30 julho 2010

Guilhermina Suggia


(Foto: Alvin Langdon Coburn)


Guilhermina Suggia (Porto, 27 de junho de 1885 - Porto, 30 de julho de 1950), de seu nome completo Guilhermina Augusta Xavier de Medin Suggia, foi uma grande violoncelista portuguesa, com ascendência italiana e espanhola por parte do pai. Dotada de um temperamento impetuoso, Guilhermina Suggia foi um dos maiores intérpretes do violoncelo no séc. XX, instrumento que tocava de maneira apaixonada e com o qual arrebatava as plateias que a ouviam. É de destacar que o seu talento e força de vontade foram tais, que se tornou na primeira mulher na história da música a profissionalizar-se como violoncelista.




Adagio para violoncelo e orquestra com harpa, sobre duas melodias judaicas (Kol Nidrei), op. 47, de Max Bruch (1838-1920), por Guilhermina Suggia


VIOLONCELO

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha


SUGGIA, FERRO E SALAZAR

Finda a guerra de Espanha, Franco substituiu, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, Serrano Suner, que era seu cunhado, pelo general Jordana. Este era amigo dos portugueses. Por isso Salazar determinou que, na visita que Jordana vinha a fazer a Portugal, fosse aqui recebido o melhor possível. Entre as festas que se preparavam, além dos banquetes, recepções, tourada à antiga portuguesa, etc., organizou António Ferro em S. Carlos um breve recital de violoncelo com Guilhermina Suggia...

Um dia, o Ferro apareceu a Salazar muito embaraçado:

- Temos um problema com a Guilhermina Suggia. Ela pede um cachet de sessenta contos pela sua participação. Que é quanto lhe pagam em Londres e não quer baixar o preço dos seus recitais...

Salazar ponderou:

- Realmente, sessenta contos por tocar durante meia hora, é muito...

E de repente, fitando o Secretário da Informação:

- Olhe lá, o senhor sabe tocar rabeca?

Ferro, surpreendido, gaguejou:

- Não, não sei.

- Eu também não. Não há outro remédio: temos de pagar os sessenta contos à senhora.

Os sessenta contos foram depois dados pela artista a casas de caridade. Simplesmente, não descia o seu cachet.

(do blogue Guilhermina Suggia)

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