29 novembro 2020

Pentes tradicionais dos indígenas do Brasil



Maini Kuikuro é um índio brasileiro da etnia Kuikuro que fabrica pentes tradicionais, além de outros objetos característicos do seu povo. Vive numa aldeia do Xingu chamada Afukuri, de onde não sai para a cidade por causa da pandemia de coronavírus. Contudo, ele tem Whatsapp (N.º 66 98411-9878) e está presente nas redes sociais (página no Instagram: https://www.instagram.com/maini_kuikuro/). É, portanto, um índio do nosso tempo, mas sem renegar a sua própria cultura. Na sua página pessoal no Instagram, Mani Kuikuro publicou um conjunto de fotografias sobre os pentes que fabrica e que pretende vender, ilustrando também o modo como os fabrica. Tomei a liberdade de reproduzir algumas dessas fotografias.








O artista enquanto guerreiro

22 novembro 2020

Meu amor da Rua Onze

Tantas juras nos trocamos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos roubamos,
Tantos abraços nos demos.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais mentir.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nos trocamos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As promessas que fizemos.

Nossa maneira de amar
era tão doida, tão louca
Qu'inda me queimam a boca
Os beijos que nos roubamos.

Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nos demos.

E agora
Tudo acabou.
Terminou
Nosso romance.

Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer

E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
De escultura
Cor de bronze,
Meu amor da Rua Onze.

Aires de Almeida Santos (1922-1991), poeta angolano



(Foto: Jessé Manuel)

17 novembro 2020

Outono molhado no Parque da Cidade, Porto






14 novembro 2020

Estrábico

O Hospital de Jesus, em Lisboa (Foto de autor desconhecido)

Há pouco tempo, descobri que ainda existe o Hospital de Jesus, em Lisboa, onde fui operado aos olhos quando tinha dez anos de idade. É o edifício que se vê na imagem acima, que encontrei na internet, mesmo ao lado da igreja das Mercês (que está à direita) e faz esquina com a Rua da Quintinha (ao fundo), a qual não deve ser confundida com a Calçada da Quintinha, que fica em Campolide. Se seguirmos pela rua em que fica o hospital e continuarmos em frente, em vez de virarmos para a Rua da Quintinha, logo encontraremos umas escadinhas que vão acabar mesmo diante da Assembleia da República. Este hospital pertencia — e deve continuar a pertencer — a uma ordem religiosa. Pois foi dentro das paredes deste edifício que eu fui operado aos olhos por duas vezes, quando tinha dez anos de idade.

Isto é o que resta da casa onde viviam os meus pais. Com um ano de idade, caí de uma das janelas para a rua (Imagem extraída do Google Street View)

Eu sofria de um acentuado estrabismo, resultante de uma queda que sofri de uma janela do 1.º andar para a rua, quando só tinha a idade de um ano. Em consequência da queda, estive em coma durante uma semana, mas sobrevivi, não sem ter ficado estrábico.



Na escola, eu era gozado pelos meus colegas, que me chamavam «caolho» e macaqueavam o meu aspeto, trocando os olhos e fazendo-me caretas. Se fosse agora, diria que fui vítima de bullying.


A primeira operação cirúrgica a que fui submetido neste hospital foi a ambos os olhos, sob anestesia geral. Quando acordei da anestesia, tinha os olhos tapados por pensos. Eu não via nada e não sabia sequer se era de dia ou se era de noite. Sem saber se havia alguém por perto, perguntei em voz alta:
— Que horas são?
Ninguém me respondeu. Pensei: «Se ninguém me responde, é porque não pedi por favor». Por isso, insisti:
— Por favor, que horas são?
Ninguém me respondeu.
Voltei a insistir:
— É de dia ou é de noite?
Mais uma vez ninguém me respondeu. Pensei: «Se calhar é de noite e está toda a gente a dormir». Levei as mãos aos olhos, para verificar os pensos que os tapavam. Imediatamente ouvi um ralho em alta voz:
— O menino não mexa aí!!!
Logo de seguida, ouvi um chamamento:
— Ó fulana! Vem cá depressa, que o menino quer tirar os pensos dos olhos! É preciso amarrá-lo à cama, para ele não arrancar os pensos.
Protestei:
— Não quero arrancar nada!
Mas logo fiquei completamente imobilizado, amarrado à cama. Adormeci, ainda entorpecido pela anestesia.
Quando voltei a acordar, ouvi uma voz indignada, certamente da médica oftalmologista que me tinha operado:
— Quem foi que amarrou este menino à cama?!
Alguém respondeu-lhe:
— Fomos nós, porque ele queria tirar os pensos dos olhos.
Protestei:
— Não queria tirar nada. Só queria apalpar os pensos, para ver como é que isto está…
A médica falou:
— Está a ver como ele não queria tirar os pensos? Isto é maneira de se tratar uma criança?! Desamarre-o imediatamente!
Fui logo desamarrado e a médica disse para mim:
— Amanhã mesmo vamos tirar-te os pensos, para vermos como é que isso ficou. Entretanto, não mexas aí. Amanhã já vais poder voltar a ver.
No dia seguinte tiraram-me os pensos dos olhos e voltei a ver. Depois de uma atenta observação, a oftalmologista concluiu que o olho esquerdo tinha ficado bem, mas o olho direito teria que ser submetido a uma nova intervenção cirúrgica. Esta intervenção ocorreu poucas semanas depois, no mesmo hospital.
Posso dizer que o resultado das operações foi o melhor possível, mas não foi a 100%. Uma ligeira deformação do crânio, resultante da queda que sofri, impede-me de sobrepor as imagens dos dois olhos no sentido de conseguir uma imagem estereoscópica. As imagens não são rigorosamente sobreponíveis, porque uma delas fica ligeiramente inclinada em relação à outra. A estrutura óssea do crâneo assim o impõe.
Conclusão: ambos os meus olhos estão perfeitamente funcionais, mas só consigo ver com um olho de cada vez. Não tenho visão tridimensional, nem sei o que isso é.

Este foi o meu primeiro retrato após as cirurgias aos olhos

08 novembro 2020

O bolo refolhado


Isto não é bolo refolhado, porque não existe um tal bolo. É bolo folhado alentejano, cuja receita está nesta página (Foto de autor desconhecido)

        Era uma mulher casada com um homem muito ruim, que lhe batia todos os dias por qualquer coisa. Uma vez, ao levantar-se para o trabalho, de madrugada, disse ele para a mulher:
        — À noite, quando vier, quero para a ceia bolo refolhado. Olha lá, toma cuidado no que digo.
        A mulher não sabia o que era bolo refolhado, e foi ter com uma vizinha, para ver se ela lhe ensinava. A vizinha, que tinha muita pena da vida que ela levava, disse:
        — Deixe estar, que eu cá lhe arranjo isso; com certeza que o seu homem se enganou; há de ser bolo folhado. E levou-lhe à tardinha o bolo.
        Quando veio o homem do trabalho, pediu a ceia, e como não achou o bolo refolhado, berrou, ralhou, deu muitas pancadas na mulher; ao outro dia a mesma coisa. A mulher, coitada, foi ter com a vizinha, e ela disse-lhe:
        — Arranje-lhe vocemecê uma galinha guisada, que pode ser isso o que ele talvez queira.
        Volta o homem à noite, e mais pancadaria na mulher, por não lhe ter feito para a ceia o bolo refolhado, como mandara. Ao ir para o trabalho, outra vez a mesma recomendação. A desgraçada mulher não sabia como acabar aquele fadário, e foi ter com a vizinha a chorar.
        — Deixe estar, vizinha, tudo se arranja! Venha cá ter comigo à tardinha, vestida com as calças e o jaquetão do seu homem.
        A pobre mulher foi. Assim que chegou a casa da vizinha, também a achou vestida com as calças e casaco do marido dela; e partiram ambas com os seus varapaus para o sítio por onde o homem ruim havia de vir do trabalho. Puseram-se cada uma de um e outro lado do caminho. Quando o homem vinha a passar, diz uma:
        — Bate-lhe, S. Pedro!
        — Porquê, S. Paulo?
        — Porque pede à mulher o bolo refolhado.
        Moeram ao som desta cantiga o homem com pancadas, e depois de bem moído fugiram. O homem lá se arrastou para casa como pôde, e assim que viu a mulher pediu-lhe perdão de tê-la maltratado tanto tempo, e contou como lhe tinham aparecido no caminho S. Pedro e S. Paulo, que o desancaram em castigo de pedir o bolo refolhado, que era uma coisa que ele não sabia o que era.

Conto popular recolhido em Lagos, Algarve. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843-1924)

02 novembro 2020

Que amor não me engana

 

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

Que as vozes embargam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

Que as vozes embargam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

José Afonso (1929–1987)