05 abril 2006

La doce lhéngua mirandesa


La Lhéngua Mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i capechana, nun yê de onte, detrasdonte ou trasdontonte mas cunta cun uito séclos de eijistência.

Sien se subreponer a la "lhéngua fidalga i grabe" l Pertués, yê tan nobre cumo eilha ou outra qualquiêra.

Hoije recebiu bida nuôba. Saliu de l absedo i de l cenceinho an que bibiu tantos anhos. Deixou de s'acrucar, znudou-se de la bargonha, ampimponou-se para, assi, poder bolar, strebolar i çcampar l probenir.

Agarrou l ranhadeiro para abibar l lhume de l'alma i l sangre dun cuôrpo bien sano. Chena de proua, abriu la puôrta de la sue priêça de casa, puso fincones ne l sou ser, saliu pa las ourriêtas i preinadas.

Lhibre, cumo l reoxenhor i la chelubrina, yá puôde cantar, yá se puôde afirmar.

A la par de l Pertués, a partir de hoije, yê lhuç de Miranda, lhuç de Pertual.


É desta forma poética que começa o pimeiro documento oficial alguma vez publicado em língua mirandesa: a lei que instituiu o mirandês como língua oficial de Portugal, juntamente com a língua portuguesa. Esta lei foi aprovada pela unanimidade dos deputados à Assembleia da República em 17 de Setembro de 1998.

Ao contrário do que muita gente pensa, o mirandês não é um dialecto do português. É uma língua por direito próprio, sobrevivente de uma antiga língua que se falava numa vasta área do norte da Península Ibérica, o asturo-leonês. Assim como a língua portuguesa descende do latim através do galaico-português, a língua mirandesa descende do latim através do asturo-leonês. O português e o mirandês são, portanto, duas línguas que evoluiram em paralelo; não descendem uma da outra.

Falado no concelho de Miranda do Douro e em parte dos de Vimioso e Mogadouro, o mirandês foi durante muitos séculos uma língua desprezada e humilhada, considerada uma língua própria de gente rude e atrasada. Era, por isso, uma língua de que os seus falantes se envergonhavam.

Esta situação tem-se vindo a alterar desde que o mirandês passou a língua oficial e a ser ensinado nas escolas da região. Agora, as pessoas das Terras de Miranda já começam a sentir orgulho na sua herança linguística e cultural, podendo-se ver, nas ruas do concelho, pessoas envergando orgulhosamente T-shirts com os seguintes dizeres: Miranda yê la mie tiêrra.

Termino transcrevendo alguns provérbios em mirandês:

Mais bale um paixarico na mano que dous a bolar.

Quien cuônta un cuônto acrecénta-l' un puônto.

Cesteiro que fai un cesto fai un ciênto, dando-le berga i tiêmpo.

Nun te fies an perro que nun lhadra, nin an home que nun fala.

Antre primos i armanos nun metas las manos.

Filho sós, pai serás, cumo fazires, assi acharás.

Pan i bino, anda camino.

Comentários: 6

Blogger Phwo escreveu...

Que belo post, Denudado.
Inspira-me dois comentários:
- De todas as danças populares (?) portuguesas, a dos pauliteiros de Miranda sempre foi a que mais me cativou. Eu era criança. Os meus avós eram de Trás-os-Montes. Levavam-me a ver os homens dançar. E assim ficava eu, que tempos, a segui-los...
- Também em relação às línguas faladas em Angola, ainda há quem insista em chamar-lhes dialectos.
No entanto (e acho que já me reportei a isto algures) elas possuem estatuto de línguas nacionais. Cada uma destas línguas possui variantes e talvez aí, sim, se possa aceitar falar-se de dialectos.

Ainda acredito que uma língua é um importante suporte cultural.
(Já sabia que o Mirandês era agora ensinado nas escolas e lembro-me que na altura, quando vi uma peça televisiva sobre o assunto, fiquei agradavelmente surpreendida com as crianças a falar e a ler na sua, talvez, língua materna.)

05 abril, 2006 13:13  
Blogger Denudado escreveu...

Pwo, as danças dos pauliteiros remontam às danças guerreiras que existiram um pouco por essa Europa fora na Antiguidade. É das poucas sobreviventes que chegaram aos dias de hoje.

Quando fui membro do Orfeão Universitário do Porto, fui suplente do seu grupo de pauliteiros de Miranda, sem ter nunca chegado a dançar em palco. Era só suplente e por acaso nunca fiz falta. Mas fazia os ensaios todos e posso garantir-te que as danças são muito violentas.

Embora isso não pareça a quem assiste, a verdade é que os paulitos são batidos uns nos outros com a máxima força de que somos capazes, a ponto de os nossos pulsos ficarem em estado lastimável. E quando um paulito nos acerta nos dedos... vemos as estrelas todas, mais os planetas, os cometas, os quasares e todos os outros corpos celestes!

Quanto aos dialectos, apesar de ser falado numa região bastante restrita, o mirandês tem três! Um a norte, outro em Miranda e suas redondezas e outro ainda a sul, chamado sendinês (Sendim é uma vila no sul do concelho, onde todos os anos se realiza um festival de música céltica). As diferenças entre os dialectos não é grande, mas dificultam a adopção de uma ortografia comum. Por isso os mirandeses têm usado uma ortografia essencialmente portuguesa, até que consigam chegar a um acordo ortográfico, também eles.

Mais a norte, no concelho de Bragança, existem pelo menos duas aldeias onde se falam idiomas asturo-leoneses muito parecidos com o mirandês: Rio de Onor e Guadramil. Há quem considere o rionorês e o guadramilês dialectos do mirandês, apenas porque o mirandês é mais importante, mas há quem discorde. Corresponderia a considerar o galego como dialecto do português.

É interessante dar uma volta de carro pelo planalto de Miranda (cuja paisagem é tão parecida com a do Alentejo) e observar as placas bilingues à entrada das povoações: Infanç/Ifanes, Bal d'Aila/Vale de Águia, Palaçuôlo/Palaçoulo (onde existe uma importante indústria de cutelaria), etc.

Também eu tenho uma costela transmontana, por parte da minha família materna, mas do distrito de Vila Real (Carrazedo de Montenegro, Valpaços, por aí).

05 abril, 2006 18:01  
Blogger planaltobie escreveu...

Comprei uma casa de xisto em Vale de Lobo, 9km de Mirandela, terra do meu pai. Mas linda, linda é Mós de Celas, aldeia da mãe.
Sabem (Denudado e Pwo) que querem propor para património mundial os caretos?! ...Aí vão os mascarados!

06 abril, 2006 00:37  
Blogger Denudado escreveu...

PCosta, gosto imenso das casas de xisto. Além da sua beleza intrínseca, o xisto faz com que as casas pareçam muito mais acolhedoras. O granito é mais "frio".

Quanto às aldeias que refere, julgo que não as conheço, embora tenha andado lá muito perto: Romeu, Penhas Juntas, Serra da Nogueira, etc. O problema com aquela região é o clima, com os seus Invernos gelados e Verões escaldantes.

06 abril, 2006 10:47  
Anonymous Rique escreveu...

A paisagem e a natureza em Mos de Celas são lindas e a pureza ou ausencia de poluição é dificil de igualar. Pena que as casas de xisto estejam todas em ruinas e sejam sempre substituidas por casas de cimento sem qualquer beleza.
Estou loucamente apaixonado por ela (Mós de Celas) mas tenho aquela sensação incomodativa de ver o meu amor perder uma parte importante da sua beleza sem eu poder fazer nada...

06 julho, 2006 19:50  
Blogger Denudado escreveu...

Caro Rique, está a aguçar-me o apetite para conhecer Mós de Celas... É pena que a aldeia não esteja aqui perto do Porto. Tenho que arranjar um fim-de-semana para ir até lá.

Obrigado pela visita a este blog.

06 julho, 2006 23:23  

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