25 janeiro 2007

Batuque

Ritmo. Suor. Vertigem. Entrega. Oblívio. Confraternização. Partilha de emoções e de sentimentos. Lúcida embriaguês.

Tantas palavras que se podem usar para definir um batuque africano e, no entanto, todas elas são insuficientes para o descrever. O batuque é todas elas ao mesmo tempo e muito mais ainda. É uma daquelas coisas que não se conseguem descrever por palavras. Temos que senti-las nós próprios, tomando parte nelas.

Ao dançarmos num batuque, entregues ao seu ritmo frenético e às suas canções sincopadas, sentimos vibrar todos e cada um dos nossos nervos, tensos, à flor da pele. Sentimo-nos identificados com todos aqueles que dançam e cantam à nossa volta. Sentimos que, apesar das diferenças que possam existir na nossa origem geográfica e na nossa aparência exterior, nós somos eles e eles são nós. Sentimos que fazemos parte integrante daquela gente e daquela África. Tomamos consciência de que a humanidade é uma só e que sem ela o universo não faz qualquer sentido.

Foi uma experiência única e incomparável para mim, ter participado num batuque em Angola. Eu já tinha assistido a batuques antes, mas daquela vez fui convidado a participar num. Participei e nunca mais esquecerei.

Foi numa daquelas noites quentes em que a lua cheia inundava de prata a terra angolana. Milhões e milhões de estrelas cintilavam esplendorosamente num céu de fundo negro, a que presidia uma lua muito redonda e extraordinariamente brilhante. Pela savana ondulada e banhada pelo luar, ecoavam os tambores de um batuque. Como já me tinha acontecido noutras ocasiões, não resisti ao apelo dos tambores e fui ao batuque.

O que vi quando cheguei, foi o que já tinha visto antes. Homens e mulheres vestidos só de panos, como impunha a tradição, dançavam e cantavam em volta de grandes fogueiras, enquanto tambores de diversos tamanhos eram incansavelmente tocados pelas mãos de homens que escorriam rios de suor. De vez em quando, um dos homens parava de tocar e aquecia o seu tambor a uma das fogueiras, fazendo com que a pele do instrumento ficasse retesada até quase rebentar. Logo de imediato, o homem juntava-se aos seus companheiros e recomeçava a tocar com redobrado vigor. O tambor assim aquecido emitia um som intenso, vibrante e belíssimo. Não há som mais bonito do que o de uma ngoma bem aquecida à fogueira.

Aproximei-me mais dos tocadores para tentar observar os maravilhosos desenhos talhados nos seus tambores. Nessa ocasião, alguns dançarinos viram-me e rodearam-me, cantando, dançando e agitando chocalhos. Sem pararem de cantar e de dançar, convidaram-me então a participar no batuque.

Sobre a forma completamente desastrosa e imensamente ridícula como participei, não darei conta. Apenas direi que, apesar de ser o único europeu no meio de todos aqueles africanos, senti-me tratado por eles como se desde sempre fizesse parte da sua comunidade. Naquela noite mágica, de ritmos estonteantes, luar de prata, estrelas cintilantes no céu e sombras fantasmagóricas projectadas pelas fogueiras, eu senti África, eu vibrei com África, eu fui África. Ou pelo menos assim me pareceu. E ainda parece.

(Fotos retiradas de Os Nossos Kimbos)

Comentários: 6

Blogger Maria Muadié escreveu...

Quero ser tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mato do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cravado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até a consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

José Craveirinha

29 janeiro, 2007 14:50  
Blogger inominável escreveu...

fizeste-me lembrar a Pwo, essa que tão bem se desorganiza em palavras... e fizeste-me lembrar dela por causa de um dos seus últimos posts em que ela respondia a uma crítica de alguém que a fazia sentir uma outsider do mundo que observada e em que participa...

"Apenas direi que, apesar de ser o único europeu no meio de todos aqueles africanos, senti-me tratado por eles como se desde sempre fizesse parte da sua comunidade."

O respeito do Outro conquista-se, não é um dado adquirido... como disse a Pwo, "mas isso sou eu que estou de dentro" (ou algo parecido...).

gostei do relato.

29 janeiro, 2007 22:38  
Blogger Denudado escreveu...

Maria Muadié, muito obrigado pelo poema do moçambicano José Craveirinha, que é um dos meus poetas preferidos. Veio muito a propósito.

Inominável, foi precisamente por ter lido o post da Phwo que resolvi fazer o relato desta minha experiência aqui. Eu já tinha falado nela num comentário a um post no blogue da própria Phwo, já há bastante tempo. Agora resolvi falar dela aqui, de uma forma um pouco mais desenvolvida.

Se quiserem ouvir como se tocava e cantava, muito aproximadamente, no batuque em que participei, queiram ouvir Boulombi, que a Koluki (que também é angolana) teve a amabilidade de colocar na sua página pessoal no Multiply. Era assim que se cantava e tocava no batuque, com uma diferença muito importante: o som dos tambores na gravação nem de perto nem de longe se parece com o verdadeiro som dos tambores ao vivo. Na gravação, faltam os tons graves profundos que dão retumbància e intensidade aos tambores. De resto está tudo na gravação.

29 janeiro, 2007 23:05  
Blogger Koluki escreveu...

Muito obrigada pela mencao, Denudado. Nao tinha comentado ainda este post porque ha mais de uma semana vinha preparando o meu proprio post sobre 'Kongo Musik' e as razoes que me levaram a publica-la nesta altura. E' que essas coisas depois de feitas parecem uma "brincadeirinha", mas na verdade levam o seu tempo e esforco, como alias deve saber. Queria ver se depois poderiamos "partilhar" ideias sobre o seu conteudo, o que voce iniciou aqui tao bem... Obrigada por isso.
Quanto a qualidade da gravacao, tem toda a razao no que diz. Porem, por favor note que trata-se de musica gravada em 1966... e que no processo de, primeiro "ripping" a musica a partir do CD e, depois, "uploading it" para o Multiply, ela perde muito da sua "forca" e autenticidade pelo caminho.

PS: Ola' Maria Muadie'... nossa "provedora oficial de poesia"!

30 janeiro, 2007 01:18  
Blogger Denudado escreveu...

Koluki, por favor não me ponha a "partilhar" coisas muito complicadas consigo. Não sou antropólogo, nem etnólogo, nem musicólogo, nem nada dessas coisas terminadas em "ólogo". A minha formação académica e profissional situa-se na área das ciências e tecnologia, não na das humanidades e afins. Sou incapaz de teorizar sobre muitos dos assuntos que abordo neste blog. Abordo-os por simples diletantismo.

Existe um programa de rádio em inglês da Voz da América que ouço desde há muitos anos, ainda que de uma forma muito irregular. Chama-se "Music Time in Africa" e apresenta música tradicional e urbana, antiga e recente, de toda a África. Talvez lhe agrade. É transmitido aos sábados e aos domingos e tem a duração de uma hora. O programa está disponível no sítio da Voz da América na Internet e pode ser ouvido e descarregado desta página. Os links estão na coluna da direita, sob o título "Listen to the Latest Show". As emissões do último sábado e do último domingo estão disponíveis nos formatos Real Audio, Windows Media e MP3, à escolha. Eu gosto muito de ouvir este programa, mas antigamente gostava mais, quando ele era só de música tradicional.

30 janeiro, 2007 17:27  
Blogger Koluki escreveu...

... Conta-se (e claro que esta historia ja deu tantas voltas, contravoltas e reviravoltas que ja ninguem pode asseverar da autenticidade de cada uma das suas versoes, mas e' seguramente baseada num acontecimento veridico e factual) ... que quando Nkwame Nkruma, primeiro presidente da Africa independente foi introduzido ao seu novo gabinete de trabalho pelo governador Britanico cessante, este lhe perguntou se havia alguma coisa que ele gostaria que fosse retirada, uma vez que ele ja tinha recolhido todos os simbolos coloniais... Nkruma deu uma vista de olhos ao redor do gabinete e fixou-se nos quadros pendurados nas paredes... havia, entre estes, pinturas de paisagens naturais do Ghana, gravuras dos chefes tradicionais dos varios grupos etnicos do pais e mais quatro retratos... ele, evidentemente, identificou imediatamente dois deles como sendo, um o de um soldado colonial e outro o de um missionario, tendo-os mandado retirar. Nao conseguindo identificar o terceiro, o governador britanico disse-lhe que aquele era o de um antropologo... imediatamente Nkruma mandou-o retirar e perguntou quem era o quarto, tendo-lhe sido dito que se tratava de um etnologo... Nkruma mandou-o tambem retirar e declarou-se satisfeito!

30 janeiro, 2007 22:38  

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