27 março 2007

Caminho longe

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Não devia ter sangue
Não devia, mas tem.

Parados os olhos se esfumam
No fumo da chaminé.
Devia sorrir de outro modo
o Cristo que vai de pé.

E as bocas reservam fechadas
a dor para mais além
Antigas vozes pressagas
no mastro que vai e vem.

Caminho
caminho longe
ladeira de São Tomé
Devia ser de regresso
Devia ser e não é.

(Gabriel Mariano, poeta de Cabo Verde, in 12 poemas de circunstância, 1965)


Clicar para ouvir Cesária ÉvoraTrabalhadores numa roça de São Tomé. Foto antiga retirada daqui. Clicar na imagem para ouvir Cesária Évora, em Sodade.

26 março 2007

Cerâmica de Querubim Lapa


Esta é a fotografia de um painel cerâmico chamado Os Sete Espelhos de Narciso, da autoria de Querubim Lapa, que fui roubar (a fotografia) a uma página que fala dos painéis cerâmicos de Querubim Lapa nos Hospitais da Universidade de Coimbra, do blog Conversas de Pintor, de Costa Brites.

Tanto quanto julgo saber, aqui no Porto não há muito de Querubim Lapa para ver, mas em Lisboa, sim, podem ser vistos painéis cerâmicos do grande mestre na estação do Metropolitano da Bela Vista, por exemplo, ou então um painel cerâmico relevado na parede do fundo da sala de chá da Mexicana, junto à Praça de Londres, ou ainda algumas belas obras do grande artista plástico algarvio no Museu do Azulejo, na Madre de Deus.

21 março 2007

Chegou a Primavera

Giuseppe Arcimboldo, A Primavera, óleo sobre tela, Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, Madrid



QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, pelo Teatro de Dança de Wuppertal, com coreografia de Pina Bausch



Allegro, da Sonata "Primavera", de Ludwig van Beethoven, por Arisa Fujita, em violino, e Megumi Fujita, em piano

Águas de Março, por Elis Regina

Canto da calhandra

Canto do tordo

Canto do rouxinol

Canto do melro

19 março 2007

Perguntas incómodas


Incómodas são as perguntas que Boss AC faz neste seu videoclip, intitulado Que Deus? Incómodas, porque parecem pôr em questão a própria existência de Deus ou, pelo menos, uma certa ideia que se tem de Deus. Mas o que Boss AC põe em questão, sobretudo, é o uso que certas pessoas fazem do nome de Deus.

Afirma o rapper português no seu próprio blog, a respeito desta sua peça: «Mais do que a pôr em causa a existência do Divino, quis sim, pôr em causa as acções do Homem, que muitas vezes, por motivos duvidosos, se escondem atrás da religião para fazer o mal. (...) o que eu acho que realmente faz a diferença, é o olhar para dentro, olhar para as nossas acções e tentar no nosso dia-a-dia ser pessoas melhores. (...) E vivo a minha espiritualidade à minha maneira. E não vivo com a pretensão de saber tudo. Porque acredito que há algo acima de todos e de tudo, algo que nos escapa. Uns chamam-lhe Deus, eu chamo-lhe Destino.»

As palavras que Boss AC diz neste seu rap são as seguintes:


Que Deus?

Quem quer que sejas, onde quer que estejas
Diz-me se é este o mundo que desejas
Homens rezam, acreditam, morrem por ti
Dizem que estás em todo o lado mas não sei se já te vi
Vejo tanta dor no mundo pergunto-me se existes
Onde está a tua alegria neste mundo de homens tristes
Se ensinas o bem porque é que somos maus por natureza?
Se tudo podes porque é que não vejo comida à minha mesa?
Perdoa-me as dúvidas, tenho que perguntar
Se sou teu filho e tu amas porque é que me fazes chorar?
Ninguém tem a verdade o que sabemos são palpites
Se sangue é derramado em teu nome é porque o permites?
Se me destes olhos porque é que não vejo nada?
Se sou feito à tua imagem porque é que durmo na calçada?
Será que pedir a paz entre os homens é pedir demais?
Porque é que sou discriminado se somos todos iguais?

Porquê que os Homens se comportam como irracionais?
Porquê que guerras, doenças matam cada vez mais?
Porquê que a Paz não passa de ilusão?
Como pode o Homem amar com armas na mão? Porquê?

Peço perdão pelas perguntas que têm que ser feitas
E se eu escolher o meu caminho, será que me aceitas?
Quem és tu? Onde estás? O que fazes? Não sei
Eu acredito é na Paz e no Amor

Por favor não deixes o mal entrar no meu coração
Dou por mim a chamar o teu nome em horas de aflição
Mas tens tantos nomes, és Rei de tantos tronos
E se o Homem nasce livre porque é que alguns são donos?
Quem inventou o ódio, quem foi que inventou a guerra?
Às vezes acho que o inferno é um lugar aqui na Terra
Não deixes crianças sofrer pelos adultos
Os pecados são os mesmos o que muda são os cultos
Dizem que ensinaste o Homem a fazer o bem
Mas no livro que escreveste cada um só leu o que lhe convém
Passo noites em branco quase sem dormir a pensar
Tantas perguntas, tanta coisa por explicar
Interrogo-me, penso no destino que me deste
E tudo que acontece é porque tu assim quiseste
Porque é que me pões de luto e me levas quem eu amo?
Será que essa é a justiça pela qual eu tanto reclamo?
Será que só percebemos quando chegar a nossa altura?
Se calhar desse lado está a felicidade mais pura
Mas se nada fiz, nada tenho a temer
A morte não me assusta o que assusta é a forma de morrer

Quanto mais tento aprender, mais sei que nada sei
Quanto mais chamo o teu nome menos entendo o que te chamei
Por mais respostas que tenha a dúvida é maior
Quero aprender com os meus defeitos, acordar um homem melhor
Respeito o meu próximo para que ele me respeite a mim
Penso na origem de tudo e penso como será o fim
A morte é o fim ou é um novo amanhecer?
Se é começar outra vez então já posso morrer


in "Ritmo, Amor e Palavras"

Ver o videoclip aqui

16 março 2007

A Invenção do Amor

Gustav Klimt, O Beijo (1907-8), óleo sobre tela, Österreichische Galerie, Palácio Belvedere, Viena

"A Invenção do Amor" é o título de um longo poema da autoria de Daniel Filipe, poeta e jornalista natural de Cabo Verde, nascido em 1925 e falecido em 1964.

Para se compreender bem o poema "A Invenção do Amor" de Daniel Filipe, é preciso ter em consideração o tempo histórico em que ele foi escrito: o da ditadura de António de Oliveira Salazar, ditadura essa que gostava de proclamar aos quatro ventos que era um baluarte na defesa da civilização ocidental e dos seus valores. Ao lermos este poema, facilmente compreenderemos porque razão Daniel Filipe foi tão perseguido pela ditadura, tendo sido várias vezes preso e torturado pela PIDE.


LER O POEMA A INVENÇÃO DO AMOR


A INVENÇÃO DO AMOR

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher e o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entretanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)

Daniel Filipe, poeta caboverdiano (1925-1964)

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14 março 2007

Desentendimentos


Encontrei, desgarrada numa obscura pasta do meu computador, uma pequena gravação em MP3, que em tempos andou a circular pelos emails, da estação de rádio TSF. Como acho que tem graça, resolvi dá-la a ouvir a quem me visita, na esperança de provocar, pelo menos, um sorriso.

Para escutar a gravação, que foi colocada num novo servidor, clicar na imagem acima.

11 março 2007

Merce Cunningham e John Cage



Um artigo sobre dança contemporânea, publicado pela minha amiga Phwo no seu blog "Às vezes (des)organizo-me em palavras...", refere o nome do coreógrafo norte-americano Merce Cunningham. Eu não entendo nada de dança, seja ela clássica, moderna, contemporânea, tradicional ou outra. Mas Merce Cunningham foi importante para mim, pois ele ajudou a formar a minha sensibilidade estética quando apresentou um espectáculo que nunca mais esqueci, nos já longínquos anos 60, no Cine-Teatro Vale Formoso, aqui no Porto.

Nessa altura, o bailarino e coreógrafo americano apresentou-se perante o público portuense com a sua própria companhia de dança e fez-se acompanhar pelo polémico (no mínimo...) compositor, também americano, John Cage, falecido há muito poucos anos.

Em vez de discorrer aqui sobre a obra de Merce Cunningham, tarefa para a qual não estou minimamente habilitado, resolvi partir à procura do seu nome no You Tube. Encontrei o video que abaixo apresento, intitulado Merce Cunningham digest, e encontrei, também, uma série mais longa de três videos sobre um seu bailado intitulado Beachbirds for Camera. Aconselho a que se veja este belo bailado, estando a primeira parte aqui, a segunda parte aqui e a terceira parte aqui. A música deste bailado é do já citado Jonh Cage.

John Cage foi um compositor que ultrapassou todas as barreiras e todas as convenções, sendo frequentemente chamado louco, provocador e outros epítetos menos próprios. A sua obra mais emblemática é uma peça em três andamentos chamada 4 Minutos e 33 Segundos, que é uma peça em que não se toca rigorosamente nada! O maestro António Victorino de Almeida chamou-lhe "concerto para silêncio"... O You Tube também tem um video com a (não) interpretação desta peça por uma orquestra sinfónica, o qual pode ser visto e (não) ouvido aqui.

No caso do espectáculo de Merce Cunningham a que assisti no Vale Formoso, a mais polémica peça de John Cage, ao som da qual os bailarinos dançaram, foi uma sucessão de anedotas! Assim, enquanto os bailarinos evoluíam no palco, uma voz de homem contava várias anedotas em quatro ou cinco línguas, entre elas o português. Todas as anedotas tinham a mesma duração, que era um minuto, se não me falha a memória. Se a anedota fosse comprida, era contada depressa; se fosse curta, era contada devagar. A verdade é que quase todas as anedotas tinham imensa piada e o público fartou-se de rir durante a peça...

No dia seguinte, um jornal da cidade publicou uma entrevista com John Cage, feita a seguir ao fim do espectáculo. Na entrevista, o jornalista pediu desculpa a John Cage pelo comportamento do público do Porto, dizendo que era um público atrasado, por se ter rido de uma sua peça... O compositor respondeu que o jornalista não tinha que pedir desculpa nenhuma e que, pelo contrário, até achou que o público do Porto era muito evoluído, pois aplaudiu muito o espactáculo no fim. E acrescentou: «Na semana passada, em Paris, atiraram-nos tomates e ovos podres»...

Cabe ainda dizer que o coreógrafo Merce Cunningham voltou com a sua companhia ao Porto há dois ou três anos, mas não pude assistir ao espectáculo por razões ponderosas, o que muito me entristeceu.

Para terminar, um apontamento melancólico. Ao palco do Cine-Teatro Vale Formoso, que Merce Cunningham pisou, sobem agora os pastores da Igreja Universal do Reino de Deus para fazerem exorcismos e curas milagrosas. A IURD não ficou com o Coliseu, mas ficou com o Vale Formoso. Assim acabou um cine-teatro que eu muito estimava, pois nele assisti a muitos e bons filmes durante a minha infância, além do inesquecível espectáculo de Merce Cunningham & Dance Company.

08 março 2007

Mulher

ENDECHAS A BÁRBARA ESCRAVA

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

Luís de Camões


Uma mãe tenta consolar o seu filho no campo de refugiados de Abu Shouk, próximo de El Fasher, no Darfur, Sudão, em 25 de Agosto de 2004. Quase três anos depois, as mães do Darfur continuam a tentar consolar os seus filhos moribundos. Por quanto tempo mais? (Foto: AFP/Jim Watson)

06 março 2007

Diante de si mesmo


Ilusionismo e mímica, juntos num espectáculo de rara beleza. Aconselho vivamente o visionamento do vídeo que se segue.


05 março 2007

Rifão Quotidiano

Uma nêspera
Estava na cama
Deitada
Muito calada
A ver
O que acontecia

Chegou uma Velha
E disse
Olha uma nêspera
E zás comeu-a

É o que acontece
Às nêsperas
Que ficam deitadas
Caladas
A esperar
O que acontece

Mário Henrique Leiria, in Novos Contos do Gin


(Foto: Catálogo Rural)

04 março 2007

«Juventude eterna»



(...) O grande erro dos brancos em relação a África foi pensarem que europeizar os africanos à força era suficiente para lhes controlar os sentimentos encastoados em séculos de tradições. Os brancos nunca tiveram capacidade para entender os negros africanos, porque não quiseram na sua prosápia de civilizadores interesseiros, a Europa nunca quis e continua a não querer perceber a África e não são os imensissímos estudos feitos ao longo da ocupação branca dos territórios africanos que darão o toque de rebate para a tomada de consciência, no convencimento de que os seus valores "ocidentais" são superiores aos dos africanos. (...)

(...) Não basta dizer-se que se tem coração negro enrolado em pele branca. A inversa também vale. Nenhum branco tem o direito de vestir a pele negra simplesmente porque nunca chegou a sentir a humilhação, a exploração desumana, a ignorância atrevida, o abuso interesseiro, numa sucessão de centenas de anos, não foram escravizados e enviados para o Brasil, para os Estados Unidos ou para a Jamaica, não tiveram necessidade de mostrar um cartão assinado todos os dias pelo patrão empregador, não conheceram o chicote do diligente cipaio seu patrício, não carregaram sacos de café, não escavaram a terra em busca de diamantes. (...)

Hélder de Sousa publicou um texto com o título em epígrafe no blog Mais, Sempre Mais!, de onde retirei as passagens acima transcritas. Para se entender o contexto em que as passagens citadas se inserem e porque o texto completo merece efectivamente ser lido, recomendo uma visita à página onde ele está publicado.

02 março 2007

Vamos à ópera


Alguns trechos de ópera encontrados na Web:

Abertura da ópera "As Bodas de Fígaro", de Wolfgang Amadeus Mozart

Una furtiva lagrima, da ópera "Elixir de Amor", de Gaetano Donizetti, pela inigualável voz de Luciano Pavarotti

Toreador, da ópera "Carmen", de Georges Bizet, uma ópera que foi mal recebida na ocasião da sua estreia, por ser considerada «imoral»

Cavalgada das Valquírias, de "A Valquíria", uma das óperas que constituem a tetralogia "O Anel dos Nibelungos", de Richard Wagner

Uma ária da ópera "As Bodas de Fígaro", de Mozart, por duas grandes divas: a neozelandesa de etnia maori (polinésia) Kiri Te Kanawa e a italiana Mirella Freni

Alfredo, Alfredo, di questo cuore, da ópera "La Traviata", de Verdi, por dois dos maiores monstros sagrados da ópera no séc. XX: Maria Callas e Alfredo Kraus; gravação efectuada em 1958, no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa

Largo al Factotum, da ópera "O Barbeiro de Sevilha", de Gioachino Rossini, pelo barítono Mario Basiola (1982-1965)

Va pensiero, da ópera "Nabucco", de Giuseppe Verdi