28 setembro 2026

Prémios Ig Nobel 2026


Em palco, alguns vencedores dos satíricos prémios Ig Nobel 2026, por ocasião da "cerimónia" da sua atribuição, a qual ocorreu em Zurique, Suíça, no dia 3 de setembro de 2026
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Os prémios Ig Nobel são uma paródia aos prémios Nobel e destinam-se a galardoar os trabalhos científicos mais insólitos, que primeiro fazem rir e a seguir fazem pensar. Estes prémios são atribuídos anualmente pela revista norte-americana Annals of Improbable Research, numa "cerimónia" (chamemos-lhe assim) que até ao ano passado costumava ter lugar em Cambridge, no estado de Massachussets. Porém, alguns cientistas premiados no Ig Nobel 2025 não puderam tomar parte na "cerimónia" desse ano, porque lhes foram negados os vistos de entrada nos Estados Unidos, em consequência da política de Donald Trump. Foi então decidido realizar a "cerimónia" deste ano num outro país, tendo sido escolhida a Suíça. A "cerimónia" de 2026 teve tanto êxito, que se resolveu continuar a organizar a atribuição dos prémios fora dos Estados Unidos. Já está escolhido o local para a atribuição dos próximos prémios, os de 2027, que será a cidade belga de Antuérpia.

Depois desta maçadora introdução, passemos à lista dos prémios Ig Nobel 2026.


PRÉMIO IG NOBEL DA BIOMECÂNICA

Atribuído a Matilda Brindle e colegas, do Reino Unido e Estados Unidos, por terem conseguido definir o beijo de uma forma rigorosamente científica, na sequência de observações que fizeram em formigas, aves, ursos polares e pessoas (evidentemente).

Se alguém pensar que o beijo é fácil de definir, desengane-se. Para os autores deste estudo, o beijo é uma «interação não-agonística, que envolve um contacto direto, oral-oral e intraespecífico, com movimento dos lábios/partes bocais e sem transferência de alimentos.»

Que definição tão pouco romântica!


PRÉMIO IG NOBEL DA ECONOMIA

Ganho por Paul Piff e outros, dos Estados Unidos, México e Canadá, por terem reunido provas de que as pessoas das classes sociais mais altas têm mais tendência a apresentar comportamentos pouco éticos, tais como apoderar-se de um doce que já estava destinado a uma criança. Além disso, quando ao volante dos seus carros grandes e caros, tendem mais a desrespeitar as prioridades dos outros automobilistas nos cruzamentos, a desprezar os direitos dos peões nas passadeiras, etc.


PRÉMIO IG NOBEL DA QUÍMICA

Galardoado a Sanchari Banerjee e outros membros da sua equipa de investigação, da Índia, França, Japão, Canadá e Estados Unidos, por terem descoberto que as proteínas do leite produzido por uma espécie de baratas vivíparas (Diploptera punctata) contêm três vezes mais energia do que as do leite de vaca.

Eu nem sequer sabia que existem baratas que não se reproduzem por ovos e que até dão leite para alimentar as baratinhas!


PRÉMIO IG NOBEL DA MEDICINA

Este prémio é atribuído com dezenas de anos de atraso, pois se refere a um estudo de 1977, da autoria de um otorrinolaringologista japonês já falecido. Este cientista, que se chamava Tokuji Unno, publicou um estudo sobre a forma mais correta de assoar o nariz, tendo concluído que uma longa e profunda assoadela é a melhor forma de prevenir doenças respiratórias.


PRÉMIO IG NOBEL DA BIOLOGIA

Ganho por João Miguel Alves-Nunes e colegas, do Brasil e Austrália, que, devidamente calçados com botas apropriadas, puseram um pé, suave e repetidamente, sobre a cabeça, o meio do corpo e a cauda de 75 serpentes venenosas da espécie brasileira Bothraps jararaca. A sua intenção foi determinar em que circunstâncias é que as serpentes tendem a morder mais, em função da hora, da temperatura ambiente, da parte do corpo pisada, do tamanho da serpente, do seu sexo, etc. Os investigadores concluíram que as serpentes têm mais tendência a morder durante o dia e com temperaturas mais elevadas, sendo que as serpentes mais agressivas são as fêmeas jovens. Em segundo lugar, são os machos pequenos.


PRÉMIO IG NOBEL DA FÍSICA

Galardoado a Randy Hurd e outros, do Canadá, Estados Unidos, China e Arábia Saudita, por terem projetado um urinol que não salpique para fora. Desenvolveram um modelo de urinol, chamado Nautilus, que, segundo eles, evitará o "desperdício" de um milhão de litros de urina por dia em salpicos, nos 56 milhões de urinóis públicos existentes nos Estados Unidos apenas.


PRÉMIO IG NOBEL DA TECNOLOGIA

Atribuído a Justin Puma e outros investigadores, da China, Canadá, Estados Unidos e Egito, por terem desenvolvido uma impressora 3D de alta precisão, em que o tubo por onde sai o material de impressão é uma probóscide de mosquito. Lembro que a probóscide é aquela "agulha" com que as fêmeas dos mosquitos nos picam. Os investigadores experimentaram fazer impressão 3D com probóscides de muitas espécies de insetos diferentes, incluindo moscas tsé-tsé e percevejos, mas as das fêmeas de mosquito são as melhores.


PRÉMIO IG NOBEL DO OLFATO

Os premiados foram Ilona Croy e colegas, da Polónia, Alemanha e Suécia, por terem reunido provas de que os progenitores gostam mais do cheiro dos bebés do que dos seus filhos adolescentes.

Parto do princípio de que isto só acontece quando os bebés não tiverem as fraldas borradas...


PRÉMIO IG NOBEL DA PAZ

Ganho por Jaimie Arona Krems e outros membros da sua equipa, dos Estados Unidos, Argentina e Austrália, por terem documentado o facto de que damos mais valor àqueles dos nossos amigos que forem maldosos para com as pessoas de quem não gostamos.


PRÉMIO IG NOBEL DAS CIÊNCIAS DOS SOLOS

Concedido a Franz Bender e colegas, da Suíça, Países Baixos e Alemanha, por terem enterrado 1000 pares idênticos de cuecas de algodão em mais de 25 países, e terem-nos desenterrado dois meses mais tarde. A finalidade desta experiência foi determinar de que forma é que as cuecas se decompõem, em função do tipo de solo, do conteúdo deste em matéria orgânica, da humidade, da temperatura, etc. O resultado obtido mostra que os solos dos jardins são os que mais depressa decompõem as cuecas, enquanto os relvados as decompõem menos. Os campos agrícolas e os prados apresentam um índice "cuecal" intermédio.

24 setembro 2026

Morreu o búlgaro Kostadin Luchansky, fotógrafo de Angola


Kostadin Luchansky (1975-2026), fotógrafo búlgaro apaixonado por Angola (Foto: Sandesh Kadur)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Morreu no passado mês de agosto, em consequência de um trágico acidente de viação ocorrido na sua Bulgária natal, o fotógrafo Kostadin Luchansky, que fez de Angola a sua segunda pátria.

Durante mais de 30 anos, Kostadin Luchansky percorreu Angola em todas as direções e deixou-nos um extraordinário espólio fotográfico deste grande país e do seu grande povo. A seguir se mostram algumas das imagens que Kostadin Luchansky nos deixou e que ele mesmo partilhou nas redes sociais.


Esta é a mais icónica fotografia feita por Kostadin Luchansky e que mostra a estrada da Leba, uma obra-prima da engenharia civil portuguesa da década de 1960, feita com base num projeto inicial do Eng. Edgar Cardoso. Nesta imagem, Kostadin Luchansky fotografou a estrada enquanto um veículo a descia com os faróis acesos. Serra da Leba, entre a província da Huíla (em cima) e a do Namibe (em baixo), Angola (Foto: Kostadin Luchansky)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Vista aérea da estrada da serra da Leba, que faz a ligação entre as províncias da Huíla (em cima, à direita) e do Namibe (em baixo, à esquerda), Angola (Foto: Kostadin Luchansky)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Criança da etnia Mukwando. Serra da Neve, província do Namibe, Angola (Foto: Kostadin Luchansky)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Criança nadando no rio Luando, província do Bié, Angola (Foto: Kostadin Luchansky)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Flamingos nas proximidades da cidade do Lobito, província de Benguela, Angola (Foto: Kostadin Luchansky)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Uma peregrina no santuário de Nossa Senhora da Muxima, província do Bengo, Angola (Foto: Kostadin Luchansky)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

Quedas do Rio M'Bridge, província do Zaire, Angola (Foto: Kostadin Luchansky)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

21 setembro 2026

O verão está de saída


Torse de l'Été, 1911, bronze do escultor francês Aristide Maillol (1861–1944), Parque de Esculturas e Jardins de Frederik Meijer, Grand Rapids, Michigan, Estados Unidos

Não nos iludamos com o intenso calor que sentimos neste momento. O verão está mesmo de saída, porque a Terra não deixa de se mover em volta do Sol, à velocidade linear aproximada de 29,78 km/s, ou seja, 107 208 quilómetros por hora!

Os sinais estão todos aí, apesar da elevada temperatura que nos faz transpirar: as noites crescem a olhos vistos, os dias diminuem na mesma proporção, o sol está cada vez mais amarelado, as primeiras folhas mortas (ainda em pequena quantidade) são arrastadas pelo vento que ainda é quente, os ouriços dos castanheiros começam a tombar no chão para se abrirem e nos mostrarem as castanhas maduras no seu interior, e o firmamento prepara-se para nos exibir a sua toilette de inverno, que na minha opinião é mais bonita do que a toilette de verão.

Com efeito, nestes mesmo dias que estamos a viver, de madrugada e ainda antes de o dia começar a clarear, a mais bela constelação (Orion) e a mais brilhante e mais cintilante estrela do céu noturno (Sírius) já se nos mostram em todo o seu esplendor para as bandas do sueste. Elas irão fazer-nos companhia, cada vez mais cedo, nas geladas noites estreladas de inverno, até à chegada do equinócio da primavera, em março do próximo ano. Afinal, nem tudo é triste e deprimente durante o outono e o inverno.

14 setembro 2026

Material e imaterial


Quedas de Musseleje, Malanje, Angola (Foto: Mauro Sérgio)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

“
Representamos o objetivo e o subjetivo, a quantidade e a qualidade, o número cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a música das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cenário sólido, líquido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; — três virtudes do fôlego animado, porque muda o que come em sensações, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme é límpido o ar ou enevoado… É de sólida origem a sensação; o sentimento é já de origem fluídica; e, então, o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz.

”

Teixeira de Pascoaes (1877–1952)

11 setembro 2026

Manifestações do Sagrado


Manifestações do Sagrado, oitavo episódio da série televisiva Viagem ao Maravilhoso, de Carlos Brandão Lucas, realizado para a RTP em 1990. A divindade, o sagrado, para além dos momentos próprios que sempre encontra para se manifestar, sabe envolver-se sempre, também, nas histórias mais propícias e surgir nos lugares que lhe competem. Alguns bosques, montanhas, pedras e árvores concentram assim enormes cargas de religiosidade. A árvore que, para os historiadores das religiões representa o universo em permanente regeneração, é fonte inesgotável de fertilidade e, já muito antes do cristianismo, a ela surgiam ligadas divindades femininas. Em Cortes, Leiria, a Senhora da Gaiola apareceu no interior de uma árvore e já no século XIV se contava que a Senhora tinha aparecido num salgueiro, ao rei D. Pedro I. Mas é em Fátima o lugar onde a relação da Senhora com a árvore é mais efetiva

08 setembro 2026

Uma bailarina de há 40 séculos


Jovem Bailarina, c. 2000 A.C., escultura de bronze obtida pelo processo de cera perdida, pertencente à civilização do Vale do Indo e encontrada em Mohenjo-daro, no atual Paquistão. Museu Nacional, Nova Deli, Índia
(Clicar na imagem para ampliá-la)

A civilização do Vale do Indo é uma das mais antigas civilizações da Terra, tendo sido contemporânea das do Antigo Egito, Mesopotâmia e China. Foi uma civilização que se desenvolveu nas férteis planícies aluviais banhadas pelo rio Indo e seus afluentes, em territórios do atual Paquistão, nordeste do atual Afeganistão e noroeste e oeste da atual Índia. Pertenciam à civilização do Vale do Indo duas das cidades mais antigas do mundo, Harappa e Mohenjo-daro, que teriam entre 30 mil e 60 mil habitantes cada.

Foi em Mohenjo-daro que se encontrou a Jovem Bailarina, uma das esculturas mais admiráveis que a civilização do Vale do Indo nos deixou. Não nos iludamos com a pequenez desta estatueta de bronze com cerca de 10,5 cm de altura. O que ela tem de extraordinário é, por um lado, a sensação de movimento que exprime. Se em vez de uma escultura ela fosse uma fotografia, diríamos estarmos em presença de um instantâneo. As esculturas provenientes das outras civilizações suas contemporâneas (Egito, Suméria, Babilónia, etc.) são quase todas hirtas ou representam personagens em poses formais. Esta não. Parece estar a meio da execução de uma dança e quase poderíamos jurar que agora mesmo acabou de se mexer. Por outro lado, a bailarina representada mostra-se-nos desenvolta, cheia de confiança em si mesma e livre de complexos. É de facto uma escultura extraordinária.


A Jovem Bailarina vista de costas. Museu Nacional, Nova Deli, Índia
(Clicar na imagem para ampliá-la)

05 setembro 2026

Romance para Violino N.º 2 de Beethoven


Romance para Violino e Orquestra N.º 2 em Fá Maior, Op. 50, de Ludwig van Beethoven, pelo violinista francês Renaud Capuçon e a Orquestra da Gewandhaus, de Leipzig, dirigida por Kurt Masur

03 setembro 2026

Aniki Bóbó, de Manoel de Oliveira


Aniki Bóbó, 1942, o primeiro filme de longa metragem do realizador Manoel de Oliveira (1908–2015), com a participação de Horácio Silva (Carlitos), António Pereira (Pistarim), António Santos (Eduardinho), Fernanda Matos (Teresinha), Nascimento Fernandes (Lojista), Américo Botelho (Estrelas), Feliciano David (Pompeu), António Morais Soares (Pistarim), Manuel de Sousa (Filósofo), Rafael Mota (Rafael), Vital dos Santos (Professor), Manuel de Azevedo (Cantor de Rua), António Palma (Freguês), Armando Pedro (Empregado da Loja) e Pinto Rodrigues (Polícia); argumento de Manoel de Oliveira baseado no conto Os Meninos Milionários, de João Rodrigues de Freitas; música de Jaime Silva, Filho; direção de fotografia de António Mendes; produção de António Lopes Ribeiro. Duração aproximada de 1 hora e 8 minutos. Vídeo de fraca qualidade técnica

01 setembro 2026

Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo…

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina (1889–1985), poetisa e contista brasileira, que publicou o seu primeiro livro aos 76 anos de idade