13 agosto 2010

Uma noite no deserto do Namibe


Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010), escritor e antropólogo angolano (Foto: Walter Fernandes)

(...) Há anos que eu andava a ver se conseguia dormir assim sozinho no deserto. Mas de facto nunca viajava completamente sozinho e nunca tinha querido, também, impor uma escala assim despropositada aos meus companheiros de viagens. Estava agora ali, afastado um pouco da fogueira, a fixar aquele círculo de chão iluminado, a aferir a gradação do limite entre a substância do palpável e a vastidão compacta da noite. A adequação dos sentidos: a vista, durante o dia, o ouvido, agora. O silvo discreto das torrentes da brisa, dos canais do vento. Qualquer ruído acrescentado a estes, uma folha de capim cedendo ao rastejar de algum mínimo réptil, o indeciso progredir de algum insecto escuso, estava o alerta disparado e em guarda, indiferente contudo ao choro dos chacais. Assente e a sós na caixa do silêncio. O vento, só. Não chegas a saber se o das correntes de ar ou só aquele que a Terra há-de soprar embrulhada no curso da rotação que a leva. E há um rumor de estrelas a que por vezes, de súbito, se acrescenta o grito, sideral, de algum astro candente. E o permanente caudal , que sempre entendi de esperma, da via láctea, suspensão morosa na uterina fluidez da noite. Até que a lua nasce a confirmar contornos guardados intactos pela minha vigília. (...)

Ruy Duarte de Carvalho, in Vou lá visitar pastores, Edições Cotovia, Lisboa, 1999



Um pequeno trecho do céu austral. A constelação do Cruzeiro do Sul está um pouco acima e à direita do centro da imagem (Foto: Greg Bock)

Comentários: 7

Anonymous maria escreveu...

Do Homem, cidadão e autor, guardo algumas emoções que me tocaram na leitura de alguns dos seus textos e obra.
Do poema "O Sul" retive..
(...)
Para quando enfim amor
no sul ao sol
uma mão cheia de sal?

Sem palavras.
Gosto deste espaço que mais do que levar-me ao norte e ao sul, partiha humanidade.

14 agosto, 2010 09:05  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

A primeira vez em que travei conhecimento com a obra de Ruy Duarte de Carvalho foi por volta de 1980, mais ano, menos ano. Foi no Cineclube do Porto, numa sessão em que foi exibido um seu filme sobre uma tradição dos povos da Huíla. Foi um filme de que gostei muito, porque dava uma visão que estava em clara oposição à visão habitual -- superficial e eurocêntrica -- dos filmes "etnográficos". Só tive pena que a sua qualidade técnica, resultante da grande precariedade dos meios utilizados, fosse tão fraca.

Quando a sessão terminou e as luzes se acenderam, um fulano levantou-se de imediato do meio da assistência e pediu, em voz alta, que não nos fôssemos já embora. Disse que se chamava David Mestre (um outro grande poeta angolano, também já falecido, cuja obra vale a pena conhecer) e que desejava ler-nos um pouco da poesia escrita pelo realizador do filme que acabáramos de ver. Algumas pessoas foram-se embora, mas a grande maioria ficou a ouvir David Mestre declamar poemas de Ruy Duarte de Carvalho. No fim, ainda fiquei, com mais duas ou três pessoas, a conversar com David Mestre, pela madrugada fora, à porta do Cineclube.

Tempos depois encontrei, numa livraria, uma obra de Ruy Duarte de Carvalho que comprei de imediato. Era um pequeno livro de contos, escritos em tom muito poético, chamado "Como se o Mundo não tivesse Leste". Fiquei maravilhado com o que li, não só por causa da enorme qualidade literária da obra, mas também porque ela retratava uma realidade -- a dos povos do sul de Angola, nomeadamente dos Kuvales (Mucubais) -- que mais ninguém alguma vez tinha abordado de uma forma tão intensa e profunda. Só alguma literatura colonial os tinha retratado como adereços de uma paisagem "pitoresca" e "folclórica", e não como seres humanos que procuravam sobreviver no meio do deserto e que temiam, mais do que tudo, as secas e a consequente fome, cuja terrível ameaça paira sempre sobre as cabeças dos pastores e camponeses do centro e sul de Angola.

Como facilmente se imagina, Ruy Duarte de Carvalho passou a ser para mim uma referência. Fiquei muito consternado com a sua morte.

14 agosto, 2010 17:12  
Blogger Phwo escreveu...

Perdemos um GRANDE angolano. Hoje, o Jornal de Angola não lhe dedicou mais que breves linhas em texto formal, enquanto grande destaque era dado ao marido da ministra da comunicação social, deputado...
É triste...

16 agosto, 2010 00:55  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara Phwo,

Não me admira a frieza do Jornal de Angola. Depois de Ruy Duarte de Carvalho ter dito que Angola é maior do que todos os governantes que já teve, tem e terá, não surpreende a atitude do diário governamental.

16 agosto, 2010 01:13  
Anonymous maria escreveu...

Perdemos um GRANDE Angolano, sem dúvida, como diz Phwo.
Eu até diria perdemos um GRANDE HOMEM.
Como o entendo, caro Fernando, quando refere a forma como lhe tocou esta notícia.
Agradeço também a partilha desta estória e factos, referentes a dois Homens que admiro e tive o privilégio de "conhecer".

18 agosto, 2010 13:50  
Anonymous zé kahango escreveu...

Mantenho a profunda admiração pelo Grande Ruy Duarte de Carvalho, o autor do inigualável estudo dos mucubais, resultante de com os próprios ter vivido, e com eles ter calcorreado o deserto.

04 setembro, 2010 17:28  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara Maria,
Eu confesso que não tenho uma grande admiração pelos antropólogos, etnólogos e outros "ólogos" semelhantes. Esta coisa de estudarem sociedades humanas com a mesma frieza com que estudariam sociedades de orangotangos ou de formigas faz-me arrepios. Como é possível? Mas Ruy Duarte de Carvalho não foi assim. Ele dedicou-se de uma forma empenhada e apaixonada às populações que estudou, como ficou comprovado nos seus livros.

Caro Zé Kahango,
Seja bem regressado a este espaço. Ruy Duarte de Carvalho também andou de nonkakos pelo mundo, sem dúvida. Se calhar, calçou-os mesmo a sério algumas vezes.

06 setembro, 2010 00:27  

Enviar um comentário