18 outubro 2018

Censura em ação


No Brasil, durante a odiosa ditadura militar, Chico Buarque e Gilberto Gil não podiam cantar Cálice

14 outubro 2018

António Nogueira


Descida da Cruz, 1564, óleo sobre madeira de António Nogueira (?–1575), Museu Rainha D. Leonor, Beja, Portugal

António Nogueira foi um pintor maneirista português, sobre o qual não se sabe onde e quando nasceu. Sabe-se apenas que exerceu quase toda a sua atividade na segunda metade do séc. XVI, em Évora, e faleceu na mesma cidade no ano de 1575.

A corrente artística do Maneirismo, ao contrário da do Renascimento que a precedeu, não buscava a perfeição nem a beleza ideal, antes as sacrificava em favor de uma maior expressividade. Os artistas maneiristas não hesitavam em distorcer o objeto da sua arte, desde que com isso conseguissem obter um maior efeito dramático. A sua arte não era feita para agradar, mas sim para impressionar. É o caso do painel acima reproduzido, que está muito longe de ser "perfeito", mas que é um excelente exemplar de arte maneirista. Socorro-me das palavras de Joaquim Oliveira Caetano, que sobre ele escreveu:

(...)nos painéis de Beja, nomeadamente no Descimento da Cruz, (...) Nogueira mostra uma pintura bastante evoluída, dentro dos padrões maneiristas, com uma composição esvaziada de profundidade, uma tensão enorme no jogo das figuras e uma composição agitada entre volutas de panejamentos e de poses que se desenvolvem sobre a triangulação das escadas suportadas pela Cruz.

09 outubro 2018

A Fiandeira

Fazes bem mal, fiandeira,
Em fiar de noite e dia
Essa linhagem grosseira!
Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

Eu fui também fiandeiro:
Fiava ternos cuidados
Em vez de linho trigueiro…
Fez-se-me a roca em bocados
E já não sou fiandeiro!

Passava os dias fiando!
E só tristezas e dores
Ia no fuso enrolando…
Ai, antes no linho brando
Do que fiar em amores!

Chega-se ao cabo do dia
E a roca, por espiar,
Sempre da mesma maneira!
E vem depois a canseira,
E acaba a gente a chorar
Sobre a mortalha que fia!

Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

João Saraiva (Porto, 1866 – Lisboa, 1948)


A Fiandeira, canção de David de Souza (1880–1918) sobre poema de João Saraiva (1866–1948), por Ana Leonor Pereira (soprano) e António Ferreira (piano)

07 outubro 2018

Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo



Pelo tratado de Alcanizes, celebrado em 1297 entre o reino de Portugal e o reino de Leão e Castela, as terras de Riba Coa passaram a fazer parte do território português, em troca de outras terras que passaram para mãos castelhanas e leonesas. Este tratado determinou a marcação definitiva da fronteira portuguesa, que prevalece até à atualidade, salvo a cidade de Olivença que continua sob domínio espanhol, embora Portugal continue a reivindicar o seu direito sobre ela. A região de Riba Coa, assim tornada portuguesa, compreende os atuais concelhos de Sabugal, Almeida, Pinhel, Vila Nova de Foz Coa e Figueira de Castelo Rodrigo.

As terras de Riba Coa são, de uma maneira geral, terras pobres, pedregosas e áridas, pois não são mais do que o prolongamento para oeste da Meseta Ibérica, um planalto que abrange uma grande parte do interior da Península. Podemos também dizer, de um modo grosseiro, que esta região se vai tornando cada vez menos pobre e menos pedregosa à medida que caminharmos de sul para norte. Assim, os concelhos de Vila Nova de Foz Coa e de Figueira de Castelo Rodrigo são, de uma maneira geral, mais férteis do que os seus vizinhos a sul, com uma produção agrícola em que prevalece o cultivo da oliveira, da amendoeira e da vinha. Esta maior fertilidade implica um maior desafogo económico das suas populações e, consequentemente, uma maior riqueza das igrejas e conventos existentes nestes concelhos.

No caso do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, para além da vila histórica de Castelo Rodrigo, que foi reabilitada há poucos anos, podemos destacar alguns monumentos tais como a igreja de Escalhão (aconselho uma cuidada visita ao seu interior), a igreja matriz da própria sede do concelho, o convento de Santa Maria de Aguiar e a igreja matriz de Escarigo, que é dedicada a São Miguel.

Sem desprimor para as outras igrejas referidas, permito-me destacar neste momento a de Escarigo, situada numa povoação com este nome que fica muito próxima da fronteira com Espanha. O que esta igreja tem de mais notável é, talvez, o altar-mor barroco que contrasta com o seu teto mourisco. O teto deve ser do séc. XVI e o altar-mor do XVIII. Socorro-me de José Saramago, que no seu livro Viagem a Portugal escreveu melhor do que eu poderia alguma vez fazê-lo:

A igreja tem um retábulo barroco dos mais belos que o viajante viu até agora. Se tudo isso tivesse o vulgar e banal dourado-uniforme, não mereceria mais do que um olhar a quem não fosse especialista. Mas a policromia da talha é tão harmoniosa nos seus tons de vermelho, azul e ouro, com toques de verde e róseo, que se pode estar uma hora a examiná-lo sem fadiga. Quatro pelicanos sustentam o trono, e a porta do sacrário mostra um Cristo triunfante, numa moldura de anjos e volutas. E os anjos tocheiros ajoelhados que ladeiam o altar, vestidos de grandes flores e palmas, são uma admirável expressão de arte popular. Uma das imagens do retábulo é um S. Jorge famosíssimo que, sem espada nem lança, calca aos pés um dragão com cabeça de víbora. Num altar lateral há colunas de talha quase já sem pintura, com duas cabeças de anjos em alto-relevo, que são preciosa coisa. Não esquece o viajante o tecto da capela-mor, de alfarge, mas os seus olhos vão ficar em duas pequenas tábuas esculpidas, predelas de um retábulo, mostrando uma Anunciação e uma Visita da Virgem a Santa Ana, de tão puro desenho, de composição tão sábia, ainda que ingénua, que ficou contente de ter vindo de tão longe, lutando por uma chave que se esquivava, mas isso já lá vai, agora está em boa conversa diante deste S. Sebastião mutilado da sacristia, talvez o primeiro por quem o viajante se toma de afeição.

04 outubro 2018

António Manuel da Fonseca


Eneias Salvando seu Pai Anquises do Incêndio de Tróia, 1855, óleo sobre tela de António Manuel da Fonseca (1796–1890). Palácio Nacional de Mafra, Mafra, Portugal

António Manuel da Fonseca foi um pintor neoclássico português natural de Lisboa, cuja longa vida se estendeu por quase todo o séc. XIX. Produziu uma vasta obra pictórica versando, sobretudo, temas da antiguidade greco-romana, retratos de diversas personalidades e cenas históricas. Ocasionalmente fez também alguma escultura. Foi um artista muito apreciado e aclamado no seu tempo, a ponto de ser, nomeadamente, mestre de pintura do futuro rei D. Carlos, que foi, ele mesmo, um pintor de muito mérito também.

02 outubro 2018

Um Cristo feminino?



No primeiro instante em que virmos esta pequena escultura de marfim, julgaremos estar em presença de uma imagem de Cristo crucificado. Só a seguir notaremos que esta figura tem formas femininas e até um colar no pescoço! «O que é isto?! Um Cristo feminino?!», espantar-nos-emos, «Que figura é esta, afinal?» Isto é um pequeno pingente de marfim, feito para ser trazido ao peito como uma medalha, datado do séc. XVIII e proveniente do reino do Congo, ao que tudo indica no que é hoje Angola. Pertence a uma coleção privada.

Na transição do séc. XVII para o séc. XVIII, a captura e tráfico de escravos atingiam proporções pavorosas em África e o reino do Congo encontrava-se mergulhado numa guerra civil, onde se digladiavam três pretendentes ao trono. Foi no meio deste apocalíptico cenário que nasceu uma mulher que viria a desempenhar um papel muito importante na história do referido reino: Kimpa Vita.

Kimpa Vita (de seu nome de batismo Beatriz) foi uma profetiza que arrastou inúmeros seguidores no reino do Congo. Dizendo-se possuída por Santo António, Kimpa Vita pregou, por exemplo, que Jesus Cristo, Maria e outros santos católicos, como S. Francisco, tinham sido realmente bacongos. Fundou aquele que terá sido o primeiro movimento messiânico congolês, dois séculos antes do surgimento de outros movimentos messiânicos, como o Kimbanguismo e o Tocoísmo (fundados, respetivamente, por Simon Kimbangu e Simão Toco), os quais ainda existem, são muito respeitados e têm muitos milhares de crentes. O movimento criado por Kimpa Vita foi denominado Antonianismo, dada a importância que ela atribuiu a Santo António.

Do ponto de vista político, Kimpa Vita juntou-se ao campo de um dos pretendentes ao trono, chamado D. Pedro. Atraiu muita gente para a causa de D. Pedro, ajudando assim este a ganhar vantagem sobre os seus rivais e a tornar-se rei do Congo, como D. Pedro IV. D. Pedro, no entanto, recusou seguir a doutrina que Kimpa Vita pregava e ela passou-se para o campo de um rival, que também recusou ouvi-la. Enquanto isso, ela atraía cada vez mais seguidores e passou a ser crescentemente vista como uma ameaça. Acabou por ser capturada pelas tropas leais a D. Pedro IV e condenada à morte por "heresia" e "feitiçaria", com a cumplicidade de missionários capuchinhos. Foi queimada numa fogueira em 2 de julho de 1706. As suas cinzas foram queimadas uma segunda vez, para que o povo não as usasse como relíquias.

Aqui está a explicação para a figura representada neste pingente de marfim: não é Jesus Cristo, mas sim Kimpa Vita, ou Dona Beatriz como também foi chamada. Ela não está representada numa cruz como Jesus Cristo, mas muito provavelmente amarrada no cimo da pira em que iria morrer queimada. Só o anónimo artista que esculpiu esta figurinha é que poderia dizer qual a razão pela qual representou Kimpa Vita de forma a parecerse com Cristo.

30 setembro 2018

Pensas na morte?


Imagem da Guerra Colonial. Militares portugueses em 1973–74, algures nas matas de Angola onde combateram até à exaustão (Foto de Vítor Fernandes encontrada no Facebook)


Moçambique — Agosto de 1967 – Outubro de 1969

— Nobre, pensas na morte?

— Penso. E tu não pensas?

— Eu? Eu só não quero morrer.

Ontem, ainda brincava na rua, nas ruas da minha infância. A minha fronteira era o canto da minha rua. Lembro-me das brincadeiras, lembro-me dos gritos da minha mãe, chamando-me, quando a noite se aproximava.

Hoje, estamos na guerra, numa guerra de verdade, somos os soldados da Pátria, os salvadores de ideais, os seguidores de todos aqueles que deram novos mundos ao mundo. Não me lixem. Valsamos de um lado para o outro, a orquestra é a mesma, o maestro o mesmo. Sabes dançar? Sonhávamos, as distâncias não existiam, a fronteira do sonho era já ali. Crescemos, embebedamos as nossas angústias, abreviamos as noites, enganamos os fantasmas e a incerteza do amanhã. Conhecemos outros, outros da nossa idade que não foram amigos de infância, juntaram-nos, instruíram-nos, armaram-nos, ensinaram-nos a matar. Tenho saudades do mar, outros têm saudades da planície, outros do toque do sino da aldeia, da lareira, do canto do galo ou do pão da avó.

Não se morre na nossa idade, talvez a morte seja uma pausa na vida, depois voltamos, dizem. Temos vinte anos. Leio todas as cartas, todas as juras de um amor eterno. Não me esqueces? Não temos tempo para o esquecimento, consumimos o tempo, como se fosse um cigarro que nos queima os dedos. A morte? Apagamola no cinzeiro do esquecimento, restam as cinzas da dúvida. Esquecemos as vozes, os rostos. O tempo, o tempo entre um dia e outro dia, igual aos outros. Voltamos a casa, a minha é uma casa pintada de branco e com riscas azuis nas janelas, cortinados feitos de linho, bordados. Esperem por mim, isto não é mais do que um sonho, um pesadelo. Nascemos todos num lugar qualquer.

Que importam os dias, os meses, vivemos como se não houvesse amanhã. Não tenho palavras para dizer o que sinto, o que sentimos, vivemos, para cá do arame farpado, no lado dos bons, os maus são os outros, os que procuram a liberdade. Trocava esta paisagem de palmeiras, cajueiros e todas as buganvílias africanas por um cheiro a maresia, pelo som do motor de um barco a entrar na barra do rio Arade. Atravessamos oceanos, sobretudo os da nossa imaginação, como marinheiros de um barco fantasma, vencemos marés, tempestades de sentimentos. Queria que te lembrasses dos dias em que fomos felizes, dos dias em que não existia o medo da distância, da ausência, vamos e voltamos, num jogo de ping-pong, imaginado. Outra noite, ainda limpa de pesadelos. Hoje é domingo, um domingo de um mês qualquer, sem data, vazio, todos os dias são dias de guerra, de armas e de sentimentos. Matamos e morremos.

— Nunca pensei vir para África. Quando esta guerra começou, eu era um miúdo. Aprendi na escola os nomes das províncias ultramarinas. As capitais, os rios, as montanhas, os lagos e as linhas ferroviárias. Tudo isto ficava muito longe, no outro lado do mundo.

O Lopes falava em voz alta, sentado num cepo de árvore, enquanto descascávamos uma saca de batatas, já meio apodrecidas, as quais serviriam para acompanhar o peixe congelado, acabado de chegar na avioneta, vinda de Palma. Juntávamos as peles das batatas e oferecíamos ao velho maconde. Era assim que alimentava as galinhas, de vez em quando vendianos uma.

— Lembro-me do primeiro gajo, lá da minha terra, que foi mobilizado para Angola. Aquilo não foi uma despedida, foi um funeral antecipado. Nunca mais voltei à estação do comboio, desde aquele dia. Ninguém ficou em casa. Sabia que um dia chegaria a minha vez. Com o tempo, habituamo-nos a ver a malta partir. As partidas e as mortes anunciadas passaram a fazer parte das nossas vidas. Estou eu a descascar batatas e a falar destas merdas.

Estamos em pleno Cabo Delgado, o verde fere-nos os olhos, um vale que nos leva até junto da fronteira da Tanzânia, onde corre o rio Rovuma. Como irei descrever esta paisagem, esta orgia de cores, de árvores seculares. Nas noites sem luar e sem nuvens, o céu é um labirinto de estrelas, que correm de um lado para o outro. O Felgueiras tem razão, as estrelas não estão no mesmo sítio.

— Eu fui pastor durante três anos, antes de ser chamado para a tropa. Conheço bem o céu da minha terra, este não é igual.

Rimos.

As explicações ficariam para depois. Agora era o tempo de descascar batatas. Seis marmanjos à volta de um saco de batatas de má qualidade, como toda a comida do exército. Existem comprimidos para sonhar?

— Na última carta que recebi da minha mãe, contou-me que já foi a Fátima, ela, o meu pai e a minha irmã. Foram numa excursão organizada pelo sacristão da paróquia.

Agarrou mais uma batata.

— Não sei se vale a pena ir a Fátima. Antes de eu embarcar para Moçambique, a minha mãe foi ver uma bruxa, pagou vinte e cinco escudos, e esta disse-lhe que eu voltaria inteiro, sem qualquer ferimento. O que eu faria com aquele dinheiro, vinte e cinco paus são vinte e cinco paus.

Acabamos de descascar as batatas e foram entregues na cozinha. Mais uma batalha da batata estava… ganha. Tínhamos o resto do domingo para nós.

O Pereira, o algarvio da Fuzeta, um dos mais pequenos da nossa Companhia, continuava calado, deitado na cama, ninguém dava por ele, era como se a cama continuasse vazia. Nunca o vimos zangado, desorientado, revoltado por estar ali, para ele o que contava era estar vivo e contar os dias que passavam. Tinha com ele um terço, na algibeira da camisa do camuflado, o qual foi benzido durante a última missa a que assistiu, antes de zarpar para terras africanas. À noite pendurava-o num dos ferros da cama. Fuma que nem um “cavalo”. O pequeno rádio, pousado no travesseiro. Nunca percebemos quais eram as suas músicas preferidas, ouvia tudo e de tudo, até música tanzaniana.

— Nobre, podes cantar o Embuçado?

Ele não me tratava por marroquino, ele próprio também o era.

"Noutro tempo a fidalguia,
Que deu brado nas toiradas,
Andava p'la Mouraria
E em muito palácio se ouvia
Cantos e guitarradas."

( Nangade — Cabo Delgado — Moçambique.)

(Os nomes são fictícios; nenhum dos citados esteve na guerra e muito menos em Moçambique.)



José Nobre. Texto publicado pelo seu autor no Facebook

28 setembro 2018

O Brasil visto por Maureen Bisilliat



Maureen Bisilliat é uma fotógrafa inglesa de ascendência irlandesa, que fez do Brasil a sua segunda pátria. Foi o antropólogo Darcy Ribeiro (1922–1997) que a convenceu a fotografar o Brasil e alguns outros países da América Latina, tarefa esta que a apaixonou. Ao longo dos anos, Maureen Bisilliat foi publicando diversos ensaios fotográficos, de entre os quais se destaca o ensaio intitulado "A João Guimarães Rosa", inspirado no romance "Grande Sertão: Veredas", em que Maureen Bisilliat procurou documentar, pela imagem, a região e as pessoas que o grande escritor retratou, por palavras, nos seus livros. Outros importantes ensaios fotográficos de Maureen Bisilliat intitulam-se "Pele Preta", "Bumba-meu-boi na Festa de São João", "Bahia Amada/Amado", "As Caranguejeiras" (que retrata mulheres apanhando caranguejos na Paraíba), "Xingu", etc. Seguem-se algumas imagens de Maureen Bisilliat, a inglesa mais brasileira do mundo.


A JOÃO GUIMARÃES ROSA






PELE PRETA






AS CARANGUEJEIRAS






XINGU




24 setembro 2018

Jesu Redemptor



Primeira das duas versões conhecidas de Jesu Redemptor da autoria do compositor renascentista português Aires Fernandes, pelo Ensemble Eborensis, dirigido por Luis Henriques

Apesar de ter deixado numerosas obras, Aires Fernandes é um quase desconhecido compositor português, sobre o qual muito pouco se sabe. Exerceu a sua atividade na catedral de Coimbra (a atual Sé Velha, que era a única que existia no seu tempo) por volta do ano 1550 e deve ter morrido por alturas de 1600.

O Ensemble Eborensis é um grupo fundado em Évora por Luis Henriques e de constituição variável, que se dedica à interpretação da polifonia vocal dos séculos XVI e XVII.

22 setembro 2018

Elvas


Vista aérea do centro histórico de Elvas (Foto de autor desconhecido)

Não há outra cidade como Elvas. Justamente classificada como Património da Humanidade, a Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas é única e inigualável. Comparadas com ela, a vila de Almeida ou a fortaleza de Valença parecem castelinhos de brincar.

As origens de Elvas são muito remotas. Talvez Elvas tenha a sua origem num antigo castro celta, situado no local onde hoje está o castelo da cidade, castro este que foi sendo sucessivamente conquistado e ocupado por romanos, visigodos, árabes e portugueses.

Dada a sua localização fronteiriça, Elvas foi evoluindo ao longo dos séculos no sentido de se tornar cada vez mais um reduto defensivo, até que no séc. XVII se transformou numa poderosíssima fortificação, juntamente com os fortes vizinhos da Graça e de Santa Luzia, além de mais alguns fortins. Desempenhou um papel decisivo na defesa da independência de Portugal em 1659, como palco de uma batalha que se chamou das Linhas de Elvas, na qual os portugueses derrotaram os espanhóis de forma esmagadora. Graças a uma tal vitória, a independência de Portugal ficou assegurada até hoje.

Durante séculos e séculos, Elvas foi uma cidade militar (a chamada Praça-Forte de Elvas), habituada ao tilintar das espadas, ao toque dos clarins, ao ritmo compassado das botas, à presença constante das fardas nas suas ruas e travessas. Tudo isto desapareceu. Ficaram as muralhas (que chegam a ter vários metros de espessura!), as torres, os baluartes, as ameias, as guaritas, etc. O antigo Regimento de Lanceiros 1 é agora um museu militar. O antigo Batalhão de Caçadores 8 deu lugar a um hotel e à Escola Superior Agrária de Elvas. O Forte da Graça foi desativado e é agora uma atração turística que causa espanto a quem o visita. O comando da Praça-Forte de Elvas acabou. O Hospital Militar de Elvas foi encerrado. As portas da cidade deixaram de ser fechadas à noite, como acontecia há poucas dezenas de anos ainda!


Aqueduto da Amoreira, Elvas (Foto: Ann & Richard)

Tudo isto passou à História e hoje Elvas é uma cidade aberta, cosmopolita e hospitaleira, graças sobretudo à abolição da fronteira no âmbito do chamado Espaço Schengen, do qual Portugal e Espanha fazem parte. Em vez de hostilizar os espanhóis, Elvas constituiu com a vizinha cidade espanhola de Badajoz e com a cidade portuguesa de Campo Maior uma "eurocidade", com vista a um crescimento conjunto e harmonioso dos respetivos centros urbanos e à partilha entre si de diversas infraestruturas.

Elvas transfigurou-se sem deixar de ser ela própria, com a sua igreja matriz dedicada a Nossa Senhora da Assunção (antiga sé catedral, do tempo em que Elvas era cabeça de diocese), o seu pelourinho manuelino, o seu castelo, as suas ruínas do convento de São Paulo, o seu espantoso aqueduto da Amoreira, o seu museu de arte sacra (onde está uma belíssima imagem quinhentista de Nossa Senhora dos Açougues), os seus chafarizes e tantas coisas mais. A cada passo, encontra-se História em Elvas. Quem visitar Elvas, não se arrepende. Garanto.


Igreja de Nossa Senhora da Assunção, que foi sé catedral e agora é igreja matriz, Elvas (Foto de autor desconhecido)

20 setembro 2018

Início das aulas


A propósito do início do ano escolar, que agora ocorre, parece-me apropriado dar a ouvir a Abertura para um Festival Académico, do compositor alemão Johannes Brahms (1833–1897), interpretada por uma orquestra não identificada dirigida pelo maestro norte-americano Leonard Bernstein (1918–1990). Lembro com saudade os felizes anos em que eu mesmo também fui estudante e convivi intensamente com colegas e professores, sem praxes nem outras parvoíces

17 setembro 2018

Os prémios Ig Nobel 2018



Como tem acontecido todos os anos, foram atribuídos na passada quinta-feira, 13 de setembro, os Prémio Ig Nobel, numa cerimónia realizada na Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachussets, Estados Unidos.

Os Prémio Ig Nobel não são prémios Anti-Nobel, que supostamente premiariam os piores trabalhos científicos do ano. São antes prémios que se destinam a galardoar os trabalhos científicos considerados mais divertidos. São atribuídos por uma revista científica humorística americana, chamada Annals of Improbable Research, e destinam-se a premiar os trabalhos de investigação científica que «primeiro fazem rir e depois fazem pensar», nas palavras dos responsáveis pela revista.

Os prémios Ig Nobel deste ano foram os seguintes:

Prémio Ig Nobel da Medicina — Atribuído a dois médicos que concluíram que viajar numa montanha russa ajuda a soltar uma pedra nos rins. Eles concluíram ainda que, seguindo na carruagem de trás de uma montanha russa, se consegue desbloquear a pedra em 64% dos casos, em comparação com uma viagem na carruagem da frente, em que a pedra é solta apenas em 17% dos casos.

Prémio Ig Nobel de Antropologia — Ganho por três investigadores que demonstraram que, num jardim zoológico, os chimpazés imitam os humanos tantas vezes quantas os humanos imitam os chimpanzés.

Prémio Ig Nobel da Biologia — Atribuído a uma equipa de cientistas de várias nacionalidades que provou que os enólogos são capazes de detetar pelo cheiro a presença de uma mosca num copo de vinho.

Prémio Ig Nobel da Química — Galardoou Paula Romão, Adília Alarcão e César Viana (já falecido), de PORTUGAL, por terem comparado as qualidades de vários agentes de limpeza baseados em álcool com as do cuspe, na limpeza de esculturas do séc. XVIII. Concluíram que o cuspe limpa melhor.

Prémio Ig Nobel da Educação Médica — Ganho por um japonês que analisou o conforto e a eficiência da realização de uma colonoscopia feita por uma pessoa a si própria, na posição sentada, e concluiu que a pessoa sente um desconforto moderado.

Prémio Ig Nobel da Literatura — Atribuído a uma equipa de investigadores que concluiu que a maior parte das pessoas que usa produtos complicados não lê o manual de instruções.

Prémio Ig Nobel da Nutrição — Ganho por um cientista que concluiu que uma dieta antropofágica é mais pobre em calorias do que uma dieta baseada em carne proveniente de outros animais.

Prémio Ig Nobel da Paz — Galardoou uma equipa de investigadores espanhóis e colombianos que mediram a frequência, motivação e efeitos de gritar e insultar enquanto se conduz um automóvel.

Prémio Ig Nobel da Medicina Reprodutiva — Atribuído a um trio de urologistas que criou um método de estudar as ereções noturnas, enrolando um anel de selos do correio em volta do pénis, ao deitar, e verificando na manhã seguinte se os selos foram rasgados pelo picotado.

Prémio Ig Nobel da Economia — Ganho por uma equipa que investigou se, espetando alfinetes num boneco, como vingança contra os abusos de um chefe, faz os empregados sentirem-se melhor.

13 setembro 2018

A libração lunar


Uma demonstração da forma como a Lua se mostra à Terra ao longo do ano de 2018

É corrente afirmar-se que a Lua mostra sempre a mesma face para a Terra, enquanto a outra face se mantém sempre oculta. Atribuise este fenómeno à sincronização da translação da Lua em volta da Terra com a sua rotação em torno do seu próprio eixo. Isto é, à medida que a Lua vai orbitando em redor da Terra, ela vai rodando sobre si própria de forma síncrona, de modo a mostrar sempre a mesma face ao nosso planeta azul. O tempo que a Lua demora a girar em torno da Terra é exatamente o mesmo tempo que ela demora a rodar sobre si própria: um pouco mais de 29 dias e meio, a que se dá o nome de mês lunar.

Com todo o rigor, isto não é totalmente verdadeiro. Sê-lo-ia, se a órbita da Lua em volta da Terra fosse circular, mantendo-se a Lua sempre à mesma distância da Terra, e o eixo de rotação da Lua fosse perpendicular ao plano da sua translação.

No entanto, a órbita da Lua não é circular, e sim elíptica, e por esse facto a distância da Terra à Lua varia ao longo de um mês lunar. Varia pouco, porque a elipse da sua órbita não é muito acentuada, mas varia. Nuns dias, a Lua mostra-se ligeiramente maior, porque está mais próxima da Terra, e noutros dias mostra-se ligeiramente menor, porque está mais afastada.

Também o eixo de rotação da Lua apresenta uma certa inclinação em relação ao plano da sua translação. Não lhe é perpendicular. Nuns dias, o eixo de rotação da Lua mostra-se inclinado para a esquerda; noutros dias, mostra-se inclinado para a direita; noutros dias ainda, mostra-se na vertical.

Uma consequência destes factos é a chamada libração lunar, um movimento aparentemente oscilatório da Lua, tal como se pode ver no vídeo acima. Este movimento não é visível para nós, mas existe. Com a ajuda da fotografia e montando as imagens fotográficas de forma sequencial, é possível tornar este movimento visível.

06 setembro 2018

Praticai o bem


(Foto de autor desconhecido)


Digo-vos: praticai o bem. Porquê? O que ganhais com isso? Nada, não ganhais nada. Nem dinheiro, nem amor, nem respeito, nem talvez paz de espírito. Talvez não ganheis nada disso. Então por que vos digo: Praticai o bem? Porque não ganhais nada com isso. Vale a pena praticá-lo por isto mesmo.

Fernando Pessoa (1888–1935)

01 setembro 2018

Ventos do Sul


Quarteto de cordas Ventos do Sul, de Adérito Valente, pelo Quarteto de Cordas de Matosinhos

A obra musical que aqui proponho ouvir não se conta entre as mais radicais no seio da música contemporânea. Talvez ela nos possa mesmo ajudar a achar algum interesse neste género de música, tudo dependendo da abertura de espírito com que nos propusermos escutá-la. É uma peça para quarteto de cordas chamada "Ventos do Sul", foi composta em 2009 por Adérito Valente e nesta gravação é interpretada pelo Quarteto de Cordas de Matosinhos.

Adérito Valente é um compositor português que nasceu em Serpa em 1980. Estudou flauta transversal com Vasco Gouveia, na Escola Profissional de Música de Évora, e composição, na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto. Atualmente leciona Acústica, Análise e Composição na Academia de Artes de Chaves.

O Quarteto de Cordas de Matosinhos é um agrupamento musical fundado em 2007 na cidade de Matosinhos e constituído por Vítor Vieira (violino), Juan Maggiorani (violino), Jorge Alves (viola de arco) e Marco Pereira (violoncelo).

26 agosto 2018

Maqāmāt de Al-Ḥarīrī


Discussão nas proximidades de uma aldeia. Ilustração de Yahyā ibn Mahmūd al-Wāsitī, 1237. Biblioteca Nacional, Paris, França

Maqāmāt (مقامات, em português "Assembleias") de Al-Ḥarīrī é um livro escrito por Abū Muḥammad al-Qāsim ibn ʿAlī al-Ḥarīrī (1054–1122), natural de Basra, no atual Iraque. Contém 50 histórias relativamente curtas em prosa e verso, as quais narram as peripécias vividas por Abū Zayd, alegadamente natural do norte da Síria.

O narrador deste livro conta os seus encontros com Abū Zayd, um artista e vagabundo que se serve de uma grande eloquência, capacidade de falar para assembleias numerosas, domínio da gramática árabe e vastos conhecimentos de poesia para, sob disfarce e de forma desonesta, acabar por fugir com o dinheiro do crédulo narrador, depois de o envolver em situações embaraçosas, difíceis e até violentas.

Logo tornado muito popular, graças ao humor, às aventuras e à erudição que apresenta, este livro foi objeto, ao longo da Idade Média, de várias edições manuscritas e ilustradas, qual delas a mais deslumbrante.


Desfile da cavalaria abássida por ocasião do fim do Ramadão. Ilustração de Yahyā ibn Mahmūd al-Wāsitī, 1237. Biblioteca Nacional, Paris, França


Representação de uma taberna, onde se vê uma tocadora de alaúde, assim como Abū Zayd e outros presentes com uma taça de vinho na mão. Ilustração de um artista desconhecido da cidade do Cairo, 1334. Biblioteca Nacional Austríaca, Viena, Áustria


Boda de casamento na mansão de um pedinte no Cairo. Ilustração de um artista iraquiano desconhecido, 1230. Instituto de Estudos Orientais da Academia Russa das Ciências, Sampetersburgo, Rússia

21 agosto 2018

A mão que o verso cria II

Nunca a Ciência se cala, quando a mente
É lúcida, saudável, curiosa...
Não sabe ouvi-la, a mente preguiçosa,
Nem a lançada à força, na corrente.

Não pode ouvi-la a mente que, indolente,
Aceite o dogma, ou fique, presunçosa,
Convicta de que a rosa se fez rosa
Por obra de um processo transcendente.

Não cala a Ciência a nossa incompletude,
Que a Ciência invade a própria poesia,
Sem roubar-lhe, nem sonho, nem virtude,

Já que a acrescenta nessa apostasia,
Enquanto a mão que a escreve não se ilude
E será sempre e ainda, a mão que a cria.

16.08.2018 — 15.53h

Maria João Brito de Sousa, no seu blog poetaporkedeusker


Monumento a Giordano Bruno (1548–1600), escritor, teólogo, filósofo e cientista italiano, que foi queimado vivo por ordem da Inquisição em 17 de fevereiro de 1600, por ter defendido a tese de que o universo é infinito e dinâmico, com uma quantidade infinita de estrelas e de planetas, e outras "heresias" mais. Tal como Galileo Galilei, Bruno também defendia que a Terra girava em volta do Sol e não o contrário. Este monumento encontra-se no próprio local onde Giordano Bruno foi executado: o Campo de' Fiore, em Roma, Itália (Foto: Sputnikcccp)

17 agosto 2018

António Dacosta


O Usurário, 1940, óleo sobre tela de António Dacosta (1914–1990), Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Nascido em 1914 em Angra do Heroísmo, Açores, António Dacosta foi um pintor e crítico de arte português, dos mais importantes do séc. XX. Foi introdutor em Portugal da corrente surrealista, juntamente com António Pedro e Pamela Boden, com quem realizou uma exposição conjunta em 1940, a qual se opôs frontalmente ao triunfalismo imperial da Exposição do Mundo Português, que o Estado Novo realizou nesse mesmo ano em Lisboa. Às fanfarras do regime, António Dacosta e os seus companheiros opuseram uma inquietação expressa em quadros delirantes, que realçavam o absurdo do seu tempo e uma profunda inquietação perante o futuro. Esta inquietação era tanto mais intensa quanto se iniciava nesse momento a Segunda Guerra Mundial.

Em meados da década de 40, a pintura de António Dacosta foi-se tornando cada vez mais abstrata, até que em 1949 o artista deixou quase completamente de pintar. Seguiram-se trinta anos em que ele se dedicou primordialmente à crítica de arte e à crónica literária. Voltou a pintar em meados da década de 70 e realizou uma exposição em 1983, com obras que já não eram angustiadas e delirantes, mas antes estavam possuídas de poesia e de mistério. Faleceu em Paris em dezembro de 1990.


Serenata Açoriana, 1940, óleo sobre tela de António Dacosta (1914–1990), Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Episódio com um Cão, 1941, óleo sobre tela de António Dacosta (1914–1990), Ministério da Cultura, Lisboa, Portugal


A Festa, 1942, óleo sobre madeira de António Dacosta (1914–1990), Ministério da Cultura, Lisboa, Portugal


Cena Aberta, 1940, óleo sobre tela de António Dacosta (1914–1990), Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

14 agosto 2018

Yolanda


Yolanda, canção do músico cubano Pablo Milanés, na versão de Chico Buarque, pelo grupo brasileiro A Quatro Vozes. Peço desculpa pela publicidade que possa surgir durante a visualização, embora não seja responsável pelo seu importuno e indesejado aparecimento

11 agosto 2018

A Quimera do Ouro


Filme mudo The Gold Rush (chamado A Quimera do Ouro em Portugal e Em Busca do Ouro no Brasil), de Charlie Chaplin. Versão de 1925, de que algumas partes se perderam, sendo estas partes preenchidas por trechos da versão de 1942, de forma a completar o filme. Legendas em inglês. A música é do próprio Charlie Chaplin