09 dezembro 2015

Porcelana de Vila Nova de Gaia

Marca de fábrica muito antiga, na base de uma chávena de porcelana (Foto: Maria da Conceição Costa)


Durante muitos séculos, Gaia foi terra de bonecreiros, oleiros, barristas e ofícios correlativos. Daqui resultou o aparecimento, também em terras de Gaia, de grandes escultores, como Soares dos Reis, Teixeira Lopes, Fernandes de Sá e muitos outros. Daqui resultou igualmente o surgimento de uma pujante indústria cerâmica, que se impôs, sobretudo, nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX.

Das grandes empresas de cerâmica que em Gaia viram a luz do dia, já pouco resta. Resta, por exemplo, a Cerâmica de Valadares, que se especializou no fabrico de louça sanitária e que foi salva in extremis da falência, encontrando-se neste momento a laborar outra vez.

Outras grandes empresas de cerâmica gaienses não tiveram a mesma sorte. Por exemplo, podemos considerar criminosa a forma como a notável Fábrica de Cerâmica das Devesas foi votada ao abandono, dilapidada e vandalizada. Outra grande fábrica que desapareceu foi a Cerâmica do Carvalhinho que, aliás, nasceu no Porto, tendo-se mudado para Gaia para poder crescer e evoluir. Outra que também desapareceu foi a Cerâmica do Fojo. Enfim, o rol de tristezas que envolve a indústria cerâmica de Gaia não tem fim.

Uma das empresas mais emblemáticas da cerâmica gaiense foi a Electro-Cerâmica do Candal, também desaparecida. As antigas instalações da Electro-Cerâmica constituem hoje um parque industrial, onde operam algumas pequenas empresas, nenhuma delas ligada à indústria cerâmica, segundo me parece. O que terá acontecido ao espólio da velha Electro-Cerâmica? O que fizeram ao seu laboratório de ensaios de muito alta tensão, que foi um dos dois únicos existentes no país (o outro era da EDP, em Sacavém)? Desconheço.

A Electro-Cerâmica do Candal foi uma empresa única em Portugal. Ela especializou-se no fabrico de produtos isolantes de porcelana para aplicações elétricas, tendo desempenhado um papel fundamental na eletrificação do país. Ainda hoje, muitos dos isoladores cerâmicos usados nas linhas de transporte de energia elétrica, que atravessam Portugal de lés a lés, foram fabricados pela Electro-Cerâmica. Em Portugal, mais ninguém sabia fabricá-los com as características dielétricas extremas que só a Electro-Cerâmica sabia. O encerramento desta empresa foi, ele também, uma enorme perda para o país.

Mas a Electro-Cerâmica do Candal não fabricou só produtos industriais. Embora estes fossem a parte principal da sua produção, a Electro-Cerâmica fabricou também uma quantidade considerável de peças para uso caseiro, nomeadamente serviços de mesa e peças decorativas, na mais pura porcelana, à imagem e semelhança da fábrica da Vista Alegre. Muitas pessoas pensarão, aliás, que muita da produção da Electro-Cerâmica é da Vista Alegre, mas não é. Para confirmar, é preciso ver a marca da fábrica no lado de baixo dos pratos, chávenas e restantes produtos.

As fotografias que se seguem mostram algumas das peças de porcelana decorativas e de mesa, fabricadas em Vila Nova de Gaia pela Electro-Cerâmica do Candal. Todas as fotografias são reproduzidas do blog Detalhes Cerâmicos, editado por Maria da Conceição Costa e Susana Gomes, onde muitas mais podem ser vistas.

Serviço de café em estilo art déco (Foto: MdS Leilões)

Serviço de chá, dos inícios de laboração da Electro-Cerâmica (Foto: Esmeralda Bernardo)

Tête-à-tête, composto por um conjunto de 6 peças: 2 chávenas de chá, um bule, uma leiteira, um açucareiro e a travessa que serve de tabuleiro (Foto: Maria da Conceição Costa)

Homem de fraque. A cabeça é apoiada internamente por um mecanismo de arames e/ou molas, que permitia que a cabeça abanasse ao toque (Foto: MdS Leilões)

Chávena antiga. A minha avó tinha um serviço de chá e café idêntico (Foto: Maria da Conceição Costa)

Serviço de chá colorido (Foto: Maria da Conceição Costa)

Prato decorativo pintado e oferecido pelo pintor da Electro-Cerâmica José Ribeiro da Costa à sua sobrinha, por altura da sua Primeira Comunhão no fim da década de 50. Peça única (Foto: Maria da Conceição Costa)

Biscoiteira (Foto: Maria da Conceição Costa)

Serviço de chá e café. Serviço constituído por 12 chávenas, açucareiro, bule, cafeteira, leiteira e um prato de bolo que não se vê na imagem (Foto: Maria da Conceição Costa)

Galheteiro. Imagem retirada do site de uma leiloeira

Prato de doce decorado com motivos florais (Foto: Maria da Conceição Costa)

Moedas de porcelana. Depois da 1ª Grande Guerra, e face à falta de metal para a cunhagem de dinheiro, algumas entidades, entre as quais a Câmara Municipal de V. N. Gaia, procederam (neste caso, através da Electro-Cerâmica) à emissão destas moedas, denominadas "tesseras" (Foto: Maria da Conceição Costa)

Jarras decorativas (Foto: Maria da Conceição Costa)

"Sapato". Tinha como função alimentar alguém que estivesse doente, pois a ponta afunilada e de diâmetro maior que as comuns palhinhas permitia que o doente ingerisse algo mais substancial, como, por exemplo, uma sopa (Foto: Maria da Conceição Costa)

Jarra com asa (Foto: Maria da Conceição Costa)

Comentários: 4

Blogger Isabel escreveu...

Peças lindíssimas e muito estimadas!

Boa noite:)

09 dezembro, 2015 19:32  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Boa noite.

A minha falecida mãe tinha um penico (!) de porcelana da Electro-Cerâmica. Eu não gosto muito do estilo art déco, mas aquele penico era muito bonito, apesar de ser desse estilo. Era completamente branco e tinha um formato um pouco diferente do que é normal num vaso de noite. Mesmo nos nossos dias, aquele seria um penico moderno, se o próprio conceito de penico não tivesse caído em desuso.

10 dezembro, 2015 02:45  
Blogger anita escreveu...

O gosto pelas peças da Candal veio-me através da minha mãe que tinha várias.
Ao longo dos anos tenho adquirido outras. Como têm carimbos diferentes, onde poderei encontrar uma lista que associe os carimbos as datas?
obrigada
Ana Maria

11 fevereiro, 2016 13:30  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Prezada Anita,
Lamento, mas não sei onde poderá encontrar a informação que pretende. Apenas lhe posso fornecer o endereço de e-mail de uma das autoras do blog Detalhes Cerâmicos, que foi o blog de onde retirei as fotografias que ilustram este post. Se lhe escrever, pode ser que ela a possa ajudar. O endereço, que encontrei no seu perfil do Blogger, pois não conheço a pessoa em causa, é o seguinte: susanamdg@yahoo.com. Também pode deixar uma mensagem num post do blog citado.

12 fevereiro, 2016 03:28  

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