23 março 2019

O Sonho


Le Rêve, óleo sobre tela de Henri Rousseau (1844–1910). Museum of Modern Art, Nova Iorque, Estados Unidos da América. Segundo o autor, este quadro representa uma mulher reclinada num sofá em Paris, sonhando com um tocador de flauta numa selva

17 março 2019

Pajé e cacique (no Brasil)


Um pajé tratando uma doente (Foto de autor desconhecido)


Pajé é uma palavra de origem tupi-guarani utilizada para denominar a figura do conselheiro, curandeiro, feiticeiro e intermediário espiritual de uma comunidade indígena.

O pajé é considerado uma das figuras mais importantes dentro das tribos indígenas brasileiras. De acordo com as tradições típicas desses povos, o pajé é predominantemente um ancião dotado de poderes sobrenaturais, com a capacidade de prever o futuro, expulsar espíritos malignos e doenças das tribos.

Conhecido como "médico da tribo", o pajé usa técnicas de massagens, banhos e até mesmo algumas práticas cirúrgicas para curar os seus pacientes. Além disso, é um profundo conhecedor dos "medicamentos naturais", à base de ervas medicinais, raízes, sementes, substâncias animais e minerais que auxiliam, de acordo com a cultura indígena, a cura das mais diversas doenças, sejam elas físicas ou espirituais.

Os povos indígenas acreditam que os pajés possuem o dom de se comunicar com os espíritos da floresta e com os deuses, além de terem o poder de fazer chover e melhorar as condições da caça, pesca e colheita da tribo.

No ritual chamado "pajelança", o pajé usa ervas e plantas da floresta para curar ou resolver problemas espirituais dos índios, entrando em contato com espíritos anciões.


Uma pajelança (Foto de autor desconhecido)



Cacique é um termo usado para designar o índio que é responsável por uma tribo indígena. O cacique é uma espécie de "chefe" político da tribo, responsável por organizar e cuidar de questões referentes aos índios, como o modo de vida, os rituais e até mesmo punições.

A palavra tem origem no termo cachique e surgiu provavelmente no período das Grandes Navegações e Descobrimentos. Essa era a maneira como os navegadores e colonizadores espanhóis e portugueses se referiam aos chefes das tribos encontradas durante essa época.

Em um sentido mais figurado, a palavra é utilizada como uma referência a um político que tem grande influência em uma região.

Cacique também é o nome popular do pássaro cacicus, da família icteridae. A ave é encontrada na região norte e centro-oeste do Brasil, no Panamá, Peru, Equador, Colômbia, Guianas e Bolívia.

O pássaro tem subespécies, como o cacicus cela cela, cacicus cela vitellinus e cacicus cela flavicrissus.


Textos retirados do site Significados


Em primeiro plano à direita, o cacique do povo Yawalapiti, Aritana, é o cacique mais antigo do Parque Indígena do Xingu e um dos mais respeitados do Brasil (Foto de autor desconhecido)

10 março 2019

Évora Monte


Porta Nordeste de Évora Monte (Foto: Fernando Gabriel)

Apesar do seu nome, Évora Monte não tem que ver com Évora. Évora é uma cidade, a mais importante do Alentejo, e Évora Monte é uma outra localidade, situada entre Évora e Estremoz e pertencente ao concelho de Estremoz.

Há no Alentejo um pequeno punhado de povoações que podem ser consideradas "ninhos de águia". Marvão é uma delas, está claro, Monsaraz é outra e Évora Monte é outra ainda. Qualquer uma delas é digna de ser visitada, não faltando a Évora Monte motivos de interesse também. Dentro das muralhas desta vila, mandadas erguer por D. Dinis, há um pequeno punhado de ruas antigas ladeadas por casas centenárias, que parecem ter parado no tempo. Por momentos julgamos estar de volta à Idade Média.

No ponto mais alto de Évora Monte está uma portentosa fortificação que é única em Portugal, o castelo de Évora Monte. É uma torre do séc. XVI, em cujos cantos se encontram enormes torreões circulares, que são tão grandes que quase "sufocam" a torre propriamente dita. Eu não sou grande apreciador de castelos e fortalezas, salvo raras exceções (Penedono, Santa Maria da Feira, Arouce, Almourol e pouco mais), mas rendo-me perante a imponência do castelo de Évora Monte.


Castelo de Évora Monte (Foto: Nmmacedo)

É dos livros de História de Portugal que em Évora Monte foi assinado o fim da sangrenta guerra civil que opôs liberais (apoiantes de D. Pedro IV) a absolutistas (seguidores de D. Miguel). Aconteceu em 26 de maio de 1834 e ficou conhecida como "Convenção de Évora Monte". Poderíamos supor que uma tal assinatura, dada a sua importância histórica, tivesse tido lugar no imponente castelo, mas tal não aconteceu. Por incrível que pareça, a Convenção de Évora Monte foi assinada numa casa modesta da vila, onde uma lápide assinala o facto.

Nem D. Pedro nem D. Miguel estiveram presentes na Convenção de Évora Monte, mas sim os seus representantes, que foram o Marechal Saldanha e o Duque da Terceira, pelo lado dos liberais, e o general Azevedo e Lemos, pelo lado dos miguelistas. A convenção saldou-se pela capitulação total destes últimos. Ficou assim garantido o estabelecimento de uma monarquia constitucional, com a subida ao trono da filha de D. Pedro IV, D. Maria da Glória, que viria a ser coroada como rainha D. Maria II de Portugal. D. Miguel, por sua vez, foi autorizado a sair do país e acabou por se exilar na Alemanha, onde morreu.


Casa da Convenção de Évora Monte (Foto: GPSMD). Por incrível que pareça, foi nesta modesta casa e não no castelo que foi assinada a Convenção de Évora Monte. Uma lápide assinala o facto com os seguintes dizeres:

EM 26 DE MAIO DE 1834
N'ESTA CASA
DE JOAQUIM ANTONIO SARMAGO
FOI ASSIGNADA A CONVENÇÃO
DE EVORAMONTE
QUE RESTABELECEU A PAZ EM
PORTUGAL.

03 março 2019

Seydou Keïta


Autorretrato, 1949 (Foto: Seydou Keïta)

Seydou Keïta (1921–2001) foi um fotógrafo maliano, famoso pelos retratos individuais e de grupo que tirou, quase todos desde 1940 até pouco depois de 1960.

Em vez de se limitar a tirar fotografias tipo passe a quem se dirigisse ao seu estúdio em Bamako para tirar o retrato, Seydou Keïta realizou verdadeiras obras de arte. Os seus retratos não se limitam a documentar um tempo específico e um lugar determinado, que neste caso é quase sempre o Mali imediatamente antes da independência, antes estão imbuídos de um profundo sentido estético e poético. Seydou Keïta é um dos nomes maiores da arte fotográfica.


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)


(Foto: Seydou Keïta)

23 fevereiro 2019

Morreu Sequeira Costa


Sonata para Piano em Fá Menor N.º 23, op. 57 (Appassionata), de Ludwig van Beethoven (1770–1827), pelo pianista português Sequeira Costa (1929–2019)

Quando eu era menino e moço, fui sócio da Juventude Musical Portuguesa. Tinha sido atraído para a chamada música clássica por um professor de Canto Coral que tive no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, o maestro José Quelhas. Curiosamente, este professor (parece que ainda está vivo!) era um entusiasta do teatro de revista e foi autor da música de muitas revistas levadas à cena no Teatro Sá da Bandeira... É claro que uma coisa não exclui a outra, isto é, o gosto por um espetáculo eminentemente popular, como é a revista à portuguesa, não exclui o gosto por uma música supostamente mais "séria". A verdade é que o maestro José Quelhas incutiu-me o gosto por esta música "séria" a um ponto tal, que pedi à minha mãe para me inscrever na Juventude Musical. E a minha mãe inscreveu-me.

Um dos primeiros concertos da Juventude Musical a que assisti, se é que não foi mesmo o primeiro de todos, foi um recital que teve lugar no casino da Póvoa de Varzim e que teve como intérpretes, nada mais nada menos, o grande violinista russo Igor Oistrakh e o igualmente grande pianista português Sequeira Costa. Foi um recital que nunca mais esqueci. Saí do casino, no fim do recital, completamente deslumbrado pela música que tinha ouvido. Entre as obras que Igor Oistrakh e Sequeira Costa interpretaram naquele recital, figurou a sonata Appassionata, de Beethoven, que foi magistralmente tocada por Sequeira Costa. Em memória deste extraordinário pianista português agora falecido, aqui relembro a sonata Appassionata, interpretada por ele.

18 fevereiro 2019

Arte islâmica na Sé de Braga


Píxide islâmica em marfim, proveniente do califado de Córdova e mandada fazer pelo califa Abd al-Malik, filho de Almansor. Princípios do séc. XI. Tesouro da Sé de Braga, Braga, Portugal

Almansor, califa de Córdova, foi um notável guerreiro que empreendeu um avanço imparável contra os territórios cristãos do norte da Península Ibérica, chegando ao ponto de arrasar Santiago de Compostela no ano 997. O sino da igreja de Compostela foi levado como troféu para Córdova, às costas de cativos cristãos. Na reconquista que se seguiu, os cristãos apoderaram-se também de numerosos troféus islâmicos, entre os quais a píxide acima representada. Esta píxide tem uma forma tal, que parece ter sido feita de propósito para guardar o cálice e a patena mostrados em baixo, mas não foi. No entanto, é esta a função que ela tem desempenhado até aos dias de hoje.


Cálice e patena em prata dourada, habitualmente guardados na píxide islâmica da Sé de Braga. Este cálice e esta patena foram doados pelo conde portucalense D. Mendo Gonçalves, que morreu no princípio do séc. XI. Tesouro da Sé de Braga, Braga, Portugal

11 fevereiro 2019

Kalunga



Kalunga, pelo agrupamento musical angolano Malambas do Lombe

O título desta peça musical de Angola, Kalunga, pode tomar diversos significados consoante o contexto. Neste caso, parece querer significar "Morte", mas tenho dúvidas, porque não consigo entender a letra, que parece estar em quimbundo da região de Malange.

Kalunga é uma palavra que traz consigo a ideia de infinito, de incomensurável. Em algumas línguas bantus, como o umbundo, Kalunga significa "Deus", "o Criador". Em quimbundo, língua em que Deus é chamado Nzambi, a palavra Kalunga pode ser usada para designar a "Morte", uma entidade sobrenatural (será legítimo chamar-lhe divindade?), que arrebata a alma dos vivos. Esta entidade chama-se, por extenso, Kalunga Ngumba ou Kalunga Ngombe, consoante as regiões, mas é frequentemente chamada apenas Kalunga. Parece-me ser este o caso desta canção. Diga-se a propósito que a divindade contrária, a "Vida", também tem a palavra Kalunga no nome: Kalunga Samba. Além disso, kalunga também significa "mar" em quimbundo.

04 fevereiro 2019

Charneca em flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca (1894-1930)


(Foto: Turismo do Alentejo — ERT)

03 fevereiro 2019

Salúquia (A Bela Moura)


Valsa Salúquia (A Bela Moura), também conhecida como Valsa da Água Castelo por ter sido encomendada pela empresa da Água Castelo, de Alfredo Keil (1850–1907), por Mauro Dilema em piano

01 fevereiro 2019

António Soares


Natasha, 1928, têmpera sobre tela de António Soares (1894–1978), Museu Gulbenkian, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

António Soares foi um pintor e ilustrador português, nascido em Lisboa em 1894 no seio de uma família humilde. Sem formação académica, António Soares foi autodidata num tempo em que predominavam duas correntes artísticas em Portugal, o naturalismo e o modernismo, as quais influenciaram a sua obra. Foi ilustrador, cenógrafo, decorador, etc. Como pintor, é acusado de ter sido, até certo ponto, convencional, mas podemos encontrar na sua pintura alegadamente académica marcas de modernismo e até mesmo de transgressão. É o caso, por exemplo, do retrato de Maria de Melo Breyner, filha mais velha dos condes de Mafra, que se mostra aqui em baixo, onde a perspetiva é distorcida no sentido de levar o nosso olhar a concentrar-se na pessoa retratada. António Soares morreu em 1978, em Lisboa, no meio de uma injusta e generalizada indiferença por ele e pela sua obra.


Retrato de Maria de Melo Breyner, 1932, óleo sobre tela de António Soares (1894–1978), Museu Gulbenkian, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal


Retrato da Irmã do Artista, 1936, óleo sobre tela de António Soares (1894–1978), Museu Nacional de Arte Contemporânea — Museu do Chiado, Lisboa, Portugal

27 janeiro 2019

Haiti


Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, por Caetano Veloso


Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado,
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos,
Dando porrada na nuca de malandros pretos,
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos,
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados,
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula,
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado,
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon.
Ninguém, ninguém é cidadão.
Se você for ver a festa do pelô e se você não for,
Pense no Haiti, reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui.
O Haiti não é aqui.

E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil,
Que pareça fácil e rápido,
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau,
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital,
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal,
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual,
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon,
E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina,
(111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos,
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres,
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos)
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba,
Pense no Haiti, reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui.
O Haiti não é aqui.


Caetano Veloso

24 janeiro 2019

Metropolis


Metropolis, filme mudo de 1927, realizado por Fritz Lang e baseado num romance homónimo de Thea von Harbou, com Alfred Abel, Brigitte Helm, Gustav Fröhlich, Rudolf Klein-Rogge, etc. Música de Gottfried Huppertz. Versão tanto quanto possível completa, com legendas em alemão e uma tradução para português disponível. Duração aproximada: 2 horas e 30 minutos

22 janeiro 2019

Clarinha


Uma águia real (Foto: Dave Hunt Photography)


Havia numa terra uma rainha, com uma filha muito linda chamada Clarinha, a qual estava tratada para casar com um príncipe logo que chegasse à idade em que havia de receber o reino de sua mãe, que o estava governando. Clarinha costumava ir todos os dias ao jardim; um dia passou uma águia, e todas as vezes que passava lhe dizia:

— Clarinha, Clarinha! Qual queres, passar trabalhos na mocidade ou na velhice?

A princesa foi dizê-lo à rainha, e ela lhe respondeu:

— Diga a menina: Antes na mocidade, que se pode com tudo, e na velhice não se pode com nada.

Clarinha foi para o jardim como o seu costume, e a águia tornou a dizer o mesmo. No ponto que a princesa disse: «Antes na mocidade», a águia levou-a pelo ar fora e foi deitá-la na terra onde vivia o príncipe com quem tinha tratado o casamento. Clarinha não conhecia ali ninguém a não ser a rainha e o príncipe, mas não se podia falar com eles sem requerimento, e ela não o tinha. Foi ter a uma padaria, e pediu para ser criada. A padeira tomou-a; indo um dia para fora, deixou para Clarinha cozer uma fornada de pão já amassado. A menina com medo fechou todas as portas e janelas para a águia não entrar, mas ela sempre entrou pela chaminé e esborralhou-lhe o forno sobre o pão, quebrou-lhe os alguidares e muita loiça, e fugiu. Chegando a padeira, deu muitas pancadas em Clarinha e pô-la no andar da rua. Por mais que pedisse e chorasse, a padeira não a acreditava. Foi a menina ter com um vendeiro, para o servir; saindo um dia, ele deixou-a na venda. Com medo ela fechou-se por dentro, mas a águia sempre entrou e quebrou copos, medidas e garrafas, e destapou as pipas. Quando o vendeiro chegou achou tão grande destroço, e sem se importar com o que dizia Clarinha, deu-lhe muitas bofetadas e pô-la logo na rua. Clarinha foi ter dali ao palácio, não se dando por conhecida, e ofereceu-se para criada do príncipe. A rainha disse que não precisava de mais criadas. O príncipe tornou:

— Tome-a, minha mãe, ainda que seja para vigiar as patas.

— Pois sim; que ela entre.

Todos os dias morriam as patas que ela vigiava, e o príncipe vendo que ela chorava tanto, pediu à rainha que a tomasse para costureira. Passados tempos, o príncipe aprontou-se para ir ver a sua noiva, e chegando ao pé das aias disse:

— Que querem que eu lhes traga da terra aonde vou?

Todas elas lhe pediram alguma coisa, menos a Clarinha. O príncipe insistiu com ela para que dissesse o que queria de lá.

— Traga-me vossa alteza uma pedra do palácio.

O príncipe partiu, e ao chegar ao palácio da sua noiva ouviu que tudo estava de luto pela falta da princesa. Muito triste ficou, e no mesmo instante comprou tudo que as criadas lhe tinham pedido, e a pedra para Clarinha, e partiu. Chegou cá muito triste e alguma coisa desconfiado de quem seria Clarinha. Entregou-lhe a pedra, e para saber o que ela quereria fazer disso, meteu-se debaixo da cama, quando a criada deu volta. Quando ela veio para o seu quarto, fechou-se por dentro e cuidando que não estava ninguém, começou a dizer à pedra isto:

— Pedra do palácio de meu pai, vou contar-te a minha vida.

E contou desde os passeios do jardim e da águia, até ali. E no fim de tudo a pedra deu um estoiro, e Clarinha disse:

— Abre-te, pedra, numa roda de navalhas, que me quero deitar nelas.

O príncipe então saiu debaixo da cama, e abraçou-a dizendo:

— Porque me não contaste teus males, querida Clarinha?

— Porque logo que a águia queria que eu passasse trabalhos, quis passá-los enquanto era nova, porque sempre tinha alguma esperança.

Dali a um momento os dois príncipes casaram-se, e foram ter com a rainha mãe da princesa, que ficou muito satisfeita e veio viver com eles.


Conto popular recolhido na ilha de São Miguel, Açores. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

19 janeiro 2019

Silva Porto


Pequena Fiandeira Napolitana, 1877, óleo sobre tela de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Por um curioso acaso, existiram dois homens chamados António e com o último apelido Silva, que nasceram na cidade do Porto e que por este facto adotaram o nome de Silva Porto. Ainda por cima foram contemporâneos. Um deles foi pintor e chamava-se António Carvalho da Silva. O outro foi explorador e comerciante em Angola e chamava-se António Francisco da Silva. O Silva Porto de que aqui se trata é o pintor.

António Carvalho da Silva (Silva Porto) nasceu no Porto em 1850 e faleceu em Lisboa em 1893. Começou os seus estudos artísticos na Academia Portuense de Belas-Artes. A seguir foi para Paris juntamente com Marques de Oliveira, outro notável artista portuense, onde ambos estudaram na Escola de Belas-Artes da capital francesa. A seguir Silva Porto viajou por Itália e finalmente regressou a Portugal, para lecionar na Academia de Belas-Artes de Lisboa. Silva Porto foi o introdutor em Portugal da corrente estética do Naturalismo. Pintou, sobretudo, paisagens rurais de Portugal, França e Itália, nas quais costumavam figurar pessoas trabalhando no campo. Fez parte do chamado "Grupo do Leão", que se reunia na Cervejaria Leão d'Ouro, em Lisboa, juntamente com Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, João Vaz, Rafael Bordalo Pinheiro, Henrique Pinto, Moura Girão, José Rodrigues Vieira e António Ramalho. Existe em Lisboa, concretamente na zona de Benfica, um parque que tem o seu nome, o Parque Silva Porto.


Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol, 1879, óleo sobre tela de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


A Ceifa, 1884 (?), óleo sobre madeira de Silva Porto (1850–1893), Casa-Museu Anastácio Gonçalves, Lisboa, Portugal


No Areinho, Douro, c. 1880, óleo sobre madeira de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal


Colheita — Ceifeiras, c. 1893, óleo sobre tela de Silva Porto (1850–1893), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

13 janeiro 2019

Os Meninos da Graça


Igreja e antigo convento de Nossa Senhora da Graça, Évora (Foto: José Manuel de Oliveira)

A Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora, que pertenceu a um antigo convento de frades agostinhos, é um excelente exemplo de igreja renascentista. Foi construída nos inícios do séc. XVI, talvez sobre as ruínas de uma igreja previamente existente, e há dúvidas sobre quem foi o arquiteto que a projetou, Miguel de Arruda ou Diogo de Torralva, mas a maioria das opiniões inclinase para Miguel de Arruda.

A fachada desta igreja, que é muito rica em elementos arquitetónicos (colunas, pilastras, frontão, etc.), chama a atenção, sobretudo, pelos rosetões que ostenta e pelas figuras escultóricas que a encimam. Estas representam quatro barbudos atlantes (dois de cada lado), a que o povo de Évora pôs o irónico nome de "Meninos da Graça".

No antigo edifício conventual, ao lado da igreja, está agora instalada a Messe de Oficiais de Évora.


Os dois "meninos" da esquerda (Foto de autor desconhecido)


Os dois "meninos" da direita (Foto: Ana Travasso)

06 janeiro 2019

Bach e o cego


O acordeonista russo Sergei Teleshev (que não é cego) interpreta em acordeão a Tocata e Fuga em Ré Menor, BWV 565, originalmente escrita para órgão por Johann Sebastian Bach (1685–1750)

Há um quarto de século (como o tempo passa!), eu vivia em Lisboa. Todas as manhãs ia apanhar o metro ao Marquês de Pombal, para me dirigir ao meu local de trabalho. Na estação do metro do Marquês costumava estar um cego tocando, num acordeão, as músicas que todos os cegos de Lisboa costumavam tocar: Lisboa Antiga, Uma Casa Portuguesa, etc. Mais por desfastio do que por qualquer outra razão, confesso, eu dava-lhe uma moeda antes de me dirigir para o cais de embarque.

Uma manhã, para meu grande espanto, o cego tocava, não as músicas do costume, mas sim, e de forma absolutamente irrepreensível, a Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach! Nem mais, nem menos! Nessa manhã fiquei a ouvi-lo até ao fim, deliciado com a música e espantado com a sua magnífica interpretação, dei-lhe mais dinheiro do que o habitual e acabei por chegar atrasado ao emprego…

Muito poucas semanas depois, saiu num jornal uma entrevista com esse cego. Não tinha sido só eu quem tinha reparado nele e na sua extraordinária mudança de repertório. Declarava o cego na entrevista que não era um pedinte, pois não estava ali a pedir nada a ninguém. Era um animador cultural, que estava na estação do metro a dar um pouco de alento às pessoas que passavam por ele, tristes e sonolentas, a caminho do seu emprego. E acrescentava que o dinheiro que as pessoas lhe davam não eram esmolas, era o seu salário de trabalhador independente.

Pouco tempo depois, mudei de casa, fui morar para perto da Alameda D. Afonso Henriques, deixei de tomar o metro no Marquês de Pombal e nunca mais soube do cego Músico (com M maiúsculo), virtuoso do acordeão e homem cheio de dignidade, que tocava para animar as pessoas e não para lhes pedir esmola. Lembrei-me dele agora, ao deparar-me com este vídeo no Youtube. O cego da estação do metro do Marquês de Pombal tocava assim, desta forma espantosa que neste vídeo se pode ver e ouvir.

01 janeiro 2019

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos      E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites      não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira (1927–1996)

31 dezembro 2018

Happy


Uma viagem virtual através de Angola e, sobretudo, das suas gentes, ao som da canção Happy, do músico norte-americano Pharrel Williams. "Happy" significa feliz, mas as imagens que se mostram neste vídeo não são de felicidade, como parece que querem fazer-nos crer. São imagens da jovialidade de um povo batalhador, que enfrenta as dificuldades da sua dura vida com um sorriso nos lábios

28 dezembro 2018

António Ramalho


Margens do Sena, Paris, 1882, óleo sobre tela de António Ramalho (1858–1916), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

António Ramalho foi um pintor português de origem humilde. Ainda muito novo, foi moço de recados numa mercearia do Porto, onde fazia desenhos no papel de embrulho do estabelecimento, às escondidas do patrão. Fugiu para Lisboa e frequentou a Real Academia de Belas-Artes de Lisboa, onde o pintor Silva Porto, que foi seu professor, o incitou a seguir a carreira de pintura. Passou dois anos em Paris, onde foi discípulo de Cabanel e se deixou influenciar pelas obras de Manet e de Bastien-Lepage. Em Lisboa, fez parte do chamado "Grupo do Leão", que costumava reunir-se na Cervejaria Leão d'Ouro, juntamente com Columbano, José Malhoa, João Vaz, Rafael Bordalo Pinheiro, Henrique Pinto, Silva Porto, Moura Girão e José Rodrigues Vieira. Apesar de ser um pintor de grande qualidade, António Ramalho tornou-se conhecido, sobretudo, como decorador, porque foi esta a função que lhe permitiu a sobrevivência económica.


Chez Mon Voisin ou O Lanterneiro, 1883, óleo sobre tela de António Ramalho (1858–1916), coleção particular


Retrato de Senhora de Preto, 1884, óleo sobre tela de António Ramalho (1858–1916), Casa-Museu Anastácio Gonçalves, Lisboa, Portugal


Retrato de Abel Acácio Botelho, 1889, óleo sobre tela de António Ramalho (1858–1916), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

23 dezembro 2018

O Afonso


Nesta fotografia, feita na noite de Natal de 1973 em Banza Sosso, Maquela do Zombo, Angola, o Afonso parece mais crescido do que era na realidade

No posto fronteiriço do Banza Sosso só havia polícias e agentes da PIDE/DGS, além dos militares. Não admira, portanto, que a população civil evitasse o Banza Sosso como se tivesse peste. Com toda a razão. O Banza Sosso era um lugar muito mal frequentado. Por isso, foi com grande espanto meu que, poucos dias antes do Natal de 1973, apareceu no destacamento militar do Banza Sosso um rapaz chamado Afonso, acompanhado de um irmão mais novo. Vieram ter comigo e pediram-me alojamento no quartel, até que conseguissem uma boleia para Kinshasa.

Todos os dias passava pelo Banza Sosso um camião carregado de peixe a caminho de Kinshasa, pelo menos, e o Afonso esperava convencer algum camionista a dar‑lhes boleia.

— O que é que vocês vão fazer a Kinshasa? — perguntei.

O Afonso respondeu-me de lágrimas nos olhos que a mãe deles vivia em Kinshasa, sentiam imensas saudades dela e queriam passar o Natal com ela.

— E ides assim sozinhos? Quem vos deu autorização? O vosso tio sabe? — perguntei de novo.

— Sabe, sabe — respondeu o Afonso. — O nosso tio disse que podíamos ir, mas que tínhamos que estar de volta antes do fim das férias de Natal, para não faltarmos à escola. Disse que nos castiga se faltarmos a alguma aula.

Se isto se passasse na Europa, eu não teria a mínima dúvida em mandá-los de volta para casa a grande velocidade. Mas eu estava em África, onde os costumes eram diferentes, nomeadamente no que diz respeito à educação das crianças.

Numa sociedade bantu matrilinear como era a dos bakongo, enquanto as meninas eram educadas pelas suas mães, os rapazes não eram educados pelos seus pais, mas sim por tios maternos. Ao contrário do que acontece na Europa, os pais não tinham qualquer autoridade sobre os seus filhos. Os tios é que tinham. «Então os pais não contavam para nada?», perguntar-se-á. Os pais contavam, e muito, mas não mandavam nos filhos. Estranho, não é?

O pai interessava-se pelos seus filhos, preocupava-se com o seu bem-estar, acarinhava-os e aconselhava-os, como se fosse um seu irmão mais velho, mais sábio e mais sensato. O pai sentia um verdadeiro amor pelos seus filhos e os filhos sentiam um verdadeiro amor pelo seu pai. Era um sentimento fortíssimo, este, mas era ao tio que competia dar a educação aos rapazes. O pai dava-lhes apenas amor. E era correspondido com amor.

Por outro lado, assim que abandonavam a cubata da mãe, o que acontecia por volta dos oito ou nove anos de idade, os rapazes iam viver para uma outra cubata, partilhada com outros rapazes da mesma idade, e passavam a gozar de uma grande liberdade de movimentos, ainda que sempre sob a vigilância dos seus tios. Digamos que esta era uma primeira fase na sua preparação para uma futura vida adulta, na qual só entrariam mais tarde, depois de terem passado pelos rituais da puberdade, incluindo uma circuncisão. Ora o Afonso, pela idade que aparentava ter, não era ainda um adulto, por não ter passado ainda pelos rituais referidos, mas já gozava de uma grande autonomia. E já podia tomar conta do irmão. Já era um homenzinho. A história que ele me contou tinha toda a aparência de ser verdadeira.

Dei alojamento a ambos, num quarto vago que por acaso havia no quartel, mas eles não puderam ir a Kinshasa passar o Natal com a mãe. O ditador Mobutu fechou as fronteiras do Zaire e nenhum camião passou pelo Banza Sosso. O Afonso e o irmão acabaram por passar o Natal connosco. Como, depois disso, a fronteira permanecia fechada e o Natal já tinha passado, mandei que eles fossem levados de regresso para a sua sanzala. Na volta, recebi um recado do tio deles, agradecendo a hospitalidade que dei aos seus educandos e acrescentando que, se eu precisasse de alguma coisa, era só dizer.