21 abril 2006

A Europa vista por um índio yanomami


(...)
Quando viajei para longe, vi a terra dos brancos, lá onde havia muito tempo viviam seus ancestrais. Visitei a terra que eles chamam Eropa. Era sua floresta, mas eles a desnudaram pouco a pouco cortando suas árvores para construir suas casas. Eles fizeram muitos filhos, não pararam de aumentar, e não havia mais floresta. Então, eles pararam de caçar, não havia mais caça também. Depois, seus filhos puseram-se a fabricar mercadorias e seu espírito começou a obscurecer-se por causa de todos esses bens sobre os quais fixaram seu pensamento. Eles construíram casas de pedra, para que não se deteriorassem. Continuaram a destruir a floresta, dizendo-se: "Nós vamos nos tornar o povo das mercadorias! Vamos fabricar muitas delas e dinheiro também! Assim, quando formos realmente muito numerosos, jamais seremos miseráveis!". Foi com esse pensamento que eles acabaram com sua floresta e sujaram seus rios. Agora, só bebem água "embrulhada", que precisam comprar. A água de verdade, a que corre nos rios, já não é boa para beber.


Nos primeiros tempos, os brancos viviam como nós na floresta e seus ancestrais eram pouco numerosos. Omama transmitiu também a eles suas palavras, mas não o escutaram. Pensaram que eram mentiras e puseram-se a procurar minerais e petróleo por toda parte, todas essas coisas perigosas que Omama quisera ocultar sob a terra e a água porque seu calor é perigoso. Mas os brancos as encontraram e pensaram fazer com elas ferramentas, máquinas, carros e aviões. Eles se tomaram eufóricos e se disseram: "Nós somos os únicos a ser tão engenhosos, só nós sabemos realmente fabricar as mercadorias e as máquinas!". Foi nesse momento que eles perderam realmente toda sabedoria. Primeiro estragaram sua própria terra antes de ir trabalhar nas dos outros para aumentar suas mercadorias sem parar. Nunca mais eles se disseram: "Se destruirmos a terra, será que seremos capazes de recriar uma outra?".
(...)

(Davi Kopenawa Yanomami, Setembro de 1998; depoimento recolhido e traduzido por Bruce Albert; in Instituto Socioambiental)

Comentários: 5

Blogger Phwo escreveu...

Veio-me à ideia Petit à petit, um dos filmes do genial e controverso impulsionador do cinema verité, Jean Rouch.

21 abril, 2006 01:25  
Blogger trazmumbalde escreveu...

Gostei! A mim lembrou-me o 'Papalagui'.

21 abril, 2006 20:17  
Blogger Denudado escreveu...

Pwo, se bem me lembro, só vi um filme do Jean Rouch e foi há muito tempo. Não me recordo do título e creio que foi filmado no Mali, mas nem disso tenho a certeza. Isto mostra que não sou cinéfilo, caso contrário teria visto os filmes todos ou quase todos dele. O Jean Rouch é, de facto, muito conceituado, tanto no meio cinematográfico como no meio antropológico.

Trazmumbalde, li há muito tempo uma carta de um chefe índio da América do Norte ao presidente dos Estados Unidos, escrita no séc. XIX, se não me engano, e que também ia na mesma linha deste depoimento.

21 abril, 2006 23:39  
Blogger a.leitão escreveu...

Fala-se muito em qualidade de vida e qualidade ambiental, mas invariávelmente está associada a "potes de ouro"!

22 abril, 2006 01:30  
Blogger planaltobie escreveu...

A "Carta" do chefe índio é muito conhecida. A terra não é de ninguém, os rios, as florestas, os búfalos... são de todos porque os índios da América do Norte têm de facto uma visão de conjunto sem paralelo. Só o Canadá é de alguns!! (e ironizo com este país porque é imenso, imenso e quase desabitado).

22 abril, 2006 12:34  

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