21 janeiro 2026

«Rosas em Janeiro?!»


Santa Isabel da Hungria, 1673–74, óleo sobre tela de Marcos da Cruz (c.1610–1683). Capela da Ordem Terceira de S. Francisco, Lisboa
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Esta quadro representa o chamado Milagre das Rosas, atribuído a Santa Isabel da Hungria. Não, não me enganei. O Milagre das Rosas não é atribuído apenas à Rainha Santa Isabel, que foi princesa, por ter sido filha do rei Pedro III de Aragão, e rainha de Portugal, por ter casado com o rei D. Dinis. Este milagre também é atribuído a Santa Isabel da Hungria, que foi filha do rei André II da Hungria e se casou com o príncipe Luís IV da Turíngia, na atual Alemanha. Além disso, Santa Isabel da Hungria foi tia-avó de Santa Isabel de Portugal. O facto de terem o mesmo nome e de serem aparentadas terá estado na origem da atribuição a ambas de um mesmo milagre?

O autor deste quadro foi Marcos da Cruz, pintor português nascido por volta de 1610 na cidade de Lisboa, segundo se supõe. Marcos da Cruz aprendeu a pintar com o jesuíta Simão Rodrigues, com o pintor André Reinoso e, provavelmente, com o pintor Gabriel da Silva Paz. Marcos da Cruz foi autor de numerosos quadros para a Casa de Bragança, para diversas personalidades da alta aristocracia portuguesa e para várias instituições religiosas influentes no seu tempo. Morreu em Lisboa em 1683.

19 janeiro 2026

Ária da Rainha da Noite, de Mozart


Ária Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen ("A vingança do inferno ferve no meu coração"), mais conhecida como Ária da Rainha da Noite, da ópera A Flauta Mágica, de Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791) sobre um libreto de Emanuel Schikaneder (1751–1812), pela soprano alemã Diana Damrau

17 janeiro 2026

Soldado Conhecido

Foi o treino e o trem
Foi o porto e o barco
O desfile, o abraço
O tambor a rufar

Foi o pranto no cais
O pai nosso que fica
Sem jeito pra vida
Foi o eco do mar

Foi a marcha, o calor
Foi o peito inchado
Do homem fardado
Foi o seu funeral

Foi a arma na mão
A besta que nos berra
A força da guerra
O avião

A água que seca no nosso cantil
O lábio que greta, a febre a subir
O sangue que ferve cá dentro de nós
O corpo que treme debaixo do sol
O medo da morte, a noite a gritar
Foi aquilo que a gente não pôde falar

Foi o estado-maior
Foi a messe e o rancho
O mando, o comando
O quartel-general

Os abutres e nós
Foi aquilo que fez
O negócio da guerra
E obrigou a matar

O estilhaço, o napalm
A picada no osso
O Ambriz, o Tomboco
Foi São Salvador

Foi a carta que dói
Da mulher que nos foge
E o Puto lá longe
Tão longe de nós

A malta, a maca, o negro que cai
O cabaço da preta, o mulato sem pai
O soldado castrado no corpo e na voz
A mina que rebenta por baixo de nós
Foi o preço, é o braço artificial
É aquilo que a gente não pode calar

Foi a guerra colonial!

Paco Bandeira


Soldado Conhecido, uma canção de Paco Bandeira (letra e música) cantada pelo próprio Paco Bandeira

15 janeiro 2026

Mesa dos Pecados Capitais, de Hieronymus Bosch (?)


Mesa dos Pecados Capitais, óleo sobre madeira de choupo, muito provavelmente do pintor neerlandês Hieronymus Bosch (c.14501516). Museu do Prado, Madrid, Espanha
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A pintura a óleo acima reproduzida deve ter sido feita para servir de tampo a uma mesa. Ela é atribuída ao pintor neerlandês Hieronymus Bosch ou, no mínimo, a um seu discípulo. Os responsáveis pelo museu onde esta obra se encontra, que é o Museu do Prado, em Madrid, apontam para a assinatura do próprio Hieronymus Bosch centrada ao fundo do quadro (é pouco visível, mas está lá) e que parece ser autêntica. Mesmo assim, continua a haver quem tenha dúvidas sobre o verdadeiro autor da obra. Quem quer que este tenha sido, uma coisa parece certa: a assinatura é de Hieronymus Bosch.

A parte principal deste quadro consiste num círculo central, que representa um olho humano. No interior da pupila vê-se Cristo ressuscitado erguendo-se da sua sepultura e, por baixo, pode ler-se uma inscrição em latim dizendo "Cuidado, cuidado, o Senhor vê".

Ao longo de todo o perímetro do círculo estão representados, um a um e divididos em setores, os Sete Pecados Mortais. O pecado de cima é o da Gula, seguindo‑se-lhe, no sentido dos ponteiros do relógio, os pecados da Preguiça, Luxúria, Soberba, Ira, Inveja e Avareza.

Nos quatro cantos desta obra estão quatro círculos contendo os Novíssimos, isto é, as fases últimas da vida de um ser humano. No canto superior esquerdo está a Morte, no canto inferior direito está o Juízo Final, no canto inferior esquerdo está o Inferno e no canto superior direito o Paraíso.

Acima e abaixo do círculo central desta pintura estão duas citações em latim, extraídas do capítulo 32 do livro do Deuteronómio, do Velho Testamento. Em cima, está uma citação do versículo 28 deste capítulo, que diz "É uma nação sem juízo e sem discernimento". Em baixo, está uma citação do versículo 29, que diz "Quem dera fossem sábios e entendessem; e compreendessem qual será o seu fim!"

Mostram-se a seguir as reproduções de cada um dos Sete Pecados Mortais.


Gula
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Preguiça
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Luxúria
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Soberba
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Ira
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Inveja
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Avareza
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Seguem-se as reproduções dos Quatro Novíssimos.


Morte
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Juízo Final
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Inferno
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Paraíso
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11 janeiro 2026

A Night In Tunisia


A Night In Tunisia, um tema de jazz que se tornou um clássico do género bebop, escrito por Dizzy Gillespie e interpretado por Bud Powell no piano, Curley Russel no contrabaixo e Max Roach na bateria. A voz que se ouve a cantarolar em surdina é do pianista Bud Powell. Gravado em 1951

09 janeiro 2026

Onde cairá o orvalho…

Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono
e história
e só as coisas torpes e destruídas
cobriram os campos e tornaram cinza o verde?

Oiço exércitos do norte do sul e do leste
fantasmas lançando o manto das trevas
os rostos exilando-se de si mesmos.
Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.
— Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,
o choro de uma criança?
Oiço os exércitos, oiço
os exércitos.

Quero reconstruir tudo — alguém disse
e ouvimos cair as árvores.
E vimos a terra coberta de acácias
e as acácias eram sangue.

Estamos à beira de um caminho
— que caminho é este?
Inventam de novo o voo dos
pássaros.
Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.

Maria Alexandre Dáskalos (1957–2021), poetisa angolana


(Foto de autor desconhecido)

07 janeiro 2026

Música de um autor pouco conhecido


Concerto per Violoncello Obligato, do compositor português Policarpo José António da Silva (1745–1803), pelo violoncelista italiano Edoardo Sbaffi e o Amаzonаs Baroque Ensemble, de Manaus, Brasil

05 janeiro 2026

Um caldeirão chinês da Idade do Bronze


Um caldeirão ritual chinês de bronze chamado ding, destinado a conter oferendas de comida aos antepassados. Feito em finais da época da dinastia Shang, o que significa que data aproximadamente do séc. XI A.C. Museu de Xangai, China
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03 janeiro 2026

The Young Person's Guide to the Orchestra


Instruments of the Orchestra, um documentário de 1946 realizado por Muir Mathieson, com a Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por Malcolm Sargent, que interpreta a versão original da obra sinfónica The Young Person's Guide to the Orchestra, de Benjamin Britten

The Young Person's Guide to the Orchestra é uma peça sinfónica que Benjamin Britten (1913-1976) compôs para um filme documentário sobre os instrumentos de uma orquestra. Tomando como inspiração um tema do compositor barroco inglês Henry Purcell (1659-1695), esta obra de Britten dá-nos a conhecer diversos instrumentos que fazem parte de uma orquestra sinfónica.

A obra The Young Person's Guide to the Orchestra é constituída pelas seguintes partes:

— Orquestra completa;

— Instrumentos de sopro de madeira;

— Instrumentos de sopro de metal;

— Instrumentos de cordas;

— Instrumentos de percussão;

— Orquestra completa;

— Flautas e flautim, também chamado piccolo;

— Oboés;

— Clarinetes;

— Fagotes;

— Violinos;

— Violas de arco, também chamadas violetas;

— Violoncelos;

— Contrabaixos;

— Harpa;

— Trompas;

— Trompetes;

— Trombones e tuba;

— Tímpanos;

— Bombo e pratos;

— Pandeireta e ferrinhos, também chamados triângulo;

— Caixa e caixinha chinesa;

— Xilofone;

— Castanholas e gongo;

— Matraca;

— Instrumentos de percussão em conjunto;

— Fuga, começando pelos instrumentos de madeira, seguidos pelos de cordas, depois pelos de metal e finalmente pelos de percussão;

— Final, tocado por toda a orquestra.

The Young Person's Guide to the Orchestra, Variações e Fuga sobre um Tema de Purcell, op. 34 do compositor inglês Benjamin Britten (1913-1976), agora sem interrupções, pela Orquestra Sinfónica da Rádio do Oeste da Alemanha, dirigida pelo maestro finlandês Jukka-Pekka Saraste

01 janeiro 2026


Co tempo o prado verde reverdece,
Co tempo cai a folha ao bosque umbroso,
Co tempo pára o rio caudaloso,
Co tempo o campo pobre se enriquece.

Co tempo um louro morre, outro florece,
Co tempo um é sereno, outro invernoso,
Co tempo foge o mal duro e penoso,
Co tempo torna o bem já quando esquece.

Co tempo faz mudança a sorte avara,
Co tempo se aniquila um grande estado,
Co tempo torna a ser mais eminente.

Co tempo tudo anda e tudo pára,
Mas só aquele tempo que é passado
Co tempo se não faz tempo presente.

Luís de Camões (1524–1580)