28 fevereiro 2007

As pedras parideiras

A Frecha da Mizarela vista do local das pedras parideiras (Foto: Filomena)

«Pedras parideiras» é a designação popular para um fenómeno geológico raríssimo, que em Portugal só ocorre nas proximidades da Frecha da Mizarela, na Serra da Freita, mais concretamente junto de uma pequena aldeia chamada Castanheira, que pertence à freguesia de Albergaria da Serra, concelho de Arouca, distrito de Aveiro. No resto da Europa, este fenómeno só acontece num ponto da Rússia.

No referido local do alto da Serra da Freita existe um afloramento granítico, que tem disseminados pelo seu interior uns nódulos rochosos revestidos de biotite (mica preta) e com uma forma biconvexa.

Por acção da erosão, os nódulos que ficam à superfície da rocha granítica acabam por se soltar e, segundo se diz, chegam mesmo a saltar da rocha. A explicação para este fenómeno é simples. A biotite que reveste os nódulos, como é uma mica, tem muito pouca resistência mecânica, fracturando-se em folhas. A água da chuva e do orvalho infiltra-se nas folhas da mica e no Inverno congela. Ao congelar, a água aumenta de volume. Com o aumento de volume, o gelo faz de cunha e força os nódulos a soltarem-se da rocha granítica. Diz então o povo da região que os nódulos são «paridos» pela «pedra parideira».

Acredita o povo da serra que existe um processo contínuo de formação de nódulos no interior das pedras parideiras e que os nódulos vão migrando, pouco a pouco, em direcção à sua superfície, acabando por ser «paridos». Julga, portanto, o povo que as pedras parideiras são uma espécie de "organismo" mineral, que vai gerando contínua e incessantemente nódulos no seu interior e que os vai expelindo também incessantemente!

As pedras parideiras têm sido alvo da curiosidade das pessoas que visitam a serra, muitas das quais não têm quaisquer escrúpulos em apanhar e levar para casa os nódulos «paridos». Chegou-se ao ponto de ser relativamente difícil encontrar nódulos, sobretudo no local mais próximo da aldeia de Castanheira. Este vandalismo levou a Câmara Municipal de Arouca a colocar um aviso no local, pedindo para que se não levassem pedras para casa. Parece que o aviso teve o efeito precisamente contrário; era como se dissesse: «Notem que é possível apanhar as pedras e levá-las para casa»! Por fim, a Câmara resolveu vedar uma parte da zona das pedras parideiras com uma rede. Vamos lá ver quanto tempo é que a rede vai durar, se é que já a não destruiram também, pois já não vou ao local há algum tempo. Quando será que os portugueses terão um mínimo de civismo?

Uma explicação mais aprofundada sobre as pedras parideiras pode ser lida em A''Vida'' das Rochas, as Pedras Parideiras e em Percurso na Geologia de Arouca. Sobre as crenças populares relativas às pedras parideiras, consulte-se o blog Arouca.


(Fotos: António Moura)

Comentários: 8

Blogger Igor Lobão escreveu...

Que dizer destes fenómenos... um milagre do tempo?

28 fevereiro, 2007 12:35  
Blogger Denudado escreveu...

Pode-se dizer que é um milagre do tempo, sim, prezado Igor Lobão. É um milagre de um tempo que é medido em muitos e muitos milhões de anos. E é também um milagre das pressões, das temperaturas, das reacções químicas, dos movimentos tectónicos, enfim, de tudo o que molda a crosta deste nosso planeta chamado Terra.

28 fevereiro, 2007 22:13  
Anonymous arouca.biz escreveu...

Podem encontrar aqui mais informações sobre as Pedras Parideiras e o Geoparque Arouca

31 março, 2009 18:36  
Anonymous Isabel escreveu...

Um pouco atrasada no comentário... O certo é que somente hoje fui conhecer esta maravilha. Já tinha ouvido falar mas nunca tinho visto.
Fiquei mais rica culturalmente. Só acho que o nosso País, que tem tanta coisa interessante para se ver, trate tão mal os seus tesouros. O local está muito mal assinalado, andámos perdidos pelaserra, para trás e para diante, tivemos de perguntar a várias pessoas e, por fim, encontrámos o sítio por onde já tínhamos passado antes sem ver, porque fica num estreito caminho à esquerda de uma outra estreita rua, sem qualquer placa à entrada. Só subindo um pouco a pé se descobre a placa explicativa das pedras parideiras.
Como este existem muitos outros locais, quase perdidos e abandonados. A rede que protege a área está lá, sim, mas já levantada num lado. Tem razão, amigo, quando é que os portugueses ganham mais civismo? E quando é que o País resolve cuidar melhor do seu património?
22-04-2009

22 abril, 2009 22:39  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Caro/a arouca.biz,
Muito obrigado pelos links. São realmente muito úteis.

Prezada Isabel,
Fico contente por saber que as informações aqui dadas tiveram alguma utilidade. Esperemos que as futuras gerações de portugueses tenham mais civismo, porque o desta geração deixa muito a desejar.

28 setembro, 2010 11:44  
Anonymous Anónimo escreveu...

Já ouvi falar das pedras parideiras, são um fenómeno com perto de 280 milhões de anos, quase único no Mundo.
É natural que estando à vista, à mão de semear, que todos os curiosos lá passem para levar uma recordação única.
É triste mas é assim que são os Portugueses, adianto que se não fosse assim não via tantas fotos tiradas às pedras fora do seu habitat natural.
No passado até muros faziam com elas...agora não se lhes pode tocar...
Na minha opinião era vedar com muros de betão e câmaras de segurança, porque não vai durar muito o que lá está, infelizmente.

27 julho, 2011 10:14  
Blogger Rui Macedo escreveu...

Eu estive lá este fim de semana e tenho 2 belos exemplares que se encontravam mais á frente da freguesia, num monte de lixo que lá foi depositado, se a câmara faz tanta questão de preservar, como é que é possível encontrar um monte de pedaços dessa rocha, que se vê claramente que foram partidos com ajuda de meios mecanicos, fica mal para a câmara visto que aquele "lixo" encontra-se a escassos metros da freguesia de castanheira.

26 janeiro, 2015 14:51  
Blogger Fernando Ribeiro escreveu...

Caro Rui Macedo, se é a própria Câmara Municipal de Arouca que não sabe preservar o valioso património geológico do seu concelho, que autoridade terá ela para exigir isso dos outros?

27 janeiro, 2015 18:10  

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