que procure melhorar um pouco a sua audição.

A gravação foi feita em Zemba, que fica no município de Nambuangongo, mais concretamente no canto nordeste da província do Bengo, a poucos quilómetros da "fronteira" com a província do Uíge. O seu intérprete é um habitante local chamado Gabriel António. A língua em que ele canta é o quimbundo tal como se fala na região dos Dembos, o qual apresenta algumas diferenças em relação ao quimbundo de Luanda.

Ainda uma palavra se impõe a propósito do uso de uma viola de fabrico europeu na gravação. A viola é um instrumento que entrou definitivamente no uso corrente das populações da região dos Dembos. Um pouco por toda a região se tocam violas que são fabricadas de maneira artesanal pelos próprios que as tocam. Por isso, é justo que se considere a viola como um instrumento musical angolano de facto, a par da marimba, do quissanje (ver figura), da ngoma, da puita, etc.

Afinal de contas, também a chamada guitarra portuguesa era inglesa antes de ser introduzida em Portugal. Ela veio do exterior e foi adoptada pelos portugueses como sendo sua. Porque não, pois, considerar a viola como um instrumento angolano?

No caso específico desta gravação, o intérprete estava tão contente por pôr as suas mãos numa viola "profissional", que não tive coragem para lhe pedir que tocasse, não aquela, mas a sua própria viola artesanal.

A gravação pode ser ouvida neste endereço.

A figura que ilustra este artigo foi descaradamente roubada do blog O Abre-Surdo.

01 março 2006

Uma galáxia em toda a sua glória


Esta é a maior e mais detalhada imagem de uma galáxia que até hoje foi obtida do telescópio espacial Hubble. É a galáxia Messier 101, que fica a 25 milhões de anos-luz da Terra. O seu diâmetro é de 170.000 anos-luz, o dobro do da Via Láctea, e calcula-se que contenha 1 bilião (1.000.000.000.000) de estrelas. Como nós somos pequeninos!

Esta imagem resulta de uma composição de 51 fotografias feitas pelo Hubble, juntamente com elementos retirados de fotografias da galáxia feitas em terra.

A notícia completa sobre esta imagem pode ser lida em inglês no sítio da Agência Espacial Europeia. Clicar na imagem para ampliá-la.