19 julho 2019

Há 90 anos no Japão


Cenas do quotidiano e outras, filmadas com som em 1929 na cidade de Quioto, Japão

11 julho 2019

Mordillo (1932-2019)



Faleceu no passado dia 29 de junho, com 86 anos de idade, o desenhador argentino Guillermo Mordillo, autor de um notável conjunto de desenhos que têm feito as delícias de sucessivas gerações. Praticando um humor puramente visual, cheio de cor e de nonsense, Mordillo teve como temas principais, nos seus desenhos e nos seus filmes, os animais (sobretudo girafas e elefantes), os desportos (com destaque para o futebol e o golfe), o amor e outros aspetos da vida em sociedade, que ele caricaturou de modo insuperável. Estão publicados diversos livros seus em Portugal, sob a chancela da editora Booktree, os quais podem ser adquiridos nas livrarias ou através da internet. Mordillo já não faz parte deste mundo, mas continua a fazer-nos rir de nós próprios. Deixou uma grande saudade.




08 julho 2019

Um homem conhecido


Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça, por João Gilberto (1931–2019)

Assim que eu soube do falecimento de João Gilberto, apressei-me a fazer um post em sua homenagem. Antes que eu tivesse podido publicar o post, fui interrompido, não importa saber por quem. Assim que regressei, a fim de concluir a tarefa que tinha ficado em suspenso, verifiquei que muitas outras pessoas já tinham manifestado o seu pesar e admiração por João Gilberto, na "blogosfera" e nas redes sociais. Suspendi a minha publicação, porque ela viria a ser unicamente mais uma homenagem, a juntar a muitas e muitas outras que já havia, e não trazia nada de novo.

Há pouco, soube que um energúmeno que dá mais valor às armas, que são instrumentos de morte, do que à cultura, que é fonte de vida, disse que João Gilberto tinha sido apenas «um homem conhecido». Agora, sim, tenho razão para manifestar a minha homenagem a João Gilberto. Todas as que se puderem fazer não serão de mais. Na verdade, João Gilberto subiu ao Olimpo, a morada dos deuses como ele, enquanto Jair Bolsonaro tem um lugar reservado no caixote do lixo da história.

04 julho 2019

A Paz

Um capacete de guerra tem um ar carrancudo.
Muito mais bela é uma flor.
Uma flor tem tudo
para falar de paz e de amor.

Mas se virarmos o capacete de guerra
ele será um vaso, e é bem capaz
de ter uma flor num pouco de terra
e falar de amor e de paz.

A paz é uma pomba que voa.
É um casal de namorados.
São os pardais de Lisboa
que fazem ninho nos telhados.

E é o riacho de mansinho
que saltita nas pedras morenas
e toda calma do caminho
com árvores altas e serenas.

A paz é o livro que ensina.
É uma vela em alto mar
e é o cabelo da menina
que o vento conseguiu soltar.

E é o trabalho, o pão, a mesa,
a seara de trigo ou de milho,
e perto da lâmpada acesa
a mãe que embala seu filho.

A paz é quando um canhão
muito feio e de poucas falas,
sente bater um coração
e dispara cravos, em vez de balas.

E é o abraço que dás
no dia em que tu partires,
e as gotas de chuva da paz
no balanço do arco-íris.

A paz é a família inteira
na alegria do lar,
bem juntinho à lareira
quando o inverno chegar.

A paz é a onda redonda
que da praia tem saudades
e muito mais do que a onda
a paz é a vida sem grades.

A paz são aquelas abelhas
que nos dão favos de mel
e todas as papoulas vermelhas
que eu desenho no papel.

Ventoinha, ventarola,
Moinho que faz farinha,
Meninos que vão à escola,
A paz é tua e é minha.

É luar de lua cheia
tocando as casas e a rua,
são conchas, búzios na areia,
a paz é minha e é tua.

É o povo todo unido,
no mundo, de norte a sul,
e é um balão colorido
subindo no céu azul.

A paz é o oposto da guerra,
é o sol, são as madrugadas,
e todas as crianças da terra
de mãos dadas, de mãos dadas,
de mãos dadas.

Sidónio Muralha (1920–1982)


(Imagem de autor desconhecido)

02 julho 2019

Acalanto para Implumes


Acalanto para Implumes, do compositor português Álvaro Salazar, por um agrupamento musical não identificado

Hoje vou correr o risco de publicar um post impopular. Trata-se de uma peça de música contemporânea, ou de vanguarda, ou experimental, ou como lhe quiserem chamar, escrita por um dos mais notáveis compositores portugueses dos sécs. XX e XXI, Álvaro Salazar.

Eu tenho uma enorme dificuldade em falar sobre a música que ao longo do séc. XX se fez. No séc. XX, tomaram-se múltiplos caminhos musicais diferentes, como o neorromantismo, o dodecafonismo, a música eletroacústica, as experiências radicais de John Cage, a música tipo "noise", o minimalismo e muitos outros, não necessariamente por esta ordem. Algumas obras seguiram regras rigorosamente matemáticas. Outras romperam com todas as regras e tornaram-se completamente aleatórias. Outras mais procuraram imitar os sons do mundo real. Outras ainda procuraram seguir regras criadas ad hoc pelos seus autores. E por aí adiante, num universo sonoro caótico, que foi o que caracterizou musicalmente o séc. XX e continua a caracterizar o séc. XXI. Seguiram-se tantos caminhos, fizeram-se tantas experiências...

No entanto, ao público em geral quase tudo isto parece igual, uma cacofonia sem pés nem cabeça, simples barulho que não lhe diz nada e que recusa. Quem beneficiou com este caos musical foi a chamada música popular, qualquer que ela seja: tango, rock, pop, pimba, hip-hop ou o que se quiser. O público rejeita liminarmente a música contemporânea e agarra-se a uma música que lhe fale ao coração e não apenas ao cérebro, que tenha pelo menos uma linha melódica ou um ritmo, por exemplo; enfim, que tenha um padrão que as pessoas possam identificar e em que se reconheçam. A música contemporânea, essa, tornou-se extremamente elitista, que só é ouvida por um número ínfimo de pessoas, por mais genial que ela seja, e às vezes é mesmo.

Álvaro Salazar é um compositor nosso contemporâneo, nascido no Porto em 1938, que se dedica a escrever música de vanguarda, ou assim entendida como tal. É um dos maiores autores portugueses do género, a par de Jorge Peixinho, Emanuel Nunes, Cândido Lima e outros. Para ajudar (ou não) a compreender a peça que aqui proponho ouvir, permito-me reproduzir algumas afirmações suas, que se encontram na página que lhe é dedicada no portal do Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa. Passo a transcrever palavras de Álvaro Salazar:
«...desde sempre considerei a música, para além de uma via profissional, uma forma de estar no mundo e de tentar compreendê-lo. A música não é um mero tricot mental, uma actividade desligada do todo onde arte, ciência, história, filosofia e política dialogam, interagem e se completam.»

30 junho 2019

Das crianças ikpeng para o mundo



Marangmotxingmo Mïran (Das Crianças Ikpeng para o Mundo), vídeo de Kumaré Txicão, Karané Txicão, Natuyu Txicão e Mari Corrêa, em que quatro crianças do povo indígena brasileiro ikpeng, do Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso, apresentam a sua aldeia, as suas famílias, as suas brincadeiras e os seus brinquedos

O povo indígena brasileiro ikpeng é um povo de tradições guerreiras de menos de 500 pessoas, que vive no Parque Indígena do Xingu, MT, Brasil. Estes índios tiveram o seu primeiro contacto com brancos em 1964, através dos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas, e quase desapareceram de seguida, vitimados por doenças para as quais não tinham defesas naturais. Presentemente, os ikpeng convivem pacificamente com os outros povos do Xingu e cooperam com eles. Algumas pessoas deste povo têm páginas pessoais em redes sociais (dois exemplos, entre vários: Oreme Marlus Ikpeng e Korotowi Taffarel) e este povo, no seu conjunto, possui ele mesmo um portal na internet, que convido a visitar: http://www.ikpeng.org/index.php.

23 junho 2019

Flor da Rosa


O mosteiro fortificado de Flor da Rosa, Crato. À esquerda do portal principal, a parte monástica convertida em pousada. À direita, a igreja do mosteiro (Foto: hottholler)

O poético nome "Flor da Rosa" designa um mosteiro fortificado que fica a um par de quilómetros da vila alentejana do Crato. Este mosteiro foi sede da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários em Portugal, desde que veio transferida de Leça do Balio ou de Belver em 1340.

A construção deste mosteiro deve-se a D. Álvaro Gonçalves Pereira (1300–1379), que foi pai de D. Nuno Álvares Pereira (entre mais 31 ou 32 filhos que teve com várias mulheres) e cujo túmulo se encontra no interior da igreja. Poderá ter sido aproveitado um templo ou mesmo um mosteiro previamente existente neste local para vir a ser a nova sede da referida ordem religiosa militar.

Apesar do seu aspeto exterior bastante maciço, próprio de uma fortaleza, a igreja do mosteiro apresenta um interior surpreendentemente alto e esguio, característico do estilo gótico. O contraste entre o robusto exterior e o etéreo interior da igreja é verdadeiramente surpreendente. Quem se limitar a ver a igreja por fora, não fará a mínima ideia de como ela é por dentro.


Interior da igreja do mosteiro de Flor da Rosa (Foto: Guia da Cidade)

Ao contrário da igreja, a parte monacal e o claustro sofreram várias e significativas alterações ao longo dos tempos, sobretudo nos sécs. XVI e XVII. Esta parte da Flor da Rosa chegou a ser usado como paço real no tempo de D. Manuel I, do qual ainda restam elementos arquitetónicos manuelinos, renascentistas e mudéjares.

Houve uma campanha de restauro desta construção entre os anos 1940 e 1960, com vista a reabilitá-la das ruínas em que se tinha transformado e a repor alguma da sua originalidade na parte gótica. Já na década de 90, a parte monástica e o claustro foram convertidos numa pousada, segundo risco do arquiteto Carrilho da Graça.


Um quarto da pousada de Flor da Rosa (Foto: Pousadas de Portugal)

21 junho 2019

Alegrei-me


Moteto Lætatus Sum, RV 607, de Antonio Vivaldi (1678–1741), pelo San Francisco Girls Chorus, dirigido por Valérie Sainte-Agathe, e o agrupamento de música antiga Voices of Music, dirigido por Hanneke van Proosdij e David Tayler

O compositor barroco italiano Antonio Vivaldi foi um dos mais geniais compositores da música europeia de todos os tempos. Não há quem não conheça as suas "Quatro Estações", por exemplo, que são quatro concertos que correspondem cada um a uma estação do ano.

Hoje começa o verão, mas como já partilhei neste blog a audição das "Quatro Estações" de Vivaldi, incluindo o "Verão", proponho a escuta de uma outra peça do mesmo compositor: o moteto Lætatus Sum ("Alegrei-me"), baseado no Salmo 122. Como hoje também é o Dia Europeu da Música, vem a calhar.

Os coros infanto-juvenis que são mais conhecidos, como os Pequenos Cantores de Viena, são coros de rapazes. No entanto, os coros de raparigas não lhes ficam atrás, de maneira nenhuma, em termos de beleza e de frescura das vozes juvenis. Vivaldi foi professor de música num orfanato feminino de Veneza, o Ospedale della Pietà, e compôs muitas das suas peças com vista a serem cantadas e tocadas pelas internas do orfanato. Este moteto também deve ter sido composto com esse fim em vista. O resultado é o que aqui se ouve.

18 junho 2019

Leni Riefenstahl


Leni Riefenstahl ao lado de Adolf Hitler

Se alguém tiver vontade de ler o livro Mein Kampf ("A Minha Luta"), de Adolf Hitler, mas não o fizer por receio de se deixar convencer por ele, pode ler à vontade. O Mein Kampf não convence ninguém. É uma medíocre autobiografia de Hitler, que destila ódio por todas as páginas, mas este ódio é tão irracional, que só converte ao nazismo os já convertidos. É uma completa perda de tempo ler tal coisa. Não faltam livros incomparavelmente mais interessantes do que esse. Mas se fizerem questão em lê-lo, façam favor, estejam à vontade. Depois não digam que ninguém os avisou.

Se alguém quiser ver algum filme de Leni Riefenstahl, nomeadamente o filme Triumph des Willens ("O Triunfo da Vontade"), realizado em 1934, tenha cuidado. Pode não se converter à ideologia nazi, mas ficará por certo perturbado. Costuma-se dizer que «uma imagem vale mais do que mil palavras», o que é quase sempre verdade. Se se tratar de imagens trabalhadas de uma forma absolutamente magistral, como Leni Riefenstahl fez, então elas valem mais do que tudo quanto a propaganda nazi conseguiu produzir para além delas. Leni Riefenstahl foi um génio do mal. Os seus filmes figuram na história do cinema na galeria dos filmes malditos, juntamente com The Birth of a Nation ("O Nascimento de uma Nação"), de D. W. Griffith, por exemplo, que glorifica o Ku Klux Klan.

Após o fim da 2.ª Guerra Mundial, Leni Riefenstahl foi levada a julgamento perante o Tribunal de Nuremberga, mas acabou por ser absolvida, por não ter havido qualquer implicação pessoal direta sua no genocídio do Holocausto. Foi considerada apenas "simpatizante".


Nas Montanhas Nuba, Kordofan do Sul, Sudão, 1949. Após um combate corpo a corpo, o lutador vencido transporta em ombros o vencedor (Foto: George Rodger/Magnum)

Igualmente após o fim da 2.ª Guerra Mundial, o fotógrafo inglês George Rodger, que foi cofundador da Agência Magnum, decidiu partir para a África profunda, com o fim de tentar esquecer os horrores da guerra que testemunhou pessoalmente e de que deu conta na revista americana Life. Em 1951, a revista National Geographic publicou um conjunto de fotografias feitas por Rodger em África, que deixaram o mundo de boca aberta de espanto. Estas fotografias retratavam uma sociedade africana em estado aparentemente puro e supostamente imune a qualquer influência do mundo exterior, em que as pessoas apresentavam uma beleza física, uma altivez e um vigor que eram verdadeiramente extraordinários. Rodger, porém, não especificou em que parte de África captou as suas imagens, para que os forasteiros não a invadissem e não estragassem a sua alegada genuinidade. Mesmo assim, acabou por se saber onde ele tinha feito as suas incomparáveis fotografias: as Montanhas Nuba, no sul do Sudão. Mas não se confundam as Montanhas Nuba com a Núbia, que é uma região distinta, apesar da semelhança do nome. A Núbia fica no extremo norte do Sudão e as Montanhas Nuba ficam no sul.


Nas Montanhas Nuba, Kordofan do Sul, Sudão (Foto: Leni Riefenstahl)

Entretanto, Leni Riefenstahl era impedida de realizar filmes na Europa e na América, por causa do seu passado nazi, além de sofrer várias outras limitações. Ficando a saber onde George Rodger tinha tirado as suas espantosas fotografias, também ela decidiu ir até às Montanhas Nuba, ver ao vivo o que tinha visto nas imagens do grande fotógrafo inglês e fazer, ela também, as suas próprias fotografias no local. Leni Riefenstahl foi até às Montanhas Nuba e ficou apaixonada pelas gentes que lá encontrou. Em vez de ficar por alguns dias, algumas semanas ou mesmo alguns meses, ficou vários anos. Relacionou-se com os nubas e criou laços de amizade pessoais com alguns deles, apesar da aparente diferença cultural entre ela e os seus anfitriões. Descobriu que os seres humanos são essencialmente os mesmos, onde quer que vivam e quem quer que sejam, por mais exótica que a sua cultura possa parecer. Enquanto lá esteve, Leni foi enviando reportagens fotográficas suas para diversos órgãos de comunicação social, como "Paris Match", "L'Europeo", "Newsweek", etc. Também publicou livros de fotografia sobre os povos nubas, com algumas das suas melhores imagens.


Leni Riefenstahl de mão dada com um nuba, que lhe leva a caixa do equipamento fotográfico

Em 1972, Leni Riefenstahl tomou-se de uma nova paixão: a fotografia subaquática. Aprendeu a mergulhar e em 1978 publicou um livro com algumas das suas fotografias submarinas, chamado Korallengärten ("Jardins de Coral"), ao qual se seguiram outros. Com noventa e cinco anos, ainda ela fotografou tubarões debaixo de água! Quando tinha cem anos, foi estreado um seu novo filme, chamado Impressionen unter Wasser ("Impressões debaixo de Água"). Morreu em 2003, com 101 anos de idade.


Leni Riefenstahl acarinha uma criança nuba

A história da vida de Leni Riefenstahl não acaba aqui. Voltemos ao Sudão. Quando Leni Riefenstahl se instalou nas Montanhas Nuba, o Sudão era governado por um ditador chamado Gaafar Nimeiry, o qual foi derrubado em 1989 por um coronel do exército chamado Omar al-Bashir. Se Nimeiry não era flor que se cheirasse, Omar al-Bashir ainda era menos. Quis este tirano impor a islamização forçada de toda a população do país, o que provocou de imediato uma revolta no sul, cujos habitantes, incluindo os das Montanhas Nuba, eram maioritariamente cristãos e animistas. Seguiu-se uma terrível guerra civil entre o norte e o sul do Sudão.

Leni Riefenstahl, que já tinha regressado das Montanhas Nuba há muito tempo, assustada com as notícias que ia recebendo do Sudão e preocupada com a sorte dos seus amigos nubas, pediu ao governo sudanês autorização para visitar as Montanhas Nuba. A autorização foi-lhe negada, porque as referidas montanhas estavam em guerra. Determinada a ir de qualquer maneira, Leni Riefenstahl fez também o mesmo pedido ao movimento rebelde do sul do Sudão, o SPLM (Sudan Peoples Liberation Movement). Depois de duras e insistentes negociações com ambas as partes, foi o governo de Cartum que cedeu primeiro. Leni Riefenstahl deslocou-se, por fim, às Montanhas Nuba no ano 2000, integrada numa coluna militar sudanesa. Esta sua última visita resultou num desastre em todos os sentidos.

Quando chegou às Montanhas Nuba, Leni Riefenstahl foi recebida por milhares de pessoas. Levava consigo fotografias dos amigos que desejava voltar a encontrar. Mostrou as fotografias às pessoas, pedindo-lhes informações sobre os retratados, e teve como resposta que eles tinham morrido todos na guerra. Para seu desespero, Leni não encontrou um só amigo nuba que ainda estivesse vivo.

Ainda ela não tinha desistido completamente da sua busca, quando se desencadearam novos combates entre o exército e os rebeldes na zona onde ela estava. Fugiu à pressa num helicóptero, que veio a despenhar-se depois de ter feito escala em El Obeid, a capital do estado de Kordofan do Norte. Leni Riefenstahl ficou ferida na queda do helicóptero, sofrendo a fratura de algumas costelas e a perfuração de um pulmão, mas sobreviveu apesar da sua avançadíssima idade. Contudo, ela não viveria muito mais tempo. Um cancro matou-a três anos depois.


Leni Riefenstahl a seguir a um acidente de helicóptero sofrido no sul do Sudão

Este post devia ter acabado aqui. Mas os acontecimentos ocorridos nos últimos dias no Sudão levam-me a desenvolver um pouco mais o assunto das guerras provocadas por Omar al-Bashir, assim como da deposição deste facínora. Sobre o futuro do Sudão não me pronunciarei, pois não pretendo fazer concorrência a Nuno Rogeiro, o "especialista" em política internacional da nossa televisão…

Como disse mais acima, a islamização forçada de todo o Sudão pretendida por Omar al-Bashir levou o país a uma guerra civil, que opôs o Sul, maioritariamente animista e cristão, ao Norte, maioritariamente muçulmano. Esta guerra custou milhares e milhares de vidas humanas e resultou na secessão do Sul em 2011, o qual veio a ser um novo estado independente, com capital em Juba e chamado Sudão do Sul. As Montanhas Nuba, no entanto, cujos habitantes tinham vertido o seu sangue pela causa do Sul, acabaram por ficar no Norte, isto é, continuaram à mercê do regime criminoso instalado em Cartum! O mesmo se passou com o estado do Nilo Azul, que também ficou a norte da nova fronteira.

Não contente com a guerra que já tinha no sul do país, Omar al-Bashir "entreteve-se" a criar uma nova guerra, desta feita numa região do oeste do Sudão chamada Darfur. No Darfur, a guerra não opôs muçulmanos a cristãos e animistas, como no Sul, mas sim muçulmanos a outros muçulmanos. Enfim, al-Bashir comportou-se como um autêntico criminoso de guerra, em relação a quem o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu um mandado de captura, sob a acusação de crimes contra a humanidade. Ele teve a "honra" de ser o primeiro chefe de estado em exercício a ser objeto de uma tal acusação e de um tal mandado de captura emitido pelo TPI. Mas o mandado de captura nunca foi cumprido até hoje.

Nos últimos anos, a situação económica do Sudão deteriorou-se, provocando o descontentamento da população. Ainda por cima, Omar al-Bashir, que já estava no poder há trinta anos e tinha prometido que não se recandidataria às "eleições" presidenciais, faltou à sua promessa e voltou a apresentar-se como candidato. Uma tal situação provocou grandes manifestações de protesto em Cartum em dezembro de 2018, contra o ditador e a favor de um regime democrático. A repressão a estas manifestações levou à morte de 40 pessoas, pelo menos, e à detenção de mais de 800. Em 11 de abril de 2019, Omar al-Bashir foi derrubado e preso. Os militares que então tomaram o poder decretaram o estado de emergência por três meses, mas continuaram a verificar-se manifestações a favor da instauração de um poder civil e democrático no Sudão. A repressão a estas manifestações, desta vez por parte do novo poder militar, resultou em muitas dezenas de mortos e muitas centenas de feridos, só na cidade de Cartum. Quando ao que se passa no resto do Sudão, nada se sabe.

Neste preciso momento, os militares estão no poder no Sudão, mantêm Omar al-Bashir preso e acusado de corrupção, mas reprimem selvaticamente as manifestações a favor da democracia. A situação é altamente volátil e tudo pode acontecer.

13 junho 2019

Três Gnossiennes de Erik Satie


Gnossiennes n.os 1, 2 e 3, de Erik Satie (1866–1925), por um pianista não identificado

As Gnossiennes são composições para piano do francês Erik Satie, estilisticamente situadas na continuidade de outras peças anteriores a que ele tinha dado o nome de Gymnopédies. O nome Gnossiennes deriva talvez da palavra "gnose". Ao todo, Erik Satie compôs sete peças chamadas Gnossiennes. As três primeiras, que se dão aqui a ouvir, foram compostas em 1890 e publicadas em 1893. As restantes foram escritas mais ou menos na mesma época, mas só foram publicadas muitos anos depois da morte do seu autor.

07 junho 2019

Armando de Basto


O Meu Violão, Que Não Tem Cordas, Só Serve Para Isto (Retrato do Dr. Pimentel), 1918, óleo sobre tela de Armando de Basto (1889–1923), Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

Armando de Basto, de seu nome completo Armando Pereira Bastos de Loureiro, foi um pintor, escultor, caricaturista e decorador português, nascido no Porto em 1889. Estudou na Academia Portuense de Belas Artes entre 1903 e 1910, onde foi aluno de Marques de Oliveira e de José de Brito e onde estudou Desenho, Escultura e Arquitetura, sem contudo concluir qualquer destes cursos. Foi para Paris, onde se matriculou nos mesmos cursos, mas também não os concluiu por causa da vida boémia que levava e da sua dedicação à caricatura, que cultivou intensamente. Neste aspeto, Armando de Basto foi um admirador de Rafael Bordalo Pinheiro, Leal da Câmara e outros notáveis caricaturistas do seu tempo. Ainda em Paris, Armando de Basto privou com Diogo de Macedo, Modigliani, Amadeo de Souza-Cardoso, Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro, etc. De volta a Portugal, viveu algum tempo em Lisboa, na Praia da Granja e em Braga, cidade onde viria a morrer aos 34 anos de idade, vitimado pela tuberculose.

01 junho 2019

Sona Jobarteh


Gambia, por Sona Jobarteh e o seu grupo

Sona Jobateh é uma artista gambiana, cantora e tocadora de kora, nascida no seio de uma família de griots, que são músicos e narradores encarregados de preservar e transmitir oralmente a tradição histórica e cultural de alguns dos povos que vivem na África Ocidental.

Tradicionalmente, os griots eram exclusivamente homens, que passavam a sua arte de pais para filhos. Sona Jobarteh vem romper com esta tradição, demonstrando que uma mulher pode ser, pelo menos, tão boa griot como os seus pares do sexo masculino.


Bannaya, por Sona Jobarteh e o seu grupo

27 maio 2019

Um acróstico de Camões

Vencido está de amor  Meu pensamento,
O mais que pode ser     Vencida a vida,
Sujeita a vos servir e    Instituída,
Oferecendo tudo           A vosso intento.

Contente deste bem,      Louva o momento
Ou hora em que se viu  Tão bem perdida;
Mil vezes desejando      A tal ferida,
Outra vez renovar          Seu perdimento.

Com esta pretensão     Está segura
A causa que me guia    Nesta empresa
Tão sobrenatural,        Honrosa e alta,

Jurando não seguir      Outra ventura,
Votando só por vós      Rara firmeza,
Ou ser no vosso             Amor achado em falta.

Luís de Camões (c.1524–1580)


Este poema de Luís de Camões é um soneto e é também um acróstico. Um acróstico é uma composição poética em que algumas letras lidas na vertical constituem palavras inteligíveis, que são o tema do poema. Nos acrósticos comuns, o tema está contido na primeira letra de cada verso, de cima para baixo.

No caso deste soneto em particular, depois da primeira letra de cada verso, o tema continua numa letra do meio (mais ou menos) de cada verso também. Primeiro leem-se as primeiras letras de cima para baixo e a seguir as do meio, também de cima para baixo. Assim, neste acróstico, encontramos as seguintes letras:

VOSOCOMOCATJVOMVIALTASENHORA,

ou seja,

Vosso como cativo mui alta senhora.


Luís Vaz de Camões. Cópia de um retrato original desaparecido e feito por Fernão Gomes (1548–1612)

24 maio 2019

Álvaro Cassuto


Poema sinfónico Paráfrase sobre Temas do 1.º Andamento da 4.ª Sinfonia de Brahms, de Álvaro Cassuto, pela orquestra Nova Filarmonia Portuguesa dirigida por Álvaro Cassuto

Álvaro Cassuto é um maestro e compositor português, nascido no Porto em 1938. Como maestro, Álvaro Cassuto é o chefe de orquestra português mais conhecido e respeitado internacionalmente, tendo dirigido, ao longo da sua carreira, algumas das melhores orquestras do mundo e perante alguns dos mais exigentes auditórios do mundo.

Todos os maestros têm um compositor preferido. Uns preferem Beethoven, outros privilegiam Mozart, outros ainda dão mais relevo a Tchaikovsky e Álvaro Cassuto esforçou-se por divulgar a obra de Joly Braga Santos (1924–1988), que foi sem sombra de dúvida o maior sinfonista português do séc. XX.

Como compositor, Álvaro Cassuto é autor de diversas obras para orquestra sinfónica, orquestra de câmara, piano e orquestra, ópera, etc., entre as quais se inclui a Paráfrase que acima se pode escutar.

18 maio 2019

Cravo, rosa e jasmim


(Foto: Anna Armbrust)



Uma mulher tinha três filhas; indo a mais velha passear a uma ribeira, viu dentro da água um cravo, debruçou-se para apanhá-lo, e ela desapareceu. No dia seguinte sucedeu o mesmo a outra irmã, porque viu dentro da ribeira uma rosa. Por fim, a mais nova também desapareceu, por querer apanhar um jasmim. A mãe das três raparigas ficou muito triste, e chorou, chorou, até que tendo um filho, este quando se achou grande, perguntou à mãe porque é que chorava tanto. A mãe contou-lhe como é que ficara sem as suas três filhas.

— Pois dê-me minha mãe a sua bênção, que eu vou por esse mundo em procura delas.

Foi. No caminho encontrou três rapazes em uma grande guerreia. Chegou ao pé deles… «Olá, que é isso?»

Um deles respondeu:

— Oh, senhor; meu pai tinha umas botas, um chapéu e uma chave, que nos deixou. As botas em a gente as calçando, e lhe diga: Botas, põe-me em qualquer banda, é que se aparece onde se quer; a chave abre todas as portas; e o chapéu em se pondo na cabeça, ninguém mais nos vê. O nosso irmão mais velho quer ficar com as três cousas para si, e nós queremos que se repartam à sorte.

— Isso arranja-se bem, disse o rapaz querendo harmonizá-los. Eu atiro esta pedra para bem longe, e o que primeiro a apanhar é que há de ficar com as três cousas.

Assentaram nisso; e quando os três irmãos corriam atrás da pedra, o rapaz calçou as botas, e disse:

— Botas, levem-me ao lugar em que está minha irmã mais velha.

Achou-se logo numa montanha escarpada onde estava um grande castelo, fechado com grossos cadeados. Meteu a chave e todas as portas se lhe abriram; andou por salas e corredores, até que deu com uma senhora linda e bem vestida que estava muito alegre, mas gritou com espanto:

— Senhor! como é que pôde entrar aqui?

O rapaz disse-lhe que era seu irmão, e contou-lhe como é que tinha podido chegar ali. Ela também lhe contou a sua felicidade, mas que o único desgosto que tinha era não poder o seu marido quebrar o encanto em que andava, porque sempre lhe tinha ouvido dizer que só se desencantaria quando morresse um homem que tinha o condão de ser eterno.

Conversaram bastante, e por fim a senhora pediu-lhe para que se fosse embora, porque podia vir o marido e fazer-lhe mal. O irmão disse que não tivesse cuidado porque trazia consigo um chapéu, que em o pondo na cabeça ninguém mais o via. De repente abriu-se a porta, e apareceu um grande pássaro, mas nada viu, porque o rapaz quando sentiu barulho pôs logo o chapéu. A senhora foi buscar uma grande bacia dourada, e o pássaro meteu-se dentro transformando-se em um mancebo formoso. Em seguida olhou para a mulher, e exclamou:

— Aqui esteve gente! — Ela ainda negou, mas viu-se obrigada a confessar tudo.

— Pois se é teu irmão, para que o deixaste ir embora? Não sabias que isso era motivo para eu o estimar? Se cá tornar, dize-lhe para ficar, que o quero conhecer.

O rapaz tirou o chapéu, e veio cumprimentar o cunhado, que o abraçou muito. Na despedida deu-lhe uma pena, dizendo:

— Quando te vires em alguma aflição, se disseres: Valha-me aqui o Rei dos Pássaros! há de te sair tudo como quiseres.

Foi-se o rapaz embora, porque disse às botas que o levassem onde estava sua irmã do meio. Aconteceram pouco mais ou menos as mesmas cousas; à despedida o cunhado deu-lhe uma escama:

— Quando te vires em alguma aflição dize: Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Até que chegou também a casa da sua irmã mais nova; achou-a em uma caverna escura, com grossas grades de ferro; foi ao som das lágrimas e soluços dar com ela muito magra, que assim que o viu, gritou:

— Quem quer que vós sois, tirai-me daqui para fora.

Ele então deu-se a conhecer, e contou-lhe como achou as outras duas irmãs muito felizes, mas só com o desgosto de não poderem os seus maridos desencantar-se. A irmã mais nova contou-lhe como estava com um velho hediondo, um monstro que queria casar com ela por força, e que a tinha ali presa por não lhe querer fazer a vontade. Todos os dias o velho monstro vinha vê-la para lhe perguntar se já estaria resolvida a tomá-lo como marido; e que ela se lembrasse que nunca mais tinha liberdade, porque ele era eterno.

Assim que o irmão ouviu isto lembrou-se do encantamento dos dois cunhados, e pensou em apanhar o segredo por que ele era eterno; aconselhou à irmã que fizesse a promessa de casar com o velho, se lhe dissesse o que é que o fazia eterno.

De repente o chão estremeceu todo, sentiu-se como um grande furacão, e entrou o velho, que chegou ao pé da menina e lhe perguntou:

— Ainda não estás resolvida a casar comigo? Tens de chorar todo o tempo que o mundo for mundo, porque eu sou eterno, e quero casar contigo.

— Pois casarei contigo, disse ela, se me disseres o que é que faz que nunca morras?

O velho desatou às gargalhadas:

— Ah, ah, ah! Pensas que me poderias matar! Só se houvesse quem fosse ao fundo do mar buscar um caixão de ferro, que tem dentro uma pomba branca, que há de pôr um ovo, e depois trouxesse aqui esse ovo, e mo quebrasse na testa.

E tornou a rir-se na certeza de que não havia ninguem que fosse ao fundo do mar, nem fosse capaz de achar onde estava o caixão, nem mesmo de o abrir, e tudo o mais que se sabe.

— Agora tens de casar comigo, porque já te descobri o meu segredo.

A menina pediu ainda uma demora de três dias, e o velho foi-se embora muito contente. O irmão disse para ela, que tivesse esperança, que dentro em três dias estaria livre. Calçou as botas e achou-se à borda do mar; pegou na escama que lhe deu o cunhado e disse:

— Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Apareceu logo o cunhado, muito satisfeito; e assim que ouviu o acontecido mandou vir à sua presença todos os peixes; o último que chegou foi uma sardinhinha, que se desculpou por se ter demorado porque embicou num caixão de ferro que está no fundo do mar. O rei dos peixes deu ordem aos maiores que fossem buscar o caixão ao fundo do mar. Trouxeram-no. O rapaz assim que o viu, disse á chave:

— Chave, abre-me este caixão.

O caixão abriu-se, mas apesar de todas as cautelas, fugiu-lhe de dentro uma pomba branca.

Disse então o rapaz, para a pena:

— Valha-me aqui o Rei dos Pássaros.

Apareceu-lhe o cunhado, para saber o que ele queria, e assim que o soube mandou vir à sua presença todas as aves. Vieram todas e só faltava uma pomba, que veio por último desculpando-se, que lhe tinha chegado ao seu agulheiro uma antiga amiga que estava há muitos anos presa, e que lhe tinha estado a arranjar alguma cousa de comer. O Rei dos Pássaros disse que ensinasse ao rapaz onde é que era o ninho onde a pomba estava, e lá foram, e o rapaz apanhou o ovo que ela já tinha posto e disse às botas que o levassem à caverna onde estava a irmã mais moça. Era já o terceiro dia, e o velho vinha pedir o cumprimento da palavra da menina; ela, que já estava aconselhada pelo irmão, disse que se reclinasse no seu regaço; mal o apanhou deitado, com toda a certeza quebrou-lhe o ovo na testa, e o monstro dando um grande berro, morreu. Os outros dois cunhados quebraram ao mesmo tempo o encantamento, vieram ali ter, e foram com as suas mulheres, que ficaram princesas, visitar a sogra, que viu o seu choro tornado em alegria, na companhia da filha mais nova, que lhe trouxe todos os tesouros que o monstro tinha ajuntado na caverna.


Conto popular recolhido no Algarve.

Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

16 maio 2019

António Vaz


A Virgem com o Menino, c. 1540, óleo sobre madeira de António Vaz, Museu de Alberto Sampaio, Guimarães, Portugal

António Vaz foi um pintor português da oficina de Viseu, com atividade conhecida entre 1537 e 1569. Foi filho de Gaspar Vaz (a quem é atribuída a autoria do belíssmo quadro de São Pedro que pertence à igreja do mosteiro de São João de Tarouca), que por sua vez foi discípulo e colaborador do célebre pintor renascentista viseense Vasco Fernandes, mais conhecido por Grão Vasco. Ao contrário de Gaspar Vaz, seu pai, António Vaz já não é renascentista, mas sim maneirista, o que significa que a sua pintura deve ser "vista" de maneira diferente. Em vez de se procurar o ideal de beleza perseguido pelo Renascimento, deve-se buscar na arte maneirista o impacto e a emoção. A arte maneirista visava mais impressionar do que agradar.

12 maio 2019

O mosteiro de Ferreira


Capitéis do portal ocidental da igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira (Foto: Rota do Românico)

A região de Entre-Douro-e-Minho está recheada de monumentos românicos. Para quem, como eu, é um grande apreciador deste estilo arquitetónico medieval, o Entre-Douro-e-Minho é um paraíso. Só nas bacias dos rios Tâmega e Sousa, ambos afluentes do rio Douro, estão incluídos na chamada Rota do Românico 58 monumentos! Cinquenta e oito! Quase poderíamos dizer que a cada curva da estrada tropeçamos num monumento românico…

Uma tal profusão de monumentos românicos, que são quase todos igrejas, capelas ou mosteiros, deve-se ao estabelecimento de uma certa paz na região, depois de os mouros terem sido afastados para as margens do rio Tejo e de os normandos, ou vikings, terem deixado de constituir, eles também, uma ameaça. Esta paz permitiu que as populações pudessem criar alguma riqueza em terras agricolamente férteis. Esta (muito relativa) riqueza, por um lado, e a religiosidade cristã, por outro, associada, aliás, a crenças pagãs ainda vivas no imaginário popular, levaram à construção de numerosos templos e à implantação de ordens religiosas na região.


Portal ocidental da igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira (Foto: Rota do Românico)

A um par de quilómetros do centro da cidade de Paços de Ferreira, famosa pela sua indústria de mobiliário, e a idêntica distância da vila de Freamunde, muito procurada em vésperas do Natal por causa dos seus saborosos capões, fica a igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, classificada como Monumento Nacional.

As origens do mosteiro de Ferreira são anteriores à nossa nacionalidade, datando do séc. X, quando uma poderosa e influente condessa de Portucale, chamada Mumadona Dias, lhe fez referência no seu testamento. Mumadona Dias é uma figura incontornável da História do Condado Portucalense, a ela se devendo, por exemplo, a construção do castelo de Guimarães. Aparentemente, pelo menos, é também a ela que se deve a construção do mosteiro de Ferreira, se bem que o templo que hoje se ergue no local não seja o templo original de Mumadona Dias, mas um outro que o substituiu no séc. XII.

A atual igreja do mosteiro de Ferreira é um templo deveras interessante, sobretudo por causa do seu original portal ocidental, que parece feito de renda, e da existência de vestígios de um nártex ou galilé, provavelemente com função funerária, dos quais restam um muro, arcos de volta redonda e um campanário.


O campanário e antigo nártex da igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira (Foto: Rota do Românico)

08 maio 2019

Almoço na relva


Le Déjeuner sur l'herbe, óleo sobre tela de Édouard Manet (1832–1883), Musée d'Orsay, Paris, França

Le Déjeuner sur l'herbe é um quadro do pintor francês Édouard Manet que escandalizou o público quando foi exposto pela primeira vez, no ano de 1863, o que levou à sua retirada da exposição. Só muitos anos mais tarde é que esta obra foi socialmente aceite.

Logo no primeiro momento, o nosso olhar dirige-se para a figura brilhantemente iluminada de uma mulher nua. Ao pé dela, em contraste, estão dois homens vestidos que conversam entre si, parecendo quase ignorar a presença de uma mulher nua a seu lado. Se a mulher estivesse vestida, este quadro representaria um vulgar piquenique de burgueses. Mas ela está nua, e no entanto os seus companheiros não se mostram perturbados com a sua presença, como se a sua nudez fosse coisa normal.

Há quem veja nesta mulher nua a representação de uma prostituta. Discordo completamente. Se Manet quisesse representá-la como uma prostituta, não a teria retratado com o corpo dobrado de forma bastante recatada e com uma mão no queixo. Tê-la-ia representado com uma pose mais desbragada. Assim como está, esta mulher parece ser apenas uma amiga deles, que está nua simplesmente porque tomou banho no rio, lá atrás.

Em segundo plano, uma outra mulher, vestida com uma peça de roupa leve, ainda toma banho. No entanto, as dimensões desta outra mulher são demasiado grandes relativamente à distância que o quadro sugere. Propositadamente ou não, Manet quebrou a noção de perspetiva com a representação desta banhista. Uma tal ausência de perspetiva e as sombras muito suavizadas do quadro sugerem que ele foi pintado, não ao ar livre, como pareceria à primeira vista, mas sim num estúdio, com iluminação filtrada e com os três modelos em primeiro plano retratados diante de um cenário que representa uma mulher banhando-se.

01 maio 2019

A Internacional


Versão original e integral, em francês, de A Internacional, o hino dos partidos e movimentos anarquistas, socialistas, comunistas, sociais‑democratas, etc. A letra é do anarquista francês Eugène Pottier (1816–1887) e a música do anarquista e, posteriormente, comunista franco-belga Pierre de Geyter (1848–1932). Interpretação de Marc Ogeret

25 abril 2019

Lisboa perto e longe

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa — branca e rota
a blusa de seu povo — essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas — povo armado
de vento revoltado violas astros
— meu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros — mar aberto
— com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.

Lisboa é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.

Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.

Manuel Alegre. Poema escrito em 1967



A cidade de Lisboa vista do Ginjal, Almada (Foto: Um Jeito Manso)