06 março 2026

Esta maneira de chorar dentro de uma palavra


Crianças khoisan ou bosquímanas, que no sueste de Angola são chamadas kamussekele (Foto de autor desconhecido)

Em 1971, em Angola, depois de uma acção de pirataria

(pirataria era os helicópteros sul-africanos deixarem a tropa a quatro metros do chão e destruir tudo)

fiquei com uma menina kamessekele que sobrou, não sei como, daquela benfeitoria. Os kamessekeles são um povo amarelado que se exprime numa espécie de estalinhos da língua e sons vindos do fundo da garganta. A menina devia ter cinco ou seis anos, o cabelo ruivo da fome e empurrava adiante de si uma barriga imensa.Viveu comigo algum tempo, na enfermaria que era uma casa em ruína num sítio chamado Chiúme. A barriga diminuiu e o cabelo tornou-se escuro. Dentro do arame farpado, para onde quer que eu fosse, vinha atrás de mim.

Um dia, ao voltar da mata, não a encontrei. Não me deram explicação alguma. Para quê? As coisas passavam-se dessa forma e acabou-se. Mas demorei muito tempo a esquecê-la e ainda me lembros dos seus olhos que não exprimiam nada. Se calhar os meus olhos também não exprimiam nada. O que poderiam exprimir? Visitávamos o barraco onde os caixões esperavam e perguntávamos

— Qual vai ser o meu?

Não deitados, caixões de pé contra a parede, todos iguais. Também me lembro do sopro do maçarico a soldá-los, o que se fazia o mais cedo possível dado que os mortos apodrecem depressa naqueles lugares de calor

— Qual vai ser o meu?

e no dia seguinte os helicópteros de novo. Uma ocasião trouxeram uma mulher grávida. Um oficial que andava connosco nessa altura empurrou a mulher para o armazém dos caixões e, à minha frente, obrigou-a a colocar um dos pés sobre uma urna e penetrou-a sem baixar as calças, abrindo a breguilha apenas.

Noutra ocasião apanhou-se um guerrilheiro só com uma perna. Para ali estava sentado no chão, de pedaço de corda amarrado ao pescoço. Isto foi em Gago Coutinho. Quando se saía, colocava-se o inimigo no guarda-lamas do rebenta-minas e ele gritava de pavor o tempo inteiro. Desapareceu também.

Tudo era muito atreito a desaparecer nessa época, tirando aqueles que o chefe da Pide enforcava numa árvore e lá ficavam. Também me lembro dos pés dos enforcados mas não de uma forma tão clara. Isto foi numa aldeia chamada Chiquita. O chefe da Pide de Gago Coutinho, em contrapartida, era mais civilizado: preferia aplicar choques eléctricos nos testículos e num gesto de simpatia convidou-me a assistir. Esse acto designava-se por reeducação. Se um reeducado morria enterrava-se em cima de uma prancha.

Tudo estava reduzido a pontos: uma arma apreendida tantos pontos, um canhão sem recuo tantos pontos, um inimigo tantos pontos. No caso de conseguirmos um certo número de pontos mudavam o batalhão para um lugar mais calmo, e foi quando nos mudaram para um lugar mais calmo, sem guerra, que os soldados principiaram a suicidar-se.

Uma noite entrei no lugar dos beliches. Um cabo na cama de cima encostou a G3 à base do queixo, disse

— Até logo

e disparou. Em Maribanguengo. Bocados de miolos e de osso espalmaram-se no zinco do tecto e ele durou três horas, sem metade da cabeça, a deixar de repirar. Também me lembro do

— Até logo

e do disparo, mas houve tantos disparos em Angola que talvez o que lembro não fosse o dele. Tantos disparos como os ruídos das folhas dos eucaliptos de Cessa.

Em Marimba um dos lavadeiros roubou uma camisa a um alferes. Os lavadeiros teriam quinze anos se tanto. Então estenderam-nos lado a lado e deixaram-lhes cair brasas de cigarro em cima. Isto sucedeu pouco antes de nos virmos embora para Portugal. Visto que ficaram cheios de marcas e de pústulas pediu-se conselho a um agente da Pide que solucionou o problema depois de repreender brandamente o alferes sugerindo-lhe que daí em diante fizesse as coisas como deve ser.

A semana passada um homem procurou-me no hospital. Trabalhava com o rádio e foi ele quem me anunciou o nascimento da minha filha, que só vários meses depois encontrei. O rádio tinha sido um quase garoto então, e dei com um quase velho.

Mostrou-me o retrato do último jantar da Companhia. Quase velhos todos, impossíveis de reconhecer na sua quase velhice. Ele apontava e dizia os nomes, o furriel Este, o sargento Aqueloutro, a estudar o retrato com ternura.

Entre eles, acho eu, o maqueiro com quem andei na picada a segurar os intestinos nas mãos e a estendermos numa espécie de oferenda. Observei o furriel Este e o sargento Aqueloutro. Aí estavam a sorrir, quase velhos, quase alegres, agarrando-se pelos ombros e no entanto deu-me a impressão que os olhos deles continuavam a não exprimir nada, conforme os olhos da menina kamessekele não exprimiam nada. Ou se calhar os olhos dos quase velhos exprimiam. Eram brancos, não pretos, e o facto de não exprimirem nada pode muito bem ter sido defeito do fotógrafo.



António Lobo Antunes (1942–2026), in Segundo Livro de Crónicas

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