19 junho 2020

Carlos de Bragança (Rei de Portugal)


O Sobreiro, pastel sobre cartão de Carlos de Bragança (1863–1908), Palácio Ducal — Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa, Portugal

Sou republicano convicto. Logo, não nutro especial simpatia pela figura de D. Carlos e pelo papel que ele representou como rei de Portugal. Com a arrogância própria de quem se julgava acima do comum dos mortais, D. Carlos chamava "Piolheira" ao seu próprio país e apoiou, contra ventos e marés, o governo autoritário (para não lhe chamar ditatorial) de João Franco. Quanto ao ultimato britânico, não atribuo particulares responsabilidades a D. Carlos pelo sucedido; acho que D. Carlos foi apanhado por um turbilhão de acontecimentos que o ultrapassaram. Como prezo a vida humana, também condeno o seu assassinato em 1908, juntamente com o príncipe herdeiro Luís Filipe.

Neste momento, o que eu pretendo salientar é o valor do rei D. Carlos como pintor de grande talento, que de facto foi. Também foi fotógrafo, ceramista, ornitólogo, oceanógrafo, etc., dos mais destacados na Europa do seu tempo. A pintura que aqui se reproduz é um exemplo eloquente do seu grande valor artístico.

15 junho 2020

ESTE PRETO HE DE AGOSTINHO DE LAFETÁ DO CARVALHAL DE ÓBIDOS





Carvalhais não faltam em Portugal. Uns benfeitos, outros meãos, outros redondos, uns no singular, outros no plural, aí estão a lembrar que houve tempos em que abundavam na terra portuguesa os carvalhos, essas árvores magníficas a que ninguém pedia frutos e a que todos requeriam madeira. O carvalho para ser útil, tinha de morrer. Tanto o mataram, que o iam exterminando. Em alguns lugares não resta mais que o nome: o nome, como sabemos, é a última coisa a morrer.

A este Carvalhal, para o distinguir, acrescentavam-lhe antigamente Óbidos: Carvalhal de Óbidos. Há aqui uma torre a que chamavam dos Lafetás, por assim ser conhecida uma família cremonense vinda a Portugal no final do século XV e que aqui teve esse e outros bens. Quando se diz que veio essa família a Portugal, não se pretende afirmar que viesse toda. Eram banqueiros riquíssimos, poderosa companhia mercantil internacional desse século e do seguinte, com negócios em Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Flandres. Credores de reis, contratadores de pimenta e açúcar, os Affaitati vêm a esta viagem para lembrar que os descobrimentos foram também um gigantesco negócio, e sobretudo por causa de um escravo que neste Carvalhal tiveram. Na torre que aqui está foi em tempos encontrada uma coleira com dizeres gravados, os quais assim rezavam: «Este preto he de Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos.» O viajante [José Saramago] não sabe mais nada do escravo preto, a quem a coleira só deve ter sido tirada depois que morreu. Foi deixada aí pelos cantos, brincaram talvez com ela os filhos de Agostinho de Lafetá e de sua mulher, D. Maria de Távora, e pelo modelo se terão feito as que serviram aos cães e que até hoje se usaram: «Chamo-me Piloto. No caso de me perder, avisem o meu dono.» E depois vem a morada e o número de telefone. E ainda assim houve progressos. Na coleira do escravo de Agostinho de Lafetá nem sequer se mencionava o nome. Como se sabe, um escravo não tem nome. Por isso, quando morre, não deixa nada. Só a coleira, que ficava pronta para servir a outro escravo. Quem sabe, pergunta o viajante fascinado, a quantos escravos teria ela servido, sempre a mesma, enquanto houve pescoço de escravo em que servisse? O viajante tem informação de que a coleira está em Lisboa, no Museu de Arqueologia e de Etnografia. A si mesmo promete, com a solenidade adequada ao caso, que será a primeira coisa que há-de ver quando chegar a Lisboa. Cidade tão grande, tão rica, tão afamada, onde todos os Lafetás de dentro e de fora fizeram os seus muitos negócios, pode ser principiada de muitas maneiras. O viajante começará por uma coleira de escravo.

(…)

Cá está a coleira. O viajante disse e cumpriu: mal entrasse em Lisboa iria ao Museu de Arqueologia e de Etnologia à procura da falada coleira usada pelo escravo dos Lafetás. Podem-se ler os dizeres: «Este preto he de Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos.» O viajante repete uma vez e outra para que fique gravado nas memórias esquecidas. Este objecto, se é preciso dar-lhe um preço, vale milhões e milhões de contos, tanto como os Jerónimos aqui ao lado, a Torre de Belém, o palácio do presidente, os coches por junto e atacado, provavelmente toda a cidade de Lisboa. Esta coleira, é mesmo uma coleira, repare-se bem, andou no pescoço dum homem, chupou-lhe o suor, e talvez algum sangue, de chibata que devia ir ao lombo e errou o caminho. Agradece o viajante muito do seu coração a quem recolheu e não destruiu a prova de um grande crime. Contudo, uma vez que não tem calado sugestões, por tolas que pareçam, dará agora mais uma, que seria colocar a coleira do preto de Agostinho de Lafetá numa sala em que nada mais houvesse, apenas ela, para que nenhum visitante pudesse ser distraído e dizer depois que não viu.


José Saramago (1922–2010), Viagem a Portugal

09 junho 2020

Quando o José pensa na América


Carta para a Doreen Martin

Doreen:
Na Mafalala quando o José pensa na América
não inveja nem um só arranha-céus de Manhattan
não deslumbram José os feéricos letreiros da Broadway
e não convencem José as vitórias do marinheiro Popeye
só depois de ingerir uma lata de espinafres de publicidade.

Na Mafalala quando o José pensa na América
velhas lágrimas de spiritual salgam os encardidos
asfaltos de água do grande Mississipi com muitas recordações
e numa alegre avenida central da cidade de Chicago
uma farra de tiros desconsidera a camisa
de um cliente que ia comprar no supermercado
uma coca-cola para o seu lanche na fábrica
e a seguir ainda pretendem que o tal José
admire o modernismo da cidade de Chicago
quando de vez em quando ele põe-se
a pensar para que servem por exemplo
uma meia dúzia de Packards novos
para duzentos milhões de americanos
nas mil e uma auto-estradas da América

E nas fábulas verídicas
de locais como Nova Orleans e Harlem
entra Louis Armstrong
sai Jesse Owens.
Entra Joe Louis
sai Marian Anderson.
Entra Duke Ellington
sai Lena Horne.
Entra Paul Robeson
e sai Richard Wright todos com suas quinhentas
mil famílias incluindo a família do José
e que Duke Ellington faz o piano
resolver uma série de problemas
de jazz enquanto um obsceno
Cadillac azul lascivo brilha
os cromados por conta
da General Motors.

Enfim!
Tudo isto, Doreen, tudo isto
é sempre uma fortuita coincidência
entre os firmes princípios da Casa Branca
algumas toneladas de pacotes de chewing-gum
muitas palmas à voz de Nat King Cole e à sua carapinha alisada
e os efeitos da excessiva pintura dos bastões
pincelando de vermelho o suor
dos negros democraticamente.

E
mais ou menos trata-se de uma questão
abstracta mas as crianças que nascem obrigatoriamente
no Xipamanine ou brincam no anti-luxuoso lixo do Harlem
quando puderem falar hão-de nos gritar na cara o contrário
mesmo que um agente especial oiça em Nova Iorque
e comunique logo a certos funcionários de L. M.

Agora, amiga Doreen
agora que o José viu com os próprios olhos a Marilyn
12 meses com um sorriso e nada mais a tapá-la
e das unhas aos cabelos toda ela colorida
ao relento a aquecer as 12 páginas do calendário
o José admira sinceramente mais o Pato Donald
o José gosta sinceramente mais de Bucha e Estica
o José aprecia sinceramente mais um Rato Mickey
e além disso o José simpatiza sinceramente mais
com a filosofia inverosímil dos irmãos Marx
a ouvirem os ancestrais dialectos do ritmo
a bater nos metais o feitiço dos blues
de olhos afundados para dentro como os surumeiros
à décima quinta fumaça quando o medo não tem sentido
e a verem o novo dogma dos sprinters chegando em 1.° à meta
ou de luvas dois homens definindo a ideologia de um “nocaut”
ou ainda a descobrirem a magia revelatória dos livros
com os avós e os netos nos paraísos de minérios
como os pais e as filhas no gozo dos algodoeiros
e tudo junto na esquina do Mundo a meio metro
de um lindo juke-box a tocar-lhe barato
“made in Estados Unidos da América”
enfiando-lhe um simples cêntimo.

E no meio disto tudo, Doreen
sai uma terrível foto feminina publicamente confidencial
mas não passa de Marilyn Monroe uma star cheia de hipóteses
mas o José da Mafalala quando pensa na América
por acaso não pensa nas hipóteses da Marilyn
a mostrar a toda a gente o lucro lógico
dos sistemas de propaganda da América
U.S.A…. U.S.A…. U.S.A.!!!

Mas sabes, Doreen?
Uma espessa sombra de gente oscila os pés indolentemente
no terceiro poste de uma rua em frente a uma esquadra
e o José lembra-se que Jesse Owens foi aos Jogos
e contra todas as expectativas nazis ganhou 4 de ouro
e sabem onde foi isso? Mesmo no blindado coração do Hitler.
E além do mais o José também se lembra que Joe Louis na
                                                                                                    [desforra
pôs Max Schmmeling K.O. logo ao primeiro round
que Armstrong quando assopra o trompete
os agudos dão resposta concludente
às dúvidas sentimentais da Klu-Klux-Klan
e o retórico par de botas de Charlot

E para terminar esta carta, Doreen
os membros da Klu-Klux-Klan podem zangar-se comigo
mas pouco mais ou menos já sabem quase tudo
o que o José pensa sozinho ali na Mafalala
quando o José pensa na loura Marylin Monroe
pobre milionária da América do Norte
a descontar as insónias
dos outros o ano inteiro
toda nua.

José Craveirinha (1922–2003), poeta moçambicano


(Foto: munshots)

01 junho 2020

Viena, a Vermelha


Karl Marx-Hof (Foto de autor desconhecido)

Quando alguém nos fala na capital da Áustria, logo nos vêm à mente imagens de fausto e esplendor, palácios e museus, sedas e veludos, pares de dançarinos rodopiando ao som de valsas de Strauss em salões doirados e iluminados por fulgurantes lustres de cristal, etc. É esta, por exemplo, a imagem que Viena dá de si própria ao mundo todos os anos, quando transmite os famosos e apreciados concertos de ano novo pela televisão. É a imagem de uma Viena de príncipes e arquiduques, cheia de sorrisos e de vénias, onde desabrocharam os amores que o cinema celebrizou, entre a bela princesa bávara Elisabeth (Sissi) e o garboso imperador Francisco José.

Este é um cenário cor de rosa, que os vienenses se esforçam por promover a todo o custo, para atrair visitantes e turistas, que abrem a boca de espanto perante a grandiosidade dos jardins do palácio de Schönbrunn, as piruetas dos cavalos da Escola Espanhola de Equitação, a harmonia angelical das vozes dos Pequenos Cantores de Viena e a beleza sem par das mulheres vienenses fazendo das ruas da cidade uma permanente passagem de modelos.

Viena é uma cidade de sonho e magia, que encanta quem a visita, mas não é só isso. É também uma cidade de gente simpática e acolhedora (pelo menos já o foi), que fala um dialeto que ninguém consegue entender e que trabalha para que esta atmosfera de sonho pareça (ou seja mesmo) realidade. Há muito de postiço, mas também há muito de genuíno em Viena, cidade fascinante por excelência.

E depois há uma outra Viena, que na verdade é a mesma, mas que os turistas quase nunca veem. É desta outra Viena que me proponho falar um pouco nas linhas que se seguem.

A Primeira Guerra Mundial foi, predominantemente, uma guerra de impérios e marcou o fim de alguns deles, nomeadamente o Império Austro-Húngaro e a sua dinastia dos Habsburgos. À semelhança dos restantes, este império assentava o seu poder e a sua riqueza na dominação e exploração de vários povos do centro e este da Europa. Estes povos ansiavam libertar-se do jugo que os oprimia e alimentaram uma consciência nacional que legitimava uma resistência que se tornou cada vez mais violenta, até culminar no assassinato do herdeiro do trono imperial, Francisco Fernando, em Sarajevo, no ano de 1914. Por outro lado, os diversos impérios então existentes na Europa também procuravam apoderar-se das possessões uns dos outros, pois é próprio de um império ter uma ambição sem limites e querer dominar tudo e todos. A guerra generalizou-se a toda a Europa, e não só, e atingiu níveis de crueldade até então nunca vistos.

Quando a Primeira Guerra Mundial acabou em 1918, a Europa estava em ruínas e o antigo Império Austro-Húngaro estava desfeito. Viena, que tinha sido a cabeça de um vasto império, ficou limitada à condição de capital grande de um país pequeno e reduzido a escombros, uma cidade a braços com uma numerosa população miserável, esfomeada e a viver em casas arruinadas e sobrelotadas. As doenças, tais como o tifo, a tuberculose, a sífilis e outras, ceifavam incontáveis vidas. Era urgente fazer-se alguma coisa. E fez-se.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial e o consequente fim do Império dos Habsburgos, a Áustria (ou o que dela restou) tornou-se numa república. Após as primeiras eleições legislativas, saiu vencedor o Partido Social Cristão, profundamente conservador e estreitamente ligado à Igreja Católica. Isto, na Áustria como país. Porque em Viena os eleitores votaram à esquerda e elegeram o Partido Social-Democrata da Áustria para dirigir os destinos da cidade. Viena tornou-se numa ilha "vermelha" (social-democrata) num mar conservador. Este foi o início de um período histórico que durou cerca de década e meia e que transformou profundamente o tecido social e urbano de Viena, período este a que foi dado o nome de "Viena, a Vermelha".

A tarefa mais urgente a que a vereação social-democrata de Viena deitou mãos, foi a da habitação. O que então se fez, foi verdadeiramente extraordinário. Hoje, de todas as capitais da Europa, Viena é aquela que tem a maior percentagem de habitação social. Toda esta habitação, ou quase, foi construída na década de vinte e primeira metade da década de trinta do séc. XX pela vereação social-democrata de Viena, a Vermelha.

Quem for a Viena e se der ao trabalho de sair dos roteiros turísticos habituais, para visitar as vastas áreas residencias que circundam o centro histórico e monumental da cidade, descobrirá que em quase todas as ruas, em quase todas as praças, em quase todas as vielas, em quase todos os becos e em quase todas as alamedas de Viena existe, pelo menos, um prédio de habitação social, propriedade da Câmara Municipal. São prédios incaracterísticos, quase todos eles, de dois, três ou quatro andares (raramente mais), além do rés-do-chão, em cujas fachadas lisas se abrem algumas janelas. Do ponto de vista arquitetónico, estes prédios pouco ou nada valem. Do ponto de vista social, sim, valem muito, porque eles permitem que vivam, completamente integradas no tecido urbano da cidade, famílias desfavorecidas (muitas famílias de imigrantes, na atualidade), paredes-meias com prédios mais ricos e burgueses. Há milhares de famílias de fracos recursos vivendo nestes prédios camarários espalhados por Viena, sem estarem separadas do conjunto da cidade.

Além dos prédios acabados de referir, a vereação de Viena, a Vermelha, fez construir alguns grandes complexos habitacionais, também para as classes desfavorecidas, que, estes sim, têm grande interesse arquitetónico e um não menor interesse sociológico. Estes complexos habitacionais passaram a marcar de forma indelével o caráter de Viena, sem os quais a capital austríaca não seria a cidade que agora é. Depois deles, nunca mais Viena voltou a ser a mesma.

Os grandes complexos habitacianais construídos pela Câmara Municipal de Viena, a Vermelha, receberam o nome de Höfe, plural de Hof. A palavra Hof pode ser traduzida por pátio, mas esta palavra "pátio" tem que ser tomada como significando uma comunidade local autónoma, de vizinhos que convivem entre si e que partilham alguns espaços comuns, à semelhança dos habitantes dos pátios das cidades antigas.

Vários Höfe foram construidos em Viena entre 1920 e 1934, mas o maior e mais representativo de todos é o Karl Marx-Hof, situado na zona norte de Viena, perto do Rio Danúbio. Como o Partido Social-Democrata da Áustria era marxista (embora não fosse leninista), não admira que o nome de Karl Marx tenha sido dado ao Hof mais emblemático de todos. Quando nós nos encontramos diante de um tão grande empreendimento, que tem mais de um quilómetro de extensão, não podemos deixar de nos sentir um tanto ou quanto intimidados pelo seu aspeto, que faz lembrar uma fortaleza. Talvez tenha sido de propósito. Talvez o Karl Marx-Hof tenha sido projetado para ser visto como um reduto da classe operária.

A ação da vereação social-democrata de Viena durante a Primeira República Austríaca não se limitou ao alojamento de centenas de milhares de pessoas em apartamentos minimamente dignos, com rendas reduzidas que rondavam os 4% do rendimento familiar. A Câmara Municipal de Viena, a Vermelha, também desenvolveu um vasto programa de apoio social, para que, por exemplo, cada recém-nascido «não tivesse que ser envolvido em papel de jornal» quando viesse ao mundo. Creches, centros de dia, ginásios, spas e muitos outros espaços de cultura e de lazer foram então criados em Viena para os desfavorecidos. Um vereador da época afirmou: «O que gastarmos em alojamentos para jovens será poupado em prisões; o que gastarmos na proteção às grávidas e lactentes será poupado em hospitais psiquiátricos». No que respeita à cultura, a Câmara Municipal impulsionou fortemente as artes e a literatura. Fizeram-se então em Viena algumas das experiências mais radicais alguma vez registadas no domínio da cultura europeia, como por exemplo a música dodecafónica, criada por Arnold Schönberg e continuada pelos seus discípulos Alban Berg, Anton Webern e outros. Também Sigmund Freud se estabeleceu na cidade e nela abriu o seu consultório.

Viena renasceu durante o governo da sua vereação "vermelha", e até se tornou numa cidade próspera, enquanto o resto da Áustria continuava mergulhado no atraso e na pobreza. Em 1934, no entanto, teve lugar uma guerra civil no país, da qual o Partido Social-Democrata saiu derrotado e em resultado da qual emergiu um poder pró-nazi, que pôs um ponto final a todas as aventuras revolucionárias que Viena tinha estado a viver. Em 1938 a Áustria acabou por perder mesmo a sua independência, para se tornar numa espécie de "Alemanha" de segunda categoria, apesar de o chanceler alemão, Adolf Hitler, ser ele mesmo austríaco também. Uma nova tragédia se abateu sobre a Europa e sobre o Mundo, com a chegada da Segunda Guerra Mundial. Viena também lhe sofreu as consequências, mas isto já é outra história.


Engelshof, assim chamado em homenagem a Friedrich Engels (Foto: Thomas Ledl)


Bebelhof, assim chamado em homenagem a August Bebel, dirigente do Partido Social-Democrata Alemão (Foto: Thomas Ledl)


George Washington-Hof (Foto: Bwag)


Viktor Adler-Hof. Residi numa rua próxima deste complexo habitacional (Foto: Bwag)

26 maio 2020

Carlos Botelho


Barcos no Rio, de Carlos Botelho (1899–1982), c. 1930, óleo sobre cartão, Galerias Diogo de Macedo, Casa-Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de Gaia, Portugal

"O Pintor de Lisboa", assim chamaram a Carlos Botelho, que em Lisboa nasceu, em Lisboa morreu e a Lisboa dedicou uma parte muito significativa da sua obra pictórica. Não se pode falar de Carlos Botelho sem evocar a sua paixão por Lisboa, e não se pode falar de Lisboa sem lembrar que Carlos Botelho foi um dos seus mais dedicados pintores.

Carlos António Teixeira Basto Nunes Botelho, de seu nome completo, foi um um pintor, cartunista, decorador e ilustrador ligado ao Movimento Modernista, que exerceu a sua ação ao longo de uma grande parte do séc. XX. Fez muita banda desenhada na sua juventude, mas foi só aos 30 anos de idade que ingressou na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, para desistir um ano depois, desiludido com o academismo dominante naquele estabelecimento de ensino. Carlos Botelho foi, portanto, essencialmente um autodidata, que muito aprendeu durante as suas vivências no estrangeiro, nomeadamente em França e nos Estados Unidos. O facto de ter tido um atelier na Costa do Castelo deve ter desempenhado um papel determinante na sua paixão pela paisagem urbana de Lisboa e pela sua incomparável atmosfera, que evocou em pinturas inesquecíveis.


Doca do Peixe, de Carlos Botelho (1899–1982), 1933, óleo sobre cartão, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Lisboa e O Tejo; Domingo, de Carlos Botelho (1899–1982), 1935, óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Ramalhete de Lisboa, de Carlos Botelho (1899–1982), 1935, óleo sobre tela, Museu de Lisboa, Lisboa, Portugal


Pintura, de Carlos Botelho (1899–1982), 1936, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

22 maio 2020

Tucunaré Lopez


O fotógrafo angolano Tucunaré Lopez na província do Namibe, entre Mucubais (Foto de autor desconhecido)

Tucunaré Lopez é um fotógrafo angolano, nascido e residente em Luanda. Confesso que não sei se ele se chama mesmo Tucunaré Lopez ou se este nome é um pseudónimo. Acho muito estranho que alguém nado e criado em Angola ostente o nome de um peixe do Amazonas, o tucunaré.

É certo que Angola e o Brasil têm uma relação histórica de cinco séculos, fruto de um odioso tráfico esclavagista, que levou milhões de seres humanos agrilhoados de África para as Américas. Para um brasileiro, Angola não é um país qualquer, assim como para um angolano, o Brasil não é um país qualquer. Mesmo que o samba não tivesse sido levado de Luanda para a Baía, ou que a capoeira (essa arte marcial que é ao mesmo tempo uma dança) não tenha regressado do Brasil a Angola, ambos os países têm um passado comum extremamente doloroso que não se pode apagar. Angola está presente no Brasil e o Brasil está presente em Angola. Não é por acaso que os angolanos chamam onça ao leopardo e jacaré ao crocodilo. Por que não há de um homem chamar-se Tucunaré?



(Foto: Tucunaré Lopez)


(Foto: Tucunaré Lopez)


(Foto: Tucunaré Lopez)


(Foto: Tucunaré Lopez)


(Foto: Tucunaré Lopez)


(Foto: Tucunaré Lopez)


(Foto: Tucunaré Lopez)


(Foto: Tucunaré Lopez)

17 maio 2020

Sinfonia N.º 4 de Joly Braga Santos


Sinfonia N.º 4 em Mi Menor, op. 16, de Joly Braga Santos (1924–1988), dedicada à Juventude Musical Portuguesa. Versão Coral, com um poema de Vasconcelos Sobral (1930–2016). A interpretação está a cargo da Orquestra Sinfónica da Rádio Romena e do Coro George Enescu, dirigidos por Silva Pereira

12 maio 2020

Abandonados


O primeiro oficial de operações e informações que o nosso batalhão teve, como responsável pelo planeamento das operações que realizávamos, foi o capitão de Infantaria António Jacques Favre Castel-Branco Ferreira, mais conhecido por capitão Castelo Branco.

Eu não "morria de amores" por ele, pois o capitão Castelo Branco tinha uma mentalidade típica dos oficiais de carreira, com a qual eu não me identificava de maneira nenhuma. Os gostos e os interesses dele (assim como os do comandante e os do major) eram completamente diferentes dos meus. Eu diria mesmo que eram opostos. A única coisa que eu tinha em comum com ele era a condição militar, que no meu caso era temporária.

Apesar de não me identificar minimamente com o capitão Castelo Branco, a verdade é que eu tinha imenso respeito por ele, porque ele tinha comido o pão que o diabo amassou na sua anterior comissão, onde comandou uma companhia (a C. Caç. 2316, do B. Caç. 2835) num dos piores buracos que houve em toda a guerra da Guiné: Guileje! O facto de ele ter passado noites e noites seguidas metido nos abrigos de Guileje, sofrendo repetidos e sistemáticos ataques do PAIGC, que causavam mortos e feridos entre os elementos da sua companhia, deixou-o psicologicamente afetadíssimo.

A segunda comissão militar do capitão Castelo Branco, que ocorreu connosco em Zemba, só agravou o seu estado. Ao fim de menos de um ano de comissão, teve que ser evacuado para Lisboa e internado no Serviço de Psiquiatria do Hospital Militar Principal como maníaco-depressivo, sendo substituído nas suas funções pelo capitão Reis.

Na sua qualidade de oficial de operações e informações do batalhão, o capitão Castelo Branco tinha uma obsessão. Cismava com a chamada central do Dange, que era uma base da UPA/FNLA, das mais importantes que havia em Angola, a qual tinha existido na Zona de Ação da companhia de Cambamba, mas que tinha sido destruída pelos Comandos no âmbito de uma operação que teve lugar alguns meses antes do início da nossa comissão. Dizia o Castelo Branco (e devia ser verdade) que, depois da dita operação, a central do Dange foi reconstruída pela FNLA muitos quilómetros mais para norte, perto de São José do Encoje ou mesmo de Nova Caipemba. Ora São José do Encoje e Nova Caipemba não tinham nada a ver com o nosso batalhão. Não eram da nossa conta. Eram da responsabilidade do batalhão de Quitexe, vizinho e "irmão gémeo" do nosso. Este batalhão de Quitexe era o B. Caç. 3879, com as companhias 3532, 3533 e 3534.

Muito embora a central do Dange já não dissesse respeito ao nosso batalhão, a verdade é que o capitão Castelo Branco vivia obcecado com ela e não falava noutra coisa senão na central do Dange e também em São José do Encoje e Nova Caipemba. Falava, voltava a falar e continuava sempre a martelar no mesmo assunto. O Castelo Branco vivia tão obcecado com a central do Dange, que morria se ninguém fosse pelo menos ao local onde ela tinha existido, para confirmar que ela tinha sido mesmo destruída. Era por demais evidente que tinha, pois todos os informadores o diziam, e na verdade nunca mais se voltaram a registar quaisquer incidentes em toda a área onde ela tinha estado implantada. Mesmo assim, o Castelo Branco não descansou enquanto não planeou uma operação, com o único propósito de se ir ao local exato da destruída central, para confirmar o que já se sabia.

Embora a antiga central do Dange ficasse na Zona de Ação de Cambamba, foram enviados ao local dois grupos de combate de Zemba e só de Zemba, sem a participação de qualquer tropa de Cambamba, porque esta tinha tido recentemente uma atividade operacional muito intensa. O comandante da operação fui eu. A operação foi facílima. Foi a operação menos arriscada de todas as que realizei com o meu grupo de combate e foi também a segunda menos cansativa, porque o terreno era plano e as matas pouco densas, bem diferentes das incríveis florestas virgens de Zemba.


Cambamba, com o seu característico Inselberg ao fundo (Foto: José Monteiro)

Em Cambamba, antes da partida para a operação propriamente dita, falei com o guia que nos iria conduzir ao local, a fim de acertar pormenores. O guia estranhou o facto de nós querermos ir à antiga central do Dange.

— Não está lá ninguém — disse-me o guia. — O quartel foi destruído. Não vamos lá fazer nada.

— Não faz mal — disse-lhe eu. — O comando do batalhão quer que nós vamos lá, e nós vamos.

— Está bem, pronto, não há problema. Se querem ir, eu levo-os lá, — concordou o guia — mas não está lá ninguém.

Eu pensei: «Isto vai ser canja; vai ser uma operação sem história; não vai acontecer nada digno de nota». Mas estava enganado. Ocorreram algumas peripécias durante essa operação, que fizeram com que ela ficasse gravada na minha memória até hoje.

Depois de termos sido largados num ponto de uma picada que acabava no meio do mato, mas que no passado devia ter ligado Cambamba a Zalala ou à Fazenda Liberato, fomos direitinhos, sem desvio nenhum, à antiga central do Dange, tal como o Castelo Branco queria. Lá chegados, vimos que, de facto, a base estava destruída e não havia sinais da presença de gente naquelas paragens, certamente desde o próprio dia da destruição. A vegetação começava a tomar conta do lugar, com o capim e outras plantas a crescer por entre os restos carbonizados das cubatas.

A base tinha sido bastante grande, mas o que mais me chamou a atenção foi o facto de ela estar pessimamente localizada, sem defesas naturais de qualquer espécie. O terreno era completamente plano e a mata, no interior da qual ela tinha estado implantada, era muito pouco densa. Mesmo muito pouco densa. Não faltavam ali à volta matas mais densas do que aquela. Ainda hoje estou para perceber porque foi que a FNLA fez um quartel tão importante num sítio tão mau, tão pouco defensável.

«E pronto, a operação está feita», pensei eu. «Agora vamos só dar umas voltas por aí, para gastar tempo até chegar o dia do nosso regresso ao quartel».

Começamos a nomadizar pela região e, por onde quer que andássemos, não encontrávamos quaisquer vestígios de presença humana recente. Era perfeitamente claro que a FNLA tinha abandonado completamente toda a área. Isto mesmo comuniquei por rádio para Zemba.

Não havia presença humana na área, mas havia presença animal… Ao sairmos do interior de uma mata para uma clareira, encontramos, no meio desta e a menos de 50 metros de nós, um elefante! Que grande susto que apanhamos! Contávamos com tudo, menos com um bicharoco daquele tamanhão ali mesmo à nossa frente. Preparámo-nos para atirar sobre ele, no caso de ele nos atacar. Se o fizesse, ficaria mais furado do que uma peneira… Mas não o fez. Ignorou-nos olimpicamente e seguiu o seu caminho, como se nós não existíssemos sequer. Enfim, do alto das suas não sei quantas toneladas de peso, tratou-nos como se fôssemos uns seres desprezíveis, que nem sequer mereciam um mínimo de atenção da parte dele…

A entrada do elefante na floresta foi uma coisa digna de se ver. Ele abriu um enorme rombo na mata, arrancando árvores com a tromba com uma facilidade espantosa. Mesmo depois de deixarmos de o ver, quando já ia dentro da floresta, continuávamos a ver ramos a voar pelos ares, acima das copas das árvores, que eram bastante pequenas. Tudo acompanhado pelo barulho correspondente, claro. Um espetáculo!

Tive então uma ideia: e se nós fôssemos atrás do elefante, aproveitando o rombo que ele tinha acabado de abrir na floresta, para avançarmos mais depressa? Assim fizemos. Metemo-nos pelo rombo, desviando-nos, evidentemente, das montanhas de merda que ele ia deixando pelo caminho… Aquilo era praticamente uma "auto-estrada", de tão larga que era. Mas não pudemos utilizá-la por muito tempo, porque o elefante começou a fazer uma curva e, a dada altura, já estávamos a voltar para trás. Com muita pena minha, tivemos que abandonar a "auto-estrada" e abrir caminho à força de catana, de novo para diante.

À medida que avançamos, começamos a ver no chão pegadas frescas de pessoas. Estávamos a entrar numa área habitada, mas só por populações civis, pois as marcas eram todas de pés descalços. Os guerrilheiros costumavam usar botas e marcas de botas era coisa que nós não víamos.

De repente, sem que nada me fizesse prever, o meu pessoal começou a correr desenfreadamente numa determinada direção. Espantado com que estava a acontecer, corri também o mais que pude, no sentido de tomar conhecimento do que se estava a passar e assumir o controlo da situação. Pensei que, o que quer que estivesse a acontecer, aquela corrida era de certeza coisa do furriel Macedo, que ia à frente da coluna com o guia. Eu ia um pouco mais atrás, em quinto ou sexto lugar, como sempre fazia. O Macedo devia ter combinado qualquer coisa com o guia e decidiu pô-la em prática sem me consultar, a mim, que era o comandante da operação e estava tão perto dele. Fiquei extremamente chateado. Logo que houvesse uma oportunidade, o Macedo ia ouvir-me das boas! Ia, ia! Aquilo não podia ficar assim! O Macedo não ia esperar pela demora!

A correria tinha como destino um acampamento. Mal entrava no acampamento, o meu pessoal espalhava-se pelo mesmo, sem receber ordens minhas ou de quem quer que fosse. O acampamento foi rapidamente ocupado sem se disparar um tiro. Pela minha parte, sem pensar no que estava a fazer, dirigi-me imediatamente à primeira cubata que me apareceu. Abri subitamente a porta da cubata e parei à entrada, com a arma apontada lá para dentro. Ouvi uma voz de homem muito aflita, dizendo-me em português:

— Não atire, não atire, por favor! Por amor de Deus, não atire! Eu saio já, eu saio! Mas por favor não atire. POR FAVOR!

Como o interior da cubata estava escuro e o homem que falava era negro, eu não conseguia vê-lo, pois vinha do exterior ofuscado pelo sol. Por isso mantive a arma apontada, ainda que não tivesse a mais pequena intenção de atirar. À medida que os meus olhos se foram habituando à penumbra da cubata, comecei a ver um vulto com os braços no ar à minha frente. Levantei imediatamente a arma para o alto. O homem baixou os braços e começou a tentar vestir uns calções. Mas estava tão assustado que não conseguia acertar com as pernas nos calções. Demorou muito tempo a enfiá-los, ao mesmo tempo que ia dizendo:

— Eu saio já, eu saio já! Espere um bocadinho que eu saio já. Eu saio, eu saio.

Enquanto tudo isto se passava, eu permanecia à entrada da cubata virado para dentro, para ver o que fazia o homem, mas com os ouvidos atentos aos ruídos que vinham cá de fora. Ouvia passos apressados ou em corrida, assim como vozes, mas não ouvi gritos de pânico nem tiros. A minha maior preocupação, naquele momento, era que algum soldado mais nervoso começasse a disparar, o nervosismo dele se espalhasse pelo resto do pessoal e se seguisse um tiroteio generalizado, resultando tudo num banho de sangue. Tal não aconteceu, felizmente. Uma tropa consciente e disciplinada como a nossa não tinha o gatilho fácil.

Eu fui mesmo muito estúpido em ter agido como agi. Eu não tinha nada que ficar ali especado à entrada de uma cubata, à espera que alguém se vestisse e saísse cá para fora. Na minha qualidade de comandante da operação, o que eu devia ter feito era colocar-me mais ou menos no meio do acampamento, de maneira a poder controlar a evolução dos acontecimentos e dar as ordens que fossem necessárias. A revista às cubatas era uma tarefa dos soldados, não era minha. A minha tarefa era outra. Não admirava que o furriel Macedo passasse por cima da minha autoridade e agisse por conta própria. Eu não estava a saber comportar-me à altura das minhas responsabilidades. Eu merecia ser desconsiderado pelos furriéis.

Finalmente, o homem que apanhei dentro da cubata conseguiu vestir os calções e sair cá para fora. Os calções dele estavam tão esfarrapados, tão esfarrapados, que fiquei admiradíssimo como ele conseguia andar com aquilo vestido sem trazer a "ferramenta" toda ao léu… Os calções tinham mais buracos do que pano.

Juntamos as pessoas no centro do acampamento. As mulheres, sobretudo, estavam aterrorizadas, pensando talvez que as fôssemos violar. É claro que ninguém lhes tocou. O homem que apanhei dentro da cubata era por acaso o mais calmo de todos naquele momento. Resolvi por isso interrogá-lo, tendo ao meu lado o outro alferes que participou na operação (já não tenho a certeza de quem era, mas devia ser o Peixoto) e furriéis.

Para nosso espanto, o homem começou a responder-nos num português rigorosamente perfeito e com toda a fluência. Perguntamos-lhe onde foi que aprendeu a falar tão bem português. Explicou-nos:

— Em miúdo andei na escola e mais tarde fiz a tropa.

— Ai sim? Você também fez a tropa?! — perguntamos-lhe admirados.

— Sim, estive na Índia.

— Na Índia?!!! — abrimos a boca de espanto até às orelhas.

— É verdade. — confirmou ele — Fiz uma comissão em Goa em 1958.

Nós julgávamos que naquele "cu de judas" em que nos encontrávamos só havia gente matumba, que nunca tinha saído da região, e apareceu-nos um homem tão viajado que até já tinha estado na Índia!

O homem, apontando para os meus inesquecíveis subordinados africanos, acrescentou:

— Na tropa, eu era igual a esses homens. Tal e qual. Só a minha farda é que era diferente. Eu não usava essa farda — referia-se ao camuflado que nós vestíamos. — De resto, eu era igualzinho a eles. Exatamente igual. Eu fui um deles.

Pareceu-nos notar-lhe no olhar uma pontinha de inveja pelos nossos companheiros angolanos. Por isso lhe perguntamos:

— E gostou?

— Eu estava muito longe… Tinha muitas saudades… A Índia fica muito longe daqui. Mas gostei. É bom conhecer outras terras e outras gentes.

— Tem saudades desse tempo?

— Tenho — respondeu. — Mentiria se dissesse que não tinha, mas tenho saudades, sim. Eu na tropa fui bem tratado. Na tropa, eu fui bem tratado.

E disse mais uma vez «na tropa, eu fui bem tratado», querendo significar com isto que, se foi bem tratado na tropa, na vida civil nem sempre o foi.

Feitas as primeiras perguntas de ordem pessoal, resolvi mudar de assunto, perguntando-lhe acerca da FNLA:

— Onde é que está a UPA, que não se vê em lado nenhum?

— A UPA? A UPA fugiu! — respondeu-me — Fugiram todos. Fugiram os guerrilheiros e fugiram também o professor, o pastor [protestante] e todos os outros. Fugiram e deixaram-nos abandonados. Nós ficamos completamente sozinhos. Nem o pastor nem o professor ficaram. Estamos aqui completamente abandonados e não temos nada. Absolutamente nada. Não temos sal, não temos sabão, não temos fósforos, não temos roupas, não temos nada. Estamos aqui a morrer devagar.

— Então porque é que não se foram apresentar a Cambamba? — perguntamos-lhe, impressionados.

— Porque tínhamos medo de ser mortos pelos brancos — foi a resposta.

Neste instante, lembrei-me das afirmações que tempos antes tinha ouvido a um habitante de Cambamba, bastante idoso, que dissera: «Os brancos chamam terrorista à UPA. É verdade, têm razão. Quando começou a confusão [a população local chamava confusão à guerra], a UPA foi realmente terrorista. Foi, sim senhor. É verdade que foi. Mas a tropa que veio a seguir foi muito mais terrorista do que a UPA. Muito mais. O povo teve que fugir todo para a mata, para junto da UPA, para não ser morto pela tropa. Mesmo quem não gostava da UPA teve que fugir, porque a tropa matava toda a gente. A tropa foi muito mais terrorista». Lembro que um dos militares que estiveram em Cambamba no início da guerra foi o célebre alferes Robles. Ainda hoje se fala dele e das atrocidades que alegadamente terá cometido em Cambamba e Aldeia Viçosa.

Terminado o interrogatório, dei ordens para que todos se preparassem para partir. Nenhum dos civis quis ficar. Todos eles aceitaram partir connosco. Pediram-me apenas que lhes desse tempo para pegarem nos pertences que desejavam levar para Cambamba. É claro que acedi. Dei-lhes todo o tempo do mundo. Mas eles não demoraram muito. Os seus haveres eram impressionantemente escassos. Eles estavam na mais arrepiante miséria.

Enquanto os civis recolhiam os seus pertences, entrei em contacto pelo rádio diretamente com Zemba (o Racal TR-28 era um grande rádio!), a fim de dar conta do que se tinha passado. Solicitei o envio de uma coluna de viaturas ao nosso encontro, no sentido de levarem os civis resgatados para Cambamba. Nós não podíamos andar com eles atrás de nós durante o resto da operação, por duas razões principais: eles não estavam em condições físicas de poderem fazer grandes caminhadas e nós não tínhamos rações de combate suficientes para alimentar toda a gente. Os civis precisavam de ser vistos pelo médico (não sei se o Brandão os viu ou não, mas pelo menos devia) e precisavam de ser alimentados e vestidos convenientemente.

Veio o próprio comandante do batalhão ao rádio falar comigo, gritando-me do outro lado:

— Ó pá, dá por terminada a tua missão! Amanhã vocês vêm-se embora! Vocês já fizeram muito, agora outros que façam também alguma coisa.

Eu nem queria acreditar no que o tenente-coronel me dizia pelo rádio. Ele antecipava o fim da nossa operação e fazia-nos um elogio! Aquele foi o primeiro e o último elogio que ouvi da boca dele em toda a comissão… Algum santo devia estar para cair do altar, como se costuma dizer. Continuou ele:

— Vou dizer ao Magalhães para preparar dois grupos de combate, para irem amanhã substituir-vos e concluir a operação. Amanhã vocês vêm-se embora.

Mais tarde contactei pelo rádio com Cambamba, a fim de acertar pormenores sobre a hora e o local da rendição. Ficou tudo acertado e dirigimo-nos imediatamente para o local, que ainda ficava a bastantes quilómetros de distância do sítio onde nós estávamos.

Quando partimos do acampamento, cometi mais uma falha. Eu devia ter deixado um bilhete num local bem visível, a comunicar, a qualquer pessoa que eventualmente ali aparecesse, que os habitantes do acampamento tinham ido para Cambamba e que estavam todos bem. Foi uma falha imperdoável da minha parte. Foi o resultado de andar durante quase toda a operação descontraído, armado em turista, como se estivesse a fazer um safari em África, em vez de me ter compenetrado nas minhas funções. Resultado: fiz asneiras atrás de asneiras. Uma operação militar não era um passeio e eu devia ter isto sempre presente.

Chegamos ao local da rendição sem mais novidades. Esperamos pouco tempo até chegar a coluna de viaturas vinda de Cambamba. Enquanto esperávamos, sentei-me à sombra de uma pequena árvore, convencido de que mais nada me iria acontecer até à chegada da coluna. A nossa participação na operação tinha chegado ao fim. Mas o destino ainda me tinha reservado mais uma surpresa.

Um camarada nosso apontou para um ponto no chão ao pé de mim, gritando-me:

— Cuidado! Uma cobra!

Olhei para o chão e vi uma cobra lindíssima a poucos centímetros de mim. Era a cobra mais linda que vi em toda a minha vida. Espantosamente linda. Dei um salto para o lado e alguém lhe cortou imediatamente a cabeça com uma catana. Alguns dos meus admiráveis subordinados africanos aproximaram-se e foram unânimes na identificação da cobra. Era uma surucucu, uma das cobras mais venenosas de Angola. Mortal. Mas eu dificilmente correria perigo de vida se ela me mordesse, porque o cabo enfermeiro trazia soro antiofídico na sua bolsa. Mesmo assim, eu ainda era capaz de passar alguns maus momentos até que o soro anulasse o efeito do veneno.

A coluna vinda de Cambamba por fim chegou. Nela vinham para nos render dois grupos de combate da companhia 3536, comandados pelo alferes Silva. Troquei impressões com o Silva, passando para ele o serviço. O Silva comunicou-me que tinha sido incumbido da tarefa de resgatar civis abandonados na mata pela FNLA, à semelhança do que nós tínhamos feito. Eu disse-lhe que era isso mesmo o que eu também desejava que ele e o seu pessoal fizessem.

No momento da nossa subida para as viaturas, ajudamos os civis que tínhamos resgatado a subir também, mas o homem que eu tinha "capturado" recusou-se a subir. Não queria ir já para Cambamba. Queria ir com o pessoal da 3536 na operação, para servir de guia. Por mais que eu insistisse para que subisse para uma viatura e seguisse para Cambamba, ele recusava-se, dizendo:

— Há pessoas a morrer, abandonadas na mata. O que é importante agora é salvá‑las. Eu sei onde elas estão e levo-os lá. Depois, então, posso ir para Cambamba. Mas só depois.

O alferes Silva aceitou que o homem fosse com ele. Eu subi para uma viatura e regressei a Zemba, completamente descansado quanto ao êxito da operação, porque o Silva era o alferes mais ajuizado do batalhão todo.


Manuel da Conceição Silva, antigo alferes miliciano da C. Caç. 3536 (Foto: Maria do Carmo Silva)

10 maio 2020

De monte a monta…

De monte a monta, o meu grito
soa, soa, como voz
de um eco do infinito
ecoando em todos nós.

Timor cresce como um grito
ecoando em todos nós.

Ruy Cinatti (1915–1986)



Vista a partir de Tatamailau, o pico mais alto do monte Ramelau, município de Ermera, Timor-Leste. Altitude: 2963 metros (Foto: Isabel Nolasco)

08 maio 2020

Este quadro já não existe


Die Freundinnen ("As Amigas"), de Gustav Klimt (1862–1918), óleo sobre tela, 1916–17

Este quadro já não existe. Foi destruído em 1945 pelas tropas nazis em fuga, no final da 2.ª Guerra Mundial. Ficaram réplicas dele, como a que aqui se reproduz.

O seu autor foi o austríaco Gustav Klimt, um dos mais destacados artistas da Secessão de Viena, que foi um movimento fundado em 1897 com a finalidade de se opor ao conservadorismo vigente na capital da Áustria. Klimt, tal como tantas outras pessoas por esse mundo fora, morreu em 1918 vitimado pela pandemia da gripe pneumónica.

A Secessão de Viena, à qual está associado o estilo "Arte Nova" (Jugendstil, em alemão), marcou de forma indelével o próprio caráter da capital austríaca. Para nós, agora, Viena não seria Viena nem seria nada, se não tivessem existido a Secessão e as múltiplas intervenções artísticas que os seus membros deixaram para a posteridade. Além de Gustav Klimt, foram membros da Secessão Otto Wagner, Josef Maria Olbrich, Max Kurzweil, Josef Hoffmann, etc.

06 maio 2020

Tom Waits, de António Pinho Vargas


Tom Waits, de António Pinho Vargas, por António Pinho Vargas ao piano

No ano de 1951, nasceu em Vila Nova de Gaia um pimpolho a quem foi dado o nome de António Manuel Faria Pinho Vargas da Silva. Logo uma fada madrinha o predestinou para vir a ser músico, mas não um músico qualquer: um músico versátil e multifacetado.

António Pinho Vargas é um nome marcante no domínio da música em Portugal, seja como compositor, seja como pianista. Espalhou o seu enorme talento por diversos géneros musicais, com destaque para a música contemporânea e o jazz. A peça que aqui se ouve é uma das suas composições mais populares. Chama-se "Tom Waits" e é dedicada ao músico e poeta norte-americano Tom Waits.

03 maio 2020

O que se odeia no índio

O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
E a liberdade aberta
se odeia no índio.

Reynaldo Jardim (1926–2011), poeta e jornalista brasileiro



Índio brasileiro de etnia Kuikuro (Foto: Karla Freitas)

30 abril 2020

Nascer para ser rico


Garoupas (Foto: Auchan)


Havia um sapateiro que trabalhava noite e dia, mas nunca passava da cepa torta; um vizinho muito rico ouvia-o cantar sempre esta cantiga:

Sou um pobre sapateiro,
Que estou sempre a dar, a dar,
Quem nasceu para ser pobre
Que lhe serve o trabalhar?

Ao som desta cantiga batia sola; o vizinho lembrou-se de lhe fazer uma surpresa, e mandou-lhe uma grande rosca cheia de dinheiro por dentro, que era para ele comer com sua mulher e filhos, e quando a partisse já não ter que se queixar da sorte. O sapateiro assim que recebeu a rosca deu muitos agradecimentos ao vizinho, mas como tinha tido uma doença em casa lembrou-se de ir levar de presente a rosca ao médico a quem estava em dívida. A mulher ficou muito contente com a lembrança e foi ela mesma levá-la a casa do médico. Passados dias passou o vizinho rico pela porta do sapateiro, e ouviu-lhe a mesma cantiga, e perguntou-lhe:

— Oh homem! Pois você não comeu a rosca com a sua família?

O sapateiro contou o motivo porque se tinha visto obrigado a levá-la de presente ao médico. O rico foi-se embora, e passados dias mandou-lhe uns toros de pinheiro, também cheios de dinheiro por dentro, dizendo que era para fazer o seu lume. Ora o sapateiro era vizinho de um padeiro, de quem comia fiado, e para lhe ser agradecido levou-lhe os toros de presente para queimar no forno. De outra vez passou o vizinho rico pela porta do sapateiro e perguntoulhe se já tinha rachado a lenha que lhe mandara; o homenzinho contou como se vira obrigado a levar os toros de presente ao seu vizinho padeiro, que lhe dava pão fiado. Vai o rico e disse-lhe:

— Você parece que tem razão em se queixar de que nasceu para ser pobre, porque a rosca de pão e os toros de pinheiro vinham por dentro recheadinhos de dinheiro. Agora ainda que lhe queira fazer bem já não posso, nem trago nada comigo. O mais que lhe posso dar é esse pedaço de chumbo que achei ali no caminho.

O sapateiro pegou no bocadinho de chumbo, e como de nada lhe servia deitou-o ali para um canto, e continuou a trabalhar ao som da mesma cantiga. De noite quando estava na cama, sentiu bater à porta: truz, truz! Falaram:

— Oh senhora vizinha!

A mulher do sapateiro levantou-se e foi ao postigo; era a mulher de um pescador que morava paredes-meias e disse:

— O meu homem vai agora para o mar, para deitar as redes; é uma ocasião boa, mas falta-lhe chumbo para elas. Não terá por aí qualquer bocadinho que me dê?

O sapateiro lembrou-se do chumbo que lhe tinha dado o homem rico e disse à mulher onde estava, e que o levasse à do pescador. Lá o que se passou não sei, mas o pescador tirou uma rede cheia de peixe, e a mulher veio a casa do sapateiro trazer-lhe em paga uma boa garoupa para amanharem para o jantar. Quando a mulher do sapateiro a estava arranjando, abriu-lhe as ventrechas e achou-lhe dentro uma pedra a modo de um vidro esquinado e deu aos pequenos para brincarem, sem fazer a isso mais reparo. Os pequenos brincaram com a pedra, e deixaram-na para aí quando se foram deitar. De noite estava o sapateiro na cama, e depois que apagou a candeia viu luzir uma cousa como que se fosse os olhos de gato.

— Homem, essa! parece-me que vejo luzir ali uma cousa.

A mulher reparou, e viu o mesmo; levantou-se o sapateiro e foi ver o que seria; deu com uma pedra muito polida, e foi então que a mulher se lembrou que a tinha encontrado na ventrecha da garoupa. O sapateiro quando amanheceu foi mostrá-la a casa de um ourives, que lhe disse que aquilo era uma pedra preciosa e que valia tanto que nem ele mesmo tinha dinheiro para a comprar; mas que se ele quisesse iria mostrá-la ao rei, que só ele é que podia ter joias de tanto valor. Assim fez, e o sapateiro veio a receber muito dinheiro pela pedra; mudou de vida, comprou casas e quintas, e quando já se tratava como um senhor, passou-lhe pela porta o antigo vizinho rico que tinha estado muito tempo fora da terra, e ficou pasmado de o ver tão acrescentado. Ele dizia lá consigo:

— O velhaco do sapateiro enganou-me; guardou o dinheiro que lhe mandei dentro da rosca e dos toros de pinheiro, e só depois da cousa esquecida é que se saiu com ele.

Mas o sapateiro era homem liso, e contou-lhe como a fortuna lhe viera pelo bocadinho de chumbo que lhe deu, agradeceu-lhe muito, e concluiu que apesar das suas queixas ele tinha nascido para ser rico, pois dera por duas vezes pontapés na fortuna.

Conto popular recolhido no Porto. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843-1924)

25 abril 2020

As portas que Abril abriu

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas tabém tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
— pode nascer um país
do ventre duma chaimite

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
— é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo de mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desbobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os genarais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
apenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

Em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua prórpia grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

José Carlos Ary dos Santos (1937–1984)


23 abril 2020

O nosso mundo é este

O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este…

( Mas há de ser outro.)

José Gomes Ferreira (1900–1985), poeta português



(Foto: PA Real Life/searching4eden)

20 abril 2020

Espoliada da própria vida


Quando me comunicaram que eu iria comandar uma operação militar helitransportada, não entrei em pânico, mas pouco faltou. «Como é que se comanda uma operação helitransportada?», pensei eu, sobressaltado. «Nunca me ensinaram!» Passei mentalmente em revista o Curso de Oficiais Milicianos que frequentei em Mafra e concluí que ninguém, em momento algum, me ensinou fosse o que fosse que estivesse relacionado com operações deste tipo. «Porque não entregam o comando da operação a alguém que tenha um mínimo de conhecimentos sobre o assunto?», interroguei-me ainda, concluindo logo a seguir que em todo o batalhão não havia um só oficial nessa situação. Nenhum alferes ou capitão parecia estar à altura de poder comandar uma operação helitransportada. Todos pareciam saber tanto como eu, ou seja, nada. Quis o acaso que fosse a mim, e não a outro, que calhasse uma tal responsabilidade.

Pouco a pouco, fui-me tranquilizando a mim mesmo, concluindo que tudo iria correr bem, pois a sorte que sempre me acompanhara na guerra, o meu instinto de sobrevivência e a minha intuição me iriam valer nessa operação, como já me tinham valido em operações anteriores. Quaisquer que fossem as dificuldades que me viessem a surgir, eu iria ser capaz de resolvêlas e tudo iria correr da melhor maneira possível. Sempre assim tinha sido e com certeza assim voltaria a ser. Quando embarquei no helicóptero que me iria largar nas proximidades do objetivo, já eu me sentia relativamente confiante e mentalmente pronto para enfrentar as dificuldades que me viessem a aparecer.

A operação foi mais fácil do que eu alguma vez poderia ter imaginado. Foi, incomparavelmente, a menos cansativa de todas as operações militares que fiz, e também foi, sem qualquer sombra de dúvida, uma das menos arriscadas.

Esta operação teve como objetivo uma base da FNLA chamada Quiuanda, situada bastantes quilómetros a norte de Cambamba, e nela participaram dois grupos de combate da minha companhia: o 2.º grupo, que era o meu próprio, e o 4.º grupo, que era comandado pelo alferes miliciano Peixoto. A operação decorreu entre 20 de abril (Sexta-Feira Santa) e 22 de abril (Domingo de Páscoa) de 1973.


Um helicóptero Puma SA-330, de fabrico francês, recolhendo militares paraquedistas algures no norte de Angola (Foto: Rui Ferreira)

Fomos levados "ao colo" por helicópteros Puma até às proximidades do objetivo. Estes helicópteros eram grandes e muito fechados. Embarquei no primeiro que levantou de Zemba e fui um dos primeiros militares a saltar do helicóptero (que ficou a pairar a cerca de metro e meio de altura do chão), com a intenção de dirigir a colocação no terreno dos meus homens à chegada. À medida que eles iam saltando, eu encaminhava-os de maneira a formarem uma ampla circunferência em volta do local do desembarque, deitados no solo e com as armas apontadas para fora. Ainda hoje não sei se era assim que eu devia proceder; fiz o que me ocorreu naquele momento.


Um jato F-84 Thunderjet, de fabrico norte-americano, sendo abastecido de combustível na Base Aérea 9, em Luanda. Esta aeronave, em concreto, pode ter atuado na operação ao Quiuanda (Foto: Soares da Silva)

Um avião Dornier DO-27, de fabrico alemão (Foto de autor desconhecido)

Ao mesmo tempo que saltávamos dos helicópteros, diversas aeronaves da Força Aérea faziam fogo à nossa volta, provocando uma barulheira infernal. Fui tomado de uma enorme euforia, que só consegui refrear com muito custo, porque me senti invencível, rodeado que estava por um tão grande poder de fogo. Eu estava no meio de um inferno, mas o inferno era "bom", porque me protegia. Confesso que tive muita dificuldade em conseguir dominar-me e tomar consciência da real situação em que me encontrava.

As aeronaves que evolucionavam à nossa volta eram dois ou mais jatos F-84, um avião a hélice DO-27 e um helicanhão, o qual consistia num pequeno canhão MG-151 montado a bordo de um helicóptero Alouette III.


Um helicanhão idêntico ao utilizado no ataque ao Quiuanda (Foto: Mais Alto)

Os rebentamentos dos rockets lançados  pelos aviões e as rajadas do helicanhão faziam um barulho ensurdecedor. Este barulho durou até ao momento em que o último dos meus homens saltou para o chão. Então, todas as aeronaves se calaram e partiram de regresso a Luanda, deixando-nos sozinhos no terreno. Ordenei logo ao meu pessoal que se levantasse e se preparasse para partir. Dirigimo-nos imediatamente para a base que deveríamos destruir.

Apesar de ter uma certa importância estratégica, a base de Quiuanda era pequena e não justificava um tão grande poder de fogo por parte da Força Aérea. Os poucos guerrilheiros que deviam guarnecer a base puseram-se em fuga antes de entrarmos nela. Encontramos a base vazia.

Os guerrilheiros deviam ter sido apanhados de surpresa pelo ataque, pois deixaram pequenas fogueiras acesas com latas cheias de água em cima, em jeito de cafeteiras, provavelmente para prepararem o pequeno-almoço, em Angola chamado mata‑bicho. Os guerrilheiros e a população que os apoiava costumavam utilizar as latas vazias e as colheres de plástico das rações de combate que a tropa portuguesa abandonava na mata durante as operações.

No centro da base estava hasteada uma bandeira da FNLA, que um militar que não consegui identificar retirou. Julguei que ele mais tarde me iria entregar a bandeira, para juntar ao restante espólio da operação, mas tal não aconteceu. O militar ficou com ela.


Bandeira da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA)

Depois de termos destruído a base, saímos dela por um trilho, a fim de explorarmos a região envolvente. Mais adiante, na beira do caminho, encontramos uma mulher morta, sem metade da cara. Era evidente que ela tinha sido abatida pelo apontador do helicanhão, cujas balas costumavam ser de ponta explosiva. Uma bala deve ter atingido a mulher na cara, abrindo-lhe um horrendo buraco de ossos estilhaçados e sangue.

O soldado Domingos Cangúia, que era natural do Cuanza Norte e era generoso e puro como poucos, chorou convulsivamente a morte gratuita daquela desgraçada mulher, a quem até a vida tiraram. Dizia o soldado, por entre soluços:

— Que mal é que esta mulher fez a quem a matou? Porque foi que ele a matou? Certamente ela tinha filhos pequenos. O que vai ser agora dos filhos?

E chorava inconsolavelmente. Há cenas que ficam gravadas na nossa memória como ferro em brasa. Para mim, esta foi uma delas.