11 dezembro 2019

Selma Fernandes


Selma Fernandes na capa de uma revista

Não há muito que eu possa dizer sobre Selma Fernandes. Praticamente só conheço os belos trabalhos fotográficos que tem publicado nas redes sociais, e pouco mais.

Nestas condições, apenas poderei dizer que Selma Fernandes é angolana, natural e residente em Luanda, mas com raízes familiares no sul de Angola, creio que na província do Namibe. Foi fundadora, juntamente com Adalberto Gourgel, de uma organização de apoio aos albinos angolanos, chamada GVAPAA - Grupo Voluntário de Apoio a Pessoas com Albinismo em Angola. A situação dos albinos em Angola não é tão trágica como em alguns países da África Oriental, mas mesmo assim eles sofrem muita discriminação. A GVAPAA procura dar-lhes apoio, não só em termos de aconselhamento, mas também através da recolha e disponibilização de meios de proteção da pele, como protetores solares, roupas, bonés, etc.

Em 2015, Selma Fernandes sofreu um grave acidente de viação no Cuanza Sul, em que morreu o seu acompanhante Adalberto Gourgel. Conseguiu recuperar dos ferimentos sofridos e refazer a sua vida. Continua ativa nas redes sociais, nomeadamente no Facebook.




Mumuíla (Foto: Selma Fernandes)


Mucubais (Foto: Selma Fernandes)





Selma Fernandes acarinhando uma criança albina (Foto: Adalberto Gourgel)

07 dezembro 2019

Tôdalas cousas eu vejo partir


Tôdalas cousas eu vejo partir
do mundo em como soíam seer,
e vejo as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pode o coraçom partir
     do meu amigo de mi querer bem.

Pero que home parte o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-se home da terra onde é,
e parte-se home d'u [mui] gram prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
     do meu amigo de mi querer bem.

Tôdalas cousas eu vejo mudar:
mudam-se os tempos e muda-se o al,
muda-se a gente em fazer bem ou mal,
mudam-se os ventos e toda outra rem,
mais nom se pode o coraçom mudar
     do meu amigo de mi querer bem.

João Airas (sécs. XIII-XIV?), trovador galego


NOTAS

Tôdalas cousas eu vejo partir / do mundo em como soíam seer - Todas as coisas do mundo eu vejo afastar-se do que costumavam ser

Soíam - Costumavam

Pero - Embora, ainda que

Per bõa fé - Juro

E parte-se home d'u [mui] gram prol tem - E parte de onde a vida lhe corre bem

U - Onde

O al - O resto

Rem - Coisa


03 dezembro 2019

Fantasia em Ré



Fantasia em Ré, de António Carreira, compositor português do séc. XVI, por João Vaz no órgão da Igreja de São Vicente de Fora, Lisboa

26 novembro 2019

Hans Silvester




Hans Silvester é um fotógrafo profissional alemão, nascido em 1938 e residente em França. Das suas viagens pelo mundo resultou um conjunto bastante numeroso de livros, alguns dos quais costumam estar à venda na secção de fotografia ou de arte nas livrarias. Dizem que o seu livro mais popular tem os gatos das ilhas gregas como tema, mas os seus trabalhos mais notáveis são certamente fruto das viagens que ele fez a África, sobretudo ao vale do Rio Omo, no sul da Etiópia.

O Rio Omo nasce no coração da Etiópia e desagua no Lago Turkana, na fronteira com o Quénia. As belíssimas fotografias que Hans Silvester fez das gentes que vivem nas margens deste rio têm causado espanto em todo o mundo. Elas revelam um conjunto de tribos cujos membros fazem dos seus próprios corpos sublimes obras de arte, mas cuja cultura, ao que tudo indica, se encontra ameaçada de extinção a muito curto prazo, em consequência do avanço do dito mundo moderno.

A Etiópia é um país que tem vindo a passar por um período de grande crescimento económico e está apostada em tornar-se num grande produtor de energia elétrica, tanto para consumo interno, como para exportar para os países vizinhos. Com este fim em vista, lançou-se num ambicioso programa de construção de barragens nos seus principais rios. Poucos dias depois de ter sido anunciado que o Prémio Nobel da Paz 2019 era atribuído ao primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed Ali, este anunciou a construção de mais uma barragem, desta feita no Rio Nilo Azul, o que provocou um justificado alarme no Egito, país que depende do Nilo de forma crítica. Abiy Ahmed afirmou que a barragem vai mesmo ser construída, ainda que para isso tenha que haver uma guerra entre a Etiópia e o Egito. Nada mau para quem acabou de ganhar um Prémio Nobel da Paz!

O Rio Omo e os seus afluentes também não escaparam ao programa de construção de barragens lançado pelos governos etíopes. Várias barragens já foram construídas, a última das quais é a chamada Gibe III, no próprio Rio Omo, que se tornou na mais alta barragem de toda a África, com a sua parede de betão de 243 metros de altura! Calcula-se que a vida de cerca de meio milhão de pessoas já está a ser seriamente afetada por esta barragem. O enchimento da albufeira, para começar, já provocou uma gravíssima falta de água a jusante e consequentemente a fome na população local.

Além disso, espera-se que a água retida na barragem de Gibe III possa vir a ser usada como meio de irrigação na agricultura industrial. O governo etíope já começou a concessionar vastíssimas extensões de terras, que eram usadas como pastos para o gado pelos habitantes da região, para a monocultura de cana-de-açúcar. O que tenciona então o governo fazer às pessoas que lá vivem? Vai deixá-las morrer sem meios de subsistência?

Tudo leva a crer, portanto, que as imagens feitas por Hans Silvester e outros visitantes ao vale do Rio Omo possam vir a ser, dentro em breve, o último e trágico testemunho de uma civilização original que cultivava a beleza.


(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

24 novembro 2019

Frei João Sem Cuidados


(Desenho de autor desconhecido)



O rei ouvia sempre falar em Frei João Sem Cuidados como um homem que não se afligia com coisa nenhuma deste mundo.

— Deixa-te estar, que eu é que te hei de meter em trabalhos.

Mandou-o chamar à sua presença, e disse-lhe:

— Vou dar-te uma adivinha, e se dentro em três dias me não souberes responder, mando-te matar. Quero que me digas:

Quanto pesa a lua?

Quanta água tem o mar?

O que é que eu penso?

Frei João Sem Cuidados saiu do palácio bastante atrapalhado, pensando na resposta que havia de dar àquelas perguntas. O seu moleiro encontrou-o no caminho, e lá estranhou de ver Frei João Sem Cuidados de cabeça baixa e macambúzio.

— Olá, senhor Frei João Sem Cuidados, então o que é isso, que o vejo tão triste?

— É que o rei disse-me que me mandava matar, se dentro em três dias eu lhe não respondesse a estas perguntas: — Quanto pesa a lua? Quanta água tem o mar? E o que é que ele pensa?

O moleiro pôs-se a rir, e disse-lhe que não tivesse cuidado, que lhe emprestasse o hábito de frade, que ele iria disfarçado e havia de dar boas respostas ao rei.

Passados os três dias, o moleiro vestido de frade foi pedir audiência ao rei. O rei perguntou-lhe:

— Então, quanto pesa a lua?

— Saberá vossa majestade que não pode pesar mais do que um arrátel, porque todos dizem que ela tem quatro quartos.

— É verdade. E agora: Quanta água tem o mar?

Respondeu o moleiro:

— Isso é muito fácil de saber; mas como vossa majestade só quis saber da água do mar, é preciso que primeiro mande tapar todos os rios, porque sem isso nada feito.

O rei achou bem respondido; mas zangado por ver que Frei João se escapava das dificuldades, tornou:

— Agora, se não souberes o que é que eu penso, mando-te matar!

O moleiro respondeu:

— Ora, vossa majestade pensa que está falando com Frei João Sem Cuidados, e está mas é falando com o seu moleiro.

Deixou cair o hábito de frade e o rei ficou pasmado com a esperteza do ladino.



Conto popular recolhido em Coimbra.

Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

19 novembro 2019

José Mário Branco foi para longe, mas continua tão perto


Eu Vim de Longe, Eu Vou p'ra Longe ("Chulinha"), por José Mário Branco (1942–2019)

18 novembro 2019

Augusto Roquemont


Autorretrato, óleo sobre tela de Augusto Roquemont (1804–1852), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

Augusto Roquemont foi um pintor suíço nascido em Genebra em 1804, filho do príncipe alemão Frederico Augusto de Hesse Darmstadt. Aos 24 anos de idade veio para Portugal e em Portugal ficou até ao fim da vida. Fixou residência em Guimarães, primeiro, e no Porto, depois, além de ter passado cinco anos em Lisboa. Morreu no Porto em 1852. Tornou-se um dos pintores mais importantes do Romantismo em Portugal, do qual foi um dos introdutores, tendo-se dedicado, sobretudo, a pintar retratos de personalidades e cenas de costumes populares portugueses, sobretudo do Minho. Por este facto, Augusto Roquemont é frequentemente considerado um pintor português, apesar da sua origem estrangeira.


Chafariz de Guimarães, de Augusto Roquemont (1804–1852), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

13 novembro 2019

A Sé Catedral da Guarda


Fachada lateral norte da Sé Catedral da Guarda (Foto: Antonio Martins)

Dizia-se que a cidade da Guarda era a cidade dos cinco efes: Forte, Farta, Fria, Fiel e... Feia.

Feia, a Guarda?! Lavro o meu protesto! Eu gosto muito da Guarda e não posso aceitar que alguém diga que ela é feia. A Guarda é a cidade dos cinco efes, sim, mas estes são: Forte, Farta, Fria, Fiel e FORMOSA!

«Formosa, a Guarda?», poderão alguns objetar por sua vez. «Como poderá ser formosa uma cidade que é talhada no duro e cinzento granito? Ainda se fosse em calcário ou outra pedra branda e branca…» E eu respondo: «Visitem a Sé da Guarda e depois venham dizer-me se pode ser considerada feia uma cidade que tem uma tal catedral.» Note-se que é uma catedral talhada no duro granito, como o resto da cidade. Muito trabalho ela deve ter dado aos seus pedreiros!


Fachada lateral sul da Sé da Guarda (Foto: Nuno Tavares)

A diocese da Guarda foi criada na transição do séc. XII para o séc. XIII pelo papa Inocêncio III, a pedido do rei de Portugal D. Sancho I, em substituição da diocese de Egitânia, com sede na atual vila histórica de Idanha-a-Velha. Por esta razão é que os naturais da Guarda são chamados egitanienses, à semelhança dos naturais de Idanha-a-Velha e também dos de Idanha-a-Nova.

A atual Sé Catedral da Guarda começou a ser construída nos finais do séc. XIV, mas só ficou concluída no séc. XVI. É, portanto, uma catedral gótica, mas com uma mistura de diversas variantes do gótico, incluindo o manuelino, fruto da sucessão de vários bispos e de vários arquitetos ocorrida ao longo do tempo. Os restauros que se fizeram nos séculos seguintes levaram ao acrescentamento de elementos de outros estilos, mas na transição do séc. XIX para o séc. XX foi reposta muita da sua traça original, que é a que hoje se vê, graças ao arquiteto Rosendo Carvalheira.

A Sé da Guarda está orientada no sentido nascente-poente e com a capela-mor virada para nascente, como era hábito nas igrejas, mas é a sua fachada lateral virada a norte que mais impressiona. Vêmo-la de baixo para cima, o que nos dá uma sensação de particular grandiosidade deste magnífico templo. O portal principal, que está virado para poente e é em estilo manuelino, também merece a nossa admiração.


Portal principal da Sé da Guarda (Foto: Catarina Leonardo)

Se por fora a Sé da Guarda é um templo notável, ainda mais notável é ela por dentro. A beleza simples mas harmoniosa e a amplidão do seu interior dão-nos uma impressão de grande elevação e misticismo. É, inquestionavelmente, uma catedral gótica, que convida a nossa alma a subir para o céu.


Aspeto do interior da Sé da Guarda (Foto de autor desconhecido)

De grande beleza e enorme valor artístico é também o retábulo do altar-mor, atribuído ao escultor francês João de Ruão (Jean de Rouen), que viveu no séc XVI, passou a maior parte da sua vida em Coimbra e tanta e tão maravilhosa escultura deixou neste cantinho da Europa chamado Portugal.


Retábulo renascentista da Sé da Guarda (Foto: Celestino Manuel)

Dir-me-ão: «Pois sim, a Sé da Guarda é muito bonita, as igrejas da Misericórdia e de São Vicente também são, a antiga Judiaria é um belo bairro medieval e o Museu da Guarda merece uma visita muito atenta. Mas quem é que se atreve a ir à Guarda neste tempo de neves e de geadas?» Eu respondo que a Guarda tem uma hospitalidade franca e aberta, que é própria das gentes beiroas e que compensa, com o aconchego do seu calor humano, o frio, os ventos e as neves desta que é a cidade mais alta de Portugal.

06 novembro 2019

A Menina do Mar


A Menina do Mar, conto de Sophia de Mello Breyner Andresen, narrado por Eunice Muñoz e com a participação dos atores Francisca Maria, António David e Luís Horta. Música de Fernando Lopes-Graça. Direção de Artur Ramos

05 novembro 2019

A Carruagem


Tema musical de Anne Victorino d'Almeida, para o filme de curta-metragem A Carruagem, de Anne Victorino d'Almeida e João Vasco, por um agrupamento musical constituído por Jordi Rodriguez (violino), Pedro Lopes (violino), Pedro Meireles (violeta), Daniela de Brito (violoncelo), Paulo Jorge Ferreira (acordeão) e Alexandra Simpson (piano), sob a direção de Pedro Neves

31 outubro 2019

The Feynman Lectures on Physics



O norte-americano Richard Feynman (1918–1988) foi um dos físicos mais influentes do século XX, não só por causa das importantes descobertas que fez, uma das quais (a Eletrodinâmica Quântica) lhe valeu o Prémio Nobel, mas também pela sua capacidade de comunicar e de ensinar. Foi um professor nato, além de ter sido um investigador genial. Muitas das descobertas da Física que estão na origem dos avanços mais recentes da Ciência e da Técnica têm a sua marca. Ainda há poucos dias, a Google anunciou uma proeza extraordinária que nos pode conduzir à realização prática da computação quântica. Pois a computação quântica tem a marca de Feynman. A ressonância magnética nuclear também tem a marca de Feynman. A nanotecnologia também tem a marca de Feynman. A supercondutividade também tem a marca de Feynman. Muitas coisas mais têm a marca de Feynman.

The Feynman Lectures on Physics é uma das bíblias da Física. É a mais lida e a mais consultada de todas as obras sobre Física que se publicaram até hoje. Para dizer a verdade, aliás, esta obra não foi escrita por Feynman, mas sim por Robert B. Leighton e Matthew Sands.

Tendo-se verificado que as aulas de Física dadas no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), onde ele trabalhava, eram consideradas aborrecidas e desanimadoras, foi cometida a Feynman a tarefa de lecionar um curso básico de Física que fosse estimulante para os alunos dos primeiros anos. Este curso decorreu entre 1961 e 1963 e não foi tão básico assim. Foi antes um curso geral de Física, que abordou os mais diversos campos desta ciência com uma certa profundidade, mas as qualidades didáticas de Richard Feynman fizeram-no dar-lhe uma forma nova e refrescante. Até outros professores do Caltech frequentaram as aulas do seu colega Feynman.

O Caltech gravou em áudio as aulas do curso deste seu notável professor, assim como fez fotografias às fórmulas e aos gráficos que ele foi escrevendo no quadro. Foi a compilação do material assim gravado e fotografado que deu origem à célebre obra The Feynman Lectures on Physics. Como nem todas as aulas tinham sido compiladas na primeira edição da obra, outros capítulos foram sendo acrescentados em edições posteriores, até que no ano 2005 deu-se por concluída toda a compilação com a publicação da chamada Edição Definitiva.

Em 2013, toda a obra The Feynman Lectures on Physics foi colocada gratuitamente na Web (em inglês) e pode ser lida e consultada online por qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Agora que as aulas começaram há poucas semanas, é a altura de chamarmos a atenção para este notável trabalho, não só aos estudantes de Física e de Engenharia, mas também a toda e qualquer pessoa que queira aprender Física ou refrescar a memória do que aprendeu e entretanto esqueceu. O curso não é elementar, como já disse, mas mesmo assim é bastante acessível, como se poderá verificar. The Feynman Lectures on Physics está disponível no seguinte site:

http://www.feynmanlectures.caltech.edu/.


24 outubro 2019

Gina

Agora, a minha paixão
São duas mãos pequeninas
Que cabem na minha mão!

Mimosas como boninas,
De pequeninas que são,
Travêssas, leves, franzinas,
Põem tudo em confusão…

Têem fúrias repentinas
E afagam com devoção…
Mãos de carícias divinas!
Enchem-me a casa de ruínas
E cabem na minha mão…

João Saraiva (1866–1948)


(Foto de autor desconhecido)

17 outubro 2019

Música com milhares de anos


Hino a Nikkal (deusa semita dos pomares), do ano 1400 A.C., aproximadamente. Este hino é considerado a mais antiga peça musical completa do mundo. Faz parte de um conjunto de placas de argila com escrita cuneiforme descobertas nas ruínas da antiga cidade de Ugarit, na costa da atual Síria. A interpretação é de Michael Levy, em cítara


Epitáfio de Seikilos ou Sícilo, datado de entre 200 A.C. e 100 D.C. Esta pequena canção em grego antigo, de homenagem a uma mulher morta, foi encontrada numa lápide junto a um túmulo próximo de Éfeso, na atual Turquia. A sua letra, traduzida para português, é a seguinte: Enquanto viveres, brilha. / De todo não te aflijas, / Pois curta é a vida / E o tempo cobra seu tributo. Interpretação de Gregorio Paniagua em cítara

10 outubro 2019

O poeta asseteado por amor

Oh Céus! Que sinto na alma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver, de veia em veia,
Me gasta a vida, me desfaz o alento!

Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: — «A que se expõe quem não receia
Contemplar Urselina um só momento!

«Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e co'um tiro
Puni tua sacrílega loucura.

«De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.»

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765–1805)



(Foto: Howard Schatz)

04 outubro 2019

Calou-se a voz extraordinária de Jessye Norman


Amazing Grace, pela cantora dramática norte-americana Jessye Norman (1945–2019), falecida há poucos dias

30 setembro 2019

O soldado morto

Os infinitos céus fitam seu rosto
absoluto e cego
E a brisa agora beija a sua boca
Que nunca mais há de beijar ninguém.

Tem as duas mãos côncavas ainda
De possessão de impulso de promessa.
Dos seus ombros desprende-se uma espera
Que dividida na tarde se dispersa.

E a luz, as horas, as colinas
São como pranto, em volta do seu rosto
Porque ele foi jogado e foi perdido
E no céu passam aves repentinas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004)



Pai de um militar português morto na Guerra Colonial e condecorado a título póstumo (Foto de autor desconhecido)

26 setembro 2019

A Companhia de Dança Contemporânea de Angola vem à Holanda e a Portugal


(Fotos de Rui Tavares)

Rigor, exigência, profissionalismo, contemporaneidade, africanidade. Estas são algumas das palavras que podem caracterizar a Companhia de Dança Contemporânea de Angola, uma companhia de bailado contemporâneo que Ana Clara Guerra Marques fundou e de que é diretora artística e coreógrafa. Com a fundadora, estão na CDC Angola Nuno Guimarães, Rui Tavares, Jorge António e um corpo de baile da mais alta qualidade e cujos elementos se vão sucedendo e rendendo ao longo do tempo.

No próximo mês de outubro de 2019, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola realiza uma digressão pela Europa, mais concretamente pela Holanda (Amesterdão) e Portugal (Almada, Faro, Montemor-o-Novo, Vila Nova de Gaia, Ponte de Lima e Coimbra). Em todas estas localidades será exibida a peça O Monstro Está em Cena, com exceção de Vila Nova de Gaia, onde a peça a apresentar se chama Mysterium Coniunctionis.

Há poucos anos, tive a grata oportunidade de assistir a um espetáculo desta companhia no Teatro Nacional de S. João, no Porto, chamado Paisagens Propícias, e fiquei fascinado com o que vi e ouvi. Troquei pessoalmente algumas impressões com a diretora artística e fiquei muito bem impressionado. Aliás, já a "conhecia" da Internet, através de um blog que ela manteve durante alguns anos, mas que já não publica mais. Enquanto eu trocava impressões com Ana Clara Guerra Marques, verifiquei que alguns antigos bailarinos da companhia, que entretanto tinham seguido outros rumos em palcos europeus, vieram propositadamente de Barcelona ao Porto para poderem estar uns momentos com ela.

Aqui fica, pois, a minha recomendação: assistir, se possível, a um espetáculo da CDC Angola nesta sua próxima digressão. Estou convencido de que ninguém se vai arrepender.








20 setembro 2019

Hino do Minho ou Hino da Maria da Fonte


Hino do Minho ou Hino da Maria da Fonte, por Vitorino, com música de Angelo Frondoni e letra de origem popular

O Hino do Minho, mais conhecido como Hino da Maria da Fonte, é o segundo hino mais importante de Portugal, logo a seguir ao Hino Nacional. É tocado em cerimónias oficiais, encontrando-se a sua execução regulamentada pelo Decreto-Lei N.º 331/80, de 28 de agosto. Segundo este diploma, o Hino da Maria da Fonte deve ser tocado por uma banda de música ou um terno de corneteiros (clarins), quando uma guarda de honra prestar continência a pé firme às seguintes personalidades: Presidente da Assembleia da República, Primeiro-ministro, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Presidente do Supremo Tribunal Militar, Vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas e Chefes dos Estados-Maiores da Armada, do Exército e da Força Aérea, Ministros e Secretários e Subsecretários de Estado. Só durante uma continência a pé firme prestada ao Presidente da República e aos chefes de estado estrangeiros em visita oficial, é que o Hino Nacional deve ser tocado.

A música do Hino do Minho, ou da Maria da Fonte, é da autoria de Angelo Frondoni (1812–1891), um músico italiano que se radicou em Portugal e faleceu em Lisboa. A letra original do hino é de Paulo Midosi Júnior (1821–1888), que por acaso também era de ascendência italiana e que escreveu vários libretos para operetas compostas por Angelo Frondoni. Além da letra original, muitas outras letras se adaptaram à mesma música, umas anónimas e outras não, em função da evolução dos acontecimentos políticos que foram ocorrendo durante o turbulento século XIX português.

Passo a transcrever um trecho do Volume II do Cancioneiro de Musicas Populares contendo Letra e Musica de Canções, serenatas, chulas, danças, descantes, cantigas dos campos e das ruas, fados, romances, hymnos nacionaes, cantos patrioticos, canticos religiosos de origem popular, canticos liturgicos popularisados, canções politicas, cantilenas, cantos maritimos, etc. e cançonetas estrangeiras vulgarisadas em Portugal, por Cesar das Neves e Gualdino de Campos, publicado em 1895 no Porto.

HYMNO DO MINHO
Baqueou a tyrannia,
Nobre povo, és vencedor.
Generoso, ousado e livre,
Dêmos gloria ao teu valor.
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante! Não temer!
   Pela Santa liberdade
   Triumphar ou perecer!

Algemada era a nação,
Mas é livre ainda uma vez;
Ora, e sempre, é caro á Patria
O heroismo portuguez.
   Eia, ávante, etc.

Lá raiou a liberdade,
Que a nação ha de additar!
Gloria ao Minho, que primeiro
O seu grito fez soar.
   Eia, ávante, etc.

Segue, oh povo, o bello exemplo
De tamanha heroicidade,
Nunca mais deixes tyrannos
Ameaçar a liberdade.
   Eia, ávante, etc.

Fugi, despotas, fugi,
Vós, algozes da nação!
Livre, a Patria vos repulsa!
Terminou a escravidão.
   Eia. ávante, etc.
(...)

Este hymno foi muito cantado no theatro de S. João, onde, n'aquella epocha, estava em scena um aproposito da revolução do Minho, em que o personagem principal se chamava Maria da Fonte. Foi do theatro que sahiram muitas das estrophes que se cantavam pela rua, e que eram da lavra do actor Abel, e talvez a denominação que deram ao movimento revolucionario da Junta do Porto.

Eis as cantigas das ruas:
Viva a Maria da Fonte,
Com as pistolas na mão,
Para matar os Cabraes,
Que são falsos á nação.
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante, e não temer,
   Pela Patria e liberdade
   Triumphar até morrer!

Viva a Maria da Fonte,
A cavallo, sem cahir,
Com as pistolas á cinta,
A tocar a reunir.
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante, sem temer,
   Pela Patria e liberdade
   Batalhar até morrer.
As duas quadras seguintes attribuem-se ao partido miguelista, representado então na guerrilha do padre Casimiro:
Temos um rei estrangeiro,
Estrangeirada facção,
A rainha estrangeirada,
Só portugueza a nação!
   Leva ávante, portuguezes,
   Leva ávante d'uma vez,
   Nós não queremos que governe
   Senão um rei portuguez!

[A "rainha estrangeirada" acima referida é D. Maria II, que foi casada com um alemão, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha. O próprio coração de D. Maria II encontra-se na Alemanha, conservado em formol num vaso de cristal, na cripta da igreja de S. Miguel no centro histórico de Munique, que é o panteão da casa real da Baviera.]

A lettra que se segue é coimbrã; n'ella transparece o vigor e o enthusiasmo do nobre patriotismo da mocidade academica d'aquella epocha:
Cáia um throno, cáia um rei,
Onde impéra a tyrannia,
Mas d'um povo a liberdade
Não se perca nem um dia!
   Eia, ávante, portuguezes,
   Eia, ávante, e não temer,
   Pela Patria e liberdade
   Triumphar até morrer.
Tendo entrado no Porto o general Povoas, organisou-se no dia 22 de fevereiro de 1847 um espectaculo de gala no theatro de S. João, em que se cantou o hymno com a seguinte lettra:
Fulgiu hontem sobre o Porto
Um meteóro de gloria:
Chegou Povoas, e com elle
Chegou o deus da victoria.
   Armas! ferro! guerra! guerra!
   Tremulem nossos pendões.
   Contra a vil horda de escravos
   Marchae, livres, batalhões.

Atravez d'eternos gêlos
Passou com sabia ousadia 1.
Deus proteje o nobre arrojo
Contra a feroz tyrannia.
   Armas! ferro!, etc.

Uma côrte corrompida
Fascina o sceptro real;
Escravisar em vão querendo
Este nosso Portugal.
   Armas! ferro!, etc.

Opprimir tentam o povo
Com perversa atrocidade?
Querem sangue? haja sangue!
Regue sangue a liberdade.
   Armas! ferro!, etc.

Povoas, Antas, Guedes, Cesar,
Almargem, Sá da Bandeira,
Vão cingir d'immortaes louros
A mocidade guerreira.
   Armas! ferro!, etc.

Ora sus! ergue-te oh povo,
Qual gigante ingente e forte,
Eis o teu grito de guerra:
Ou liberdade ou a morte.
   Armas! ferro!, etc.
1 Povoas tinha sido cercado na serra da Estrella pelos generaes Solla e Lapa; mas de noite escapou-se com os seus por um atalho, ficando logrados os sitiantes. Povoas era miguelista, mas prestou serviço á Patuleia.

D'entre os numerosos versos que o povo applicava ao hymno do Minho, durante a revolução da Patuleia, recordamos os seguintes, por terem directa ou figuradamente descripto os factos que se iam succedendo:
O Saldanha já mandou,
Suas tropas retirar,
Porque tem medo da fome
E a palha está-se a acabar 2.

Já lá vae para Hespanha,
A divisão do Casal 3;
Deus a leve em boa hora,
Que não volte a Portugal.

A rainha não podendo
Vencer os nossos guerreiros,
Foi pedir, oh que vergonha!
Protecção aos estrangeiros 4.
2 O general Saldanha era cabralista; porém depois foi elle que derrubou aquelle governo.

3 General que em dezembro de 1847 atacou o Porto e em seguida retirou-se para Hespanha.

4 Allude á intervenção hespanhola e ingleza.

Deu origem a muitos versos populares a revolução do Minho, cuja lenda é a seguinte:

Os excessivos tributos com que o governo do marquez de Thomar, Antonio Bernardo da Costa Cabral, havia sobrecarregado o povo, traziam este excitado a ponto de que o menor pretexto, serviria a uma explosão hostil. Foi o caso, que, tendo ordenado o governo não fazerem mais exhumações dentro dos templos, como era de uso, encontrou esta lei grande opposição, principalmente nas aldeias, onde não havia cemiterios. Succedeu então na Povoa de Lanhoso ter fallecido uma mulher, e o regedor, no cumprimento da lei, não consentiu que se enterrasse na egreja; porém, umas sete mulheres que tinham acompanhado o cadaver, teimaram em fazer alli a exhumação, resultando grande lucta com a auctoridade. Salientou-se d'entre aquellas, uma chamada Maria Angelina, do logar da Fonte, ou natural de Fonte Arcada, que mandou tocar o sino a rebate com todo o vigor. N'um instante, alarmou-se toda a freguezia, e o regedor teve de fugir ás unhas das matronas, que enterraram o cadaver na egreja:
As sete mulheres do Minho,
Mulheres de grande valor,
Armadas de fuso e roca,
Correram o regedor!
Findo o enterro, o povo amotinado percorre as estradas e praças, armado dos instrumentos agricolas, que mais á mão encontrou, clamando pela revogação da lei e dos tributos; a Maria lá marchava na frente, enthusiasmada e enthusiasmando, até que teve de entregar o commando ao celebre padre Casimiro 1, de quem o povo cantou:
Viva o padre Casimiro,
Que é mesmo um anjo do céo:
Pois traz sempre o crucifixo
No forro do seu chapéo.
1 O padre Casimiro José Vieira falleceu, na casa da Alegria, em Felgueiras, a 30 de junho do corrente anno de 1895, com 78 annos de idade, pobre e abandonado. Aos 29 annos tomou parte importante na revolta do Minho, querendo encaminhar a revolução para o seu ideal absolutista. Era muito estimado pelo povo, que o acclamou Defensor das Cinco Chagas, e general commandante das forças populares do Minho e Traz-os-Montes. Em 1847, por diploma de 7 d'abril, foi nomeado pelo logar-tenente de D. Miguel I, n'este reino, (dr. Candido Rodrigues Alves de Figueiredo Lima), Commandante geral de todas as forças populares ao norte do Minho, com honras de brigadeiro.

A Maria tambem teve a sua glorificação:
Essa mulher lá do Minho,
Que da fouce fez espada,
Ha de ter na lusa historia
Uma pagina dourada.
(...)

César das Neves e Gualdino de Campos, Cancioneiro de Musicas Populares, Volume II, Porto, 1895

15 setembro 2019

A igreja matriz da Golegã


Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Golegã, Portugal (Foto: João Correia)

A vila da Golegã, embora pequena, tem muito que ver. Situada em plena planície aluvial do Ribatejo (a chamada lezíria), a Golegã encontra-se rodeada de campos férteis, que se estendem por quilómetros e quilómetros, de um lado e do outro do rio Tejo, para montante e para jusante. Há também nas proximidades da Golegã uma zona alagadiça que tem uma fauna e uma flora muito ricas, que é o Paul do Boquilobo, o qual, aliás, é atravessado pelos comboios da Linha do Norte a uma velocidade tal que os passageiros não veem nada… Junto ao Paul do Boquilobo situa-se Azinhaga, a modesta aldeia de trabalhadores rurais onde nasceu José Saramago, um dos maiores vultos das letras portuguesas.

Seria um pecado de lesa-Golegã e de lesa-Ribatejo não referir a Feira Nacional do Cavalo, que todos os anos se realiza na Golegã por alturas do São Martinho. Esta feira, que, mais do que uma simples feira, é uma autêntica festa do cavalo, é um acontecimento que não se deve perder. O cavalo é um dos mais bonitos, elegantes e nobres animais que existem e à Golegã são levados os mais belos exemplares. Mesmo alguém como eu, que vive num apartamento na cidade e, portanto, não tem condições para levar um cavalo para casa, ficará certamente encantado com tanto garbo e tanta beleza, que na Golegã se exibem.

Em termos de património edificado, tem a Golegã, nomeadamente, a Casa-Estúdio Carlos Relvas, a Quinta da Cardiga (a poucos quilómetros da vila, já perto do Entroncamento) e, sobretudo, a mais bela igreja rural em estilo manuelino que em Portugal existe: a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a igreja matriz da vila.


Arco triunfal e capela-mor da Igreja da Golegã (Foto: Luís Paiva Boléo)

A igreja matriz da Golegã, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, é um templo construído no séc. XVI, provavelmente por iniciativa do rei D. Manuel I. Existiu em Almeirim um palácio real, o Paço de Almeirim, onde os reis de Portugal costumavam refugiar-se sempre que em Lisboa ocorria uma epidemia de peste, ou simplemente para se divertirem com caçadas e passeios a cavalo pelas redondezas. Assim, a Golegã foi também frequentada pelos soberanos e D. Manuel I terá sido um deles.

Se alguém achar que há alguma parecença entre a igreja da Golegã e o mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, não se enganou. O autor da igreja matriz da Golegã foi Diogo de Boytac, um arquiteto de origem obscura (provavelmente francesa), que é exatamente o mesmo arquiteto que concebeu e iniciou a construção do mosteiro dos Jerónimos. O extraordinário portal manuelino da igreja da Golegã tem a marca do seu génio. Quem mais seria capaz de conceber um portal tão harmonioso e tão equilibrado como este? Nada está a mais, ou a menos, ou fora do sítio. É um deslumbramento.


Portal da Igreja Matriz da Golegã (Foto: Waugsberg)

08 setembro 2019

Três Concertos Brandeburgueses de Bach


Concerto Brandeburguês N.º 1 em fá maior, BWV 1046, Concerto Brandeburgês N.º 6 em si maior, BWV 1051, e Concerto Brandeburguês N.º 3 em sol maior, BWV 1048, de Johann Sebastian Bach (1685–1750), pela Orquestra Barroca Casa da Música dirigida por Laurence Cummings

Eu hesitei bastante antes de publicar este vídeo. É um vídeo longo, praticamente com 1 hora de duração, que inclui, não um, não dois, mas três Concertos Brandeburgueses de Bach. É muita música de uma vez só, para um blog generalista (chamemos-lhe assim) como é este. Acabei por decidir publicar o vídeo por várias razões.

Johann Sebastian Bach não foi um compositor qualquer. Pessoalmente, considero-o um dos mais geniais, se não mesmo o mais genial, de todos os autores de música europeia de sempre. Acho, portanto, que é da maior importância dar a ouvir música de Bach a quem visitar o meu modesto blog.

«Mas logo três concertos de uma vez só?», perguntar-me-ão. «Porque não apenas um, ou então só um andamento de um destes concertos?» Eu sou contra a escuta de um único andamento de uma obra que tem mais do que um. Um concerto, uma sonata, uma sinfonia ou o que quer que seja que tenha mais do que um andamento só faz sentido se for ouvido na totalidade. Ouvir um andamento apenas é truncar uma obra de arte. Embora já o tenha feito, evito dar a escutar uma obra truncada neste blog. O "Hino à Alegria", que faz parte do quarto andamento da Nona Sinfonia de Beethoven, por exemplo, é muito bonito e muito popular, mas só faz sentido se ele for o culminar de uma sinfonia inteira e muito longa, que Beethoven escreveu da forma mais penosa possível para um compositor: mergulhado na mais completa surdez. É preciso ouvir toda a Nona Sinfonia, desde o princípio até ao fim, para que se possa sentir a verdadeira alegria vivida por Beethoven, quando conseguiu superar a sorte que o destino que lhe tinha reservado compondo uma sinfonia. É uma alegria sentida por quem vence a própria dor. Portanto, uma obra com vários andamentos deve ser sempre ouvida completa.

«Pronto, está bem, ouça-se então uma obra completa. Mas só uma! Agora três?! Porquê três Concertos Brandeburgueses em vez de um só? Você podia passar o Concerto Brandeburguês n.º 3, por exemplo.» O vídeo que aqui apresento tem três concertos e não um só, porque é uma gravação de um espetáculo dado na Casa da Música, no Porto, em 8 de novembro de 2015, foi transmitido pela RTP e não fui eu quem o publicou no Youtube. Tocou a Orquestra Barroca Casa da Música, que além de ser uma das melhores orquestras do mundo neste género de agrupamento musical, é da Casa da Música e é da cidade do Porto. E ouve-se música de Bach. E é introduzida em português, o que também é importante.