14 setembro 2026

Material e imaterial


Quedas de Musseleje, Malanje, Angola (Foto: Mauro Sérgio)
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Representamos o objetivo e o subjetivo, a quantidade e a qualidade, o número cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a música das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cenário sólido, líquido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; — três virtudes do fôlego animado, porque muda o que come em sensações, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme é límpido o ar ou enevoado… É de sólida origem a sensação; o sentimento é já de origem fluídica; e, então, o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz.



Teixeira de Pascoaes (1877–1952)

11 setembro 2026

Manifestações do Sagrado


Manifestações do Sagrado, oitavo episódio da série televisiva Viagem ao Maravilhoso, de Carlos Brandão Lucas, realizado para a RTP em 1990. A divindade, o sagrado, para além dos momentos próprios que sempre encontra para se manifestar, sabe envolver-se sempre, também, nas histórias mais propícias e surgir nos lugares que lhe competem. Alguns bosques, montanhas, pedras e árvores concentram assim enormes cargas de religiosidade. A árvore que, para os historiadores das religiões representa o universo em permanente regeneração, é fonte inesgotável de fertilidade e, já muito antes do cristianismo, a ela surgiam ligadas divindades femininas. Em Cortes, Leiria, a Senhora da Gaiola apareceu no interior de uma árvore e já no século XIV se contava que a Senhora tinha aparecido num salgueiro, ao rei D. Pedro I. Mas é em Fátima o lugar onde a relação da Senhora com a árvore é mais efetiva

08 setembro 2026

Uma bailarina de há 40 séculos


Jovem Bailarina, c. 2000 A.C., escultura de bronze obtida pelo processo de cera perdida, pertencente à civilização do Vale do Indo e encontrada em Mohenjo-daro, no atual Paquistão. Museu Nacional, Nova Deli, Índia
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A civilização do Vale do Indo é uma das mais antigas civilizações da Terra, tendo sido contemporânea das do Antigo Egito, Mesopotâmia e China. Foi uma civilização que se desenvolveu nas férteis planícies aluviais banhadas pelo rio Indo e seus afluentes, em territórios do atual Paquistão, nordeste do atual Afeganistão e noroeste e oeste da atual Índia. Pertenciam à civilização do Vale do Indo duas das cidades mais antigas do mundo, Harappa e Mohenjo-daro, que teriam entre 30 mil e 60 mil habitantes cada.

Foi em Mohenjo-daro que se encontrou a Jovem Bailarina, uma das esculturas mais admiráveis que a civilização do Vale do Indo nos deixou. Não nos iludamos com a pequenez desta estatueta de bronze com cerca de 10,5 cm de altura. O que ela tem de extraordinário é, por um lado, a sensação de movimento que exprime. Se em vez de uma escultura ela fosse uma fotografia, diríamos estarmos em presença de um instantâneo. As esculturas provenientes das outras civilizações suas contemporâneas (Egito, Suméria, Babilónia, etc.) são quase todas hirtas ou representam personagens em poses formais. Esta não. Parece estar a meio da execução de uma dança e quase poderíamos jurar que agora mesmo acabou de se mexer. Por outro lado, a bailarina representada mostra-se-nos desenvolta, cheia de confiança em si mesma e livre de complexos. É de facto uma escultura extraordinária.


A Jovem Bailarina vista de costas. Museu Nacional, Nova Deli, Índia
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05 setembro 2026

Romance para Violino N.º 2 de Beethoven


Romance para Violino e Orquestra N.º 2 em Fá Maior, Op. 50, de Ludwig van Beethoven, pelo violinista francês Renaud Capuçon e a Orquestra da Gewandhaus, de Leipzig, dirigida por Kurt Masur

03 setembro 2026

Aniki Bóbó, de Manoel de Oliveira


Aniki Bóbó, 1942, o primeiro filme de longa metragem do realizador Manoel de Oliveira (1908–2015), com a participação de Horácio Silva (Carlitos), António Pereira (Pistarim), António Santos (Eduardinho), Fernanda Matos (Teresinha), Nascimento Fernandes (Lojista), Américo Botelho (Estrelas), Feliciano David (Pompeu), António Morais Soares (Pistarim), Manuel de Sousa (Filósofo), Rafael Mota (Rafael), Vital dos Santos (Professor), Manuel de Azevedo (Cantor de Rua), António Palma (Freguês), Armando Pedro (Empregado da Loja) e Pinto Rodrigues (Polícia); argumento de Manoel de Oliveira baseado no conto Os Meninos Milionários, de João Rodrigues de Freitas; música de Jaime Silva, Filho; direção de fotografia de António Mendes; produção de António Lopes Ribeiro. Duração aproximada de 1 hora e 8 minutos. Vídeo de fraca qualidade técnica

01 setembro 2026

Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo…

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina (1889–1985), poetisa e contista brasileira, que publicou o seu primeiro livro aos 76 anos de idade