06 fevereiro 2012

Conseguirão os nossos heróis encontrar o amigo misteriosamente desaparecido em África?

Um fotograma do filme Riusciranno i nostri eroi a ritrovare l'amico misteriosamente scomparso in Africa?, de Ettore Scola

Riusciranno i nostri eroi a ritrovare l'amico misteriosamente scomparso in Africa? ("Conseguirão os nossos heróis encontrar o amigo misteriosamente desaparecido em África?") é o longo título em italiano de um filme que foi rodado em Angola e estreado em 1968. Em Portugal este filme foi chamado Um Italiano em Angola e no Brasil teve o título Perdidos na África. Tendo os atores Alberto Sordi, Bernard Blier e Nino Manfredi como principais protagonistas, este filme foi realizado por Ettore Scola, que é considerado um dos maiores realizadores do cinema italiano.

O filme conta as aventuras passadas por um rico editor de Roma, Fausto di Salvio (representado por Alberto Sordi), que parte para a "África Portuguesa" à procura do seu cunhado Oreste Sabatini, por alcunha "Titino" (representado por Nino Manfredi), que tinha deixado de dar notícias à família. Durante a sua viagem, o editor faz-se acompanhar pelo seu contabilista pessoal Ubaldo Palmarini (representado pelo ator francês Bernard Blier), que não se mostra muito entusiasmado com a aventura. Por fim, acabam por encontrar quem procuravam, Titino.

O filme é bastante desigual, embora no fim se possa atribuir-lhe uma nota claramente positiva. É movimentado, divertido e contribui para desmontar certos mitos e ideias feitas, existentes na Europa a respeito de África, se bem que acabe, ele também, por cair estrondosamente num outro mito. Tem cenas que merecem ser classificadas como de antologia, mormente o momento em que Fausto di Salvio vê pela primeira vez as quedas de água de Kalandula, ex Duque de Bragança.

Muito engraçada, por exemplo, é a cena da chegada dos nossos heróis a Angola. Fausto di Salvio sai para a rua vestido de caçador e de espingarda a tiracolo, pronto para enfrentar os leões... na marginal de Luanda! Olhando para o lado, repara que está a ser filmado por um angolano que, visivelmente divertido, regista a sua ridícula figura.

Um dos diversos erros que podem ser detetados no filme é o que diz respeito à existência de mercenários. É verdade que, nos anos sessenta do século passado, houve diversas intervenções de forças mercenárias em África, sobretudo no Congo. Nos noticiários internacionais, a figura do mercenário estava então indissoluvelmente ligada ao continente africano. Mas isso não era verdade no caso de Angola, onde as Forças Armadas Portuguesas, só por si, tinham milhares e milhares de homens em armas. Os mercenários não se podiam passear por Angola armados até aos dentes com toda a impunidade, como se vê no filme. Na vida real, só esporadicamente é que o território angolano foi atravessado por colunas de mercenários, vindos da África do Sul, que se dirigiam para o Katanga, Kassai ou outra região do Congo, onde iam semear a guerra. Estas colunas limitavam-se a cruzar o leste de Angola, mormente o Alto Zambeze (também chamado "Saliente de Cazombo"), com o acordo tácito das autoridades coloniais, e eram acompanhadas de perto pelo Exército Português.

Vejamos agora algumas passagens do filme, não necessariamente pela ordem em que elas foram montadas. Na primeira, Fausto di Salvio e o seu contabilista partem em perseguição de Titino a bordo de um camião que, por acaso, também é conduzido por um italiano, Campi Benedetto. Quem faz de camionista nesta cena não é um ator profissional, mas sim um eletricista da equipa técnica do filme, chamado Ivo Sebastianelli. Representa tão bem o seu papel que não fica nada atrás dos atores profissionais que contracenam com ele.

A meio da viagem, os nossos heróis têm um encontro indesejado...


Outra passagem do filme mostra Fausto di Salvio e o seu contabilista cozinhando espaguete diante das quedas de água de Kalandula e acompanhados por um inverosímil guia português. Quem faz de português é certamente um ator brasileiro, que nem sequer tenta disfarçar a sua pronúncia... Nesta passagem, o português prega-lhes uma partida, fingindo ter sido atacado por pigmeus! No fim da cena, explode o fogão sobre o qual o espaguete estava a ser cozinhado.


Na passagem seguinte, os nossos dois heróis recebem boleia de um casal de colonialistas portugueses (o homem deve ser outro ator brasileiro, embora tente disfarçar a pronúncia). Esta cena documenta, sucessivamente, dois aspetos do colonialismo: o paternalismo e o racismo. Se o governo de Salazar soubesse que esta passagem iria ser incluída no filme, de certeza que não teria autorizado a sua rodagem em Angola...

É preciso dizer-se, a respeito desta parte, que seria uma terrível e inadmissível injustiça estender a todos os colonos portugueses o tipo de comportamento que é documentado na cena da passagem da ponte. No entanto, houve em Angola colonos que eram mesmo assim, tal e qual como se vê nestas imagens. A cena não é nada inverosímil. Se não aconteceu, podia ter acontecido.


O editor e o seu contabilista acabam por encontrar quem procuravam, o cunhado Titino, que lhes aparece como "feiticeiro" de uma comunidade. Aqui é que o realizador borrou completamente a pintura! Depois de ter desmontado alguns mitos e ideias feitas sobre África ao longo do filme, Ettore Scola mostra que ele mesmo também tem preconceitos dentro da sua cabeça, filmando cenas que são verdadeiramente lamentáveis.

É uma figura típica da literatura colonial, esta do "feiticeiro" branco. Mas é uma figura errada e profundamente injusta. Os camponeses africanos podem ser ingénuos, mas de parvos não têm absolutamente nada. Nem por sombras eles iriam atrás do primeiro charlatão branco que lhes aparecesse pela frente. O que se vê nesta passagem acaba por ser uma ofensa aos kuvales -- também chamados mucubais -- que nela participam e que, aliás, nunca são identificados como tais no filme.


No final, o realizador Ettore Scola acaba por se redimir completamente dos erros e incorreções que cometeu durante o filme.

Na história, Fausto di Salvio e o seu contabilista acabaram por convencer o "feiticeiro" Titino a regressar a Itália. Embarcam os três num navio, enquanto os membros da comunidade kuvale se concentram na praia para se despedirem de Titino. Assistimos então a cenas de extraordinária beleza e emoção, em que é feita a comparação entre a África pujante de vida e de calor humano e a Itália com a sua alta burguesia fátua, que procura matar o tédio com estúpidos jogos de salão. O filme fecha com chave de ouro. Na nossa retina fica gravado um turbilhão de belíssimas imagens.

Comentários: 4

Blogger Webston Moura - contatowebston@gmail.com escreveu...

Gostei do teu blog!

Sugestão: http://professorubiratandambrosio.blogspot.com/

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06 fevereiro, 2012 07:26  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Prezado Webston Moura,
É bom saber que gostou. Muito obrigado.

Em relação ao blogue que recomenda, quem gostou fui eu. A Matemática, a que podemos chamar mãe de todas as ciências, é uma ciência verdadeiramente extraordinária. Por vezes penso que, se for verdade que Deus existe, então ele manifesta-se através da Matemática. Isto é, a Matemática é a linguagem de Deus. Em que outro ramo do conhecimento é que a noção de infinito, por exemplo, é tão profunda como na Matemática?

09 fevereiro, 2012 01:27  
Blogger José Sérgio escreveu...

entrei no filme como mercenário quando fomos há aldeia mukubala para trazer tino de volta estava em comissão em Angola nessa altura.

09 abril, 2017 10:53  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Prezado José Sérgio, muito obrigado pela sua intervenção, que vem enriquecer este meu blog. Quer dizer então que muito provavelmente aparece na cena que se segue, ainda que o faça de uma forma fugaz: https://www.youtube.com/watch?v=v7qbtNNQhq4.

10 abril, 2017 03:14  

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