Vieira da Silva
A vida da pintora Maria Helena Vieira da Silva daria um filme, ou quase. Nascida em 1908 na zona do Chiado, em Lisboa, no seio de uma família da classe alta, Maria Helena Vieira da Silva passou os seus três primeiros anos de vida na Suíça, onde seu pai foi colocado como embaixador, até ao momento em que este faleceu. Maria Helena passou então a viver num palacete da Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, com a sua mãe e o seu avô materno, José Joaquim da Silva Graça, fundador e diretor do jornal O Século e da revista Ilustração Portuguesa.
Em casa deste avô, Maria Helena recebeu lições dos pintores Armando de Lucena e Emília dos Santos Braga, assim como do escultor Rogério de Andrade. Posteriormente, ingressou na Academia de Belas-Artes de Lisboa e frequentou as aulas de Anatomia na Escola Médica de Lisboa, até que, aos 19 anos de idade, foi para Paris na companhia da sua mãe.
Em Paris, Maria Helena Vieira da Silva estudou desenho e escultura, frequentou galerias de arte, museus, teatros, concertos, etc. Estabeleceu contactos com algumas das mais destacadas figuras da arte parisiense do seu tempo, como Pierre Bonnard, que influenciou o seu estilo, assim como com outros artistas portugueses que estavam radicados na capital francesa, nomeadamente Eduardo Viana e Milly Possoz. A partir de um dado momento, Maria Helena pôs de parte a escultura e passou a dedicar‑se unicamente à pintura.
Em 1930, Maria Helena Vieira da Silva casou-se com o pintor húngaro Árpád Szenes (este nome pronuncia-se aproximadamente Áárpaad Sénech) e, consequentemente, perdeu o direito à nacionalidade portuguesa, em face da legislação da época, por ter casado com um estrangeiro fora de Portugal. Vieira da Silva tornou-se apátrida.
Por sua vez, Árpád Szenes era de ascendência judaica, apesar de se ter convertido à fé católica, o que o tornava um potencial alvo de perseguição por parte dos nazis, que nos anos 30 se encontravam em galopante crescimento por toda a Europa, incluindo a sua Hungria natal. Embora não perseguisse os judeus, o regime húngaro era de tipo autoritário, ao mesmo tempo que o partido nazi local, cuja agressividade em nada ficava a dever à do seu congénere alemão, aumentava cada vez mais a sua implantação no país. Árpád Szenes resolveu então cortar todos os seu laços com a Hungria e tornou-se, também ele, apátrida.
Ao longo da década de 30, Vieira da Silva e Árpád Szenes viveram quase sempre em Paris, onde participaram ativamente num movimento de artistas e intelectuais antifascistas, chamado Amis du Monde. Com o início da 2.ª Guerra Mundial, o casal mudou-se para Portugal, onde solicitou a cidadania portuguesa, que foi recusada. Maria Helena e Árpád partiram então para o Brasil, onde a Sociedade das Nações lhes atribuiu passaporte diplomático, como reconhecimento pela grande importância de ambos, o que lhes permitiu disfrutar de uma liberdade de movimentos que até então não tinham tido. Participaram ativamente na vida artística do Rio de Janeiro, realizaram exposições em vários países latino‑americanos, etc.
Após o fim da 2.ª Guerra, o casal regressou a Paris, onde Maria Helena voltou a solicitar a cidadania portuguesa, o que lhe foi recusado de novo. No entanto, o que o regime do Estado Novo recusou, a França concedeu. Em 1952, Maria Helena Vieira da Silva tornou-se cidadã francesa. Após ter recebido diversas e importantes condecorações concedidas pela França ao longo dos anos, Vieira da Silva tornou-se, em 1979, Dama da Ordem Nacional da Legião de Honra de França e membro do Comité de Honra do Movimento contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos.
O mérito de Maria Helena Vieira da Silva também acabou por ser reconhecido pelo Portugal democrático saído da Revolução dos Cravos, que lhe atribuiu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Em 1992, faleceu em Paris com 83 anos de idade.












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