08 fevereiro 2023

Cedo feita


A igreja românica de São Martinho de Cedofeita, no Porto (Foto de autor desconhecido)

O nome da antiga freguesia de Cedofeita, no Porto (agora e por enquanto integrada na União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória) significa isso mesmo: cedo feita. Quando perguntados sobre que coisa foi cedo feita, os portuenses apontam para a igreja românica e dizem que foi ela. Na verdade, não foi bem assim. Passo a explicar.

Na sua origem, a designação de Cedofeita não se aplicou à igreja românica de São Martinho, tal como a vemos agora no Largo do Priorado, mas sim a uma igreja anterior, que existiu naquele mesmo local e foi construída no séc. VI, isto é, no tempo do Reino dos Suevos. Do primitivo templo pré-românico não restam vestígios, ainda que possamos considerar que as suas pedras tenham sido aproveitadas para a construção da igreja que agora lá está.


O rei suevo Miro, também chamado Ariamiro, e o bispo de Braga, São Martinho de Dume, numa representação de 1145. Foi a suposta cura milagrosa de Miro que levou à construção do primitivo templo de Cedofeita, no Porto, ordenada por seu pai, Teodomiro. De virtutibus quattuor (Federzeichnung lm Co. 791, fol. 109v). Biblioteca Nacional Austríaca, Viena, Áustria

A igreja original de Cedofeita, construída no séc. VI, foi mandada fazer por Teodomiro, rei dos Suevos, no cumprimento de uma promessa feita a São Martinho de Tours, depois da cura, supostamente milagrosa, operada por este santo ao seu filho e sucessor Miro, também chamado Ariomiro. Para tentar salvar o filho gravemente doente, Teodomiro tinha enviado a Tours, no Reino dos Francos, o bispo de Braga, São Martinho de Dume, transportando uma quantidade de ouro e de prata com peso equivalente à do seu filho. O bispo trouxe de volta uma relíquia de São Martinho de Tours e o milagre aconteceu. Miro ou Ariomiro curou-se e Teodomiro ordenou a construção da igreja em cumprimento da promessa.

Teodomiro, que seguira a seita do arianismo, já se tinha convertido ao catolicismo. O milagre operado no seu filho levou à conversão ao catolicismo da restante população do reino, que era pagã ou ariana. Diz-se que a rapidez com que a igreja foi construída levou à sua denominação de Cito Facta, isto é, Cedo Feita.

Há muitos anos, li não sei onde uma versão diferente para a origem do nome Cito Facta dado à igreja. Se a memória não me falha, a versão que li referia que, depois da cura do filho, Teodomiro enviou um emissário a Roma, encarregado de solicitar ao Papa autorização para a construção do templo. Quando o emissário regressou ao Porto com a autorização papal, encontrou a igreja já feita. Sentindo-se seguro de que esta autorização iria ser favorável, Teodomiro tinha ordenado a construção imediata da igreja, que assim foi "cedo feita".


O cabelo de um provável suevo, datado de entre os anos 135 e 385. Este cabelo apresenta o chamado "nó suevo", que é um nó dado a uma mecha de cabelo, que os suevos do sexo masculino costumavam usar. Este cabelo pertencia ao corpo de um homem encontrado numa turfeira, nas proximidades da aldeia de Dätgen, no estado de Schleswig-Holstein, norte da Alemanha. Archäologisches Landesmuseum Schloss Gottorf, Schleswig, Schleswig-Holstein, Alemanha (Foto de autor desconhecido)

Mas afinal — perguntar-se-á — quem eram esses tais Suevos, que estabeleceram um reino em terras que hoje são portuguesas e galegas?

Os Suevos foram uma tribo ou federação de tribos germânicas. Eram originários de uma região situada entre os rios Elba e Oder, junto ao Mar Báltico, no norte da Germânia. Os romanos chamavam ao Báltico Mare Suebicum.

Talvez pressionados pelas hordas de Hunos vindas da Ásia, os Suevos iniciaram uma migração para oeste e para sul, até encontrarem as fronteiras do Império Romano, onde as legiões que as guarneciam lhes barraram o caminho. Os Suevos permaneceram então durante algum tempo numa região do sudoeste da atual Alemanha, região esta que tomou o seu nome. Ainda hoje esta região se chama Suábia, sendo Stuttgart a sua cidade mais importante.

Em consequência da crescente pressão militar exercida sobre as suas fronteiras pelos Suevos e outros povos e tribos, que no seu conjunto eram chamados bárbaros, o Império Romano do Ocidente acabou por ceder na noite de 31 de dezembro do ano 406. Nessa noite, a Europa saiu de uma época, a da Antiguidade Clássica assente na pax romana, e entrava numa nova era, a que foi posto o nome de Idade Média. Os bárbaros invadiram o Império, este colapsou e a Europa mudou para sempre.

Para o atual território português dirigiram-se três povos. Nada menos do que três, que ainda por cima se contavam entre os mais temidos de todos. Estes povos foram os referidos Suevos, os Vândalos (outro povo germânico, cujo nome se tornou sinónimo de causadores de destruição e de morte) e os Alanos, que não eram germânicos, mas sim oriundos de uma região situada a norte do Cáucaso.


Foram os Suevos que destruíram a cidade de Conímbriga (Foto: Carole Raddato)

Chegados à parte mais ocidental da Península Ibérica, estes três povos encontraram o Oceano Atlântico pela frente a impedir-lhes o avanço mais para oeste. Entre ficar e voltar para trás, eles preferiram ficar. Repartiram entre si a faixa ocidental da Península, ficando uma tribo dos Vândalos e os Suevos mais a norte, outra tribo dos Vândalos no centro e os Alanos a sul. Não ficaram satisfeitos e procuraram conquistar territórios uns aos outros, ao mesmo tempo que enfrentavam a resistência das populações locais. Aqueles tempos foram tempos terríveis, de matanças, pilhagens e fomes generalizadas. Por exemplo, a cidade romana de Conímbriga foi atacada e destruída pelos Suevos, de tal modo que ela acabou por ser abandonada. As ruínas de Conímbriga lá continuam, como testemunhas de uma tragédia que teve lugar há 1600 anos, provocada pelos Suevos.

As diferentes configurações do Reino dos Suevos ao longo do tempo

Sem entrar em pormenores sobre os confusos acontecimentos ocorridos naquela época, refira-se que os Suevos saíram finalmente vencedores, expulsando os Vândalos e os Alanos da faixa ocidental da Península Ibérica. Os Suevos criaram então um reino, com capital na cidade de Braga, que foi o Reino dos Suevos, também chamado Reino da Galécia ou Reino de Portucale. Este foi o primeiro reino bárbaro estável surgido em toda a Europa após a queda do Império Romano do Ocidente, porque os Suevos se relacionaram com as populações conquistadas e acabaram por se pacificar. O cronista Paulo Orósio, que foi testemunha pessoal do que então se passou, escreveu que os Suevos depressa trocaram a espada pelo arado.

Representação do cronista Paulo Orósio, numa miniatura pertencente ao códice de Saint-Épure, do séc. XI

Entretanto, também chegaram à Península Ibérica os Visigodos, igualmente germânicos mas já bastante romanizados, que fundaram um reino próprio com capital em Toledo. Os Visigodos empreenderam a conquista de território aos Suevos, sempre cada vez mais, até à conquista final, ocorrida no Porto. O Reino dos Suevos desapareceu, absorvido pelo dos Visigodos, mas as regiões que os Suevos tinham ocupado mantiveram uma certa autonomia. Tudo indica que a nobreza sueva permaneceu nas suas terras, mais ou menos como anteriormente, com a diferença de que tinha passado a estar submetida ao rei dos Visigodos e não ao rei dos Suevos.

Desde que chegaram a estas paragens no séc. V, os Suevos foram adotando a língua, os usos e os costumes das populações celto-romanas que conquistaram. Ao mesmo tempo, também foram misturando os seus genes com os destas populações, até que deixaram de existir como uma entidade étnica e cultural diferenciada. Deixou de haver Suevos enquanto tais.

Agora que sabemos um pouco sobre os Suevos, a cujo rei Teodomiro se deve a primitiva igreja de Cedofeita, assim como a possível origem do próprio nome "Cedofeita", voltemos a incidir a nossa atenção sobre a igreja românica que a substituiu. Tudo indica que esta igreja tenha sido erguida no lugar da outra, após a tomada da cidade do Porto aos mouros, no ano 868, pelo cavaleiro Vímara Peres.

Estátua de Vímara Peres, o primeiro conde portucalense, idealizada pelo escultor Salvador Barata Feyo (1899–1990). Esta estátua foi inaugurada em 1968, por ocasião das celebrações do 1100.º aniversário da presúria da cidade do Porto (Foto: Diego Delso)

Não se pode dizer que o Porto tenha sido conquistado aos mouros, porque provavelmente não chegou a haver combates. Os mouros terão abandonado a cidade antes da chegada das forças cristãs, atravessando o rio Douro e passando-se para Gaia, para se juntarem aos que já lá estavam. Por isso se fala em "presúria" do Porto e não em conquista. Esta presúria marca o início da existência do Condado Portucalense, que foi criado pelo rei das Astúrias Afonso III e atribuído a Vímara Peres, em reconhecimento pela tomada da cidade, que se chamava Portucale e agora se chama Porto. Vímara Peres foi portanto o primeiro conde portucalense.

Após a sua construção no séc. IX, a igreja românica atual de Cedofeita sofreu muitas transformações e acrescentos ao longo dos tempos. Já no séc. XX, procurou-se repor a sua traça, tal como ela teria sido no séc. XIII. É esta a traça que a igreja apresenta atualmente.

O interior da igreja românica de Cedofeita, no Porto (Foto: Manuela Freitas)

04 fevereiro 2023

Uma cadeira muito temperamental


A Chairy Tale, um filme de curta metragem realizado por Norman McLaren (1914–1987) e Claude Jutra (1914–1986)

02 fevereiro 2023

Jesu Redemptor, de Estêvão Lopes Morago


O agrupamento coral britânico Pro Cantione Antiqua, dirigido por Mark Brown, interpreta Jesu Redemptor, do compositor espanhol Estêvão Lopes Morago, que nasceu em Vallecas (Madrid) por volta de 1575, viveu e trabalhou em Viseu, e em Viseu deve ter falecido em data indeterminada, provavelmente em 1630 ou pouco depois

29 janeiro 2023

Desespero

Do escravo foi tirada a terra, o nome, a família
Foi tirada a pátria, a casa, a existência
Tiraram-lhe o corpo e ficou de alma nua
Até da saudade o escravo foi privado
Saudade de quê, se não tem nada nem ninguém?
Por isso rogamos: Deus, faz então o teu milagre
E cura a angústia dos africanos nascidos na América

Paulina Chiziane, escritora moçambicana, Prémio Camões 2021

23 janeiro 2023

Concerto "O Rio Amarelo"


 
O pianista chinês Haochen Zhang, acompanhado pela Orquestra do Centro Nacional de Artes Cénicas, da China, dirigida por Lü Jia, interpreta o Concerto para Piano "O Rio Amarelo", de Yin Chengzong, Liu Zhuang, Chu Wanghua, Sheng Lihong, Shi Shucheng e Xu Feixing, com base na Cantata do Rio Amarelo, de Xian Xinghai, escrita durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, que ocorreu entre 1937 e 1945. Neste concerto, assim como na cantata que lhe deu origem, o Rio Amarelo simboliza a combatividade chinesa contra os invasores japoneses. Estreado em 1970, sob a direção de Jiang Qing, mulher do presidente Mao, este concerto foi proibido após o fim da Revolução Cultural, mas veio a ressurgir pouco a pouco, até se impor em definitivo. O Concerto para Piano "O Rio Amarelo" é composto por quatro andamentos: A Canção do Barqueiro do Rio Amarelo, Ode ao Rio Amarelo, A Ira do Rio Amarelo e Defesa do Rio Amarelo

20 janeiro 2023

Frente a frente

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
— e é tão pouco!

Eugénio de Andrade (1923–2005)


(Foto: Getty Images)

18 janeiro 2023

Vieira Portuense


Leda e o Cisne, 1798, óleo sobre tela de Vieira Portuense (1765–1805). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

A Pintura, 1800, óleo sobre tela de Vieira Portuense (1765–1805). Palácio Nacional de Queluz, Queluz, Portugal

Retrato de Desconhecido, óleo sobre tela de Vieira Portuense (1765–1805). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

D. Filipa de Vilhena Armando Seus Filhos Cavaleiros, 1801, óleo sobre tela de Vieira Portuense (1765–1805). Esta obra pertencia a uma coleção particular e foi destruída por um incêndio em 2007

Vieira Portuense foi um pintor neoclássico português, de seu nome próprio Francisco Vieira, nascido em 1765 na cidade do Porto, razão pela qual adotou o nome artístico de Vieira Portuense. A escolha deste nome talvez constitua uma homenagem a um outro Francisco Vieira (1699–1783), que foi um notável pintor barroco e que usava o nome Vieira Lusitano.

Vieira Portuense terá aprendido a pintar na sua cidade natal com o seu pai e com João Glama Ströberle (1708–1792) e Jean Pillement (1728–1808). Além disso, deve ter frequentado a Aula de Debuxo e Desenho do Porto. Posteriormente frequentou a Casa Pia e a Aula Régia de Desenho, em Lisboa. Seguiu para Roma, onde continuou os seus estudos com Domenico Corvi (1721–1803), e viajou por vários países. Regressou a Portugal em 1800 e fixou-se na Madeira, a fim de tirar partido do clima ameno da ilha, na vã tentativa de curar uma tuberculose que entretanto contraíra. Morreu da doença em 1805 e está sepultado na Sé do Funchal.

14 janeiro 2023

Sem calos nem joanetes


Pé de uma camponesa mucubal (kuvale) da província do Namibe, Angola (Foto: Selma Fernandes)

Sandálias de tipo tradicional dos pastores e camponeses do Namibe, Huíla e Cunene, em Angola, chamadas nonkakos. Antigamente estas sandálias eram feitas de couro, mas agora são feitas a partir de pneus usados (Foto: Tonspi)

12 janeiro 2023

Os efeitos nefastos do garimpo ilegal na Amazónia


Amazônia sem Garimpo, um pequeno filme de desenhos animados da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

05 janeiro 2023

Uma polca


O pianista Phillip Sear interpreta a polca Glória, de Eduardo Medina Ribas, que nasceu no Porto em 1822 e morreu no Rio de Janeiro em 1883

01 janeiro 2023

Escrevemos docemente

Escrevemos docemente. Se a figura
sobe de estar tão funda a essa mesa
é que escrever se lembra. E só da altura
de se lembrar percorre a linha acesa

a ponta de escrever, que traça a pura
forma de rosto que abre na tristeza.
E a tristeza ilumina de escultura
penumbras de volumes com que pesa.

Por isso é docemente que da linha
de estar ali aonde sempre esteve
aparece figura de rainha

que sempre foi e agora só se escreve.
E escrevermos é como se na vinha
o sol se iluminasse. E fosse breve.
Fernando Echevarría

31 dezembro 2022

Haja alegria


Rapsódia Húngara N.º 2, de Franz Liszt, numa interpretação humorística de Victor Borge e Leonid Hambro

Trecho do filme Moulin Rouge, de John Huston, contendo o Galope Infernal, da ópera Orfeu nos Infernos, de Jacques Offenbach

28 dezembro 2022

Francisco Smith


Lisboa—Alfama, 1920, óleo sobre tela de Francisco Smith (1881–1961). Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

A Costa do Castelo, óleo sobre tela de Francisco Smith (1881–1961). Museu de Lisboa, Lisboa, Portugal

As Escadinhas, c. 1934, óleo sobre tela de Francisco Smith (1881–1961). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal

Francisco Smith foi um pintor português de ascendência inglesa, nascido em Lisboa em 1881. Fixou residência em Paris em 1907 e, na década de 30, naturalizou-se francês e passou a assinar as suas obras como Francis Smith. Desde que saiu do país até à sua morte, ocorrida em 1961, poucas vezes voltou a Portugal. Estes factos poderiam levar-nos a concluir que Francisco Smith se desinteressou pelo país que o viu nascer, mas nada poderia estar mais longe da verdade. Portugal e, sobretudo, a sua Lisboa natal estiveram sempre presentes na sua obra, em quadros cheios de ingenuidade que evocam as recordações da sua infância.

26 dezembro 2022

Prenda de Natal


Quando eu era criança, recebi uma vez pelo Natal esta prenda, que foi feita pelo meu pai com as suas próprias mãos nas horas livres. Só as rodas não são as originais. O meu pai chamava-se Guilherme e morreu quando eu tinha oito anos de idade

24 dezembro 2022

Luz do mundo


A Natividade Mística, óleo sobre tela de Sandro Botticelli (1445–1510). National Gallery, Londres, Reino Unido

De hoje a uma semana, será dia de Natal. O Menino, que nasceu há mais de 2000 anos, terá nascido de novo. A oportunidade será dada a todos nós de voltarmos à estaca zero: às primeiras horas do cristianismo - da nova religião cuja nascença com a nascença do Menino celebramos.

O que trouxe a nova religião?

1) Luz. «Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz» (João 1:4-5).

2) Liberdade. «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (Marcos 2:27).

3) O fim do ódio. «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam» (Lucas 6:27).

4) A solução para a vida humana. «Fazei o bem... sem nada esperar em troca» (Lucas 6:35).

5) A compreensão humana. «Não julgueis para que não sejais julgados» (Mateus 7:1).

6) O despojamento. «Não acumuleis para vós tesouros na terra» (Mateus 6:19).

7) A justiça. «Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino dos céus» (Mateus 5:10).

A aceitação de todas e de todos. «Eu não julgo ninguém» (João 8:15).

Infelizmente, os mais de 2000 anos que nos separam do nascimento do Menino mostram-nos um cristianismo que, em vez de luz, trouxe e traz tantas vezes o obscurantismo; em vez da liberdade, trouxe e traz tantas vezes o aprisionamento das mentes; em vez do fim do ódio, fomentou-o exponencialmente (entre cristãos e entre cristãos e judeus); em vez do despojamento, encontrou maneira de dar a senhores de engenho, ditadores e bilionários o reconforto de se considerarem bons cristãos; em vez de estar do lado dos perseguidos, esteve tantas vezes do lado dos perseguidores; e em vez de aceitar as pessoas na diversidade com que Deus quis que nascessem, tudo fez para excluir tantas e tantos.

Mas a beleza do Natal — e a esperança do Natal — é que, ao celebrarmos todos os anos o nascimento do Menino, todos os anos podemos começar do zero. A nova religião que o Menino trouxe e traz — todos os anos, cada dia, cada hora, cada segundo — está sempre a tempo de cumprir a sua verdadeira vocação. Este Natal, o mundo ainda vai a tempo de se tornar, no verdadeiro sentido da palavra, verdadeiramente cristão. Basta somente todas e todos querermos. A mensagem do Menino é que, se quisermos, podemos fazer do mundo em que vivemos o «Céu» na «Terra».

«Eu sou a luz do mundo» (João 8:12)

«Vós sois a luz do mundo» (Mateus 5:14)



Frederico Lourenço, Coimbra, 18 de dezembro de 2017

18 dezembro 2022

Música de Zemba, município de Nambuangongo, Angola


Uma canção popular de Zemba, município de Nambuangongo, província do Bengo, Angola, por um habitante local chamado Gabriel António, que canta em kimbundu e se acompanha à viola. Nova digitalização de uma gravação feita em dezembro de 1972

Há 50 anos certos, praticamente dia por dia, gravei numa cassete audio analógica um conjunto de canções populares de Zemba, município de Nambuangongo, província do Bengo, Angola, interpretadas por habitantes locais. Das gravações feitas, destaco duas, cuja qualidade técnica deixava muito a desejar e que procurei melhorar. A primeira delas, apresentada acima, tinha sido mal processada na sua passagem para o formato digital. Foi digitalizada de novo, com uma significativa melhoria na sua qualidade técnica.

A segunda gravação, que é apresentada em baixo, encontrava-se em péssimas condições, com inúmeros cortes no som original. No sentido de a melhorar, procedi a uma pesada compressão da gama dinâmica, no sentido de tornar mais audíveis os muitos fragmentos que o mau estado da cassete quase apagou. O resultado não é nada brilhante, mas foi o melhor que consegui fazer. Pelo facto, peço muita desculpa.

Música popular de Zemba, interpretada pelos habitantes locais Gabriel António e Gonçalo, que cantam em kimbundu e se acompanham em violas. A gravação foi feita em dezembro de 1972, em cassete audio analógica, cuja fita se encontra em péssimas condições

14 dezembro 2022

Prefixos do Sistema Internacional de Unidades (SI)


(Foto de autor desconhecido)

Foram internacionalmente aprovados novos prefixos para as grandezas do Sistema Internacional de Unidades, também chamado Sistema Métrico. São quatro os novos prefixos, dois aumentativos (para grandezas verdadeiramente monstruosas) e dois diminutivos (para grandezas incrivelmente minúsculas): ronna, quetta, ronto e quecto.

Assim, os principais prefixos do SI passam a ser os que se indicam a seguir.

deca (símbolo da) = 10
hecto (símbolo h) = 100
kilo (símbolo k) = 1000 = 103 (dez elevado a três)
mega (símbolo M) = 106
giga (símbolo G) = 109
tera (símbolo T) = 1012
peta (símbolo P) = 1015
exa (símbolo E) = 1018
zetta (símbolo Z) = 1021
yotta (símbolo Y) = 1024
ronna (símbolo R) = 1027
quetta (símbolo Q) = 1030

O Sol que nos ilumina, por exemplo, pesa cerca de 2 quettagramas, isto é, 2000000000000000000000000000000 gramas (dois seguido de trinta zeros).

Agora, para as grandezas infinitesimais passamos a ter:

deci (símbolo d) = 0,1
centi (símbolo c) = 0,01
milli (símbolo m) = 0,001 = 10-3 (dez elevado a menos três)
micro (símbolo μ) = 10-6
nano (símbolo n) = 10-9
pico (símbolo p) = 10-12
femto (símbolo f) = 10-15
atto (símbolo a) = 10-18
zepto (símbolo z) = 10-21
yocto (símbolo y) = 10-24
ronto (símbolo r) = 10-27
quecto (símbolo q) = 10-30

Um electrão, por exemplo, pesa cerca de 0,9 quectogramas, isto é, 0,0000000000000000000000000000009 gramas (zero vírgula trinta zeros e um nove no fim).

09 dezembro 2022

Rogério salva Angélica


Rogério salva Angélica, 1819, óleo sobre tela do pintor francês Jean Auguste Dominique Ingres (1780–1867). Museu do Louvre, Paris, França 

Rogério salva Angélica é uma pintura de Ingres, que representa uma cena do livro Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, poeta italiano dos princípios do séc. XVI. Este livro, por sua vez, foi inspirado num outro, chamado La Chanson de Roland, publicado pela primeira vez no séc. XI e de autor anónimo. La Chanson de Roland gozou de uma enorme popularidade durante a Idade Média e inspirou inúmeros trovadores, poetas e artistas europeus, entre os quais Ariosto. Por sua vez, o poema Orlando Furioso de Ariosto inspirou outros poetas e artistas, entre os quais se conta Ingres, num processo em cadeia.

A gesta de Roland/Orlando gira em volta da guerra entre cristãos e sarracenos no tempo de Carlos Magno. Eu nunca li La Chanson de Roland, nem Orlando Furioso, nem Orlando Enamorado de Boiardo, mas talvez devesse, por causa da importância que estas obras tiveram para a cultura europeia. Nestas condições, confesso a minha ignorância sobre estas obras literárias e valho-me do pouco que pesquisei na internet.

Angélica é uma princesa, filha do rei de Catai, isto é, da China, que surge na corte do imperador Carlos Magno e pela qual todos os cavaleiros se apaixonam, incluindo o cavaleiro Orlando. Angélica, porém, enamora-se e, eventualmente, casa-se com um mouro, o que deixa Orlando furioso. Angélica acaba por se achar numa situação idêntica à da grega Andrómeda, que foi salva por Perseu, ou seja, encontra-se nua e acorrentada a uma rocha à beira-mar, para ser devorada por um monstro marinho. É salva por Rogério, que mata o monstro.

Rogério é um cavaleiro mouro nascido no Norte de África, filho de uma moura e de um cavaleiro cristão, e que desembarca na Europa integrado no exército sarraceno. Depois de muitas e confusas peripécias, a Rogério é oferecido um hipogrifo, que é um animal imaginário, híbrido de cavalo e de grifo. É montando no seu hipogrifo que Rogério salva Angélica do monstro.

05 dezembro 2022

Pré-história de guerra


1.
a pomba foi morta pelo general

calculou    o sítio exacto
o lugar único     onde a morte esperava

no relatório omitiu a cor branca da vítima
e aquela leve pluma de ternura
visível no seu olhar     depois de morta

parecia mais pena     do que saudade ou terror
mais um enorme peso de braços caídos
do que o gelo transido do pânico

o general descreveu com precisão
a trajectória magnífica do tiro
o seu rigor     a rapidez fatal

com palavras antigas    sincopadas
ao ritmo dos tambores de mil batalhas

2.
quando pouco tempo depois lhe disseram
que o neto    o filho    a sua velha mãe
a mulher cujo sabor guardava dia a dia
a casa com jardim e duas árvores
a rua suave     a cidade onde nascera
eram agora uma nuvem espessa de cinza
onde a custo emergia o esqueleto de uma árvore sozinha

o general suspendeu o relatório
e teve um suor frio vindo da raiz da alma

mas quando lhe vieram dizer pouco depois
que era inútil mandar o relatório
porque o lugar que o ia receber não existia

o general chorou como um menino perdido

e foi então que o sol se perdeu numa nuvem de poeira
e um doce sabor a morte    azul e profundo
entrou pelo general até aos ossos

3.
a mão do general ficou ligeiramente tombada
sobre a folha do relatório vitorioso

ocultou um pouco a trajectória da bala
a palavra pomba parecia agora levemente manchada

e junto à porta o olhar fixo do jovem ajudante
era um vidro de espanto gravado no general

tudo à volta estava finalmente tranquilo
a paz fulminantemente conquistada

Rui Namorado


(Foto de autor desconhecido)

03 dezembro 2022

Dois caprichos


Capricho Italiano, op. 45, do compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840–1893), pela Orquestra Filarmónica da Rádio dos Países Baixos dirigida pelo maestro neerlandês Antony Hermus

Em 1880, Tchaikovsky viajou até Roma e ficou tão entusiasmado com a música popular que lá ouviu, que compôs uma fantasia sinfónica dedicada a Itália, a que chamou Capricho Italiano.

Como que em resposta, Rimsky-Korsakov, que era amigo pessoal de Tchaikovsky, estreou em 1887 uma outra fantasia, a que deu também o nome de capricho, mas desta feita um Capricho Espanhol.

Capricho Espanhol, op. 34, do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov (1844–1908), pela Orquestra Sinfónica da Rádio de Frankfurt, Alemanha, dirigida pelo maestro espanhol Pablo Heras-Casado