03 março 2006

Música angolana

Depois de ter hesitado um bocado, por causa das más condições em que se encontra, resolvi pôr em linha uma gravação que fiz no Noroeste de Angola. Peço, portanto, a quem a ouvir, que perdoe a sua má qualidade e que procure melhorar um pouco a sua audição.

A gravação foi feita em Zemba, que fica no município de Nambuangongo, mais concretamente no canto nordeste da província do Bengo, a poucos quilómetros da "fronteira" com a província do Uíge. O seu intérprete é um habitante local chamado Gabriel António. A língua em que ele canta é o quimbundo tal como se fala na região dos Dembos, o qual apresenta algumas diferenças em relação ao quimbundo de Luanda.

Ainda uma palavra se impõe a propósito do uso de uma viola de fabrico europeu na gravação. A viola é um instrumento que entrou definitivamente no uso corrente das populações da região dos Dembos. Um pouco por toda a região se tocam violas que são fabricadas de maneira artesanal pelos próprios que as tocam. Por isso, é justo que se considere a viola como um instrumento musical angolano de facto, a par da marimba, do quissanje (ver figura), da ngoma, da puita, etc.

Afinal de contas, também a chamada guitarra portuguesa era inglesa antes de ser introduzida em Portugal. Ela veio do exterior e foi adoptada pelos portugueses como sendo sua. Porque não, pois, considerar a viola como um instrumento angolano?

No caso específico desta gravação, o intérprete estava tão contente por pôr as suas mãos numa viola "profissional", que não tive coragem para lhe pedir que tocasse, não aquela, mas a sua própria viola artesanal.

A gravação pode ser ouvida neste endereço.

A figura que ilustra este artigo foi descaradamente roubada do blog O Abre-Surdo.

Comentários: 14

Blogger lazuli escreveu...

este texto é simplesmente magnífico.

04 março, 2006 03:04  
Blogger Denudado escreveu...

Lazuli, obrigado pela visita e pelo elogio. Gostei muito do seu blog. Vai já para a minha galeria.

04 março, 2006 22:52  
Blogger planaltobie escreveu...

Pura música! A má qualidade do som vem a calhar... dá-lhe um ar... de recolha antropológica.

PCosta

05 março, 2006 00:36  
Blogger Phwo escreveu...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

05 março, 2006 01:00  
Blogger Phwo escreveu...

Meu amigo tuxi ;-)
Obrigada pela música. Ao ouvi-la soou-me como se o Gabriel estivesse a dedilhar um likembe (seria da qualidade menos boa do som ou da técnica de execução, mesmo?)
É isso mesmo, como dizes. Quando nos apropriamos de algo e isso nos serve, passa a ser nosso e é incorporado no que possuíamos já.
E não é essa apropriação que fere a "tradição" (ela própria uma realidade porosa).
Um beijo e obrigada pela partilha.
(Tenho a música no computador e desde ontem que a oiço de vez em quando. A melodia é simples. É bonita...)

05 março, 2006 01:03  
Blogger sensia escreveu...

É a alegria genuína do tocador, a pureza dos sons e a empatia pelo texto do denudado que faz desta partilha puro prazer misturado com saudade.
Obrigada!

05 março, 2006 11:41  
Blogger Denudado escreveu...

Fico feliz por saber que a música agradou.

Pwo, a forma como o Gabriel António dedilhou a viola foi a forma normal, pois as violas que se fazem na região dos Dembos são bastante parecidas com as violas europeias.

É evidente que, não sendo propriamente luthiers, eles fazem as suas violas com umas formas um bocado toscas e com a madeira em bruto, sem polimento nem verniz de qualquer espécie. Mas elas têm um som bastante bom, apesar do aspecto.

Quanto à semelhança que encontraste com o som do likembe ou quissanje, ela não deve resultar só da má qualidade do som, concerteza. Esta balada é o tipo de música que se costuma cantar com acompanhamento de quissanje. Como sabes melhor do que eu, o quissanje é um instrumento de uso pessoal, sobretudo. Ele é para ser ouvido pela pessoa que o toca e (quase) mais ninguém. O quissanje é, portanto, um companheiro de alguém que quer estar só consigo próprio e quer "deitar cá para fora" aquilo que lhe vai na alma: a saudade de alguém que está ausente, um amor não correspondido, o lamento pela morte de alguém, etc.

Dada a sua portabilidade, o quissanje é também um companheiro privilegiado daqueles que viajam através do mato e que, tocando e cantando à medida que vão caminhando, se sentem menos sós. O quissanje é, por isso, um instrumento a que o africano do mato dá grande valor.

05 março, 2006 22:39  
Blogger Denudado escreveu...

Pwo, só mais um pormenor: podes chamar-me os nomes que quiseres, mas tuji é que não. ;-)

06 março, 2006 12:30  
Blogger Salucombo_Jr. escreveu...

pelo Desabafos Angolanos encontrei-e.
gostei do texto e principalmente da musica, levou a minha Angola por 5:27 (risos).
para já expor-te no meu Attelier é uma obigação por tudo que por aqui li.

07 março, 2006 00:40  
Blogger CN escreveu...

o melhor da música é o carinho que tens por ela e pelas gentes.

07 março, 2006 15:15  
Blogger Phwo escreveu...

Caro Denudado,
Só hoje consegui voltar à net, mas ainda a tempo do meu esclarecimento ao teu "pormenor".
Embora acredite que estavas a brincar, quero deixar claro que jamais cometeria tamanha deselegância.
Apenas respondi com tuxi (nu; denudado) ao teu muhatu (mulher; pwo) em Kimbundu.
Não domino essa língua, mas possuo um dicionário (quiçá o mesmo que tu) que me vai dando umas dikas.
Um abraço
:-/

10 março, 2006 06:35  
Blogger Phwo escreveu...

O meu pormenor ;-)
Sempre é mais aceitável trocar kisanji por likembe ou até malimba. Embora não seja o mesmo, ambos são instrumentos da mesma classe.
»:-O

10 março, 2006 06:39  
Blogger Denudado escreveu...

Muito prezada Pwo. Claro que eu estava a brincar quando fiz o trocadilho tuxi/tuji. Por isso é que acrescentei este piscar de olho: ;-)

Não me passaria minimamente pela cabeça ser grosseiro para contigo, depois da forma tão amistosa como sempre me tens tratado.

Quanto à tua referência ao dicionário de quimbundo (desculpa lá esta ortografia portuguesa, mas ela é usada há muitos anos e não vejo razões para mudá-la, dado que é em português que estou a escrever), a verdade é que não tenho dicionário nenhum.

O que eu tenho é um pequeno vocabulário a que faltam inúmeras palavras. Respiguei-o de uma gramática que encontrei na Biblioteca Pública Municipal do Porto, chamada "Grammatica Elementar do Kimbundu ou Língua de Angola", da autoria de Héli Chatelain e publicada em Genebra em 1895. Esta gramática permitiu-me consolidar um pouco e sistematizar os parcos conhecimentos empíricos de quimbundo que trouxe de Angola.

Xala kiambote, kamba diami.

Denudado

10 março, 2006 10:16  
Blogger Denudado escreveu...

Xala kiambote, kamba diami = Fica bem, minha amiga.

10 março, 2006 17:47  

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