23 novembro 2021

Iliteracia feminina e pobreza


Vida Maria, um vídeo de animação 3D do cineasta brasileiro Márcio Ramos

21 novembro 2021

eu quero escrever coisas verdes


eu quero escrever coisas verdes
verdes
como as folhas desta floresta molhada
verdes
como teus olhos
que só a saudade deixa ver
verdes
como a menina duma trança só
que soletra em português sa-po sa-po
verdes
como a cobra esguia que me surpreendeu
naquela cubata sem outra história
verdes
como a manhã azul
que acaba de nascer

eu quero escrever coisas verdes

Arlindo Barbeitos (1940-2021), poeta angolano


Em Tempué, Luchazes, Moxico, Angola (Foto: Mauro Sérgio)

19 novembro 2021

Os Encantos do Rio


Os Encantos do Rio, um vídeo do cineasta indígena brasileiro Takumã Kuikuro

13 novembro 2021

Domingos António de Sequeira


Adoração dos Magos, 1828, óleo sobre tela de Domingos António de Sequeira (1768–1837). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

Se Domingos António de Sequeira só tivesse pintado um quadro e se esse quadro tivesse sido a Adoração dos Magos, tanto bastaria para que ele merecesse ser incluído na galeria dos maiores pintores europeus.

No quadro Adoração dos Magos, a composição das figuras é magistral, mas não é o mais importante. O mais importante é a luz, uma luz que vem do céu, difusa e no entanto ofuscante, uma luz que ilumina tudo e todos com uma clareza e uma suavidade incomparáveis. É uma luz divina, que deslumbra e acaricia ao mesmo tempo.

A Adoração dos Magos era um quadro que estava na posse de uma entidade particular. Eu não sei em que condições é que ele apareceu à venda por 600 mil euros. O que sei é que era do maior interesse que o quadro ficasse em Portugal, mas o Museu Nacional de Arte Antiga não tinha no seu orçamento uma verba tão avultada que permitisse a sua compra. Foi então lançada uma campanha de subscrição pública na Internet (chamada crowdfunding), sob o lema "Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo". A campanha foi tão bem feita que resultou em pleno. Nunca uma obra de arte mobilizou tanta gente em Portugal, disposta a pagar tanto dinheiro por ela. O Museu Nacional de Arte Antiga reuniu mais de 750 mil euros no fim da campanha, em 30 de abril de 2016, e o quadro foi comprado.

Domingos António de Sequeira nasceu em Lisboa no ano de 1768, no seio de uma família modesta. Foi educado na Casa Pia de Lisboa e cedo revelou uma notável vocação artística. Aos 20 anos de idade conseguiu uma bolsa atribuída pela rainha D. Maria I e foi estudar para Roma. Quando voltou a Portugal, tornou-se pintor da corte e colaborou ativamente nas pinturas do Palácio da Ajuda, em Lisboa. Politicamente, apoiou, primeiro, as Invasões Francesas e, logo a seguir, a resistência anglo-lusa às tropas invasoras. Mais tarde, apoiou a Revolução Liberal de 1820 e, quando a situação política se inverteu, com a implantação do Absolutismo miguelista, teve que se exilar, primeiro em França e depois em Roma, onde acabou por falecer em 1837. Está sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma.


O Príncipe Regente Passando Revista às Tropas na Azambuja, 1803, óleo sobre tela de Domingos António de Sequeira (1768–1837). Palácio Nacional de Queluz, Queluz, Sintra, Portugal

Junot Protegendo a Cidade de Lisboa, 1808, óleo sobre tela de Domingos António de Sequeira (1768–1837). Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

Retrato do Conde de Farrobo, 1813, óleo sobre tela de Domingos António de Sequeira (1768–1837). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

Mariana Benedita Sequeira, c. 1822, óleo sobre tela de Domingos António de Sequeira (1768–1837). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

10 novembro 2021

Há dias morreu Nelson Freire, um pianista discreto mas insuperável


Concerto para Piano e Orquestra N.º 5 em mi bemol maior, op. 73, de Ludwig van Beethoven (1770–1827), pelo pianista brasileiro Nelson Freire (1944–2021), acompanhado pela Orquestra Nacional de Lille, dirigida pelo maestro francês Jean-Claude Casadesus

07 novembro 2021

Um poema sem sentido


O escritor inglês Lewis Carrol (1832-1898), autor do famoso livro Alice no País das Maravilhas, gostava muito de inventar palavras. Algumas destas palavras tinham um significado determinado, mas outras não significavam absolutamente nada. Lewis Carrol inventava-as por puro prazer.

No livro Alice do Outro Lado do Espelho, Lewis Carrol escreveu um poema inteiro que tem rima, tem métrica, tem ritmo, mas não quer dizer nada. Ou quererá dizer alguma coisa? É um poema recheado de palavras que não vêm em qualquer dicionário e não têm qualquer significado, mas o conjunto do poema tem uma sequência lógica e parece fazer sentido. O poema, supostamente escrito em inglês, é o seguinte:

JABBERWOCKY

‘Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

“Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!”

He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought—
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.

And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!

One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.

“And hast thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!”
He chortled in his joy.

‘Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

Como é que se traduz um poema destes para português? Será possível uma tal tradução ou será preferível deixar o poema na sua forma original?

Os diversos tradutores do livro decidiram criar eles próprios um poema que lhe possa equivaler. Das várias traduções publicadas, resultaram vários poemas
nonsense em suposto português que são muito diferentes uns dos outros, consoante o talento de cada tradutor. Dos poemas que encontrei na internet, o que me parece mais conseguido é da autoria do brasileiro Augusto de Campos, que é, ele mesmo, um poeta. A sua "tradução" é como segue:

JAGUADARTE

Era briluz. As lesmolisas touvas
roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

“Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!”

Ele arrancou sua espada vorpal
e foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

“Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh, dia fremular! Bravooh! Bravarte!”
Ele se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.


Supercalifragilisticexpialidocious, do filme Mary Poppins, de Robert Stevenson, com Julie AndrewsDick Van Dyke e The Pearlie Chorus

03 novembro 2021

Entrei no café com um rio na algibeira


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação…

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
—onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira (1900–1985)


(Foto: Paulo Videira da Costa)

27 outubro 2021

A celebridade e os principiantes


Concerto para piano e orquestra em lá menor, op. 54, de Robert Schumann (1810–1856), pela pianista argentina Martha Argerich, acompanhada pela Orquestra NEOJIBA, uma orquestra sinfónica juvenil do estado da Baía, no Brasil, dirigida por Ricardo Castro. Como encore, a peça Le Jardin Féerique, da suite Ma Mère l'Oye, de Maurice Ravel (1875–1937), por Martha Argerich e Ricardo Castro, em piano a quatro mãos

22 outubro 2021

Nossa Senhora da Orada, Melgaço


Igreja de Nossa Senhora da Orada, Melgaço

Fica na antiga estrada nacional que liga Melgaço à fronteira de São Gregório e é uma das muitas joias arquitetónicas românicas que, felizmente, abundam no noroeste de Portugal e não só. Refiro-me à igreja de Nossa Senhora da Orada, um pequeno tesouro fora dos grandes roteiros turísticos. Não sei se a atração que aquela igreja exerce se deve às suas proporções harmoniosas; à simbologia, muita dela misteriosa, esculpida nas suas pedras; à doçura da paisagem que a envolve, banhada pelo rio Minho; ao delicioso almoço, regado com alvarinho, tomado anteriormente num restaurante de Melgaço. Talvez se deva a tudo isto e muito mais. Se achar que estou a exagerar, então leia o que sobre Nossa Senhora da Orada escreveu José Saramago, em "Viagem a Portugal":

Logo adiante de Melgaço está Nossa Senhora da Orada. Fica à beira do caminho, num plano ligeiramente elevado, e se o viajante vai depressa e desatento passa por ela, e ai minha Nossa Senhora, onde estás tu? Esta igreja está aqui desde 1245, estão feitos, e já muito ultrapassados, setecentos anos. O viajante tem o dever de medir as palavras. Não lhe fica bem desmandar-se em adjectivos, que são a peste do estilo, muito mais quando substantivo se quer, como neste caso. Mas a Igreja de Nossa Senhora da Orada, pequena construção decentemente restaurada, é tal obra-prima de escultura que as palavras são desgraçadamente de menos. Aqui pedem-se olhos, registos fotográficos que acompanhem o jogo da luz, a câmara de cinema, e também o tacto, os dedos sobre estes relevos para ensinar o que aos olhos falta. Dizer palavras é dizer capitéis, acantos, volutas, é dizer modilhões, tímpano, aduelas, e isto está sem dúvida certo, tão certo como declarar que o homem tem cabeça, tronco e membros, e ficar sem saber coisa nenhuma do que o homem é. O viajante pergunta aos ares onde estão os álbuns de arte que mostrem a quem vive longe esta Senhora da Orada e todas as Oradas que por esse país fora ainda resistem aos séculos e aos maus tratos da ignorância ou, pior ainda, ao gosto de destruir.(...)




(Foto: José Antonio Gil Martínez)

14 outubro 2021

Música de Angola em várias línguas


Uma canção em quimbundo. Muadiakimi (Ancião), por Rui Mingas


Uma canção em quicongo. Iambula tuá Kina Kuetu (Vem para a Nossa Dança (?)), por Alberto Teta Lando


Uma canção em umbundo. Talama handi (Espera ainda), por Nelo Carvalho, sobre um poema de Gociante Patissa


Uma canção em português. Pátria Querida, por Sam Mangwana, um dos intérpretes mais populares de rumba congolesa


Uma canção em quioco. Azulula, por Gabriel Tchiema

12 outubro 2021

Diogo Teixeira


Flagelação de S. Brás, de Diogo Teixeira (c. 1540–1612), óleo sobre madeira, Museu Municipal de Óbidos, Óbidos, Portugal

Diogo Teixeira foi um pintor maneirista português, e dos mais importantes. Já aqui afirmei, e reafirmo agora, que o maneirismo em Portugal foi uma corrente artística à qual faltaram alguns atributos do maneirismo europeu, nomeadamente o espírito imaginativo, rebelde e até iconoclasta de que ele foi expressão por essa Europa fora. O maneirismo em Portugal foi ferozmente controlado pela Inquisição, assim como pelo dominação filipina do país, sendo um maneirismo castrado e jesuítico. A obra de Diogo Teixeira não podia escapar a este destino.

À imagem e semelhança de outros pintores seus contemporâneos, pouco se sabe sobre a biografia de Diogo Teixeira. Os trabalhos mais importantes que ele nos deixou talvez estejam em Lisboa, no retábulo do altar-mor da igreja de Nossa Senhora da Luz de Carnide, que foi pintado por ele e por Francisco Venegas. A igreja da Luz dos nossos dias não é mais do que a capela-mor de um grandioso templo cuja nave principal foi destruida pelo terramoto de 1755. Só sobreviveu a capela-mor, com o seu retábulo e algumas outras pinturas, igualmente maneiristas.


Incredulidade de S.Tomé, de Diogo Teixeira (c. 1540–1612), óleo sobre madeira, Museu de Arte Sacra do Mosteiro de Santa Mafalda, Arouca, Portugal

05 outubro 2021

Grito

De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.

José Fanha


Placa dourada enviada para o espaço em 1972, a bordo da sonda Pioneer 10

01 outubro 2021

Três múmias


(Imagem: Parabon NanoLabs)

Os três homens no apogeu da sua juventude que se veem nesta imagem são, na verdade, três múmias do Egito com mais de dois mil anos! Pois é. As múmias não foram sempre encarquilhadas e não estiveram sempre encerradas em sarcófagos. Foram pessoas que nasceram, cresceram, viveram, amaram, sofreram e morreram.

As imagens que acima se reproduzem são reconstruções digitais dos rostos de três múmias do Egito e foram obtidas a partir da análise do respetivo ADN. A recuperação do ADN destes três homens foi feita em 2017 pelo Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, em Tübingen, Alemanha, tendo sido esta a primeira vez que se conseguiu sequenciar totalmente o genoma de antigas múmias. A seguir, a empresa Parabon NanoLabs, de Reston, Virgínia, Estados Unidos, usou os dados obtidos para conseguir chegar ao aspeto que teriam os seus rostos e os seus corpos. Às imagens resultantes foi dado o aspeto que estes homens teriam aos 25 anos de idade. Estas imagens foram reveladas pela Parabon NanoLabs em 15 de setembro passado, em Orlando, Florida, Estados Unidos.

A conclusão a que se chegou depois de todo este processo é que os três homens tinham pele morena, cabelo escuro e olhos escuros, apresentando um aspeto que se assemelha mais ao dos povos que habitam atualmente a região do Mediterrâneo e do Próximo Oriente, do que ao dos egípcios modernos. Estes últimos terão sido o resultado da mistura dos antigos egípcios com gentes vindas ao longo dos séculos de outras paragens, como por exemplo o Sudão.

27 setembro 2021

Carlos Paredes, um mago da guitarra



25 setembro 2021

Os dois irmãos


Porta da muralha no Jardim dos Colegiais, Évora (Foto de autor desconhecido)

Um velho rico tinha dois filhos, e porque o maior que tinha carrego da administração da fazenda se casou sem licença, o lançou fora de casa, tirando-lhe a posse e mando que nela tinha, e além disto lhe cobrou ódio mortal com desejo de o empecer; e para o poder fazer ao menos na fazenda, imaginava sempre como per sua morte o deixasse deserdado e desse tudo ao outro filho menor. E achou que o faria, deixando de acabar umas casas sumptuosas que tinha começadas no melhor da cidade, as quais estavam já galgadas as paredes para lhe lançar o primeiro sobrado; e isto porque o que havia de gastar nelas ficasse em dinheiro na mão do filho menor quando ele lho quisesse dar. E passados anos, o velho perseverando em sua contumácia, não quis perdoar o filho nem lhe quis mais ver o rosto. E com este rancor morreu e deixou grande fazenda em dinheiro, ouro e prata ao segundo filho, dando-lhe na mão, porque não desse dali parte ao outro, ao qual ele deserdara, de todo se perdera. Coube ao maior tão pouco, que não houve bem para se vestir de dó ele e seus filhos, que, como havia dias que era casado, tinha quatro crianças, e assi ficou pobre e cercado de trabalhos e muita necessidade, que, vendo-se o mais velho em tanta miséria foi ao irmão, e com lágrimas lhe disse:

— Irmão, bem sabes e vês minha necessidade e pobreza; rogo-te que me dês estes princípios de casas que meu pai deixou de acabar, porque alimpadas com meu trabalho e de minha mulher e filhos, as possa cobrir de trouxa e agasalhar-me dentro; que elas a ti não te aproveitam, nem as estimas, e estão em esterqueira do concelho, feitas pardieiro; elas estão galgadas de maneira que sem lhe acrescentar parede, ali as cobrirei do que puder, e nisto me farás grande esmola.

O irmão menor vendo a necessidade de seu irmão, e como dizem, porque o sangue não se roga, entregou-lhe as casas, e fez-lhe delas sua carta de doação livre e desembargada.

Passados anos o irmão menor veio a casar, e porque a quem tem muito lhe dão mais, deram-lhe grande dote com uma mulher tão cobiçosa da fazenda, que o muito que tinha lhe parecia nada, e o pouco alheio cuidava que era muito e o queria e cobiçava para si. E desta maneira, indo um dia a visitar a mulher do cunhado, irmão de seu marido, viu o princípio e entrada da casa e o portal de pedraria que mostrava demandar mais água, que ser logo em cima coberta de trouxa como estava, e cobiçosa de haver aquele assento e fazer nele casas para sua morada custosas e ricas, sem fazer ali muita tardança veio ao marido e disse-lhe — que comprasse aquele assento a seu irmão, dando-lhe por ele com que podesse haver casas pera si em outra parte. E ele lhe respondeu: — que o não faria, porque ele lho dera feito pardieiro, que não era razão pedir-lho agora que o tinha limpo, ainda que fosse por compra.

Quando ela isto ouviu, ali foi a grita, que em toda a vizinhança se ouviu seu brado, dizendo: — que folgava muito de saber que ele lho tinha dado, porque já agora não dizia ela por dinheiro, mas sem ele lho havia de dar, e se não fosse em paz e por bem, seria por justiça. E dava logo esta razão:

— Se vós lho destes solteiro éreis menor; e se lho destes em casado, a dada não vale, que eu não consinto.

E isto dizia tão menencória e pelejando, que o marido não tinha mesa nem cama sem arruído. E assi fez tanto, que por ter paz o marido citou a seu irmão, pedindo-lhe as casas que lhe dera; e processado o feito, que correndo seus termos ordinários saiu por sentença a doação por boa. E assi foi a propriedade julgada ao pobre; porém, a mulher do rico mal contente, fez agravar da sentença e seguir o feito até mor alçada, e assi foi à Suplicação, que então estava na cidade de Évora. E partindo de Lisboa, o rico ia a cavalo e com grande cevadeira, e o pobre a pé com dous pães e quatro cebolas no capelo; e assi caminharam pera haver final sentença. Indo assi caminhando pera Évora, foram pousar uma noite na Landeira em casa de um vendeiro, que havia dezoito anos que era casado e nunca tivera filho nem filha; e estava rico e contente, porque a este tempo tinha a mulher prenhe, quase em dias de parir. E por ser muito conhecido do rico o agasalhou e pôs grande mesa, dando-lhe de cear o melhor que ele pôde e tinha; assi se puseram a cear com grande festa, fazendo assentar à mesa a mulher do vendeiro pera que como prenhe tomasse de cada cousa um bocado. E o pobre homem, sem dizer que era irmão do rico, se assentou derredor do lume, e pôs no borralho a assar uma cebola para sua ceia, que assada a ceou com seu pão e água. Esta mulher prenhe ainda que estava à mesa com o marido e hóspede, onde tinham bem que cear, e recebiam gosto de lhe dar o que ela pedia por que não perigasse, não lhe pareceu bem nada do que ali havia, nem lhe prestava coisa que comesse, cheirando-lhe a cebola, que se assava, que morria por ir comer dela, e com vergonha do hóspede não se erguia da mesa, tomou-lhe tal desmaio que caiu no chão, e como a criança era já grande a boa mulher com grande trabalho moveu aquela noite antes de muitas horas com muito pesar e dor do marido, o qual, inquirindo da mulher se desejara alguma cousa, tanto que ela lhe disse que da cebola assada que aquele homem ceara, se foi a ele com grande ira, que o queria matar a punhadas, e sem falta o fizera, se o irmão o não escusara, dizendo:

— Eu vou com ele em demanda à corte; se vos parece que vos tem culpa e é caso de o matar, como queres, hi comigo e acusai-o, e lá vos farão justiça.

Tanto que veio a manhã, determinou o vendeiro ir acusá-lo à corte. E assi como o rico se pôs a cavalo, partiram ambos para a cidade de Évora donde o vendeiro pretendia fazer enforcar aquele pobre homem. E assi caminharam os dous a cavalo, e o pobre a pé; chovia, e havia chovido toda a noite passada, de maneira que o caminho tinha a lugares lamas e atoleiros, porque era tempo de inverno. A esta conjuncção achou no próprio caminho um homem, que com uma azémela estava metido no olho de um grande lamarão de barro, tão pesado que não podia sair, nem valer-se a si, nem à azémela, e ainda que bradou pelos que passavam a cavalo, nenhum quis acudir. Até que chegou este pobre homem que caminhava a pé, e com muito mais trabalho que todos e de feito o ajudou com vontade a livrar daquela afronta; e fez de maneira com que, tirando o homem da pressa de sua pessoa, buscaram ambos mata que lançar aderredor da azémela para poder chegar a ela sem atolar. Trabalhou tanto o pobre homem nisto, tirando a vezes pelos pés e mãos, e outras pelo cabresto e rabo, com a força que ele pôs lhe ficaram nas mãos tantas sedas do rabo da azémela, que lhe davam grande fealdade. O dono, tanto que viu o defeito da azémela veio a grandes brados com o pobre, dizendo que acinte lhe arrancara o rabo, e que lhe havia de pagar por justiça o defeito, e que sobre isso iria à corte; e assi indo alcançou os outros que iam diante na primeira venda donde estavam pousados e lhe fez queixume do pobre que vinha a pé, muito triste de se ver com tantos desastres como lhe aconteciam sem ele ter culpa; e porque não acontecessem mais, não quis pousar naquela venda, mas só se pôs ao caminho e chegou a Évora a tempo que já lá estavam. E considerando o pobre como havia de parecer com três demandas diante do Regedor, assentou que era melhor matar-se ele mesmo a si, que ver-se em poder de seus inimigos, e logo o pôs por obra desta maneira. Subindo pela escada do muro da cidade, foi acima até chegar às ameias da torre que está sobre a porta, e deixando-se cair da torre abaixo para a banda de fora. Ora, aquela manhã, depois de tanta chuva, tinha amanhecido o dia bom e muito fermoso; um velho que estava entrevado doente e morava ali perto, por gozar o sol deste dia se fez levar ao soalheiro ao pé do muro, por ali aquecer e ter refrigério de ver e falar com alguns conhecentes que passavam; e assi pouco depois dele assentado em uma cadeira, vêdes, vem de cima do muro pelos ares aquele homem, que desesperado por se ver com tanta demanda se lançou desejoso de receber a morte, o qual veio direitamente dar sobre o desditoso velho, morreu, e o pobre homem que desejava morrer não recebeu nenhum dano da queda, que foi toda em cheio sobre o velho. Ao qual logo acudiram dois filhos que tinha, e achando-o morto lançaram mão do matador e preso o levaram ante o Regedor. Porém atravessando com ele pela praça, foi visto do irmão e dos outros dois contrários, que o estavam aguardando; tomou o irmão a dianteira, e o vendeiro também queria dizer seu queixume e o da azémela o mesmo, de maneira que cada um se atravessava por falar, não deixando dizer ao outro. Tanta briga tiveram entre si, que o Regedor olhou nisso e logo naquele instante propôs em si, que se achasse da parte do pobre alguma coisa com que por direito o pudesse favorecer, que o faria de boa vontade. E disse:

— Que as pessoas que tinham que dizer contra aquele homem dissessem um a um, começando primeiro quem primeiro teve a diferença; e assi cada um per sua ordem.

Pelo qual o irmão foi o primeiro, que lhe pediu as casas fundando-se nas razões já ditas; ao qual respondeu o pobre com a verdade do caso como passava. O Regedor disse:

— Eu mando que este fique com as casas como estão julgadas, e que vós que sabeis que lhas pedis mal e com malícia insistis nisso, lhe pagueis a ele duzentos mil réis.

E logo foi por eles preso, e não foi solto até pagar. Concluído este veio o vendeiro, dizendo que lhe fizera mover a mulher; ao qual respondeu o pobre com a verdade, contando como passara. E o Regedor visto o caso julgou ao pobre por sem culpa, e que o vendeiro pela afronta em que o pusera e em emenda do dano que lhe fez em sua casa dando nele, lhe pagasse cinquenta cruzados. E logo veio o da azémela, pedindo que maliciosamente pegara no rabo daquela alimária e lho arrancara; o qual era muito defeito e grande fealdade, que lhe mandasse pagar o que fosse avaliado. Ao que foi respondido pelo pobre, dizendo que o ajudara a sair do atoleiro; ouvido pelo Regedor e vista a ingratidão foi julgado por ele que a azémela ficasse em poder do pobre tanto tempo até que lhe nascesse o rabo, e se servisse dela, e se o dono apelasse disso pagasse cinquenta cruzados. Isto concluído, os filhos do velho que estava morto, alcançaram as vozes pedindo justiça.

— Este matou; o matador morra por isso que assi é justo.

O Regedor quis saber o caso miudamente, e ouviu ao pobre como e porque se lançara do muro abaixo. O que tudo visto mandou que aquele homem acusado fosse assentado na cadeira em que estava o velho quando morreu, e o acusador se subisse ao muro e se lançasse dele abaixo como o outro fez e assi caísse sobre ele e o matasse, que desta maneira o matador pagaria como pecou; e se não quisessem aceitar isto, que pagassem ao pobre pela afronta em que o puseram cinquenta cruzados.

Os filhos do velho, visto que podia ser deitando-se do muro errar o golpe e não lhe fazer dano, e o que se lançasse corria muito risco de perigar, davam brados, e foram logo retidos e houveram por bem de pagar os cinquenta cruzados, antes que aventurar a vida. E assi o homem acusado ficou livre e com muito dinheiro com que se tornou para Lisboa na azémela, que lhe julgaram.


Gonçalo Fernandes Trancoso (c.1520–1596), Contos e Histórias de Proveito e Exemplo

18 setembro 2021

Os prémios Ig Nobel de 2021


(Foto de autor desconhecido)

Como é sabido, todos os anos é atribuído o Prémio Nobel, que tem por finalidade premiar os melhores trabalhos feitos em diversos campos da Ciência, da Economia, da Literatura e da Paz.

Menos conhecido do que o Prémio Nobel é o Prémio Ig Nobel, que também é anual e é promovido pela revista científica norte-americana Annals of Improbable Research. Apesar do seu nome ter sido inspirado na palavra ignóbil, o Prémio Ig Nobel não é necessariamente um anti-Nobel, que premeie os piores trabalhos científicos. O que ele é, é um prémio destinado a galardoar os trabalhos mais insólitos e divertidos. A intenção do Prémio Ig Nobel não é castigar, mas sim dar umas boas gargalhadas. É um prémio que distingue os trabalhos que primeiro fazem rir e depois fazem pensar.

Segue-se a lista dos prémios Ig Nobel atribuídos neste ano de 2021.


PRÉMIO IG NOBEL DA BIOLOGIA

Uma equipa de investigadores da Suécia analizou as diversas formas de comunicação dos gatos (miau, ronrom, fffffff, etc.) e a sua compreensão ou não pelos humanos. Susanne Schötz, da Universidade de Lund, que é membro da equipa, afirmou que, quando querem comida, os gatos fazem um miado que se torna mais agudo no final, mas se se sentirem angustiados (como quando são levados ao veterinário, por exemplo), fazem um miado que se torna mais grave no final. Susanne Schötz deu a ouvir gravações de vocalizações de gatos a um grupo de 30 pessoas e descobriu que os humanos, em geral, adivinham as intenções dos gatos. Como facilmente se compreende, as pessoas que têm gatos são as que mais facilmente adivinham o que eles querem comunicar.

PRÉMIO IG NOBEL DA ECOLOGIA

Uma equipa de Espanha e do Irão fez uma análise genética das diferentes espécies de bactérias que estão presentes em bocados de chiclete usado e deitado fora, e que fica colado ao pavimento em diversos países.

PRÉMIO IG NOBEL DA QUÍMICA

Investigadores da Alemanha, Reino Unido, Nova Zelândia, Grécia, Chipre e Áustria fizeram uma análise química do ar existente no interior de salas de cinema, para saber se os odores produzidos pelo público assistente são capazes de indicar os níveis de violência, sexo, comportamento antissocial, uso de drogas e linguagem ordinária contidos nos filmes.

PRÉMIO IG NOBEL DA ECONOMIA

Pavlo Blavatskyy descobriu que a obesidade dos políticos de um país pode ser um bom indicador do nível de corrupção existente nesse país.

PRÉMIO IG NOBEL DA MEDICINA

Uma equipa da Alemanha, Turquia e Reino Unido descobriu que o orgasmo pode ser um bom descongestionador nasal, mas o seu efeito só dura uma hora.

PRÉMIO IG NOBEL DA PAZ

Uma equipa de investigadores dos Estados Unidos testou a hipótese de a espécie humana ter desenvolvido o crescimento de barba nos homens, para que estes se protegessem de murros na cara.

PRÉMIO IG NOBEL DA FÍSICA

Uma equipa da Holanda, Itália, Taiwan e Estados Unidos fez experiências para tentar descobrir porque é que as pessoas numa multidão não chocam constantemente entre si.

PRÉMIO IG NOBEL DA CINEMÁTICA

Investigadores do Japão, Suíça e Itália fizeram experiências para saber porque é que há pessoas na rua que chocam por vezes com outras pessoas. Concluíram que isso se deve em boa parte ao uso de telemóveis.

PRÉMIO IG NOBEL DA ENTOMOLOGIA

Uma equipa de investigadores dos Estados Unidos publicou um estudo sobre um novo método de controlar as baratas nos submarinos, porque o inseticida que era usado deixava a tripulação mal disposta.

PRÉMIO IG NOBEL DOS TRANSPORTES

Uma equipa da Namíbia, África do Sul, Tanzânia, Zimbabwe, Brasil, Reino Unido e Estados Unidos fez experiências para saber se era mais seguro transportar rinocerontes pelo ar, de cabeça para baixo. Descobriu-se que é.

12 setembro 2021

Homenagem a Jorge Sampaio, um Senhor


(Foto: Maria)

Inclino-me perante a memória de Jorge Sampaio (1939–2021), que provou que se pode fazer política sem abdicar dos valores éticos e humanos. Sabendo que ele era amante da música, dedico-lhe a Passacaglia e Fuga em Dó Menor, BWV 582, de Johann Sebastian Bach (1685–1750), por Karl Richter (1926–1981) tocando o órgão da catedral de Notre-Dame de Paris.



05 setembro 2021

Femme nue au chien


Femme nue au chien (Mulher nua com cão), óleo sobre tela do pintor francês Gustave Courbet (1819–1877), Musée d'Orsay, Paris, França

Neste quadro de Gustave Courbet podemos ver Léontine Renaude, modelo e amante do pintor, nua na companhia de um cão. Não sendo tão provocante como o famoso quadro A Origem do Mundo, também de Courbet, esta pintura não deixa de possuir igualmente um intenso erotismo, não só pelo que está representado, mas também e sobretudo pelo que é sugerido.

02 setembro 2021

Um furacão chamado Tina


Proud Mary, por Tina Turner, num espetáculo ao vivo que teve lugar em Londres em julho de 2000, quando a "avozinha do rock" já tinha 60 anos de idade

31 agosto 2021

A imóvel jornada


Os rastros que deixei
no chão petrificados
agora que tornei
estão em mim gravados.
Parti, por que não sei
se tudo ao meu redor
comigo era levado:
os sonhos, a paisagem,
o corpo atormentado,
esquinas dos encontros
por gaze separados,
as chamas sobre os dedos,
o peito apunhalado.
No círculo da estrada
eu sigo e estou parado,
não sei a quem procuro
(serei o procurado?).

Geraldo Falcão, poeta brasileiro


Pegada humana com cerca de doze mil anos, em lago seco do Novo México, Estados Unidos da América (Foto: M. Bennett, Universidade de Bournemouth)