02 maio 2007

José Eduardo Agualusa ganha prémio na Inglaterra


(Foto: Antoninho Perri)

Soube da notícia esta manhã, ao ouvir uma entrevista do escritor angolano à BBC: a tradução para inglês do livro O Vendedor de Passados, com o título Book of Chameleons ganhou o prémio de Ficção Estrangeira para 2007 atribuído pelo jornal britânico Independent. Agualusa partilha o prémio com o tradutor da obra, Daniel Hahn.

Sobre o livro O Vendedor de Passados, escreve o professor brasileiro Eustáquio Lagoeiro Castelo Branco Fontes, no sítio Eduquenet:

(...)

Seu mais recente livro, O Vendedor de Passados, fala sobre um especialista em reescrever a biografia dos fregueses na emergente sociedade urbana de Angola.... pintando um retrato dos novos ricos angolanos, que têm o dinheiro e o poder, mas aos quais falta um passado consistente!!!! Uma idéia perigosamente interessante, extravagante, misteriosa... que mistura as metáforas e analogias com o Mundo Natural. Povoado de personagens sui generis como a osga, um assombro, sempre atenta a tudo e a recordar o tempo em que era humana.

«Um nome pode ser uma condenação. Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, iludem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum. Recordo sem prazer, sem dor também, o meu nome humano. Não lhe sinto a falta. Não era eu.»

Nesta história, um albino morador de Luanda, capital de Angola, elabora árvores genealógicas em troco de pagamento. Uma atividade um tanto quanto estranha exercida por um esquisito personagem principal - o vendedor de passados falsos, chamado Félix Ventura e uma lagartixa que, na verdade comanda toda a narrativa.

Esta, uma osga, espécie de lagartixa, vai contar como um negro albino, Félix Ventura, fabrica histórias de vida para seus clientes, ou seja, cria uma genealogia de luxo para quem o contrata. São prósperos empresários, políticos e generais da emergente burguesia angolana que têm um presente e um futuro prospero, mas falta-lhes um passado que não seja comprometedor. E arquitetar esse passado é uma empreitada no qual, o personagem principal Felix se encarrega.

Dois seres, um albino e uma osga (lagartixa), vivem à sombra e compartilham vivências, sonhos e criações. A osga busca na sua pretérita vida humana, vestígios de outra reencarnação, a fim de compreender suas emoções e reconhecer os vestígios literários e a sua aguçada percepção. O albino, Félix Ventura, busca a realização de um presente para si alicerçado nos alfarrábios que lhe serviram de berço.

A osga tem um nome. É chamada de Eulálio por Félix, o homem que vende os passados. É ela quem vai narrando a história.

A relação da osga (Eulálio) com a sua casa é visceral. A osga percebe sua respiração, penetra-a em busca do útero «O corredor é um túnel fundo, úmido e escuro, que permite o acesso ao quarto de dormir...» A casa é o seu universo possível e seguro, distante dos campos minados de Angola, onde são revelados os segredos e fantasias que criam o presente para os que buscam novos passados. Também é o ambiente protegido para o resgate da vida de Eulálio, um ser comum que viveu quase um século na pele de homem sem se sentir inteiramente humano e que agora se lamenta desses quinze anos com a alma presa ao corpo de lagartixa.

Felix está muito bem nessa empreitada, leva uma vida razoavelmente confortável até que uma noite essa rotina é rompida com a chegada de um estrangeiro, fotógrafo de guerra, que quer um passado completamente novo. De preferência que seja uma identidade angolana. Com o nome recente, José Buchmann, e uma fajuta e fabulosa árvore genealógica, passa a buscar os personagens a fim de confirmar sua existência fictícia.

José Buchmann procura o seu passado e, à medida que vai sendo criado por Félix Ventura, o encontro com algumas situações surpreendem com a possibilidade da coincidência com o absurdo. A busca de sua suposta mãe, a aquarelista norte-americana Eva Muller, a narrativa do corredor cheio de espelhos e de sua povoada solidão no apartamento em Nova Iorque, a aquarela encontrada e o anúncio de sua morte na Cidade do Cabo, tudo vai colorindo e recheando essa nova identidade.

«A verdade é uma superstição.»

mas......

Entre uma venda de passado e suas implicações, são apresentados os problemas de uma osga (fugir de lacraus, e refrescar-se do calor) e seus sonhos. E temos ainda que contornar o problema de um narrador animal que age como um ser humano sem uma nítida compreensão animal do mundo.

A lucidez da osga é admirável: «A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável. Está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre.»

Sua mãe, de Eulálio, aparece em seus sonhos (memórias da vida humana), fala sobre a realidade e o sonho e aconselha: «Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolha os livros.»

Outra passagem interessante e que nos chamam a atenção: os inúmeros seres que precisam de uma trajetória para legitimar as máscaras que vestem demonstram como os personagens históricos são imortalizados com passados maquiados, enfeitados de fatos falsos, numa ficção memorialista. Numa das biografias forjadas, Felix se destaca ao criar para um de seus clientes um livro de memórias de um Ministro (A vida verdadeira de um combatente), que credita a este cliente, homem público, um conjunto de fatos notáveis para confirmar o personagem idealizado e contextualizado com as suas pretensões futuras.

Contudo, o aparecimento do mendigo Edmundo Barata dos Reis, comunista assumido, ex-agente e ex-gente nas palavras do próprio, cria novos rumos para a narrativa. Os personagens e seus duplos convergirão para um desfecho inusitado, consagrando a narrativa vertiginosa e poética de José Eduardo Agualusa.

Temos também, para complementar, uma trama de amor: Félix Ventura, vendedor de passados, apaixona-se por Ângela Lúcia, mulher que gosta de fotografar nuvens.

........e por aí vai....

(...)

Comentários: 5

Blogger Koluki escreveu...

Eu soube da noticia ontem por email.
Os meus parabens ao autor e a todos os utentes da lingua Portuguesa e, ja' agora, tambem da Inglesa, uma vez que o premio foi para a traducao!

Kandandos!

03 maio, 2007 14:03  
Anonymous O'Sanji escreveu...

Caro Denudado,
Não quero entrar em polémica em relação à opinião da Koluki, quando esta afirma que o prémio foi para a tradução; mas não posso deixar de referir que a notícia, aparecida nos jornais aqui em Portugal, não afirma isso.

"O escritor angolano José Eduardo Agualusa foi hoje distinguido com o XII Prémio de Ficção Estrangeira, entregue pela National Portrait Gallery de Londres, pela obra "O Vendedor de Passados".
O prémio, promovido pelo diário britânico "The Independent" em colaboração com o Conselho das Artes do Reino Unido, reconhece os autores e tradutores das melhores obras de ficção de língua estrangeira publicadas no país.
O escritor recebeu 7350 euros pelo prémio, que vai dividir com o seu tradutor, Daniel Hahn."
....
Estão de parabéns a literatura angolana, o Agualusa e toda a comunidade falante do Português!
Um abraço

04 maio, 2007 11:28  
Blogger Denudado escreveu...

Cara O'Sanji,

Tanto quanto entendi, o prémio ganho por José Eduardo Agualusa destinava-se a distinguir a melhor obra literária estrangeira publicada durante o ano anterior no Reino Unido em língua inglesa. Premeia, portanto, uma obra traduzida, a menos que o original tenha sido ele mesmo escrito em inglês. Acho que foi isto o que a amiga Koluki quis dizer quando se referiu à tradução e à língua inglesa.

De resto, estou de acordo em que o prémio seja repartido com o tradutor, desde que a parte de leão fique para o autor, pois o trabalho criativo foi dele. A tradução de uma obra literária deve ser por vezes uma tarefa muito complicada, porque deve haver a preocupação de exprimir tão bem quanto possível o espírito da obra, sem desvirtuar a sua letra. Trata-se de procurar "ficar de bem com Deus e com o diabo", evitando da melhor maneira possível corresponder ao ditado antigo que diz: «Tradutore, traditore», ou algo semelhante; isto é, «Os tradutores são traidores» (ao espírito e/ou à letra da obra traduzida).

05 maio, 2007 00:45  
Blogger O'Sanji escreveu...

Este comentário foi removido pelo autor.

05 maio, 2007 17:22  
Blogger O'Sanji escreveu...

Caro Denudado
Sei, por experiência própria, o quão difícil é traduzir. Tenho feito algumas traduções de textos ligados a temas de educação e, neste caso, além de se procurar ser fiel às ideias expressas pelo autor, há que ter o cuidado de se conhecer o público a quem se destina e a realidade (portuguesa). No que se refere a obras literárias, para além de se ter em conta o espírito do autor, tem de se ter um bom domínio da língua do texto original.
Não conhecendo a tradução em apreço, acredito que, sendo o autor premiado, em boa parte se ficou a dever à tradução.
Quanto ao ditado referido, «tradutore, traditore», é mais frequente do que o desejado!
Um abraço

05 maio, 2007 17:24  

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