17 janeiro 2026

Soldado Conhecido

Foi o treino e o trem
Foi o porto e o barco
O desfile, o abraço
O tambor a rufar

Foi o pranto no cais
O pai nosso que fica
Sem jeito pra vida
Foi o eco do mar

Foi a marcha, o calor
Foi o peito inchado
Do homem fardado
Foi o seu funeral

Foi a arma na mão
A besta que nos berra
A força da guerra
O avião

A água que seca no nosso cantil
O lábio que greta, a febre a subir
O sangue que ferve cá dentro de nós
O corpo que treme debaixo do sol
O medo da morte, a noite a gritar
Foi aquilo que a gente não pôde falar

Foi o estado-maior
Foi a messe e o rancho
O mando, o comando
O quartel-general

Os abutres e nós
Foi aquilo que fez
O negócio da guerra
E obrigou a matar

O estilhaço, o napalm
A picada no osso
O Ambriz, o Tomboco
Foi São Salvador

Foi a carta que dói
Da mulher que nos foge
E o Puto lá longe
Tão longe de nós

A malta, a maca, o negro que cai
O cabaço da preta, o mulato sem pai
O soldado castrado no corpo e na voz
A mina que rebenta por baixo de nós
Foi o preço, é o braço artificial
É aquilo que a gente não pode calar

Foi a guerra colonial!

Paco Bandeira


Soldado Conhecido, uma canção de Paco Bandeira (letra e música) cantada pelo próprio Paco Bandeira

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