29 junho 2006

A formiga com o pé preso na neve

Este é um conto tradicional da região da cidade do Porto, que eu próprio ouvi muitas vezes quando era criança.

Era uma vez uma formiga que andava na neve, entregue aos seus afazeres. A dado momento, a formiga ficou com uma pata presa na neve e, por mais esforços que fizesse, não conseguia libertá-la. A formiga virou-se para a neve e pediu-lhe:

- Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes. Liberta o meu pezinho.

A neve respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o sol que me derrete.

A formiga virou-se para o sol e pediu-lhe:

- Ó sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O sol respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é a nuvem que me tapa.

A formiga virou-se para a nuvem e pediu-lhe:

- Ó nuvem, tu és tão forte que tapas o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

A nuvem respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o vento que me empurra.

A formiga virou-se para o vento e pediu-lhe:

- Ó vento, tu és tão forte que empurras a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O vento respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é a parede que me impede.

A formiga virou-se para a parede e pediu-lhe:

- Ó parede, tu és tão forte que impedes o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

A parede respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o rato que me fura.

A formiga virou-se para o rato e pediu-lhe:

- Ó rato, tu és tão forte que furas a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O rato respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o gato que me papa.

A formiga virou-se para o gato e pediu-lhe:

- Ó gato, tu és tão forte que papas o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O gato respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o cão que me morde.

A formiga virou-se para o cão e pediu-lhe:

- Ó cão, tu és tão forte que mordes no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O cão respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o pau que me bate.

A formiga virou-se para o pau e pediu-lhe:

- Ó pau, tu és tão forte que bates no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O pau respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o fogo que me queima.

A formiga virou-se para o fogo e pediu-lhe:

- Ó fogo, tu és tão forte que queimas o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O fogo respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é a água que me apaga.

A formiga virou-se para a água e pediu-lhe:

- Ó água, tu és tão forte que apagas o fogo que queima o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

A água respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é o homem que me bebe.

A formiga virou-se para o homem e pediu-lhe:

- Ó homem, tu és tão forte que bebes a água que apaga o fogo que queima o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

O homem respondeu-lhe:

- Não posso. Mais forte do que eu é Deus que me governa.

A formiga virou-se então para Deus e pediu-lhe:

- Ó Deus, tu és tão forte que governas o homem que bebe a água que apaga o fogo que queima o pau que bate no cão que morde no gato que papa o rato que fura a parede que impede o vento que empurra a nuvem que tapa o sol que derrete a neve que o meu pé prende. Liberta o meu pezinho.

Deus, que tudo pode, libertou o pezinho da formiga. Esta agradeceu e foi toda contente para casa.

Comentários: 33

Blogger Emanuelle escreveu...

Adorei a estória. Voltarei mais vezes.

29 junho, 2006 05:26  
Blogger Denudado escreveu...

Emanuelle, volte sempre que quiser. A "porta" está sempre aberta.

30 junho, 2006 00:32  
Anonymous Gabi escreveu...

Eu amo essa estória!!! :-)
Por acaso você a tem em inglês?
Bjosss, Gabriela.

19 julho, 2006 12:37  
Blogger Denudado escreveu...

Amiga Gabi, eu não a tenho em inglês nem em língua nenhuma. Tenho-a apenas na minha memória, de tanto a ter ouvido na minha infância. Lamento muito.

19 julho, 2006 23:39  
Anonymous CC escreveu...

Também a ouvi muitas vezes quando era pequena. E por não a ter escrita, mas só de lembrança, fui à net procurá-la.

25 outubro, 2006 16:22  
Blogger Denudado escreveu...

Cara CC, quem costuma contar as histórias às crianças, são as avós ou então as mães. No meu caso foi o meu pai, pois as minhas avós não viviam connosco e a minha mãe tinha mais que fazer.

Como o meu pai não sabia muitas histórias, contava-me muitas vezes esta, assim como a história do "Macaco do Rabo Cortado" e a do "João e o Pé de Feijão". Às vezes, quando estava inspirado, inventava uma (ia inventando à medida que contava, melhor dizendo), para minha grande satisfação, pois ele tinha imenso jeito. As histórias que ele inventava eram as minhas preferidas. Infelizmente morreu muito novo, quando eu tinha oito anos apenas.

28 outubro, 2006 00:38  
Anonymous CC escreveu...

Quem me contava esta história era a minha avó. E as histórias dela, tal como as do meu pai eram as melhores do mundo. Deve ser heriditário, a capacidade de contar histórias.

03 dezembro, 2006 19:58  
Blogger Denudado escreveu...

Deve ser heriditário, a capacidade de contar histórias.

Deve ser, CC, mas eu não herdei essa capacidade do meu pai. Ando sempre à procura das palavras, que me parecem estar sempre a fugir...

08 dezembro, 2006 23:58  
Anonymous CC escreveu...

Pronto...então está provado que é hereditário, mas só por 2 gerações! :))

11 dezembro, 2006 19:55  
Blogger Denudado escreveu...

CC, a hereditariedade, como sabe, não é uma coisa linear. Podemos ou não herdar uma dada característica dos nossos antepassados, dependendo dos genes que deles tivermos recebido. Eu tive um bisavô que foi poeta e nem sequer sou capaz de fazer versos de pé quebrado, apesar de gostar muito de poesia.

Mudando de assunto. Quero convidar a CC a visitar o resto deste meu blog, que está quase, quase a completar um ano. Pode aceder aos meus artigos mais recentes clicando no cabeçalho que diz "A Matéria do Tempo" ou, então, copiando para a barra de endereços do seu browser o endereço http://amateriadotempo.blogspot.com/. Espero que goste do que encontrar.

23 dezembro, 2006 00:51  
Anonymous CC escreveu...

Estava a brincar!!
Vou fazer uma visita. Obrigada pelo convite!

23 dezembro, 2006 11:58  
Anonymous Edson escreveu...

Minha filha de 5 anos estava me contando esta história, ma ela tinha esquecido quem era mais forte que o cão, e nas palavras dela a história etava no pause, hoje conseguimos saber o final.

10 março, 2009 23:14  
Anonymous Anónimo escreveu...

ACHEI LINDA ESSA ESTÓRIA NUNCA TINHA OUVIDO, ESTAVA EM UM HOSPITAL PEDIÁTRICO EM SALVADOR QDO UM GAROTO DE 05 ANOS QUE ME CONTOU AI EU PEDI A ELE PARA QUE CONTASSE AS OUTRAS CRIANÇAS. VOCE PRECISAVA VER QUE MARAVILHA TODAS AS CRIANÇAS FICARAM ATENTAS NO FINAL TODOS APLAUDIAM O GAROTO ACREDITO QUE ATE A DOR QUE AS CRIANÇAS ETAVAM SENTINDO POR UM MOMENTO PAROU FOI MUITO LINDO.

CONTINUE ESCREVENDO ASSIM COISAS TÃO LINDA

27 maio, 2009 16:54  
Blogger Maria Joana escreveu...

Tive esta história(simplificada) bordada num bibe de criança, mas terminava: e veio o verão e soltou o pé da formiguinha. Grata por me relembrar esta hisória e passar esta tradição.

06 abril, 2010 21:12  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Agradeço muito as amáveis mensagens que aqui têm vindo a ser deixadas e fico muito contente por saber que valeu a pena publicar este conto popular. Bem hajam.

07 abril, 2010 16:01  
Anonymous Anónimo escreveu...

Esta estória marcou minha vida. Eu tinha uma coleção de disquinhos coloridos em cores fosforescentes e cada disquinho contava uma estorinha diferente. A da formiguinha era minha preferida. Estava a ouvi-la quando minha mãe sentiu os primeiros sinais da morte que se aproximava rápido. Quando faleceu pouco mais de 24 horas depois, meu pai tornou a me contá-la, comparando o destino de minha mãe com o destino da formiguinha, pois o disquinho contava que Deus a libertou, mas a levou pra seu jardim paradisíaco para que lá fosse feliz para sempre. Depois de trinta anos tive vontade de procurar esse conto e fico muito feliz de saber que outra pessoas tabém se sensibilizam com ele. Tudo de bom pra ti...

30 abril, 2010 18:47  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Eu também me lembro desses disquinhos coloridos, translúcidos e fosforescentes com contos infantis, quase todos importados do Brasil, mas nunca tive nenhum. Tudo de bom para si também, caro/a anónimo/a.

01 maio, 2010 16:46  
Anonymous Anónimo escreveu...

Oi,gostaria de receber em meu e-mail,estorias como esta,para eu contar para os meus alunos,fi
carei muito grata.Att,Lucilene.
lucileneh-net@hotmail.com

07 abril, 2011 14:36  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara Lucilene,
Lamento, mas as minhas recordações em termos de contos infantis são muito escassas. Não tenho nenhuma antologia deles. Se pesquisar na Internet, certamente encontrará outras histórias para poder contar aos seus alunos.

09 abril, 2011 17:32  
Anonymous Anónimo escreveu...

a memoria nos faz reviver, lembro-me desta historia quando criança, e retornei ao tempo ao ve-la novamente . so no final que o Deus dizia assim para a formiga, pare com esta ladainha .
e vá furtar, por isso as formiguinhas vivem a furtar

reginaldonunes!@hotmail.com

05 março, 2012 19:41  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Caro "reginaldonunes!", é verdade que as formigas vivem a furtar, mas elas furtam para se alimentar e poderem sobreviver. Muitos humanos, pelo contrário, furtam apenas para acumular riqueza.

07 março, 2012 02:01  
Anonymous Anónimo escreveu...

Eu ouvi inumeras vezes esta fábula, contada pela minha avó, e ultimamente tenho contado para os meus netos.
Ainda bem que não sou só eu...

Jorge Santana da Mota.

31 agosto, 2013 22:20  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Obrigado pelo seu testemunho, caro Jorge Santana da Mota. A avaliar pela quantidade de visitas que esta história tem recebido desde que a publiquei, há muita gente que continua a contá-la ou quer continuar a contá-la, aos seus filhos e aos seus netos. Mesmo muita gente. Estou muito contente por me ter lembrado dela e felicito-me a mim mesmo por ter decidido publicá-la.

02 setembro, 2013 03:33  
Anonymous Anónimo escreveu...

até que enfim eu encontrei. um dias desses eu me lembrei dessa historia quando estava contando umas história para minha prima mais não conseguia me lembrar dela toda e agora eu a encontrei obrigado por publicar ela fez muita parte da minha infância. Gostava muito de ler ela na escola.

05 janeiro, 2014 02:22  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Caro anónimo, agora já pode contar a história na escola. É bom sabermos que conseguimos ajudar alguém.

06 janeiro, 2014 02:59  
Blogger Maquilhagem de Sonho escreveu...

:) esta historia ouvia-a contada pelo meu pai, que contava ao meu sobrinho e agora conta-a à minha filha de 3 anos que já a sabe de cor :)

18 maio, 2015 16:17  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Pois é, cara Maquilhagem de Sonho, é assim que se difunde a tradição oral: de boca em boca. Muito obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.

19 maio, 2015 01:01  
Blogger dione escreveu...

Aiaiaiai! Eu acordei hoje pensando nessa estória em forma de cantoria que a minha saudosa mãezinha sempre repetia ao meu pedido!!! E já lá se vão 50 anos! Amei!!! Obrigada! Abraços. Dione.

15 junho, 2015 17:15  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Prezada Dione, acho que nunca ouvi esta história contada em forma de cantoria. Só na forma falada. Ainda bem que gostou.

16 junho, 2015 03:07  
Anonymous isabel fernandes escreveu...

Pela primeira vez descobri este Blogue é logo me encantou a história da formiguinha uma lena. Lena no estilo dos destravado línguas. MUITO BEM.Obrigada.

30 julho, 2015 15:29  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara Isabel Fernandes, este conto é de um género que julgo ser comum nas literaturas orais do mundo, em que há uma expressão que começa por ser curta e que se vai alongando de cada vez que se repete, com o acrescentamento de uma nova frase a cada repetição. Obrigado e volte sempre que quiser.

01 agosto, 2015 12:03  
Anonymous Carmo Silva escreveu...

Gostei do blogue. Boa música. Vim aqui precisamente por causa da formiga, só me lembrava da "neve que o meu pé prende" e googlei pelo que aqui vim parar. Voltarei mais vezes :-)

16 janeiro, 2016 15:44  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Muito obrigado pelas suas palavras. Esteja à vontade e volte sempre que quiser.

18 janeiro, 2016 03:07  

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