21 agosto 2026

Galo


Galo, séc. XVII/XVIII, bronze de um mestre desconhecido do Reino do Benim, África Ocidental. Weltmuseum Wien, Viena, Áustria
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Este galo de bronze fazia parte das coleções históricas do Reino do Benim, na atual Nigéria. Em 1897, o reino foi conquistado e o seu soberano (oba), Ovonramwen, foi exilado. Os tesouros de arte roubados do palácio real foram vendidos e muitos dos seus objetos fazem agora parte de coleções europeias.

17 agosto 2026

Bilhete de Identidade

Escreve!
Sou árabe
e o meu bilhete de identidade é o cinquenta mil;
tenho oito filhos
e o nono chegará no final do verão.
Vais zangar-te?

Escreve!
Sou árabe.
Trabalho na pedreira
com os meus companheiros de infortúnio.
Arranco das rochas o pão,
as roupas e os livros
para os meus oito filhos.
Não mendigo caridade à tua porta,
nem me humilho nas tuas antecâmaras.
Vais zangar-te?

Escreve!
Sou árabe.
Sou um homem sem título.
Espero, paciente, num país
em que tudo o que há existe em raiva.
As minhas raízes,
foram enterradas antes do início dos tempos
antes da abertura das eras,
antes dos pinheiros e das oliveiras,
antes que tivesse nascido a erva.

O meu pai descende do arado,
e não de senhores poderosos.
O meu avô foi lavrador,
sem honras nem títulos,
e ensinou-me o orgulho do sol
antes de me ensinar a ler.
A minha casa é uma cabana,
feita de ramos e de canas.
Estás feliz com o meu estatuto?
Tenho um nome, não tenho título.

Escreve!
Sou árabe.
Roubaste os pomares dos meus antepassados
e a terra que eu cultivava com os meus filhos;
não me deixaste nada,
apenas estas rochas;
O governo vai tirar-me as rochas,
como me disseram?

Escreve, então,
no cimo da primeira página:
a ninguém odeio, a ninguém roubo.
Mas, se tiver fome,
devorarei a carne do usurpador.
Tem cuidado!
Cuidado com a minha fome,
Cuidado com a minha ira!

Maḥmūd Darwīsh (1941–2008), poeta palestiniano, in O jardim adormecido e outros poemas, Campo das Letras, Porto, 2002. Tradução de Albano Martins


Oliveiras pertencentes a uma família palestiniana, que foram propositadamente cortadas por colonos israelitas na Cisjordânia, Palestina (Foto: Família Mahmoud)
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15 agosto 2026

Stompin' At The Savoy


Stompin' At The Savoy, um tema de jazz com música de Benny Goodman, pela Orquestra de Benny Goodman, constituída por Benny Goodman (clarinete), Chris Griffin, Ruby Braff, Bernie Privin e Carl Poole (trompetes), Will Bradley, Cutty Cutshall e Vernon Brown (trombones), Hymie Shertzer e Paul Ricci (saxofones altos), Boomie Richman e Al Klink (saxofones tenores), Sol Schlinger (saxofone barítono), Mel Powell (piano), Steve Jordan (guitarra), George Duvivier (contrabaixo) e Bobby Donaldson (bateria). Apenas som, gravado em novembro de 1954

13 agosto 2026

tinhas no olhar

tinhas no olhar
sinais seguros de esperança
quando
numa quente segunda-feira
de verão
em 64
eles vieram à vila
tomar-te o peso
o pulso
a medida do peito
o sonho
o sonho não
à tarde
quando partiram
a tua ficha dizia apenas
João
20 anos
apto para todo o serviço

tinhas na boca
uma leve aragem de troça
e nos olhos
sinais seguros de esperança
quando
numa suave manhã
de maio
em 65
passada a porta d'armas
os muros do regimento
pretenderam
separar-te
do aroma dos pinhais

e o aroma dos pinhais
ardia em ti
nas noites
de Maio de Junho e de Julho
quando
após o “cross”
a ordem unida
a instrução da “mauser”
e da “guerra subversiva”
o sonho retomava o seu lugar
subvertendo o cansaço
a raiva
e a ordem das coisas

nas Caldas da Rainha
os pinhais
tinham o mesmo aroma
dos pinhais da tua terra
e o cansaço
a esperança
e a raiva
subiriam contigo ao “Niassa”
numa gelada manhã
de Novembro
em 66
no Cais da Rocha

os compêndios
de instrução militar
diziam
que na Guiné
não havia pinhais
queriam convencer-te
que na Guiné
o sonho morrera
e tu sabias da gente
sonhando a liberdade
de armas na mão
na escola da guerrilha
nas clareiras abertas
“p'lo napalm”

a mata da Guiné
seria o caminho
da tua liberdade
ouviras dizer
que nenhum homem
é livre
enquanto oprime outro homem
e concluíras
que
na mata da Guiné
como nos pinhais da tua terra
o sonho e a luta
libertavam
o homem

tinhas
nos olhos
sinais seguros
de esperança
e o sonho
retomava o seu lugar
subvertendo o cansaço
a raiva
e a frieza da “G3”
quando
deixaste o quartel
na direcção de Guileje
a caminho do “corredor”
onde a liberdade se ganhava
e se perdia
em cada passo em frente
em cada morte

tinhas no olhar
sinais seguros
de esperança
e na tua frente
a mata
densa
da Guiné
confundia-se
com os pinhais da tua terra
quando
a mina
te rasgou o peito
no corredor
perto do destacamento
da Xamarra

José Brás, in Luís Graça e Camaradas da Guiné


«GUILEJE-COLÓNIA-PENAL-TERRA-INGRATA-DE-MAU-SIGNO-TERRA-DE BANDIDOS-TERRA-DA FOME», palavras pintadas em chapas de bidões de combustível aplanados, no quartel do Exército Português que existia em Guileje, ex-Guiné Portuguesa, em outubro de 1968 (Foto: Gabriel Chasse)

10 agosto 2026

Marcha de Pompa e Circunstância N.º 1, de Elgar


Marcha de Pompa e Circunstância N.º 1 em Ré Maior, do compositor inglês Edward Elgar (1857–1934), pela Orquestra do Festival Britten-Shostakovich dirigida por Jan Latham-Koenig

08 agosto 2026

Kuarup — preparação dos troncos e chegada dos convidados


(Foto de autor desconhecido)
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O kuarup (palavra de língua tupi, frequentemente grafada quarup), não é só um dos vários rituais tradicionais praticados pelos povos originários do Brasil vivendo no Parque Indígena do Xingu, no estado de Mato Grosso. É o mais importante de todos. É um ritual que se realiza uma vez por ano, mais ou menos por esta época, em cada aldeia xinguana onde, durante o ano que passou, tiver morrido alguém que mereça ser homenagedo.

O kuarup consiste essencialmente em chorar os mortos, primeiro, e refazer os laços familiares e sociais entre os vivos, depois, porque a vida não pode parar. Depois de terem feito o luto pelos que morreram e que vão permanecer na saudade de cada pessoa, os índios do Xingu passam a celebrar a vida, refazendo os laços entre si. A luta huka-huka (luta tradicional em que dois contendores se enfrentam de joelhos e de mãos nuas) marca o fim do kuarup.

No vídeo que se segue, o indígena Mutua Mehinako explica melhor do que ninguém qual é a essência do kuarup. Suponho que ele é cacique (chefe tribal) do povo Mehinako e, por isso, percebe do assunto melhor do que ninguém. Perdoemos-lhe o facto de cometer alguns erros de português enquanto fala, porque a sua língua materna não é o português, mas sim um idioma da família aruak. O vídeo vem acompanhado por uma legenda gerada automaticamente que também comete erros, alguns dos quais são facilmente detetáveis e até anedóticos. Não havia necessidade...

O índio brasileiro Mutua Mehinako, que vive no Parque Indígena do Xingu, explica-nos a preparação e fase inicial do ritual chamado kuarup

05 agosto 2026

Mily Possoz


Menina da Boina Verde, 1930, óleo sobre tela de Mily Possoz (1888–1967), Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa
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Paris — Quai Voltaire, 1930-37, óleo sobre tela de Mily Possoz (1888–1967), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa
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Senhoras num Jardim, óleo sobre cartão de Mily Possoz (1888–1967), Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa
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Fillette aux Mandarines, gravura a ponta-seca de Mily Possoz (1888–1967), Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa

Ilustração de Mily Possoz (1888–1967) na pág. 18 de O Livro da Segunda Classe, Editora Educação Nacional, Porto (esta imagem contém uma "marca de água" do blog Santa Nostalgia, de onde foi reproduzida, que a página original do livro obviamente não possui)
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Filha de pai e mãe belgas, Mily Possoz foi uma pintora, gravadora e ilustradora nascida nas Caldas da Rainha em 1888. Foi-lhe dado o nome de Emília Possoz, mas a artista decidiu assinar a suas obras como Mily Possoz.

Quando ela era ainda pequena, os Possoz mudaram-se para Lisboa, passando a residir na Lapa, um dos bairros mais requintados da capital portuguesa. A desafogada situação económica da família, o gosto pelas artes e pela cultura por parte dos Possoz e a intensa convivência que estes tiveram com o meio intelectual e artístico de Lisboa possibilitaram o desabrochar das potenciais aptidões artísticas da jovem Mily.

Aos 16 anos de idade, Mily Possoz foi para Paris, cidade onde viveu vários anos e onde travou conhecimento com as vanguardas artísticas do seu tempo. Integrou-se no meio cosmopolita e boémio da capital francesa e tornou‑se uma mulher emancipada e dona do seu destino. Como resultado, Mily sofreu alguns dissabores quando mais tarde regressou a Portugal, porque neste país continuava a imperar uma sociedade patriarcal e conservadora, que mantinha as mulheres em situação de subalternidade.

Mily Possoz era uma pessoa muito ativa. Tanto vivia em Lisboa, como se mudava para Paris, para Sintra, para Bruxelas ou para outra localidade. Fez inúmeros trabalhos nos domínios da pintura a óleo, da aguarela, da gravura, da litografia, da xilogravura, etc. Criou quadros para dependurar na parede, capas de revistas, cenários para peças de teatro, ilustrações para livros e muito mais.

No domínio das ilustrações para livros, é de realçar o livro de leitura para a Segunda Classe do Ensino Oficial do tempo do Estado Novo, em que todas as ilustrações foram da autoria de Mily Possoz. Não nos surpreendamos com o facto. Mily Possoz não foi a única personalidade artística do Modernismo português a sentir-se confortável com a ditadura de Salazar. Mesmo assim, poucos artistas terão ido tão longe como ela foi, ao fazer uma representação eminentemente folclórica dos portugueses, posta ao serviço da ideologia ruralizante do regime político vigente. Salva-se a qualidade artística das ilustrações.

03 agosto 2026

Song For My Father


Song For My Father, um tema de jazz da autoria de Horace Silver, por The Horace Silver Quintet, com Carmell Jones (trompete), Joe Henderson (saxofone tenor), Horace Silver (piano), Teddy Smith (contrabaixo) e Roger Humphries (bateria). Apenas som, gravado em outubro de 1964

Convém desde já informar, dado que tem a sua importância, que Horace Silver não é Horace Silver mas sim Horácio Tavares da Silva que nasceu na ilha de Maio, arquipélago de Cabo Verde, em 1939. Diz ele. Foi para os USA, Stan Getz descobriu-o como compositor e pianista e apresentou-o à sociedade, à saciedade. Silver a seguir ingressou na escola que foram os Jazz Messengers e depois tem vivido à custa do seu trabalho com os seus sucessivos grupos. Compôs «Señor Blues», «Doodlin'», «The Preacher» e esta «Song For My Father» entre outras maravilhas. Como pianista é o que se ouve, forte mão esquerda, grande apetência rítmica e um fraseado que popularizou o chamado estilo funky, muito bluesy e imoderadamente negroide. Claro que os ritmos do Brasil o impressionam muito (a quem não!) e são evidentes neste arranjo onde Horace usa o trompetista só para expor e reexpor o tema em uníssono com esse já então esplendoroso Joe Henderson, depois a solo, com mais peito que hoje. Um Silver puro, um clássico de raça.


José Duarte (1938–2023)