27 janeiro 2021

Já não posso ser contente

Já não posso ser contente,
Tenho a esperança perdida,
Ando perdido entre a gente,
Nem morro, nem tenho vida.

Prazeres que tenho visto
Onde se foram, que é deles,
Fora-se a vida com eles
Não ma vira agora nisto,
Vejo-me andar entre a gente
Como coisa esquecida,
Eu triste, outrem contente,
Eu sem vida, outrem com vida.

Vieram os desenganos,
Acabaram os receios;
Agora choro meus danos,
E mais choro bens alheios;
Passou o tempo contente,
E passou tão de corrida,
Que me deixou entre a gente
Sem esperança de vida.

Diogo Bernardes (c. 1530 – c. 1594)



(Foto de autor desconhecido)

23 janeiro 2021

O Teorema de Pitágoras a três dimensões




"Num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos", afirma o Teorema de Pitágoras, em que a hipotenusa é o lado do triângulo oposto ao ângulo reto e os catetos são os dois lados contíguos a este ângulo, formando-o. Este teorema foi proposto e demonstrado por Pitágoras, matemático e filósofo grego que viveu entre o ano 570 A.C. e o ano 495 A.C.

Um triângulo retângulo é uma figura geométrica a duas dimensões, que pode ser desenhada numa folha de papel. Se em vez de tomarmos um triângulo retângulo, tomarmos uma figura correspondente a três dimensões, o Teorema de Pitágoras será também válido? A resposta é sim. A demonstração do Teorema de Pitágoras a três dimensões já foi feita por processos analíticos há muito tempo. Na verdade, o Teorema de Pitágoras é válido para tantas dimensões quantas quisermos, o que é um exercício puramente teórico, porque o universo em que nos movemos só tem três dimensões espaciais.

Então o Teorema de Pitágoras a três dimensões como é? Como se demonstra? O vídeo acima faz a demonstração do Teorema de Pitágoras no espaço tridimensional, não por meios analíticos, mas por meios puramente geométricos. Talvez esta tenha sido a primeira vez que uma tal demonstração tenha sido feita por alguém. O seu autor é Luis Teia, um astrofísico português doutorado e investigador na Universidade de Manchester. No fim da sua demonstração, Luis Teia apresenta-nos, como brinde, uma descoberta que entretanto fez e que é completamente inesperada e surpreendente.

19 janeiro 2021

Os meus heróis

Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha

António Arnaut (1936–2018), fundador do Serviço Nacional de Saúde


Campo de trigo com ciprestes, de Vincent van Gogh (1853–1890) 

17 janeiro 2021

Música popular portuguesa recolhida por Armando Leça


Na Loja do Mestre André, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Felgueiras, Douro Litoral 

O seu nome verdadeiro era Armando Lopes, mas adotou o pseudónimo de Armando Leça por ter nascido em Leça da Palmeira, Matosinhos, em 1893. Foi pai de duas grandes personalidades da cultura portuguesa: Óscar Lopes e Mécia de Sena.

Armando Leça foi compositor e etnomusicólogo, e foi um pioneiro na recolha, sistematização e divulgação da música popular portuguesa de raiz, tendo percorrido o país incansavelmente. Por isso, Armando Leça chamava-se a si próprio "músico caminheiro". O seu exemplo foi logo seguido por outros, como Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça, José Alberto Sardinha, Tiago Pereira, etc. Armando Leça faleceu em Vila Nova de Gaia em 1977.


Chora a Videira, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Besteiros, Amares, Minho 

Santa Combinha, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Cambra, Vouzela, Beira Alta 

Estalado, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Coimbra, Beira Litoral 

Videira, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Teixoso, Covilhã, Beira Baixa 

Eu Sou um Rapaz Pimpão, gravação recolhida por Armando Leça (1893-1977) em Baleizão, Beja, Baixo Alentejo 

13 janeiro 2021

Amigo, entendo que non ouvestes

Amigo, entendo que non ouvestes
poder d'alhur viver e veestes
a mia mesura, e non vos val ren,
ca tamanho pesar me fezestes,
  que jurei de vos nunca fazer ben.

Quisera-me eu non aver jurado,
tanto vos vejo viir coitado
a mia mesura. Mais que prol vos ten?
Ca, u vos fostes sen meu mandado,
  jurei que nunca vos fezesse ben.

Por sempre sodes de mi partido
e non vos á prol de seer viido
a mia mesura, e gran mal m'é en,
ca jurei, tanto que fostes ido,
  que nunca jamais vos fezesse ben.

Cantiga de amigo de João Baveca, provavelmente jogral do séc. XIII

GLOSSÁRIO

alhur — algures, noutro lugar
mesura
 — cortesia, generosidade
rem (em frases negativas) — nada
prol/proe — proveito
u — quando
mandado — consentimento, acordo

EXPLICAÇÃO

Compreendendo que o seu amigo não conseguiu estar muito tempo longe dela, e regressa agora a contar com a sua generosidade, a donzela diz-lhe que é talvez um pouco tarde: pois, quando ele partiu contra a sua vontade, jurou nunca mais lhe conceder os seus favores. E agora, embora tendo dó dele, custa-lhe quebrar essa jura.

Por sempre serdes de mi partido, / nom vos há prol de seer viido / a mia mesura, e gram mal m'é en — porque estais sempre longe, não vos adianta ter vindo apelar à minha generosidade, e isso aflige-me muito.



09 janeiro 2021

Robots dançarinos



As imagens deste vídeo são reais. A empresa norte-americana Boston Dynamics é líder mundial no desenvolvimento de robots. Neste vídeo, é verdadeiramente espantosa a forma como os robots humanoides, sobretudo, conseguem manter o equilíbrio, quaisquer que sejam os movimentos que façam.

A Boston Dynamics quis dar-nos um vídeo divertido, mas mais do que divertido, ele parece-me assustador. Quem consegue pôr robots a dançar desta maneira, consegue pô-los a fazer outras coisas menos inocentes. E isto é só o começo do começo. Imagine-se o que poderá fazer um robot, que seja dotado de "inteligência artificial" com capacidade de aprendizagem em tempo real, mas esteja desprovido de sentimentos como máquina que é.

07 janeiro 2021

Pensamentos esdrúxulos



Por alguma razão estás sempre nua no meu pensamento.

O meu pensamento, artista de haute couture inversa, revela a beleza do tecido vivo da tua pele. A tua nudez como beleza desnuda prova que toda a criação humana é supérflua, e que a verdade das coisas está sempre subjacente a todo o artifício.

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A suprema lucidez torna evidente que é preciso ajudar a realidade a ir ao encontro das nossas ilusões.

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Ah a tentação de uma rosa sobre o muro! Hirsuta a roseira eriçada de espinhos. Rapina a mão a tentar colhê-la. A mão e a rosa. A beleza e a líbido — o mais sublime conflito da natureza.

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Quando os nossos corpos se unem, não sei quem possui quem. Não é o sabre que possui a bainha mas sim a bainha que possui o sabre.

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O que aprendi na guerra contraria a ordem natural das coisas. Só é possível ser corajoso se se sentir medo do perigo.

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Ignorar um perigo não é coragem, é cobardia. O evitamento e a negação são fugas para enfrentar o medo. A maior cobardia é o medo de ter medo.

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Os estúpidos nunca são corajosos, a experiência diz-lhes que são sempre os outros a morrer.

A estupidez pode chegar a esse nível cognitivo, e não é de estranhar que escolham para seus líderes quem tenha o mesmo nível intelectual. Frequentemente, admiram quem ostente a bravata quase sempre inútil de se expor ao perigo ignorando o inimigo, apenas porque não o veem, e confundem essa imbecilidade com coragem. Pobres dos que lutam lado a lado com soldados desses, melhor fora praticarem hara-kiri.

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Em África não odiávamos o inimigo, combatíamos por um estranho instinto do cumprimento do dever.

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Do chão do corredor do Hospital Militar da Beira vê-se o mundo de baixo para cima.

O condutor da ambulância a fazer street racing e o soldado por cima de mim a esvair-se em sangue. Agora ali parece que dorme, sereno. As pessoas passam e ignoram-no porque o sangue dele está todo sobre mim.

O mundo visto de baixo para cima torna as caras cómicas. Os pés, esses, passam rentes à minha cabeça. Às vezes, a indiferença das pessoas é interrompida pela visão de um soldado todo coberto de sangue e com o lençol murcho onde devia estar a perna esquerda.

“Olha-me este paradoxo!” Diz uma cara cómica para outra cara cómica, apontando para o meu emblema hippie e a outra cara cómica ganha agora também um ar estúpido.

“Um símbolo da paz num ferido de guerra.” Depois da explicação, a cara estúpida, agora com ar filosófico, olhando o medalhão de madeira feito por um artista de arte cava maconde.

Finalmente as duas caras olhando, como se eu não estivesse lá, como fazemos nos zoos, por acharmos que os animais não ficam ofendidos por serem tratados como pessoas que desprezamos.

O convívio constante com o drama e a tragédia leva as pessoas à insensibilidade por fadiga de compaixão.

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A mãe do meu amigo morto na Guiné:

— No te enxergo baim Manelzito, mas alembro-me baim da tua cara. Mas nã tenho uma luz da cara do mê Tó. Afirmo-me baim no retrato dele mas só veijo uma névoa. Alembro-me de toda a gente e do mê rico filho não. Porque me lo há de Deus ter levado e naim a lembrança da cara dele me deixô?

E eu procurando palavras para lhe dizer, palavras que ainda ninguém inventou para explicar as coisas estupidamente cruéis desta vida.

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Sorrio ao ouvir dizer que os ex-combatentes evitam falar da guerra. Esta é a confusão habitual entre silêncio e surdez. Nós vimos falando da guerra em altos berros, pá, tu é que estás surdo!

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Se salvaste a vida de uma pessoa és de certo um herói, se salvaste a vida a 100 pessoas deves ser apenas uma enfermeira.

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Hoje pensei que não iria falar de Deus. Ter pensado nisto prova que Deus existe, pelo menos enquanto conceito, e é omnipotente, mas também prova que precisa do nosso pensamento para isso.

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Guardo nítida a forma da tua silhueta frente ao mar. Uma ligeira dormência que sempre sucede a um esforço demorado guardou essa imagem no diretório dos meus sonhos.

O meu cansaço teve hoje outra origem, mas ao olhar a janela do quarto de hotel que dá para a aridez da cidade, é o mar que vejo e a tua silhueta que percebo nítida… e a certeza de te ter amado toda a noite.

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Tocas-me, e há uma alteração em todo o meu ser e uma perspectiva de prazer irrecusável e irreversível.

O chão transforma-se em caminho mal começamos a andar nele.

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Não devemos confiar nos otimistas, eles contentam-se com copos meio cheios. Já os pessimistas, que os veem meio vazios, tenderão a enchê-los.

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O que há de verdadeiramente perigoso no amor, é que trazemos para viver connosco precisamente quem pode dar cabo da nossa vida.

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Hoje estou tao calmo como dois cisnes deslizando nas águas lisas de um lago. Acalmam-me o silêncio e a solidão, porque sei que do outro lado da parede, do outro lado da rua, do outro lado do mundo tu estás disponível para mim.

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A rosa obsessiva sobre o muro. A mão inquieta. A escada que sobes de glúteos inocentemente provocatórios. Que culpa tenho eu, Rosa, que culpa tenho eu?


mcbastos, Elo, mensário da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, setembro–outubro de 2020

03 janeiro 2021

João Cristino da Silva


Autorretrato de João Cristino da Silva (1829–1877), óleo sobre tela de 1854, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

João Cristino da Silva foi um pintor lisboeta, nascido em Alfama no ano de 1829. Foi um dos mais destacados pintores portugueses do Romantismo, corrente dominante no séc. XIX, e privilegiou a pintura de paisagens. Era uma pessoa irreverente e de temperamento nervoso, estado de espírito que se foi agravando com o passar dos anos e que acabou por determinar o seu internamento no estabelecimento psiquiátrico de Rilhafoles, em Lisboa (mais tarde chamado Hospital Miguel Bombarda, já desativado), onde faleceu em 1877. Foi o iniciador de uma dinastia de artistas plásticos e arquitetos que continuaram a utilizar o nome de Cristino da Silva. Quando se fala de Cristino da Silva, portanto, convém especificar de qual se trata. Este foi o João.

João Cristino da Silva pintou cerca de trezentos quadros, o mais famoso dos quais se chama "Cinco Artistas em Sintra". Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela, onde estão representados cinco artistas plásticos diante de grandes rochedos, que o título da obra diz serem em Sintra. Sentado, com uma perna estendida e pintando um quadro, está Tomás da Anunciação. Rodeando-o, está um pequeno grupo de habitantes locais, que observam com curiosidade o seu ato de pintar. Neste grupo fica documentada a indumentária saloia do séc. XIX. Atrás de Tomás da Anunciação está o pintor Francisco Metrass, de chapéu preto na cabeça. Mais à direita, e separados dos restantes retratados, estão o escultor Vítor Bastos, também de chapéu preto na cabeça, o próprio João Cristino da Silva e, sentado, José Rodrigues. Esfumado na distância, junto à borda esquerda do quadro, está o Palácio da Pena, representado de forma bastante imaginativa e dramática.


Cinco artistas em Sintra, 1855, óleo sobre tela de João Cristino da Silva (1829–1877), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

01 janeiro 2021

Nesta hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre
– Sob o ausente olhar silente de atenção –

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.



Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004)

30 dezembro 2020

O milagre de Beethoven



Sinfonia N.º 9 em Ré Menor, op. 125, "Sinfonia Coral", de Ludwig van Beethoven (1770–1827), pela Orquestra Sinfónica da NBC, dos Estados Unidos, sob a direção do maestro italiano Arturo Toscanini (1867–1957), com a soprano Anne McKnight (1924–2012), a contralto Jane Hobson (1918–1984), o tenor Irwin Dillon (1907–2003), o baixo Norman Scott (1921–1968) e membros do coro sinfónico Collegiate Chorale


Beethoven devia ser canonizado. Se considerarmos que quem faz milagres é um santo, então Beethoven foi um santo. Esta sinfonia é um milagre.

Quando compôs a sua 9.ª Sinfonia, Beethoven estava completamente surdo. Sabia que nunca na sua vida poderia ser capaz de ouvi-la. Mesmo assim, compôs aquela que é, sem dúvida nenhuma, uma das obras mais sublimes de toda a História da música europeia.

No seu cérebro fechado aos sons do mundo, Beethoven foi capaz de criar um universo sonoro incomparável, ouvindo-o para dentro de si mesmo. Para cúmulo, coroou esta sua prodigiosa obra com a "Ode à Alegria" de Schiller. Com ela, Beethoven, o surdo, cantou a alegria contra a adversidade cruel que o atingiu, contra o destino. E venceu. Venceu-se a si próprio, venceu o destino e venceu-nos a nós todos. Devia ser canonizado.

Neste ano de 2020, que muitos de nós procurarão esquecer por causa da pandemia de covid-19 que o marcou, e em que se completaram 250 anos sobre o nascimento de Beethoven, eu não podia deixar de evocar o seu génio e o seu exemplo.

27 dezembro 2020

O caldo de pedra


Uma sopa de pedra de Almeirim acabada de fazer é a melhor arma para combater o frio (Foto: Mulher Portuguesa)



Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:

— Vou ver se faço um caldinho de pedra.

E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:

— Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.

Responderam-lhe:

— Sempre queremos ver isso.

Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:

— Se me emprestassem aí um pucarinho…

Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.

— Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas…

Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:

— Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.

Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:

— Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.

Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:

— Agora é que com uns olhinhos de couve ficava, que os anjos o comeriam.

A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as e ripou-as com os dedos, deitando as folhas na panela.

Quando os olhos já estavam aferventados, disse o frade:

— Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça…

Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela, ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:

— Oh senhor frade, então a pedra?

Respondeu o frade:

— A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.

E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.



Conto popular recolhido no Porto. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843–1924)

25 dezembro 2020

Ó meu Menino


Ó meu Menino, também chamado Menino de Pias, um cante da vila alentejana de Pias, no concelho de Serpa, interpretado pelo Coro (Clássico) do Orfeão Universitário do Porto, dirigido por António Sérgio Ferreira, num arranjo de Eurico Carrapatoso. A versão original (mais ou menos) deste cante pode ser ouvida aqui

22 dezembro 2020

Como funcionam as vacinas contra a covid-19?


Explicação, tanto quanto possível simples e com a ajuda de desenhos, sobre o modo de funcionamento das vacinas contra a covid-19, feita pelo dr. Luiz Fernando Reis, do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, Brasil

19 dezembro 2020

Édipo e a Esfinge


Primeira representação (definitiva) de Édipo e a Esfinge, óleo sobre tela de Ingres (1780–1867), Musée du Louvre, Paris, França

Segunda representação de Édipo e a Esfinge, óleo sobre tela de Ingres (1780–1867), Walters Art Museum, Baltimore, Estados Unidos da América

Édipo e a Esfinge, pequeno esboço a óleo de Ingres (1780–1867), National Gallery, Londres, Reino Unido

"Édipo e a Esfinge" é uma pintura do artista neoclássico francês Jean-Auguste-Dominque Ingres (1780-1867). Melhor dizendo, são duas pinturas. Vendo bem, são três pinturas de Ingres, duas definitivas e um esboço. Para concluir, poderemos dizer que ele ao todo fez quatro pinturas. E chega… 

Em concreto, o que Ingres realizou sobre "Édipo e a Esfinge", foi o seguinte:

— uma primeira pintura, realizada no ano de 1808, quando ele ainda era estudante, na qual Édipo é representado voltado para a esquerda;

— um pequeno esboço a óleo, feito em 1826, como experimentação para uma remodelação e ampliação da primeira pintura; este esboço está em Londres, na National Gallery;

— a primeira pintura na sua versão definitiva, depois de ter sido remodelada e ampliada em 1827, a qual está em Paris, no Museu do Louvre;

— uma nova pintura sobre o mesmo tema, mas em que Édipo aparece virado para a direita; este quadro está em Baltimore, Estados Unidos, no Walters Art Museum.

Reza a mitologia da Grécia Antiga que, à entrada da cidade de Tebas, estava uma esfinge, que era uma criatura híbrida, com corpo de leão, asas de ave e cabeça de mulher. Esta criatura colocava a todos os passantes um enigma, para que eles adivinhassem. Se eles não soubessem adivinhar, a esfinge devorava-os. O enigma era o seguinte:

— Que animal caminha sobre quatro pernas de manhã, duas pernas durante o dia e três pernas à noite?

Édipo adivinhou, respondendo que esse animal era o homem. De manhã, isto é, na infância, o homem gatinha. Ao meio-dia, ou seja, na maturidade, o homem caminha ereto sobre dois pés. À noite, que corresponde à velhice, ele caminha apoiado numa bengala.

Furiosa por Édipo ter descoberto o enigma, a esfinge matou-se, atirando-se a um precipício.

Os quadros de Ingres representam o momento em que Édipo enfrenta a esfinge e lhe responde. Na base da rocha sobre que a esfinge está pousada, veem-se ossadas de anteriores vítimas, que não conseguiram decifrar o enigma.

12 dezembro 2020

Sons do Mediterrâneo



Música tradicional da Córsega. Sta Mane, pelo grupo polifónico L'Alba



Música tradicional da Sardenha. O grupo polifónico Tenore Supramonte, de Orgosolo, canta um soneto improvisado de Remundu Piras (1905–1978)



Música tradicional da Sicília. Trechos musicais baseados numa espécie de gaita de foles chamada zampogna

09 dezembro 2020

Depois da batalha

No campo da batalha, abandonados,
Jazem por terra os mortos da campanha
Que apodrecem, do sol à luz estranha,
Ventres abertos, membros mutilados.

Destroços de canhões estilhaçados,
Atestam do combate a horrível sanha;
E o sangue dos heróis ainda banha
Dum tom sinistro as ervas dos valados…

Bandos de corvos, fartos de carnagem,
Que é quanto resta do espantoso drama,
Cortam de voos negros a paisagem…

Paira uma águia no azul, serena e forte:
— «Foi bem dura a batalha!» — (a águia exclama)
— «Mas quem venceu?» — Responde um corvo: a Morte.

João Saraiva (1866–1948)


Cena de batalha da 1.ª Guerra Mundial (Foto de autor desconhecido)

06 dezembro 2020

Fado Burnay


Fado Burnay, do músico português Eduardo Burnay (1877–1926), num arranjo para dois pianos de Armando José Fernandes (1906–1983), pelos pianistas franceses Bruno Belthoise e Claude Maillols

03 dezembro 2020

Columbano Bordalo Pinheiro


Retrato de Bulhão Pato, 1883, de Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929), óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Columbano Bordalo Pinheiro foi um dos mais destacados pintores portugueses da transição do séc. XIX para o séc. XX. Nascido em Cacilhas, Almada, no ano de 1857, Columbano Bordalo Pinheiro pertencia a uma família de artistas, pois era filho do pintor e escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro, irmão do caricaturista e ceramista Rafael Bordalo Pinheiro, o criador da personagem Zé Povinho (que detesto, aliás!), e também irmão da pintora e rendeira Maria Augusta Bordalo Pinheiro. Está visto que a família Bordalo Pinheiro tinha o ADN da Arte.

Columbano Bordalo Pinheiro começou por frequentar a Academia de Belas-Artes de Lisboa e depois continuou a sua formação em Paris, onde contactou com a arte de Degas e Manet, cuja influência se deteta na sua pintura. Quando regressou a Portugal, Columbano juntou-se a um grupo de artistas que se reunia habitualmente na Cervejaria Leão, em Lisboa, o chamado "Grupo do Leão", que ele retratou. Tornou-se igualmente professor da Academia de Belas-Artes de Lisboa, de que tinha sido aluno e onde lecionou Pintura Histórica.

De facto, a pintura de temas históricos foi uma das suas mais destacadas produções, tendo pintado numerosas obras que poderão ser admiradas na Assembleia da República, no Museu Militar de Lisboa e em outros edifícios e instituições. Mas foi sobretudo como retratista que Columbano Bordalo Pinheiro mais se distinguiu, produzindo um conjunto de retratos de personalidades da sua época que são cheios de caráter e de expressividade.

A seguir à implantação da República, Columbano Bordalo Pinheiro foi nomeado diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea, cargo que abandonou após o golpe militar de 28 de maio de 1926. Faleceu em Lisboa em 1929.
  

Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, 1884, de Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929),  óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Um Concerto de Amadores, 1882, de Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929), óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Antero de Quental, 1889, de Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929), óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Maria Cristina Bordalo Pinheiro, 1912, de Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929), óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Autorretrato de Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929), óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Retrato de Teófilo Braga, 1917, de Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929), óleo sobre tela, Palácio de Belém, Lisboa, Portugal

29 novembro 2020

Pentes tradicionais dos indígenas do Brasil



Maini Kuikuro é um índio brasileiro da etnia Kuikuro que fabrica pentes tradicionais, além de outros objetos característicos do seu povo. Vive numa aldeia do Xingu chamada Afukuri, de onde não sai para a cidade por causa da pandemia de coronavírus. Contudo, ele tem Whatsapp e está presente nas redes sociais. É, portanto, um índio do nosso tempo, mas sem renegar a sua própria cultura. Na sua página pessoal no Instagram, Mani Kuikuro publicou um conjunto de fotografias sobre os pentes que fabrica e que pretende vender, ilustrando também o modo como os fabrica. Tomei a liberdade de reproduzir algumas dessas fotografias.








O artista enquanto guerreiro

22 novembro 2020

Meu amor da Rua Onze

Tantas juras nos trocamos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos roubamos,
Tantos abraços nos demos.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais mentir.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nos trocamos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As promessas que fizemos.

Nossa maneira de amar
era tão doida, tão louca
Qu'inda me queimam a boca
Os beijos que nos roubamos.

Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nos demos.

E agora
Tudo acabou.
Terminou
Nosso romance.

Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer

E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
De escultura
Cor de bronze,
Meu amor da Rua Onze.

Aires de Almeida Santos (1922-1991), poeta angolano



(Foto: Jessé Manuel)