18 abril 2013

A guerra civil portuguesa e o Porto

Obelisco no Alto da Memória, Angra do Heroísmo (Foto: Carlos Luis M C da Cruz)

No Alto da Memória, sobranceiro à cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, Açores, existe um obelisco. Na Praia da Memória, em Pampelido, Matosinhos, existe um obelisco. Que relação existe entre estes dois obeliscos e que memória é que eles pretendem assinalar? Estes obeliscos evocam a guerra civil portuguesa de 1828-1834, que opôs liberais, encabeçados por D. Pedro IV (que abdicou do trono de Portugal em favor da sua filha Maria da Glória, quando se tornou imperador do Brasil, cuja independência proclamou), e absolutistas, apoiantes do seu irmão D. Miguel, que se tinha feito aclamar rei de Portugal.

O obelisco de Angra do Heroísmo evoca a vitória dos liberais sobre os absolutistas na Ilha Terceira, após duríssimos combates. A valentia demonstrada pelos habitantes da cidade, que até então se chamava apenas Angra, levou D. Pedro IV a acrescentar a palavra Heroísmo ao nome desta. A partir de então a cidade passou a chamar-se Angra do Heroísmo.

O obelisco que está em Pampelido, por seu lado, assinala o local onde se fez o desembarque de D. Pedro e das suas tropas, vindos dos Açores. O local deste desembarque não foi a praia do Mindelo, como muitas vezes se diz, mas sim uma praia situada vários quilómetros mais a sul, que agora se chama Praia da Memória e que naquele tempo se chamava Praia dos Ladrões...

Obelisco existente na Praia da Memória, Pampelido, Matosinhos em Vila do Conde, que assinala o local de uma primeira tentativa, falhada, de desembarque das tropas liberais (Foto: Joseolgon). O obelisco que está na Praia da Memória, e que é muito mais imponente do que este, pode ser visto, por exemplo, na foto que tem o seguinte endereço: http://ipt.olhares.com/data/big/348/3486854.jpg. Agradeço ao visitante Maciel Pinto a correção do erro que imperdoavelmente cometi ao confundir este obelisco com o da Praia da Memória

Após o desembarque, as tropas liberais dirigiram-se para a cidade do Porto, cuja população as acolheu e lhes deu o seu total apoio. As forças miguelistas puseram então cerco à cidade, o qual se estendeu desde julho de 1832 até agosto de 1833. Este cerco foi devastador para o povo do Porto e para as forças liberais sitiadas, mas estas acabaram por sair vitoriosas, após duríssimos e sangrentos combates, no decurso dos quais se cometeram os mais extraordinários atos de valentia. Depois de os absolutistas terem levantado o cerco, D. Pedro IV logo avançou para Lisboa, triunfante. D. Miguel acabou por reconhecer a sua derrota e por assinar a sua capitulação em Évora Monte, no Alentejo, em maio de 1834.

É completamente impossível falar da história do Porto sem fazer uma longa referência a este cerco, que foi certamente o acontecimento mais marcante que esta cidade viveu ao longo da sua história milenar. As provações e os combates então vividos estão pormenorizadamente descritos na História do Cerco do Porto, de Luz Soriano (1802-1891).

Na toponímia do Porto não faltam referências diretas e indiretas ao cerco. Alguns exemplos: Bairro do Cerco do Porto, Rua do Heroísmo, Rua da Firmeza, Praça do Exército Libertador, Rua da Bataria (corruptela de bateria), etc. Alguns destes nomes foram atribuídos pelo próprio D. Pedro, assim como foi dado pelo próprio D. Pedro o título de Cidade Invicta ao Porto, título que esta cidade orgulhosamente ostenta no seu brasão: «Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto».

Como se tudo isto não bastasse, D. Pedro legou ainda o seu próprio coração à cidade. Está devidamente conservado e guardado na Igreja da Lapa, à qual o rei-soldado costumava ir para assistir à missa dominical.

Memorial onde está guardado o coração de D. Pedro IV de Portugal e D. Pedro I do Brasil, situado numa parede da capela-mor da Igreja da Lapa, Porto (Foto: Luiz Ferraz Cebola)

Comentários: 3

Blogger Maciel Pinto escreveu...

Este comentário foi removido pelo autor.

18 abril, 2013 16:21  
Blogger Maciel Pinto escreveu...

A segunda foto mostra um obelisco que está em Vila do Conde, e refere-se ao local onde a armada liberal tentou desembarcar. Por não ter conseguido apoios em Vila do Conde a armada deslocou-se mais para sul, para a "praia do ladrões", atual praia da memória.

A memória a que se refere (bastante mais alta do que a de Vila do Conde) pode ser vista aqui

http://ipt.olhares.com/data/big/348/3486854.jpg

18 Abril, 2013 16:21

18 abril, 2013 16:23  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Tem carradas de razão. O segundo obelisco que apresento fica em Vila do Conde, entre a Capela de Nossa Senhora da Guia e o Forte de São João, junto à foz do rio Ave. Vou já tratar de corrigir este erro imperdoável. Fico-lhe muito agradecido pela chamada de atenção.

18 abril, 2013 17:04  

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