27 janeiro 2019

Haiti


Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, por Caetano Veloso


Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado,
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos,
Dando porrada na nuca de malandros pretos,
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos,
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados,
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula,
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado,
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon.
Ninguém, ninguém é cidadão.
Se você for ver a festa do pelô e se você não for,
Pense no Haiti, reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui.
O Haiti não é aqui.

E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil,
Que pareça fácil e rápido,
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau,
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital,
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal,
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual,
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon,
E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina,
(111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos,
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres,
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos)
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba,
Pense no Haiti, reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui.
O Haiti não é aqui.


Caetano Veloso

24 janeiro 2019

Metropolis


Metropolis, filme mudo de 1927, realizado por Fritz Lang e baseado num romance homónimo de Thea von Harbou, com Alfred Abel, Brigitte Helm, Gustav Fröhlich, Rudolf Klein-Rogge, etc. Música de Gottfried Huppertz. Versão tanto quanto possível completa, com legendas em alemão e uma tradução para português disponível. Duração aproximada: 2 horas e 30 minutos

22 janeiro 2019

Clarinha


Uma águia real (Foto: Dave Hunt Photography)


Havia numa terra uma rainha, com uma filha muito linda chamada Clarinha, a qual estava tratada para casar com um príncipe logo que chegasse à idade em que havia de receber o reino de sua mãe, que o estava governando. Clarinha costumava ir todos os dias ao jardim; um dia passou uma águia, e todas as vezes que passava lhe dizia:

— Clarinha, Clarinha! Qual queres, passar trabalhos na mocidade ou na velhice?

A princesa foi dizê-lo à rainha, e ela lhe respondeu:

— Diga a menina: Antes na mocidade, que se pode com tudo, e na velhice não se pode com nada.

Clarinha foi para o jardim como o seu costume, e a águia tornou a dizer o mesmo. No ponto que a princesa disse: «Antes na mocidade», a águia levou-a pelo ar fora e foi deitá-la na terra onde vivia o príncipe com quem tinha tratado o casamento. Clarinha não conhecia ali ninguém a não ser a rainha e o príncipe, mas não se podia falar com eles sem requerimento, e ela não o tinha. Foi ter a uma padaria, e pediu para ser criada. A padeira tomou-a; indo um dia para fora, deixou para Clarinha cozer uma fornada de pão já amassado. A menina com medo fechou todas as portas e janelas para a águia não entrar, mas ela sempre entrou pela chaminé e esborralhou-lhe o forno sobre o pão, quebrou-lhe os alguidares e muita loiça, e fugiu. Chegando a padeira, deu muitas pancadas em Clarinha e pô-la no andar da rua. Por mais que pedisse e chorasse, a padeira não a acreditava. Foi a menina ter com um vendeiro, para o servir; saindo um dia, ele deixou-a na venda. Com medo ela fechou-se por dentro, mas a águia sempre entrou e quebrou copos, medidas e garrafas, e destapou as pipas. Quando o vendeiro chegou achou tão grande destroço, e sem se importar com o que dizia Clarinha, deu-lhe muitas bofetadas e pô-la logo na rua. Clarinha foi ter dali ao palácio, não se dando por conhecida, e ofereceu-se para criada do príncipe. A rainha disse que não precisava de mais criadas. O príncipe tornou:

— Tome-a, minha mãe, ainda que seja para vigiar as patas.

— Pois sim; que ela entre.

Todos os dias morriam as patas que ela vigiava, e o príncipe vendo que ela chorava tanto, pediu à rainha que a tomasse para costureira. Passados tempos, o príncipe aprontou-se para ir ver a sua noiva, e chegando ao pé das aias disse:

— Que querem que eu lhes traga da terra aonde vou?

Todas elas lhe pediram alguma coisa, menos a Clarinha. O príncipe insistiu com ela para que dissesse o que queria de lá.

— Traga-me vossa alteza uma pedra do palácio.

O príncipe partiu, e ao chegar ao palácio da sua noiva ouviu que tudo estava de luto pela falta da princesa. Muito triste ficou, e no mesmo instante comprou tudo que as criadas lhe tinham pedido, e a pedra para Clarinha, e partiu. Chegou cá muito triste e alguma coisa desconfiado de quem seria Clarinha. Entregou-lhe a pedra, e para saber o que ela quereria fazer disso, meteu-se debaixo da cama, quando a criada deu volta. Quando ela veio para o seu quarto, fechou-se por dentro e cuidando que não estava ninguém, começou a dizer à pedra isto:

— Pedra do palácio de meu pai, vou contar-te a minha vida.

E contou desde os passeios do jardim e da águia, até ali. E no fim de tudo a pedra deu um estoiro, e Clarinha disse:

— Abre-te, pedra, numa roda de navalhas, que me quero deitar nelas.

O príncipe então saiu debaixo da cama, e abraçou-a dizendo:

— Porque me não contaste teus males, querida Clarinha?

— Porque logo que a águia queria que eu passasse trabalhos, quis passá-los enquanto era nova, porque sempre tinha alguma esperança.

Dali a um momento os dois príncipes casaram-se, e foram ter com a rainha mãe da princesa, que ficou muito satisfeita e veio viver com eles.


Conto popular recolhido na ilha de São Miguel, Açores. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

19 janeiro 2019

Silva Porto


Pequena Fiandeira Napolitana, 1877, óleo sobre tela de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Por um curioso acaso, existiram dois homens chamados António e com o último apelido Silva, que nasceram na cidade do Porto e que por este facto adotaram o nome de Silva Porto. Ainda por cima foram contemporâneos. Um deles foi pintor e chamava-se António Carvalho da Silva. O outro foi explorador e comerciante em Angola e chamava-se António Francisco da Silva. O Silva Porto de que aqui se trata é o pintor.

António Carvalho da Silva (Silva Porto) nasceu no Porto em 1850 e faleceu em Lisboa em 1893. Começou os seus estudos artísticos na Academia Portuense de Belas-Artes. A seguir foi para Paris juntamente com Marques de Oliveira, outro notável artista portuense, onde ambos estudaram na Escola de Belas-Artes da capital francesa. A seguir Silva Porto viajou por Itália e finalmente regressou a Portugal, para lecionar na Academia de Belas-Artes de Lisboa. Silva Porto foi o introdutor em Portugal da corrente estética do Naturalismo. Pintou, sobretudo, paisagens rurais de Portugal, França e Itália, nas quais costumavam figurar pessoas trabalhando no campo. Fez parte do chamado "Grupo do Leão", que se reunia na Cervejaria Leão d'Ouro, em Lisboa, juntamente com Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, João Vaz, Rafael Bordalo Pinheiro, Henrique Pinto, Moura Girão, José Rodrigues Vieira e António Ramalho. Existe em Lisboa, concretamente na zona de Benfica, um parque que tem o seu nome, o Parque Silva Porto.


Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol, 1879, óleo sobre tela de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


A Ceifa, 1884 (?), óleo sobre madeira de Silva Porto (1850–1893), Casa-Museu Anastácio Gonçalves, Lisboa, Portugal


No Areinho, Douro, c. 1880, óleo sobre madeira de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal


Colheita — Ceifeiras, c. 1893, óleo sobre tela de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

13 janeiro 2019

Os Meninos da Graça


Igreja e antigo convento de Nossa Senhora da Graça, Évora (Foto: José Manuel de Oliveira)

A Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora, que pertenceu a um antigo convento de frades agostinhos, é um excelente exemplo de igreja renascentista. Foi construída nos inícios do séc. XVI, talvez sobre as ruínas de uma igreja previamente existente, e há dúvidas sobre quem foi o arquiteto que a projetou, Miguel de Arruda ou Diogo de Torralva, mas a maioria das opiniões inclinase para Miguel de Arruda.

A fachada desta igreja, que é muito rica em elementos arquitetónicos (colunas, pilastras, frontão, etc.), chama a atenção, sobretudo, pelos rosetões que ostenta e pelas figuras escultóricas que a encimam. Estas representam quatro barbudos atlantes (dois de cada lado), a que o povo de Évora pôs o irónico nome de "Meninos da Graça".

No antigo edifício conventual, ao lado da igreja, está agora instalada a Messe de Oficiais de Évora.


Os dois "meninos" da esquerda (Foto de autor desconhecido)


Os dois "meninos" da direita (Foto: Ana Travasso)

06 janeiro 2019

Bach e o cego


O acordeonista russo Sergei Teleshev (que não é cego) interpreta em acordeão a Tocata e Fuga em Ré Menor, BWV 565, originalmente escrita para órgão por Johann Sebastian Bach (1685–1750)

Há um quarto de século (como o tempo passa!), eu vivia em Lisboa. Todas as manhãs ia apanhar o metro ao Marquês de Pombal, para me dirigir ao meu local de trabalho. Na estação do metro do Marquês costumava estar um cego tocando, num acordeão, as músicas que todos os cegos de Lisboa costumavam tocar: Lisboa Antiga, Uma Casa Portuguesa, etc. Mais por desfastio do que por qualquer outra razão, confesso, eu dava-lhe uma moeda antes de me dirigir para o cais de embarque.

Uma manhã, para meu grande espanto, o cego tocava, não as músicas do costume, mas sim, e de forma absolutamente irrepreensível, a Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach! Nem mais, nem menos! Nessa manhã fiquei a ouvi-lo até ao fim, deliciado com a música e espantado com a sua magnífica interpretação, dei-lhe mais dinheiro do que o habitual e acabei por chegar atrasado ao emprego…

Muito poucas semanas depois, saiu num jornal uma entrevista com esse cego. Não tinha sido só eu quem tinha reparado nele e na sua extraordinária mudança de repertório. Declarava o cego na entrevista que não era um pedinte, pois não estava ali a pedir nada a ninguém. Era um animador cultural, que estava na estação do metro a dar um pouco de alento às pessoas que passavam por ele, tristes e sonolentas, a caminho do seu emprego. E acrescentava que o dinheiro que as pessoas lhe davam não eram esmolas, era o seu salário de trabalhador independente.

Pouco tempo depois, mudei de casa, fui morar para perto da Alameda D. Afonso Henriques, deixei de tomar o metro no Marquês de Pombal e nunca mais soube do cego Músico (com M maiúsculo), virtuoso do acordeão e homem cheio de dignidade, que tocava para animar as pessoas e não para lhes pedir esmola. Lembrei-me dele agora, ao deparar-me com este vídeo no Youtube. O cego da estação do metro do Marquês de Pombal tocava assim, desta forma espantosa que neste vídeo se pode ver e ouvir.

01 janeiro 2019

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos      E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites      não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira (1927–1996)