15 maio 2021

Vizinhos


Neighbours, um filme de curta metragem em stopmotion, premiado com um óscar, de Norman McLaren (1914–1987)

12 maio 2021

Sabedoria que pode ajudar a combater as alterações climáticas


Ao contrário do que é corrente afirmar, os povos indígenas não vivem na Idade da Pedra. Eles possuem valiosíssimos conhecimentos, muitos dos quais são arrogantemente desprezados por nós. Um exemplo é o das residências tradicionais dos índios brasileiros chamadas ocas ou malocas, como estas que estão na aldeia Piyulaga, no Alto Xingu, Mato Grosso. Apesar de serem feitas de materiais frágeis, estas ocas não são frágeis de maneira nenhuma, porque foram construídas de tal forma que conseguem resistir às tempestades mais violentas (Foto: Piratá Waurá)

(...)

As mudanças climáticas vêm há tempos modificando a vivência na cultura do povo Waurá. Entendemos que esses fatos são alterações que ocorrem no clima geral do planeta Terra, e sabemos que são provocados principalmente por ações dos seres humanos. Percebemos o aumento significativo da poluição do ar e da temperatura, e nosso maior desafio é nos adaptarmos, principalmente da década passada até a atual.

Nesse sentido, a mudança climática está causando muitos problemas para a sociedade Waurá, e está afetando, principalmente, o calendário tradicional que o povo segue conforme as suas tradições e costumes. Os nossos cultivos, por exemplo, são uma grande preocupação. O clima mudou, o calor aumentou, a chuva diminuiu, deixando confuso o período de plantação.

Em todos os tempos passados, o rio sempre fez a sua correnteza normalmente, não havia destruição das florestas ao redor do território, o fogo não escapava do nosso controle durante a queimada na nossa roçada. Atualmente, podemos ver que, cada vez mais, estão acabando as florestas exuberantes que existiam ao redor da área da Terra Indígena do Xingu. Fazendas de soja e gado estão ocupando o entorno, apertando o território xinguano, nos cercando. Também sentimos que o rio está secando bastante e aumentando a temperatura da água. Além disso, o calor deixa a serrapilheira (camada formada pela deposição e acúmulo de matéria orgânica morta em diferentes estágios de decomposição que reveste superficialmente o solo ou o sedimento aquático) muito ressecada, transformando-a em um poderoso combustível para o fogo e queimando as nascentes dos rios.

“Queremos saber o que está acontecendo. Antes sabíamos controlar o fogo quando queimávamos para preparar a nossa roça. Agora ele escapa e não para. Não era assim naquele tempo aqui na região. Também sabíamos quando a chuva ia parar e quando ia voltar, mas agora não sabemos mais”, disse o cacique Awaulukuma Waurá.

A humanidade, principalmente os não indígenas, não pensa na saúde do planeta. Para nós, é simples: precisamos diminuir a queimada das florestas, respeitar os territórios indígenas, que são os que mais cuidam e se preocupam com a floresta como um bem cultural, parar de queimar combustíveis fósseis, parar com funcionamento de fábricas poluidoras, reciclar e controlar o lixo, dentre tantas outras soluções. Podemos entender que falar é fácil, o problema verdadeiro é como fazer isso. Pois tudo seria mais fácil se as pessoas se conscientizassem de verdade. O problema é que as pessoas que têm o poder escolhem o dinheiro em vez do meio ambiente, e assim a situação fica cada vez mais difícil.

Nós, da cultura Waurá, que dependemos da natureza, temos muito conhecimento para dividir: como reflorestar tradicionalmente, como cuidar do meio ambiente da nossa região, formas de fazer a derrubada para a nossa plantação de sobrevivência e depois jeitos de ajudar a crescer de novo as árvores que foram derrubadas.

Entre fechar uma de suas fábricas que causa maior poluição para ajudar a natureza e mantê-la para conseguir mais poder, todos preferem continuar com suas indústrias poluentes. Isso precisa ser revisto. Todos nós temos de nos empenhar e ajudar a reverter as mudanças climáticas, porque nós, os povos indígenas, sozinhos nunca conseguiremos.

A partir de tudo isso, sabemos que a união pode ser a verdadeira chave para a solução dos nossos problemas. Todos estão sofrendo com muito calor, não só os índios. E a água, principal fonte de vida para os seres vivos, está diminuindo. Todos são afetados, não só nós. Mas temos muito o que contribuir para a solução desses problemas.

(...)


Piratá Waurá, em Mudanças Climáticas e a Percepção Indígena. Piratá Waurá é professor indígena brasileiro, graduado em Licenciatura Intercultural na área de Língua, Arte e Literatura pela Universidade do Estado de Mato Grosso. Mora na aldeia Piyulaga, localizada na Terra Indígena do Xingu, município de Gaúcha do Norte, Mato Grosso, Brasil





(Foto: Piratá Waurá)


(Foto: Piratá Waurá)


(Foto: Piratá Waurá)


(Foto: Piratá Waurá)


Uma panela de barro (Foto: Piratá Waurá)


(Foto: Piratá Waurá)

07 maio 2021

O rei D. Sebastião


O Rei D. Sebastião, óleo sobre tela de Cristóvão de Morais, pintor português que teve atividade conhecida entre 1551 e 1571. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

Este retrato do rei D. Sebastião é da autoria de Cristóvão de Morais, que foi um excelente pintor português do séc. XVI. Cristóvão de Morais foi, com toda a certeza, um dos melhores pintores maneiristas portugueses. Ao olhar para este quadro, não posso deixar de notar que ele é um bom retrato de um mau rei, porque mal aconselhado: o rei de Portugal D. Sebastião. Não vale a pena insistir no facto de que D. Sebastião trouxe a desgraça para Portugal quando se fez matar na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África, em 4 de agosto de 1578.

Como seria de esperar, a batalha de Alcácer Quibir vem referida nos livros de História de Marrocos. Não é todos os dias que um rei é morto num campo de batalha, seja em Marrocos ou seja onde for. O que é surpreendente é o modo como os marroquinos reagem diante de um interlocutor português, quando o assunto é abordado, e lhe dizem: «Sim, é verdade que nós ganhamos, mas a batalha de Alcácer Quibir foi somente uma batalha entre muitas que houve entre as nossas duas nações. Nós ganhamos algumas, vocês também ganharam algumas, mas o que importa é que agora estamos todos em paz e somos todos amigos». Fica a sensação de que esta desvalorização da importância da batalha de Alcácer Quibir por parte dos marroquinos é apenas uma manifestação de gentileza. Os marroquinos são um povo gentil, atencioso, tolerante e acolhedor. E, o que é mais importante, não nutrem qualquer rancor ou ressentimento para com os portugueses. Isto mesmo eu verifiquei pessoalmente em diversas ocasiões.

Efetivamente, quando eu disse uma vez a um marroquino que era português, ele soltou uma sonora gargalhada e exclamou: «É português? Então somos grandes inimigos! Ahahahahah!» Por momentos julguei que ele me iria dar um grande abraço, o abraço do reencontro de dois "grandes inimigos". Mais tarde, fiquei a pensar.

No ano 711, os mouros atravessaram o Estreito de Gibraltar, vindos do Norte de África, e rapidamente se apoderaram da Península Ibérica, com exceção das Astúrias, conquistando o fraco Reino dos Visigodos, que não era mais do que uma frágil federação de senhores feudais. Começou assim um ciclo de conquistas e reconquistas, invasões e recuos, grandes batalhas e pequenas escaramuças, tanto em solo ibérico como em solo norte-africano, entre mouros e cristãos, que, no caso português, se prolongou até ao ano 1769, ano em que Portugal abandonou a sua última posição em terras de Marrocos, a fortaleza de Mazagão. Por determinação do Marquês de Pombal, os ocupantes da fortaleza foram então transferidos para a foz do Rio Amazonas, onde fundaram uma povoação também chamada Mazagão.

Agora, como dizia António Guterres, «é só fazer as contas». Estas contas revelam que, ainda e só no caso português, se passaram 1058 anos entre o primeiro acontecimento e o último. Foram 1058 anos de ódios e de guerras, em que cristãos e muçulmanos se esquartejaram mutuamente, enquanto gritavam, uns contra os outros, «Morte aos infiéis!». Foram 1058 anos com montanhas e montanhas de mortos, rios e rios de sangue, milhões e milhões de órfãos e de viúvas, uma dor incomensurável e lágrimas sem fim. 1058 anos. Tudo isto para quê? Para que alguém, na viragem do séc. XX para o séc. XXI, se ria e graceje: «É português? Então somos grandes inimigos! Ahahahahah!» O ódio e o fanatismo, que tanto mal causaram, apagaram-se e converteram-se em anedota. Valeu a pena ter havido tantos mortos?

01 maio 2021

Cantigas do Maio



Cantigas do Maio, de José Afonso, por Carlos do Carmo (voz) e Bernardo Sassetti (piano)

25 abril 2021

Alvorar

era quase alvor a liberdade
era quase a vida quase a voz
era um rio em cheia quase foz
brandos ventos feitos tempestade

e foi alevantado este meu povo
gente viva, erguida, agigantada
era um tempo velho feito novo
tempo aceso luz na alvorada

assim nasceu esta ânsia de nascer
de novo neste chão por amanhar
chão regado a pranto e a sofrer
chão de medos, chão de tanto esperar

e das noites algemadas de morrer
e das horas avisadas de acordar
que eu sou do povo que então quis saber
quanto de si o povo sabe dar

e sou também desta terra feita
de cravos de soldados e canções
da pátria onde me deito e onde se deita
a gesta que moldou mil gerações

e sou o filho e sou também irmão
dessa gente que já vive na memória
sou da noite de escrever libertação
com a pena do poeta coração
e as musas de inventar a nova história

e era assim o dia a madrugar
no sangue e no fio de uma espada
esperança tanto sonho embainhada
olhos tanta noite a vigiar

e as lágrimas que correram tanto mar
e as vozes que rasgaram tanta estrada
e as armas onde a flor se viu plantada
não eram já as armas de matar
que o povo tem no peito e na raiz
a seiva da floresta libertada

aqui e era Abril e era amar
estava a renascer o meu país
quando se alvorou a madrugada
25–4–1999

António Lúcio Vieira (1942–2020)


A poesia está na rua, cartaz de Maria Helena Vieira da Silva (1908–1992)

20 abril 2021

Fremosas, a Deus grado

Fremosas, a Deus grado, tam bom dia comigo,
ca novas mi disserom ca vem o meu amigo;
ca vem o meu amigo,
tam bom dia comigo.

Tam bom dia comigo, fremosas, a Deus grado,
ca novas mi disserom ca vem o meu amado;
ca vem o meu [amado]
fremosas, a Deus grado.

Ca novas mi disserom que vem o meu amigo
e and'end'eu mui leda, pois tal mandad'hei migo;
pois tal mandad'hei migo
ca [vem o meu amigo].

Ca novas mi disserom ca vem o meu amado
e and'[end]'eu mui leda, pois mig'he[i] tal mandado;
pois mig'he[i] tal mandado
que vem o meu amado.

Bernal de Bonaval, segrel galego do séc. XIII


GLOSSÁRIO

a Deus grado — graças a Deus
ca — que, pois, porque
ende — disso, daí
leda — alegre
migo — comigo
mandado — notícia, mensagem



(Foto de autor desconhecido)

16 abril 2021

Se fosse vivo, Peter Ustinov faria hoje 100 anos


Participação de Peter Ustinov (1921–2004), ator, escritor e realizador inglês de ascendência russa, na série televisiva The Muppet Show. Falado em inglês, sem legendas

11 abril 2021

Há um tiro isolado que ecoa longamente no vale


Combatentes progredindo no terreno, no decurso de uma operação militar na região do Mucondo, norte de Angola, 1972 ou 1973 (Foto: Luiz Macedo)


Episódio ocorrido na região do Mucondo, norte de Angola, provavelmente em fins de 1970:

(...)
Caminhamos num vale com uns cem metros de largura ladeado por montes de pequena altitude cobertos por densa vegetação. O vale é plano. A terra é escura. Há lavras por todo o lado. Milho crescido muito bem tratado, sinal de que nos encontramos em pleno território inimigo. A tensão cresce. Tudo pode mudar de um momento para o outro. Pela primeira vez encontro-me em território claramente assinalado pela presença inimiga. Abandonamos o percurso aberto que trazíamos pelo meio das lavras porque nos expomos demasiado e nos tornamos num alvo fácil. Caminhamos agora mais protegidos pela orla da mata com uma visão perfeita sobre toda a extensão do vale.

Há uma ordem brusca para parar e agachar vinda da frente. Silêncio.

Permanecemos assim por breves momentos que me parecem uma eternidade. Sustenho até a respiração procurando eliminar todos os ruídos que me impeçam de ouvir os sons que vêm da frente. Depois respiro ao de leve, controlando o ruído do ar que me sai e entra lentamente pela boca e nariz. A fila é muito longa. É impossível ver o que se passa bem lá na cabeça da coluna.

Uma informação digital corre célere toda a fila e chega até mim em forma de V.

Vitória? Mas ganhámos o quê? Questiono-me eu num solilóquio absurdo quebrando aquela onda hertziana que me devia atravessar e continuar no militar que me seguia.

— São dois, meu Alferes, são dois turras – esclarece o militar que se me segue, captando a informação e apercebendo-se da minha indecisão. A onda encalhada em mim é restabelecida.

Abano a cabeça na maior censura e tento desculpar-me a mim mesmo com a enorme tensão em que me encontro. Não havia ainda vitória. Eram dois os inimigos que se dispunham a uma derrota contra os cinquenta de nós que os esperávamos acoitados na mata.

Há um ou dois gritos que traduzo de interpelação de alguém vindos da frente e que ecoam no silêncio absoluto do vale. Segundos depois um tiro, outro e um terceiro que restabelece o silêncio, depois de ribombar em ecos que estouram na minha cabeça.

Fico mais perto do chão. Não há notícias. Correm apenas boatos. Dois já ficaram. Parece que ficaram dois.

De repente uma rajada, outra, tiros, muitos tiros, um tiroteio incrível ali a cinquenta, setenta metros à minha frente sem que eu veja o que quer que seja. Mergulho num pedaço de tronco derrubado que encontro à mão e tento perceber o que se passa. Comigo ficam alguns militares que se abrigam esperando que lhes transmita ordens. Não sei quem dispara, não vejo o inimigo, ouço dezenas de tiros que se agrupam num único trovão que dura vinte, trinta segundos e é interrompido a custo pela voz de alguém que grita: pára, pára, pára! Mas os tiros continuam por mais alguns momentos, embora dispersos e isolados.

— Ninguém dispara! Grito para os militares que ficaram comigo.

— Ninguém dispara!

Tenho o dedo trémulo no gatilho supostamente pronto para o uso que for requerido e espreito encolhido tentando descortinar algo que se mexa e nos ameace. A fila fazia uma curva e desaparecia por entre vegetação e pés de milho impedindo de observar o centro dos acontecimentos. Fez-se um silêncio que parecia não ter fim. Um silêncio incerto lentamente transformado em calmaria podre. Olho-me em volta. Sinto-me perdido e vulnerável como um grão de areia no deserto. Reparo que, no meio de todo aquele tiroteio, a minha G3 tinha ficado com a patilha de segurança na posição de travada. Tinha-me esquecido de a destravar. Era assim como ir para um duelo e esquecer de meter as balas na pistola.

— Vais longe! Comento em voz alta para mim mesmo quando dou por ela, perante o olhar interrogativo do militar que está ao meu lado, pensando que o critico. Com a coronha da G3 apoiada no chão e com um joelho em terra, fico por momentos com a cabeça assente no braço que segura a arma, remoendo a minha falha que procuro colocar no cimo da lista das minha preocupações futuras no sentido de não voltar a cometer o mesmo erro.

Há dois elementos do lado inimigo atingidos. Afinal, apenas aqueles dois simbolizados num V de vitória que não lhes sorriu.

Nunca me dei bem com o sangue vertido fosse donde fosse. Nem da galinha que a minha mãe aprontava em menos de nada nos domingos de festa lá da aldeia. Sabia que havia ali bem perto alguém atingido por balas de guerra, terrivelmente perfurantes que deixavam um pequeno orifício de entrada e estraçalhavam tudo à saída. O meu primeiro impulso foi de ficar por ali à espera que tudo passasse e regressássemos às casernas, onde me esperava um papelinho mágico que me mandava de volta a Mafra ao remanso das guerras de brincar.

Há ainda um enorme sentimento de insegurança após aquele tiroteio. Vagueio de um lado para o outro procurando ordenar o meu grupo e mantê-lo vigilante dada a posição desfavorável em que nos encontramos, já perfeitamente localizados pelo inimigo. Disfarço o melhor que posso a luta interior que se trava dentro de mim. Dou por me afastar instintivamente do teatro dos acontecimentos. O mínimo que me esperava no meu futuro militar era pelo menos uma boa meia-dúzia de situações daquelas, onde a morte estaria presente ou deixaria o seu véu sombrio envolver os espíritos de quantos ficavam à sua mercê. Talvez fosse melhor que me habituasse já à sua presença, garantindo o início de uma relação de rotina que nos endurece os sentimentos e nos torna insensíveis à dor, ao medo e aos sofrimentos próprios e dos outros. Há responsabilidades e condutas que me vão ser exigidas. O treino a que me sujeitam não deve cingir-se apenas à aprendizagem do modo de fazer a guerra, mas também à eventualidade das suas consequências ou à desumanidade das suas armas e circunstâncias.

Decido por me obrigar a ir à frente, apontando-me uma baioneta às minhas pernas que ainda trémulas se recusam a caminhar naquela direcção. Há militares que se movimentam de arma em riste procurando garantir a segurança contra um inimigo invisível mas, sem dúvida, presente e pronto para nos aniquilar e vingar os seus. De coração em sobressalto, chego ao local onde a agitação é enorme. No campo de milho estão dois corpos caídos a cerca de trinta metros um do outro. Um de bruços, inerte. O outro, gemendo, apoia-se num cotovelo. Tem as vísceras na outra mão que aconchega no regaço. Olha-nos com distanciamento como quem não espera mais nada além da morte e a deseja. Balbucia palavras que procuro entender mas não alcanço.

Nem sotaque do Norte, nem linguarejar do Sul, ou cantata ondulante das searas alentejanas. São palavras que brotam em sonoridades novas e sentidos ínvios, que se me erguem estranhas naquela terra distante, província desmedidamente maior que a mãe pátria, que não cuidámos de aportuguesar, ao menos na língua, que nos fizesse entender as dores do corpo e da alma ou mesmo os desejos de não querer ser português assim.

O Chagas está algo transtornado e movimenta-se nervoso.

— Não podemos ficar aqui mais tempo. Em minutos caem-nos em cima e estamos totalmente desprotegidos.

À minha chegada o Chagas resume o que se passou na esperança de que, entre todos, encontremos uma solução para a situação criada. Afinal tratava-se de três elementos da população, dois homens e uma criança, que vinham pelas lavras. Traziam às costas utensílios agrícolas que foram confundidos com armas. Foi-lhes dada ordem para pararem à qual não obedeceram e fugiram. Foram abatidos. A criança foi deixada fugir. Deviam vir acompanhados de perto por guerrilheiros porque houve posteriormente disparos vindos da mata que deram origem àquele tiroteio todo. Nem há tempo para ir ver se lá ficou algum ferido ou morto. Temos que sair daqui.

O Chagas movimenta-se nervoso e assustado de um lado para o outro. Tem um ar lívido estampado no rosto, marcado pelo sentimento de responsabilidade de comandar aquela operação. Pela obrigação que lhe cabe de tomar decisões. Decisões que têm a ver com a vida ou a morte. Aquelas que me vão caber num futuro próximo e por mais três longos anos.

— E agora o que faço àquele desgraçado que ali está!? Nem pensar chamar um helicóptero porque a esta hora já não vêm.

Os hélis tinham uma margem de luminosidade de segurança sem a qual não operavam.

— Se fica ali assim vai ser um sofrimento atroz.

Ninguém encontra soluções que possam ser apresentadas de viva voz e em boa consciência. Há trocas de olhares silenciosos e cúmplices que ninguém se atreve a traduzir melhor por palavras. Projecta-se em cada um de nós uma alternativa animal e fria que apenas encontra sentido na insensatez da guerra. Uma solução grotesca de resgate de sofrimento a troco de nada, a não ser por fim a paz apodrecida do silêncio inesperado e o sossego das tormentas da vida. De olhar fixo no chão, deixo também o meu doloroso recado e afasto-me derrotado e miserável. Acenam-me com alguns lenitivos de consciência que procuram vingar a perna do Guia desfeita no Mufuque três meses antes. A memória do Guia não me serve de desculpa nem me fortalece o ânimo. Talvez porque nem cheguei a conhecer o Guia. Talvez porque nunca privei com ele. Tentam colonizar a minha consciência transformando derrotas retumbantes em vitórias que apagam sonhos de futuros de melhor vida e os transformam em pesadelos negros e sem retorno. Mundos de promessas e esperanças sem fim, desmoronando-se em ruínas de pó que nos alucinam e nos peiam a vontade de discernir e libertar de nevoeiros cegos que nos envolvem, teimando em cobrir-nos e escurecer a nossa consciência de navegantes perdidos.

Já fugi do palco da minha derrota.

Há um tiro isolado que ecoa longamente no vale. Um eco que parece não ter fim e que se prolonga nos nossos sentidos. Um tiro a que, de olhos no chão, ninguém responde nem dá sinais de medo ou cuidado, porque transporta uma mensagem de dor ou o fim dela. Um tiro rogado em silêncio pelo próprio derradeiro sopro de vida que o implora. Que me estremece e trespassa a consciência, qual trovão que ensurdece os meus sentidos e me queima toda a razão. Que me sinto atingir em cheio no peito e derrubar o que me sobra de ânimo já de si desfeito. Que me angustia e me deixa por momentos à deriva e sem norte.

Fico em pé enquanto mo permitem os restos de dignidade que em mim ainda campeiam desordenados e sem rumo. Há um silêncio frio e negro de sepulcro que emudece tudo. Um sol exausto que também se deixa abater e cai vencido num horizonte distante de uma vergonha recente mas já podre. Emergem já sombras frias em prenúncio de um escuro fúnebre que se prepara para envolver todo o vale e enredar-nos a consciência.

Há uma vontade enorme de fugir e me esconder, de abraçar e esquecer. Há um “Montijo” que me diz que mesmo que a chuva caia e me mate a sede de dois dias sob sol inclemente não irá à missa porque Deus por vezes descansa quando mais dele precisamos.
(...)


Pedro Cabrita, Capitães do Vento (esgotado), Roma Editora, Lisboa, 2003

04 abril 2021

Cristo ressuscitado


Cristo Ressuscitado, de Álvaro Pires de Évora, pintor português que esteve ativo em Itália entre 1411 e 1434. Museu de Belas Artes, Budapeste, Hungria

02 abril 2021

Cristo crucificado


Cristo crucificado, de Miguel Ângelo (1475–1564). Sacristia da basílica do Santo Espírito, Florença, Itália (Foto: Albino Todeschini)

26 março 2021

Cristóvão Lopes



Retrato de D. João III, de Cristóvão Lopes (1516–1594), c. 1545, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

«Filho de peixe sabe nadar», diz o provérbio. Neste caso o provérbio aplica-se, pois o pintor quinhentista Cristóvão Lopes foi filho de Gregório Lopes (c. 1490 – 1550), que foi um dos mais extraordinários pintores portugueses de todos os tempos.

É verdade que Cristóvão Lopes não teve a centelha de génio que o seu pai possuiu, pelo menos a avaliar pelas obras que dele chegaram até aos nossos dias, mas de qualquer modo também foi um excelente artista, não sendo nada despiciendos os vários retratos que ele fez, nomeadamente do rei D. João III e de sua mulher, D. Catarina de Áustria.


Retrato da Rainha D. Catarina de Áustria, de Cristóvão Lopes (1516–1594), c. 1550, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

21 março 2021

As mãos pressentem a leveza rubra do lume

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Al Berto (1948–1997)
(Foto: Getty)

19 março 2021

Música de Fr. Áureo Castro


Algumas peças musicais de Frei Áureo Castro, compositor português nascido na ilha do Pico em 1917 e falecido em Macau em 1992: Danças da Siu Mui Mui para piano, Nostalgia para piano, Sonatina n.º 1 para piano e Chian Kun Yu, Miao Fa, que é um arranjo para coro a capella de obra homónima do compositor chinês Chiang Wen Ye, por alunos da Academia de Música S. Pio X, de Macau, e Grupo Coral Polifónico de Macau

16 março 2021

O príncipe que foi correr sua ventura


(Foto de autor desconhecido)

Havia numa terra um rei que tinha um filho, que não fazia senão pedir-lhe para ir correr o mundo; o rei por fim não pôde mais ter mão, e deu-lhe um grande saco de dinheiro para a partida. Depois de ter andado muito, foi dar a uma estalagem onde encontrou um outro viajante. Conversaram, mas o viajante perguntou ao príncipe se não gostava de jogar; daí a instante já estavam ferrados ao jogo. O viajante ganhou-lhe o saco de dinheiro, e não tendo mais que lhe ganhar, propôs-lbe que jogassem mais uma vez, e no caso do príncipe ganhar tornava a dar-lhe o saco de dinheiro, e no caso de perder o príncipe ficaria preso por três anos naquela casa, e o serviria como criado por mais outros três. O príncipe aceitou a proposta, jogou e perdeu. O viajante tomou conta dele, prendeu-o em uma loja, e deu-lhe pão e água de um dia para três anos.

O príncipe chorava a sua má cabeça; ao fim de três anos vieram soltá-lo, e ele pôs-se a caminho para ir para casa do viajante, que era rei, servi-lo como criado. Depois de ter andado muito, encontrou uma mulher com uma criancinha ao colo a chorar com fome. O príncipe ainda levava o resto de uma codinha de pão e um escorropicho de água e deu tudo à mulher. Ela em agradecimento disse-lhe:

— Olhe, santinho, vá você sempre andando, e quando lhe vier um cheiro muito grande, é porque está perto de um jardim que está no caminho; entre para dentro, e vá-se esconder ao pé do tanque. Então hão de vir três pombas tomar banho, e à última que se despir tire-lhe o vestido de penas e não lho torne a dar senão em troca de três cousas que ela lhe der.

Aconteceu tudo como a mulher lhe tinha dito; apanhou o vestido de penas da pombinha, e ela para o tornar a ter deu-lhe um anel, um colar e uma pena, dizendo-lhe:

— Quando te vires em alguma aflição e disseres: — «Valha-me aqui a pomba», hei de te acudir; eu sou a filha do rei que vás servir, que tem uma grande raiva a teu pai; e que te ganhou tudo ao jogo para dar cabo de ti.

O príncipe apresentou-se em casa do rei, que lhe deu logo esta ordem:

— Toma este trigo, este milho e esta cevada para semeares, contanto que eu amanhã coma pão destas três qualidades.

O príncipe ficou espantado, mas o rei não quis saber de explicações; foi ele para o seu quarto todo atrapalhado da sua vida, e pega na pena dizendo:

— Valha-me aqui a pomba!

A pomba apareceu, e ficou sabendo tudo; e ao outro dia trouxe-lhe as três qualidades de pão para o príncipe ir entregar ao rei. Quando o rei viu cumpridas as suas ordens, disse-lhe:

— Pois bem; já que foste capaz disto, vai agora ao fundo do mar buscar o anel que a minha filha mais velha lá perdeu.

Voltou o príncipe para o quarto e tornou a chamar pela pombinha; ela acudiu:

— Olha, amanhã vai para a praia e leva uma bacia e uma faca e mete-te num barco.

Assim fez; a pomba meteu-se com ele no barco e foi por esses mares fora. Já tinham andado muito, quando ela disse que lhe cortasse a cabeça, de modo que não caísse uma gota de sangue no chão, e a atirasse para o mar. Seguiu tudo à risca. Passado pouco tempo saiu do mar uma pomba com um anel no bico, largou-o na mão do príncipe e foi lavar-se no sangue que estava na bacia; tornou-se na cabeça de uma bela donzela e depois tornou a desaparecer. O príncipe foi entregar o anel ao rei, que ficou mais desesperado, e lembrou-se de lhe dar um maior trabalho:

— Hoje de tarde hás de sair no meu poldro, para o ensinares.

O príncipe foi para o seu quarto e tornou a chamar pela pombinha, que lhe respondeu:

— Olha, o meu pai quer ver se te mata por algum feitio; porque o poldro é ele mesmo, o selim é minha mãe, minhas irmãs são os estribos, e eu sou o freio. Não te esqueças de levar um bom cacete porque podes consolar-te com uma carga de pau neles.

O príncipe montou no poldro, moeu-o com pancadas, e tais coisas fez que quando recolheu a casa e foi dar parte ao rei que o poldro estava manso, achou o rei de cama todo em panos de vinagre, a rainha feita numa salada, as filhas derreadas, menos a mais nova. Nessa noite foi ela ter com o príncipe e disse-lhe:

— Agora, que estão todos doentes é que é boa ocasião de fugirmos; vai à cavalariça e apronta o cavalo mais magro que lá achares.

O príncipe caiu na asneira de aprontar o mais gordo. Quando se puseram a caminho, e ela viu o cavalo gordo ficou muito contrariada, porque este cavalo andava como o vento, e o magro andava como o pensamento. Mas sempre fugiram. De noite o rei precisou da filha para o virar, e chamou por ela; nada. A rainha, que era refinada bruxa, pescou logo que a filha tinha fugido com o príncipe, e disse ao marido que saltasse já fora da cama e que os fosse apanhar. O rei levantou-se a gemer com dores, foi á cavalariça e quando viu o cavalo magro ficou seguro de pilhá-los. Montou e partiu. A filha, que ia sempre desconfiada que dessem pela falta dela, avistou de longe o pai, e de repente transformou o cavalo em uma ermida, a si em uma santa e o príncipe em um ermitão.

Chegou o rei ao pé da capelinha, e perguntou se não tinha visto passar por ali uma menina com um cavaleiro. O ermitão levantou os olhos do chão e disse que por ali não passara viva alma. O rei foi-se embora aborrecido, e foi dizer à mulher que só tinha encontrado uma ermida com uma santa e um ermitão.

— Pois eram eles, disse a velha desesperada; se me tivesses trazido um bocadinho do vestido da santa ou um bocadinho de caliça da parede, tinha-os agora aqui em meu poder.

E tornou a fazer partir o velho no cavalo mais ligeiro que o pensamento. O velho foi avistado ainda de longe pela filha, que fez do cavalo um terreno, de si uma roseira carregadinha de rosas, e do príncipe o hortelão. Repetiu-se a mesma coisa; o velho virou para trás, mas a velha bruxa azoinava-o:

— Se me tivesses trazido uma rosa dessa roseira, ou um punhadinho de terra, já cá os tinha em meu poder. Mas deixa estar, que desta vez vou eu também.

Quando a menina avistou a mãe sentiu um grande medo, porque sabia o poder que tinha; apenas teve tempo de fazer do cavalo um poço fundo, de si fez uma eiró, e do príncipe um cágado. A velha chegou à borda do poço, e conheceu-os logo. Perguntou à filha se não estava arrependida, e se quizesse voltar para casa que lhe perdoava. A eiró dizia com o rabo que não. A velha disse ao marido que atirasse uma bota ao poço para trazer uma gota de água, porque só com isso ficava com poder para agarrar a filha. Quando o rei tirava a bota cheia de água, o cágado saltou para dentro dela e entornou-a toda; com a outra bota deu-se o mesmo caso.

Então a rainha muito zangada rogou ao cágado a praga que ele se esquecesse da princesa. Continuaram o seu caminho, mas a menina sempre muito triste. E quando o príncipe lhe perguntava o motivo da sua tristeza, ela respondia:

— É porque tenho a certeza de que me hás de esquecer.

Chegaram por fim à terra donde o príncipe era natural; deixou a menina em uma estalagem, e foi pedir ao pai licença para lhe apresentar a sua noiva. Com a alegria que teve de ver a família esqueceu-se da menina. O pai tratou de lhe fazer o casamento; quando a menina soube disto teve uma grande aflição e gritou:

— Valham-me aqui minhas irmãs.

Apareceram-lhe. A mais velha disse:

— Não te aflijas; tudo se há de arranjar. — E deu ordem à estalajadeira que quando passasse algum criado do rei a comprar aves, que fosse ao quarto da irmã e vendesse três pombinhas que estariam lá. Assim foi; o criado do rei comprou as três pombinhas, e como eram muito lindas foi mostrá-las ao príncipe.

O príncipe estava admirado, e quando ia pegar nelas uma saltou para cima da janela, e disse:

— Quando nos ouvir falar, ainda mais admirado há de ficar.

Outra saltou para cima de uma mesa, e disse:

— Vai falando, vai falando, que ele se irá recordando.

A pombinha que lhe tinha ficado na mão saltou-lhe para cima do ombro e perguntou-lhe:

— Veja, príncipe, se este anel lhe serve.

O príncipe viu que sim. Depois deu-lhe um colar, e também servia. Por fim deu-lhe a pena, e só quando leu o nome da pomba é que se tornou a lembrar, e então casou com ela.


Conto popular recolhido no Algarve. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843–1924)

11 março 2021

Cortar a sua própria cabeça e sobreviver



Na mitologia popular, são contadas histórias de animais sem cabeça, mas não de cabeças sem animal. A realidade, contudo, ultrapassa a ficção. Foi descoberto um animal cuja cabeça consegue sobreviver separada do seu próprio corpo e, como se isto ainda fosse pouco, é capaz de regenerar um novo corpo a partir da cabeça cortada!

O animal em questão é um nudibrânquio pertencente a duas espécies: Elysia marginata e Elysia atroviridis. Um nudibrânquio é um molusco gastrópode sem concha, tal como as lesmas, mas vive no mar e pode exibir cores intensas e vibrantes, consoante a espécie a que pertencer. O nudibrânquio respira por guelras, que estão expostas, facto que determina a sua denominação, que significa "guelras nuas".

Uma investigadora japonesa, de seu nome Sayaka Mitoh, estava a estudar nudibrânquios num laboratório, quando presenciou aquilo que lhe pareceu ser uma cena de um filme de terror. Uma cabeça de nudibrânquio movimentava-se separada do corpo no fundo de um tanque. Julgou que a cabeça iria morrer em breve, sem um coração e sem os restantes órgãos vitais que lhe garantissem a sobrevivência, mas não foi isso o que aconteceu. Não só a cabeça não morreu, como começou a desenvolver um corpo novo ao fim de alguns dias. Menos de um mês depois, a cabeça já estava dotada outra vez de um corpo completamente desenvolvido agarrado a ela.

Fizeram-se diversas experiências com nudibrânquios das duas espécies acima referidas e concluiu-se que eles cortam a sua própria cabeça quando são parasitados por copépodes, que são crustáceos minúsculos, a fim de se livrarem deles. O modo como a cabeça consegue sobreviver sem o corpo e regenerar um novo corpo é ainda um mistério. Supõe-se que o consegue fazer por meio de fotossíntese, tal como fazem as plantas providas de clorofila, mas não há ainda nenhuma certeza sobre isto.

08 março 2021

Anna Thorvaldsdóttir, uma compositora islandesa


Metacosmos, de Anna Thorvaldsdóttir (Þorvaldsdóttir na ortografia islandesa), compositora nascida em 1977, pela Orquestra Sinfónica da Islândia regida pelo maestro Daníel Bjarnason 

Isto é música do séc. XXI. É música contemporânea, a ser ouvida com um estado de espírito mais aberto do que o habitual. Para escutá-la, devemos abrir os ouvidos e deixar que a música entre sem constrangimentos, a fim de impressionar a nossa sensibilidade. Punhamos de parte quaisquer pré‑conceitos. Se o título da peça, por si só, não for suficientemente sugestivo, a existência de algum apontamento sobre as intenções do autor poderá ajudar-nos a sentir e a "ver" melhor a música. Se apesar de tudo não nos sentirmos sensibilizados por ela, paciência. Talvez uma outra obra o possa fazer.

07 março 2021

A Calúnia de Apeles


A Calúnia de Apeles, têmpera sobre madeira de Sandro Boticelli (1445-1510), Galleria degli Uffizi, Florença, Itália

O pintor Sandro Boticelli foi um dos mais geniais artistas do Renascimento Italiano, que é o mesmo que dizer de todos os tempos e de todos os lugares. Nascido em Florença em 1445, Boticelli trabalhou para os Medici, para os quais pintou A Primavera e O Nascimento de Vénus, entre outros quadros, e também trabalhou para o Vaticano, onde nomeadamente pintou frescos na Capela Sistina. Faleceu em 1510.

Apeles foi um pintor da Grécia Antiga, que viveu no séc. IV A. C. e terá sido pintor oficial de Alexandre Magno. Entre as obras pintadas por Apeles, conta-se um quadro que se perdeu e que representava a Calúnia. Ainda que este quadro tenha sido dado como desaparecido, ficou uma sua descrição, feita pelo escritor helenístico Luciano de Samóstata, que viveu no séc. II D. C. O italiano Sandro Boticelli baseou-se na descrição de Luciano para pintar o quadro Calúnia de Apeles, que aqui se representa.

À direita do quadro, sentado no seu trono e de braço estendido, está o rei Midas, com as suas orelhas de burro, ladeado pela Ignorância e pela Suspeita, que lhe segredam ao ouvido. Diante do rei, com uma tocha acesa na mão, encontra-se o Despeito. Imediatamente atrás deste e vestida de azul está a Calúnia, que vem ladeada pela Fraude e pela Conspiração e arrasta pelos cabelos um jovem, que é o caluniado Apeles. Mais à esquerda do quadro, vestida de farrapos pretos, a Contrição olha para trás, para a nua Verdade, que aponta para o céu, invocando certamente a justiça divina.

27 fevereiro 2021

Concerto pelo Bangladesh





O Concerto pelo Bangladesh foi o primeiro grande concerto rock de beneficiência da história, muito anterior ao Live Aid. A sua realização deve-se ao músico indiano Ravi Shankar, que teve a ideia, e ao Beatle George Harrison, que a pôs em prática com o apoio de Phil Spector. O concerto teve lugar no Madison Square Garden, em Nova Iorque, no dia 1 de agosto de 1971 e contou com a presença de 40 mil espetadores.

Em 1971, o Bangladesh vivia um desastre humanitário de proporções inimagináveis. Por um lado, o país travava uma guerra pela sua independência contra o Paquistão, que causou mais de 250 mil mortos civis e 7 milhões de refugiados na Índia. Por outro lado, no ano anterior o Bangladesh tinha sido atingido por um ciclone, que matou mais 500 mil pessoas e provocou uma fome generalizada. Perante este cenário aterrador, o músico indiano Ravi Shankar contactou o seu amigo George Harrison para que se realizasse um concerto com vista à recolha de fundos para apoio às vítimas. O concerto propriamente dito, assim como o álbum discográfico e o vídeo que dele se fizeram renderam até à década de 90 um total de 45 milhões de dólares, que foram entregues à UNICEF, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, segundo o próprio George Harrison.

21 fevereiro 2021

Se eu de ti me não lembrar, Jerusalém


(Gadamael Porto, Guiné, 1973)

Nos gritos silenciados
Pelos esgares multiplicados desta metralha horrenda,
Se eu de vós me não lembrar, meu monte e meu rio sagrados,
Que a minha língua se prenda,
Que a minha língua se prenda!

        Junto ao Rio de Cacine me sentei chorando,
        Com saudades consagradas
        Ao meu chão;
        Nos palmares do chão manjaco desfiando
        Um rosário de granadas
        De mão.

Partem de Kandiafara mísseis Strela em demanda da minha vida,
Quando eu demando a minha terra da promissão:
Tão longe está o doce favo da partida,
A cama desfeita, os olhos embaciados amarrados ao vulcão.

Não é este o Rio que eu desejo engrossar com as lágrimas salgadas
Desta saudade tamanha;
Jazem a harpa e a G3, dependuradas
No tarrafe da bolanha.
Não é este o rio das bogas, dos barbos, das enguias e dos mexilhões
Que eu demando. Este rio não é
O rio que eu desejo. O rio Cacine tem candambas, tem bicudas, tubarões,
Nasce e morre em quatro horas de maré.

Aqui as bajudas balançam com altivez os chalavares dos camarões
E os flamingos parecem levitar num golpe d'asa;
Mas a água do meu rio, como o fogo dos vulcões,
É ferro em brasa.

O meu Tâmega sagrado foi rasgado com um grito,
Marcado pelo lume que a profecia diz,
Um pássaro de fogo voando no infinito,
Doce cicatriz.

        Junto ao Rio de Cacine me sentei chorando,
        Com saudades consagradas
        Ao meu chão;
        Nos palmares do chão manjaco desfiando
        Um rosário de granadas
        De mão.

Nos gritos silenciados
Pelos esgares multiplicados desta metralha horrenda,
Se eu de vós me não lembrar, meu monte e meu rio sagrados,
Que a minha língua se prenda,
Que a minha língau se prenda!


Luís Jales de Oliveira, Corre-me um Rio no Peito, edição de autor, Mondim de Basto, 2010


Pelicanos no Rio Cacine, Guiné-Bissau (Foto: Pedro do Vale)

Em primeiro plano o Rio Tâmega e em último plano o Monte Farinha, Mondim de Basto, Portugal (Foto: Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega)

GLOSSÁRIO

Chão manjaco - território habitado pelo povo manjaco da Guiné-Bissau

Kandiafara - localidade na República da Guiné (Guiné-Conacri)

Mísseis Strela - mísseis terra-ar com sensores de infra-vermelhos, que podiam ser disparados a partir do ombro de um atirador

Vulcão - alusão ao Monte Farinha, nas proximidades de Mondim de Basto, que não é um vulcão, embora pareça; no seu cume não existe qualquer cratera, mas sim um santuário dedicado a Nossa Senhora da Graça

Tarrafe - o mesmo que tamargueira ou tramagueira, árvore de pequenas dimensões

Bolanha - extensão de terreno alagadiço na Guiné-Bissau

Bajudas - jovens do sexo feminino

Chalavar - instrumento de pesca dotado de rede camaroeira, usado para apanhar marisco

18 fevereiro 2021

"Adieu, je pars!"


Adieu, je pars!, romance (também chamado romanza) em mi maior, op. 71, n.º 1, de Artur Napoleão, compositor português de ascendência italiana, nascido no Porto em 1843 e falecido no Rio de Janeiro em 1925. São intérpretes o violinista brasileiro Elias Barros e a pianista brasileira Guida Borghoff