06 julho 2026

Ao pé dũa alta faia vi sentado

Ao pé dũa alta faia vi sentado,
Num vale deleitoso e bem florido,
A Almeno, pastor triste e namorado.

Outro no mundo pôde haver nascido
Mui queixoso de Amor; porém não tanto,
Como este amante, por amar perdido.

Já Vénus ia recolhendo o manto
Escuro com que a terra se mostrava,
Pera ajudar de Almeno o triste pranto.

Apolo sobre os montes derramava
Seus dourados cabelos, que faziam
Ao triste inda mais triste do que estava.

As flores por o prado se estendiam;
E das que finas mais eram as cores,
Brancas, roxas, as Ninfas mais colhiam.

Já guiavam seus gados os pastores,
Que deixando-os no campo deleitoso,
Com elas praticavam só de amores.

Mas era esta alegria um perigoso
Estado para Almeno entristecido;
E por isso a deixava pressuroso,

Buscando outro lugar: contra Cupido
Claramente exclamava, e o arguia
De contrário, de astuto e fementido.

De quando em quando a frauta que tangia,
Números dava ao ar tão docemente,
Que as aves provocava a melodia.

Cego assi desta dor, deste acidente,
Com os olhos em lágrimas banhados,
Postos no Céu, dezia tristemente:

Se, Amor, eu te ofendi com meus cuidados,
Porque mos deste tu pera ofender-te,
Quando livre vivia nestes prados?

Não vês quanto me negas merecer-te
O bem que me mostravas, se deixasse
Ferir meu coração pera sofrer-te?

Qual bem me hás dado, Amor, que me durasse?
Ou qual me hás prometido, que hajas dado?
Ou qual deste, que muito não custasse?

Mostra-me quem pusesse em tal estado,
Que pudesse viver de ti contente,
Ou quem de ti não fosse lastimado?

Inimigo cruel de toda a gente,
Já não quero teu bem, só meu mal quero;
Se de ti nem meu mal se me consente.

Inda que de teus bens já desespero,
Não desprezo dos males o tormento;
Antes o prezo mais, quando é mais fero.

Arrebatado deste pensamento
Ia o triste pastor com um contino
Pranto, que lhe avivava o sentimento.

Quando entrou num vergel de esmalte fino,
Que era de Amor plantado; e parecendo
Lhe está menos humano que divino.

Nele a dor sua esteve suspendendo:
Porém não, como cervo, está ferido,
Repara ao mal que leva pretendendo.

Aparecia o sítio tão florido,
Que provocava a não vulgar espanto,
Entre uns altos ulmeiros escondido.

Dum cristalino orvalho tinha o manto,
Quando entrou nele o mísero pastor,
E as tenções explicou neste seu canto:

Ó belas rosas, vós que sois amor,
É por dita humildade, ou é baixeza,
O ter a par de vós murta, que é dor?

Papoulas conversais, que são tristeza!
Não desprezais o cardo, que é tormento!
Admitis a hortelã, sendo crueza!

Dos goivos longe vejo o sentimento;
Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
Dos malmequeres vejo o sofrimento.

Deste me temerei como inimigo;
Mas traz por armas salva, que é razão:
Com ela acabará também comigo.

As minhas vêm a ser ũa afeição,
Que são os puros cravos misturados
Coa vontade sujeita, que é limão.

Ai mosquetas, que sois de amor cuidados!
Ai crespa manjerona, que és prazer!
Vós sós devíeis adornar os prados.

Não podem dous opostos juntos ser:
Onde se põe giesta, que é lembrança,
Junto do rosmaninho, que é 'squecer?

Bem pesa do leve álamo a mudança;
Do roxo goivo anima o pensamento,
Do cipreste odorífero a esperança.

O trevo, que é sentido apartamento,
Cerca o manjericão, que se interpreta
Memória a quem ofende o esquecimento.

Mais importuna que o jardim de Creta,
A ameixieira a flor está soltando:
A segurelha vejo, que é discreta.

As ervas que daqui irei tomando,
São a pura cecém, que é saudade;
Cravos, medo de ver qual de amor ando.

E, de ter mui perdida a liberdade,
Tomarei madressilva entendimento;
Legação tomarei, porque é verdade.

Marmeleiro me dá arrependimento:
Por a salva, que é gosto, tomarei
Coentro oposto ao meu contentamento.

Conhecimento firme nunca achei,
Que violetas são; e, quando o houvera,
Qual meu dano então fora, bem o sei.

Oh quem, erva cidreira, oh quem pudera
Ver-vos aqui menor, pois sois vitória,
Que de mim alcançou chama severa!

Mas se quereis que tenha algũa glória,
Por galardão de amar e ser sujeito,
Perderei de tormentos a memória.

Porém, pois mo negais, de todo enjeito
A palma, que é ventura; e na parreira,
Que é 'sperança perdida, me deleito.

Entretanto coa flor da laranjeira,
Que é desafio duro e arriscado,
Posso arguir da hora derradeira.

Já não se quer deter o meu cuidado
Com a romã descanso; a brevidade
Das maravilhas só tem desejado.

E vós, ovelhas minhas, sem piedade
Vos apartai de mim, se algum desejo
Tendes de ter do pasto mais vontade.

Se muita de me verdes em vós vejo,
Toda a minha de ver-vos hei perdido
À força do poder de amor sobejo.

Lograi do Tejo o plácido ruído;
Sós lograi estas veigas florecidas:
Pois se perde o pastor vosso querido,

Não gosteis de com ele ser perdidas.

Luís Vaz de Camões (1517?? 1524? 1525? – 1580)


Uma faia (Fagus sylvatica) (Foto de autor desconhecido)

03 julho 2026

Miguel Ângelo Lupi


Retrato da Viscondessa de Castilho, Cândida Castilho, 1874, óleo sobre tela de Miguel Ângelo Lupi (1826–1883), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa
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Retrato de D. Pedro V, óleo sobre tela de Miguel Ângelo Lupi (1826–1883), Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa
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Retrato de Catraio e Mariana, também conhecido por "Os Pretos de Serpa Pinto", c. 1879, óleo sobre tela inacabado de Miguel Ângelo Lupi (1826–1883), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa
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De mãe portuguesa e pai italiano, o pintor Miguel Ângelo Lupi nasceu em Lisboa em 1826 e em Lisboa faleceu em 1883. Frequentou o curso de pintura da Academia de Belas-Artes de Lisboa, mas foi obrigado pela família a matricular-se na Escola Politécnica de Lisboa, com vista a seguir uma carreira no Estado. Trabalhou na Imprensa Nacional, passou dois anos em Angola como funcionário público e regressou a Portugal para trabalhar na Junta de Fazenda Pública e no Tribunal de Contas. Apesar de ter seguido uma carreira profissional no funcionalismo, Miguel Ângelo Lupi nunca deixou de pintar. O retrato que ele fez do rei D. Pedro V, que lhe fora encomendado pelo Tribunal de Contas e que foi muito elogiado, permitiu-lhe partir para Roma com uma bolsa de estudo. Quando regressou a Portugal, tornou-se professor de Pintura Histórica na Academia de Belas-Artes de Lisboa.

Miguel Ângelo Lupi foi essencialmente um pintor do Romantismo, mas também já fez algumas incursões pelo Naturalismo e pelo Simbolismo. Ele foi, sobretudo, um retratista de grande mérito.

A tela Retrato de Catraio e Mariana merece uma atenção especial. Este quadro deve ter sido pintado durante os dois anos em que Miguel Ângelo Lupi viveu em Luanda, tendo ficado incompleto, provavelmente porque o pintor entretanto regressou a Portugal. Um qualquer pintor europeu da sua época — ou mesmo de épocas posteriores — teria pintado um quadro que de certa forma evocasse o exotismo de uma África que muitos europeus viam como «misteriosa e feiticeira». Ora Miguel Ângelo Lupi não fez nada disso. Em vez de representar o pitoresco local ou de fazer um apontamento etnográfico de gentes com costumes diferentes dos seus, Lupi pintou um quadro cheio de humanidade, em que um casal cruza olhares carregados de ternura. Ao pintar esta sua tela, Miguel Ângelo Lupi comportou-se como um africano. A este quadro foi também dado o nome de "Os Pretos de Serpa Pinto", porque Catraio e Mariana tinham sido contratados pelo explorador Serpa Pinto para acompanhá-lo na sua expedição ao interior de África.

30 junho 2026

Implantes cerebrais


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O sistema nervoso de um ser humano é uma densíssima rede de comunicações, que tem o cérebro como origem e destino de quase todos os sinais que pelo sistema circulam. É o cérebro que quase tudo comanda e é o cérebro que quase tudo decide. O sistema nervoso existe para que o cérebro possa receber as informações de que precisa para ter conhecimento do mundo e da situação em que se encontra, as quais lhe são enviadas pelos órgãos dos sentidos, e para que o cérebro envie os sinais de comando que façam movimentar músculos e ativar ou inibir a produção de hormonas.

Os sinais que circulam pelo sistema nervoso — e que têm origem e destino no cérebro — são sinais elétricos. Para que a informação neles contida consiga chegar ao seu destino, é necessário que os canais que os sinais percorrem (os nervos) não tenham interrupções nem estejam danificados, à semelhança de um fio elétrico que, se estiver partido ou corroído, não deixa passar a corrente que faça acender uma lâmpada.

Os nervos que conduzem os sinais, de e para o tronco e os membros de uma pessoa, unem-se num feixe chamado medula espinal, que percorre o interior da coluna vertebral e, ao longo de toda a coluna, vai tendo ramificações que se dirigem para os órgãos que lhes correspondem. É condição indispensável para que os sinais atinjam o seu destino, que a medula espinal se mantenha intacta e saudável ao longo de toda a sua extensão. Uma doença grave, como pode suceder com a esclerose múltipla amiotrófia, ou uma fratura da coluna interrompem o circuito nervoso que percorre a medula e os sinais perdem-se. Em consequência, a pessoa fica sem sensibilidade e sem movimentos, desde o ponto onde se deu a lesão para baixo. Se a lesão ocorrer ao nível do pescoço, então, a pessoa fica tetraplégica.

Graças aos métodos mais modernos de imagiologia, de entre os quais se destaca a ressonância magnética, tem vindo a ser registado um significativo avanço no conhecimento do cérebro e das funções que são desempenhadas por cada uma das suas partes. Este conhecimento ainda é muito incompleto, mas aumenta a cada dia que passa e já torna possível tentar restaurar algumas das funções biológicas afetadas pela lesão.

Para tal, torna-se necessário abrir uma calote no crâneo da pessoa afetada e ligar um conjunto ordenado de elétrodos diretamente a uma zona específica do seu cérebro. Um computador recebe os sinais captados pelos elétrodos, processa-os no sentido de os "limpar" de distorções e de ruído, e aplica-os a jusante da lesão, onde os nervos os conduzem ao seu destino. Há, contudo, neste procedimento problemas graves que ainda estão por resolver. Um deles é o da rejeição dos elétrodos; o organismo deteta a presença de um objeto estranho no cérebro e o seu sistema imunitário entra em ação contra o objeto. Por outro lado, qualquer abertura no crânio de uma pessoa pode ser uma "porta" de entrada de infeções que, a ocorrerem, irão atingir diretamente o cérebro, com consequências que certamente serão fatais.

Os vídeos que se seguem mostram algumas experiências que recentemente têm sido feitas, no domínio das interfaces cérebro-computador.

Um indivíduo tetraplégico usa a sua mão esquerda para comer

Um homem com esclerose lateral amiotrófica em fase avançada utiliza o pensamento para realizar diversas tarefas

Um homem movimenta um braço robótico como se fosse o seu próprio braço. Ainda por cima, o braço robótico está longe do seu corpo

Este vídeo é desnecessariamente longo. Basta ver uma pequena parte. Ele mostra um homem paralizado a jogar num computador apenas com o pensamento

23 junho 2026

Noite de São João no Jardim da Quinta da China


Noite de São João no Jardim da Quinta da China, 1908, óleo sobre tela de Aurélia de Sousa (1866–1922). Coleção particular
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A pintora Aurélia de Sousa pertenceu a uma família abastada e viveu durante grande parte da sua vida na chamada Quinta da China, na cidade do Porto. Esta quinta ficava nas imediações da antiga Quinta de Nova Sintra, que é o atual Parque de Nova Sintra, onde está instalada a empresa Águas e Energia do Porto e que pode ser visitado.

No tempo de Aurélia de Sousa, a Quinta da China era um dos espaços mais requintados e privilegiados da cidade do Porto, com uma magnífica vista sobre o Rio Douro e a encosta fronteira de Gaia e possuindo belos e frondosos jardins.

21 junho 2026

Música fresquinha para os dias de verão


Sloop John B, por The Beach Boys

Tu Vuò Fa' l'Americano, em dialeto napolitano, por Renato Carosone

A Teenager in Love, por Dion & The Belmonts

Poetry in Motion, por Johnny Tillotson

Hello Mary Lou, Goodbye Heart, por Ricky Nelson

Lucky Lips, por Cliff Richard & The Shadows

17 junho 2026

Uma balada nostálgica de Paul McCartney


Paul McCartney e a banda Wings interpretam Mull of Kintyre, uma balada nostálgica de Paul McCartney e Denny Laine, evocativa de um cabo existente no sudoeste da Escócia, chamado Mull of Kintyre, onde Paul teve uma casa

15 junho 2026

Bugios e Mourisqueiros


Bugios e Mourisqueiros, sétimo episódio da série televisiva Viagem ao Maravilhoso, de Carlos Brandão Lucas

Já faltam poucos dias para o solstício de verão e, logo a seguir, para o dia de S. João, que é dia de festa em inúmeras localidades portuguesas. Entre tantas localidades onde se festejs o S. João, existe uma em que este santo é celebrado de forma diferente das restantes. Esta localidade é a vila de Sobrado, no concelho de Valongo, que fica a uns escassos 15 a 20 quilómetros da cidade do Porto.

Em Sobrado, no dia 24 de junho (portanto no próprio dia de S. João e não na véspera), são revividas tradições que não costumam aparecer ligadas ao S. João e que mais facilmente associaríamos ao Carnaval, como é o caso dos caretos de Podence, ou ao solstício de inverno, como acontece com o chocalheiro de Bemposta. É a Festa da Bugiada e Mouriscada, também chamada apenas Bugiada.

No vídeo acima, podemos ver uma reportagem sobre a Bugiada e Mouriscada de Sobrado, que foi feita por Carlos Brandão Lucas para a RTP em 1990. A imagem e o som deixam muito a desejar, mas o que importa são os esclarecimentos que nos são dados pelo autor do vídeo, explicando-nos as cenas que nos vão sendo apresentandas.

Segue-se um outro vídeo que é muito mais recente, pois é de 2019, e que nos apresenta um som e uma imagem com uma qualidade incomparavelmente superior, mas não tem palavras. Em Sobrado, o S. João é assim.

13 junho 2026

Let's Get Lost


Chet Baker canta Let's Get Lost, um clássico do jazz da autoria de Jimmy McHugh (música) e Frank Loesser (letra), com Chet Baker no trompete além ds voz, Russ Freeman no piano, Carson Smith no contrabaixo e Bob Neel na bateria. Gravado em 1955. Apenas som

10 junho 2026

Quando o 10 de Junho era um dia trágico




Portugal, cerimónias do 10 de Junho entre 1961 e 1974
(Fotos de autores desconhecidos)

Enquanto os filhos dos dignitários do regime eram poupados aos horrores da Guerra Colonial, no 10 de Junho um povo utilizado como carne para canhão era condecorado em pungentes cerimónias oficiais.

08 junho 2026

Marte desarmado por Vénus


Marte desarmado por Vénus, 1824, óleo sobre madeira do pintor neoclássico francês Jacques-Louis David (1748–1825), Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica, Bruxelas, Bélgica
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Sem entrarmos em pormenores, podemos dizer que a Revolução Francesa foi um marco fundamental na História da Europa, porque consistiu numa transição extraordinariamente violenta de uma sociedade monárquica e absolutista, dominada pela aristocracia, para uma sociedade republicana e liberal, imposta pela burguesia. No domínio da arte, a Revolução Francesa também foi acompanhada de uma mudança de paradigma, mas não de uma revolução.

Ao longo do séc. XVII, aproximadamente, a arte na Europa tinha entrado num período chamado barroco, um período de exageros e de paixões, exuberante de formas e de linhas, que desejava provocar emoções intensas.

Durante o séc. XVIII, o barroco continuou a existir, exuberante como sempre, mas evoluiu no sentido de maior requinte, delicadeza e luminosidade, mas também no sentido de uma maior superficialidade. A este barroco final dá-se o nome de rococó. Podemos dizer, talvez, que ao rococó, nas artes plásticas, correspondeu um género musical com características galantes, palacianas e lúdicas, mas sempre requintadas em extremo.

Esgotada a fórmula rococó, surgiu na Europa uma nova corrente artística, que poderia ser a arte da Revolução Francesa, mas não foi: a arte neoclássica. O neoclassicismo procurou devolver à arte o rigor e a beleza depurada da Antiga Grécia, contra os excessos do barroco e do rococó. Porém, à arte neoclássica faltou o espírito que animou os grandes artistas da Antiguidade, resultando quase sempre em pinturas e esculturas formalmente irrepreensíveis, sem dúvida nenhuma, mas artificiais e estáticas, sem vida nem chama. Em vez de ser a arte da Revolução Francesa, o neoclassicismo acabou por ser, pelo menos até certo ponto, a arte da França Napoleónica querendo conquistar a Europa.

06 junho 2026

Abertura La Gazza Ladra de Rossini


Abertura da ópera La Gazza Ladra ("A Pega Ladra", isto é, a pega que rouba), do compositor italiano Gioachino Rossini (1792–1868), pela Orquestra Filarmónica de Viena sob a direção do maestro venezuelano Gustavo Dudamel

31 maio 2026

Concerto para trompete de Haydn


Concerto para Trompete e Orquestra em Mi Bemol Maior, do compositor austríaco Joseph Haydn (1732–1809), pelo trompetista Wynton Marsalis, acompanhado pela Boston Pops Orchestra, dirigida por John Williams. Duração aproximada de 15 minutos. Este concerto é composto por três andamentos: 1.º — Allegro (sonata); 2.º — Andante; 3.º — Allegro (rondò)

Além de ser um excelente intérprete de música clássica, o trompetista norte-americano Wynton Marsalis é também um músico de jazz de alto gabarito. Por sua vez, o maestro John Williams, também norte-americano, é igualmente compositor e foi nesta qualidade que escreveu a música para muitos filmes de George Lucas, Steven Spielberg e outros realizadores, concretamente para a Guerra das Estrelas, Encontros Imediatos, Parque Jurássico, Indiana Jones, A Lista de Schindler, Harry Potter, etc.

29 maio 2026

Mestres de Ferreirim


Morte da Virgem, 1533–34, óleo sobre madeira de um dos Mestres de Ferreirim (Cristóvão de Figueiredo, Garcia Fernandes ou Gregório Lopes), Convento de Santo António de Ferreirim, Ferreirim, Lamego
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Ferreirim é uma localidade do concelho de Lamego, situada mais ou menos entre esta cidade e Tarouca, no coração de uma região que possui uma enorme riqueza monumental e artística.

Existe em Ferreirim um antigo convento franciscano, o Convento de Santo António, que atualmente é igreja paroquial. No seu interior, encontram-se oito quadros que são da autoria de três dos maiores pintores portugueses do séc. XVI: Cristóvão de Figueiredo, Garcia Fernandes e Gregório Lopes. Os oito referidos quadros fariam parte de um antigo retábulo, que contaria com treze painéis no total, mas os restantes painéis desapareceram. Como não existem certezas sobre qual dos artistas é que pintou cada um dos quadros, eles são coletivamente considerados sob o nome de Mestres de Ferreirim.

27 maio 2026

Diana Caçadora


Diana Caçadora, estátua de mármore do escultor neoclássico francês Jean-Antoine Houdon (1741–1828), que pertenceu a Catarina da Rússia e que o colecionador de arte arménio Calouste Sarkis Gulbenkian comprou ao Museu Hermitage em 1930. Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa
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25 maio 2026

Blues March


Blues March, um tema de jazz da autoria de Bennie Golson, por Art Blakey and the Jazz Messengers, com Lee Morgan no trompete, Bennie Golson no saxofone tenor, Bobby Timmons no piano, Jymie Merritt no contrabaixo e Art Blakey na bateria. Gravado em 1958 (apenas som)

23 maio 2026

Angolano

Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição…
Mas, será que tem cor o coração?

Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras…

A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!

Neves e Sousa (1921–1995), pintor, desenhador e poeta


Bessangana (senhora respeitável de Luanda), desenho de Albano Neves e Sousa (1921-1995)
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20 maio 2026

Algumas citações de Voltaire


Uma escultura de mármore representando o filósofo, historiador e escritor francês do Iluminismo Voltaire (1694–1778), como um homem envelhecido e nu. Esta curiosa estátua é da autoria do escultor francês Jean-Baptiste Pigalle (1714–1785). Museu do Louvre, Paris, França

“Encontrou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros.”

“Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.”

“Todas as riquezas do mundo não valem um bom amigo.”

“Não estou de acordo com aquilo que dizeis, mas lutarei até ao fim para que vos seja possível dizê-lo.”

“A educação desenvolve as faculdades, mas não as cria.”

“A espécie humana é a única que sabe que tem de morrer.”

“Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu.”

“De todas as doenças do espírito humano, a fúria de dominar é a mais terrível.”

“A leitura engrandece a alma.”

“Não há nenhum exemplo, nas nossas nações modernas, de uma guerra que haja compensado com um pouco de bem o mal que fez.”

“Se o homem nasceu livre, deve governar-se; se ele tem tiranos, deve destroná-los.”

“Façam o que fizerem, destruam a infâmia e amem aqueles que vos amam.”

“Quanto mais eu leio, quanto mais aprendo, mais certo estou de que não sei nada.”

“Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora.”

“A guerra é o maior dos crimes, mas não existe agressor que não disfarce o seu crime com pretexto de justiça.”

“O preconceito da raça é injusto e causa grande sofrimento às pessoas.”

“O maravilhoso da guerra é que cada chefe de assassinos faz abençoar as suas bandeiras e invoca solenemente Deus antes de se lançar a exterminar o seu próximo.”

Voltaire, pseudónimo de François-Marie Arouet (1694–1778)

16 maio 2026

(Cantiga de Amigo)


Olhei-me com sede na manhã fria
e só tinha mãos que o mar esquecia
Morrerei donzela
e sozinha

Toquei-me um calor de corpo macio
e só tive mãos para um mar vazio
Morrerei donzela
e sozinha

E só tinha mãos que o mar esquecia
nessa onda morta amigo não via
Morrerei donzela
e sozinha

E só tive mãos para o mar vazio
na onda lassa nem um barco esguio
Morrerei donzela
e sozinha

Nessa onda morta amigo não via
rumarei meus passos na areia fria
Morrerei donzela
e sozinha

Deana Barroqueiro, 1967, suplemento Juvenil do jornal Diário de Lisboa


Embarque de militares portugueses para a Guerra Colonial (Foto de autor desconhecido)

13 maio 2026

Uma estatueta do Japão pré-histórico


Uma estatueta de barro (em japonês dogū), datada de 1000 A.C. – 400 A.C. e encontrada em Ōsaki, Miyagi, ilha de Honshu, Japão. Museu Nacional de Tóquio, Japão
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Dogū ("estatueta de barro" em tradução literal) é a designação dada a estatuetas moldadas em argila carcaterísticas do chamado período Jōmon, que corresponde à primeira cultura de todas as que nasceram no Japão. O período Jōmon estendeu-se no tempo desde cerca do ano 14 000 A.C. até por volta de 200 A.C.

As estatuetas chamadas dogū representam quase sempre figuras femininas, com rostos grandes de olhos muito esbugalhados, cinturas estreitas, ancas largas e mãos pequenas. Algumas apresentam ventre dilatado, sugerindo um estado de gravidez, o que leva a concluir que estas estatuetas poderiam estar associadas à fertilidade.

Uma característica comum à generalidade das estatuetas dogū é a sua exuberante ornamentação corporal, a qual seria o resultado de adornos e escarificações. No entanto, os adeptos das teorias associadas à visita do planeta Terra por parte de seres alienígenas, como Erich von Däniken, veem nas estatuetas dogū a representação de extraterrestres vestindo fatos espaciais!

06 maio 2026

Música andalusa (com S)


Um trecho de música andalusa de Marrocos, por intérpretes não identificados. Ao ver neste vídeo um friso de lindas mouras, não posso deixar de evocar as muitas lendas existentes em Portugal de mouras encantadas, por cuja beleza os cavaleiros cristãos se perdiam de amores

Quando os Árabes invadiram a Península Ibérica, puseram-lhe o nome de Al Andalus. É provável que este nome tenha a sua origem na denominação de um dos povos germânicos que invadiram o Império Romano do Ocidente e provocaram a sua queda, os famosos Vândalos, que, após terem sido derrotados pelos Suevos, se fixaram no sul da Península, atualmente chamado Andaluzia (com Z). Do sul da Península Ibérica, os Vândalos passaram-se para o Norte de África, onde fundaram um reino, o Reino dos Vândalos, que os Árabes posteriormente conquistaram. O nome Al Andalus, portanto, deve significar algo como "Terra dos Vândalos".

Independentemente do seu significado, o nome Al Andalus passou a ser usado para designar a parte da Península Ibérica que esteve sob domínio islâmico, qualquer que tenha sido a sua configuração política ao longo do tempo: o Califado de Córdova, os reinos independentes chamados "taifas", o Império Almorávida, o Império Almóada, o Reino de Granada, etc. Com conquistas e reconquistas e com avanços e recuos, os reinos cristãos foram progressivamente tomando território aos muçulmanos e, consequentemente, o nome Al Andalus foi designando uma parte cada vez mais restrita da Península Ibérica. Em 1492, Castela conquistou por fim o Reino de Granada e a designação Al Andalus caiu em desuso. Agora, só se encontra este nome em textos de História.

A seguir à conquista de Granada por Castela, os muçulmanos do reino conquistado, que não quiseram ser obrigados a trocar a sua fé pela fé cristã, tiveram que fugir e refugiar-se no Norte de África. Os seus descedendentes continuam, ainda hoje, a chamar-se andaluses e constituem uma comunidade que é muito respeitada em Marrocos. São considerados os únicos marroquinos de raça branca, porque provieram da Europa (os restantes dizem-se africanos de ascendência berbere, e não brancos), falam árabe puro e não dialeto magrebino, conservam a cultura que os seus antepassados trouxeram da Península Ibérica e os homens andaluses são facilmente identificados na rua pela indumentária branca que tradicionalmente vestem.

Agora surge a dúvida: a música que no tempo dos mouros se praticava em Silves, Beja, Lisboa e até em Coimbra, ou mesmo em Lamego, teria alguma semelhança com a música do vídeo? É que já se passaram muitos séculos! Seja como for, o vídeo dá-nos a ouvir música andalusa, tal como ela atualmente se canta e toca, e que é um dos vários géneros existentes de música clássica árabe.