16 janeiro 2022

Uma Pietà em Óbidos


Igreja de Santa Maria, Óbidos (Foto: milosk50 / shutterstock)

Óbidos dispensa apresentações. Os elogios que são dirigidos a esta vila de recorte medieval são constantes e são plenamente merecidos. Óbidos exerce um fascínio irresistível sobre todos os que a visitam.

Se me perguntarem o que merece ser visto em Óbidos, responderei sem hesitar: «Tudo. As ruas, as casas, a muralha, as igrejas, a Porta da Vila, o castelo, o pelourinho, as flores, enfim, tudo». Se, mesmo assim, insistirem comigo para que individualize em Óbidos um ponto de interesse que sobreleve todos os demais, então responderei: «O túmulo de D. João de Noronha, o Moço, que está na Igreja Matriz, dedicada a Santa Maria». Para mim, pelo menos, é a joia mais preciosa de todas quantas existem em Óbidos, e são muitas.

Quem segue pela Rua Direita (que é torta) e chega à Praça de Santa Maria, onde também está o pelourinho da vila, sente o seu olhar atraído pelo lindo portal renascentista da igreja. Muitas pessoas passam, fotografam, mas não descem para entrar. Não sabem o que perdem.


Túmulo de D. João de Noronha, o Moço, na Igreja de Santa Maria, Óbidos (Foto: Maragato)

O interior da Igreja de Santa Maria é lindíssimo, com as suas paredes revestidas de preciosos azulejos barrocos, o retábulo do altar-mor da autoria do pintor João da Costa, o órgão de tubos, o retábulo de Santa Catarina pintado por Josefa d'Óbidos e, sobretudo, o túmulo de D. João de Noronha, o Moço, em estilo renascentista e da autoria de um grande escultor francês radicado em Portugal, chamado Nicolau de Chanterene, em francês Nicolas de Chantereine (1470–1551).

Em vez de representar um jacente, que é uma reprodução da figura do morto em posição deitada, o túmulo de D. João de Noronha, o Moço, representa uma dramática Pietà, ou seja, a figura de Nossa Senhora com Jesus Cristo morto nos braços.

Este túmulo está inserido num amplo portal com arco de volta redonda, que também é renascentista, mas que é da autoria de outro grande escultor francês, chamado João de Ruão, em francês Jean de Rouen (1500–1580), que viveu em Coimbra.


Pormenor do túmulo de D. João de Noronha, o Moço, na Igreja de Santa Maria, Óbidos. Figura representando Maria Madalena (Foto de autor desconhecido)

Comentários: 2

Blogger Manu escreveu...

Conheço muito bem, vivo perto.
A igreja de Santa Maria tem uma arquitetura notável.
Grata pela partilha

18 janeiro, 2022 13:47  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara Manu, eu é que agradeço o seu comentário.

A Igreja de Santa Maria é, com toda a certeza, a igreja mais antiga de Óbidos. Diz-se que terá sido construída pouco tempo depois de D. Afonso Henriques ter conquistado a vila aos mouros. Não custa acreditar. O que custa acreditar é a afirmação feita por algumas pessoas, segundo a qual a igreja já existiria no tempo dos mouros, não como templo cristão, mas como mesquita. Ora as mesquitas que os mouros construíram na Península Ibérica adotaram o modelo arquitetónico da grande mesquita de Córdova, que era a capital do califado. Em Portugal temos o exemplo da Igreja Matriz de Mértola, que antes de ser igreja foi mesquita e que segue o modelo referido. Se compararmos a Igreja de Santa Maria de Óbidos com a de Mértola, logo notaremos uma diferença gritante. Qualquer semelhança entre elas é pura coincidência. A Igreja de Santa Maria tem nitidamente as características de um templo cristão medieval. Quando muito, poderão ter sido aproveitados os caboucos de alguma mesquita que teria existido naquele lugar antes dela e mais nada.

19 janeiro, 2022 02:05  

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