03 fevereiro 2007

Poema para Galileo


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar -- que disparate, Galileo!
-- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação --
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas -- parece-me que estou a vê-las --,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisavam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

António Gedeão

Comentários: 4

Blogger inominável escreveu...

gosto do Gedeão, este casamenteiro de ciência e poesia...

04 fevereiro, 2007 22:29  
Anonymous paulocosta escreveu...

Se vivesses no tempo de Galileo qual seria a tua atitude? ...pensa bem!

05 fevereiro, 2007 13:57  
Anonymous mansire escreveu...

tres bien

06 fevereiro, 2007 16:45  
Blogger Denudado escreveu...

Inominável, o António Gedeão é a prova insofismável de que as Letras e as Ciências não são antagónicas; antes são complementares. Não só podem conviver pacificamente, como podem e devem enriquecer-se mutuamente. Já o Fernando Pessoa tinha escrito que «o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo». E é mesmo.

Paulo Costa, não entendo porque é que queres que eu pense bem na minha atitude. Se eu vivesse no tempo de Galileo, eu teria certamente a mentalidade predominante na época. Acharia, portanto, que o Galileo defendia teorias heréticas. Mas... Como sou do Porto, não concordaria com a sua eventual condenação à fogueira, se esse fosse o veredicto da Inquisição. A explicação é simples. O primeiro e único auto-de-fé que houve aqui no Porto provocou uma onda de indignação tão grande na população da cidade, que nunca mais o "Santo" Oficio se atreveu a queimar "hereges" no Porto. Este é mais um motivo para me sentir orgulhoso de ser tripeiro.

Mansire, soyez le bienvenu.

06 fevereiro, 2007 17:55  

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