30 junho 2006

Morreu António Cardoso

Morreu no passado dia 25 de Junho, com 73 anos de idade, António Cardoso, poeta angolano e resistente anticolonial. Natural de Luanda, António Cardoso esteve preso, primeiro em Luanda e depois no Tarrafal, desde 1961 até 1 de Maio de 1974, depois de uma primeira prisão ocorrida em 1959. Ele, António Jacinto e outros nacionalistas africanos foram, de todos os presos políticos que existiam à data de 25 de Abril de 1974, os últimos a serem libertados.

Um dos seus livros, chamado Poemas de Circunstância, foi reeditado em 2004.


ROMANCE

Stela era a minha pequenina namorada
nos tempos da minha infância descuidada!
Para colher o nascer do sol que tinha na boca
eu corria as barrocas e os areais vermelhos do meu bairro
e lutava assanhado com outros miúdos brancos e pretos.
De noite, quando havia muitas estrelas
e o céu era um buraco muito escuro
eu deitava-me na areia vermelha e quente do meu bairro
e no seu colo de menina
ficava calado a sentir o tempo passar.

O miúdo Artur cobiçava-ma
e que dor grande me doía cá dentro
se os via juntos a falar.
Uma vez, numa noite, de mãos dadas,
sentindo o vento molhado do tempo das chuvas,
eu disse-lhe apontando para o alto:
aquela é a minha estrela, qual é a tua?
E todas as noites
ficávamos deitados naquela minha rua antiga do Musseque Braga
a espiar as estrelas que brincavam no céu.

Stela era a minha pequena namorada
nos tempos da minha infância descuidada!
Por ela eu lutava com sardões de todos os tamanhos,
subia cajueiros impossíveis de subir
e era sempre o primeiro nas corridas.
Ela dava-me os santos que escondia de todos
como se fora o tesouro da ilha dos piratas.
E eu ficava muito sério como quando me batiam.
Um dia a minha pequenina namorada deixou o meu bairro.
Nesse dia não corri, não lutei,
não subi aos cajueiros do Musseque Braga
e os outros miúdos mais novos disseram: está doente.
E à noite, sozinho, procurei as duas estrelas
e chorei como se tivesse apanhado
a maior tareia da minha vida!
Stela era a minha pequenina namorada
nos tempos da minha infância descuidada!

(António Cardoso)

29 junho 2006

A formiga com o pé preso na neve

Este é um conto tradicional da região da cidade do Porto, que eu próprio ouvi muitas vezes quando era criança.

Era uma vez uma formiga que andava na neve, entregue aos seus afazeres. A dado momento, a formiga ficou com uma pata presa na neve e, por mais esforços que fizesse, não conseguia libertá-la. A formiga virou-se para a neve e pediu-lhe:

- Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes. Liberta o meu pezinho.

A neve respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o sol que me derrete.

A formiga virou-se para o sol e pediu-lhe:

- Ó sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O sol respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é a nuvem que me tapa.

A formiga virou-se para a nuvem e pediu-lhe:

- Ó nuvem, tu és tão forte que tapas o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

A nuvem respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o vento que me empurra.

A formiga virou-se para o vento e pediu-lhe:

- Ó vento, tu és tão forte que empurras a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O vento respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é a parede que me impede.

A formiga virou-se para a parede e pediu-lhe:

- Ó parede, tu és tão forte que impedes o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

A parede respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o rato que me fura.

A formiga virou-se para o rato e pediu-lhe:

- Ó rato, tu és tão forte que furas a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O rato respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o gato que me papa.

A formiga virou-se para o gato e pediu-lhe:

- Ó gato, tu és tão forte que papas o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O gato respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o cão que me morde.

A formiga virou-se para o cão e pediu-lhe:

- Ó cão, tu és tão forte que mordes no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O cão respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o pau que me bate.

A formiga virou-se para o pau e pediu-lhe:

- Ó pau, tu és tão forte que bates no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O pau respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o fogo que me queima.

A formiga virou-se para o fogo e pediu-lhe:

- Ó fogo, tu és tão forte que queimas o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O fogo respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é a água que me apaga.

A formiga virou-se para a água e pediu-lhe:

- Ó água, tu és tão forte que apagas o fogo que queima o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

A água respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o homem que me bebe.

A formiga virou-se para o homem e pediu-lhe:

- Ó homem, tu és tão forte que bebes a água que apaga o fogo que queima o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O homem respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é Deus que me governa.

A formiga virou-se então para Deus e pediu-lhe:

- Ó Deus, tu és tão forte que governas o homem que bebe a água que apaga o fogo que queima o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

Deus, que tudo pode, libertou o pezinho da formiga. Esta agradeceu e foi toda contente para casa.

27 junho 2006

Guardando o Rebanho, de Silva Porto


Guardando o Rebanho, de António Carvalho da Silva (Silva Porto), óleo sobre tela, 1893, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto

18 junho 2006

Companheiros

Meu coração canta e canta loucamente esperança, de Malangatana Valente


quero escrever-me de homens
quero calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo-vos
a paciência dos rios
a idade dos livros que não se desfolham

mas não lego
mapa nem bússula
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me às vezes viver

hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho

basta-me saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros


Mia Couto

Janeiro de 1984

14 junho 2006

György Ligeti (1923-2006)

Como melómano que sou, não podia deixar passar em claro a triste notícia do falecimento de um dos maiores compositores do séc. XX: György Ligeti, judeu húngaro nascido na Roménia e naturalizado austríaco. Resta-me a consolação de saber que, por cada um que morre, há um jovem que surge, pega no testemunho e faz o seu próprio trabalho de criação, que é tão bom como o anterior e tem a marca do seu próprio (novo) tempo.

Para o grande público afastado da cena musical dita "clássica", o nome de Ligeti não diz nada mas, para muitas pessoas, os filmes de Stanley Kubrick 2001, Odisseia no Espaço, Shining e Eyes Wide Shut já dizem. Pois estes filmes incluem música de György Ligeti nas suas bandas sonoras.

Como exemplos da música de György Ligeti, proponho que se ouçam dois trechos:

Lux Aeterna, obra composta em 1966; faz parte da banda sonora do filme 2001, Odisseia no Espaço; esta peça é ouvida no início do filme, numa cena em que um grupo de pré-hominídeos rodeia um obelisco;

3º andamento (Vivace Cantabile) do Concerto para Piano, obra composta em 1985-88; esta peça pertence a uma fase da criação do compositor em que o cromatismo já não é tão intenso como na peça anterior, mas dá lugar, em parte, ao ritmo.

08 junho 2006

O Rio Paiva

Pela pureza das suas águas e pela beleza das suas margens, o Rio Paiva é uma maravilha da Natureza. Em Portugal não se encontra outro rio assim, tão belo e tão selvagem.

Afluente da margem esquerda do Rio Douro, o Paiva nasce junto a Leomil, no concelho de Moimenta da Beira, distrito de Viseu, e desagua no Douro a poucas dezenas de quilómetros a montante do Porto, entre os concelhos de Cinfães, no distrito de Viseu, e de Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro.


Aposto que Aquilino Ribeiro e outros rapazes da idade dele tomaram muitas vezes banho nus neste local, para escândalo das velhas. Com efeito, o grande escritor viveu durante parte da sua infância em Soutosa, uma aldeia próxima deste sítio.


Este é o vale do Paiva nas proximidades da localidade de Vila Cova à Coelheira, entre Vila Nova de Paiva e Castro Daire, no distrito de Viseu. A paz que se respira neste vale não tem preço.


Ao passar entre as serras de Montemuro e de Arada, ambas com muito mais de mil metros de altitude, o Rio Paiva torna-se um rio de montanha. Esta fotografia foi tirada junto à ponte de Alvarenga, no concelho de Arouca, distrito de Aveiro. A algumas dezenas de metros a montante da ponte, fica uma das pouquíssimas praias fluviais portuguesas a que neste ano foi atribuída a bandeira azul.


A juzante da lindíssima aldeia de Espiunca, também no concelho de Arouca, o Rio Paiva percorre o trecho mais isolado de todo o seu curso. Este trecho é porém o preferido pelos praticantes de rafting e canoagem, atraídos pelos numerosos rápidos que o rio apresenta.


Nesta fotografia vê-se o Paiva um bocado mais a juzante ainda, algumas centenas de metros antes de passar por um grande e abandonado moinho, o moinho do Melo, e por uma ponte de ferro arruinada, a ponte do Melo.


Para se verem imagens do Rio Paiva na sua foz, recomendo uma visita ao blog Fotos do Tempo, cujas fotografias têm uma qualidade incomparavelmente superior a todas quantas eu poderia publicar aqui sobre essa parte final do rio.

Repare-se que, junto à sua foz, o Paiva está rodeado por uma paisagem que contrasta com as das imagens que aqui apresento. O rio deixou para trás as montanhas grandiosas que o estrangulavam e entrou no Douro Litoral, passando a correr por entre campos, hortas, pomares, quintas e aldeias. É uma paisagem rural típica desta última região, que tem o Porto como capital.

06 junho 2006

Raul Indipwo


Raul Indipwo, de seu nome verdadeiro Raul José Aires Corte Peres Cruz, foi um homem cuja sensibilidade musical, plástica e poética foram motivo de grande respeito e admiração, não só por ele próprio, mas também pela sua Angola natal e pela sua mãe África, que ele nunca renegou. Raul Indipwo morreu, mas a sua arte ficou.

Amanhã, pelo Duo Ouro Negro (Raul Indipwo e Milo Mac Mahon)

Vou levar-te comigo, pelo Duo Ouro Negro (Raul Indipwo e Milo Mac Mahon)

Mulheres de África, por Raul Indipwo

05 junho 2006

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

(Thiago de Mello, poeta brasileiro, Santiago do Chile 1964)


03 junho 2006

A Campa do Preto

Existiu na freguesia de Guilhabreu um rico e poderoso fidalgo.

Um dia, o fidalgo tentou abusar de uma menina que, para escapar às suas investidas, se refugiou numa seara de trigo. O fidalgo, vendo gorados os seus intentos, ordenou que se deitasse fogo ao trigo e que todos os seus homens se colocassem nas saídas, para que a menina não escapasse e morresse no incêndio.

Consumado o fogo, verificou o fidalgo que a menina tinha escapado, graças à ajuda de um escravo negro. O fidalgo ordenou então que o escravo fosse amarrado pelo pescoço à cauda de um cavalo, que chicoteou de imediato. O cavalo partiu a galope, arrastando atrás de si o desgraçado do escravo, que morreu despedaçado pelo caminho. No local em que o cavalo por fim parou, já na freguesia de Gemunde, os restos mortais do negro foram sepultados numa campa de pedra.

A campa lá está, em Gemunde, no concelho da Maia, a poucos quilómetros do Porto, mais concretamente junto à Avenida Frederico Ulrich, que é uma artéria muito comprida que vai do cruzamento das Guardeiras até ao Castêlo da Maia.

A campa do escravo é designada Campa do Preto, porque ninguém sabe ao certo que nome é que ele tinha. Ele não era mais do que um escravo anónimo, um dos homens mais desgraçados que já existiram.

O povo considera-o santo, mas a Igreja não, pois não o canonizou nem sequer o beatificou. Por isso, não existe capela nem igreja a ele dedicado, nem sequer um altar ao ar livre. O centro do culto ao Santo Preto é mesmo a sua sepultura.

Todos os anos, no primeiro domingo de Junho, se realizam festejos em sua honra, que são exclusivamente populares, sem a presença institucional da Igreja. Não há missa, não há procissão, não há sequer a presença do pároco de Gemunde, a não ser como simples cidadão. Mas há o pedido de milagres ao santo e há o cumprimento de promessas por parte do povo anónimo. De resto, os festejos da Campa do Preto têm todos os ingredientes das festas populares portuguesas: fogo de artifício, bandas de música, ruas engalanadas, roulottes de farturas, barracas de CDs e DVDs piratas, vendedeiras de doce da Teixeira, etc.

Campa do Preto (Fotos: EB1 da Seara)

01 junho 2006

Dia Mundial da Criança



A FLOR

"Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; c'est que je ne peux vraiment pas faire mieux". - Henri Matisse

Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção , outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

(Almada Negreiros, in A Invenção do Dia Claro)