01 setembro 2015

Baleal

A península do Baleal, Peniche (Foto: Duarte Fernandes Pinto)

O Baleal é uma pequena península. Ou melhor, é uma pequena península... quando o mar não o transforma em ilha. Situado nas imediações de Peniche, para norte desta cidade, o Baleal é habitualmente uma península, ligada ao continente por uma língua de areia ao longo da qual passa a única estrada de acesso à pequena aldeia nela existente. Mas em dias de temporal ou em tempo de marés vivas (como as que vão ocorrer agora neste mês de Setembro), o mar pode passar por cima da língua de areia, cortar o acesso e o Baleal ser transformado em ilha. Este tipo de istmo em língua de areia é chamado tômbolo. Também o acesso por estrada à cidade de Peniche é feito por um tômbolo, embora o mar já não o consiga cobrir em tempo algum.

A costa de Peniche é um local de encontro de duas correntes marítimas: uma que vem de sudoeste e outra que vem de noroeste. Em resultado do choque entre elas, as areias e outros sedimentos que as correntes transportam perdem velocidade e depositam-se. Há, portanto, um progressivo assoreamento desta costa, processo através do qual as ilhas se vão transformando em penínsulas e as penínsulas vão sendo cada vez mais incorporadas na terra "firme", acabando por ficar afastadas do mar.

No tempo de D. Afonso Henriques, por exemplo, Peniche era uma ilha e o mar chegava até às proximidades de Atouguia da Baleia. Através do assoreamento ocorrido ao longo dos séculos, o mar foi depositando areia entre Atouguia e Peniche, até que esta cidade ficou ligada ao continente por um tômbolo e Atouguia da Baleia ficou longe do mar. Enfim, ficou o nome "Baleia" para nos recordar que Atouguia já foi uma localidade costeira em tempos que já lá vão.

Se este processo de assoreamento continuar a verificar-se, podemos esperar que dentro de muitos séculos as Berlengas também acabarão por ser transformadas em penínsulas. Os nossos descendentes deixarão então de experimentar a aventura que nós podemos agora viver, de viajar num pequeno barco até às Berlengas por um mar muitas vezes encapelado.

Voltemos ao Baleal. O que o Baleal tem de especial, além de ser península umas vezes e ilha outras, são os lindíssimos estratos inclinados da rocha calcárea que o constituem. Certamente que, do ponto de vista estrito da ciência geológica, os estratos do Baleal não têm nada de especial. Num país como Portugal, onde abundam as rochas sedimentares, há estratos nas mais variadas posições, inclusivamente na vertical, como na Praia Grande, em Sintra, ou às ondas. Mas no Baleal os estratos inclinados produzem um efeito estético de tão grande beleza, que vale a pena lá ir só para os apreciar.


Ilha das Pombas, um ilhéu existente junto ao Baleal (Foto: Vítor Oliveira)

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