06 novembro 2019

A Menina do Mar


A Menina do Mar, conto de Sophia de Mello Breyner Andresen, narrado por Eunice Muñoz e com a participação dos atores Francisca Maria, António David e Luís Horta. Música de Fernando Lopes-Graça. Direção de Artur Ramos

05 novembro 2019

A Carruagem


Tema musical de Anne Victorino d'Almeida, para o filme de curta-metragem A Carruagem, de Anne Victorino d'Almeida e João Vasco, por um agrupamento musical constituído por Jordi Rodriguez (violino), Pedro Lopes (violino), Pedro Meireles (violeta), Daniela de Brito (violoncelo), Paulo Jorge Ferreira (acordeão) e Alexandra Simpson (piano), sob a direção de Pedro Neves

31 outubro 2019

The Feynman Lectures on Physics



O norte-americano Richard Feynman (1918–1988) foi um dos físicos mais influentes do século XX, não só por causa das importantes descobertas que fez, uma das quais (a Eletrodinâmica Quântica) lhe valeu o Prémio Nobel, mas também pela sua capacidade de comunicar e de ensinar. Foi um professor nato, além de ter sido um investigador genial. Muitas das descobertas da Física que estão na origem dos avanços mais recentes da Ciência e da Técnica têm a sua marca. Ainda há poucos dias, a Google anunciou uma proeza extraordinária que nos pode conduzir à realização prática da computação quântica. Pois a computação quântica tem a marca de Feynman. A ressonância magnética nuclear também tem a marca de Feynman. A nanotecnologia também tem a marca de Feynman. A supercondutividade também tem a marca de Feynman. Muitas coisas mais têm a marca de Feynman.

The Feynman Lectures on Physics é uma das bíblias da Física. É a mais lida e a mais consultada de todas as obras sobre Física que se publicaram até hoje. Para dizer a verdade, aliás, esta obra não foi escrita por Feynman, mas sim por Robert B. Leighton e Matthew Sands.

Tendo-se verificado que as aulas de Física dadas no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), onde ele trabalhava, eram consideradas aborrecidas e desanimadoras, foi cometida a Feynman a tarefa de lecionar um curso básico de Física que fosse estimulante para os alunos dos primeiros anos. Este curso decorreu entre 1961 e 1963 e não foi tão básico assim. Foi antes um curso geral de Física, que abordou os mais diversos campos desta ciência com uma certa profundidade, mas as qualidades didáticas de Richard Feynman fizeram-no dar-lhe uma forma nova e refrescante. Até outros professores do Caltech frequentaram as aulas do seu colega Feynman.

O Caltech gravou em áudio as aulas do curso deste seu notável professor, assim como fez fotografias às fórmulas e aos gráficos que ele foi escrevendo no quadro. Foi a compilação do material assim gravado e fotografado que deu origem à célebre obra The Feynman Lectures on Physics. Como nem todas as aulas tinham sido compiladas na primeira edição da obra, outros capítulos foram sendo acrescentados em edições posteriores, até que no ano 2005 deu-se por concluída toda a compilação com a publicação da chamada Edição Definitiva.

Em 2013, toda a obra The Feynman Lectures on Physics foi colocada gratuitamente na Web (em inglês) e pode ser lida e consultada online por qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Agora que as aulas começaram há poucas semanas, é a altura de chamarmos a atenção para este notável trabalho, não só aos estudantes de Física e de Engenharia, mas também a toda e qualquer pessoa que queira aprender Física ou refrescar a memória do que aprendeu e entretanto esqueceu. O curso não é elementar, como já disse, mas mesmo assim é bastante acessível, como se poderá verificar. The Feynman Lectures on Physics está disponível no seguinte site:

http://www.feynmanlectures.caltech.edu/.


24 outubro 2019

Gina

Agora, a minha paixão
São duas mãos pequeninas
Que cabem na minha mão!

Mimosas como boninas,
De pequeninas que são,
Travêssas, leves, franzinas,
Põem tudo em confusão…

Têem fúrias repentinas
E afagam com devoção…
Mãos de carícias divinas!
Enchem-me a casa de ruínas
E cabem na minha mão…

João Saraiva (1866–1948)


(Foto de autor desconhecido)

17 outubro 2019

Música com milhares de anos


Hino a Nikkal (deusa semita dos pomares), do ano 1400 A.C., aproximadamente. Este hino é considerado a mais antiga peça musical completa do mundo. Faz parte de um conjunto de placas de argila com escrita cuneiforme descobertas nas ruínas da antiga cidade de Ugarit, na costa da atual Síria. A interpretação é de Michael Levy, em cítara


Epitáfio de Seikilos ou Sícilo, datado de entre 200 A.C. e 100 D.C. Esta pequena canção em grego antigo, de homenagem a uma mulher morta, foi encontrada numa lápide junto a um túmulo próximo de Éfeso, na atual Turquia. A sua letra, traduzida para português, é a seguinte: Enquanto viveres, brilha. / De todo não te aflijas, / Pois curta é a vida / E o tempo cobra seu tributo. Interpretação de Gregorio Paniagua em cítara

10 outubro 2019

O poeta asseteado por amor

Oh Céus! Que sinto na alma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver, de veia em veia,
Me gasta a vida, me desfaz o alento!

Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: — «A que se expõe quem não receia
Contemplar Urselina um só momento!

«Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e co'um tiro
Puni tua sacrílega loucura.

«De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.»

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765–1805)



(Foto: Howard Schatz)

04 outubro 2019

Calou-se a voz extraordinária de Jessye Norman


Amazing Grace, pela cantora dramática norte-americana Jessye Norman (1945–2019), falecida há poucos dias

30 setembro 2019

O soldado morto

Os infinitos céus fitam seu rosto
absoluto e cego
E a brisa agora beija a sua boca
Que nunca mais há de beijar ninguém.

Tem as duas mãos côncavas ainda
De possessão de impulso de promessa.
Dos seus ombros desprende-se uma espera
Que dividida na tarde se dispersa.

E a luz, as horas, as colinas
São como pranto, em volta do seu rosto
Porque ele foi jogado e foi perdido
E no céu passam aves repentinas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004)



Pai de um militar português morto na Guerra Colonial e condecorado a título póstumo (Foto de autor desconhecido)

26 setembro 2019

A Companhia de Dança Contemporânea de Angola vem à Holanda e a Portugal


(Fotos de Rui Tavares)

Rigor, exigência, profissionalismo, contemporaneidade, africanidade. Estas são algumas das palavras que podem caracterizar a Companhia de Dança Contemporânea de Angola, uma companhia de bailado contemporâneo que Ana Clara Guerra Marques fundou e de que é diretora artística e coreógrafa. Com a fundadora, estão na CDC Angola Nuno Guimarães, Rui Tavares, Jorge António e um corpo de baile da mais alta qualidade e cujos elementos se vão sucedendo e rendendo ao longo do tempo.

No próximo mês de outubro de 2019, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola realiza uma digressão pela Europa, mais concretamente pela Holanda (Amesterdão) e Portugal (Almada, Faro, Montemor-o-Novo, Vila Nova de Gaia, Ponte de Lima e Coimbra). Em todas estas localidades será exibida a peça O Monstro Está em Cena, com exceção de Vila Nova de Gaia, onde a peça a apresentar se chama Mysterium Coniunctionis.

Há poucos anos, tive a grata oportunidade de assistir a um espetáculo desta companhia no Teatro Nacional de S. João, no Porto, chamado Paisagens Propícias, e fiquei fascinado com o que vi e ouvi. Troquei pessoalmente algumas impressões com a diretora artística e fiquei muito bem impressionado. Aliás, já a "conhecia" da Internet, através de um blog que ela manteve durante alguns anos, mas que já não publica mais. Enquanto eu trocava impressões com Ana Clara Guerra Marques, verifiquei que alguns antigos bailarinos da companhia, que entretanto tinham seguido outros rumos em palcos europeus, vieram propositadamente de Barcelona ao Porto para poderem estar uns momentos com ela.

Aqui fica, pois, a minha recomendação: assistir, se possível, a um espetáculo da CDC Angola nesta sua próxima digressão. Estou convencido de que ninguém se vai arrepender.








20 setembro 2019

Hino do Minho ou Hino da Maria da Fonte


Hino do Minho ou Hino da Maria da Fonte, por Vitorino, com música de Angelo Frondoni e letra de origem popular

O Hino do Minho, mais conhecido como Hino da Maria da Fonte, é o segundo hino mais importante de Portugal, logo a seguir ao Hino Nacional. É tocado em cerimónias oficiais, encontrando-se a sua execução regulamentada pelo Decreto-Lei N.º 331/80, de 28 de agosto. Segundo este diploma, o Hino da Maria da Fonte deve ser tocado por uma banda de música ou um terno de corneteiros (clarins), quando uma guarda de honra prestar continência a pé firme às seguintes personalidades: Presidente da Assembleia da República, Primeiro-ministro, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Presidente do Supremo Tribunal Militar, Vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas e Chefes dos Estados-Maiores da Armada, do Exército e da Força Aérea, Ministros e Secretários e Subsecretários de Estado. Só durante uma continência a pé firme prestada ao Presidente da República e aos chefes de estado estrangeiros em visita oficial, é que o Hino Nacional deve ser tocado.

A música do Hino do Minho, ou da Maria da Fonte, é da autoria de Angelo Frondoni (1812–1891), um músico italiano que se radicou em Portugal e faleceu em Lisboa. A letra original do hino é de Paulo Midosi Júnior (1821–1888), que por acaso também era de ascendência italiana e que escreveu vários libretos para operetas compostas por Angelo Frondoni. Além da letra original, muitas outras letras se adaptaram à mesma música, umas anónimas e outras não, em função da evolução dos acontecimentos políticos que foram ocorrendo durante o turbulento século XIX português.

Passo a transcrever um trecho do Volume II do Cancioneiro de Musicas Populares contendo Letra e Musica de Canções, serenatas, chulas, danças, descantes, cantigas dos campos e das ruas, fados, romances, hymnos nacionaes, cantos patrioticos, canticos religiosos de origem popular, canticos liturgicos popularisados, canções politicas, cantilenas, cantos maritimos, etc. e cançonetas estrangeiras vulgarisadas em Portugal, por Cesar das Neves e Gualdino de Campos, publicado em 1895 no Porto.

HYMNO DO MINHO
Baqueou a tyrannia,
Nobre povo, és vencedor.
Generoso, ousado e livre,
Dêmos gloria ao teu valor.
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante! Não temer!
   Pela Santa liberdade
   Triumphar ou perecer!

Algemada era a nação,
Mas é livre ainda uma vez;
Ora, e sempre, é caro á Patria
O heroismo portuguez.
   Eia, ávante, etc.

Lá raiou a liberdade,
Que a nação ha de additar!
Gloria ao Minho, que primeiro
O seu grito fez soar.
   Eia, ávante, etc.

Segue, oh povo, o bello exemplo
De tamanha heroicidade,
Nunca mais deixes tyrannos
Ameaçar a liberdade.
   Eia, ávante, etc.

Fugi, despotas, fugi,
Vós, algozes da nação!
Livre, a Patria vos repulsa!
Terminou a escravidão.
   Eia. ávante, etc.
(...)

Este hymno foi muito cantado no theatro de S. João, onde, n'aquella epocha, estava em scena um aproposito da revolução do Minho, em que o personagem principal se chamava Maria da Fonte. Foi do theatro que sahiram muitas das estrophes que se cantavam pela rua, e que eram da lavra do actor Abel, e talvez a denominação que deram ao movimento revolucionario da Junta do Porto.

Eis as cantigas das ruas:
Viva a Maria da Fonte,
Com as pistolas na mão,
Para matar os Cabraes,
Que são falsos á nação.
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante, e não temer,
   Pela Patria e liberdade
   Triumphar até morrer!

Viva a Maria da Fonte,
A cavallo, sem cahir,
Com as pistolas á cinta,
A tocar a reunir.
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante, sem temer,
   Pela Patria e liberdade
   Batalhar até morrer.
As duas quadras seguintes attribuem-se ao partido miguelista, representado então na guerrilha do padre Casimiro:
Temos um rei estrangeiro,
Estrangeirada facção,
A rainha estrangeirada,
Só portugueza a nação!
   Leva ávante, portuguezes,
   Leva ávante d'uma vez,
   Nós não queremos que governe
   Senão um rei portuguez!

[A "rainha estrangeirada" acima referida é D. Maria II, que foi casada com um alemão, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha. O próprio coração de D. Maria II encontra-se na Alemanha, conservado em formol num vaso de cristal, na cripta da igreja de S. Miguel no centro histórico de Munique, que é o panteão da casa real da Baviera.]

A lettra que se segue é coimbrã; n'ella transparece o vigor e o enthusiasmo do nobre patriotismo da mocidade academica d'aquella epocha:
Cáia um throno, cáia um rei,
Onde impéra a tyrannia,
Mas d'um povo a liberdade
Não se perca nem um dia!
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante, e não temer,
   Pela Patria e liberdade
   Triumphar até morrer.
Tendo entrado no Porto o general Povoas, organisou-se no dia 22 de fevereiro de 1847 um espectaculo de gala no theatro de S. João, em que se cantou o hymno com a seguinte lettra:
Fulgiu hontem sobre o Porto
Um meteóro de gloria:
Chegou Povoas, e com elle
Chegou o deus da victoria.
   Armas! ferro! guerra! guerra!
   Tremulem nossos pendões.
   Contra a vil horda de escravos
   Marchae, livres, batalhões.

Atravez d'eternos gêlos
Passou com sabia ousadia 1.
Deus proteje o nobre arrojo
Contra a feroz tyrannia.
   Armas! ferro!, etc.

Uma côrte corrompida
Fascina o sceptro real;
Escravisar em vão querendo
Este nosso Portugal.
   Armas! ferro!, etc.

Opprimir tentam o povo
Com perversa atrocidade?
Querem sangue? haja sangue!
Regue sangue a liberdade.
   Armas! ferro!, etc.

Povoas, Antas, Guedes, Cesar,
Almargem, Sá da Bandeira,
Vão cingir d'immortaes louros
A mocidade guerreira.
   Armas! ferro!, etc.

Ora sus! ergue-te oh povo,
Qual gigante ingente e forte,
Eis o teu grito de guerra:
Ou liberdade ou a morte.
   Armas! ferro!, etc.
1 Povoas tinha sido cercado na serra da Estrella pelos generaes Solla e Lapa; mas de noite escapou-se com os seus por um atalho, ficando logrados os sitiantes. Povoas era miguelista, mas prestou serviço á Patuleia.

D'entre os numerosos versos que o povo applicava ao hymno do Minho, durante a revolução da Patuleia, recordamos os seguintes, por terem directa ou figuradamente descripto os factos que se iam succedendo:
O Saldanha já mandou,
Suas tropas retirar,
Porque tem medo da fome
E a palha está-se a acabar 2.

Já lá vae para Hespanha,
A divisão do Casal 3;
Deus a leve em boa hora,
Que não volte a Portugal.

A rainha não podendo
Vencer os nossos guerreiros,
Foi pedir, oh que vergonha!
Protecção aos estrangeiros 4.
2 O general Saldanha era cabralista; porém depois foi elle que derrubou aquelle governo.

3 General que em dezembro de 1847 atacou o Porto e em seguida retirou-se para Hespanha.

4 Allude á intervenção hespanhola e ingleza.

Deu origem a muitos versos populares a revolução do Minho, cuja lenda é a seguinte:

Os excessivos tributos com que o governo do marquez de Thomar, Antonio Bernardo da Costa Cabral, havia sobrecarregado o povo, traziam este excitado a ponto de que o menor pretexto, serviria a uma explosão hostil. Foi o caso, que, tendo ordenado o governo não fazerem mais exhumações dentro dos templos, como era de uso, encontrou esta lei grande opposição, principalmente nas aldeias, onde não havia cemiterios. Succedeu então na Povoa de Lanhoso ter fallecido uma mulher, e o regedor, no cumprimento da lei, não consentiu que se enterrasse na egreja; porém, umas sete mulheres que tinham acompanhado o cadaver, teimaram em fazer alli a exhumação, resultando grande lucta com a auctoridade. Salientou-se d'entre aquellas, uma chamada Maria Angelina, do logar da Fonte, ou natural de Fonte Arcada, que mandou tocar o sino a rebate com todo o vigor. N'um instante, alarmou-se toda a freguezia, e o regedor teve de fugir ás unhas das matronas, que enterraram o cadaver na egreja:
As sete mulheres do Minho,
Mulheres de grande valor,
Armadas de fuso e roca,
Correram o regedor!
Findo o enterro, o povo amotinado percorre as estradas e praças, armado dos instrumentos agricolas, que mais á mão encontrou, clamando pela revogação da lei e dos tributos; a Maria lá marchava na frente, enthusiasmada e enthusiasmando, até que teve de entregar o commando ao celebre padre Casimiro 1, de quem o povo cantou:
Viva o padre Casimiro,
Que é mesmo um anjo do céo:
Pois traz sempre o crucifixo
No forro do seu chapéo.
1 O padre Casimiro José Vieira falleceu, na casa da Alegria, em Felgueiras, a 30 de junho do corrente anno de 1895, com 78 annos de idade, pobre e abandonado. Aos 29 annos tomou parte importante na revolta do Minho, querendo encaminhar a revolução para o seu ideal absolutista. Era muito estimado pelo povo, que o acclamou Defensor das Cinco Chagas, e general commandante das forças populares do Minho e Traz-os-Montes. Em 1847, por diploma de 7 d'abril, foi nomeado pelo logar-tenente de D. Miguel I, n'este reino, (dr. Candido Rodrigues Alves de Figueiredo Lima), Commandante geral de todas as forças populares ao norte do Minho, com honras de brigadeiro.

A Maria tambem teve a sua glorificação:
Essa mulher lá do Minho,
Que da fouce fez espada,
Ha de ter na lusa historia
Uma pagina dourada.
(...)

César das Neves e Gualdino de Campos, Cancioneiro de Musicas Populares, Volume II, Porto, 1895

15 setembro 2019

A igreja matriz da Golegã


Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Golegã, Portugal (Foto: João Correia)

A vila da Golegã, embora pequena, tem muito que ver. Situada em plena planície aluvial do Ribatejo (a chamada lezíria), a Golegã encontra-se rodeada de campos férteis, que se estendem por quilómetros e quilómetros, de um lado e do outro do rio Tejo, para montante e para jusante. Há também nas proximidades da Golegã uma zona alagadiça que tem uma fauna e uma flora muito ricas, que é o Paul do Boquilobo, o qual, aliás, é atravessado pelos comboios da Linha do Norte a uma velocidade tal que os passageiros não veem nada… Junto ao Paul do Boquilobo situa-se Azinhaga, a modesta aldeia de trabalhadores rurais onde nasceu José Saramago, um dos maiores vultos das letras portuguesas.

Seria um pecado de lesa-Golegã e de lesa-Ribatejo não referir a Feira Nacional do Cavalo, que todos os anos se realiza na Golegã por alturas do São Martinho. Esta feira, que, mais do que uma simples feira, é uma autêntica festa do cavalo, é um acontecimento que não se deve perder. O cavalo é um dos mais bonitos, elegantes e nobres animais que existem e à Golegã são levados os mais belos exemplares. Mesmo alguém como eu, que vive num apartamento na cidade e, portanto, não tem condições para levar um cavalo para casa, ficará certamente encantado com tanto garbo e tanta beleza, que na Golegã se exibem.

Em termos de património edificado, tem a Golegã, nomeadamente, a Casa-Estúdio Carlos Relvas, a Quinta da Cardiga (a poucos quilómetros da vila, já perto do Entroncamento) e, sobretudo, a mais bela igreja rural em estilo manuelino que em Portugal existe: a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a igreja matriz da vila.


Arco triunfal e capela-mor da Igreja da Golegã (Foto: Luís Paiva Boléo)

A igreja matriz da Golegã, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, é um templo construído no séc. XVI, provavelmente por iniciativa do rei D. Manuel I. Existiu em Almeirim um palácio real, o Paço de Almeirim, onde os reis de Portugal costumavam refugiar-se sempre que em Lisboa ocorria uma epidemia de peste, ou simplemente para se divertirem com caçadas e passeios a cavalo pelas redondezas. Assim, a Golegã foi também frequentada pelos soberanos e D. Manuel I terá sido um deles.

Se alguém achar que há alguma parecença entre a igreja da Golegã e o mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, não se enganou. O autor da igreja matriz da Golegã foi Diogo de Boytac, um arquiteto de origem obscura (provavelmente francesa), que é exatamente o mesmo arquiteto que concebeu e iniciou a construção do mosteiro dos Jerónimos. O extraordinário portal manuelino da igreja da Golegã tem a marca do seu génio. Quem mais seria capaz de conceber um portal tão harmonioso e tão equilibrado como este? Nada está a mais, ou a menos, ou fora do sítio. É um deslumbramento.


Portal da Igreja Matriz da Golegã (Foto: Waugsberg)

08 setembro 2019

Três Concertos Brandeburgueses de Bach


Concerto Brandeburguês N.º 1 em fá maior, BWV 1046, Concerto Brandeburgês N.º 6 em si maior, BWV 1051, e Concerto Brandeburguês N.º 3 em sol maior, BWV 1048, de Johann Sebastian Bach (1685–1750), pela Orquestra Barroca Casa da Música dirigida por Laurence Cummings

Eu hesitei bastante antes de publicar este vídeo. É um vídeo longo, praticamente com 1 hora de duração, que inclui, não um, não dois, mas três Concertos Brandeburgueses de Bach. É muita música de uma vez só, para um blog generalista (chamemos-lhe assim) como é este. Acabei por decidir publicar o vídeo por várias razões.

Johann Sebastian Bach não foi um compositor qualquer. Pessoalmente, considero-o um dos mais geniais, se não mesmo o mais genial, de todos os autores de música europeia de sempre. Acho, portanto, que é da maior importância dar a ouvir música de Bach a quem visitar o meu modesto blog.

«Mas logo três concertos de uma vez só?», perguntar-me-ão. «Porque não apenas um, ou então só um andamento de um destes concertos?» Eu sou contra a escuta de um único andamento de uma obra que tem mais do que um. Um concerto, uma sonata, uma sinfonia ou o que quer que seja que tenha mais do que um andamento só faz sentido se for ouvido na totalidade. Ouvir um andamento apenas é truncar uma obra de arte. Embora já o tenha feito, evito dar a escutar uma obra truncada neste blog. O "Hino à Alegria", que faz parte do quarto andamento da Nona Sinfonia de Beethoven, por exemplo, é muito bonito e muito popular, mas só faz sentido se ele for o culminar de uma sinfonia inteira e muito longa, que Beethoven escreveu da forma mais penosa possível para um compositor: mergulhado na mais completa surdez. É preciso ouvir toda a Nona Sinfonia, desde o princípio até ao fim, para que se possa sentir a verdadeira alegria vivida por Beethoven, quando conseguiu superar a sorte que o destino que lhe tinha reservado compondo uma sinfonia. É uma alegria sentida por quem vence a própria dor. Portanto, uma obra com vários andamentos deve ser sempre ouvida completa.

«Pronto, está bem, ouça-se então uma obra completa. Mas só uma! Agora três?! Porquê três Concertos Brandeburgueses em vez de um só? Você podia passar o Concerto Brandeburguês n.º 3, por exemplo.» O vídeo que aqui apresento tem três concertos e não um só, porque é uma gravação de um espetáculo dado na Casa da Música, no Porto, em 8 de novembro de 2015, foi transmitido pela RTP e não fui eu quem o publicou no Youtube. Tocou a Orquestra Barroca Casa da Música, que além de ser uma das melhores orquestras do mundo neste género de agrupamento musical, é da Casa da Música e é da cidade do Porto. E ouve-se música de Bach. E é introduzida em português, o que também é importante.

04 setembro 2019

Jessé Manuel


Selfie (Foto: Jessé Manuel)

Jessé Manuel, de seu nome completo Jessé Balança António Manuel, é um fotógrafo angolano nascido em 1988 no Lubango, cidade onde reside. É formado em engenharia civil. Começou a dedicar-se à fotografia em 2012, sendo desde então agraciado com diversos prémios. Tem vindo a partilhar nas redes sociais muitas centenas de fotografias da sua autoria, que mostram muita criatividade e uma grande sensibilidade. Aqui se reproduzem algumas das suas imagens.


Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Porto Amboim, Cuanza Sul, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Bibala, Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Tômbua, Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Cacuso, Malanje, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Malanje, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Lubango, Huíla, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Baía dos Tigres, uma povoação abandonada entre as dunas do deserto e as ondas do mar, Namibe, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Calandula, Malanje, Angola (Foto: Jessé Manuel)


Camacupa, Bié, Angola (Foto: Jessé Manuel)

31 agosto 2019

Augusto Gomes


As Visitas, 1953, óleo sobre platex de Augusto Gomes (1910–1976). Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

Augusto Gomes foi um eminente pintor e escultor português nascido em Matosinhos em 1910. Formou-se na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, da qual veio a ser professor. Embora seja frequentemente chamado escultor, Augusto Gomes dedicou-se a diversos ramos das artes plásticas além da escultura, nomeadamente pintura, cerâmica, gravura, cenografia para o Teatro Experimental do Porto, etc.

Augusto Gomes foi essencialmente um artista plástico neorrealista e deu um particular destaque à dura e difícil vida dos pescadores e das suas famílias, em obras cheias de dramatismo. Faleceu em Matosinhos, onde tinha nascido, em 1976.

29 agosto 2019

Canção tão simples

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

Manuel Alegre


Canção tão simples, por Adriano Correia de Oliveira, sobre um poema de Manuel Alegre musicado por António Portugal

24 agosto 2019

Amazónia em chamas


Discurso do líder indígena brasileiro Ailton Krenak perante o Congresso Nacional em 1988

O índio Ailton Krenak é um dos líderes indígenas mais respeitados do Brasil, apesar de pertencer a um povo com menos de 500 pessoas, que é o povo Krenak, que vive no estado de Minas Gerais. É hábito, entre os indígenas brasileiros, usarem o nome da sua etnia no final do seu próprio nome.

Ailton Krenak ganhou o respeito do Brasil e do mundo graças a uma intervenção sua perante o Congresso em Brasília, quando este discutia a nova Constituição do país em 1988. Nesta intervenção, Ailton Krenak pintou a cara de preto com tinta de jenipapo, que é tradicionalmente usada pelos índios nas suas pinturas corporais, enquanto discursava perante os deputados em defesa da causa dos indígenas do seu país. E venceu.

A tinta obtida a partir dos frutos verdes de jenipapo é tradicionalmente usada em pintura corporal, como o demonstram estas indígenas xinguanas (Foto: Renato Soares)

Ailton Krenak continua a ser uma voz ativa e respeitada aonde quer que vá em qualquer parte do mundo, a par de outros líderes indígenas brasileiros como Raoni Metuktire, do povo Kayapó, Davi Kopenawa, do povo Yanomami, ou Aritana Yawalapiti, do povo Yawalapiti. Há poucas semanas, Ailton Krenak esteve em Lisboa.

As palavras de Ailton Krenak perante a Assembleia Constituinte de 1988 conservam toda a sua atualidade, nesta hora trágica para a Amazónia, que arde por causa de um fogo posto por mãos criminosas. Os melhores defensores da floresta são aqueles que na floresta vivem há milhares de anos e que desde há milhares de anos têm sabido usá-la sem a destruir: os povos originários do Brasil.


Os melhores defensores da Amazónia são os seus habitantes originários (Foto de autor desconhecido)

Que os incêndios da Amazónia são de origem criminosa, não há qualquer sombra de dúvida. Nenhuma floresta tropical húmida se incendeia, esteja ela na Amazónia, em África, no Bornéu ou na Nova Guiné. A floresta tropical húmida é um tipo de floresta que tem demasiada água para que possa arder. A savana arde, o cerrado arde, a floresta tropical seca arde, a floresta das regiões temperadas arde, até a floresta do Ártico arde, mas a floresta tropical húmida não. Eu próprio testemunhei por diversas vezes este facto em África: o fogo, quando chega à orla de uma floresta tropical húmida, não se propaga mais e apaga-se espontaneamente; limita-se a chamuscar as folhas das plantas mais periféricas da floresta. Então, porque é que a floresta amazónica está a arder?


A floresta amazónica não arde espontaneamente (Foto de autor desconhecido)

Para que uma floresta tropical húmida possa arder, é preciso secá-la primeiro, e para que isso se possa fazer, começa-se por desmatá-la, cortando a vegetação que se encontra próxima do solo e deixando somente de pé as árvores de grande porte. É junto ao solo que tende a concentrar-se a humidade da floresta, por ação da gravidade. Cortam-se, portanto, as ervas, os arbustos, as lianas (chamadas cipós no Brasil), as plantas parasitas de diversas espécies, enfim, corta-se tudo o que se puder cortar, com a ajuda de poderosas máquinas. Só ficam de pé, como disse, as árvores de grande porte, enquanto o resto da vegetação morre e seca. A humidade da antiga floresta evapora-se e possibilita a ação do fogo, que só então consegue progredir e consumir o que foi em tempos uma sumptuosa catedral vegetal. A antiga vegetação fica reduzida a cinzas e carvão, abrindo caminho às máquinas que vão finalmente cortar as árvores maiores que, mesmo que tivessem sido queimadas no todo ou em parte, permanecem de pé. Cortadas estas, fica consumada a destruição da floresta.


Quantos tucanos morreram e vão continuar a morrer nos incêndios da Amazónia? (Foto de autor desconhecido)

O apocalipse que está a acontecer na Amazónia neste momento não é, de maneira nenhuma, espontâneo nem fruto do acaso. Foi premeditado. Foi preparado ao longo de meses e meses, primeiro através de um desmatamento feito a uma escala nunca até agora atingida em toda a história da humanidade, até que se esperou pela chegada da estação seca para que o fogo pudesse entrar em ação e consumar a destruição que já tinha sido iniciada. Foi tudo combinado e criminosamente preparado, a um ponto tal que nas redes sociais se anunciou a marcação do dia em que a Amazónia iria arder: o "Dia do Fogo". Foi assim mesmo que este dia foi chamado. Com a chegada do dia marcado, milhares e milhares de incêndios se acenderam simultaneamente ao longo de toda a Amazónia brasileira, num fogaréu tal que o fumo chegou a tapar o sol em São Paulo! E a Amazónia continua a arder no exato momento em que escrevo estas linhas, não só no Brasil, onde tudo começou, mas também no Equador, na Colômbia, no Peru, na Bolívia, etc. E não, não é só a floresta tropical húmida desbastada que arde, mas também e sobretudo o cerrado e outros tipos de vegetação que lhe são contíguos e a prolongam. E isto assusta ainda mais.


(Foto: Barbara Brändli)

19 agosto 2019

Sou negra mas formosa


Nigra sum sed formosa, de Andreas de Silva, pelo agrupamento vocal australiano The Song Company, dirigido por Roland Peelman. As palavras iniciais deste cântico (Nigra sum sed formosa) são bíblicas e constam do capítulo 1, versículo 4, do Cântico dos Cânticos, do rei Salomão, um dos livros do Velho Testamento

Quase nada se sabe sobre um compositor renascentista conhecido pelo nome de Andreas de Silva. Seria português, caso em que se chamaria André da Silva? Seria espanhol, caso em que se chamaria Andrés de Silva ou Andrés da Silva (se fosse galego)? Seria italiano, caso em que se chamaria Andrea de Silva? Seria de outra nacionalidade? Não se sabe. O que se sabe é que ele esteve ativo como compositor entre 1510 e 1530, tendo trabalhado nas cortes do papa Leão X (João de Lourenço de Medici) e do primeiro duque de Mântua (Frederico II Gonzaga).

17 agosto 2019

Dá-me o meu meio-tostão


Meio-tostão do reinado de D. Luís (Foto: Miguel Costa)


Um compadre perseguia outro por uma dívida; todas as vezes que lhe passava pela porta dizia:

— Dá-me o meu meio-tostão.

O devedor, vexado, disse para a mulher que se ia fingir morto, e que ela o carpisse muito, para ver se quando o compadre passasse lhe perdoava pela sua alma o meio-tostão. Assim fez; a mulher pranteou e depenou-se, mas o compadre veio ao acompanhamento do enterro, e quando o corpo se depositou na igreja deixou-se ficar escondido debaixo da essa. De noite os ladrões entraram na igreja, e como viram a luz das tochas alumiando o morto, entenderam que ali era lugar seguro para repartirem o dinheiro e fazerem os quinhões do que tinham roubado. Quando estavam nisto, desavieram-se, porque todos queriam umas certas joias que o capitão dos ladrões reservava para si. Faziam muita bulha, mas o que se fingia morto na essa, e o compadre que estava escondido, passaram sustos medonhos e não se mexiam. Por fim disse o capitão dos ladrões:

— Eu cá não faço questão deste quinhão; mas quem o quiser há de ir espetar esta faca no morto que está ali naquela essa.

Dizia um: «Vou eu»! Outro também queria ir; mas o que se fingia defunto, sem saber como se havia de ver livre da situação desesperada, senta-se no caixão, e diz e com terror:

Acudam-me aqui os defuntos
E venham já todos juntos.

Os ladrões fugiram todos espavoridos e deixaram o dinheiro ao pé da essa; o compadre que se fingia morto desceu para baixo, e começou a ajuntar o dinheiro espalhado pelo chão. Quando estava nisto sai-lhe debaixo da essa o credor, que nem à borda da cova o largava, e começa a repetir-lhe sem parar:

— Dá-me o meu meio-tostão! Dá-me o meu meio-tostão.

E não se tirava disto. Os ladrões por fim envergonharam-se da sua covardia, e mandaram um mais valente à igreja ver o que por lá havia, e se podiam ir buscar o seu dinheiro. O ladrão veio sorrateiro, escondeu-se detrás de uma porta a escutar, e ouvia só:

— Dá-me o meu meio-tostão!

Desatou a fugir, e foi dizer aos companheiros:

— Está tudo perdido; andam lá tantos defuntos, que não cabe meio-tostão a cada um. Os ladrões conformaram-se com esta desgraça, e o compadre assim é que pagou a sua dívida e ficou rico.


Conto popular recolhido no Porto.

Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

15 agosto 2019

Artur Loureiro


Campina Romana, 1879, óleo sobre tela de Artur Loureiro (1853–1932), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Artur Loureiro foi um pintor português nascido no Porto em 1853. Depois de frequentar a Academia Portuense de Belas Artes, Artur Loureiro viveu em Roma, entre 1875 e 1879, e em Paris, entre 1879 e 1884. Em 1884 emigrou para Melbourne, na Austrália, onde obteve reconhecimento internacional. No início do séc. XX regressou ao Porto, onde montou um atelier-escola numa ala do então existente Palácio de Cristal. Morreu em Terras de Bouro, para onde se tinha dirigido com o objetivo de pintar, em 7 de julho de 1932. A sua obra, de pendor naturalista e em que sobressaem a paisagem, o retrato e a representação animalista, está espalhada por diversos museus e instituições de Portugal e do estrangeiro.


Autorretrato, 1925, óleo sobre madeira de Artur Loureiro (1853–1932), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

10 agosto 2019

O Paço de Giela


O Paço de Giela, Giela, Arcos de Valdevez (Foto: Câmara Municipal de Arcos de Valdevez)

O Paço de Giela é uma antiga residência senhorial existente em Giela, no concelho de Arcos de Valdevez. Na sua origem esteve um castelo anterior ao séc. XI, ao qual se foram acrescentando outros elementos arquitetónicos ao longo dos tempos, nomeadamente a torre atualmente existente, que data do séc. XIV, e o paço propriamente dito, cujas janelas manuelinas, abertas na muralha do antigo castelo, indicam ter sido edificado no séc. XVI.

O Paço de Giela esteve completamente abandonado e em ruínas durante muitos anos, apesar de ter sido classificado como monumento nacional em 1910. Eu mesmo ainda o vi cheio de silvas e de lixo, o que contrastava de forma chocante com a linda e suavíssima paisagem envolvente. Foi adquirido em 1999 pelo município local, que o recuperou e dele fez um polo de atração, incluindo um centro interpretativo sobre a história do concelho, nomeadamente o Torneio de Valdevez, que foi da maior importância para a independência de Portugal. Frequentemente, também se realizam diversos eventos de índole cultural no Paço de Giela.


Janela manuelina no Paço de Giela, Giela, Arcos de Valdevez (Foto: Mário Rolo)