09 novembro 2018

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o Matin de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da Capital
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— P'ra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar Viva a Alemanha
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade…

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro (1890–1916)


Coin de la rue Muller, tela de Maurice Utrillo (1883–1955)

Comentários: 2

Blogger Rogerio G. V. Pereira escreveu...

Também dele

O Recreio

Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar ---
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

--- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

--- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

--- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...
Mário de Sá Carneiro

09 novembro, 2018 11:40  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Faz-me impressão a ligeireza com que algumas pessoas, como Mário Sá-Carneiro, enfrentam a sua própria morte, que no caso dele foi um suicídio terrivelmente prematuro. O que será que leva alguém a olhar a sua morte de forma tão desprendida, irónica e até divertida? Não deve ser fácil desistir de viver na flor da idade, acho eu. Rir da sua própria morte, então, deve ser ainda mais difícil. Ou será que não é? Para ele, pelos vistos, não foi. Nunca conseguirei compreender os homens.

Agora lembrei-me de um outro poeta que se riu da sua própria morte e que foi Sebastião da Gama. Morto aos vinte e tal anos, vítima de tuberculose, Sebastião da Gama escreveu o seguinte poema, que me arrepia:

POEMA DA MINHA ESPERANÇA

Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...

Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)

Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)

09 novembro, 2018 17:37  

Enviar um comentário