As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar
ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada
Algumas peças musicais de Frei Áureo Castro, compositor português nascido na ilha do Pico em 1917 e falecido em Macau em 1992: Danças da Siu Mui Mui para piano, Nostalgia para piano, Sonatina n.º 1 para piano e Chian Kun Yu, Miao Fa, que é um arranjo para coro a capella de obra homónima do compositor chinês Chiang Wen Ye, por alunos da Academia de Música S. Pio X, de Macau, e Grupo Coral Polifónico de Macau
Havia numa terra um rei que tinha um filho, que não fazia senão pedir-lhe para ir correr o mundo; o rei por fim não pôde mais ter mão, e deu-lhe um grande saco de dinheiro para a partida. Depois de ter andado muito, foi dar a uma estalagem onde encontrou um outro viajante. Conversaram, mas o viajante perguntou ao príncipe se não gostava de jogar; daí a instante já estavam ferrados ao jogo. O viajante ganhou-lhe o saco de dinheiro, e não tendo mais que lhe ganhar, propôs-lbe que jogassem mais uma vez, e no caso do príncipe ganhar tornava a dar-lhe o saco de dinheiro, e no caso de perder o príncipe ficaria preso por três anos naquela casa, e o serviria como criado por mais outros três. O príncipe aceitou a proposta, jogou e perdeu. O viajante tomou conta dele, prendeu-o em uma loja, e deu-lhe pão e água de um dia para três anos.
O príncipe chorava a sua má cabeça; ao fim de três anos vieram soltá-lo, e ele pôs-se a caminho para ir para casa do viajante, que era rei, servi-lo como criado. Depois de ter andado muito, encontrou uma mulher com uma criancinha ao colo a chorar com fome. O príncipe ainda levava o resto de uma codinha de pão e um escorropicho de água e deu tudo à mulher. Ela em agradecimento disse-lhe:
— Olhe, santinho, vá você sempre andando, e quando lhe vier um cheiro muito grande, é porque está perto de um jardim que está no caminho; entre para dentro, e vá-se esconder ao pé do tanque. Então hão de vir três pombas tomar banho, e à última que se despir tire-lhe o vestido de penas e não lho torne a dar senão em troca de três cousas que ela lhe der.
Aconteceu tudo como a mulher lhe tinha dito; apanhou o vestido de penas da pombinha, e ela para o tornar a ter deu-lhe um anel, um colar e uma pena, dizendo-lhe:
— Quando te vires em alguma aflição e disseres: — «Valha-me aqui a pomba», hei de te acudir; eu sou a filha do rei que vás servir, que tem uma grande raiva a teu pai; e que te ganhou tudo ao jogo para dar cabo de ti.
O príncipe apresentou-se em casa do rei, que lhe deu logo esta ordem:
— Toma este trigo, este milho e esta cevada para semeares, contanto que eu amanhã coma pão destas três qualidades.
O príncipe ficou espantado, mas o rei não quis saber de explicações; foi ele para o seu quarto todo atrapalhado da sua vida, e pega na pena dizendo:
— Valha-me aqui a pomba!
A pomba apareceu, e ficou sabendo tudo; e ao outro dia trouxe-lhe as três qualidades de pão para o príncipe ir entregar ao rei. Quando o rei viu cumpridas as suas ordens, disse-lhe:
— Pois bem; já que foste capaz disto, vai agora ao fundo do mar buscar o anel que a minha filha mais velha lá perdeu.
Voltou o príncipe para o quarto e tornou a chamar pela pombinha; ela acudiu:
— Olha, amanhã vai para a praia e leva uma bacia e uma faca e mete-te num barco.
Assim fez; a pomba meteu-se com ele no barco e foi por esses mares fora. Já tinham andado muito, quando ela disse que lhe cortasse a cabeça, de modo que não caísse uma gota de sangue no chão, e a atirasse para o mar. Seguiu tudo à risca. Passado pouco tempo saiu do mar uma pomba com um anel no bico, largou-o na mão do príncipe e foi lavar-se no sangue que estava na bacia; tornou-se na cabeça de uma bela donzela e depois tornou a desaparecer. O príncipe foi entregar o anel ao rei, que ficou mais desesperado, e lembrou-se de lhe dar um maior trabalho:
— Hoje de tarde hás de sair no meu poldro, para o ensinares.
O príncipe foi para o seu quarto e tornou a chamar pela pombinha, que lhe respondeu:
— Olha, o meu pai quer ver se te mata por algum feitio; porque o poldro é ele mesmo, o selim é minha mãe, minhas irmãs são os estribos, e eu sou o freio. Não te esqueças de levar um bom cacete porque podes consolar-te com uma carga de pau neles.
O príncipe montou no poldro, moeu-o com pancadas, e tais coisas fez que quando recolheu a casa e foi dar parte ao rei que o poldro estava manso, achou o rei de cama todo em panos de vinagre, a rainha feita numa salada, as filhas derreadas, menos a mais nova. Nessa noite foi ela ter com o príncipe e disse-lhe:
— Agora, que estão todos doentes é que é boa ocasião de fugirmos; vai à cavalariça e apronta o cavalo mais magro que lá achares.
O príncipe caiu na asneira de aprontar o mais gordo. Quando se puseram a caminho, e ela viu o cavalo gordo ficou muito contrariada, porque este cavalo andava como o vento, e o magro andava como o pensamento. Mas sempre fugiram. De noite o rei precisou da filha para o virar, e chamou por ela; nada. A rainha, que era refinada bruxa, pescou logo que a filha tinha fugido com o príncipe, e disse ao marido que saltasse já fora da cama e que os fosse apanhar. O rei levantou-se a gemer com dores, foi á cavalariça e quando viu o cavalo magro ficou seguro de pilhá-los. Montou e partiu. A filha, que ia sempre desconfiada que dessem pela falta dela, avistou de longe o pai, e de repente transformou o cavalo em uma ermida, a si em uma santa e o príncipe em um ermitão.
Chegou o rei ao pé da capelinha, e perguntou se não tinha visto passar por ali uma menina com um cavaleiro. O ermitão levantou os olhos do chão e disse que por ali não passara viva alma. O rei foi-se embora aborrecido, e foi dizer à mulher que só tinha encontrado uma ermida com uma santa e um ermitão.
— Pois eram eles, disse a velha desesperada; se me tivesses trazido um bocadinho do vestido da santa ou um bocadinho de caliça da parede, tinha-os agora aqui em meu poder.
E tornou a fazer partir o velho no cavalo mais ligeiro que o pensamento. O velho foi avistado ainda de longe pela filha, que fez do cavalo um terreno, de si uma roseira carregadinha de rosas, e do príncipe o hortelão. Repetiu-se a mesma coisa; o velho virou para trás, mas a velha bruxa azoinava-o:
— Se me tivesses trazido uma rosa dessa roseira, ou um punhadinho de terra, já cá os tinha em meu poder. Mas deixa estar, que desta vez vou eu também.
Quando a menina avistou a mãe sentiu um grande medo, porque sabia o poder que tinha; apenas teve tempo de fazer do cavalo um poço fundo, de si fez uma eiró, e do príncipe um cágado. A velha chegou à borda do poço, e conheceu-os logo. Perguntou à filha se não estava arrependida, e se quizesse voltar para casa que lhe perdoava. A eiró dizia com o rabo que não. A velha disse ao marido que atirasse uma bota ao poço para trazer uma gota de água, porque só com isso ficava com poder para agarrar a filha. Quando o rei tirava a bota cheia de água, o cágado saltou para dentro dela e entornou-a toda; com a outra bota deu-se o mesmo caso.
Então a rainha muito zangada rogou ao cágado a praga que ele se esquecesse da princesa. Continuaram o seu caminho, mas a menina sempre muito triste. E quando o príncipe lhe perguntava o motivo da sua tristeza, ela respondia:
— É porque tenho a certeza de que me hás de esquecer.
Chegaram por fim à terra donde o príncipe era natural; deixou a menina em uma estalagem, e foi pedir ao pai licença para lhe apresentar a sua noiva. Com a alegria que teve de ver a família esqueceu-se da menina. O pai tratou de lhe fazer o casamento; quando a menina soube disto teve uma grande aflição e gritou:
— Valham-me aqui minhas irmãs.
Apareceram-lhe. A mais velha disse:
— Não te aflijas; tudo se há de arranjar. — E deu ordem à estalajadeira que quando passasse algum criado do rei a comprar aves, que fosse ao quarto da irmã e vendesse três pombinhas que estariam lá. Assim foi; o criado do rei comprou as três pombinhas, e como eram muito lindas foi mostrá-las ao príncipe.
O príncipe estava admirado, e quando ia pegar nelas uma saltou para cima da janela, e disse:
— Quando nos ouvir falar, ainda mais admirado há de ficar.
Outra saltou para cima de uma mesa, e disse:
— Vai falando, vai falando, que ele se irá recordando.
A pombinha que lhe tinha ficado na mão saltou-lhe para cima do ombro e perguntou-lhe:
— Veja, príncipe, se este anel lhe serve.
O príncipe viu que sim. Depois deu-lhe um colar, e também servia. Por fim deu-lhe a pena, e só quando leu o nome da pomba é que se tornou a lembrar, e então casou com ela.
”
Conto popular recolhido no Algarve. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843–1924)
Na mitologia popular, são contadas histórias de animais sem cabeça, mas não de cabeças sem animal. A realidade, contudo, ultrapassa a ficção. Foi descoberto um animal cuja cabeça consegue sobreviver separada do seu próprio corpo e, como se isto ainda fosse pouco, é capaz de regenerar um novo corpo a partir da cabeça cortada!
O animal em questão é um nudibrânquio pertencente a duas espécies: Elysia marginata e Elysia atroviridis. Um nudibrânquio é um molusco gastrópode sem concha, tal como as lesmas, mas vive no mar e pode exibir cores intensas e vibrantes, consoante a espécie a que pertencer. O nudibrânquio respira por guelras, que estão expostas, facto que determina a sua denominação, que significa "guelras nuas".
Uma investigadora japonesa, de seu nome Sayaka Mitoh, estava a estudar nudibrânquios num laboratório, quando presenciou aquilo que lhe pareceu ser uma cena de um filme de terror. Uma cabeça de nudibrânquio movimentava-se separada do corpo no fundo de um tanque. Julgou que a cabeça iria morrer em breve, sem um coração e sem os restantes órgãos vitais que lhe garantissem a sobrevivência, mas não foi isso o que aconteceu. Não só a cabeça não morreu, como começou a desenvolver um corpo novo ao fim de alguns dias. Menos de um mês depois, a cabeça já estava dotada outra vez de um corpo completamente desenvolvido agarrado a ela.
Fizeram-se diversas experiências com nudibrânquios das duas espécies acima referidas e concluiu-se que eles cortam a sua própria cabeça quando são parasitados por copépodes, que são crustáceos minúsculos, a fim de se livrarem deles. O modo como a cabeça consegue sobreviver sem o corpo e regenerar um novo corpo é ainda um mistério. Supõe-se que o consegue fazer por meio de fotossíntese, tal como fazem as plantas providas de clorofila, mas não há ainda nenhuma certeza sobre isto.
Metacosmos, de Anna Thorvaldsdóttir (Þorvaldsdóttir na ortografia islandesa), compositora nascida em 1977, pela Orquestra Sinfónica da Islândia regida pelo maestro Daníel Bjarnason
Isto é música do séc. XXI. É música contemporânea, a ser ouvida com um estado de espírito mais aberto do que o habitual. Para escutá-la, devemos abrir os ouvidos e deixar que a música entre sem constrangimentos, a fim de impressionar a nossa sensibilidade. Punhamos de parte quaisquer pré‑conceitos. Se o título da peça, por si só, não for suficientemente sugestivo, a existência de algum apontamento sobre as intenções do autor poderá ajudar-nos a sentir e a "ver" melhor a música. Se apesar de tudo não nos sentirmos sensibilizados por ela, paciência. Talvez uma outra obra o possa fazer.
A Calúnia de Apeles, têmpera sobre madeira de Sandro Boticelli (1445-1510), Galleria degli Uffizi, Florença, Itália
O pintor Sandro Boticelli foi um dos mais geniais artistas do Renascimento Italiano, que é o mesmo que dizer de todos os tempos e de todos os lugares. Nascido em Florença em 1445, Boticelli trabalhou para os Medici, para os quais pintou A Primavera e O Nascimento de Vénus, entre outros quadros, e também trabalhou para o Vaticano, onde nomeadamente pintou frescos na Capela Sistina. Faleceu em 1510.
Apeles foi um pintor da Grécia Antiga, que viveu no séc. IV A. C. e terá sido pintor oficial de Alexandre Magno. Entre as obras pintadas por Apeles, conta-se um quadro que se perdeu e que representava a Calúnia. Ainda que este quadro tenha sido dado como desaparecido, ficou uma sua descrição, feita pelo escritor helenístico Luciano de Samóstata, que viveu no séc. II D. C. O italiano Sandro Boticelli baseou-se na descrição de Luciano para pintar o quadro Calúnia de Apeles, que aqui se representa.
À direita do quadro, sentado no seu trono e de braço estendido, está o rei Midas, com as suas orelhas de burro, ladeado pela Ignorância e pela Suspeita, que lhe segredam ao ouvido. Diante do rei, com uma tocha acesa na mão, encontra-se o Despeito. Imediatamente atrás deste e vestida de azul está a Calúnia, que vem ladeada pela Fraude e pela Conspiração e arrasta pelos cabelos um jovem, que é o caluniado Apeles. Mais à esquerda do quadro, vestida de farrapos pretos, a Contrição olha para trás, para a nua Verdade, que aponta para o céu, invocando certamente a justiça divina.
O Concerto pelo Bangladesh foi o primeiro grande concerto rock de beneficiência da história, muito anterior ao Live Aid. A sua realização deve-se ao músico indiano Ravi Shankar, que teve a ideia, e ao Beatle George Harrison, que a pôs em prática com o apoio de Phil Spector. O concerto teve lugar no Madison Square Garden, em Nova Iorque, no dia 1 de agosto de 1971 e contou com a presença de 40 mil espetadores.
Em 1971, o Bangladesh vivia um desastre humanitário de proporções inimagináveis. Por um lado, o país travava uma guerra pela sua independência contra o Paquistão, que causou mais de 250 mil mortos civis e 7 milhões de refugiados na Índia. Por outro lado, no ano anterior o Bangladesh tinha sido atingido por um ciclone, que matou mais 500 mil pessoas e provocou uma fome generalizada. Perante este cenário aterrador, o músico indiano Ravi Shankar contactou o seu amigo George Harrison para que se realizasse um concerto com vista à recolha de fundos para apoio às vítimas. O concerto propriamente dito, assim como o álbum discográfico e o vídeo que dele se fizeram renderam até à década de 90 um total de 45 milhões de dólares, que foram entregues à UNICEF, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, segundo o próprio George Harrison.
Nos gritos silenciados
Pelos esgares multiplicados desta metralha horrenda,
Se eu de vós me não lembrar, meu monte e meu rio sagrados,
Que a minha língua se prenda,
Que a minha língua se prenda!
Junto ao Rio de Cacine me sentei chorando, Com saudades consagradas Ao meu chão; Nos palmares do chão manjaco desfiando Um rosário de granadas De mão.
Partem de Kandiafara mísseis Strela em demanda da minha vida,
Quando eu demando a minha terra da promissão:
Tão longe está o doce favo da partida,
A cama desfeita, os olhos embaciados amarrados ao vulcão.
Não é este o Rio que eu desejo engrossar com as lágrimas salgadas
Desta saudade tamanha;
Jazem a harpa e a G3, dependuradas
No tarrafe da bolanha.
Não é este o rio das bogas, dos barbos, das enguias e dos mexilhões
Que eu demando. Este rio não é
O rio que eu desejo. O rio Cacine tem candambas, tem bicudas, tubarões,
Nasce e morre em quatro horas de maré.
Aqui as bajudas balançam com altivez os chalavares dos camarões
E os flamingos parecem levitar num golpe d'asa;
Mas a água do meu rio, como o fogo dos vulcões,
É ferro em brasa.
O meu Tâmega sagrado foi rasgado com um grito,
Marcado pelo lume que a profecia diz,
Um pássaro de fogo voando no infinito,
Doce cicatriz.
Junto ao Rio de Cacine me sentei chorando, Com saudades consagradas Ao meu chão; Nos palmares do chão manjaco desfiando Um rosário de granadas De mão.
Nos gritos silenciados
Pelos esgares multiplicados desta metralha horrenda,
Se eu de vós me não lembrar, meu monte e meu rio sagrados,
Que a minha língua se prenda,
Que a minha língau se prenda!
Luís Jales de Oliveira, Corre-me um Rio no Peito, edição de autor, Mondim de Basto, 2010
Pelicanos no Rio Cacine, Guiné-Bissau (Foto: Pedro do Vale)
Em primeiro plano o Rio Tâmega e em último plano o Monte Farinha, Mondim de Basto, Portugal (Foto: Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega)
GLOSSÁRIO
Chão manjaco - território habitado pelo povo manjaco da Guiné-Bissau
Kandiafara - localidade na República da Guiné (Guiné-Conacri)
Mísseis Strela - mísseis terra-ar com sensores de infra-vermelhos, que podiam ser disparados a partir do ombro de um atirador
Vulcão - alusão ao Monte Farinha, nas proximidades de Mondim de Basto, que não é um vulcão, embora pareça; no seu cume não existe qualquer cratera, mas sim um santuário dedicado a Nossa Senhora da Graça
Tarrafe - o mesmo que tamargueira ou tramagueira, árvore de pequenas dimensões
Bolanha - extensão de terreno alagadiço na Guiné-Bissau
Bajudas - jovens do sexo feminino
Chalavar - instrumento de pesca dotado de rede camaroeira, usado para apanhar marisco
Adieu, je pars!, romance (também chamado romanza) em mi maior, op. 71, n.º 1, de Artur Napoleão, compositor português de ascendência italiana, nascido no Porto em 1843 e falecido no Rio de Janeiro em 1925. São intérpretes o violinista brasileiro Elias Barros e a pianista brasileira Guida Borghoff
Exalçamento da Santa Cruz, c. 1530, óleo sobre madeira de Cristóvão de Figueiredo (ativo entre 1515 e 1543), Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra, Portugal
Heráclio (ca. 575 – 641) foi um dos mais importantes imperadores bizantinos, ou seja, do Império Romano do Oriente. Quando subiu ao trono no ano 610, Heráclio herdou um império em iminente desmoronamento por causa de uma guerra que travava contra a Pérsia pré-islâmica, guerra esta que os persas estavam a levar de vencida. Graças ao seu génio militar, Heráclio inverteu a situação, conseguiu recuperar todos os territórios perdidos e, na situação de vencedor, estabeleceu por fim a paz com a Pérsia.
Durante os confrontos que opuseram os bizantinos aos persas, estes conseguiram a dado momento tomar a cidade de Jerusalém, onde se apoderaram da Vera Cruz, que era supostamente a verdadeira cruz em que Cristo tinha sido crucificado. Quando, por fim, o Império Romano do Oriente derrotou o Império Persa, Heráclio trouxe a Vera Cruz de volta para Jerusalém, integrado num cortejo rodeado de grande pompa. Este cortejo foi chamado "exaltação" ou "exalçamento" da Santa Cruz e foi objeto de diversas representações pictóricas, entre as quais esta, da autoria de Cristóvão de Figueiredo.
Cristóvão de Figueiredo foi um dos mais notáveis pintores portugueses do Renascimento e pertenceu à chamada Escola de Lisboa. Não se sabem as datas e locais do seu nascimento e da sua morte, apenas se conhecendo a sua atividade artística, a qual terá sido exercida entre 1515 e 1543. O seu quadro Exaltação da Santa Cruz começou por fazer parte de um políptico que esteve na capela-mor da igreja do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. O quadro encontra-se atualmente no Museu Nacional de Machado de Castro, também em Coimbra.
Em face da reiterada violação dos seus territórios por parte de madeireiros, garimpeiros e outros invasores, que empreendem uma vasta e sistemática destruição da floresta amazónica perante a indiferença ou mesmo a conivência das autoridades, os índios Guajajara, do estado brasileiro do Maranhão, resolveram tomar nas suas próprias mãos a sua própria defesa, assim como a defesa de uma tribo de indígenas isolados que com eles partilham os mesmos territórios, os índios Awá Guajá.
Assim nasceu um grupo organizado chamado "Guardiões da Floresta", que patrulha as terras indígenas, denuncia às autoridades a sua violação e até captura e entrega à Polícia Federal os invasores que encontrar. Esta é uma luta de vida e de morte, pois os invasores não hesitam em matar quem se atravessar no seu caminho. Já morreu gente nesta luta e tudo indica que vai continuar a morrer. As ameaças de morte sucedem-se.
O vídeo acima documenta a ação de um grupo de "Guardiões da Floresta" no Maranhão, incluindo a troca de olhares que tiveram com um Awá Guajá isolado. Os vídeos que se seguem documentam (em inglês) aspetos da vida dos índios Awá que já não vivem isolados, assim como os seus sentimentos relativamente aos seus parentes que continuam a viver nas profundezas da floresta.
Canto tradicional, por um grupo de senhoras do Bailundo, província do Huambo
Manuelé, por Sabu Guimarães
Malalanza ("Laranjas"), por Carlos Burity
Nvula Ieza Kiá ("A Chuva Já Chegou") e Humbiumbi (nome de uma ave de penas negras), duas canções de Filipe Mukenga, pelos cantores brasileiros Gilberto Gil e Djavan
Já não posso ser contente,
Tenho a esperança perdida,
Ando perdido entre a gente,
Nem morro, nem tenho vida.
Prazeres que tenho visto
Onde se foram, que é deles,
Fora-se a vida com eles
Não ma vira agora nisto,
Vejo-me andar entre a gente
Como coisa esquecida,
Eu triste, outrem contente,
Eu sem vida, outrem com vida.
Vieram os desenganos,
Acabaram os receios;
Agora choro meus danos,
E mais choro bens alheios;
Passou o tempo contente,
E passou tão de corrida,
Que me deixou entre a gente
Sem esperança de vida.
"Num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos", afirma o Teorema de Pitágoras, em que a hipotenusa é o lado do triângulo oposto ao ângulo reto e os catetos são os dois lados contíguos a este ângulo, formando-o. Este teorema foi proposto e demonstrado por Pitágoras, matemático e filósofo grego que viveu entre o ano 570 A.C. e o ano 495 A.C.
Um triângulo retângulo é uma figura geométrica a duas dimensões, que pode ser desenhada numa folha de papel. Se em vez de tomarmos um triângulo retângulo, tomarmos uma figura correspondente a três dimensões, o Teorema de Pitágoras será também válido? A resposta é sim. A demonstração do Teorema de Pitágoras a três dimensões já foi feita por processos analíticos há muito tempo. Na verdade, o Teorema de Pitágoras é válido para tantas dimensões quantas quisermos, o que é um exercício puramente teórico, porque o universo em que nos movemos só tem três dimensões espaciais.
Então o Teorema de Pitágoras a três dimensões como é? Como se demonstra? O vídeo acima faz a demonstração do Teorema de Pitágoras no espaço tridimensional, não por meios analíticos, mas por meios puramente geométricos. Talvez esta tenha sido a primeira vez que uma tal demonstração tenha sido feita por alguém. O seu autor é Luis Teia, um astrofísico português doutorado e investigador na Universidade de Manchester. No fim da sua demonstração, Luis Teia apresenta-nos, como brinde, uma descoberta que entretanto fez e que é completamente inesperada e surpreendente.
Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
António Arnaut (1936–2018), fundador do Serviço Nacional de Saúde
Campo de trigo com ciprestes, de Vincent van Gogh (1853–1890)
Na Loja do Mestre André, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Felgueiras, Douro Litoral
O seu nome verdadeiro era Armando Lopes, mas adotou o pseudónimo de Armando Leça por ter nascido em Leça da Palmeira, Matosinhos, em 1893. Foi pai de duas grandes personalidades da cultura portuguesa: Óscar Lopes e Mécia de Sena.
Armando Leça foi compositor e etnomusicólogo, e foi um pioneiro na recolha, sistematização e divulgação da música popular portuguesa de raiz, tendo percorrido o país incansavelmente. Por isso, Armando Leça chamava-se a si próprio "músico caminheiro". O seu exemplo foi logo seguido por outros, como Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça, José Alberto Sardinha, Tiago Pereira, etc. Armando Leça faleceu em Vila Nova de Gaia em 1977.
Chora a Videira, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Besteiros, Amares, Minho
Santa Combinha, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Cambra, Vouzela, Beira Alta
Estalado, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Coimbra, Beira Litoral
Videira, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Teixoso, Covilhã, Beira Baixa
Eu Sou um Rapaz Pimpão, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Baleizão, Beja, Baixo Alentejo
Amigo, entendo que non ouvestes
poder d'alhur viver e veestes
a mia mesura, e non vos val ren,
ca tamanho pesar me fezestes,
que jurei de vos nunca fazer ben.
Quisera-me eu non aver jurado,
tanto vos vejo viir coitado
a mia mesura. Mais que prol vos ten?
Ca, u vos fostes sen meu mandado,
jurei que nunca vos fezesse ben.
Por sempre sodes de mi partido
e non vos á prol de seer viido
a mia mesura, e gran mal m'é en,
ca jurei, tanto que fostes ido,
que nunca jamais vos fezesse ben.
Cantiga de amigo de João Baveca, provavelmente jogral do séc. XIII
Compreendendo que o seu amigo não conseguiu estar muito tempo longe dela, e regressa agora a contar com a sua generosidade, a donzela diz-lhe que é talvez um pouco tarde: pois, quando ele partiu contra a sua vontade, jurou nunca mais lhe conceder os seus favores. E agora, embora tendo dó dele, custa-lhe quebrar essa jura.
Por sempre serdes de mi partido, / nom vos há prol de seer viido / a mia mesura, e gram mal m'é en — porque estais sempre longe, não vos adianta ter vindo apelar à minha generosidade, e isso aflige-me muito.
As imagens deste vídeo são reais. A empresa norte-americana Boston Dynamics é líder mundial no desenvolvimento de robots. Neste vídeo, é verdadeiramente espantosa a forma como os robots humanoides, sobretudo, conseguem manter o equilíbrio, quaisquer que sejam os movimentos que façam.
A Boston Dynamics quis dar-nos um vídeo divertido, mas mais do que divertido, ele parece-me assustador. Quem consegue pôr robots a dançar desta maneira, consegue pô-los a fazer outras coisas menos inocentes. E isto é só o começo do começo. Imagine-se o que poderá fazer um robot, que seja dotado de "inteligência artificial" com capacidade de aprendizagem em tempo real, mas esteja desprovido de sentimentos como máquina que é.
Por alguma razão estás sempre nua no meu pensamento.
O meu pensamento, artista de haute couture inversa, revela a beleza do tecido vivo da tua pele. A tua nudez como beleza desnuda prova que toda a criação humana é supérflua, e que a verdade das coisas está sempre subjacente a todo o artifício.
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A suprema lucidez torna evidente que é preciso ajudar a realidade a ir ao encontro das nossas ilusões.
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Ah a tentação de uma rosa sobre o muro! Hirsuta a roseira eriçada de espinhos. Rapina a mão a tentar colhê-la. A mão e a rosa. A beleza e a líbido — o mais sublime conflito da natureza.
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Quando os nossos corpos se unem, não sei quem possui quem. Não é o sabre que possui a bainha mas sim a bainha que possui o sabre.
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O que aprendi na guerra contraria a ordem natural das coisas. Só é possível ser corajoso se se sentir medo do perigo.
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Ignorar um perigo não é coragem, é cobardia. O evitamento e a negação são fugas para enfrentar o medo. A maior cobardia é o medo de ter medo.
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Os estúpidos nunca são corajosos, a experiência diz-lhes que são sempre os outros a morrer.
A estupidez pode chegar a esse nível cognitivo, e não é de estranhar que escolham para seus líderes quem tenha o mesmo nível intelectual. Frequentemente, admiram quem ostente a bravata quase sempre inútil de se expor ao perigo ignorando o inimigo, apenas porque não o veem, e confundem essa imbecilidade com coragem. Pobres dos que lutam lado a lado com soldados desses, melhor fora praticarem hara-kiri.
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Em África não odiávamos o inimigo, combatíamos por um estranho instinto do cumprimento do dever.
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Do chão do corredor do Hospital Militar da Beira vê-se o mundo de baixo para cima.
O condutor da ambulância a fazer street racing e o soldado por cima de mim a esvair-se em sangue. Agora ali parece que dorme, sereno. As pessoas passam e ignoram-no porque o sangue dele está todo sobre mim.
O mundo visto de baixo para cima torna as caras cómicas. Os pés, esses, passam rentes à minha cabeça. Às vezes, a indiferença das pessoas é interrompida pela visão de um soldado todo coberto de sangue e com o lençol murcho onde devia estar a perna esquerda.
“Olha-me este paradoxo!” Diz uma cara cómica para outra cara cómica, apontando para o meu emblema hippie e a outra cara cómica ganha agora também um ar estúpido.
“Um símbolo da paz num ferido de guerra.” Depois da explicação, a cara estúpida, agora com ar filosófico, olhando o medalhão de madeira feito por um artista de arte cava maconde.
Finalmente as duas caras olhando, como se eu não estivesse lá, como fazemos nos zoos, por acharmos que os animais não ficam ofendidos por serem tratados como pessoas que desprezamos.
O convívio constante com o drama e a tragédia leva as pessoas à insensibilidade por fadiga de compaixão.
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A mãe do meu amigo morto na Guiné:
— No te enxergo baim Manelzito, mas alembro-me baim da tua cara. Mas nã tenho uma luz da cara do mê Tó. Afirmo-me baim no retrato dele mas só veijo uma névoa. Alembro-me de toda a gente e do mê rico filho não. Porque me lo há de Deus ter levado e naim a lembrança da cara dele me deixô?
E eu procurando palavras para lhe dizer, palavras que ainda ninguém inventou para explicar as coisas estupidamente cruéis desta vida.
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Sorrio ao ouvir dizer que os ex-combatentes evitam falar da guerra. Esta é a confusão habitual entre silêncio e surdez. Nós vimos falando da guerra em altos berros, pá, tu é que estás surdo!
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Se salvaste a vida de uma pessoa és de certo um herói, se salvaste a vida a 100 pessoas deves ser apenas uma enfermeira.
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Hoje pensei que não iria falar de Deus. Ter pensado nisto prova que Deus existe, pelo menos enquanto conceito, e é omnipotente, mas também prova que precisa do nosso pensamento para isso.
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Guardo nítida a forma da tua silhueta frente ao mar. Uma ligeira dormência que sempre sucede a um esforço demorado guardou essa imagem no diretório dos meus sonhos.
O meu cansaço teve hoje outra origem, mas ao olhar a janela do quarto de hotel que dá para a aridez da cidade, é o mar que vejo e a tua silhueta que percebo nítida… e a certeza de te ter amado toda a noite.
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Tocas-me, e há uma alteração em todo o meu ser e uma perspectiva de prazer irrecusável e irreversível.
O chão transforma-se em caminho mal começamos a andar nele.
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Não devemos confiar nos otimistas, eles contentam-se com copos meio cheios. Já os pessimistas, que os veem meio vazios, tenderão a enchê-los.
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O que há de verdadeiramente perigoso no amor, é que trazemos para viver connosco precisamente quem pode dar cabo da nossa vida.
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Hoje estou tao calmo como dois cisnes deslizando nas águas lisas de um lago. Acalmam-me o silêncio e a solidão, porque sei que do outro lado da parede, do outro lado da rua, do outro lado do mundo tu estás disponível para mim.
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A rosa obsessiva sobre o muro. A mão inquieta. A escada que sobes de glúteos inocentemente provocatórios. Que culpa tenho eu, Rosa, que culpa tenho eu?
Autorretrato de João Cristino da Silva (1829–1877), óleo sobre tela de 1854, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal
João Cristino da Silva foi um pintor lisboeta, nascido em Alfama no ano de 1829. Foi um dos mais destacados pintores portugueses do Romantismo, corrente dominante no séc. XIX, e privilegiou a pintura de paisagens. Era uma pessoa irreverente e de temperamento nervoso, estado de espírito que se foi agravando com o passar dos anos e que acabou por determinar o seu internamento no estabelecimento psiquiátrico de Rilhafoles, em Lisboa (mais tarde chamado Hospital Miguel Bombarda, já desativado), onde faleceu em 1877. Foi o iniciador de uma dinastia de artistas plásticos e arquitetos que continuaram a utilizar o nome de Cristino da Silva. Quando se fala de Cristino da Silva, portanto, convém especificar de qual se trata. Este foi o João.
João Cristino da Silva pintou cerca de trezentos quadros, o mais famoso dos quais se chama "Cinco Artistas em Sintra". Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela, onde estão representados cinco artistas plásticos diante de grandes rochedos, que o título da obra diz serem em Sintra. Sentado, com uma perna estendida e pintando um quadro, está Tomás da Anunciação. Rodeando-o, está um pequeno grupo de habitantes locais, que observam com curiosidade o seu ato de pintar. Neste grupo fica documentada a indumentária saloia do séc. XIX. Atrás de Tomás da Anunciação está o pintor Francisco Metrass, de chapéu preto na cabeça. Mais à direita, e separados dos restantes retratados, estão o escultor Vítor Bastos, também de chapéu preto na cabeça, o próprio João Cristino da Silva e, sentado, José Rodrigues. Esfumado na distância, junto à borda esquerda do quadro, está o Palácio da Pena, representado de forma bastante imaginativa e dramática.
Cinco artistas em Sintra, 1855, óleo sobre tela de João Cristino da Silva (1829–1877), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal