06 abril 2016

A mundividência dos Yanomami

Um índio Yanomami (Foto de autor desconhecido)


Os Yanomami são um povo índio da América do Sul, que vive repartido pelos estados de Roraima e Amazonas, no Brasil, e pelo sul da Venezuela, num total aproximado de 32 000 pessoas. O primeiro contacto dos Yanomami do Brasil com não-índios ocorreu apenas na primeira metade do séc. XX. Ainda hoje eles vivem, na sua maioria, relativamente isolados.

Os Yanomami são frequentemente descritos como sendo violentos, selvagens e até ferozes! Esta imagem que deles nos dão, e que ainda recentemente foi repetida pelo controverso antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon, tem a sua origem em dois grupos de pessoas: os garimpeiros, porque cobiçam as riquezas existentes no subsolo das terras ocupadas pelos Yanomami; e os "missionários" ditos evangélicos, das "igrejas" fundamentalistas ditas cristãs, porque os Yanomami recusaram a "salvação" das suas almas e mantiveram as suas crenças ancestrais.


Uma moça Yanomami (Foto de autor desconhecido)


A esta caracterização dos Yanomami como selvagens sanguinários, podemos contrapor a opinião de outros antropólogos, tais como o francês Bruce Albert e, antes dele, Claudia Andujar, que nasceu na Suíça e se naturalizou brasileira. O caso de Claudia Andujar é digno de particular realce, pois ela viveu vários anos numa aldeia Yanomami e, a partir daí, passou a dedicar de forma apaixonada o resto da sua vida (Claudia Andujar tem atualmente 85 anos de idade) a este povo indígena sul-americano, que ela adotou como se fosse o seu próprio povo.


Cláudia Andujar, à direita, tendo o seu rosto pintado por uma Yanomami (Foto de autor desconhecido)


As sociedades Yanomami são sociedades igualitárias, em que não existe um chefe (cacique) claramente definido. As decisões são tomadas coletivamente. Mas há um Yanomami em particular que se destaca claramente de entre os demais e este Yanomami chama-se Davi Kopenawa. Este homem pode não ser um líder temporal do seu povo, mas é considerado um líder espiritual, porque é um pajé (xamã) e é o mais respeitado de todos os pajés Yanomami. Davi Kopenawa é mesmo um dos indígenas brasileiros mais respeitados em todo o mundo, tendo já viajado várias vezes pelo estrangeiro e tendo mesmo falado nas Nações Unidas. No Brasil, Davi Kopenawa foi muito recentemente agraciado com a Ordem do Mérito Cultural, uma das maiores honras do país. Não obstante tudo isto, Davi Kopenawa tem recebido ameaças de morte por parte de pistoleiros às ordens de garimpeiros ilegais. A sua vida, portanto, corre sério perigo. Afinal, quem é selvagem?

No ano passado, foi lançado no Brasil o livro A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, numa edição da Companhia das Letras, de São Paulo. Neste livro, Davi Kopenawa conta ao antropólogo Bruce Albert a história da sua vida, relata as impressões que recolheu sobre a sociedade ocidental durante as suas viagens e revela a forma como os Yanomami, e em particular os seus xamãs, concebem o mundo que os rodeia. É um pouco desta mundividência que se pretende mostrar nos parágrafos que se seguem e que são transcritos do livro referido.


O pajé (xamã) Davi Kopenawa Yanomami, rodeado por crianças do seu povo (Foto de autor desconhecido)

"A gente das águas, grandes caçadores, que trouxe as plantas que cultivamos nas nossas roças. São os donos da floresta e dos cursos d'água. Parecem com humanos, têm mulheres e filhos, mas vivem no fundo dos rios, onde são multidões. São mesmo excelentes caçadores! Percorrem sem trégua seus caminhos na floresta, flechando tipos de caça. Porém, jamais comem suas próprias presas. Acham que seria uma coisa assustadora. Antes as oferecem a suas irmãs, que são muitas e muito bonitas. Essa gente das águas mora com os espíritos poraquê, sucuri e jacaré".

(Foto: Cláudia Andujar)

"Os xapiri são as imagens dos ancestrais animais yarori que se transformaram no primeiro tempo. Vieram à existência quando a floresta ainda era jovem. Os nossos antigos xamãs os faziam dançar desde sempre e, como eles, nós continuamos até hoje. Quando o sol se levanta no peito do céu, os xapiri dormem. Quando volta a descer, à tarde, para eles o alvorecer se anuncia e eles acordam. (...) Para vê-los de verdade é preciso beber o pó de yakoana durante muito tempo e que os nossos xamãs mais velhos abram os caminhos deles até nós".

(Foto: Cláudia Andujar)

"Os cantos dos xapiri se sucedem um após o outro, sem trégua. Eles vão colhê-los nas árvores de cantos que chamamos de amoa hi. Essas árvores de línguas sábias no primeiro tempo estão lá para que os xapiri possam ir lá buscar suas palavras. Param ali para coletar o coração de suas melodias, antes de fazerem sua dança de apresentação para os xamãs. Os espíritos dos sabiás yörixiama e dos japim ayokora — e também dos pássaros sitipari si e taritari axi — são os primeiros a acumular esses cantos em grandes cestos sakosi. Colhem-nos um a um, com objetos invisíveis, parecidos com os gravadores dos brancos. Mas são tantos que nunca conseguem esgotá-los".

(Foto: Cláudia Andujar)

"As árvores de cantos estão nos confins da floresta, onde a terra termina, onde estão fincados os pés do céu sustentado pelos espíritos tatu-canastra e os espíritos jabuti. É a partir de lá que elas distribuem sem trégua suas melodias a todos os xapiri que correm até elas. São árvores muito grandes, cobertas de penugem brilhante de uma brancura ofuscante. Seus troncos são cobertos de lábios que se movem sem parar, uns em cima dos outros. Dessas bocas inumeráveis saem sem parar cantos belíssimos, tão numerosos quanto as estrelas no peito do céu."

(Foto: Cláudia Andujar)

"Os xapiri nunca se deslocam na floresta como nós. Descem até nós por caminhos resplandecentes de luz, cobertos de penugem branca, tão fina quanto os fios de teias de aranha warea koxiki que flutuam no ar. Esses caminhos se ramificam por todos os lados, como os que saem de nossas casas. Sua rede cobre toda a nossa floresta. Eles se bifurcam, se cruzam e até se superpõem, para muito além dela, por toda a vasta terra que chamamos urihi a pree ou urihi a pata, e que os brancos chamam de mundo inteiro."

(Foto: Cláudia Andujar)

"Os xapiri são resplandecentes e transparentes, mas são muito sólidos. Os brancos diriam que são espelhos. Mas não são espelhos para se olhar, são espelhos que brilham. Esses espelhos cobrem a floresta desde o primeiro tempo e os espíritos se deslocam sobre eles sem parar, brincando, dançando ou guerreando. Foi nesses espelhos que vieram à existência e é deles que descem em nossa direção. É também neles que depositam nossa imagem quando nos fazem xamãs. Os espelhos dos xapiri são muitos ao longo de seus caminhos na floresta, pois pertencem a todos os espíritos das folhas, dos cipós, das árvores, bem como aos dos ancestrais animais."

(Foto: Cláudia Andujar)

"A floresta é assim povoada de espíritos animais. São as imagens de todos os seres que andam pelo solo, sobem pelos galhos ou possuem asas, as imagens de todas as antas, veados, onças, jaguatiricas, macacos-aranha e guaribas, cutias, tucanos, araras, cujubins e jacamins. Os animais que caçamos só se deslocam na floresta onde há espelhos e caminhos de seus ancestrais yarori que se tornaram espíritos xapiri. Quando olham para a floresta, os brancos nunca pensam nisso. Mesmo quando sobrevoam em seus aviões, não veem nada. Devem pensar que seu chão e suas montanhas estão ali à toa e que ela não passa de uma grande quantidade de árvores. Entretanto, os xamãs sabem muito bem que ela pertence aos xapiri e que é feita de inúmeros espelhos. Os espíritos que vivem nela são muito mais numerosos do que os humanos e todos os demais habitantes da floresta os conhecem!"

Trechos do livro A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, reproduzidos da comunidade A Queda do Céu no Facebook.



Davi Kopenawa Yanomami fala sobre o livro A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, editado pela Companhia das Letras, São Paulo, SP, Brasil

Comentários: 2

Blogger Chama a Mamãe! escreveu...

Muito grata. Sei um pouco, mas sempre aprendo muito lendo-te.
Abraço

11 abril, 2016 17:50  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara "Mamãe", obrigado pelo seu comentário. O garimpo ilegal está a causar o envenenamento por mercúrio de um número muito considerável de índios Yanomami. O mercúrio é usado pelos garimpeiros para separar o ouro, dos materiais rochosos que o contêm, e é lançado nos rios contaminando tudo. Queira ler esta notícia que data do dia 23 de março passado: O povo Yanomami está contaminado por mercúrio do garimpo.

15 abril, 2016 00:25  

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