15 setembro 2019

A igreja matriz da Golegã


Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Golegã, Portugal (Foto: João Correia)

A vila da Golegã, embora pequena, tem muito que ver. Situada em plena planície aluvial do Ribatejo (a chamada lezíria), a Golegã encontra-se rodeada de campos férteis, que se estendem por quilómetros e quilómetros, de um lado e do outro do rio Tejo, para montante e para jusante. Há também nas proximidades da Golegã uma zona alagadiça que tem uma fauna e uma flora muito ricas, que é o Paul do Boquilobo, o qual, aliás, é atravessado pelos comboios da Linha do Norte a uma velocidade tal que os passageiros não veem nada… Junto ao Paul do Boquilobo situa-se Azinhaga, a modesta aldeia de trabalhadores rurais onde nasceu José Saramago, um dos maiores vultos das letras portuguesas.

Seria um pecado de lesa-Golegã e de lesa-Ribatejo não referir a Feira Nacional do Cavalo, que todos os anos se realiza na Golegã por alturas do São Martinho. Esta feira, que, mais do que uma simples feira, é uma autêntica festa do cavalo, é um acontecimento que não se deve perder. O cavalo é um dos mais bonitos, elegantes e nobres animais que existem e à Golegã são levados os mais belos exemplares. Mesmo alguém como eu, que vive num apartamento na cidade e, portanto, não tem condições para levar um cavalo para casa, ficará certamente encantado com tanto garbo e tanta beleza, que na Golegã se exibem.

Em termos de património edificado, tem a Golegã, nomeadamente, a Casa-Estúdio Carlos Relvas, a Quinta da Cardiga (a poucos quilómetros da vila, já perto do Entroncamento) e, sobretudo, a mais bela igreja rural em estilo manuelino que em Portugal existe: a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a igreja matriz da vila.


Arco triunfal e capela-mor da Igreja da Golegã (Foto: Luís Paiva Boléo)

A igreja matriz da Golegã, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, é um templo construído no séc. XVI, provavelmente por iniciativa do rei D. Manuel I. Existiu em Almeirim um palácio real, o Paço de Almeirim, onde os reis de Portugal costumavam refugiar-se sempre que em Lisboa ocorria uma epidemia de peste, ou simplemente para se divertirem com caçadas e passeios a cavalo pelas redondezas. Assim, a Golegã foi também frequentada pelos soberanos e D. Manuel I terá sido um deles.

Se alguém achar que há alguma parecença entre a igreja da Golegã e o mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, não se enganou. O autor da igreja matriz da Golegã foi Diogo de Boytac, um arquiteto de origem obscura (provavelmente francesa), que é exatamente o mesmo arquiteto que concebeu e iniciou a construção do mosteiro dos Jerónimos. O extraordinário portal manuelino da igreja da Golegã tem a marca do seu génio. Quem mais seria capaz de conceber um portal tão harmonioso e tão equilibrado como este? Nada está a mais, ou a menos, ou fora do sítio. É um deslumbramento.


Portal da Igreja Matriz da Golegã (Foto: Waugsberg)

Comentários: 2

Blogger Ricardo Santos escreveu...

Essa igreja matriz parece-me ser muito bonita e muito bem cuidada. O que nem sempre acontece !

16 setembro, 2019 22:03  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Prezado Ricardo Santos,

A igreja foi restaurada há poucos anos. É por isso que se apresenta de cara lavada.

Eu travei conhecimento com esta igreja (ainda que só por fora) nos anos 70, quando me encontrava em Elvas (durante três meses) no cumprimento do serviço militar. Eu vinha passar os fins de semana ao Porto e pelo caminho passava pela Golegã. Passava mesmo pela frente da igreja, contornando-a, antes de continuar viagem por Riachos, Torres Novas, Tomar, etc. etc. A viagem entre Elvas e o Porto nesse tempo era demorada (7 a 8 horas), pois era feita só por estradas nacionais, e de vez em quando era preciso parar, para fazer chichi, tomar um café e comer qualquer coisa. A Golegã era um desses sítios, excelente para se parar e desentorpecer as pernas.

Desde então voltei à Golegã mais vezes. Pude finalmente conhecer a igreja por dentro e também fiquei a conhecer a Feira do Cavalo e dei uns passeios a pé pelo Paul do Boquilobo, que aliás não é extenso. Fiquei fã.

Há na Golegã um edifício muito interessante, a que faço referência só de passagem no meu post, mas que também merece um olhar atento. Refiro-me à Casa-Estúdio Carlos Relvas. É um chalet dos finais do séc. XIX, muito bonito e muito interessante como exemplo emblemático do que é a arquitetura do período romântico. Carlos Relvas foi um rico proprietário rural apaixonado pela fotografia. Como dinheiro era coisa que não lhe faltava, mandou construir um estúdio fotográfico com as melhores condições possíveis existentes no seu tempo para essa função. Dizem que é um estúdio único no mundo. Se é único ou não, não sei. O que sei é que esteve durante muitos anos em completa ruína, até que foi comprado pela Câmara Municipal da Golegã, que o restaurou e fez dele um museu. Não sei se neste momento o museu está aberto ao público ou não, mas pelo menos vale a pena ir até lá dar uma espreitadela. Se estiver aberto, tanto melhor. Vale a pena visitar.

17 setembro, 2019 02:41  

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