28 janeiro 2014

Mafra e os seus ratos

O convento de Mafra (Foto: Henrique Ruas)

Sempre que vou a Mafra, sinto um arrepio percorrer-me as costas. Este arrepio é um resquício, que nunca consegui eliminar completamente, do tempo em que comecei a cumprir o serviço militar obrigatório. Frequentei durante seis meses o Curso de Oficiais Milicianos na Escola Prática de Infantaria, instalada nas traseiras do gigantesco convento. Não consigo, por isso, gostar de tão monstruoso e pesadão edifício, fruto da megalomania de um rei pelo qual também não sinto qualquer simpatia: D. João V.

Todo o convento de Mafra foi construído para nos fazer sentir, a nós comuns mortais, o peso esmagador da glória do rei, que a exploração desenfreada das riquezas do Brasil possibilitou. Tudo no convento foi feito para nos fazer sentir insignificantes. Tudo nele é desmesurado e desumano. A única coisa de que gosto no convento é a sua espantosa biblioteca; só ela é que me faz voltar a Mafra uma e outra vez. De resto, até a basílica é para mim completamente gelada, mesmo no mais escaldante dia de verão, talvez por causa da sua extraordinária profusão de frios mármores (todos eles portugueses, diga-se em abono do rei), assim como das suas estátuas e imagens, que são igualmente frias e impessoais, apesar de serem valiosíssimas de um ponto de vista estritamente artístico.

Biblioteca do convento de Mafra (Foto: A Guia Turísitca)

Como disse, tudo no convento de Mafra é desmedido. Tudo, até... os ratos! Ou não? Afinal, o que é que há de verdade e o que é que há de mentira nas histórias que se contam a respeito dos ratos do convento de Mafra?

Quando eu estava a cumprir a tropa em Mafra e vinha passar os fins de semana a casa, as pessoas faziam-me frequentemente perguntas acerca dos famosos ratos. «É verdade que os ratos de Mafra são cegos? É verdade que os ratos de Mafra são pelados? É verdade que os ratos de Mafra são grandes como coelhos? É verdade que os ratos de Mafra até os gatos comem?», perguntavam-me. E eu respondia que não sabia de nada disso, porque nunca tinha visto nenhum... As pessoas zangavam-se com a minha resposta e achavam que eu estava a gozar com elas. Algumas, mesmo, sentiam-se profundamente ofendidas! Como era possível que eu nunca tivesse visto um rato em Mafra?! Por quem é que eu as tomava, para lhes mentir tão descaradamente? TODA A GENTE sabia que nos subterrâneos do convento havia ratos aos milhões. Ratos pelados, cegos, carnívoros e tudo!

Pois bem. Não há ratos pelados, cegos e carnívoros em Mafra. Não há. Nem eles são aos milhões. Também não são. Para dizer a verdade, não há em Mafra mais ratos do que em qualquer outra povoação de idênticas dimensões. Não há mesmo! E os que existem não são ratos mutantes; são ratos iguais aos outros ratos. Porque a verdade é esta: no convento de Mafra também não existem os medonhos subterrâneos que muitas pessoas julgam que existem. Não existem! O que existe é uma rede de esgotos, que é extraordinariamente engenhosa segundo dizem os entendidos. É claro que em todos os esgotos vivem ratos e nos do convento também se devem encontrar alguns. Mas não aos milhões! Se duvida do que acabo de afirmar, peço-lhe que visite a seguinte página do portal Monumento de Mafra Virtual, intitulada "Os ratos-gambozinos de Mafra": http://www.cesdies.net/monumento-de-mafra-virtual/os-ratos-gambozinos-de-mafra.

Uma galeria da rede de esgotos do convento de Mafra. Onde estão os ratos? (Foto: Manuel J. Gandra)

Pode ir a Mafra à vontade, passear pela vila e visitar as dependências do convento que estão abertas ao público, nomeadamente a basílica e o palácio real. Pode maravilhar-se com a magnífica biblioteca, onde milhares e milhares de preciosíssimos livros se mantêm intactos há mais de duzentos anos, sem que algum rato tenha alguma vez feito estragos neles. Os únicos habitantes habituais da biblioteca do convento de Mafra, aliás, não são ratos; são morcegos, que comem os bichos que poderiam destruir os livros que na biblioteca se guardam.

Na biblioteca do convento de Mafra há milhares e milhares de livros em que nunca rato algum tocou (Foto de autor desconhecido)

Se for a Mafra e se fartar da presença esmagadora e totalitária do convento, vire-lhe a costas e percorra a comprida rua que se encontra mesmo em frente à basílica e à sua escadaria. Ao fundo dessa rua encontrará um outro monumento de Mafra: a igreja de Santo André. Ao contrário do convento, esta igreja não tem nada de extraordinário. É um templo bastante rústico, até, de estilo gótico, embora ainda apresente alguns vestígios do românico. É uma igreja simples e bonita e é uma das igrejas mais antigas de toda a região saloia. Em toda esta região, talvez só a igreja de Santa Maria, em Sintra, que foi mandada construir pelo rei D. Afonso Henriques, é que é mais antiga.

Há ainda a referir que há quem diga, mas parece que não há provas que confirmem esta afirmação, que entre os párocos de Santo André de Mafra se contou Pedro Julião, que também foi chamado Pedro Hispano e que veio a ser o único papa português, o papa João XXI.

Capitéis do portal principal da igreja de Santo André, em Mafra (Foto: IGESPAR)

Eu comecei por escrever que, sempre que vou a Mafra, sinto um arrepio percorrer-me as costas. Isto acontece-me porque o tempo de tropa que passei em Mafra foi bastante traumatizante, em consequência dos mortos e dos feridos que houve entre os meus camaradas de companhia, fruto da brutalidade da instrução militar que nos foi ministrada na Escola Prática de Infantaria. Durante a instrução do primeiro ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, houve entre os soldados-cadetes da minha incorporação quatro mortos, por afogamento, e ainda dois feridos, também da minha companhia de instrução, num outro incidente, um dos quais ficou cego de um olho.

Estes casos passaram-se em junho de 1971 e nunca vieram a público, porque a censura não permitiu. Só o Avante!, jornal clandestino do clandestino Partido Comunista Português é que deu a notícia do afogamento e da subsequente reação dos soldados-cadetes, eu incluído. Independentemente do tom militante e combativo em que a notícia do Avante! foi escrita, ela é rigorosamente verdadeira. Eu confirmo tudo. Estive lá e vivi os acontecimentos relatados.

Recorte do jornal Avante!, nº 431, de julho de 1971 (Foto: A. Marques Lopes)

Comentários: 6

Anonymous Anónimo escreveu...

Texto muito bom.
Já visitei Mafra e o dito convento, é de facto assombroso pela sua grandeza um exagero. Morreram muitos trabalhadores quando foi construido, mas disso ninguem fala...

12 abril, 2014 12:46  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Muito obrigado pelas suas palavras. A referência que faz aos trabalhadores que morreram durante a construção do convento faz-me lembrar o poema "Perguntas de um operário letrado", de Bertolt Brecht:

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a lendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias.
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a Guerra dos Sete Anos.
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas.

13 abril, 2014 02:27  
Anonymous Carlos Martins escreveu...

Veio-me à memória, sem qualquer motivo particular, a busca de dados sobre a trágica ocorrência de 1971/06/04 na Escola Prática de Infantaria. Estava lá, fiz parte daquela incorporação e senti bem os efeitos de tais exercícios e, para cúmulo, um dos cadetes que perdeu a vida, afogado numas das várias lagoas existentes no perímetro da EPI, era por mim acordado todas as manhãs. Lembro-me perfeitamente da tentativa desesperada do Cmdt a tentar forçar um dos cadetes a sentar-se naquele imenso refeitório. Bem se esforçou, mas em vão...
O outro episódio também referido teve lugar fora das instalações da EPI e deveu-se à iniciativa do Cmdt do pelotão em tornar o exercício o mais parecido com o que nos podia esperar em operação: Atirem-se para o chão que eu vou fazer fogo real para o chão... E assim fez e um estilhaço da bala cegou um jovem na flor da idade...

23 junho, 2016 14:46  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Prezado Carlos Martins,

É curioso que ainda há duas semanas recebi um email de um irmão de um dos cadetes que morreram afogados na Tapada. Ele pedia-me que lhe indicasse alguma entidade que lhe pudesse facultar alguma informação sobre a morte do seu irmão. Segundo ele, a família não teve qualquer conhecimento sobre as circunstâncias da morte do seu ente querido, apenas sabendo que ele tinha morrido afogado. Mais nada. Esta fria indiferença exibida pela instituição militar para com os familiares dos cadetes falecidos é revoltante, embora ela esteja em conformidade com a arrogância e a impunidade que as Forças Armadas manifestavam naquele tempo, como suporte que eram (até 25 de abril de 1974) do regime vigente.

Eu puxei pela minha memória e contei ao meu interlocutor que, naquela manhã fatídica de junho, nós, cadetes, fomos conduzidos em formatura para a Tapada de Mafra, como sempre acontecia, mas ao contrário do habitual fomos levados até junto de umas lagoas que existiam na Tapada. As lagoas estavam cheias de água, porque tinha chovido abundantemente nas semanas anteriores. Eu não fui para a mesma lagoa que os afogados; eu fui para uma lagoa e eles foram para outra.

Quando o pelotão a que eu pertencia chegou junto do lago, o instrutor (o então alferes graduado Carvalhão, a fazer o tirocínio para a Academia Militar) ordenou-nos que entrássemos na água em fila indiana, assim mesmo como estávamos, isto é, fardados, de botas e com uma espingarda G3 nas mãos. Eu fui o segundo cadete a entrar na água, atrás de um camarada que era mais alto do que eu. Avançámos cautelosamente, tentando equilibrar-nos com dificuldade, por causa do fundo escorregadio e irregular da lagoa. As botas, cheias de água, pesavam como chumbo e dificultavam-nos o avanço. A farda, que ia ficando cada vez mais molhada à medida que entrávamos, também pesava cada vez mais e dificultava-nos os movimentos. Ao peso das botas e da farda, há a acrescentar o peso da espingarda que levávamos connosco.

Sempre que abrandávamos a marcha, éramos logo alvo de berros por parte do instrutor, que exigia que avançássemos sempre mais e mais para o meio da lagoa. À medida que avançávamos, o movimento dos nossos pés no fundo da lagoa ia levantando lodo, o qual ia tornando a água cada vez mais turva, até não se poder ver um palmo abaixo da superfície. Toda a água ficou turva de lodo. Quando eu já estava com a água pelo pescoço (sem qualquer ponta de exagero), ouvi gritos vindos de outra lagoa, lançados por cadetes que diziam que havia camaradas a afogar-se. Tinham tropeçado e caído, não se conseguindo levantar por causa do peso, e não era possível saber ao certo onde é que eles estavam, pois não se via nada debaixo de água. Eu, por minha parte, procurei logo sair da água, felizmente sem cair. Fiquei em estado de choque, porque eu mesmo podia ter-me afogado também. Posso talvez dizer que foram os gritos dos meus camaradas na outra lagoa que me salvaram.

Quando encontraram os cadetes que tinham caído na outra lagoa, já era tarde de mais. Já estavam mortos. O resto é o que se pode ler no recorte do Avante, descontando o tom combativo em que a notícia está redigida.

O comandante da EPI na altura era o coronel Hilário Marques da Gama. O comandante da minha companhia de instrução era o tenente Fernando Aguda, que agora está reformado como major-general (o mesmo que brigadeiro) e é vice-presidente da Liga dos Combatentes. Quanto ao comandante do meu pelotão, só sei que se chamava Carvalhão e que, com o posto de tenente, deve ter participado no MFA desde a primeira hora (quem diria?!). O comandante de pelotão responsável pela cegueira de um cadete era um outro alferes graduado a fazer o tirocínio que se chamava Sobral, se a memória não me falha.

As recordações são como as cerejas. Nós puxamos por uma e outras vêm agarradas, incluindo muitas que julgávamos ter esquecido há muitos anos.

24 junho, 2016 03:19  
Anonymous Carlos Martins escreveu...

Ex camarada de armas Fernando Ribeiro,
Efetivamente é como diz, as recordações são como as cerejas. E agora é tempo delas...
Pelo já escrito, pode-se concluir que pertencemos à mesma companhia de instrução: salvo erro a 6ª, que tinha 3 pelotões. No fatídico dia, depois de formados, o Cmdt de companhia, o tenente Aguda também quis participar na "festa" e, para arregimentar elementos para ele levar, lançou para o ar: quem tem carta de condução, dê um passo em frente: foi o que fiz e, quem sabe, se não me terá salvo a vida... Fomos para perto da pista de obstáculos e transformou-nos em autênticos croquetes: a carne éramos nós e a areia, onde nos mandou rebolar, substituiu o pão ralado...
Uns meses mais tarde encontrei o coronel Hilário da Gama, num pavilhão desportivo em Lisboa, durante um jogo de voleibol a contar para o campeonato da RM de Lisboa...

24 junho, 2016 15:54  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

É verdade, nós éramos da 6ª companhia de instrução, éramos.

Embora já usassem galões de alferes e fossem tratados como tais, os nossos instrutores ainda não eram formalmente alferes. Faltava-lhes o tirocínio (que era a nossa instrução no C.O.M.), para concluirem o curso da Academia Militar e darem início à sua carreira como oficiais do Exército. A nota do tirocínio contava muito para a sua nota final de curso. Então eles espremiam-nos, a nós pobres coitados, de todas as maneiras e feitios, porque queriam tirar uma boa nota, fosse de que jeito fosse. E o tenente Aguda alinhava completamente nisso, ao contrário do que faziam os outros comandantes de companhia. Por isso é que nós fomos vítimas daquela estúpida e brutal instrução, com um número de mortos e de feridos que nem numa instrução para comandos se admitia. Todos os mortos e feridos foram da companhia do Aguda, a 6ª companhia, e não foi por acaso.

25 junho, 2016 03:50  

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