17 dezembro 2018

Nudez e dignidade


Duas senhoras indígenas do Brasil, em fotografia publicada por Yakuna Ullillo Ikpeng na sua página nas redes sociais. Esta fotografia foi objeto de vários comentários, feitos quase todos por indígenas cuja língua não é o português, de entre os quais destaco os seguintes:
Máfrãn Opll Ikpe Grandes Guerreira que lutaram para criar filhos como futuro defensores seus diretor...Agradeço pelas lutas....Mesmo as recordações dos momento estando presente em nossas memórias...Seram eternas avós....Sdds vós!
Américo Ikpeng São duas guerreiras que estão sempre comigo, nenhum momento deixo de pensar nelas! Não esqueça dos conselhos, sofrimento, eu pessoas que peço todas as noite para cuidar de mim. São pessoas com quem converso nas noites, são quem me dão forças para lutar po Pelo meus objetivos. Onde quer que estejam sempre saberão que aqui terra tem um neto com muito saudade delas!
Anna Terra Yawalapiti São muito lindas e com certeza foram muito especiais....
Wr Ikp Yahati Saudade e o sinal do corpo que quer voltar a viver do lado da pessoa que amamos
Joey Amtenu Mary Ikpeng Passaram a vida enteira cuidando de nós e hoje só deixaram saudade e lembrança boas na nossa vida!! Saudade de vc tia , vc foi tudo como mãe e sempre será!!


Alguns dos povos aparentemente mais despidos do mundo são de facto extremamente pudicos. Por exemplo, os membros de um certo número de tribos da Amazónia andam nus, a não ser com um fio à cintura. Em algumas delas, os homens amarram o seu prepúcio ao fio, de modo a que o pénis esteja sempre levantado e encostado à sua barriga (o que tem o efeito — desejado — de dissimular as ereções). Um índio ficaria tão envergonhado se fosse visto sem o seu fio, como ficaria um sonâmbulo que acordasse nu numa rua de uma cidade. Mesmo as meninas pequenas, "vestidas" apenas com um fio, são frequentemente avisadas para se sentarem com as suas pernas unidas, a fim de manterem a decência.

Os homens Yanomami, tal como os de outros povos indígenas da Amazónia, usam tradicionalmente o pénis levantado por um fio. (Foto: Claudia Andujar)

A vergonha relativamente à nudez está imbuída no espírito de muitas pessoas, embora nem sempre se aplique às mesmas partes do corpo. Por exemplo, há correntes do Islão que exigem que o cabelo das mulheres seja mantido coberto, tal como faziam algumas cristãs no passado (é por isso que a rainha de Inglaterra usa um chapéu quando vai à igreja!). Algumas tribos do mundo muçulmano também aplicam a regra: o cabelo das mulheres não é para ser mostrado publicamente.

Os seios das mulheres, por outro lado, são livremente mostrados em muitos lugares. Por exemplo, as mulheres Emberá, da Colômbia, andam de peito descoberto, mas devem conservar os lados das suas coxas tapados. Um fato de banho ocidental seria considerado indecente por elas.

Uma camponesa Mucubal ou Kuvale, da província do Namibe, Angola. Para a generalidade das camponesas do sudoeste de Angola, e não só, não é indecoroso andar com os seios descobertos; o que é indecoroso é andar com o traseiro descoberto. (Foto: Selma Fernandes)

A visão errada de que a nudez tribal fomenta a licenciosidade era comum entre os missionários do séc. XIX e ainda não desapareceu. Por outro lado, alguns ocidentais liberais aprovam a falta de roupas de algumas tribos, pensando que tal significa que são livres de inibições. Ambos os lados estão errados: não só os povos tribais não estão nus aos seus próprios olhos, mas também as suas regras e convenções, sobre quem pode ter relações sexuais com quem, são frequentemente observadas de modo muito mais rigoroso do que no Ocidente.

Índias Yawalapiti, Parque Indígena do Xingu, MT, Brasil (Foto: Emerson Penha)

Apesar de tudo isto, um dos princípios nucleares do esforço missionário era, e continua a ser, vestir os indígenas nus. Este simples preconceito veio a ser uma das armas mais mortíferas do colonialismo. As roupas foram um importante veículo de doenças fatais, que mataram mais indígenas do que qualquer outra coisa, causando a morte, talvez, de milhões deles por todo o mundo. Há vários relatos que afirmam que foram deliberadamente distribuídas roupas e mantas infetadas com germes mortíferos, em especial da varíola, por indígenas das Américas. Há um caso comprovado para justificar esta afirmação: em 1763, um oficial britânico fez com que um par de mantas, que tinham sido usadas por vítimas da varíola, fosse parar às mãos dos índios que cercavam o seu forte, no que é agora a cidade norte-americana de Pittsburgh. A guerra biológica tinha sido praticada na Europa e no Médio Oriente desde a antiguidade clássica e parece haver razões para acreditar que possa ter sido usada também para a destruição dos índios americanos. Seja como for, mesmo que as roupas não tenham sido contaminadas de propósito, elas foram um instrumento de morte.

Os povos das florestas equatoriais que tenham sido recentemente expostos a vírus novos (para eles), tais como os simples vírus da gripe e da constipação, acabam por ficar apáticos, sem saberem como reagir. Se uma comunidade inteira for afetada, as pessoas muitas vezes deixam de procurar comida e ficam cada vez mais fracas. O ciclo pode rapidamente degenerar em pneumonias fatais, agravadas pelo uso de roupas húmidas e por lavar.

É claro que o vestuário pode ser uma marca de identidade tribal ou de grupo, de nível social ou de profissão, tal como o podem ser os penteados, as pinturas corporais, as joias e as tatuagens e escarificações. Tudo isto pode ser usado como um simples meio de embelezamento e nada mais. Os membros de povos tribais preocupam-se com a sua aparência tanto como as outras pessoas, em particular se alguma festa estiver a ser planeada ou se quiserem chamar a atenção de alguém (relacionada muitas vezes com sexo, é claro). Os homens Maasai podem gastar mais tempo a cuidar do seu elaborado penteado, do que uma adolescente de Berlim que se prepare para sair para uma noitada.

Homem Maasai, Lago Natron, Tanzânia (Foto: Massimiliano Orpelli)

Muita da ornamentação usada pode não ter um significado profundo mas, mesmo assim, o que ela exprime parece existir desde a mais remota pré-história. Têm sido encontradas contas de colares com dezenas de milhares de anos, e há todos os motivos para pensar que o simples embelezamento pode ter antecedido outras razões mais "práticas" para o uso de vestuário. Parece que todos aqueles que, como eu, não entendem a importância do uso de acessórios de beleza estão simplesmente errados!

Também deve salientar-se que o conceito de "estilos de penteado" inclui igualmente os pelos do corpo. Os homens de algumas tribos têm pouquíssimos pelos; quando muito, possuem uma escassíssima barbicha. Tanto os pelos púbicos como os da cara podem ser rapados com madeira rija ou pedra, atualmente com máquinas de barbear, ou simplesmente arrancados. Na verdade, o que as pessoas fizerem com o seu cabelo e com os seus pelos é tão importante como o facto de usarem ou não roupas. É claro que isto também se aplica a muitos ocidentais, qualquer que seja o seu sexo. (...)


Stephen Corry, Tribal Peoples for Tomorrow's World


Os homens de alguns povos nilóticos da Etiópia, Sudão do Sul e Sudão costumam andar nus e depilados, mas pintam frequentemente o seu corpo (Foto de autor desconhecido)

12 dezembro 2018

Espinho e as suas igrejas matrizes


Em 1909, a primitiva igreja matriz de Espinho foi engolida pelo mar (Foto de autor desconhecido)

Espinho é uma cidade cujas origens remontam a um pequeno conjunto de casas de madeira, construídas sobre estacas em cima do areal da praia. Estas casas, chamadas palheiros, eram ocupadas sazonalmente por pescadores vindos, certamente, de Ovar, Furadouro e outras localidades da Ria de Aveiro. A fixação de população residente em Espinho, vivendo, portanto, de forma permanente nos tais palheiros, deve remontar ao séc. XVIII. Poderíamos, por isso, dizer que Espinho é uma cidade praticamente sem História, de origem recente e de raízes extremamente humildes. Poderíamos dizer, mas não podemos. O mar encarregou-se de fazer História em Espinho, e que História!

Por razões que desconheço, o mar começou a investir violentamente contra Espinho em 9 de março de 1869, a fazer fé no que consta do blog d'Espinho Viva. Um professor de Ciências Naturais que tive no liceu e que era geólogo, asseverava que uma tal investida do mar sobre Espinho se devera à construção do porto de Leixões. Ora em 1869 o porto de Leixões ainda não tinha sido construído. Uma outra razão terá havido para o ataque do mar sobre Espinho, que não o ainda inexistente porto na foz do Rio Leça.

Seja qual for a razão para a fúria do mar em Espinho, o que é certo é que durante as décadas que se seguiram ele avançou pela terra dentro, engolindo casas e ruas inteiras, incluindo a modesta igreja matriz da então pequena vila. Ainda segundo o blog d'Espinho Viva, o mar avançou 185 metros pela terra dentro entre os anos de 1869 e 1913! A igreja da vila foi engolida pelas ondas em 1909, havendo algumas dramáticas fotografias do acontecimento. Julgo ter lido há bastante tempo que as pedras que constituiram as paredes desta igreja podem ser vistas no fundo do mar, a uma distância de cerca de trinta metros da atual linha de costa, mais ou menos em frente à Rua 19.

Seria de esperar que, perante um tão furioso mar, a população de Espinho abandonasse a vila e se mudasse para paragens mais seguras, mas tal não aconteceu. Espinho já se tinha vindo a tornar uma estação balnear de eleição, beneficiando do facto de estar ligada diretamente por caminho de ferro a Lisboa, Porto e Viseu e de a sua estação se encontrar bem no meio da vila. Quem desembarcasse do comboio em Espinho, logo teria à sua volta uma oferta de hotéis e de pensões para as mais diversas bolsas, além de um casino para as bolsas mais abastadas. Espinho já não tinha só praia; tinha uma vida social intensa, que fazia esquecer a fúria do mar. E foi assim que a vila cresceu e continuou a crescer.

Havia que construir uma nova igreja matriz para Espinho, que substituísse o pequeno templo que o mar engoliu. Foi o que se materializou na década de 30 do séc. XX. O projeto da nova igreja matriz de Espinho foi da autoria do arquiteto Adães Bermudes, um dos mais destacados arquitetos portugueses do seu tempo. Adães Bermudes concebeu um templo grande e airoso, que foi erguido bastante longe do mar. O arquiteto seguiu a corrente dominante nessa época, em que o Estado Novo se tinha imposto triunfante ao país: a glorificação do passado e um revivalismo medieval. Alinhando com este revivalismo, Adães Bermudes projetou então uma igreja neorromânica, inspirada, segundo me parece, nas igrejas românicas francesas e da Europa Central em geral, e não nas igrejas românicas portuguesas, que geralmente são muito mais rústicas. O que ficou feito em Espinho foi obra asseada. A atual igreja matriz, que é dedicada a Nossa Senhora da Ajuda, padroeira da cidade, é o único monumento digno desse nome que em Espinho existe e não envergonha ninguém.


A atual igreja matriz de Espinho (Foto: *rosam@r)

04 dezembro 2018

Jorge Bacelar


(Foto: Jorge Bacelar)

Jorge Bacelar é um médico veterinário residente na Murtosa, que alia a sua atividade profissional entre as gentes do campo à sua paixão pela fotografia. Apesar de ser um fotógrafo amador e autodidata, Jorge Bacelar tem vindo a impor-se a nível nacional e internacional, tendo recebido vários prémios. Tem realizado algumas exposições no concelho da Murtosa e nos vizinhos concelhos de Estarreja e de Ovar, também em Figueira de Castelo Rodrigo, sua terra natal, e este ano teve a honra de ver algumas das suas fotografias expostas nos jardins do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Presentemente tem uma exposição patente no Barreiro, chamada Ruralidades, que pode ser vista no Auditório Municipal Augusto Cabrita até ao dia 10 de fevereiro de 2019.

Jorge Bacelar vai ser entrevistado por Maria João Seixas no dia 16 de dezembro às 23h 15m, no programa Afinidades na RTP2.


(Foto: Jorge Bacelar)

(Foto: Jorge Bacelar)

(Foto: Jorge Bacelar)

(Foto: Jorge Bacelar)

(Foto: Jorge Bacelar)

(Foto: Jorge Bacelar)

(Foto: Jorge Bacelar)

Rapariga com Brinco de Pérola, óleo sobre tela do pintor holandês Johannes Vermeer (1632–1675)

01 dezembro 2018

Tragédia no mar


Tragédia no Mar, óleo sobre tela de Augusto Gomes (1910–1976)

Na madrugada de 1 para 2 de dezembro de 1947 ocorreu uma terrível tragédia no mar, onde morreram 152 pescadores entre a Aguda (Vila Nova de Gaia) e Leixões. O notável escultor e pintor matosinhense Augusto Gomes evocou esta tragédia num arrepiante quadro, que exprime de forma sublime o desespero dos familiares dos náufragos que acorreram à praia de Matosinhos. É o quadro que se reproduz acima.

Como foi que aconteceu tamanha desgraça? Numa página da Wikipédia dedicada ao funesto acontecimento, pode ler-se:

No dia 1 de dezembro de 1947, as traineiras começaram a chegar ao porto de Leixões com escasso peixe nos porões. A meio da manhã, entrou uma traineira carregada de sardinha e os outros mestres, perspectivando uma boa pescaria, chamaram os seus tripulantes e começaram a aprovisionar os barcos para outra saída. Durante essa tarde, apesar de haver vários prenúncios de temporal, fizeram-se ao mar 103 traineiras que rumaram em direcção à Figueira da Foz. Nessa altura, o espectro da fome era maior do que o do medo (...).

Passadas algumas horas, o tempo mudou radicalmente, vendo-se as traineiras envolvidas num imenso temporal. As ondas fortíssimas chegaram a subir aos 10 metros, enquanto o vento rodava para Noroeste e o ar arrefecia drasticamente. Algumas traineiras resolvem regressar para Leixões, mas a grande maioria decide continuar. Ao anoitecer, a noite ficou negra e sem lua enquanto as nuvens carregadas tapavam completamente o céu e os ventos se transformavam em ciclónicos. Nessa altura, já todos andavam a tentar fugir ao temporal, esforçando ao máximo os motores e as máquinas das traineiras, procurando desesperadamente um porto de abrigo, enquanto que o mar levava marinheiros borda fora e enchia os porões das traineiras de água.

Noite adentro, em terra, corriam murmúrios de que algo corria mal e as pessoas corriam desesperadas em direcção ao areal da praia nova, em Matosinhos. Na cabeça do molhe sul do porto de Leixões, as mulheres e os filhos dos marinheiros apinhavam-se ao vislumbrar as luzes de navegação das traineiras que se aproximavam desesperadamente do porto. Assim que as primeiras traineiras aportaram, relataram as más noticias, tinham sido avistadas, entre a Aguda e o Senhor da Pedra, quatro traineiras a navegar em situação aflitiva muito perto da costa, e que, apesar de alguns mestres terem tentado avisálos e orientá-los para o bom caminho, com as sirenes, sinais e até gritos, nada conseguiram fazer, pois a violência do temporal era tanta que os impediu de conseguirem os seus objectivos.

Finalmente chegou a noticia da trágica realidade e ficou-se a saber que nessa negra e sinistra madrugada de 2 de dezembro de 1947 naufragaram entre a Aguda e Leixões as traineiras “D. Manuel”, “Rosa Faustino”, “Maria Miguel” e “S. Salvador”, tendo perecido um total de 152 marinheiros entre os que se encontravam nas traineiras naufragadas e os que caíram ao mar, deixando 71 viúvas e mais de 100 órfãos.

Das quatro traineiras naufragadas, salvaram-se apenas seis marinheiros, transformando este naufrágio na maior tragédia marítima ocorrida na costa portuguesa.

O jornal A Voz de Leça publicou em novembro de 2007 um artigo do eng. Rocha dos Santos, que nos dá mais alguns pormenores sobre a tragédia. Passo a transcrever um excerto:

Há casos fantásticos, como o daqueles três homens que no reboliço da traineira “D. Manuel”, com o espectro da morte à sua frente, foram arrojados à praia do Cabedelo, procurando ajuda numa das pobres casas aí existentes; ou aqueles dois outros que depois de terem sido roubados de bordo com outros dois camaradas, foram de novo lançados para dentro da traineira, e um dos que o mar não devolveu, mantendo-se agarrado a uma tábua, teve a sorte de por ele passar uma traineira que lhe lançou uma bóia, a qual enfiando-se-lhe milagrosamente pela cabeça, o salvou, ou ainda aquele outro que a bordo da traineira “Rosa Faustino”, passando com terra à vista, se lançou ao mar nadando até à exaustão sendo recolhido das ondas, salvando-se com outros dois arrojados à praia pelo mar!

A notável pintura de Augusto Gomes serviu de inspiração ao escultor coimbrão José João Brito, que procurou reproduzi-la em bronze num grupo escultórico que se encontra na praia de Matosinhos desde 2005.


Tragédia no Mar, grupo escultórico de José João Brito (nascido em 1941), Matosinhos (Foto: Tripadvisor)

27 novembro 2018

Três moças cantavam d'amor


Três Moças Cantavam d'Amor, cantiga de amor de Lourenço Jograr, que viveu no séc. XIII, por Paulina Ceremużyńska. O poema desta cantiga é o seguinte:

Três moças cantavam d'amor,
mui fremosinhas pastores,
mui coitadas dos amores.
E diss'end'ũa, mia senhor:
— Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.

Todas três cantavam mui bem,
come moças namoradas
e dos amores coitadas.
E diss'a por que perço o sem
— Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.

Que gram sabor eu havia
de as oir cantar entom!
E prougue-mi de coraçom
quanto mia senhor dizia:
— Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.

E se as eu mais oísse,
a que gram sabor estava!
E quam muito me pagava
de como mia senhor disse:
— Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.


Lourenço Jograr ou, na ortografia moderna, Lourenço Jogral, foi um poeta e cantor galaico-português da segunda metade do séc. XIII. Do muito pouco que se sabe dele, e que se deduz das suas próprias cantigas e do que sobre ele disseram outros jograis e trovadores seus contemporâneos, sabe-se que se chamava Lourenço e que devia ser português. Sabe-se também que era de origem popular, pois era chamado jogral. Na Idade Média, a designação de trovador aplicava-se apenas aos nobres. Os trovadores vindos do povo eram chamados jograis. Sabe-se ainda que terá exercido a maior parte da sua atividade na Galiza, em particular, e no reino de Leão e Castela, em geral, havendo quem afirme que certamente terá frequentado a corte do rei Afonso X, o Sábio, que foi um dos maiores trovadores da Europa e foi avô materno do rei D. Dinis de Portugal, outro trovador.

A intérprete desta cantiga de amor é Paulina Ceremużyńska, uma musicóloga polaca dedicada ao estudo e divulgação das cantigas trovadorescas galaico-portuguesas.

25 novembro 2018

Divertidos animais


Fotografia vencedora do concurso The Comedy Wildlife Photography Awards, edição de 2018 (Foto: Mary McGowan/CWPA/Barcroft Images)

A organização britânica Born Free Foundation, que tem como objetivo promover a preservação da vida selvagem, realiza todos os anos um concurso fotográfico internacional, em que os animais surjam retratados de forma divertida. Este concurso é chamado The Comedy Wildlife Photography Awards e a sua edição de 2018 encerrou agora, com o anúncio das fotografias premiadas. A fotografia vencedora do concurso está reproduzida acima e as fotografias vencedoras das várias categorias estão reproduzidas a seguir. Outras fotografias, que também são muito divertidas e mereceriam igualmente vencer o concurso, podem ser vistas no site The Comedy Wildlife Photography Awards.


Fotografia vencedora da categoria Criaturas do Ar (Foto: Shane Keena/CWPA/Barcroft Images)


Fotografia vencedora da categoria Debaixo do mar (Foto: Tanya Houppermans/CWPA/Barcroft Images)


Fotografia vencedora da categoria Júnior (Foto: Arshdeep Singh/CWPA/Barcroft Images)


Uma das fotografias vencedoras da categoria Portfolio (Foto: Valtteri Mulkahain/CWPA/Barcroft Images)

19 novembro 2018

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca (1894–1930)


15 novembro 2018

Fado para piano


Fado n.º 5 (Pintassilgo), de Alexandre Rey Colaço (1854–1928), que foi o pai da celebrada atriz Amélia Rey Colaço (1898–1990). Ao piano, um intérprete não identificado

11 novembro 2018

O dilacerante nascimento de uma nação: Angola


Trailer do filme Mais um Dia de Vida, de Raúl de La Fuente e Damian Nenow. Co-produção entre Espanha e a Polónia que se encontra neste momento em exibição em Portugal, este filme retrata a experiência vivida em Angola, em 1975, pelo jornalista polaco Ryszard Kapuściński (pronúncia aproximada: Richard Kapuchtchinski). Não há para já indicação de uma data para a estreia deste filme em Angola, mas espera-se que ocorra brevemente


Outro trailer do mesmo filme. Um reparo se me impõe a respeito do canibalismo atribuído no filme à FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola). Quem conheceu minimamente o povo angolano (e os bacongos em particular) sabe até que ponto lhe repugna o canibalismo. Repugna-lhe mais do que aos europeus. De verdade. Quando o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) expulsou a FNLA de Luanda em 1975, mostrou aos jornalistas frigoríficos cheios de alegada "carne humana", na sede do movimento expulso. Foi uma manobra de propaganda por parte do MPLA, que teve por finalidade provocar a maior das repulsas dos angolanos pelo movimento rival. Agora pergunto eu: se os elementos da FNLA fossem brancos, teria havido a mesma acusação de canibalismo? Pode-se e deve-se acusar a FNLA de ter cometido as mais terríveis atrocidades, como a que o trailer do filme documenta, mas acusá-la de canibalismo é que não. É uma acusação racista, que em última instância cai sobre toda uma população que sente a mais profunda das repulsas por semelhante prática

09 novembro 2018

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o Matin de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da Capital
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— P'ra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar Viva a Alemanha
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade…

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro (1890–1916)


Coin de la rue Muller, tela de Maurice Utrillo (1883–1955)

06 novembro 2018

António Pedro


Rapto na Paisagem Povoada, 1946, óleo sobre tela de António Pedro (1909–1966), Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

Nascido em 1909 na cidade da Praia, Cabo Verde, filho de um português e de uma britânica, António Pedro Costa foi uma das personagens mais determinantes da cultura portuguesa nos meados do séc. XX. António Pedro foi um artista e intelectual multifacetado, tendo desenvolvido uma intensa atividade como pintor, ceramista, escritor, ator, encenador, jornalista, editor, locutor de rádio, etc. etc.

Como pintor, António Pedro foi um dos artistas mais marcantes da corrente surrealista portuguesa. Em 1940, realizou com António Dacosta e Pamela Boden a primeira exposição surrealista em Portugal. Em 1947 fez parte do Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com António Dacosta, Marcelino Vespeira, Mário Cesariny e outros. Porém, em 1944, um funesto incêndio destruiu muita da sua obra pictórica. Pela qualidade das telas da sua autoria que chegaram até hoje, podemos avaliar quão grande foi a perda causada pelo fogo.

Uma atividade a que António Pedro se dedicou com extraordinário empenho foi a atividade teatral. Entusiasta do teatro experimental e de vanguarda, António Pedro foi encenador do Teatro Experimental do Porto (TEP), entre 1953 e 1961. É completamente impossível falar do TEP sem que se tenha que fazer referência a António Pedro.

A seguir, António Pedro foi encenador do Teatro Universitário do Porto, isto num tempo em que algumas companhias de teatro constituídas por estudantes universitários estavam na vanguarda do teatro em Portugal. Nunca será demais lembrar a ação então desenvolvida pelo Cénico de Direito em Lisboa, pelo Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), pelo Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC), e outras companhias mais. Enquanto isso, António Pedro apresentava na televisão um programa chamado "António Pedro Fala sobre Teatro", em que ele procurou, de forma coloquial e não maçadora, estimular o gosto do público pelo teatro. A atividade de António Pedro à frente do TUP foi de curta duração, infelizmente, pois este notável homem das artes e das letras faleceu em 1966 em Moledo, Caminha.


Intervenção Romântica, 1940, óleo sobre tela de António Pedro (1909–1966), Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal

31 outubro 2018

O Couraçado Potemkine


O Couraçado Potemkine, filme mudo do realizador soviético Sergei Eisenstein (1898–1948), rodado em 1925. Versão musicada com a Sinfonia n.º 5 de Dmitri Chostakovitch (1906–1975). Legendas traduzidas para português. Este filme é considerado um dos melhores de sempre

24 outubro 2018

Caiu-me na minha catulinha


(Foto de autor desconhecido)


De uma vez andava uma galinha a esgravatar no chão, e caiu-lhe um bocado de caliça em cima da cabeça; a galinha espantada botou a fugir, e encontrou um galo que lhe perguntou:

— Para onde vais a fugir, comadre galinha?

Ela respondeu:

— Caiu-me na minha catulinha! É o céu que está a cair aos pedaços.

O galo pôs-se também a fugir com a galinha; encontraram um porco, que andava à landra, e assim que os viu, perguntou:

— Para onde ides a fugir tão asinha?

— Caiu-me na minha catulinha. Está o céu a cair aos pedaços.

O porco também foi com eles; encontraram um gato, que lhes perguntou:

— Para onde ides a fugir tão asinha?

Respondeu a galinha:

- Caiu-me na minha catulinha! Está o céu a vir abaixo aos pedaços.

O gato foi também a fugir com eles todos; e assim foram encontrando um pato, uma raposa, uma cabra, uma ovelha e iam todos juntos por esse mundo fora. Até que encontraram um cão, que lhes perguntou:

— Para onde é que vai toda esta romaria?

Respondeu a galinha:

— É o céu que está caindo aos pedaços. Caiu-me na minha catulinha.

Todos os outros animais diziam que nada tinham visto, mas que era a galinha que lho dizia. Disse então o cão:

— Não vão mais para diante, e fiquem aqui debaixo da cama da minha velha, até ver em que as cousas param.

Lá ficaram. A velha, de noite, coçava-se com as pulgas, e a cama rangia. Os animais com medo de que caísse o céu aos pedaços, faziam muita bulha:

A galinha cacarejava,
e o galo cantava,
e o porco roncava,
e o gato miava,
e o pato grasnava,
a raposa regougava,
a cabra berrava,
a ovelha balava,
o cão ladrava,
e a velha dizia:
— Mal hajas tu cão,
Que não agradeces
O bem que te fão.


Conto tradicional recolhido no Porto, in Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

18 outubro 2018

Censura em ação


No Brasil, durante a odiosa ditadura militar, Chico Buarque e Gilberto Gil não podiam cantar Cálice

14 outubro 2018

António Nogueira


Descida da Cruz, 1564, óleo sobre madeira de António Nogueira (?–1575), Museu Rainha D. Leonor, Beja, Portugal

António Nogueira foi um pintor maneirista português, sobre o qual não se sabe onde e quando nasceu. Sabe-se apenas que exerceu quase toda a sua atividade na segunda metade do séc. XVI, em Évora, e faleceu na mesma cidade no ano de 1575.

A corrente artística do Maneirismo, ao contrário da do Renascimento que a precedeu, não buscava a perfeição nem a beleza ideal, antes as sacrificava em favor de uma maior expressividade. Os artistas maneiristas não hesitavam em distorcer o objeto da sua arte, desde que com isso conseguissem obter um maior efeito dramático. A sua arte não era feita para agradar, mas sim para impressionar. É o caso do painel acima reproduzido, que está muito longe de ser "perfeito", mas que é um excelente exemplar de arte maneirista. Socorro-me das palavras de Joaquim Oliveira Caetano, que sobre ele escreveu:

(...)nos painéis de Beja, nomeadamente no Descimento da Cruz, (...) Nogueira mostra uma pintura bastante evoluída, dentro dos padrões maneiristas, com uma composição esvaziada de profundidade, uma tensão enorme no jogo das figuras e uma composição agitada entre volutas de panejamentos e de poses que se desenvolvem sobre a triangulação das escadas suportadas pela Cruz.

09 outubro 2018

A Fiandeira

Fazes bem mal, fiandeira,
Em fiar de noite e dia
Essa linhagem grosseira!
Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

Eu fui também fiandeiro:
Fiava ternos cuidados
Em vez de linho trigueiro…
Fez-se-me a roca em bocados
E já não sou fiandeiro!

Passava os dias fiando!
E só tristezas e dores
Ia no fuso enrolando…
Ai, antes no linho brando
Do que fiar em amores!

Chega-se ao cabo do dia
E a roca, por espiar,
Sempre da mesma maneira!
E vem depois a canseira,
E acaba a gente a chorar
Sobre a mortalha que fia!

Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

João Saraiva (Porto, 1866 – Lisboa, 1948)


A Fiandeira, canção de David de Souza (1880–1918) sobre poema de João Saraiva (1866–1948), por Ana Leonor Pereira (soprano) e António Ferreira (piano)

07 outubro 2018

Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo



Pelo tratado de Alcanizes, celebrado em 1297 entre o reino de Portugal e o reino de Leão e Castela, as terras de Riba Coa passaram a fazer parte do território português, em troca de outras terras que passaram para mãos castelhanas e leonesas. Este tratado determinou a marcação definitiva da fronteira portuguesa, que prevalece até à atualidade, salvo a cidade de Olivença que continua sob domínio espanhol, embora Portugal continue a reivindicar o seu direito sobre ela. A região de Riba Coa, assim tornada portuguesa, compreende os atuais concelhos de Sabugal, Almeida, Pinhel, Vila Nova de Foz Coa e Figueira de Castelo Rodrigo.

As terras de Riba Coa são, de uma maneira geral, terras pobres, pedregosas e áridas, pois não são mais do que o prolongamento para oeste da Meseta Ibérica, um planalto que abrange uma grande parte do interior da Península. Podemos também dizer, de um modo grosseiro, que esta região se vai tornando cada vez menos pobre e menos pedregosa à medida que caminharmos de sul para norte. Assim, os concelhos de Vila Nova de Foz Coa e de Figueira de Castelo Rodrigo são, de uma maneira geral, mais férteis do que os seus vizinhos a sul, com uma produção agrícola em que prevalece o cultivo da oliveira, da amendoeira e da vinha. Esta maior fertilidade implica um maior desafogo económico das suas populações e, consequentemente, uma maior riqueza das igrejas e conventos existentes nestes concelhos.

No caso do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, para além da vila histórica de Castelo Rodrigo, que foi reabilitada há poucos anos, podemos destacar alguns monumentos tais como a igreja de Escalhão (aconselho uma cuidada visita ao seu interior), a igreja matriz da própria sede do concelho, o convento de Santa Maria de Aguiar e a igreja matriz de Escarigo, que é dedicada a São Miguel.

Sem desprimor para as outras igrejas referidas, permito-me destacar neste momento a de Escarigo, situada numa povoação com este nome que fica muito próxima da fronteira com Espanha. O que esta igreja tem de mais notável é, talvez, o altar-mor barroco que contrasta com o seu teto mourisco. O teto deve ser do séc. XVI e o altar-mor do XVIII. Socorro-me de José Saramago, que no seu livro Viagem a Portugal escreveu melhor do que eu poderia alguma vez fazê-lo:

A igreja tem um retábulo barroco dos mais belos que o viajante viu até agora. Se tudo isso tivesse o vulgar e banal dourado-uniforme, não mereceria mais do que um olhar a quem não fosse especialista. Mas a policromia da talha é tão harmoniosa nos seus tons de vermelho, azul e ouro, com toques de verde e róseo, que se pode estar uma hora a examiná-lo sem fadiga. Quatro pelicanos sustentam o trono, e a porta do sacrário mostra um Cristo triunfante, numa moldura de anjos e volutas. E os anjos tocheiros ajoelhados que ladeiam o altar, vestidos de grandes flores e palmas, são uma admirável expressão de arte popular. Uma das imagens do retábulo é um S. Jorge famosíssimo que, sem espada nem lança, calca aos pés um dragão com cabeça de víbora. Num altar lateral há colunas de talha quase já sem pintura, com duas cabeças de anjos em alto-relevo, que são preciosa coisa. Não esquece o viajante o tecto da capela-mor, de alfarge, mas os seus olhos vão ficar em duas pequenas tábuas esculpidas, predelas de um retábulo, mostrando uma Anunciação e uma Visita da Virgem a Santa Ana, de tão puro desenho, de composição tão sábia, ainda que ingénua, que ficou contente de ter vindo de tão longe, lutando por uma chave que se esquivava, mas isso já lá vai, agora está em boa conversa diante deste S. Sebastião mutilado da sacristia, talvez o primeiro por quem o viajante se toma de afeição.

04 outubro 2018

António Manuel da Fonseca


Eneias Salvando seu Pai Anquises do Incêndio de Tróia, 1855, óleo sobre tela de António Manuel da Fonseca (1796–1890). Palácio Nacional de Mafra, Mafra, Portugal

António Manuel da Fonseca foi um pintor neoclássico português natural de Lisboa, cuja longa vida se estendeu por quase todo o séc. XIX. Produziu uma vasta obra pictórica versando, sobretudo, temas da antiguidade greco-romana, retratos de diversas personalidades e cenas históricas. Ocasionalmente fez também alguma escultura. Foi um artista muito apreciado e aclamado no seu tempo, a ponto de ser, nomeadamente, mestre de pintura do futuro rei D. Carlos, que foi, ele mesmo, um pintor de muito mérito também.

02 outubro 2018

Um Cristo feminino?



No primeiro instante em que virmos esta pequena escultura de marfim, julgaremos estar em presença de uma imagem de Cristo crucificado. Só a seguir notaremos que esta figura tem formas femininas e até um colar no pescoço! «O que é isto?! Um Cristo feminino?!», espantar-nos-emos, «Que figura é esta, afinal?» Isto é um pequeno pingente de marfim, feito para ser trazido ao peito como uma medalha, datado do séc. XVIII e proveniente do reino do Congo, ao que tudo indica no que é hoje Angola. Pertence a uma coleção privada.

Na transição do séc. XVII para o séc. XVIII, a captura e tráfico de escravos atingiam proporções pavorosas em África e o reino do Congo encontrava-se mergulhado numa guerra civil, onde se digladiavam três pretendentes ao trono. Foi no meio deste apocalíptico cenário que nasceu uma mulher que viria a desempenhar um papel muito importante na história do referido reino: Kimpa Vita.

Kimpa Vita (de seu nome de batismo Beatriz) foi uma profetiza que arrastou inúmeros seguidores no reino do Congo. Dizendo-se possuída por Santo António, Kimpa Vita pregou, por exemplo, que Jesus Cristo, Maria e outros santos católicos, como S. Francisco, tinham sido realmente bacongos. Fundou aquele que terá sido o primeiro movimento messiânico congolês, dois séculos antes do surgimento de outros movimentos messiânicos, como o Kimbanguismo e o Tocoísmo (fundados, respetivamente, por Simon Kimbangu e Simão Toco), os quais ainda existem, são muito respeitados e têm muitos milhares de crentes. O movimento criado por Kimpa Vita foi denominado Antonianismo, dada a importância que ela atribuiu a Santo António.

Do ponto de vista político, Kimpa Vita juntou-se ao campo de um dos pretendentes ao trono, chamado D. Pedro. Atraiu muita gente para a causa de D. Pedro, ajudando assim este a ganhar vantagem sobre os seus rivais e a tornar-se rei do Congo, como D. Pedro IV. D. Pedro, no entanto, recusou seguir a doutrina que Kimpa Vita pregava e ela passou-se para o campo de um rival, que também recusou ouvi-la. Enquanto isso, ela atraía cada vez mais seguidores e passou a ser crescentemente vista como uma ameaça. Acabou por ser capturada pelas tropas leais a D. Pedro IV e condenada à morte por "heresia" e "feitiçaria", com a cumplicidade de missionários capuchinhos. Foi queimada numa fogueira em 2 de julho de 1706. As suas cinzas foram queimadas uma segunda vez, para que o povo não as usasse como relíquias.

Aqui está a explicação para a figura representada neste pingente de marfim: não é Jesus Cristo, mas sim Kimpa Vita, ou Dona Beatriz como também foi chamada. Ela não está representada numa cruz como Jesus Cristo, mas muito provavelmente amarrada no cimo da pira em que iria morrer queimada. Só o anónimo artista que esculpiu esta figurinha é que poderia dizer qual a razão pela qual representou Kimpa Vita de forma a parecerse com Cristo.

30 setembro 2018

Pensas na morte?


Imagem da Guerra Colonial. Militares portugueses em 1973–74, algures nas matas de Angola onde combateram até à exaustão (Foto de Vítor Fernandes encontrada no Facebook)


Moçambique — Agosto de 1967 – Outubro de 1969

— Nobre, pensas na morte?

— Penso. E tu não pensas?

— Eu? Eu só não quero morrer.

Ontem, ainda brincava na rua, nas ruas da minha infância. A minha fronteira era o canto da minha rua. Lembro-me das brincadeiras, lembro-me dos gritos da minha mãe, chamando-me, quando a noite se aproximava.

Hoje, estamos na guerra, numa guerra de verdade, somos os soldados da Pátria, os salvadores de ideais, os seguidores de todos aqueles que deram novos mundos ao mundo. Não me lixem. Valsamos de um lado para o outro, a orquestra é a mesma, o maestro o mesmo. Sabes dançar? Sonhávamos, as distâncias não existiam, a fronteira do sonho era já ali. Crescemos, embebedamos as nossas angústias, abreviamos as noites, enganamos os fantasmas e a incerteza do amanhã. Conhecemos outros, outros da nossa idade que não foram amigos de infância, juntaram-nos, instruíram-nos, armaram-nos, ensinaram-nos a matar. Tenho saudades do mar, outros têm saudades da planície, outros do toque do sino da aldeia, da lareira, do canto do galo ou do pão da avó.

Não se morre na nossa idade, talvez a morte seja uma pausa na vida, depois voltamos, dizem. Temos vinte anos. Leio todas as cartas, todas as juras de um amor eterno. Não me esqueces? Não temos tempo para o esquecimento, consumimos o tempo, como se fosse um cigarro que nos queima os dedos. A morte? Apagamola no cinzeiro do esquecimento, restam as cinzas da dúvida. Esquecemos as vozes, os rostos. O tempo, o tempo entre um dia e outro dia, igual aos outros. Voltamos a casa, a minha é uma casa pintada de branco e com riscas azuis nas janelas, cortinados feitos de linho, bordados. Esperem por mim, isto não é mais do que um sonho, um pesadelo. Nascemos todos num lugar qualquer.

Que importam os dias, os meses, vivemos como se não houvesse amanhã. Não tenho palavras para dizer o que sinto, o que sentimos, vivemos, para cá do arame farpado, no lado dos bons, os maus são os outros, os que procuram a liberdade. Trocava esta paisagem de palmeiras, cajueiros e todas as buganvílias africanas por um cheiro a maresia, pelo som do motor de um barco a entrar na barra do rio Arade. Atravessamos oceanos, sobretudo os da nossa imaginação, como marinheiros de um barco fantasma, vencemos marés, tempestades de sentimentos. Queria que te lembrasses dos dias em que fomos felizes, dos dias em que não existia o medo da distância, da ausência, vamos e voltamos, num jogo de ping-pong, imaginado. Outra noite, ainda limpa de pesadelos. Hoje é domingo, um domingo de um mês qualquer, sem data, vazio, todos os dias são dias de guerra, de armas e de sentimentos. Matamos e morremos.

— Nunca pensei vir para África. Quando esta guerra começou, eu era um miúdo. Aprendi na escola os nomes das províncias ultramarinas. As capitais, os rios, as montanhas, os lagos e as linhas ferroviárias. Tudo isto ficava muito longe, no outro lado do mundo.

O Lopes falava em voz alta, sentado num cepo de árvore, enquanto descascávamos uma saca de batatas, já meio apodrecidas, as quais serviriam para acompanhar o peixe congelado, acabado de chegar na avioneta, vinda de Palma. Juntávamos as peles das batatas e oferecíamos ao velho maconde. Era assim que alimentava as galinhas, de vez em quando vendianos uma.

— Lembro-me do primeiro gajo, lá da minha terra, que foi mobilizado para Angola. Aquilo não foi uma despedida, foi um funeral antecipado. Nunca mais voltei à estação do comboio, desde aquele dia. Ninguém ficou em casa. Sabia que um dia chegaria a minha vez. Com o tempo, habituamo-nos a ver a malta partir. As partidas e as mortes anunciadas passaram a fazer parte das nossas vidas. Estou eu a descascar batatas e a falar destas merdas.

Estamos em pleno Cabo Delgado, o verde fere-nos os olhos, um vale que nos leva até junto da fronteira da Tanzânia, onde corre o rio Rovuma. Como irei descrever esta paisagem, esta orgia de cores, de árvores seculares. Nas noites sem luar e sem nuvens, o céu é um labirinto de estrelas, que correm de um lado para o outro. O Felgueiras tem razão, as estrelas não estão no mesmo sítio.

— Eu fui pastor durante três anos, antes de ser chamado para a tropa. Conheço bem o céu da minha terra, este não é igual.

Rimos.

As explicações ficariam para depois. Agora era o tempo de descascar batatas. Seis marmanjos à volta de um saco de batatas de má qualidade, como toda a comida do exército. Existem comprimidos para sonhar?

— Na última carta que recebi da minha mãe, contou-me que já foi a Fátima, ela, o meu pai e a minha irmã. Foram numa excursão organizada pelo sacristão da paróquia.

Agarrou mais uma batata.

— Não sei se vale a pena ir a Fátima. Antes de eu embarcar para Moçambique, a minha mãe foi ver uma bruxa, pagou vinte e cinco escudos, e esta disse-lhe que eu voltaria inteiro, sem qualquer ferimento. O que eu faria com aquele dinheiro, vinte e cinco paus são vinte e cinco paus.

Acabamos de descascar as batatas e foram entregues na cozinha. Mais uma batalha da batata estava… ganha. Tínhamos o resto do domingo para nós.

O Pereira, o algarvio da Fuzeta, um dos mais pequenos da nossa Companhia, continuava calado, deitado na cama, ninguém dava por ele, era como se a cama continuasse vazia. Nunca o vimos zangado, desorientado, revoltado por estar ali, para ele o que contava era estar vivo e contar os dias que passavam. Tinha com ele um terço, na algibeira da camisa do camuflado, o qual foi benzido durante a última missa a que assistiu, antes de zarpar para terras africanas. À noite pendurava-o num dos ferros da cama. Fuma que nem um “cavalo”. O pequeno rádio, pousado no travesseiro. Nunca percebemos quais eram as suas músicas preferidas, ouvia tudo e de tudo, até música tanzaniana.

— Nobre, podes cantar o Embuçado?

Ele não me tratava por marroquino, ele próprio também o era.

"Noutro tempo a fidalguia,
Que deu brado nas toiradas,
Andava p'la Mouraria
E em muito palácio se ouvia
Cantos e guitarradas."

( Nangade — Cabo Delgado — Moçambique.)

(Os nomes são fictícios; nenhum dos citados esteve na guerra e muito menos em Moçambique.)



José Nobre. Texto publicado pelo seu autor no Facebook