02 abril 2011

A guerra colonial na música portuguesa



A FAVOR DA GUERRA

Ou espontaneamente, ou promovidas pela máquina de propaganda do Estado Novo, foram várias as vozes que, através da música, se manifestaram a favor da política colonial do regime, assim como da guerra que este teve que fazer, entre 1961 e 1974, para tentar travar a ascenção das colónias portuguesas à sua legítima independência.

O exemplo mais paradigmático da música que então se fez a favor da guerra foi, sem qualquer sombra de dúvida, o hino "Angola é Nossa", de Duarte Pestana e Santos Braga. Trata-se de um hino guerreiro por excelência, dotado de uma força e de um ímpeto tais, que mesmo nos dias de hoje ele consegue provocar arrepios a quem o ouve. O crescendo inicial das vozes, o enorme belicismo contido nas palavras, o compasso acelerado da marcha e o triunfalismo da música em tom maior dão uma impressão de avanço imparavelmente vitorioso a quem escuta. Este é um hino guerreiro perfeito. Nem os nazis conseguiriam fazer melhor.


Angola é Nossa (música de Duarte F. Pestana e letra de Santos Braga), pelo Coro e Orquestra da FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), sob a direção de Duarte Pestana


"Angola é Nossa", diz o coro, refletindo a mentalidade colonial, como se Angola fosse um objeto que se possui, e não uma terra com gente dentro; como se os angolanos não contassem para nada, à semelhança dos servos da Europa feudal, que faziam parte integrante da terra, tal como as árvores, os bichos, os rios e as montanhas, sem direitos nem opinião.

Outras músicas:

-- Marcha do Soldado Português, por João Maria Tudela;

-- Na Hora da Despedida, por Ada de Castro;

-- Adeus, Guiné, pelo Conjunto Típico de Armindo Campos.



CONTRA A GUERRA

De entre as vozes que, no campo da música, se manifestaram em Portugal contra a guerra colonial, destacaram-se sobretudo três: as vozes de Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e Luís Cília. Os outros cantores de intervenção que se faziam ouvir no tempo da ditadura raramente, ou mesmo nunca, abordaram a temática da guerra.

Ao belicismo de "Angola é Nossa", Zeca Afonso contrapôs, por exemplo, "Menina dos Olhos Tristes", que é um lamento profundamente magoado, que ele mesmo criou para um poema escrito por Reinaldo Ferreira (1922-1959), um poeta português que adotou Moçambique como sua segunda pátria.


Menina dos Olhos Tristes (música de Zeca Afonso, poema de Reinaldo Ferreira), por Zeca Afonso


Outras músicas:

-- Pedro Soldado, por Adriano Correia de Oliveira;

-- O desertor, por Luís Cília.



A EXPERIÊNCIA DA GUERRA

Entre os muitos milhares de portugueses que combateram em Angola, Moçambique e Guiné, houve poetas e cantores, como não podia deixar de ser. Alguns destes poetas e cantores deram testemunho desta sua experiência, uns melhor do que outros. De entre os poetas que escreveram sobre a sua experiência na guerra, avulta acima de qualquer outro Manuel Alegre, que foi mobilizado para o norte de Angola em 1962.

Um dos mais belos e pungentes poemas que Manuel Alegre escreveu foi musicado por Adriano Correia de Oliveira, que também o cantou. Trata-se de "Canção com Lágrimas", em que é evocado um companheiro de Manuel Alegre, que o poeta viu morrer em combate diante dos seus próprios olhos.


Canção com Lágrimas (música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Manuel Alegre), por Adriano Correia de Oliveira


Tenho para mim que esta é a mais bela de todas as canções que a respeito da guerra se fizeram. É verdade que não há palavras que consigam descrever o que sente um combatente, quando vê um camarada de armas morrer diante de si, perante a sua mais desesperada impotência. Não há. Manuel Alegre escreveu apenas as palavras possíveis, mas são belísimas, essas palavras. E Adriano Correia de Oliveira conseguiu também compor e cantar uma canção que é, sem dúvida, extraordinariamente tocante.

Outras músicas:

-- Onde o Sol Castiga Mais, por Paco Bandeira;

-- Nambuangongo, meu amor, por Paulo de Carvalho.


Ainda dentro do capítulo relativo à Experiência da Guerra, seria imperdoável não fazer uma referência ao conjunto de fados e canções que ficou conhecido como Cancioneiro do Niassa, o qual já foi objeto de um artigo neste blogue.

O Cancioneiro do Niassa é um documento humano, histórico e sociológico preciosíssimo. Este cancioneiro foi feito pelos combatentes portugueses destacados para o Niassa, no norte de Moçambique, mas o que nele se ouve reflete igualmente de forma rigorosa, com todas as suas matizes e contradições, o que pensavam e o que sentiam os militares portugueses que combateram, não só nesta, mas também em outras frentes da guerra colonial. Para aceder ao conteúdo do Cancioneiro do Niassa, queira dirigir-se a estes endereços:

-- http://guerracolonial.home.sapo.pt (clicar em Canções do Niassa);

-- http://www.joraga.net/cancioneirodoniassa/index.htm (contém gravações originais da época).

Comentários: 5

OpenID lalage escreveu...

Como é possível que só hoje tenha descoberto o seu blogue?! Já percebi que tenho muito para explorar.
Obrigada :)

27 abril, 2011 16:41  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Eu que lhe agradeço, prezada Lalage. Explore à sua vontade. Não paga nada por isso.

28 abril, 2011 09:22  
Blogger Koluki escreveu...

Ia responder-lhe, com algum atraso, a sua resposta ao meu comentario sobre o estoria do "Guerrilheiro Didi", mas como, por qualquer razao, nao encontrei a respectiva pagina, deixo-a aqui, just for the record...

Mais uma vez obrigada.
Quanto a este tipo de contribuicoes "nao oficiais" para a historia, julgo que elas sao sempre dificeis de se contar para quem as viveu e de as ler para quem seja nelas retratado. Mas tudo depende do conteudo, contexto, forma e da motivacao com que for feito. Enfim, tudo dependera' da nossa consciencia...

09 maio, 2011 16:53  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara Koluki,
Se não encontrou a página relativa ao heróico guerrilheiro Didi, deve ter sido porque tentou aceder à página original, que eu tinha acabado por apagar. O seu comentário e a minha resposta estão na página onde sempre estiveram, que foi a que a substituiu: http://amateriadotempo.blogspot.com/2011/03/o-guerrilheiro-didi_21.html.

09 maio, 2011 23:56  
Blogger Koluki escreveu...

Obrigada pelo esclarecimento.

11 maio, 2011 16:10  

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