28 fevereiro 2026

Convite à Dança, de Weber


Convite à Dança (Aufforderung zum Tanze), também chamada Convite à Valsa, uma peça para piano do compositor alemão Carl Maria von Weber (1786–1826), orquestrada por Hector Berlioz (1803–1869) e interpretada pela Orquestra Filarmónica de Hong Kong dirigida por Perry So

A peça musical Convite à Dança, de Carl Maria von Weber, contém a primeira valsa de concerto alguma vez escrita, que serviu de exemplo a todas as valsas do mesmo género, mormente as popularíssimas valsas da família Strauss.

Weber escreveu esta obra apenas para piano, mas o compositor francês Hector Berlioz fez-lhe uma orquestração de tal maneira brilhante, que é a versão orquestrada que costuma ser tocada, em vez da versão original para piano.

Esta obra é composta por três partes:

— uma parte inicial, em que um cavalheiro (representado por um violoncelo) convida uma dama (representada por instrumentos de sopro de madeira, de som mais agudo) para dançar; após um curto diálogo, em que a dama aceita o convite, passa-se à parte seguinte;

— a valsa propriamente dita faz-se ouvir e quase "vemos" o par a dançar e a rodopiar no meio do salão;

— quando termina a valsa e o público já irrompe em aplausos, julgando que a peça chegou ao fim, ainda falta o epílogo, em que o cavalheiro (violoncelo) acompanha a dama ao seu lugar e se despede dela, beijando-lhe a mão; só então é que acaba o Convite à Dança, também chamado Convite à Valsa.

26 fevereiro 2026

Percussão corporal


Baianá, uma canção de Maria do Carmo Barbosa e Melo, originalmente chamada Boa Tarde Povo, adaptada pelo grupo de percussão corporal Barbatuques e interpretada pelo grupo vocal Baianas Mensageiras de Santa Luzia, do estado brasileiro de Alagoas, e pelo grupo Barbatuques, de São Paulo

Beautiful Creatures, peça musical composta por André Hosoi e Renato Epstein, sobre letra de Taura Stinson e André Hosoi, pelo grupo Barbatuques, fundado por Fernando Barba (1971–2021)

Peixinhos do Mar e Marinheiro Só, pelo grupo de percussão corporal Barbatuques, fundado por Fernando Barba (1971–2021)

23 fevereiro 2026

A Portugalite



Entre as afecções de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma há tão generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite é uma inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. É altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e até hoje não se descobriu cura.

A Portugalite é contraída por cada português logo que entra em contacto com Portugal. É uma doença não tanto venérea como venal. Para compreendê-la é necessário estudar a relação de cada português com Portugal. Esta relação é semelhante a uma outra que já é clássica na literatura. Suponhamos então que Portugal é fundamentalmente uma meretriz, mas que cada português está apaixonado por ela. Está sempre a dizer mal dela, o que é compreensível porque ela trata-o extremamente mal. Chega até a julgar que a odeia, porque não acha uma única razão para amá-la. Contudo, existem cinco sinais — típicos de qualquer grande e arrastada paixão — que demonstram que os portugueses, contra a vontade e contra a lógica, continuam apaixonados por ela, por muito afectadas que sejam as «bocas» que mandam.

Em primeiro lugar, estão sempre a falar dela. Como cada português é um amante atraiçoado e desgraçado pela mesma mulher, é natural que se junte aos demais para chorar a sua sorte e vilipendiar a causa comum de todos os seus males. Assim sempre se vão consolando uns aos outros. Bebem uns copos, chamam-lhe uns nomes, e confortam-se todos com o facto de não sofrerem sozinhos. Às vezes, para acentuar a tristeza, recordam-se dos bons velhos tempos em que Portugal, hoje megera ingrata que se vende na via (e na vida) pública, era uma namorada graciosa e senhora respeitada em todos os continentes. E, quando dez milhões de lágrimas caem para dentro do vinho tinto que seguram nas mãos, todos abanam as cabeças, dizendo em uníssono «e hoje é o que se sabe…».

Não é só o facto de não saberem nem poderem falar noutra coisa que prova a existência duma paixão. Como qualquer apaixonado arrependido, o português acha Portugal má como as cobras, mas… lindíssima. O facto de ser tão bonita de cara (as paisagens, as aldeias, a claridade, o clima) só torna a paixão mais trágica. O contraste entre a beleza à superfície e a vileza subterrânea dá maior acidez às lágrimas. É por isso que só há um tabu naquilo que se pode dizer de Portugal. Pode dizer-se que é bárbara e miserável, traiçoeira e ingrata, e tudo o mais que há de aviltante que se queira. O que não se pode dizer é «Portugal é um país feio». Nunca. Também neste aspecto se comprova a paixão.

Em terceiro lugar, os portugueses só deixam que outros portugueses digam mal de Portugal. Só quem sofreu nos braços dela (e que ela vai tratando ignobilmente a seu bel-prazer, por saber que nunca lhe hão-de fugir), se pode legitimamente queixar. Isto porque Portugal, sendo uma lindíssima meretriz, engata os estrangeiros descaradamente, desfazendo-se em encantos e seduções para com eles. Esta ideia exprime-se no dogma nacional que reza «Isto é bom é para os turistas», como quem diz «A viciosa da minha mulher a mim não me dá nada, mas atira-se a qualquer estranho que lhe apareça à frente». Qualquer estrangeiro que tenha a ousadia e o mau gosto de se fazer esquisito frente aos avanços despudorados de Portugal está condenado ao maior desagrado de todos.

Esta atitude é lógica, porque só há uma coisa pior do que se ser atraiçoado por quem se ama — é não se ser atraiçoado só porque o outro a acha feia e não a quer. À traição da mulher junta-se o insulto do outro, ao não achá-la sequer digna de um pequenino adultério. É como dizer-nos: «Não só estás apaixonado por uma pega, como ela é feia como breu.»

Os estrangeiros que nos visitam nunca compreendem isto. Lêem e ouvem dizer por todo o lado as maiores infâmias acerca de Portugal e não percebem porque é que todos lhe caem em cima no momento em que ele se atreve a dizer que um pastel de nata não está fresco, ou que tem a impressão de ter sido enganado no troco por um motorista de táxi.

Em quarto lugar, apesar do português passar o tempo a resmungar e a queixar-se quando está perto de Portugal, sabe-se o que lhe acontece quando está há muito tempo longe dela. Os grunhidos transformam-se em gemidos e as piscadelas de olho já não vencem senão lágrimas. E pensa invariavelmente: «Portugal é uma bruxa, mas antes mal tratado por ela do que bem por outra donzela…»

Em quinto e último lugar (e o «Quinto» não é fortuito), temos a derradeira prova da paixão do português por Portugal. Tem a ver com a ideia que ele tem do que Portugal podia ser. Para cada português, «isto podia ser o melhor país do mundo se…» (Segue-se uma condição invariavelmente impossível de se cumprir). A miragem deste país potencial é um paraíso que agrava substancialmente o inferno que os portugueses já supõem aturar. Isto porque os portugueses graças a Deus, têm expectativas elevadíssimas. Nada abaixo do Quinto‑Império pode garantir satisfazê-los. Nenhum português se contenta, por exemplo, só com pertencer à Europa. Aliás, só começaria a contentar-se caso fosse a Europa toda a pertencer a Portugal. (E mesmo assim, qual não seria o português, com um cepticismo que provém de um longo e civilizadíssimo cansaço cultural, que não desconfiasse logo que «isto agora da Europa pertencer a Portugal traz água no bico, com certeza…?»)

Estas expectativas insaciáveis revelam-se na saudável mania que têm os portugueses de comparar Portugal só com a pequena minoria de países que se encontram em muito melhor situação. Para um português, Portugal é o país mais pobre do mundo. Isto é, do mundo «que interessa». Se lhe falarmos nos demais 75% que estão piores que nós, diz logo: «Está bem, mas isso nem se fala…» Nem é preciso ser a Nicarágua ou o Bangladesh — basta mencionar a Grécia ou a Turquia para ele se virar para nós com ar despeitoso e incrédulo e dizer: «Ó filho, está bem, mas isso…»

É curioso notar que a Espanha goza de um estatuto especial nestas comparações. Nem conta como «melhor» nem «pior». A Espanha é sempre até, e a frase «Até na Espanha…» tem o significado precioso de chamar a atenção para um país reconhecidamente rasca onde, neste ou naquele aspecto, já estão escandalosamente melhores do que em Portugal. De qualquer modo, os espanhóis não são como nós. Acham, por exemplo, que é motivo de orgulho ser-se espanhol. Nisso pelo menos, estão muito piores que nós. Entretanto, compreende-se que o difícil não é amar Portugal — o difícil é deixar de amá-lo, também porque é sempre difícil nós sermos felizes.



Miguel Esteves Cardoso, in A Causa das Coisas

20 fevereiro 2026

Vieira da Silva


As Bandeiras Vermelhas, 1939, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), Kunstsammlung, Düsseldorf, Alemanha
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História Trágico-Marítima, 1944, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa
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O Passeante Invisível, 1949–51, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), Museum of Modern Art, São Francisco, Califórnia, Estados Unidos da América
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O Quarto Cinzento, 1950, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), Tate Gallery, Londres, Reino Unido
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L'Allée Urichante, 1955, têmpera sobre papel de Vieira da Silva (1908–1990), coleção particular
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Les Grandes Constructions, 1956, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), coleção particular
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Londres, 1959, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), coleção particular
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Landgrave, 1966, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa
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Bibliothèque en Feu, 1974, óleo sobre tela de Vieira da Silva (1908–1990), Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa
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A vida da pintora Maria Helena Vieira da Silva daria um filme, ou quase. Nascida em 1908 na zona do Chiado, em Lisboa, no seio de uma família da classe alta, Maria Helena Vieira da Silva passou os seus três primeiros anos de vida na Suíça, onde seu pai foi colocado como embaixador, até ao momento em que este faleceu. Maria Helena passou então a viver num palacete da Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, com a sua mãe e o seu avô materno, José Joaquim da Silva Graça, fundador e diretor do jornal O Século e da revista Ilustração Portuguesa.

Em casa deste avô, Maria Helena recebeu lições dos pintores Armando de Lucena e Emília dos Santos Braga, assim como do escultor Rogério de Andrade. Posteriormente, ingressou na Academia de Belas-Artes de Lisboa e frequentou as aulas de Anatomia na Escola Médica de Lisboa, até que, aos 19 anos de idade, foi para Paris na companhia da sua mãe.

Em Paris, Maria Helena Vieira da Silva estudou desenho e escultura, frequentou galerias de arte, museus, teatros, concertos, etc. Estabeleceu contactos com algumas das mais destacadas figuras da arte parisiense do seu tempo, como Pierre Bonnard, que influenciou o seu estilo, assim como com outros artistas portugueses que estavam radicados na capital francesa, nomeadamente Eduardo Viana e Milly Possoz. A partir de um dado momento, Maria Helena pôs de parte a escultura e passou a dedicar‑se unicamente à pintura.

Em 1930, Maria Helena Vieira da Silva casou-se com o pintor húngaro Árpád Szenes (este nome pronuncia-se aproximadamente Áárpaad Sénech) e, consequentemente, perdeu o direito à nacionalidade portuguesa, em face da legislação da época, por ter casado com um estrangeiro fora de Portugal. Vieira da Silva tornou-se apátrida.

Por sua vez, Árpád Szenes era de ascendência judaica, apesar de se ter convertido à fé católica, o que o tornava um potencial alvo de perseguição por parte dos nazis, que nos anos 30 se encontravam em galopante crescimento por toda a Europa, incluindo a sua Hungria natal. Embora não perseguisse os judeus, o regime húngaro era de tipo autoritário, ao mesmo tempo que o partido nazi local, cuja agressividade em nada ficava a dever à do seu congénere alemão, aumentava cada vez mais a sua implantação no país. Árpád Szenes resolveu então cortar todos os seu laços com a Hungria e tornou-se, também ele, apátrida.

Ao longo da década de 30, Vieira da Silva e Árpád Szenes viveram quase sempre em Paris, onde participaram ativamente num movimento de artistas e intelectuais antifascistas, chamado Amis du Monde. Com o início da 2.ª Guerra Mundial, o casal mudou-se para Portugal, onde solicitou a cidadania portuguesa, que foi recusada. Maria Helena e Árpád partiram então para o Brasil, onde a Sociedade das Nações lhes atribuiu passaporte diplomático, como reconhecimento pela grande importância de ambos, o que lhes permitiu disfrutar de uma liberdade de movimentos que até então não tinham tido. Participaram ativamente na vida artística do Rio de Janeiro, realizaram exposições em vários países latino‑americanos, etc.

Após o fim da 2.ª Guerra, o casal regressou a Paris, onde Maria Helena voltou a solicitar a cidadania portuguesa, o que lhe foi recusado de novo. No entanto, o que o regime do Estado Novo recusou, a França concedeu. Em 1952, Maria Helena Vieira da Silva tornou-se cidadã francesa. Após ter recebido diversas e importantes condecorações concedidas pela França ao longo dos anos, Vieira da Silva tornou-se, em 1979, Dama da Ordem Nacional da Legião de Honra de França e membro do Comité de Honra do Movimento contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos.

O mérito de Maria Helena Vieira da Silva também acabou por ser reconhecido pelo Portugal democrático saído da Revolução dos Cravos, que lhe atribuiu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Em 1992, faleceu em Paris com 83 anos de idade.

16 fevereiro 2026

Canario, de Kapsberger


O músico norte-americano Brandon Acker interpreta numa teorba (um espetacular instrumento de cordas dedilhadas da família dos alaúdes) a peça musical Canario, de Giovanni Girolamo Kapsberger (ca. 1580 – 1651). Supõe-se que Kapsberger se inspirou numa dança popular das Ilhas Canárias para escrever esta peça, razão pela qual lhe deu o nome de Canario

14 fevereiro 2026

O rei bebe


O Rei Bebe ou Noite de Reis, óleo sobre tela do pintor flamengo Jacob Jordaens (15931678). Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica, Bruxelas, Bélgica
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Na noite imediatamente anterior ao Dia de Reis (6 de janeiro) de cada ano, realizava-se na Flandres uma grande festa familiar, em que se cometiam excessos de comida e de bebida. Nessa noite, era nomeado rei aquele a quem calhasse uma fava escondida numa fatia de bolo. Era a ele que competia pagar do seu bolso as despesas da festa, e toda a família e amigos comiam e bebiam à sua custa. Neste quadro, o pintor Jacob Jordaens, que era natural da cidade de Antuérpia, retrata alguns dos excessos que se cometeriam numa festa de Reis, na Flandres do séc. XVII.

No cimo do quadro, ao centro, está pintado um medalhão com as palavras em neerlandês In een vry gelach ist goet gast syn, que se podem traduzir livremente por «É bom ser convidado numa festa sem pagar». A figura principal da festa está no centro do quadro, com uma coroa de rei na cabeça e bebendo abundantemente, rodeado por diversas personagens em ruidosa celebração: no canto inferior esquerdo do quadro, um homem parece vomitar, perdido de bêbado; no canto superior esquerdo, outro homem levanta acima da sua cabeça o que parece ser um cachimbo, enquanto fumo sai da sua boca; atrás do rei, outro toca gaita de foles; à direita, uma mulher limpa o traseiro de uma criança chorona, etc.

11 fevereiro 2026

Lembrança dos Mouros


Lembrança dos Mouros, sexto episódio da série televisiva Viagem ao Maravilhoso, de Carlos Brandão Lucas

08 fevereiro 2026

O Recreio

Na minh'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar —
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar…

— E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar…

Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada…

— Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada…

Se o indez morre, deixá-lo…
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca… Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive…

— Mudar a corda era fácil…
Tal ideia nunca tive…

Mário de Sá-Carneiro (1890–1916)


04 fevereiro 2026

Como é que se diz: 200 quilómetros por hora ou 200 quilómetros-hora?


(Foto de autor desconhecido)

Como é que se diz: 200 quilómetros por hora ou 200 quilómetros-hora? Ou é indiferente?

Não, não é indiferente. Quando os pivots e repórteres dos telejornais afirmaram perante as câmaras de televisão que, durante a catastrófica tempestade Kristin, se registou na base aérea de Monte Real uma rajada de vento de 200 quilómetros-hora (200 km×h), disseram mal. O que se registou em Monte Real, foi uma rajada de vento que atingiu 200 quilómetros por hora (200 km/h).

O quilómetro por hora (km/h) é uma medida de velocidade. Dizer que uma rajada de vento atingiu a velocidade de 200 quilómetros por hora equivale a dizer que, se a velocidade do vento se mantivesse constante ao longo de uma hora, então as moléculas do ar arrastadas pelo vento teriam percorrido uma distância de 200 quilómetros.

Tomemos o exemplo de um automóvel. Se, viajando a uma determinada velocidade, um carro demorasse uma hora a ir de Lisboa a Santarém, então, a essa mesma velocidade, em meia hora ele não conseguiria ir além do Carregado. Se esse carro demorasse uma hora a ir do Porto a Viana do Castelo, em meia hora ele não conseguiria sequer chegar à Apúlia.

O quilómetro-hora (km×h), por sua vez, é uma grandeza que não tem muita utilidade prática, mas que matematicamente é possível. É uma multiplicação de uma distância por um período de tempo, cujo resultado é um determinado valor. Dizer-se, por exemplo, que uma rajada de vento atingiu 200 quilómetros-hora equivale a dizer que, se tomarmos um período de tempo que tenha uma duração de uma hora, então a distância percorrida pelas moléculas de ar arrastadas pelo vento terá sido de 200 quilómetros:

200 km × 1 hora = 200.

No entanto, se considerarmos um período de tempo de meia hora apenas, então a distância a considerar terá de ser dupla (e não metade), para que o resultado continue a ser 200:

400 km × 0,5 horas = 200.

Voltemos ao exemplo do automóvel. Se este demorasse uma hora a ir de Lisboa a Santarém, viajando a uns tantos quilómetros-hora (km×h), então em meia hora ele teria percorrido o dobro da distância (e não metade) e teria ido parar a Pombal. Se o mesmo carro demorasse uma hora a ir do Porto a Viana do Castelo, então em meia hora ele teria ido parar a Vigo, na Galiza! Isto está em flagrante contradição com a nossa própria experiência. A velocidade deste carro não pode ser medida em quilómetros-hora.

Conclusão: afirmar-se que uma velocidade foi de x quilómetros-hora é um erro crasso. Ela foi de x quilómetros por hora.