30 março 2013

O soldado morto

Os infinitos céus fitam seu rosto
absoluto e cego
E a brisa agora beija a sua boca
Que nunca mais há-de beijar ninguém.

Tem as duas mãos côncavas ainda
De possessão de impulso de promessa.
Dos seus ombros desprende-se uma espera
Que dividida na tarde se dispersa.

E a luz, as horas, as colinas
São como pranto, em volta do seu rosto
Porque ele foi jogado e foi perdido
E no céu passam aves repentinas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Funeral de um militar português em Mueda, norte de Moçambique (Foto: SRG)

Comentários: 3

Blogger Rogério Pereira escreveu...

As memórias não nos largam
Somos as memórias que temos

Boa Páscoa

30 março, 2013 00:53  
Blogger Um Jeito Manso escreveu...

Uns morrem pelas causas que abraçam, outros morrem sem saber porquê. Mas, para quem os ama, é sempre a mesma dor por terem partido mais cedo do que deviam.

(O poema é belíssimo e não podia ser mais apropriado)

Boa Páscoa!

30 março, 2013 01:36  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Boa Páscoa a ambos, Rogério Pereira e Um Jeito Manso.

"Uns morrem pelas causas que abraçam, outros morrem sem saber porquê" e outros ainda morrem pelas causas que demasiado tardiamente descobrem serem injustas e sem futuro, e que por isso vão morrer inutilmente. "Mas, para quem os ama, é sempre a mesma dor por terem partido mais cedo do que deviam".

31 março, 2013 00:36  

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