07 agosto 2007

N'um batuque

N'um batuque hontem andei,
onde vi certa morena,
tão gentil era a pequena
que nem eu dizel-o sei
- Como está? lhe perguntei
logo que de perto a vi,
- Quer dansar? lhe repeti,
não se acanhe minha bella, -
- tunda bobo, me disse ella,
Ou antes: - Saia d'aqui
- Seja meu par, oh menina
não se zangue por tão pouco; -
- Uá salúcia, é você um louco,
Gámessenâ'me qu'quina
- D'esse olhar a luz divina
fascinado me deixou!
se um beijinho, só, lhe dou
gozarei prazer infindo, -
- Quicolá, me disse, rindo,
logo de mim, se affastou.
- Por que foge? venha cá,
porque só me deixa aqui? -
- Uá móno... mundele inhi...
Guamiâme... ndé cuná
- Por favor, não se vá já,
é ainda, muito cedo, -
- Quiússuca, disse a medo
a moreninha tão linda
Caté mungo, disse ainda,
e retirou-se em segredo...

Eduardo Neves (1855-?), poeta de Angola


TENTATIVA DE GLOSSÁRIO DOS TERMOS EM QUIMBUNDO

Tunda bobo - Saia daqui
Uá salúcia (Wasalusya) - Endoideceu
Gámessenâ'me qu'quina (Ngamesenami kukina) - Não tenho que dançar
Quicolá (Kikola) - Não pode ser
Uá móno (Wamono) - Viu
Mundele inhi (Mundele inyi) - Que branco
Guamiâme (Ngwamyami) - Não quero
Ndé cuná (Nde kuná) - Vá para ali, vá para longe
Quiússuca (Kyusuka) - Acabou (?)
Caté mungo (Katé mungu) - Até amanhã



Elogio do Ritmo, têmpera sobre papel, 2000, de Eleutério Sanches, artista angolano

Comentários: 2

Blogger Maria Muadié escreveu...

uma delicia...um verdadeiro "elogio ao ritmo".
Martha

07 agosto, 2007 18:06  
Blogger Sal Ober escreveu...

que tentação. mais houvesse, mais eu dançava.

saudações

http:\\coresemtonsdecinza.blogspot.com

19 novembro, 2008 09:38  

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