31 dezembro 2011

Música clássica no musseque

Elementos da Orquestra Infantil Kaposoka, de Luanda, Angola (Foto: Salucombo_Jr.)

No ano 2008, teve início no município da Samba, em Luanda, Angola, um projeto destinado a dar uma educação musical às crianças pobres do município. Este projeto materializou-se numa escola, chamada Escola de Música Kaposoka, da qual emana uma orquestra constituída por alunos da escola, a Orquestra Infantil Kaposoka. O projeto teve tanto êxito que em 2010 a escola já era frequentada por mais de 600 crianças! O resultado do notável trabalho produzido nesta escola pode ser avaliado no vídeo que se segue, em que se pode ver e ouvir a Orquestra Infantil Kaposoka.


Cânone em Ré Maior, de Johann Pachelbel (1653-1706), pela Orquestra Infantil Kaposoka, de Luanda, Angola


A Igreja Kimbanguista -- assim denominada por ter sido fundada por um pastor congolês chamado Simon Kimbangu -- é uma das mais antigas igrejas cristãs messiânicas africanas e é, certamente, a que tem maior número de fiéis. Está presente em vários países, entre os quais Portugal.

Em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, a Igreja Kimbanguista esteve na origem do aparecimento de uma orquestra sinfónica, a Orquestra Sinfónica de Kinshasa. Os músicos da orquestra são todos amadores, sem qualquer exceção, e pertencem aos mais variados estratos sociais, desempenhando as mais diversas profissões, mesmo as mais duras e humildes.

É evidente que não se pode comparar a amadora (no mais nobre sentido da palavra) Orquestra Sinfónica de Kinshasa com as orquestras sinfónicas profissionais do resto do mundo, tão grandes são as diferenças entre uma e outras. Mas permito-me realçar o extraordinário valor destes músicos congoleses que, em condições tão difíceis e com tanto sacrifício para as suas vidas pessoais, conseguem realizar o verdadeiro milagre que é esta Orquestra Sinfónica de Kinshasa e o seu coro. O vídeo que se segue é por demais elucidativo do que acabo de escrever, apesar de estar falado em francês e legendado em inglês.


Passagens do filme Kinshasa Symphony, sobre a Orquestra Sinfónica de Kinshasa e o seu respetivo coro

Como é possível que pessoas que têm umas vidas tão duras e tão sofridas, que são obrigadas a lutar todos os dias pela sua própria sobrevivência e pela dos seus filhos numa cidade caótica como Kinshasa, que tem 9 milhões de habitantes, conseguem arranjar ainda forças para produzir tamanha beleza? Isto é um milagre, e só em África é que este milagre é possível. A música que esta orquestra toca e que este coro canta pode ser europeia, mas a orquestra e o coro são eles mesmos 100% africanos na força da alma que transmitem.

No vídeo que se segue, que mostra alguns aspetos de um ensaio da orquestra e do coro, pode ver-se bem o cansaço e até o desânimo em muitos rostos, tal como é salientado por um dos seus elementos. No entanto, o resultado do esforço sobre-humano produzido por estes homens e por estas mulheres é verdadeiramente sublime.


Um ensaio da Orquestra Sinfónica de Kinshasa e do seu coro, em mais uma passagem do filme Kinshasa Symphony

Como se vê, as pessoas africanas não são as coitadinhas que os media europeus e americanos tanto gostam de retratar, talvez para calar a má consciência dos antigos colonizadores. São seres humanos que não precisam da nossa compaixão nem do nosso paternalismo. Merecem, isso sim, o nosso profundo respeito.

30 dezembro 2011

A Vida, de António Carneiro

Tríptico A Vida, do pintor simbolista António Carneiro (1872-1930), composto pelas telas A Esperança, O Amor e A Saudade (da esquerda para a direita). Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão. Clicar na imagem para vê-la ampliada

25 dezembro 2011

O chocalheiro de Bemposta, Mogadouro

A máscara atual do chocalheiro de Bemposta, feita pelo artesão Joaquim Santos (Foto: Município de Mogadouro)


Apesar da sua máscara terrível e medonha que faz ainda arrepiar muita gente, o chocalheiro é uma figura simpática e cheia de significado.

Vestido de linho grosseiro tingido de preto, o chocalheiro de Bemposta aparece como uma figura tauromórfica.

Nas pontas dos chifres ostenta duas laranjas espetadas; cai-lhe do "queixo uma barbicha de bode; na parte da nuca pende-lhe uma bexiga de porco cheia de vento; na testa tem um disco e, escorrendo pela face, uma pequena serpente; na mão segura uma tenaz e mostrando uma serpente de grande porte rodeada à cintura".

(...)

Dá-se início a todo o processo na véspera com a licitação do fato do chocalheiro.

O mordomo das festas, nomeado em altura própria (festas de S. Pedro, padroeiro da aldeia), abre as portas de sua casa onde todo o processo se desenrola. Os interessados, através de pessoas da sua confiança, ou mesmo os próprios, vão durante a noite e até à meia-noite fazer as suas “mandas” (acto de leiloar o fato do Chocalheiro) de forma a manter-se segredo quanto à identidade do vencedor.

Todos os concorrentes tentam tudo para ganhar o direito de ser o chocalheiro, para cumprimento de uma promessa.

Depois de terminar as mandas, pela meia-noite, os mordomos oferecem uma sobreceia a todos os participantes. O chocalheiro será aquele que mais mandou e mantém-se anónimo, regressando a sua casa ou ficando em casa do mordomo dissimulado.

A juventude passa essa noite junto da casa do mordomo, tentando ver chegar o candidato a mordomo, para o identificar, que debaixo de um manto ou usando vários estratagemas, teria que chegar sem ser reconhecido.

Cumpre-se assim a tradição, nos dias 26 de Dezembro, sai o chocalheiro “manso” e 1 de Janeiro o “bravo”, revertendo toda a receita recolhida pelo chocalheiro à volta da aldeia e de Lamoso, a favor de Nossa Senhora das Neves e do Menino Jesus, respectivamente.

No dia 26 de Dezembro o Chocalheiro “manso”, na companhia dos mordomos e conduzido por um deles, recebe esmola, que ninguém recusa dar e agradece com uma vénia, pois não pode falar para não ser reconhecido. Antigamente nem toda a gente tinha dinheiro disponível, uma maioria entregava o que tinha de melhor para o seu sustento: fatias de pão, fumeiro, fruta (laranja), ovos, etc., recolhidos em dois cestos barreleiros.


José Pereira e Manuel Fernandes, in Bemposta, onde pode ser lido o texto completo



Trecho de um vídeo feito para a televisão por Carlos Brandão Lucas

24 dezembro 2011

Natal de 2011

Adoração dos Magos, de Jorge Afonso (c.1470-c.1540), Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rasto de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira (1927-1996), in Cancioneiro de Natal



Hodie nobis de cœlo, de D. Pedro de Cristo (c.1550-1618), pelo coro Vox Ætherea, de Coimbra

18 dezembro 2011

Requiescat in pace, Cesária Évora





16 dezembro 2011

Alguns pelourinhos

O pelourinho da cidade de Pinhel (Foto: Geoppp)

O pelourinho é uma construção de pedra caracterizada, sobretudo, por uma coluna erguida verticalmente. A existência de pelourinhos em muitas vilas e cidades portuguesas testemunha o exercício, no passado, de um poder local efetivo, que no caso dos municípios era exercido pelos chamados "homens bons". Além de servirem como afirmação deste poder, os pelourinhos tinham como função exporem ao vexame público os criminosos, que eram amarrados  a eles.

Há muitos pelourinhos em Portugal, de muitas e variadas formas. Entre os mais espetaculares contam-se os pelourinhos de gaiola, abundantes sobretudo em Trás-os-Montes e nas Beiras, de que o pelourinho da cidade de Pinhel é um excelente exemplo.


O pelourinho da cidade de Bragança (Foto: Câmara Municipal de Bragança)

O pelourinho de Bragança tem a particularidade de assentar sobre um berrão, isto é, uma escultura pré-romana que representa um animal, geralmente identificado como uma porca ou, então, uma ursa. O berrão mais conhecido é uma escultura que existe em Murça e a que se dá o nome de "Porca de Murça".


O pelourinho da vila de Colares, Sintra (Foto: Dias dos Reis)

Na região da Estremadura abundam os pelourinhos manuelinos e renascentistas. Um belo exemplar de pelourinho manuelino é o de Colares, no concelho de Sintra, que é muito elegante e harmonioso.


O falso pelourinho do Porto (Foto: pitai)

A cidade do Porto não tem pelourinho. Tanto quanto eu julgo saber, nunca teve teve um pelourinho na Ribeira, mas que desapareceu há muito, talvez no séc. XVIII ou início do XIX, quando se demoliu o troço da muralha fernandina que separava a Praça da Ribeira do rio. O pelourinho estaria do lado de fora da muralha, junto à desparecida Porta da Ribeira. A coluna salomónica que se ergue no Terreiro da Sé e a que geralmente se dá o nome de pelourinho, não o é de facto. É um pelourinho de faz-de-conta. É um pastiche pseudo-barroco, feito na década de 40 do séc. XX... Não é feio e preenche bem o vazio existente no Terreiro da Sé, mas o seu valor histórico é completamente nulo.


Pormenor do pelourinho de Vila do Conde (Foto: Manuel José Cunha)

Um pelourinho muito curioso é o de Vila do Conde. É encimado por um espigão de ferro, do qual sai um braço com uma espada em riste, afirmando um poder local forte e determinado. Não conheço outro pelourinho assim.


Pormenor do pelourinho da vila do Soajo, Arcos de Valdevez (Foto: soajo.net)

Ainda mais curioso é o pelourinho do Soajo, no concelho dos Arcos de Valdevez. É um pelourinho patusco, divertido e enigmático. Praticamente nada se sabe sobre ele. Alguns autores acham que ele é muito antigo, dada a sua rusticidade, outros respondem que não, pois o triângulo de pedra que o encima não seria mais do que um chapéu tricórnio, usado no séc. XVII.


O pelourinho do Soajo em "corpo inteiro" (Foto: Joseolgon)

Segundo uma interpretação corrente deste estranhíssimo pelourinho, ele não significaria mais do que uma lança ao alto, com um pão espetado na ponta. O pelourinho seria, assim, uma representação figurativa de uma ordem que o rei D. Dinis teria dado, segundo a qual os nobres não poderiam permanecer na vila do Soajo mais tempo do que leva um pão a arrefecer na ponta de uma lança...


Seria imperdoável falar do Soajo e não referir os seus espigueiros... Aqui estão eles. Parecem templos, mas não são mais do que celeiros dedicados à guarda do milho e de outros cereais. As cruzes que encimam os espigueiros têm como função abençoar os grãos que neles se guardam, protegendo-os de raios e feitiçarias (Foto: Josep Renalias)

11 dezembro 2011

Cantiga de Amor, de Vianna da Motta


Primeira Cena (Cantiga de Amor), de Cenas Portuguesas, op. 9, nº 1, de José Vianna da Motta (1868-1948), pelo pianista Sequeira Costa

08 dezembro 2011

O sol nasce a Oriente

(de um quadro de Malangatana)

Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi

De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sábia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.

De ti amo a denúncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente
David Mestre (1948-1997), poeta angolano


02 dezembro 2011

Tomás Luis de Victoria (c.1548-1611)


Assinala-se este ano o 400º aniversário da morte do espanhol Tomás Luis de Victoria, que foi um dos mais relevantes compositores europeus de música sacra de todos os tempos. A efeméride tem passado praticamente despercebida aqui em Portugal, por razões que desconheço. Não é justo. A música de Tomás Luis de Victoria merecia ser mais divulgada e admirada, tendo em conta a sua altíssima qualidade.

Tomás Luis de Victoria foi um compositor renascentista. Como tal, a sua música persegue os ideais da perfeição, da beleza e da harmonia de uma forma tão completa quanto possível. Além disso, Tomás Luis de Victoria era espanhol. A sua música também reflete, portanto, o enorme misticismo que caracterizou muita da arte e da cultura da Espanha do seu tempo. O resultado da soma destes dois fatores -- Renascimento e Espanha -- é sublime.

Para comprová-lo, proponho a escuta da peça que se segue: a Primeira Lamentação para Quinta-Feira Santa, "Incipit Lamentatio", que é a primeira das nove Lamentações de Jeremias que Tomás Luis de Victoria compôs. A interpretação é do coro inglês The Tallis Scholars, dirigido por Peter Philips.