15 setembro 2019

A igreja matriz da Golegã


Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Golegã, Portugal (Foto: João Correia)

A vila da Golegã, embora pequena, tem muito que ver. Situada em plena planície aluvial do Ribatejo (a chamada lezíria), a Golegã encontra-se rodeada de campos férteis, que se estendem por quilómetros e quilómetros, de um lado e do outro do rio Tejo, para montante e para jusante. Há também nas proximidades da Golegã uma zona alagadiça que tem uma fauna e uma flora muito ricas, que é o Paul do Boquilobo, o qual, aliás, é atravessado pelos comboios da Linha do Norte a uma velocidade tal que os passageiros não veem nada… Junto ao Paul do Boquilobo situa-se Azinhaga, a modesta aldeia de trabalhadores rurais onde nasceu José Saramago, um dos maiores vultos das letras portuguesas.

Seria um pecado de lesa-Golegã e de lesa-Ribatejo não referir a Feira Nacional do Cavalo, que todos os anos se realiza na Golegã por alturas do São Martinho. Esta feira, que, mais do que uma simples feira, é uma autêntica festa do cavalo, é um acontecimento que não se deve perder. O cavalo é um dos mais bonitos, elegantes e nobres animais que existem e à Golegã são levados os mais belos exemplares. Mesmo alguém como eu, que vive num apartamento na cidade e, portanto, não tem condições para levar um cavalo para casa, ficará certamente encantado com tanto garbo e tanta beleza, que na Golegã se exibem.

Em termos de património edificado, tem a Golegã, nomeadamente, a Casa-Estúdio Carlos Relvas, a Quinta da Cardiga (a poucos quilómetros da vila, já perto do Entroncamento) e, sobretudo, a mais bela igreja rural em estilo manuelino que em Portugal existe: a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a igreja matriz da vila.


Arco triunfal e capela-mor da Igreja da Golegã (Foto: Luís Paiva Boléo)

A igreja matriz da Golegã, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, é um templo construído no séc. XVI, provavelmente por iniciativa do rei D. Manuel I. Existiu em Almeirim um palácio real, o Paço de Almeirim, onde os reis de Portugal costumavam refugiar-se sempre que em Lisboa ocorria uma epidemia de peste, ou simplemente para se divertirem com caçadas e passeios a cavalo pelas redondezas. Assim, a Golegã foi também frequentada pelos soberanos e D. Manuel I terá sido um deles.

Se alguém achar que há alguma parecença entre a igreja da Golegã e o mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, não se enganou. O autor da igreja matriz da Golegã foi Diogo de Boytac, um arquiteto de origem obscura (provavelmente francesa), que é exatamente o mesmo arquiteto que concebeu e iniciou a construção do mosteiro dos Jerónimos. O extraordinário portal manuelino da igreja da Golegã tem a marca do seu génio. Quem mais seria capaz de conceber um portal tão harmonioso e tão equilibrado como este? Nada está a mais, ou a menos, ou fora do sítio. É um deslumbramento.


Portal da Igreja Matriz da Golegã (Foto: Waugsberg)

08 setembro 2019

Três Concertos Brandeburgueses de Bach


Concerto Brandeburguês N.º 1 em fá maior, BWV 1046, Concerto Brandeburgês N.º 6 em si maior, BWV 1051, e Concerto Brandeburguês N.º 3 em sol maior, BWV 1048, de Johann Sebastian Bach (1685–1750), pela Orquestra Barroca Casa da Música dirigida por Laurence Cummings

Eu hesitei bastante antes de publicar este vídeo. É um vídeo longo, praticamente com 1 hora de duração, que inclui, não um, não dois, mas três Concertos Brandeburgueses de Bach. É muita música de uma vez só, para um blog generalista (chamemos-lhe assim) como é este. Acabei por decidir publicar o vídeo por várias razões.

Johann Sebastian Bach não foi um compositor qualquer. Pessoalmente, considero-o um dos mais geniais, se não mesmo o mais genial, de todos os autores de música europeia de sempre. Acho, portanto, que é da maior importância dar a ouvir música de Bach a quem visitar o meu modesto blog.

«Mas logo três concertos de uma vez só?», perguntar-me-ão. «Porque não apenas um, ou então só um andamento de um destes concertos?» Eu sou contra a escuta de um único andamento de uma obra que tem mais do que um. Um concerto, uma sonata, uma sinfonia ou o que quer que seja que tenha mais do que um andamento só faz sentido se for ouvido na totalidade. Ouvir um andamento apenas é truncar uma obra de arte. Embora já o tenha feito, evito dar a escutar uma obra truncada neste blog. O "Hino à Alegria", que faz parte do quarto andamento da Nona Sinfonia de Beethoven, por exemplo, é muito bonito e muito popular, mas só faz sentido se ele for o culminar de uma sinfonia inteira e muito longa, que Beethoven escreveu da forma mais penosa possível para um compositor: mergulhado na mais completa surdez. É preciso ouvir toda a Nona Sinfonia, desde o princípio até ao fim, para que se possa sentir a verdadeira alegria vivida por Beethoven, quando conseguiu superar a sorte que o destino que lhe tinha reservado compondo uma sinfonia. É uma alegria sentida por quem vence a própria dor. Portanto, uma obra com vários andamentos deve ser sempre ouvida completa.

«Pronto, está bem, ouça-se então uma obra completa. Mas só uma! Agora três?! Porquê três Concertos Brandeburgueses em vez de um só? Você podia passar o Concerto Brandeburguês n.º 3, por exemplo.» O vídeo que aqui apresento tem três concertos e não um só, porque é uma gravação de um espetáculo dado na Casa da Música, no Porto, em 8 de novembro de 2015, foi transmitido pela RTP e não fui eu quem o publicou no Youtube. Tocou a Orquestra Barroca Casa da Música, que além de ser uma das melhores orquestras do mundo neste género de agrupamento musical, é da Casa da Música e é da cidade do Porto. E ouve-se música de Bach. E é introduzida em português, o que também é importante.

04 setembro 2019

Jessé Manuel


Selfie (Foto: Jessé Manuel)

Jessé Manuel, de seu nome completo Jessé Balança António Manuel, é um fotógrafo angolano nascido em 1988 no Lubango, cidade onde reside. É formado em engenharia civil. Começou a dedicar-se à fotografia em 2012, sendo desde então agraciado com diversos prémios. Tem vindo a partilhar nas redes sociais muitas centenas de fotografias da sua autoria, que mostram muita criatividade e uma grande sensibilidade. Aqui se reproduzem algumas das suas imagens.


Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Porto Amboim, Cuanza Sul, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Bibala, Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Tômbua, Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Cacuso, Malanje, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Malanje, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Lubango, Huíla, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Baía dos Tigres, uma povoação abandonada entre as dunas do deserto e as ondas do mar, Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Calandula, Malanje, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Camacupa, Bié, Angola (Foto: Jessé Manuel)

31 agosto 2019

Augusto Gomes


As Visitas, 1953, óleo sobre platex de Augusto Gomes (1910–1976). Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

Augusto Gomes foi um eminente pintor e escultor português nascido em Matosinhos em 1910. Formou-se na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, da qual veio a ser professor. Embora seja frequentemente chamado escultor, Augusto Gomes dedicou-se a diversos ramos das artes plásticas além da escultura, nomeadamente pintura, cerâmica, gravura, cenografia para o Teatro Experimental do Porto, etc.

Augusto Gomes foi essencialmente um artista plástico neorrealista e deu um particular destaque à dura e difícil vida dos pescadores e das suas famílias, em obras cheias de dramatismo. Faleceu em Matosinhos, onde tinha nascido, em 1976.

29 agosto 2019

Canção tão simples

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

Manuel Alegre


Canção tão simples, por Adriano Correia de Oliveira, sobre um poema de Manuel Alegre musicado por António Portugal

24 agosto 2019

Amazónia em chamas


Discurso do líder indígena brasileiro Ailton Krenak perante o Congresso Nacional em 1988

O índio Ailton Krenak é um dos líderes indígenas mais respeitados do Brasil, apesar de pertencer a um povo com menos de 500 pessoas, que é o povo Krenak, que vive no estado de Minas Gerais. É hábito, entre os indígenas brasileiros, usarem o nome da sua etnia no final do seu próprio nome.

Ailton Krenak ganhou o respeito do Brasil e do mundo graças a uma intervenção sua perante o Congresso em Brasília, quando este discutia a nova Constituição do país em 1988. Nesta intervenção, Ailton Krenak pintou a cara de preto com tinta de jenipapo, que é tradicionalmente usada pelos índios nas suas pinturas corporais, enquanto discursava perante os deputados em defesa da causa dos indígenas do seu país. E venceu.

A tinta obtida a partir dos frutos verdes de jenipapo é tradicionalmente usada em pintura corporal, como o demonstram estas indígenas xinguanas (Foto: Renato Soares)

Ailton Krenak continua a ser uma voz ativa e respeitada aonde quer que vá em qualquer parte do mundo, a par de outros líderes indígenas brasileiros como Raoni Metuktire, do povo Kayapó, Davi Kopenawa, do povo Yanomami, ou Aritana Yawalapiti, do povo Yawalapiti. Há poucas semanas, Ailton Krenak esteve em Lisboa.

As palavras de Ailton Krenak perante a Assembleia Constituinte de 1988 conservam toda a sua atualidade, nesta hora trágica para a Amazónia, que arde por causa de um fogo posto por mãos criminosas. Os melhores defensores da floresta são aqueles que na floresta vivem há milhares de anos e que desde há milhares de anos têm sabido usá-la sem a destruir: os povos originários do Brasil.


Os melhores defensores da Amazónia são os seus habitantes originários (Foto de autor desconhecido)

Que os incêndios da Amazónia são de origem criminosa, não há qualquer sombra de dúvida. Nenhuma floresta tropical húmida se incendeia, esteja ela na Amazónia, em África, no Bornéu ou na Nova Guiné. A floresta tropical húmida é um tipo de floresta que tem demasiada água para que possa arder. A savana arde, o cerrado arde, a floresta tropical seca arde, a floresta das regiões temperadas arde, até a floresta do Ártico arde, mas a floresta tropical húmida não. Eu próprio testemunhei por diversas vezes este facto em África: o fogo, quando chega à orla de uma floresta tropical húmida, não se propaga mais e apaga-se espontaneamente; limita-se a chamuscar as folhas das plantas mais periféricas da floresta. Então, porque é que a floresta amazónica está a arder?


A floresta amazónica não arde espontaneamente (Foto de autor desconhecido)

Para que uma floresta tropical húmida possa arder, é preciso secá-la primeiro, e para que isso se possa fazer, começa-se por desmatá-la, cortando a vegetação que se encontra próxima do solo e deixando somente de pé as árvores de grande porte. É junto ao solo que tende a concentrar-se a humidade da floresta, por ação da gravidade. Cortam-se, portanto, as ervas, os arbustos, as lianas (chamadas cipós no Brasil), as plantas parasitas de diversas espécies, enfim, corta-se tudo o que se puder cortar, com a ajuda de poderosas máquinas. Só ficam de pé, como disse, as árvores de grande porte, enquanto o resto da vegetação morre e seca. A humidade da antiga floresta evapora-se e possibilita a ação do fogo, que só então consegue progredir e consumir o que foi em tempos uma sumptuosa catedral vegetal. A antiga vegetação fica reduzida a cinzas e carvão, abrindo caminho às máquinas que vão finalmente cortar as árvores maiores que, mesmo que tivessem sido queimadas no todo ou em parte, permanecem de pé. Cortadas estas, fica consumada a destruição da floresta.


Quantos tucanos morreram e vão continuar a morrer nos incêndios da Amazónia? (Foto de autor desconhecido)

O apocalipse que está a acontecer na Amazónia neste momento não é, de maneira nenhuma, espontâneo nem fruto do acaso. Foi premeditado. Foi preparado ao longo de meses e meses, primeiro através de um desmatamento feito a uma escala nunca até agora atingida em toda a história da humanidade, até que se esperou pela chegada da estação seca para que o fogo pudesse entrar em ação e consumar a destruição que já tinha sido iniciada. Foi tudo combinado e criminosamente preparado, a um ponto tal que nas redes sociais se anunciou a marcação do dia em que a Amazónia iria arder: o "Dia do Fogo". Foi assim mesmo que este dia foi chamado. Com a chegada do dia marcado, milhares e milhares de incêndios se acenderam simultaneamente ao longo de toda a Amazónia brasileira, num fogaréu tal que o fumo chegou a tapar o sol em São Paulo! E a Amazónia continua a arder no exato momento em que escrevo estas linhas, não só no Brasil, onde tudo começou, mas também no Equador, na Colômbia, no Peru, na Bolívia, etc. E não, não é só a floresta tropical húmida desbastada que arde, mas também e sobretudo o cerrado e outros tipos de vegetação que lhe são contíguos e a prolongam. E isto assusta ainda mais.


(Foto: Barbara Brändli)

19 agosto 2019

Sou negra mas formosa


Nigra sum sed formosa, de Andreas de Silva, pelo agrupamento vocal australiano The Song Company, dirigido por Roland Peelman. As palavras iniciais deste cântico (Nigra sum sed formosa) são bíblicas e constam do capítulo 1, versículo 4, do Cântico dos Cânticos, do rei Salomão, um dos livros do Velho Testamento

Quase nada se sabe sobre um compositor renascentista conhecido pelo nome de Andreas de Silva. Seria português, caso em que se chamaria André da Silva? Seria espanhol, caso em que se chamaria Andrés de Silva ou Andrés da Silva (se fosse galego)? Seria italiano, caso em que se chamaria Andrea de Silva? Seria de outra nacionalidade? Não se sabe. O que se sabe é que ele esteve ativo como compositor entre 1510 e 1530, tendo trabalhado nas cortes do papa Leão X (João de Lourenço de Medici) e do primeiro duque de Mântua (Frederico II Gonzaga).

17 agosto 2019

Dá-me o meu meio-tostão


Meio-tostão do reinado de D. Luís (Foto: Miguel Costa)


Um compadre perseguia outro por uma dívida; todas as vezes que lhe passava pela porta dizia:

— Dá-me o meu meio-tostão.

O devedor, vexado, disse para a mulher que se ia fingir morto, e que ela o carpisse muito, para ver se quando o compadre passasse lhe perdoava pela sua alma o meio-tostão. Assim fez; a mulher pranteou e depenou-se, mas o compadre veio ao acompanhamento do enterro, e quando o corpo se depositou na igreja deixou-se ficar escondido debaixo da essa. De noite os ladrões entraram na igreja, e como viram a luz das tochas alumiando o morto, entenderam que ali era lugar seguro para repartirem o dinheiro e fazerem os quinhões do que tinham roubado. Quando estavam nisto, desavieram-se, porque todos queriam umas certas joias que o capitão dos ladrões reservava para si. Faziam muita bulha, mas o que se fingia morto na essa, e o compadre que estava escondido, passaram sustos medonhos e não se mexiam. Por fim disse o capitão dos ladrões:

— Eu cá não faço questão deste quinhão; mas quem o quiser há de ir espetar esta faca no morto que está ali naquela essa.

Dizia um: «Vou eu»! Outro também queria ir; mas o que se fingia defunto, sem saber como se havia de ver livre da situação desesperada, senta-se no caixão, e diz e com terror:

Acudam-me aqui os defuntos
E venham já todos juntos.

Os ladrões fugiram todos espavoridos e deixaram o dinheiro ao pé da essa; o compadre que se fingia morto desceu para baixo, e começou a ajuntar o dinheiro espalhado pelo chão. Quando estava nisto sai-lhe debaixo da essa o credor, que nem à borda da cova o largava, e começa a repetir-lhe sem parar:

— Dá-me o meu meio-tostão! Dá-me o meu meio-tostão.

E não se tirava disto. Os ladrões por fim envergonharam-se da sua covardia, e mandaram um mais valente à igreja ver o que por lá havia, e se podiam ir buscar o seu dinheiro. O ladrão veio sorrateiro, escondeu-se detrás de uma porta a escutar, e ouvia só:

— Dá-me o meu meio-tostão!

Desatou a fugir, e foi dizer aos companheiros:

— Está tudo perdido; andam lá tantos defuntos, que não cabe meio-tostão a cada um. Os ladrões conformaram-se com esta desgraça, e o compadre assim é que pagou a sua dívida e ficou rico.


Conto popular recolhido no Porto.

Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

15 agosto 2019

Artur Loureiro


Campina Romana, 1879, óleo sobre tela de Artur Loureiro (1853–1932), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Artur Loureiro foi um pintor português nascido no Porto em 1853. Depois de frequentar a Academia Portuense de Belas Artes, Artur Loureiro viveu em Roma, entre 1875 e 1879, e em Paris, entre 1879 e 1884. Em 1884 emigrou para Melbourne, na Austrália, onde obteve reconhecimento internacional. No início do séc. XX regressou ao Porto, onde montou um atelier-escola numa ala do então existente Palácio de Cristal. Morreu em Terras de Bouro, para onde se tinha dirigido com o objetivo de pintar, em 7 de julho de 1932. A sua obra, de pendor naturalista e em que sobressaem a paisagem, o retrato e a representação animalista, está espalhada por diversos museus e instituições de Portugal e do estrangeiro.


Autorretrato, 1925, óleo sobre madeira de Artur Loureiro (1853–1932), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

10 agosto 2019

O Paço de Giela


O Paço de Giela, Giela, Arcos de Valdevez (Foto: Câmara Municipal de Arcos de Valdevez)

O Paço de Giela é uma antiga residência senhorial existente em Giela, no concelho de Arcos de Valdevez. Na sua origem esteve um castelo anterior ao séc. XI, ao qual se foram acrescentando outros elementos arquitetónicos ao longo dos tempos, nomeadamente a torre atualmente existente, que data do séc. XIV, e o paço propriamente dito, cujas janelas manuelinas, abertas na muralha do antigo castelo, indicam ter sido edificado no séc. XVI.

O Paço de Giela esteve completamente abandonado e em ruínas durante muitos anos, apesar de ter sido classificado como monumento nacional em 1910. Eu mesmo ainda o vi cheio de silvas e de lixo, o que contrastava de forma chocante com a linda e suavíssima paisagem envolvente. Foi adquirido em 1999 pelo município local, que o recuperou e dele fez um polo de atração, incluindo um centro interpretativo sobre a história do concelho, nomeadamente o Torneio de Valdevez, que foi da maior importância para a independência de Portugal. Frequentemente, também se realizam diversos eventos de índole cultural no Paço de Giela.


Janela manuelina no Paço de Giela, Giela, Arcos de Valdevez (Foto: Mário Rolo)

03 agosto 2019

Zeca Afonso, intemporal


Os Eunucos (no Reina da Etiópia), por José Afonso

01 agosto 2019

Fados humorísticos (e também ié-ié)


O Parentesco, por Neca Rafael

Fingi que Morri, por Neca Rafael

Chunga Chunga, por Hermínia Silva

Orquestra Barulheira, por Neca Rafael

Ó Tempo, Faz Marcha-Atrás, por Adelina Silva e Neca Rafael

28 julho 2019

Poema de Alcabideche

Ó tu que habitas Alcabideche! Oxalá nunca te faltem
cereais para semear, nem cebolas, nem abóboras!
Se és homem decidido precisas de um moinho
que trabalhe com as nuvens sem dependeres de regatos.
Quando o ano é bom, a terra de Alcabideche
não vai além de vinte cargas de cereais.
Se rende mais, então sucedem-se
ininterruptamente e em grupos compactos,
os javalis dos descampados.
Alcabideche pouco tem do que é bom e útil,
como eu próprio, quase surdo, como sabes.
Eis-me em Alcabideche colhendo silvas com uma podoa ágil
[e cortante.
Se te disserem: “gostas deste trabalho?” responde: “sim”.
O amor da liberdade é o timbre de um carácter nobre.
Tão bem me governaram o amor e os benefícios de Abu
[Bacre Almodafar
que parti para um campo primaveril.

Ibn Muqana, de seu nome completo Abu Zayd'Abd ar-Rahmān ibn Muqana, poeta árabe da segunda metade do séc. XI, nascido e falecido em Alcabideche, entre Cascais e Sintra. Traduzido do árabe por Adalberto Alves, in Portugal na Espanha Árabe, de António Borges Coelho, Editorial Caminho, Lisboa

Moinho de vento em Alcabideche, Cascais. Ao fundo, a serra de Sintra (Foto de autor desconhecido)

24 julho 2019

Insensatez

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porquê você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado

Vinicius de Moraes (1913–1980)


Insensatez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, por João Gilberto

19 julho 2019

Há 90 anos no Japão


Cenas do quotidiano e outras, filmadas com som em 1929 na cidade de Quioto, Japão

11 julho 2019

Mordillo (1932-2019)



Faleceu no passado dia 29 de junho, com 86 anos de idade, o desenhador argentino Guillermo Mordillo, autor de um notável conjunto de desenhos que têm feito as delícias de sucessivas gerações. Praticando um humor puramente visual, cheio de cor e de nonsense, Mordillo teve como temas principais, nos seus desenhos e nos seus filmes, os animais (sobretudo girafas e elefantes), os desportos (com destaque para o futebol e o golfe), o amor e outros aspetos da vida em sociedade, que ele caricaturou de modo insuperável. Estão publicados diversos livros seus em Portugal, sob a chancela da editora Booktree, os quais podem ser adquiridos nas livrarias ou através da internet. Mordillo já não faz parte deste mundo, mas continua a fazer-nos rir de nós próprios. Deixou uma grande saudade.




08 julho 2019

Um homem conhecido


Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça, por João Gilberto (1931–2019)

Assim que eu soube do falecimento de João Gilberto, apressei-me a fazer um post em sua homenagem. Antes que eu tivesse podido publicar o post, fui interrompido, não importa saber por quem. Assim que regressei, a fim de concluir a tarefa que tinha ficado em suspenso, verifiquei que muitas outras pessoas já tinham manifestado o seu pesar e admiração por João Gilberto, na "blogosfera" e nas redes sociais. Suspendi a minha publicação, porque ela viria a ser unicamente mais uma homenagem, a juntar a muitas e muitas outras que já havia, e não trazia nada de novo.

Há pouco, soube que um energúmeno que dá mais valor às armas, que são instrumentos de morte, do que à cultura, que é fonte de vida, disse que João Gilberto tinha sido apenas «um homem conhecido». Agora, sim, tenho razão para manifestar a minha homenagem a João Gilberto. Todas as que se puderem fazer não serão de mais. Na verdade, João Gilberto subiu ao Olimpo, a morada dos deuses como ele, enquanto Jair Bolsonaro tem um lugar reservado no caixote do lixo da história.

04 julho 2019

A Paz

Um capacete de guerra tem um ar carrancudo.
Muito mais bela é uma flor.
Uma flor tem tudo
para falar de paz e de amor.

Mas se virarmos o capacete de guerra
ele será um vaso, e é bem capaz
de ter uma flor num pouco de terra
e falar de amor e de paz.

A paz é uma pomba que voa.
É um casal de namorados.
São os pardais de Lisboa
que fazem ninho nos telhados.

E é o riacho de mansinho
que saltita nas pedras morenas
e toda calma do caminho
com árvores altas e serenas.

A paz é o livro que ensina.
É uma vela em alto mar
e é o cabelo da menina
que o vento conseguiu soltar.

E é o trabalho, o pão, a mesa,
a seara de trigo ou de milho,
e perto da lâmpada acesa
a mãe que embala seu filho.

A paz é quando um canhão
muito feio e de poucas falas,
sente bater um coração
e dispara cravos, em vez de balas.

E é o abraço que dás
no dia em que tu partires,
e as gotas de chuva da paz
no balanço do arco-íris.

A paz é a família inteira
na alegria do lar,
bem juntinho à lareira
quando o inverno chegar.

A paz é a onda redonda
que da praia tem saudades
e muito mais do que a onda
a paz é a vida sem grades.

A paz são aquelas abelhas
que nos dão favos de mel
e todas as papoulas vermelhas
que eu desenho no papel.

Ventoinha, ventarola,
Moinho que faz farinha,
Meninos que vão à escola,
A paz é tua e é minha.

É luar de lua cheia
tocando as casas e a rua,
são conchas, búzios na areia,
a paz é minha e é tua.

É o povo todo unido,
no mundo, de norte a sul,
e é um balão colorido
subindo no céu azul.

A paz é o oposto da guerra,
é o sol, são as madrugadas,
e todas as crianças da terra
de mãos dadas, de mãos dadas,
de mãos dadas.

Sidónio Muralha (1920–1982)


(Imagem de autor desconhecido)

02 julho 2019

Acalanto para Implumes


Acalanto para Implumes, do compositor português Álvaro Salazar, por um agrupamento musical não identificado

Hoje vou correr o risco de publicar um post impopular. Trata-se de uma peça de música contemporânea, ou de vanguarda, ou experimental, ou como lhe quiserem chamar, escrita por um dos mais notáveis compositores portugueses dos sécs. XX e XXI, Álvaro Salazar.

Eu tenho uma enorme dificuldade em falar sobre a música que ao longo do séc. XX se fez. No séc. XX, tomaram-se múltiplos caminhos musicais diferentes, como o neorromantismo, o dodecafonismo, a música eletroacústica, as experiências radicais de John Cage, a música tipo "noise", o minimalismo e muitos outros, não necessariamente por esta ordem. Algumas obras seguiram regras rigorosamente matemáticas. Outras romperam com todas as regras e tornaram-se completamente aleatórias. Outras mais procuraram imitar os sons do mundo real. Outras ainda procuraram seguir regras criadas ad hoc pelos seus autores. E por aí adiante, num universo sonoro caótico, que foi o que caracterizou musicalmente o séc. XX e continua a caracterizar o séc. XXI. Seguiram-se tantos caminhos, fizeram-se tantas experiências...

No entanto, ao público em geral quase tudo isto parece igual, uma cacofonia sem pés nem cabeça, simples barulho que não lhe diz nada e que recusa. Quem beneficiou com este caos musical foi a chamada música popular, qualquer que ela seja: tango, rock, pop, pimba, hip-hop ou o que se quiser. O público rejeita liminarmente a música contemporânea e agarra-se a uma música que lhe fale ao coração e não apenas ao cérebro, que tenha pelo menos uma linha melódica ou um ritmo, por exemplo; enfim, que tenha um padrão que as pessoas possam identificar e em que se reconheçam. A música contemporânea, essa, tornou-se extremamente elitista, que só é ouvida por um número ínfimo de pessoas, por mais genial que ela seja, e às vezes é mesmo.

Álvaro Salazar é um compositor nosso contemporâneo, nascido no Porto em 1938, que se dedica a escrever música de vanguarda, ou assim entendida como tal. É um dos maiores autores portugueses do género, a par de Jorge Peixinho, Emanuel Nunes, Cândido Lima e outros. Para ajudar (ou não) a compreender a peça que aqui proponho ouvir, permito-me reproduzir algumas afirmações suas, que se encontram na página que lhe é dedicada no portal do Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa. Passo a transcrever palavras de Álvaro Salazar:
«...desde sempre considerei a música, para além de uma via profissional, uma forma de estar no mundo e de tentar compreendê-lo. A música não é um mero tricot mental, uma actividade desligada do todo onde arte, ciência, história, filosofia e política dialogam, interagem e se completam.»

30 junho 2019

Das crianças ikpeng para o mundo



Marangmotxingmo Mïran (Das Crianças Ikpeng para o Mundo), vídeo de Kumaré Txicão, Karané Txicão, Natuyu Txicão e Mari Corrêa, em que quatro crianças do povo indígena brasileiro ikpeng, do Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso, apresentam a sua aldeia, as suas famílias, as suas brincadeiras e os seus brinquedos

O povo indígena brasileiro ikpeng é um povo de tradições guerreiras de menos de 500 pessoas, que vive no Parque Indígena do Xingu, MT, Brasil. Estes índios tiveram o seu primeiro contacto com brancos em 1964, através dos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas, e quase desapareceram de seguida, vitimados por doenças para as quais não tinham defesas naturais. Presentemente, os ikpeng convivem pacificamente com os outros povos do Xingu e cooperam com eles. Algumas pessoas deste povo têm páginas pessoais em redes sociais (dois exemplos, entre vários: Oreme Marlus Ikpeng e Korotowi Taffarel) e este povo, no seu conjunto, possui ele mesmo um portal na internet, que convido a visitar: http://www.ikpeng.org/index.php.