29 agosto 2006

São Macário


(Se estiver interessado em São Macário do Egipto, queira consultar, por exemplo, esta página).

Conta-se que Macário era um homem cuja profissão obrigava a prolongadas ausências de casa. Uma vez, depois de uma dessas ausências, ele regressou a casa mais cedo do que se esperava e encontrou um homem a dormir na sua cama. Julgando que a sua mulher o estava a trair e cego pelo ciúme, logo Macário matou o homem adormecido. Assim que consumou o crime, Macário verificou, horrorizado, que tinha acabado de assassinar o seu próprio pai, que a sua esposa tinha acolhido em sua casa durante a sua ausência. Para expiar tão grande pecado, Macário fez-se então eremita e foi viver para uma gruta, onde passou o resto da sua vida em jejuns e oração.

A pequena capela, cujo telhado de xisto se vê na fotografia acima, foi construída no local da gruta onde São Macário viveu. Fica situada perto do ponto mais elevado da Serra de Arada, também chamada Serra de São Macário, que fica a norte de São Pedro do Sul e a sudoeste de Castro Daire, no distrito de Viseu. A serra que se vê em último plano na imagem é a do Caramulo.

Esta capela foi alvo de uma disputa entre duas freguesias vizinhas, que reclamavam para si o dinheiro proveniente das esmolas deixadas pelos fiéis. A disputa resolveu-se com a construção, no ponto mais alto da serra, a poucas centenas de metros desta que aqui se vê, de uma outra capela, maior do que esta e circundada por um muro de pedra para proteger os visitantes dos ventos gelados, a qual também foi dedicada a São Macário. Assim, cada freguesia ficou com a sua "Capela de São Macário" e a disputa ficou sanada.

Como se vê na fotografia, a cobertura da capela original de São Macário é constituída por placas de xisto e não por telhas. As placas de xisto constituem a cobertura tradicional das casas da região, mas este tipo de cobertura é cada vez menos utilizado. Há alguns anos, houve um movimento no sentido de repor a cobertura tradicional das casas. Como consequência deste movimento, em algumas aldeias, como Canelas, Cabril e Vitoreira, todas as casas ficaram outra vez cobertas de xisto. Agora, porém, a maior parte das casas já está de novo coberta de telhas.

A vista que se tem do alto da Serra de Arada é digna de ser admirada, valendo bem a pena ir lá acima. O acesso mais fácil, para quem vai de carro ou de autocarro, é feito a partir de São Pedro do Sul, passando por Sul, que é a antiga sede de concelho. O acesso é tão fácil, que quase não nos apercebemos da subida. Só quando chegamos lá acima e de repente deparamos com uma vista grandiosa, é que nos damos conta de quanto subimos.

O acesso a partir da vila de Castro Daire é muito mais íngreme, mas muito mais bonito. Não é, porém, muito aconselhável a autocarros.

O acesso mais belo e mais grandioso é, sem a mínima sombra de dúvida, a estrada que vem de Arouca (visitar o mosteiro!), passando por Ponte de Telhe e pelo Portal do Inferno. Este acesso é totalmente desaconselhável a autocarros e, em dias de má visibilidade, é perigosíssimo para qualquer tipo de veículos. À passagem pelo Portal do Inferno, a estrada é de terra e não tem quaisquer resguardos laterais, apesar de haver um abismo de cada lado. Não é por acaso que aquele local se chama Portal do Inferno. A sua grandiosidade é de cortar a respiração.

Perto do São Macário e encolhida numa dobra da serra, fica uma aldeia muito típica e muito bonita, chamada Pena. Na fotografia que publico aqui em baixo, vê-se um grande afloramento quatzítico de forma piramidal, que é a penha que dá o nome à aldeia, e alguns socalcos dos campos pertencentes aos habitantes. A aldeia propriamente dita não se vê, ficando quase "debaixo" dos nossos pés. Há dois anos, apenas uma família habitava permanentemente a Pena. Agora não sei.

No fundo do vale que se vê atrás da pirâmide, corre o Rio Paiva. Os montes que se vêem na outra margem são da Serra de Montemuro, cujo ponto mais elevado tem uma altitude superior a 1200 metros.

24 agosto 2006

Mulheres mascaradas

Vendedeira de rua em Minab, no sul do Irão (Foto: De Berejstes Klub)

É uma tradição que começa a desaparecer, a do uso de uma espécie de máscara vermelha pelas mulheres de Minab e de outras cidades do sul do Irão, junto ao estreito de Ormuz. Dizem os iranianos que esta tradição não resulta de um qualquer preceito religioso, antes se deve... às portuguesas!

É sabido que Ormuz esteve na posse de Portugal nos séc. XVI e XVII, conquistada que foi por Afonso de Albuquerque com o fim de conter as investidas do Império Otomano contra o domínio português sobre o Oceano Índico. Situada num local estratégico de primordial importância, à saída do Golfo Pérsico, Ormuz permitiu aos portugueses impedir a passagem de uma armada inimiga para o Índico. Para consegui-lo, fizeram construir algumas fortificações, tanto na ilha de Ormuz propriamente dita, como nas margens norte e sul do estreito, em territórios que hoje fazem parte do Irão e do Sultanato de Omã, respectivamente.

Ruínas da fortaleza que Afonso de Albuquerque mandou construir em 1507 na ilha de Ormuz. As suas muralhas chegam a atingir 3,5 metros de espessura. (Foto: Organização da Herança Cultural Iraniana)

Entre os habitantes portugueses de Ormuz não havia só homens; havia também algumas mulheres, embora em número muito limitado. Diz-se que para protegerem o seu rosto do fortíssimo sol da região, as portuguesas de Ormuz adoptaram o costume de usar uma espécie de máscara, costume este que terá sido rapidamente adoptado pelas mulheres da população local e que continuou até hoje.

Uns lindos olhos atrás de uma máscara (Foto: Linda Cetacea)

21 agosto 2006

Música barroca

O santuário barroco do Bom Jesus, em Braga (Foto: Dias dos Reis)


Carlos Seixas foi um excelente compositor português do século XVIII, que desenvolveu a sua actividade em Coimbra e na corte do rei D. João V em Lisboa. Ouçamos o seu primeiro andamento (Allegro) do Concerto para Cravo e Orquestra em Lá Maior, por Ketil Haugsand e a Orquestra de Câmara Norueguesa.

Johann Sebastian Bach dispensa apresentações. Foi um dos mais geniais compositores de todos os tempos. A sua Ária para a Corda de Sol também faz parte das minhas mais antigas recordações. A Rádio Renascença utilizava-a como tema de um seu programa de meditação.

Em França também se compôs muita e boa música durante o período barroco. Um dos compositores franceses que mais se destacaram naquele tempo foi Marc Antoine Charpentier, autor do Te Deum que começa assim, na interpretação de Wolfgang Huhn, em trompete, acompanhado pela Orquestra de Câmara de Aschaffenburg sob a direccção de Heinz Peter Rausch.

16 agosto 2006

As percussionistas

(Foto: José Alberto Pires)

Eu conheço esta fotografia quase desde que me conheço. Ela e mais algumas, de características semelhantes, fazem parte das recordações que eu tenho da minha mais remota infância, passada aqui no Porto. Não consigo lembrar-me onde as vi, só sei que as vi diversas vezes. Tantos anos depois, para meu espanto, voltei a encontrar esta fotografia, agora na Internet. Reconheci-a imediatamente.

A imagem retrata duas jovens tocadoras de tambor pertencentes à etnia Humbi, do grupo etno-linguístico Nyaneka-Humbi, que vive na província do Cunene, no sul de Angola.

Repare-se na boca da tocadora que está em primeiro plano. Parece que lhe falta um dente, ou mesmo dois, mas não falta. A verdade é que no maxilar superior, pelo menos, não lhe deve faltar dente nenhum. A faltarem-lhe dentes, serão dois incisivos inferiores, não superiores. O que aconteceu foi que os incisivos superiores do meio foram parcialmente limados, o que é uma prática tradicional entre as mulheres de algumas etnias do sul de Angola. A limagem dos incisivos é feita obliquamente, de modo a que eles fiquem com um formato triangular e apresentem um V invertido no meio da dentição. É este V que se observa na boca da tocadora.

Além de se fazer a limagem dos incisivos superiores, tradicionalmente também se arrancam muitas vezes os dois incisivos inferiores do meio. Na fotografia não se consegue ver se a moça os tem ou não.

Nunca encontrei uma explicação cabal para esta prática, a não ser uma razão de ordem puramente estética. Ora esta explicação não me convence. Os camponeses angolanos nunca fazem uma coisa só porque "fica bonito". Existe sempre uma razão para tudo quanto fazem, seja ela de ordem material ou prática, seja ela de ordem espiritual ou sobrenatural. Um costume tão doloroso como é este, de extrair e limar dentes, tem que ter uma explicação. Eu é que não sei qual é.

De resto e para que não fiquem dúvidas a este respeito, os camponeses angolanos são extremamente cuidadosos com os seus dentes. A higiene oral é um assunto que eles levam muito a sério. Não havendo escovas e pastas de dentes no mato, os camponeses limpam os seus dentes esfregando-os com o topo de um pauzinho de junco, o qual, com o uso, fica com um conjunto de pêlos curtos muito finos e muito sedosos na sua ponta, como os de uma escova muito pequena. Este pau é que é a sua escova de dentes, que eles usam sempre depois das refeições, para retirarem meticulosamente os restos de comida dos seus dentes, um a um, assim como dos interstícios.

Um camponês angolano pode não trazer mais nada consigo, mas traz sempre um pauzinho de junco, para onde quer que vá. Do pauzinho é que ele não prescinde. Resulta daqui que, de uma maneira geral, em Angola, os camponeses apresentam a sua dentição em muito melhor estado do que os citadinos.

14 agosto 2006

O Vosso Tanque, General, É Um Carro Forte

Derruba uma floresta, esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general,
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar

Bertold Brecht, sobre cuja morte se completam hoje 50 anos


Kanonensong, da Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weil e Bertold Brecht, gravação de 1930


13 agosto 2006

Al Mu'tamid, um árabe do Alentejo

Torre de menagem feita de mármore e arco romano em Beja, cidade onde nasceu Al Mu'tamid (Foto: antoniolouro)

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abû Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o Palácio dos Balcões,
Da parte de quem nunca o esqueceu,
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas.
Moças níveas e morenas
Atravessavam-me a alma
Como brancas espadas
Como lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Preso nos jogos do amor
Com a da pulseira curva,
Igual aos meandros da água,
Enquanto o tempo passava...
Ela me servia vinho:
O vinho do seu olhar,
Às vezes o do seu copo,
E outras vezes o da boca.
Tangia-me o alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas se retirava as vestes
Grácil detalhe mostrando,
Era ramo de salgueiro
Que me abria o seu botão
Para ostentar a flor.

(Muhammad ibn 'Abbad al-Mu'tamid (1040-1095), nascido em Beja, rei de Sevilha e um dos poetas mais admirados da língua árabe. Poema traduzido do árabe por Adalberto Alves.)

O castelo árabe de Silves (Foto: Al-Farrob)

09 agosto 2006

Levanta-te e caminha


Este é mais um exemplo, aparentemente real, de um lapso burocrático que é clássico, mas que nunca deixa de ser divertido. Recebi-o por email. Apaguei o nome do Oficial de Justiça que produziu esta "pérola", porque não me interessa divulgar nomes.

Clicar na imagem para ampliá-la.

08 agosto 2006

"Para ser grande, sê inteiro..."

(Foto: Blake Suddeth)

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a Lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

05 agosto 2006

Música angolana


Com a excepção da RDP África, que só cobre a região da Grande Lisboa, pouco ou nenhuma música angolana se ouve na rádio portuguesa. É por isso que, depois de Waldemar Bastos, nenhum intérprete angolano se tornou conhecido do grande público em Portugal, apesar de o kuduro e a kizomba estarem a começar a ganhar alguma popularidade nos salões de baile deste país.

Confrontado com a lista de muitas dezenas de títulos que estão disponíveis para descarga no sítio Canal Angola, senti-me perplexo, pois praticamente não conheço nenhum deles. Dos intérpretes, tirando meia-dúzia, também quase nada sei. Dada a impossibilidade prática de ouvir as peças todas para poder seleccionar algumas delas, tive que arranjar um critério.

O critério que resolvi seguir foi o de escolher os nomes de alguns intépretes mais antigos, daqueles que já cantavam no tempo em que eu estive em Angola. Esses, pelo menos, sei quem são, como cantam e que tipo de música é que cantam.

Assim fiz. Do conjunto de peças existentes no sítio referido, acabei por escolher cinco, interpretadas por cinco cotas do "meu" tempo: um mambo cantado em quicongo e quatro sembas cantados em quimbundo. Sinto-me bastante satisfeito com a escolha que fiz. Os cotas não me desiludiram.

Dito isto, passo a referir os nomes dos cotas que seleccionei e as canções que interpretam:

Espero que a música agrade.

03 agosto 2006

Vale a pena ver


Não sei que nome devo dar a isto. Parada? Desfile? Tattoo? Qualquer que seja o nome, devem ter sido precisas inúmeras horas de treino para se conseguir chegar ao resultado que aqui se vê.

02 agosto 2006

Um dos quadros pintados por Gauguin na Polinésia


Paul Gauguin, Te arii vahine (A esposa do rei), 1896, óleo sobre tela, Museu Pushkin de Belas Artes, Moscovo

01 agosto 2006

Lenda índia do Brasil

Ilustração de Marcos Jardim
"É imenso, variado e pitoresco o lendário indígena criado em torno da lua cheia. Uma das suas mais interessantes manifestações encontra-se entre os índios Inay e me foi narrada pelo paulista Pedro Faber Halembeck, que com eles convive e se faz revelador de seus costumes bem como de um curioso sistema de contagem pelas rotações do sol. Vede como é delicioso em sua ingenuidade este conto colhido entre os índios Inay, esta umbesáua cheia ao mesmo tempo, de ternura e malícia:

OS MARIDOS DA LUA

O indiozinho deitado na rede de tucum, está quase dormindo. A índia moça canta junto, sob uma árvore uma coisa esquisita que ninguém entende. De repente, um raio da lua, sem pedir licença entra pelas folhas e vai bater na rede em que o indiozinho está quase dormindo.

O menino esfrega os olhinhos espia pela fresta e aponta para o alto, perguntando o que é aquilo redondo, bonito, prateado, que esta lá em cima no céu...

E a mãezinha dele explica. Explica lá na sua língua, que ninguém entende. Aquilo é a moça lua. Sim, a moça lua. Uma moça que tem dois maridos. O primeiro é um tipo mau, escasso, brabo. Nada lhe dá pra comer. Promete-lhe surras. E a pobrezinha vai ficando magra, delgada, fina, doentinha que é uma tristeza. Faz até dó. A gente olha cá de baixo e vê a coitadinha. Parece um esqueleto, um esqueletinho curvo, suspenso no céu.

Quando ela já está quase na espinha aparece então o outro marido. Esse é bonzinho meigo, carinhoso. Leva-a para casa. Trata bem dela. Dá-lhe ervinhas macias, frutas gostosas, leite de castanha. E a lua começa então a engordar e a ficar outra vez bonita, nova, clara, leitosa, redonda como uma bola que a noite iluminasse com leite.

É assim como essa imaginação fácil, curiosa e espontânea que a mãe do indiozinho lhe ensina aquilo que nós por aqui, chamamos quarto minguante e quarto crescente, isto é, as fases da lua no seu movimento de translação em torno da terra.

(ORICO, Osvaldo. Vocabulário de crendices amazônicas)"


In Jangada Brasil, Nº 18, Fevereiro de 2000