11 fevereiro 2006

Cidade

Foto: garciaa100

Em 1960, o Rotary Clube de Luanda publicou um opúsculo com um longo poema chamado "Cidade", da autoria do poeta e médico angolano Cochat Osório.

Nesse poema, o autor imagina-se à janela da sua casa de Luanda, desde antes do amanhecer até depois de o sol raiar, observando a cidade que acorda e vai saindo para a rua. Ele vê o operário a caminho da oficina, vê o polícia, vê a quitandeira, vê as crianças a dirigirem-se para a escola e, por fim, já com o sol alto, vê chegar a casa, depois de uma noite inteira de farra, os membros da classe mais privilegiada, parasitária e ociosa. O poema acaba da seguinte maneira:

(...)

26

Há um sabor gostoso da manhã
nesta mancha da gente que procura
animar a cidade que a não vê.
A cidade que pensa que a cidade
é só daqueles que nunca acordam cedo
e alugando um polícia para cada medo
conseguem saturar esta cidade imensa
da sua vadiagem tola e vã.

27

Mas eu sei que não é!

Esta cidade,
a terra desta gente,
a terra do trabalho que consome
e que contenta
e mata a fome;
esta cidade de calor,
com sangue
e carne
e fel
e amor
e corpo de cidade;

que é cheia de trabalho e de suor
e força
e dignidade;
cidade com as cores do arco-íris,
que o sol acorda e pinta
com as tintas de sangue da paleta inquieta
dum pintor
que além de ser pintor inda é poeta;

a cidade que vibra intensamente
e grita
essa mensagem quente de vigor
e de ansiedade
que é o sangue da gente misturado à cor
da cor
duma cidade;

esta cidade quente
fantasiada com a luz potente
do sol
e da manhã;
cidade que recebe do trabalho
a condição humana;

terra que o sol queimou para a tornar mais sã;

é feita com a força consciente
da luta continuada desta gente
que vive
e sofre
e ri
e canta
e sente
e encharca de suor os dias da semana!

(Cochat Osório, in "Cidade", Luanda 1960)

Foto: trent_gtp

Comentários: 1

Blogger Olho Atento escreveu...

Denudado,
Recebe o meu elogio Pela qualidade do Blog e sobretudo pelo poema sobre Luanda que rebuscaste de "um arquivo" não muito acessível.

Cordialmente,
Soberano Canhanga

20 fevereiro, 2006 12:03  

Enviar um comentário