09 outubro 2018

A Fiandeira

Fazes bem mal, fiandeira,
Em fiar de noite e dia
Essa linhagem grosseira!
Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

Eu fui também fiandeiro:
Fiava ternos cuidados
Em vez de linho trigueiro…
Fez-se-me a roca em bocados
E já não sou fiandeiro!

Passava os dias fiando!
E só tristezas e dores
Ia no fuso enrolando…
Ai, antes no linho brando
Do que fiar em amores!

Chega-se ao cabo do dia
E a roca, por espiar,
Sempre da mesma maneira!
E vem depois a canseira,
E acaba a gente a chorar
Sobre a mortalha que fia!

Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

João Saraiva (Porto, 1866 – Lisboa, 1948)


A Fiandeira, canção de David de Souza (1880–1918) sobre poema de João Saraiva (1866–1948), por Ana Leonor Pereira (soprano) e António Ferreira (piano)

Comentários: 4

Blogger Rogerio G. V. Pereira escreveu...

Este mundo anda ao contrário
Para o que vai mal, o tempo todo
Para o que é belo, não há tempo

Belo, este momento
caro fiandeiro

10 outubro, 2018 00:06  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Obrigado pelos seus versos, caro Rogério. É bem verdade o que diz.

Este poeta João Saraiva, que está agora totalmente esquecido, foi meu bisavô! Não o conheci, pois morreu ainda antes de eu ter nascido. É considerado um poeta lírico "neo-romântico" (seja lá o que isto queira dizer) e também satírico. Tem alguns poemas líricos que considero belíssimos (este é um deles), mas tem outros que não foram tão bem conseguidos, por demasiado artificiais.

Quanto à poesia satírica, ela incidiu sobretudo sobre a política, que no fim da Monarquia e durante a 1.ª República até fervia. Esta poesia satírica é, por isso, muito datada, pois não conhecemos muitos dos políticos que ele satirizou. Mesmo assim, permito-me transcrever um trecho de António Alçada Baptista, que escreveu o seguinte a propósito de João Saraiva (transcrevo do site Correio do Porto):

«(...) já agora vou deixar aqui dois versos que sei de cor. Um é dedicado a um deputado de Alcafozes, uma aldeia lá da Beira Baixa, que era muito estúpido. Ele fez-lhe esta quadra magnífica:

Quando fala o de Alcafozes,
Os burros ficam pasmados,
Ouvindo, estando calados,
O eco das próprias vozes.

A outra é dedicada ao deputado Vasco Borges, o único deputado do Parlamento da República que, depois, foi deputado da União Nacional. Esta mudança tão radical foi, na altura, falada e comentada pelo País. Inclusivamente saiu um anúncio no jornal que dizia assim: «CASACAS, VIRAM-SE» e depois vinha o telefone dele. O verso é assim:

Na sala do Parlamento,
O da União Nacional,
Alguém lê em gesto lento,
Descompassado e banal,
Os eleitos de São Bento.
Eis que uma figura vem,
Ouve-se um nome: o de Vasco,
Os ecos repetem «asco»
E repetem muito bem.”

Por António Alçada Baptista publicado in A pesca à linha – Algumas memórias, Editorial Presença, janeiro de 1998, página 33.»

10 outubro, 2018 02:15  
Blogger Maria João Brito de Sousa escreveu...

Não conhecia a obra do seu talentoso bisavô, mas posso garantir-lhe que a alegoria da Fiandeira está longe de ter morrido. Eu própria a utilizo frequentemente nos meus sonetos e, em tempos que já lá vão, também numa das minhas telas a utilizei.

11 outubro, 2018 09:23  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Cara Maria João Brito de Sousa, em questões de talento, atrevo-me a responder-lhe que o seu em nada ficará atrás do do meu bisavô. Quem não tem talento sou eu, que sou a pessoa mais prosaica da Terra. Não herdei o talento do meu bisavô e bem gostaria de o ter herdado. A minha falecida mãe, que era neta dele, tinha-lhe uma grande admiração. Dizia que ele era um avô muito carinhoso.

11 outubro, 2018 18:21  

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