13 outubro 2026
10 outubro 2026
Louvando e deslouvando uma dama
CANTIGA VELHA
Sois fermosa e tudo tendes,
Senão que tendes os olhos verdes.
VOLTAS
Ninguém vos pode tirar
Serdes tão bem assombrada;
Mas heis-me de perdoar,
Que os olhos não valem nada.
Fostes mal aconselhada
Em querer que fossem verdes:
Trabalhai de os esconderdes.
A vossa testa é jardim,
Onde Amor se desenfada;
É [tão] branca e bem-talhada,
Que parece de marfim.
Assim é; e quanto a mim,
Isso vos nasce de a terdes
Tão perto dos olhos verdes.
Os cabelos desatados
O mesmo sol escurecem;
Senão que, por ser andados,
Algum tanto desmerecem;
Mas, à fé, que se parecem
A furto dos olhos verdes,
Não vos pese, de os terdes.
As pestanas têm mostrado
Ser raios que abrasam vidas;
Se não foram tão compridas,
Tudo o mais era pintado;
Elas me tinham levado
A alma, sem o vós saberdes,
Senão foram os olhos verdes.
O mimo desse carão
Nem pôr-lhe os olhos consente;
E ser liso e transparente
Rouba todo o coração
Inda assim achareis nação
Que lhe não pese de os verdes;
Mas não seja cos olhos verdes.
Esse riso, que é composto
De quantas graças nasceram,
Senão que alguns me disseram
Vos faz covinhas no rosto.
Na vontade tenho posto
Dar-vos a alma, se quiserdes,
A troco dos olhos verdes.
Nunca se viu, nem se escreve
Boca cuma graça igual,
Se não fora de coral,
E os dentes de cor de neve.
Dou-me eu a Deus que me leve!
Sofrerei quanto tiverdes,
Não me tenhais olhos verdes.
Essa garganta merece
Outras palavras não minhas,
Senão que é feita em rosquinhas
De alfenim, ao que parece.
Eu sei bem quem se oferece
A tomar tudo o que tendes,
E também os olhos verdes.
Essas mãos são ferropeias,
Só o vê-las enfeitiça;
Senão que são alvas, cheias,
E têm a feição roliça;
Com que apelais por justiça,
Pera com elas prenderdes
Quem vê vossos olhos verdes.
A vossa galantaria
Matará a quem falardes;
Tendes uns desdéns e tardes
Que eu logo vos roubaria.
Oh dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
E também desses olhos verdes.
Luís Vaz de Camões (1517?? 1524? 1525? – 1580)
07 outubro 2026
Nuno Gonçalves
Sempre que se aborda a pintura de Nuno Gonçalves, mergulha-se num infindável mar de dúvidas, de incertezas e de suposições, pois os dados concretos existentes são muito escassos.
Desde logo, a ignorância é praticamente total sobre a biografia deste notável pintor, à semelhança do que acontece com muitos outros artistas da sua época, e mesmo de épocas posteriores. Quando muito, pode-se dizer que tudo indica que Nuno Gonçalves viveu no séc. XV e desempenhou o cargo de pintor régio de D. Afonso V.
Por outro lado, não existe qualquer certeza de que as pinturas que lhe são atribuídas tenham sido realmente feitas por ele, nem sequer os Painéis de S. Vicente. Por isso, não nos preocupemos muito em tentar descobrir se foi mesmo Nuno Gonçalves quem pintou os Painéis e outros quadros, ou querer adivinhar quem são as pessoas que estão retratadas nos Painéis. Muitos estudiosos já o tentaram — e muitos mais continuarão a tentar — mas até agora não chegaram a uma conclusão definitiva. Por exemplo, o rapaz que está representado à direita no chamado Painel do Infante será o futuro rei de Portugal D. Afonso V? O homem retratado a seu lado de chapeirão na cabeça será o infante D. Henrique? Ou será o infante D. Pedro, regente do Reino? O próprio pintor estará também retratado nos Painéis? Se sim, onde? Nada se sabe ao certo.
02 outubro 2026
Morreu o artista palestiniano Sliman Mansour
(Clicar na imagem para ampliá-la)
Morreu no passado mês de agosto o artista plástico Sliman Mansour, que foi uma das figuras mais destacadas da arte palestiniana recente. Sliman Mansour nasceu em Birzeit, perto de Ramallah, no ano de 1947. Estudou na Academia Bazalel de Artes e Design, em Jerusalém, e continuou os seus estudos em Beirute e Washington. Fez numerosas exposições individuais e coletivas pelo mundo fora, abordando temas da vida, da cultura e da resistência do povo da Palestina. Por ocasião da primeira Intifada, ocorrida entre 1987 e 1993, e juntamente com os artistas Vera Tamari, Tayseer Barakat e Nabil Anani, Sliman Mansour formou o grupo New Visions que, aderindo ao boicote então decidido à compra de produtos provenientes de Israel, começou a utilizar meios de expressão pouco convencionais, tais como lama, palha, pele de cabra, madeira, etc.
As obras de Sliman Mansour que a seguir se reproduzem foram publicadas pelo próprio artista na sua página pessoal no Instagram, juntamente com outras mais. A dificuldade esteve na escolha.
28 setembro 2026
Prémios Ig Nobel 2026
Os prémios Ig Nobel são uma paródia aos prémios Nobel e destinam-se a galardoar os trabalhos científicos mais insólitos, que primeiro fazem rir e a seguir fazem pensar. Estes prémios são atribuídos anualmente pela revista norte-americana Annals of Improbable Research, numa "cerimónia" (chamemos-lhe assim) que até ao ano passado costumava ter lugar em Cambridge, no estado de Massachussets. Porém, alguns cientistas premiados no Ig Nobel 2025 não puderam tomar parte na "cerimónia" desse ano, porque lhes foram negados os vistos de entrada nos Estados Unidos, em consequência da política de Donald Trump. Foi então decidido realizar a "cerimónia" deste ano num outro país, tendo sido escolhida a Suíça. A "cerimónia" de 2026 teve tanto êxito, que se resolveu continuar a organizar a atribuição dos prémios fora dos Estados Unidos. Já está escolhido o local para a atribuição dos próximos prémios, os de 2027, que será a cidade belga de Antuérpia.
Depois desta maçadora introdução, passemos à lista dos prémios Ig Nobel 2026.
PRÉMIO IG NOBEL DA BIOMECÂNICA
Atribuído a Matilda Brindle e colegas, do Reino Unido e Estados Unidos, por terem conseguido definir o beijo de uma forma rigorosamente científica, na sequência de observações que fizeram em formigas, aves, ursos polares e pessoas (evidentemente).
Se alguém pensar que o beijo é fácil de definir, desengane-se. Para os autores deste estudo, o beijo é uma «interação não-agonística, que envolve um contacto direto, oral-oral e intraespecífico, com movimento dos lábios/partes bocais e sem transferência de alimentos.»
Que definição tão pouco romântica!
PRÉMIO IG NOBEL DA ECONOMIA
Ganho por Paul Piff e outros, dos Estados Unidos, México e Canadá, por terem reunido provas de que as pessoas das classes sociais mais altas têm mais tendência a apresentar comportamentos pouco éticos, tais como apoderar-se de um doce que já estava destinado a uma criança. Além disso, quando ao volante dos seus carros grandes e caros, tendem mais a desrespeitar as prioridades dos outros automobilistas nos cruzamentos, a desprezar os direitos dos peões nas passadeiras, etc.
PRÉMIO IG NOBEL DA QUÍMICA
Galardoado a Sanchari Banerjee e outros membros da sua equipa de investigação, da Índia, França, Japão, Canadá e Estados Unidos, por terem descoberto que as proteínas do leite produzido por uma espécie de baratas vivíparas (Diploptera punctata) contêm três vezes mais energia do que as do leite de vaca.
Eu nem sequer sabia que existem baratas que não se reproduzem por ovos e que até dão leite para alimentar as baratinhas!
PRÉMIO IG NOBEL DA MEDICINA
Este prémio é atribuído com dezenas de anos de atraso, pois se refere a um estudo de 1977, da autoria de um otorrinolaringologista japonês já falecido. Este cientista, que se chamava Tokuji Unno, publicou um estudo sobre a forma mais correta de assoar o nariz, tendo concluído que uma longa e profunda assoadela é a melhor forma de prevenir doenças respiratórias.
PRÉMIO IG NOBEL DA BIOLOGIA
Ganho por João Miguel Alves-Nunes e colegas, do Brasil e Austrália, que, devidamente calçados com botas apropriadas, puseram um pé, suave e repetidamente, sobre a cabeça, o meio do corpo e a cauda de 75 serpentes venenosas da espécie brasileira Bothraps jararaca. A sua intenção foi determinar em que circunstâncias é que as serpentes tendem a morder mais, em função da hora, da temperatura ambiente, da parte do corpo pisada, do tamanho da serpente, do seu sexo, etc. Os investigadores concluíram que as serpentes têm mais tendência a morder durante o dia e com temperaturas mais elevadas, sendo que as serpentes mais agressivas são as fêmeas jovens. Em segundo lugar, são os machos pequenos.
PRÉMIO IG NOBEL DA FÍSICA
Galardoado a Randy Hurd e outros, do Canadá, Estados Unidos, China e Arábia Saudita, por terem projetado um urinol que não salpique para fora. Desenvolveram um modelo de urinol, chamado Nautilus, que, segundo eles, evitará o "desperdício" de um milhão de litros de urina por dia em salpicos, nos 56 milhões de urinóis públicos existentes nos Estados Unidos apenas.
PRÉMIO IG NOBEL DA TECNOLOGIA
Atribuído a Justin Puma e outros investigadores, da China, Canadá, Estados Unidos e Egito, por terem desenvolvido uma impressora 3D de alta precisão, em que o tubo por onde sai o material de impressão é uma probóscide de mosquito. Lembro que a probóscide é aquela "agulha" com que as fêmeas dos mosquitos nos picam. Os investigadores experimentaram fazer impressão 3D com probóscides de muitas espécies de insetos diferentes, incluindo moscas tsé-tsé e percevejos, mas as das fêmeas de mosquito são as melhores.
PRÉMIO IG NOBEL DO OLFATO
Os premiados foram Ilona Croy e colegas, da Polónia, Alemanha e Suécia, por terem reunido provas de que os progenitores gostam mais do cheiro dos bebés do que dos seus filhos adolescentes.
Parto do princípio de que isto só acontece quando os bebés não tiverem as fraldas borradas...
PRÉMIO IG NOBEL DA PAZ
Ganho por Jaimie Arona Krems e outros membros da sua equipa, dos Estados Unidos, Argentina e Austrália, por terem documentado o facto de que damos mais valor àqueles dos nossos amigos que forem maldosos para com as pessoas de quem não gostamos.
PRÉMIO IG NOBEL DAS CIÊNCIAS DOS SOLOS
Concedido a Franz Bender e colegas, da Suíça, Países Baixos e Alemanha, por terem enterrado 1000 pares idênticos de cuecas de algodão em mais de 25 países, e terem-nos desenterrado dois meses mais tarde. A finalidade desta experiência foi determinar de que forma é que as cuecas se decompõem, em função do tipo de solo, do conteúdo deste em matéria orgânica, da humidade, da temperatura, etc. O resultado obtido mostra que os solos dos jardins são os que mais depressa decompõem as cuecas, enquanto os relvados as decompõem menos. Os campos agrícolas e os prados apresentam um índice "cuecal" intermédio.
24 setembro 2026
Morreu o búlgaro Kostadin Luchansky, fotógrafo de Angola
Morreu no passado mês de agosto, em consequência de um trágico acidente de viação ocorrido na sua Bulgária natal, o fotógrafo Kostadin Luchansky, que fez de Angola a sua segunda pátria.
Durante mais de 30 anos, Kostadin Luchansky percorreu Angola em todas as direções e deixou-nos um extraordinário espólio fotográfico deste grande país e do seu grande povo. A seguir se mostram algumas das imagens que Kostadin Luchansky nos deixou e que ele mesmo partilhou nas redes sociais.
21 setembro 2026
O verão está de saída
Não nos iludamos com o intenso calor que sentimos neste momento. O verão está mesmo de saída, porque a Terra não deixa de se mover em volta do Sol, à velocidade linear aproximada de 29,78 km/s, ou seja, 107 208 quilómetros por hora!
Os sinais estão todos aí, apesar da elevada temperatura que nos faz transpirar: as noites crescem a olhos vistos, os dias diminuem na mesma proporção, o sol está cada vez mais amarelado, as primeiras folhas mortas (ainda em pequena quantidade) são arrastadas pelo vento que ainda é quente, os ouriços dos castanheiros começam a tombar no chão para se abrirem e nos mostrarem as castanhas maduras no seu interior, e o firmamento prepara-se para nos exibir a sua toilette de inverno, que na minha opinião é mais bonita do que a toilette de verão.
Com efeito, nestes mesmo dias que estamos a viver, de madrugada e ainda antes de o dia começar a clarear, a mais bela constelação (Orion) e a mais brilhante e mais cintilante estrela do céu noturno (Sírius) já se nos mostram em todo o seu esplendor para as bandas do sueste. Elas irão fazer-nos companhia, cada vez mais cedo, nas geladas noites estreladas de inverno, até à chegada do equinócio da primavera, em março do próximo ano. Afinal, nem tudo é triste e deprimente durante o outono e o inverno.
14 setembro 2026
Material e imaterial
(Clicar na imagem para ampliá-la)
“
Representamos o objetivo e o subjetivo, a quantidade e a qualidade, o número cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a música das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cenário sólido, líquido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; — três virtudes do fôlego animado, porque muda o que come em sensações, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme é límpido o ar ou enevoado… É de sólida origem a sensação; o sentimento é já de origem fluídica; e, então, o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz.
”
Teixeira de Pascoaes (1877–1952)
11 setembro 2026
Manifestações do Sagrado
08 setembro 2026
Uma bailarina de há 40 séculos
A civilização do Vale do Indo é uma das mais antigas civilizações da Terra, tendo sido contemporânea das do Antigo Egito, Mesopotâmia e China. Foi uma civilização que se desenvolveu nas férteis planícies aluviais banhadas pelo rio Indo e seus afluentes, em territórios do atual Paquistão, nordeste do atual Afeganistão e noroeste e oeste da atual Índia. Pertenciam à civilização do Vale do Indo duas das cidades mais antigas do mundo, Harappa e Mohenjo-daro, que teriam entre 30 mil e 60 mil habitantes cada.
Foi em Mohenjo-daro que se encontrou a Jovem Bailarina, uma das esculturas mais admiráveis que a civilização do Vale do Indo nos deixou. Não nos iludamos com a pequenez desta estatueta de bronze com cerca de 10,5 cm de altura. O que ela tem de extraordinário é, por um lado, a sensação de movimento que exprime. Se em vez de uma escultura ela fosse uma fotografia, diríamos estarmos em presença de um instantâneo. As esculturas provenientes das outras civilizações suas contemporâneas (Egito, Suméria, Babilónia, etc.) são quase todas hirtas ou representam personagens em poses formais. Esta não. Parece estar a meio da execução de uma dança e quase poderíamos jurar que agora mesmo acabou de se mexer. Por outro lado, a bailarina representada mostra-se-nos desenvolta, cheia de confiança em si mesma e livre de complexos. É de facto uma escultura extraordinária.
05 setembro 2026
Romance para Violino N.º 2 de Beethoven
03 setembro 2026
Aniki Bóbó, de Manoel de Oliveira
01 setembro 2026
Todas as Vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.
Cora Coralina (1889–1985), poetisa e contista brasileira, que publicou o seu primeiro livro aos 76 anos de idade
30 agosto 2026
Norberto José Ribeiro
Na "Alegoria à Instituição da Academia de Belas Artes de Lisboa", de Norberto José Ribeiro, pode ver-se como figura central uma estátua da rainha D. Maria II. À direita, de pé e vestindo uma armadura de cavaleiro medieval, está representado o ministro Passos Manuel. Foi ele quem, por decreto, criou a referida Academia e determinou que ela ocupasse uma parte do extinto convento de S. Francisco da Cidade, em Lisboa, onde ainda se encontra. Outras personagens representadas no quadro simbolizam as diversas disciplinas de Belas-Artes.
O autor desta alegoria, Norberto José Ribeiro, nasceu em Alhos Vedros em 1774 e faleceu na mesma localidade em 1844. Estudou em Lisboa na Casa Pia do Castelo de S. Jorge com José da Cunha Taborda, com quem viria posteriormente a colaborar nas obras de construção e decoração do Palácio da Ajuda, também em Lisboa. Norberto José Ribeiro acabou por se tornar professor agregado da Academia cuja fundação é objeto desta sua pintura.
27 agosto 2026
O argentino Jaime Torres, que foi um mago do charango
25 agosto 2026
Ainda o eclipse do sol de 12 de agosto de 2026
"Câmara escura" é o nome de um fenómeno ótico natural, segundo o qual a luz que penetra numa caixa fechada, através de um orifício existente num dos lados da caixa, projeta, no interior da face oposta à do orifício, uma imagem dos objetos que estiverem no exterior, em frente ao orifício. A imagem projetada no interior da caixa é uma representação invertida da cena real que decorre cá fora: o que está em cima é projetado em baixo e inversamente, assim como o que está à esquerda é projetado à direita e vice-versa.
O fenómeno de projeção de uma imagem no interior de uma caixa através de um buraco é o princípio de funcionamento de qualquer máquina fotográfica ou de filmar, independentemente da tecnologia utilizada, seja ela química (sobre uma película coberta de iodeto de prata, sensível à luz), eletrónica (sobre uma matriz de pontos chamados píxeis), ou outra.
Até os nossos olhos utilizam este mesmo fenómeno, para nos darem o sentido da visão. Os raios de luz, provenientes de uma cena que estivermos a presenciar, passam através da pupila do olho e vão projetar uma imagem desta mesma cena na retina, situada na superfície do globo ocular oposta à pupila. Tal como nas máquinas fotográficas e de filmar, a imagem projetada na retina é, também ela, invertida. Ao serem sensibilizadas pelos raios de luz vindos do exterior, as células existentes na retina convertem a luz recebida em impulsos elétricos, que o nervo ótico seguidamente se encarrega de enviar para o cérebro. O cérebro, por fim, converte os impulsos recebidos numa imagem em posição direita, e não invertida, senão veríamos as coisas "de pernas para o ar".
Quando sucede um eclipse do sol, seja ele parcial, total ou anular, o fenómeno da "câmara escura" também se manifesta em locais arborizados, mas que permitam que alguns feixes de raios solares iluminem o chão coados pela folhagem das árvores. Em cada pedacinho de solo iluminado pelos raios solares, surge uma imagem do próprio eclipse. É certo que esta é uma imagem invertida, mas é uma imagem imediatamente reconhecível. Numa mata que não for muito densa, então, veem-se tantas imagens do eclipse quantas as pequenas superfícies de chão iluminadas pelos raios solares.
Foi isto mesmo que registei fotograficamente nos caminhos e muros do Parque da Cidade, aqui no Porto, por ocasião do eclipse solar de 12 de agosto de 2026. Enquanto decorria o eclipse, viam-se milhares de imagens projetadas desse mesmo eclipse, sobrepostas ou ao lado umas das outras, como o documentam as fotografias que se seguem e que reproduzo tal como foram registadas pelo smartphone, sem lhes fazer qualquer "correção".
23 agosto 2026
Cancan
21 agosto 2026
Galo
Este galo de bronze fazia parte das coleções históricas do Reino do Benim, na atual Nigéria. Em 1897, o reino foi conquistado e o seu soberano (oba), Ovonramwen, foi exilado. Os tesouros de arte roubados do palácio real foram vendidos e muitos dos seus objetos fazem agora parte de coleções europeias.
17 agosto 2026
Bilhete de Identidade
Escreve!
Sou árabe
e o meu bilhete de identidade é o cinquenta mil;
tenho oito filhos
e o nono chegará no final do verão.
Vais zangar-te?
Escreve!
Sou árabe.
Trabalho na pedreira
com os meus companheiros de infortúnio.
Arranco das rochas o pão,
as roupas e os livros
para os meus oito filhos.
Não mendigo caridade à tua porta,
nem me humilho nas tuas antecâmaras.
Vais zangar-te?
Escreve!
Sou árabe.
Sou um homem sem título.
Espero, paciente, num país
em que tudo o que há existe em raiva.
As minhas raízes,
foram enterradas antes do início dos tempos
antes da abertura das eras,
antes dos pinheiros e das oliveiras,
antes que tivesse nascido a erva.
O meu pai descende do arado,
e não de senhores poderosos.
O meu avô foi lavrador,
sem honras nem títulos,
e ensinou-me o orgulho do sol
antes de me ensinar a ler.
A minha casa é uma cabana,
feita de ramos e de canas.
Estás feliz com o meu estatuto?
Tenho um nome, não tenho título.
Escreve!
Sou árabe.
Roubaste os pomares dos meus antepassados
e a terra que eu cultivava com os meus filhos;
não me deixaste nada,
apenas estas rochas;
O governo vai tirar-me as rochas,
como me disseram?
Escreve, então,
no cimo da primeira página:
a ninguém odeio, a ninguém roubo.
Mas, se tiver fome,
devorarei a carne do usurpador.
Tem cuidado!
Cuidado com a minha fome,
Cuidado com a minha ira!
Maḥmūd Darwīsh (1941–2008), poeta palestiniano, in O jardim adormecido e outros poemas, Campo das Letras, Porto, 2002. Tradução de Albano Martins
(Clicar na imagem para ampliá-la)




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