18 maio 2019

Cravo, rosa e jasmim


(Foto: Anna Armbrust)



Uma mulher tinha três filhas; indo a mais velha passear a uma ribeira, viu dentro da água um cravo, debruçou-se para apanhá-lo, e ela desapareceu. No dia seguinte sucedeu o mesmo a outra irmã, porque viu dentro da ribeira uma rosa. Por fim, a mais nova também desapareceu, por querer apanhar um jasmim. A mãe das três raparigas ficou muito triste, e chorou, chorou, até que tendo um filho, este quando se achou grande, perguntou à mãe porque é que chorava tanto. A mãe contou-lhe como é que ficara sem as suas três filhas.

— Pois dê-me minha mãe a sua bênção, que eu vou por esse mundo em procura delas.

Foi. No caminho encontrou três rapazes em uma grande guerreia. Chegou ao pé deles… «Olá, que é isso?»

Um deles respondeu:

— Oh, senhor; meu pai tinha umas botas, um chapéu e uma chave, que nos deixou. As botas em a gente as calçando, e lhe diga: Botas, põe-me em qualquer banda, é que se aparece onde se quer; a chave abre todas as portas; e o chapéu em se pondo na cabeça, ninguém mais nos vê. O nosso irmão mais velho quer ficar com as três cousas para si, e nós queremos que se repartam à sorte.

— Isso arranja-se bem, disse o rapaz querendo harmonizá-los. Eu atiro esta pedra para bem longe, e o que primeiro a apanhar é que há de ficar com as três cousas.

Assentaram nisso; e quando os três irmãos corriam atrás da pedra, o rapaz calçou as botas, e disse:

— Botas, levem-me ao lugar em que está minha irmã mais velha.

Achou-se logo numa montanha escarpada onde estava um grande castelo, fechado com grossos cadeados. Meteu a chave e todas as portas se lhe abriram; andou por salas e corredores, até que deu com uma senhora linda e bem vestida que estava muito alegre, mas gritou com espanto:

— Senhor! como é que pôde entrar aqui?

O rapaz disse-lhe que era seu irmão, e contou-lhe como é que tinha podido chegar ali. Ela também lhe contou a sua felicidade, mas que o único desgosto que tinha era não poder o seu marido quebrar o encanto em que andava, porque sempre lhe tinha ouvido dizer que só se desencantaria quando morresse um homem que tinha o condão de ser eterno.

Conversaram bastante, e por fim a senhora pediu-lhe para que se fosse embora, porque podia vir o marido e fazer-lhe mal. O irmão disse que não tivesse cuidado porque trazia consigo um chapéu, que em o pondo na cabeça ninguém mais o via. De repente abriu-se a porta, e apareceu um grande pássaro, mas nada viu, porque o rapaz quando sentiu barulho pôs logo o chapéu. A senhora foi buscar uma grande bacia dourada, e o pássaro meteu-se dentro transformando-se em um mancebo formoso. Em seguida olhou para a mulher, e exclamou:

— Aqui esteve gente! — Ela ainda negou, mas viu-se obrigada a confessar tudo.

— Pois se é teu irmão, para que o deixaste ir embora? Não sabias que isso era motivo para eu o estimar? Se cá tornar, dize-lhe para ficar, que o quero conhecer.

O rapaz tirou o chapéu, e veio cumprimentar o cunhado, que o abraçou muito. Na despedida deu-lhe uma pena, dizendo:

— Quando te vires em alguma aflição, se disseres: Valha-me aqui o Rei dos Pássaros! há de te sair tudo como quiseres.

Foi-se o rapaz embora, porque disse às botas que o levassem onde estava sua irmã do meio. Aconteceram pouco mais ou menos as mesmas cousas; à despedida o cunhado deu-lhe uma escama:

— Quando te vires em alguma aflição dize: Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Até que chegou também a casa da sua irmã mais nova; achou-a em uma caverna escura, com grossas grades de ferro; foi ao som das lágrimas e soluços dar com ela muito magra, que assim que o viu, gritou:

— Quem quer que vós sois, tirai-me daqui para fora.

Ele então deu-se a conhecer, e contou-lhe como achou as outras duas irmãs muito felizes, mas só com o desgosto de não poderem os seus maridos desencantar-se. A irmã mais nova contou-lhe como estava com um velho hediondo, um monstro que queria casar com ela por força, e que a tinha ali presa por não lhe querer fazer a vontade. Todos os dias o velho monstro vinha vê-la para lhe perguntar se já estaria resolvida a tomá-lo como marido; e que ela se lembrasse que nunca mais tinha liberdade, porque ele era eterno.

Assim que o irmão ouviu isto lembrou-se do encantamento dos dois cunhados, e pensou em apanhar o segredo por que ele era eterno; aconselhou à irmã que fizesse a promessa de casar com o velho, se lhe dissesse o que é que o fazia eterno.

De repente o chão estremeceu todo, sentiu-se como um grande furacão, e entrou o velho, que chegou ao pé da menina e lhe perguntou:

— Ainda não estás resolvida a casar comigo? Tens de chorar todo o tempo que o mundo for mundo, porque eu sou eterno, e quero casar contigo.

— Pois casarei contigo, disse ela, se me disseres o que é que faz que nunca morras?

O velho desatou às gargalhadas:

— Ah, ah, ah! Pensas que me poderias matar! Só se houvesse quem fosse ao fundo do mar buscar um caixão de ferro, que tem dentro uma pomba branca, que há de pôr um ovo, e depois trouxesse aqui esse ovo, e mo quebrasse na testa.

E tornou a rir-se na certeza de que não havia ninguem que fosse ao fundo do mar, nem fosse capaz de achar onde estava o caixão, nem mesmo de o abrir, e tudo o mais que se sabe.

— Agora tens de casar comigo, porque já te descobri o meu segredo.

A menina pediu ainda uma demora de três dias, e o velho foi-se embora muito contente. O irmão disse para ela, que tivesse esperança, que dentro em três dias estaria livre. Calçou as botas e achou-se à borda do mar; pegou na escama que lhe deu o cunhado e disse:

— Valha-me aqui o Rei dos Peixes!

Apareceu logo o cunhado, muito satisfeito; e assim que ouviu o acontecido mandou vir à sua presença todos os peixes; o último que chegou foi uma sardinhinha, que se desculpou por se ter demorado porque embicou num caixão de ferro que está no fundo do mar. O rei dos peixes deu ordem aos maiores que fossem buscar o caixão ao fundo do mar. Trouxeram-no. O rapaz assim que o viu, disse á chave:

— Chave, abre-me este caixão.

O caixão abriu-se, mas apesar de todas as cautelas, fugiu-lhe de dentro uma pomba branca.

Disse então o rapaz, para a pena:

— Valha-me aqui o Rei dos Pássaros.

Apareceu-lhe o cunhado, para saber o que ele queria, e assim que o soube mandou vir à sua presença todas as aves. Vieram todas e só faltava uma pomba, que veio por último desculpando-se, que lhe tinha chegado ao seu agulheiro uma antiga amiga que estava há muitos anos presa, e que lhe tinha estado a arranjar alguma cousa de comer. O Rei dos Pássaros disse que ensinasse ao rapaz onde é que era o ninho onde a pomba estava, e lá foram, e o rapaz apanhou o ovo que ela já tinha posto e disse às botas que o levassem à caverna onde estava a irmã mais moça. Era já o terceiro dia, e o velho vinha pedir o cumprimento da palavra da menina; ela, que já estava aconselhada pelo irmão, disse que se reclinasse no seu regaço; mal o apanhou deitado, com toda a certeza quebrou-lhe o ovo na testa, e o monstro dando um grande berro, morreu. Os outros dois cunhados quebraram ao mesmo tempo o encantamento, vieram ali ter, e foram com as suas mulheres, que ficaram princesas, visitar a sogra, que viu o seu choro tornado em alegria, na companhia da filha mais nova, que lhe trouxe todos os tesouros que o monstro tinha ajuntado na caverna.


Conto popular recolhido no Algarve.

Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

16 maio 2019

António Vaz


A Virgem com o Menino, c. 1540, óleo sobre madeira de António Vaz, Museu de Alberto Sampaio, Guimarães, Portugal

António Vaz foi um pintor português da oficina de Viseu, com atividade conhecida entre 1537 e 1569. Foi filho de Gaspar Vaz (a quem é atribuída a autoria do belíssmo quadro de São Pedro que pertence à igreja do mosteiro de São João de Tarouca), que por sua vez foi discípulo e colaborador do célebre pintor renascentista viseense Vasco Fernandes, mais conhecido por Grão Vasco. Ao contrário de Gaspar Vaz, seu pai, António Vaz já não é renascentista, mas sim maneirista, o que significa que a sua pintura deve ser "vista" de maneira diferente. Em vez de se procurar o ideal de beleza perseguido pelo Renascimento, deve-se buscar na arte maneirista o impacto e a emoção. A arte maneirista visava mais impressionar do que agradar.

12 maio 2019

O mosteiro de Ferreira


Capitéis do portal ocidental da igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira (Foto: Rota do Românico)

A região de Entre-Douro-e-Minho está recheada de monumentos românicos. Para quem, como eu, é um grande apreciador deste estilo arquitetónico medieval, o Entre-Douro-e-Minho é um paraíso. Só nas bacias dos rios Tâmega e Sousa, ambos afluentes do rio Douro, estão incluídos na chamada Rota do Românico 58 monumentos! Cinquenta e oito! Quase poderíamos dizer que a cada curva da estrada tropeçamos num monumento românico…

Uma tal profusão de monumentos românicos, que são quase todos igrejas, capelas ou mosteiros, deve-se ao estabelecimento de uma certa paz na região, depois de os mouros terem sido afastados para as margens do rio Tejo e de os normandos, ou vikings, terem deixado de constituir, eles também, uma ameaça. Esta paz permitiu que as populações pudessem criar alguma riqueza em terras agricolamente férteis. Esta (muito relativa) riqueza, por um lado, e a religiosidade cristã, por outro, associada, aliás, a crenças pagãs ainda vivas no imaginário popular, levaram à construção de numerosos templos e à implantação de ordens religiosas na região.


Portal ocidental da igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira (Foto: Rota do Românico)

A um par de quilómetros do centro da cidade de Paços de Ferreira, famosa pela sua indústria de mobiliário, e a idêntica distância da vila de Freamunde, muito procurada em vésperas do Natal por causa dos seus saborosos capões, fica a igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, classificada como Monumento Nacional.

As origens do mosteiro de Ferreira são anteriores à nossa nacionalidade, datando do séc. X, quando uma poderosa e influente condessa de Portucale, chamada Mumadona Dias, lhe fez referência no seu testamento. Mumadona Dias é uma figura incontornável da História do Condado Portucalense, a ela se devendo, por exemplo, a construção do castelo de Guimarães. Aparentemente, pelo menos, é também a ela que se deve a construção do mosteiro de Ferreira, se bem que o templo que hoje se ergue no local não seja o templo original de Mumadona Dias, mas um outro que o substituiu no séc. XII.

A atual igreja do mosteiro de Ferreira é um templo deveras interessante, sobretudo por causa do seu original portal ocidental, que parece feito de renda, e da existência de vestígios de um nártex ou galilé, provavelemente com função funerária, dos quais restam um muro, arcos de volta redonda e um campanário.


O campanário e antigo nártex da igreja do mosteiro de São Pedro de Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira (Foto: Rota do Românico)

08 maio 2019

Almoço na relva


Le Déjeuner sur l'herbe, óleo sobre tela de Édouard Manet (1832–1883), Musée d'Orsay, Paris, França

Le Déjeuner sur l'herbe é um quadro do pintor francês Édouard Manet que escandalizou o público quando foi exposto pela primeira vez, no ano de 1863, o que levou à sua retirada da exposição. Só muitos anos mais tarde é que esta obra foi socialmente aceite.

Logo no primeiro momento, o nosso olhar dirige-se para a figura brilhantemente iluminada de uma mulher nua. Ao pé dela, em contraste, estão dois homens vestidos que conversam entre si, parecendo quase ignorar a presença de uma mulher nua a seu lado. Se a mulher estivesse vestida, este quadro representaria um vulgar piquenique de burgueses. Mas ela está nua, e no entanto os seus companheiros não se mostram perturbados com a sua presença, como se a sua nudez fosse coisa normal.

Há quem veja nesta mulher nua a representação de uma prostituta. Discordo completamente. Se Manet quisesse representá-la como uma prostituta, não a teria retratado com o corpo dobrado de forma bastante recatada e com uma mão no queixo. Tê-la-ia representado com uma pose mais desbragada. Assim como está, esta mulher parece ser apenas uma amiga deles, que está nua simplesmente porque tomou banho no rio, lá atrás.

Em segundo plano, uma outra mulher, vestida com uma peça de roupa leve, ainda toma banho. No entanto, as dimensões desta outra mulher são demasiado grandes relativamente à distância que o quadro sugere. Propositadamente ou não, Manet quebrou a noção de perspetiva com a representação desta banhista. Uma tal ausência de perspetiva e as sombras muito suavizadas do quadro sugerem que ele foi pintado, não ao ar livre, como pareceria à primeira vista, mas sim num estúdio, com iluminação filtrada e com os três modelos em primeiro plano retratados diante de um cenário que representa uma mulher banhando-se.

01 maio 2019

A Internacional


Versão original e integral, em francês, de A Internacional, o hino dos partidos e movimentos anarquistas, socialistas, comunistas, sociais‑democratas, etc. A letra é do anarquista francês Eugène Pottier (1816–1887) e a música do anarquista e, posteriormente, comunista franco-belga Pierre de Geyter (1848–1932). Interpretação de Marc Ogeret

25 abril 2019

Lisboa perto e longe

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa — branca e rota
a blusa de seu povo — essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas — povo armado
de vento revoltado violas astros
— meu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros — mar aberto
— com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.

Lisboa é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos.

Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.

Manuel Alegre. Poema escrito em 1967



A cidade de Lisboa vista do Ginjal, Almada (Foto: Um Jeito Manso)

21 abril 2019

Domingo de Páscoa

É domingo de Páscoa.
Aqui em Cangamba,
não há flores,
nem sorrisos brancos,
nem aleluias,
nem cristos enfeitados.

Aqui as flores,
são os olhos grandes das crianças
negras,
e os sorrisos magros
dos seus lábios grossos.

Aqui chamam jardim aos Kimbos,
onde as flores nascem nuas,
crescem sem cultivo
e têm um perfume de catinga.

É Cangamba num domingo de
Páscoa.
Em que nada difere dos outros
domingos, nem dos restantes
364 dias do ano.

Há um clima de sonho,
uma beleza Luchaze, e uma alma
Quioca.

É domingo de Páscoa.
Os habitantes de Cangamba,
não se apercebem de que existe um
outro mundo e que está em festa.
Não, todo o seu mundo está aqui.
O seu mundo são as lavras,
a pesca e o batuque.

Não sei porquê,
mas gosto desta gente,
acolho com simpatia
a saudação "moio" do seu dialecto.
Não entendo a sua linguagem,
mas contemplo a verdade,
verdade de trapos sujos,
de olhos magoados,
mentiras disfarçadas,
miséria ignorante.

Não acredito que dão
conta daquilo que são,
não atingem coisa diferente
daquilo que os seus olhos vêem,
os seus ouvidos percebem.

Mas, acredito nos rebentos
destes troncos velhos
e na esperança de melhores tempos.

Cangamba, Moxico, Angola, ano de 1972

Sá Pacheco, ex-militar português


GLOSSÁRIO

Kimbos - aldeias

Luchaze - referente aos Luchazes, a etnia maioritária em Cangamba; o próprio município que tem a sua sede em Cangamba chama-se Luchazes

Quioca - referente aos Quiocos ou Cokwe (pronuncia-se Tchókwe), uma etnia também presente em Cangamba, bem como em quase todo o Leste de Angola

Moio - o mesmo que moyo, saudação em idioma quioco ou cokwe quando dirigida a uma só pessoa



Pessoas de Cangamba, Angola (Foto de autor desconhecido)

17 abril 2019

A Crise Académica de 1969 em Coimbra


Durante a Crise Académica de 1969, em Coimbra, a presença da GNR a pé, a cavalo ou de jipe foi uma constante. Ao cimo, vê-se o edifício das Matemáticas, cuja inauguração em 17 de abril de 1969 desencadeou a crise


Em 1969, Portugal encontrava-se num beco sem saída. Um enquistado regime político autoritário e uma sangrenta guerra colonial provocavam a saída de milhares e milhares de portugueses para França, Alemanha e outros países, à procura de uma vida melhor, enquanto os jovens aguardavam a ordem de cumprirem o serviço militar e serem enviados para as colónias, a fim de fazerem a guerra.

Marcelo Caetano tinha subido ao poder, substituindo Salazar como chefe do governo, e tinha prometido uma abertura do regime. Deu-se então a chamada "Primavera marcelista", que foi de curta duração. Aproveitando esta abertura, os estudantes de Coimbra conseguiram autorização para realizarem eleições livres para a direção da Associação Académica, a qual se tinha mantido sob a tutela de uma comissão administrativa da confiança do regime. As eleições realizaram-se e dela resultou uma votação esmagadora na lista proposta pelo Conselho das Repúblicas (no qual participavam todas as repúblicas de estudantes, menos uma), encabeçada por um estudante de Direito chamado Alberto Martins.

Entretanto, estava prevista para o dia 17 de abril de 1969 a inauguração de um novo edifício da Universidade, o edifício das Matemáticas, que contaria com a presença do presidente da República Américo Tomaz e outras "altas individualidades", como se dizia naquele tempo. A nova direção da Associação Académica de Coimbra quis também intervir na cerimónia de inauguração, a fim de apresentar o ponto de vista dos estudantes, os seus anseios e as suas reivindicações. Este desejo foi negado pela reitoria da Universidade, que alegou que o reitor iria discursar e, como tal, iria representar a Universidade no seu todo. A direção da Associação Académica não aceitou a resposta e decidiu que o seu presidente, Alberto Martins, iria estar presente na cerimónia e iria pedir a palavra pessoalmente a Américo Tomaz. Além disso, apelou aos estudantes que comparecessem na cerimónia, a fim de dar força à sua pretensão.




Na manhã de 17 de abril, várias centenas de estudantes responderam ao apelo, apinhando-se nos passeios envolventes ao edifício a inaugurar e empunhando alguns cartazes.

Chegou a comitiva oficial, constituída pelo presidente Américo Tomaz, o ministro da Educação José Hermano Saraiva, o bispo de Coimbra (para abençoar o edifício) e outras "forças vivas", como se dizia naquele tempo, num ambiente tenso que muito a deve ter surpreendido. Depois dos desfiles em parada e outras cerimónias de boas-vindas, a comitiva entrou na sala onde iriam ser proferidos os discursos. Falou o reitor da Universidade, falou o minstro da Educação e mais não sei quem, até que Alberto Martins se levantou do meio da assistência e, dirigindo-se ao presidente, disse: «Em nome dos estudantes de Coimbra, peço a palavra».




Américo Tomaz respondeu: «Bem, mas agora fala o sr. ministro das Obras Públicas». O ministro Rui Sanches botou faladura e, assim que se calou, a comitiva levantou-se e saiu pela porta fora. Passou pelo meio dos estudantes que se apinhavam no átrio, os quais manifestaram o seu desagrado vaiando e gritando «vergonha, vergonha, vergonha».




Nessa noite teve início a repressão. Alberto Martins e outros dirigentes associativos foram presos pela PIDE e diversos estudantes foram espancados.




Na noite de 30 de abril, o ministro da Educação, José Hermano Saraiva, falou ao país pela televisão com cara de mau, acusando os estudantes de terem desrespeitado o venerando Chefe de Estado, de atentarem contra a ordem vigente e de outras malfeitorias mais, acrescentando que a ordem iria ser mantida a todo o custo. Disse ele a dada altura: «Sabemos que estão a caminho de Coimbra conhecidos agitadores». Estaria ele a referir-se a Zeca Afonso, que viria a dar um memorável recital nos jardins da Associação Académica?

O discurso do ministro soou aos ouvidos dos estudantes como uma declaração de guerra. Reunidos em assembleia magna da Academia, decretaram o luto académico e a greve aos exames. Cartazes colados nas paredes da Associação Académica e comunicados distribuídos à população da cidade verberaram ou ridicularizaram a atitude do ministro e deram conta da determinação dos estudantes em resistir-lhe.






O luto académico caiu muito mal na população de Coimbra, porque significava que a Queima das Fitas não se iria realizar. Os comerciantes, sobretudo, ficaram muito descontentes com a decisão. Contavam ganhar algum dinheiro durante a semana da Queima e esse dinheiro, afinal, não viria. Os estudantes resolveram então ter um gesto de gentileza para com os habitantes da cidade, lançando a "Operação Flor". Compraram todas das flores que havia em todas as floristas de Coimbra e ofereceram-nas aos habitantes, enquanto diziam: «Paz e Liberdade».




Noutra ocasião, lançaram a "Operação Balão". Compraram centenas de balões, nos quais escreveram palavras tais como Justiça, Liberdade, Paz, Democracia.




Partiram dos jardins da Associação Académica e dirigiram-se em cortejo até ao Largo da Portagem, junto ao rio Mondego, onde largaram os balões.




Enquanto tudo isto acontecia, Coimbra tornou-se uma cidade ocupada. Um numeroso contingente da GNR tomou conta das ruas da cidade, a PIDE foi reforçada, a própria Polícia Judiciária foi mobilizada para a repressão, muitas dezenas de estudantes foram presos, mas os exames não se fizeram. Só uma muito pequena minoria os fez, sob proteção da GNR. Alguns estudantes reagiram à repressão espalhando pregos nas ruas para furarem os pneus dos jipes e, até, lançando pimenta para o focinho dos cavalos da GNR.






As fotografias que acompanham este post são de diversos autores, assim como outras mais que estão no site https://pt.slideshare.net/marynauby/crise-acadmica-de-1969-universidade-de-coimbrareportagem-fotogrfica.

13 abril 2019

Cientistas em ação


As efeméridas são uns insetos que têm uma curtíssima vida na sua fase adulta: apenas um dia, durante o qual acasalam. Os seus ovos eclodem na água dos rios e lagos de todo o mundo e dão origem a ninfas. Quando se tornam propícias as condições para o seu acasalamento, as ninfas ganham asas e voam para fora da água, até ao mato próximo. Aqui atingem a sua maturidade, voam formando grandes enxames e acasalam. Consumado o acasalamento, as efeméridas voltam para a água depois do pôr do sol, a fim de depositarem os seus ovos, e morrem. Esta fotografia foi feita numa margem do rio Dniepre, próximo do centro da cidade de Mogilev, na Bielorrússia, e mostra um biólogo da universidade local observando, à luz dos faróis de dois carros, milhares e milhares de efeméridas que pousaram numa rua vizinha do rio por engano. Elas confundiram o negro alcatrão da rua com a água do rio (tornada escura pela noite) e morreram sem que os seus ovos fossem depositados na água (Foto: Mikhail Kapychka)

A revista Nature é uma das mais prestigiadas revistas científicas internacionais, que só publica artigos que tenham sido analisados e revistos por um ou mais especialistas de renome na área correspondente, no sentido de procurar garantir o máximo rigor e veracidade do que publica. A Nature é aquilo que se chama uma revista de revisão por pares (peer review).

De há três anos a esta parte, a revista Nature tem vindo a organizar um concurso fotográfico anual, chamado #ScientistAtWork, que tem por finalidade mostrar, de uma forma criativa e apelativa, a vida profissional dos cientistas. Neste concurso são premiadas cinco fotografias, uma das quais é proclamada vencedora absoluta, além de algumas menções honrosas.

Aqui se mostram três das fotografias premiadas, incluindo a vencedora absoluta, que é a que se vê acima. As restantes poderão ser vistas na página seguinte: https://www.nature.com/articles/d41586-019-01104-x.



A portuguesa Bárbara Cartagena da Silva Matos, que é licenciada em Biologia pela Universidade de Aveiro e é estudante de doutoramento no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tirou esta selfie na Amazónia brasileira, na companhia de uma fêmea de macaco-barrigudo (Foto: Bárbara Cartagena da Silva Matos)


As mais escuras noites sem luar que se podem observar na Terra não são totalmente negras, mas quase. Existe um fenómeno chamado luminescência atmosférica, que consiste na emissão de uma fraquíssima luz que é feita pela própria atmosfera terrestre. Esta luz resulta de reações químicas que ocorrem na atmosfera e pode ser registada em fotografias após um longo tempo de exposição. Nesta imagem a luminescência atmosférica assume uma curiosa formação em ondas concêntricas. Foi registada na região de Xigazê, no Tibete (Foto: Dai Jianfeng)

05 abril 2019

Emboscada

Esperávamos em silêncio
mastigando a memória das coisas
e a Morte claramente apercebida
aguardava confiante o seu quinhão

Pensávamos:
— "Cada coice de Mauser no ombro
é uma carícia da Pátria agradecida" (*)

Mastigávamos a memória
esperando das coisas o silêncio
e a Morte claramente apercebida
recolhia confiante o seu quinhão

— Puta de Pátria que agradece aos coices.

Canjambari, Morucunda, Guiné-Bissau, 1964
José Orlando Bretão (1939–1998), poeta e combatente português


(*) Frase atribuída por uns ao Movimento Nacional Feminino e por outros a José Rodrigues Miguéis, em É proibido apontar. Já li vários livros de José Rodrigues Miguéis, mas não este. Não sei, portanto, em que contexto é que surge esta frase no livro. É provável que José Rodrigues Miguéis tenha feito apenas uma citação.


Espingarda de repetição Mauser 98k, semelhante às que foram usadas nos primeiros anos da Guerra Colonial pelas tropas portuguesas (Fotos: Armémuseum, Estocolmo, Suécia)

29 março 2019

Alfredo Napoleão


1.º Andamento do Concerto para Piano e Orquestra n.º 2 de Alfredo Napoleão, pelo pianista português Artur Pizarro e a Orquestra do Ulster dirigida por Adrian Leaper

2.º Andamento do Concerto para Piano e Orquestra n.º 2 de Alfredo Napoleão, pelo pianista português Artur Pizarro e a Orquestra do Ulster dirigida por Adrian Leaper

3.º Andamento do Concerto para Piano e Orquestra n.º 2 de Alfredo Napoleão, pelo pianista português Artur Pizarro e a Orquestra do Ulster dirigida por Adrian Leaper

Alfredo Napoleão dos Santos (1852–1917) foi um compositor e pianista português nascido no Porto e falecido em Lisboa, de pai italiano e mãe portuguesa. Foi o irmão mais novo de Arthur Napoleão e Aníbal Napoleão, que também foram pianistas e compositores. Alfredo Napoleão passou vários anos no Brasil e Argentina, onde obteve grande êxito, além de ter tocado em diversas cidades europeias, onde também foi muito aplaudido.


Acaba de ser publicado um CD com peças para piano de Alfredo Napoleão, interpretadas pelo pianista português Daniel Cunha, que foi aluno de Sequeira Costa

23 março 2019

O Sonho


Le Rêve, óleo sobre tela de Henri Rousseau (1844–1910). Museum of Modern Art, Nova Iorque, Estados Unidos da América. Segundo o autor, este quadro representa uma mulher reclinada num sofá em Paris, sonhando com um tocador de flauta numa selva

17 março 2019

Pajé e cacique (no Brasil)


Um pajé tratando uma doente (Foto de autor desconhecido)


Pajé é uma palavra de origem tupi-guarani utilizada para denominar a figura do conselheiro, curandeiro, feiticeiro e intermediário espiritual de uma comunidade indígena.

O pajé é considerado uma das figuras mais importantes dentro das tribos indígenas brasileiras. De acordo com as tradições típicas desses povos, o pajé é predominantemente um ancião dotado de poderes sobrenaturais, com a capacidade de prever o futuro, expulsar espíritos malignos e doenças das tribos.

Conhecido como "médico da tribo", o pajé usa técnicas de massagens, banhos e até mesmo algumas práticas cirúrgicas para curar os seus pacientes. Além disso, é um profundo conhecedor dos "medicamentos naturais", à base de ervas medicinais, raízes, sementes, substâncias animais e minerais que auxiliam, de acordo com a cultura indígena, a cura das mais diversas doenças, sejam elas físicas ou espirituais.

Os povos indígenas acreditam que os pajés possuem o dom de se comunicar com os espíritos da floresta e com os deuses, além de terem o poder de fazer chover e melhorar as condições da caça, pesca e colheita da tribo.

No ritual chamado "pajelança", o pajé usa ervas e plantas da floresta para curar ou resolver problemas espirituais dos índios, entrando em contato com espíritos anciões.


Uma pajelança (Foto de autor desconhecido)



Cacique é um termo usado para designar o índio que é responsável por uma tribo indígena. O cacique é uma espécie de "chefe" político da tribo, responsável por organizar e cuidar de questões referentes aos índios, como o modo de vida, os rituais e até mesmo punições.

A palavra tem origem no termo cachique e surgiu provavelmente no período das Grandes Navegações e Descobrimentos. Essa era a maneira como os navegadores e colonizadores espanhóis e portugueses se referiam aos chefes das tribos encontradas durante essa época.

Em um sentido mais figurado, a palavra é utilizada como uma referência a um político que tem grande influência em uma região.

Cacique também é o nome popular do pássaro cacicus, da família icteridae. A ave é encontrada na região norte e centro-oeste do Brasil, no Panamá, Peru, Equador, Colômbia, Guianas e Bolívia.

O pássaro tem subespécies, como o cacicus cela cela, cacicus cela vitellinus e cacicus cela flavicrissus.


Textos retirados do site Significados


Em primeiro plano à direita, o cacique do povo Yawalapiti, Aritana, é o cacique mais antigo do Parque Indígena do Xingu e um dos mais respeitados do Brasil (Foto de autor desconhecido)

10 março 2019

Évora Monte


Porta Nordeste de Évora Monte (Foto: Fernando Gabriel)

Apesar do seu nome, Évora Monte não tem que ver com Évora. Évora é uma cidade, a mais importante do Alentejo, e Évora Monte é uma outra localidade, situada entre Évora e Estremoz e pertencente ao concelho de Estremoz.

Há no Alentejo um pequeno punhado de povoações que podem ser consideradas "ninhos de águia". Marvão é uma delas, está claro, Monsaraz é outra e Évora Monte é outra ainda. Qualquer uma delas é digna de ser visitada, não faltando a Évora Monte motivos de interesse também. Dentro das muralhas desta vila, mandadas erguer por D. Dinis, há um pequeno punhado de ruas antigas ladeadas por casas centenárias, que parecem ter parado no tempo. Por momentos julgamos estar de volta à Idade Média.

No ponto mais alto de Évora Monte está uma portentosa fortificação que é única em Portugal, o castelo de Évora Monte. É uma torre do séc. XVI, em cujos cantos se encontram enormes torreões circulares, que são tão grandes que quase "sufocam" a torre propriamente dita. Eu não sou grande apreciador de castelos e fortalezas, salvo raras exceções (Penedono, Santa Maria da Feira, Arouce, Almourol e pouco mais), mas rendo-me perante a imponência do castelo de Évora Monte.


Castelo de Évora Monte (Foto: Nmmacedo)

É dos livros de História de Portugal que em Évora Monte foi assinado o fim da sangrenta guerra civil que opôs liberais (apoiantes de D. Pedro IV) a absolutistas (seguidores de D. Miguel). Aconteceu em 26 de maio de 1834 e ficou conhecida como "Convenção de Évora Monte". Poderíamos supor que uma tal assinatura, dada a sua importância histórica, tivesse tido lugar no imponente castelo, mas tal não aconteceu. Por incrível que pareça, a Convenção de Évora Monte foi assinada numa casa modesta da vila, onde uma lápide assinala o facto.

Nem D. Pedro nem D. Miguel estiveram presentes na Convenção de Évora Monte, mas sim os seus representantes, que foram o Marechal Saldanha e o Duque da Terceira, pelo lado dos liberais, e o general Azevedo e Lemos, pelo lado dos miguelistas. A convenção saldou-se pela capitulação total destes últimos. Ficou assim garantido o estabelecimento de uma monarquia constitucional, com a subida ao trono da filha de D. Pedro IV, D. Maria da Glória, que viria a ser coroada como rainha D. Maria II de Portugal. D. Miguel, por sua vez, foi autorizado a sair do país e acabou por se exilar na Alemanha, onde morreu.


Casa da Convenção de Évora Monte (Foto: GPSMD). Por incrível que pareça, foi nesta modesta casa e não no castelo que foi assinada a Convenção de Évora Monte. Uma lápide assinala o facto com os seguintes dizeres:

EM 26 DE MAIO DE 1834
N'ESTA CASA
DE JOAQUIM ANTONIO SARMAGO
FOI ASSIGNADA A CONVENÇÃO
DE EVORAMONTE
QUE RESTABELECEU A PAZ EM
PORTUGAL.

03 março 2019

Seydou Keïta


Autorretrato, 1949 (Foto: Seydou Keïta)

Seydou Keïta (1921–2001) foi um fotógrafo maliano, famoso pelos retratos individuais e de grupo que tirou, quase todos desde 1940 até pouco depois de 1960.

Em vez de se limitar a tirar fotografias tipo passe a quem se dirigisse ao seu estúdio em Bamako para tirar o retrato, Seydou Keïta realizou verdadeiras obras de arte. Os seus retratos não se limitam a documentar um tempo específico e um lugar determinado, que neste caso é quase sempre o Mali imediatamente antes da independência, antes estão imbuídos de um profundo sentido estético e poético. Seydou Keïta é um dos nomes maiores da arte fotográfica.


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)

23 fevereiro 2019

Morreu Sequeira Costa


Sonata para Piano em Fá Menor N.º 23, op. 57 (Appassionata), de Ludwig van Beethoven (1770–1827), pelo pianista português Sequeira Costa (1929–2019)

Quando eu era menino e moço, fui sócio da Juventude Musical Portuguesa. Tinha sido atraído para a chamada música clássica por um professor de Canto Coral que tive no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, o maestro José Quelhas. Curiosamente, este professor (parece que ainda está vivo!) era um entusiasta do teatro de revista e foi autor da música de muitas revistas levadas à cena no Teatro Sá da Bandeira... É claro que uma coisa não exclui a outra, isto é, o gosto por um espetáculo eminentemente popular, como é a revista à portuguesa, não exclui o gosto por uma música supostamente mais "séria". A verdade é que o maestro José Quelhas incutiu-me o gosto por esta música "séria" a um ponto tal, que pedi à minha mãe para me inscrever na Juventude Musical. E a minha mãe inscreveu-me.

Um dos primeiros concertos da Juventude Musical a que assisti, se é que não foi mesmo o primeiro de todos, foi um recital que teve lugar no casino da Póvoa de Varzim e que teve como intérpretes, nada mais nada menos, o grande violinista russo Igor Oistrakh e o igualmente grande pianista português Sequeira Costa. Foi um recital que nunca mais esqueci. Saí do casino, no fim do recital, completamente deslumbrado pela música que tinha ouvido. Entre as obras que Igor Oistrakh e Sequeira Costa interpretaram naquele recital, figurou a sonata Appassionata, de Beethoven, que foi magistralmente tocada por Sequeira Costa. Em memória deste extraordinário pianista português agora falecido, aqui relembro a sonata Appassionata, interpretada por ele.

18 fevereiro 2019

Arte islâmica na Sé de Braga


Píxide islâmica em marfim, proveniente do califado de Córdova e mandada fazer pelo califa Abd al-Malik, filho de Almansor. Princípios do séc. XI. Tesouro da Sé de Braga, Braga, Portugal

Almansor, califa de Córdova, foi um notável guerreiro que empreendeu um avanço imparável contra os territórios cristãos do norte da Península Ibérica, chegando ao ponto de arrasar Santiago de Compostela no ano 997. O sino da igreja de Compostela foi levado como troféu para Córdova, às costas de cativos cristãos. Na reconquista que se seguiu, os cristãos apoderaram-se também de numerosos troféus islâmicos, entre os quais a píxide acima representada. Esta píxide tem uma forma tal, que parece ter sido feita de propósito para guardar o cálice e a patena mostrados em baixo, mas não foi. No entanto, é esta a função que ela tem desempenhado até aos dias de hoje.


Cálice e patena em prata dourada, habitualmente guardados na píxide islâmica da Sé de Braga. Este cálice e esta patena foram doados pelo conde portucalense D. Mendo Gonçalves, que morreu no princípio do séc. XI. Tesouro da Sé de Braga, Braga, Portugal

11 fevereiro 2019

Kalunga



Kalunga, pelo agrupamento musical angolano Malambas do Lombe

O título desta peça musical de Angola, Kalunga, pode tomar diversos significados consoante o contexto. Neste caso, parece querer significar "Morte", mas tenho dúvidas, porque não consigo entender a letra, que parece estar em quimbundo da região de Malange.

Kalunga é uma palavra que traz consigo a ideia de infinito, de incomensurável. Em algumas línguas bantus, como o umbundo, Kalunga significa "Deus", "o Criador". Em quimbundo, língua em que Deus é chamado Nzambi, a palavra Kalunga pode ser usada para designar a "Morte", uma entidade sobrenatural (será legítimo chamar-lhe divindade?), que arrebata a alma dos vivos. Esta entidade chama-se, por extenso, Kalunga Ngumba ou Kalunga Ngombe, consoante as regiões, mas é frequentemente chamada apenas Kalunga. Parece-me ser este o caso desta canção. Diga-se a propósito que a divindade contrária, a "Vida", também tem a palavra Kalunga no nome: Kalunga Samba. Além disso, kalunga também significa "mar" em quimbundo.

04 fevereiro 2019

Charneca em flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca (1894-1930)


(Foto: Turismo do Alentejo — ERT)

03 fevereiro 2019

Salúquia (A Bela Moura)


Valsa Salúquia (A Bela Moura), também conhecida como Valsa da Água Castelo por ter sido encomendada pela empresa da Água Castelo, de Alfredo Keil (1850–1907), por Mauro Dilema em piano