19 janeiro 2020

Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão (1906–1997)


Rua de Santa Catarina, Porto (Foto: Gunawan Widjaja)

13 janeiro 2020

Variações em lá


Variações em lá, de António Chainho, por António Chainho em guitarra portuguesa e dois acompanhantes não identificados

07 janeiro 2020

A fortaleza de Juromenha


Vista aérea da fortaleza de Juromenha, concelho de Alandroal (Foto: Duarte Fernandes Pinto)

Há ruínas e ruínas. Há ruínas antigas, cheias de dignidade, que atraem multidões de turistas, e há ruínas velhas, que são a própria imagem da decadência e do abandono e pelas quais ninguém se interessa. A fortaleza de Juromenha pertence a esta segunda categoria. Ela é a verdadeira representação viva do abandono a que tem sido votado o interior de Portugal Continental em geral e o interior do Alentejo em particular.

Juromenha, que D. Afonso Henriques conquistara aos mouros em 1166, juntamente com Moura e Serpa, desempenhou ao longo dos séculos um importantíssimo papel na defesa do território português, contra os mouros, primeiro, e contra os espanhóis, depois. A sua origem perde-se na noite dos tempos, sendo a sua fundação atribuída a galo-celtas, adoradores de Endovélico e outros deuses locais. Passou pelas mãos de romanos, de mouros, de portugueses, outra vez pela de mouros e pela de portugueses mais uma vez.


Vista do interior da fortaleza de Juromenha (Foto: Maria Ana BS)

A fortaleza, tal como existe agora em Juromenha, foi edificada no séc. XVII, por ocasião da Guerra da Restauração, no local onde antes tinha existido uma fortificação mourisca, primeiro, e um castelo medieval, depois, mandado erguer pelo rei D. Dinis. Em 1659, uma terrível explosão de um paiol de pólvora causou a morte de cerca de cem pessoas.

A seguir, a fortaleza de Juromenha voltou a mudar de mãos, tendo sido ocupada pela Espanha em 1662, durante a Guerra da Restauração, passado para o domínio português em 1668, voltado a ser conquistada pelos espanhóis durante a chamada "Guerra das Laranjas", em 1801, e regressado à soberania portuguesa em 1808. Por fim, a evolução da tecnologia militar acabou por torná-la irrelevante e ditou o seu abandono definitivo em 1920.


O interior da igreja matriz de Juromenha encontra-se neste miserável estado (Foto: António Neves)

O que agora se vê na fortaleza de Juromenha é confrangedor. Tudo o que havia para roubar, já foi roubado. Tudo o que havia para vandalizar, já foi vandalizado. O que resta, vai caindo aos bocados por efeito da passagem do tempo. Em 2018, ruiu uma das torres da fortaleza. A igreja matriz, então, é um exemplo particularmente eloquente da decadência de Juromenha. Por que se espera para transformar estas ruínas velhas e desprezadas numas ruínas antigas e dignificadas? A região é lindíssima, o rio Guadiana é convidativo e o Alentejo precisa de gente nova como de pão para a boca.


O rio Guadiana espreguiça-se aos pés da fortaleza de Juromenha (Foto de autor desconhecido)

01 janeiro 2020

Canção Primeira

Em cada poema estou como quem viaja
não eu apenas mas a própria viagem
geografia onde respiro
e poiso os pés e tenho
uma raiz e um nome.
Em cada poema estou mas não sozinho.
Antes de mim a língua e os que primeiro
cantaram a longa história do poema.
Ó cidades: velhas cidades
subterrâneas colunas do meu canto
algures em mim as vossas ruínas gravam
uma estranha sintaxe intraduzível.
Fenícios Árabes Cartagineses
Celtas Romanos Visigodos
quantos povos em mim
quantas vezes dentre vós um houve
que sozinho cantou à tarde
habitado de ventos e crepúsculos? Quantas vezes
uma harpa se ergueu nas mãos de um jovem
e os dedos dos amantes
transformaram em música o suco de seus corpos?
Ó cidades velhas cidades
com vossas glórias e misérias
com vosso luxo e vossas fomes
quantas vezes um homem não terá cantado
sua perdida liberdade?
E aquele que cantou aos pés da amada
um canto de canelas e pimentas
e aqueles que partiram e morreram
e com rústicas mãos foram achar
as terras que depois eram dos reis.

Tão longe tão longe a carne do poema.
Quem pôs na minha boca este sabor a mar
quem pôs nas minhas mãos estes cavalos bárbaros
quem foi que semeou dentro de mim
um navio com sete mares para navegar?

Um cavaleiro passa em seu cavalo árabe.
Há uma mulher despindo-se. Quem prova
as amêndoas secretas do seu corpo?
Condenaram à morte o chefe dos rebeldes.
Passa um povo vencido acorrentado e trágico.
Vitorioso o rei regressa à frente dos exércitos
e há fome e peste nas aldeias arrasadas.
Algures na noite um homem canta.
Algures no tempo entre os cativos canta um homem.
Toda a estranha sintaxe dos lamentos
em línguas mortas já de gente aniquilada
cidades destruídas campos devastados
uma mulher violada pelas chamas
o canto dos guerreiros entre fogo e sangue
o canto dos vencidos entre silêncio e lágrimas.

Quem habitou estas ruínas
quem já passou por estes campos e estas terras
quem já cantou onde hoje canto?
Passa um povo vencido acorrentado e trágico
vitorioso o rei regressa à frente dos exércitos
algures no tempo um homem canta.
Algures na noite um homem canta ainda.

Fenícios Árabes Cartagineses
Celtas Romanos Visigodos
ó cidades já perdidas
quem pôs nas minhas mãos este sinal?

Tão longe tão longe a carne do poema.
E aqui estou desfolhado. Digo:
eu sou a minha história na história do poema.
E as línguas já passadas estão na língua renovada
são o ritmo do ritmo do meu canto
quando uma voz familiar e colectiva
dá uma voz à minha voz e de novo se junta
àquele dos cativos que não cessa o seu cantar.

Vai minha canção vai como um navio
sete mares são pequenos
para o rumo que tu levas.

E vós cavalos bárbaros das mãos
algures na noite um homem canta ainda
algures um povo passa acorrentado e trágico
e vós cavalos bárbaros levai-me.
Sobre as colinas desta terra voltada para o mar
plantai o meu poema.

Ali quero ficar
completamente nu e desfolhado
por todas as cidades destruídas
e por todos os povos arrasados
pelo passado pelo presente pelo futuro
ali quero cantar aos que passarem
uma canção que fale de quem somos:
das nossas casas e dos nossos violinos.
Do nosso pão e nossas rosas.
Da nossa vida e morte. Uma canção onde cantemos
transitórios eternos morrendo passando
ficando ainda
nos demorados violinos da canção tão breve.

Vai minha canção vai como um navio
sete mares são pequenos
para o rumo que tu levas.
Em qualquer parte alguém te espera.

Fenício árabe cartaginês
celta romano visigodo
tenho mil pátrias e uma pátria
e a minha pátria és tu canção.
Aqui habito sem fronteiras e sem raças
e tenho as mãos abertas para todos
aqui posso falar em todas as línguas do mundo
porque nenhuma é estrangeira.

Vai minha canção como um navio vai e leva-me
verso a verso desfolha-me
no coração de cada homem.

Manuel Alegre, in Praça da Canção

31 dezembro 2019

Música africana para dançar na noite de São Silvestre ou noutra ocasião qualquer


Soukous Machine, por Tchico Tchicaya, de Brazzaville


AZDA, por Franco, de Kinshasa (apenas áudio). Esta rumba congolesa, do popularíssimo músico Franco, é publicidade! É um anúncio a uma firma concessionária da Volkswagen na antiga República do Zaire, atual República Democrática do Congo, chamada AZDA. Como pagamento por este anúncio, cada músico recebeu uma carrinha Volkswagen Kombi, vulgo "Pão-de-Forma"...


Merengue 69, pelo conjunto Os Kiezos, de Luanda

28 dezembro 2019

Avelar Rebelo


Circuncisão, óleo sobre tela da oficina de Avelar Rebelo (c.1600–1657), igreja de São Pedro, Palmela, Portugal

José de Avelar Rebelo foi um pintor português nascido em Lisboa entre 1600 e 1610. Adepto entusiástico da Restauração da Independência, Avelar Rebelo tornou-se pintor régio de D. João IV e gozou de grande prestígio em vida. Faleceu em 1657.

25 dezembro 2019

Presente de Natal para as Crianças


Presente de Natal para as Crianças, cantata constituída por cânticos de Natal tradicionais de Portugal harmonizados por Fernando Lopes-Graça (1906–1994). Interpretação pelo Coro dos Pequenos Cantores da Academia dos Amadores de Música, de Lisboa, dirigido por Paula Coimbra, e acompanhamento ao piano por Luis Machado Pinto. Esta cantata é constituída pelos seguintes cânticos populares: Os Pastores e o Menino, O Menino da Bandeirinha Vermelha, O Choro do Menino, Os Pastores a Caminho de Belém, Caminham as Três Marias, Louvação do Menino, Porque Chora o Menino, Chacota do Menino, A Humildade do Menino e O Exemplo do Menino

21 dezembro 2019

Um canto de trabalho


Excerto de um episódio da série Povo que Canta, de Michel Giacometti, realizado em 1972 por Alfredo Tropa e produzido por Francisco d'Orey e Manuel Jorge Veloso para a RTP. Uma camponesa da freguesia de Dornelas do Zêzere, no concelho de Pampilhosa da Serra, canta enquanto trabalha numa nora para irrigar as hortas

14 dezembro 2019

Património Imaterial da Humanidade: Caretos, Morna e Bumba Meu Boi


Património Imaterial da Humanidade: Caretos (Portugal). A tradução para português das partes faladas em inglês está disponível sob a forma de legendas, que podem ser ativadas neste vídeo


Património Imaterial da Humanidade: Morna (Cabo Verde). Mar Eterno, uma morna velhinha de Eugénio Tavares, por Gardénia


Património Imaterial da Humanidade: Bumba Meu Boi (Brasil)

11 dezembro 2019

Selma Fernandes


Selma Fernandes na capa de uma revista

Não há muito que eu possa dizer sobre Selma Fernandes. Praticamente só conheço os belos trabalhos fotográficos que tem publicado nas redes sociais, e pouco mais.

Nestas condições, apenas poderei dizer que Selma Fernandes é angolana, natural e residente em Luanda, mas com raízes familiares no sul de Angola, creio que na província do Namibe. Foi fundadora, juntamente com Adalberto Gourgel, de uma organização de apoio aos albinos angolanos, chamada GVAPAA - Grupo Voluntário de Apoio a Pessoas com Albinismo em Angola. A situação dos albinos em Angola não é tão trágica como em alguns países da África Oriental, mas mesmo assim eles sofrem muita discriminação. A GVAPAA procura dar-lhes apoio, não só em termos de aconselhamento, mas também através da recolha e disponibilização de meios de proteção da pele, como protetores solares, roupas, bonés, etc.

Em 2015, Selma Fernandes sofreu um grave acidente de viação no Cuanza Sul, em que morreu o seu acompanhante Adalberto Gourgel. Conseguiu recuperar dos ferimentos sofridos e refazer a sua vida. Continua ativa nas redes sociais, nomeadamente no Facebook.




Mumuíla (Foto: Selma Fernandes)


Mucubais (Foto: Selma Fernandes)





Selma Fernandes acarinhando uma criança albina (Foto: Adalberto Gourgel)

07 dezembro 2019

Tôdalas cousas eu vejo partir


Tôdalas cousas eu vejo partir
do mundo em como soíam seer,
e vejo as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pode o coraçom partir
     do meu amigo de mi querer bem.

Pero que home parte o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-se home da terra onde é,
e parte-se home d'u [mui] gram prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
     do meu amigo de mi querer bem.

Tôdalas cousas eu vejo mudar:
mudam-se os tempos e muda-se o al,
muda-se a gente em fazer bem ou mal,
mudam-se os ventos e toda outra rem,
mais nom se pode o coraçom mudar
     do meu amigo de mi querer bem.

João Airas (sécs. XIII-XIV?), trovador galego


NOTAS

Tôdalas cousas eu vejo partir / do mundo em como soíam seer - Todas as coisas do mundo eu vejo afastar-se do que costumavam ser

Soíam - Costumavam

Pero - Embora, ainda que

Per bõa fé - Juro

E parte-se home d'u [mui] gram prol tem - E parte de onde a vida lhe corre bem

U - Onde

O al - O resto

Rem - Coisa


03 dezembro 2019

Fantasia em Ré



Fantasia em Ré, de António Carreira, compositor português do séc. XVI, por João Vaz no órgão da Igreja de São Vicente de Fora, Lisboa

26 novembro 2019

Hans Silvester




Hans Silvester é um fotógrafo profissional alemão, nascido em 1938 e residente em França. Das suas viagens pelo mundo resultou um conjunto bastante numeroso de livros, alguns dos quais costumam estar à venda na secção de fotografia ou de arte nas livrarias. Dizem que o seu livro mais popular tem os gatos das ilhas gregas como tema, mas os seus trabalhos mais notáveis são certamente fruto das viagens que ele fez a África, sobretudo ao vale do Rio Omo, no sul da Etiópia.

O Rio Omo nasce no coração da Etiópia e desagua no Lago Turkana, na fronteira com o Quénia. As belíssimas fotografias que Hans Silvester fez das gentes que vivem nas margens deste rio têm causado espanto em todo o mundo. Elas revelam um conjunto de tribos cujos membros fazem dos seus próprios corpos sublimes obras de arte, mas cuja cultura, ao que tudo indica, se encontra ameaçada de extinção a muito curto prazo, em consequência do avanço do dito mundo moderno.

A Etiópia é um país que tem vindo a passar por um período de grande crescimento económico e está apostada em tornar-se num grande produtor de energia elétrica, tanto para consumo interno, como para exportar para os países vizinhos. Com este fim em vista, lançou-se num ambicioso programa de construção de barragens nos seus principais rios. Poucos dias depois de ter sido anunciado que o Prémio Nobel da Paz 2019 era atribuído ao primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed Ali, este anunciou a construção de mais uma barragem, desta feita no Rio Nilo Azul, o que provocou um justificado alarme no Egito, país que depende do Nilo de forma crítica. Abiy Ahmed afirmou que a barragem vai mesmo ser construída, ainda que para isso tenha que haver uma guerra entre a Etiópia e o Egito. Nada mau para quem acabou de ganhar um Prémio Nobel da Paz!

O Rio Omo e os seus afluentes também não escaparam ao programa de construção de barragens lançado pelos governos etíopes. Várias barragens já foram construídas, a última das quais é a chamada Gibe III, no próprio Rio Omo, que se tornou na mais alta barragem de toda a África, com a sua parede de betão de 243 metros de altura! Calcula-se que a vida de cerca de meio milhão de pessoas já está a ser seriamente afetada por esta barragem. O enchimento da albufeira, para começar, já provocou uma gravíssima falta de água a jusante e consequentemente a fome na população local.

Além disso, espera-se que a água retida na barragem de Gibe III possa vir a ser usada como meio de irrigação na agricultura industrial. O governo etíope já começou a concessionar vastíssimas extensões de terras, que eram usadas como pastos para o gado pelos habitantes da região, para a monocultura de cana-de-açúcar. O que tenciona então o governo fazer às pessoas que lá vivem? Vai deixá-las morrer sem meios de subsistência?

Tudo leva a crer, portanto, que as imagens feitas por Hans Silvester e outros visitantes ao vale do Rio Omo possam vir a ser, dentro em breve, o último e trágico testemunho de uma civilização original que cultivava a beleza.


(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

(Foto: Hans Silvester)

24 novembro 2019

Frei João Sem Cuidados


(Desenho de autor desconhecido)



O rei ouvia sempre falar em Frei João Sem Cuidados como um homem que não se afligia com coisa nenhuma deste mundo.

— Deixa-te estar, que eu é que te hei de meter em trabalhos.

Mandou-o chamar à sua presença, e disse-lhe:

— Vou dar-te uma adivinha, e se dentro em três dias me não souberes responder, mando-te matar. Quero que me digas:

Quanto pesa a lua?

Quanta água tem o mar?

O que é que eu penso?

Frei João Sem Cuidados saiu do palácio bastante atrapalhado, pensando na resposta que havia de dar àquelas perguntas. O seu moleiro encontrou-o no caminho, e lá estranhou de ver Frei João Sem Cuidados de cabeça baixa e macambúzio.

— Olá, senhor Frei João Sem Cuidados, então o que é isso, que o vejo tão triste?

— É que o rei disse-me que me mandava matar, se dentro em três dias eu lhe não respondesse a estas perguntas: — Quanto pesa a lua? Quanta água tem o mar? E o que é que ele pensa?

O moleiro pôs-se a rir, e disse-lhe que não tivesse cuidado, que lhe emprestasse o hábito de frade, que ele iria disfarçado e havia de dar boas respostas ao rei.

Passados os três dias, o moleiro vestido de frade foi pedir audiência ao rei. O rei perguntou-lhe:

— Então, quanto pesa a lua?

— Saberá vossa majestade que não pode pesar mais do que um arrátel, porque todos dizem que ela tem quatro quartos.

— É verdade. E agora: Quanta água tem o mar?

Respondeu o moleiro:

— Isso é muito fácil de saber; mas como vossa majestade só quis saber da água do mar, é preciso que primeiro mande tapar todos os rios, porque sem isso nada feito.

O rei achou bem respondido; mas zangado por ver que Frei João se escapava das dificuldades, tornou:

— Agora, se não souberes o que é que eu penso, mando-te matar!

O moleiro respondeu:

— Ora, vossa majestade pensa que está falando com Frei João Sem Cuidados, e está mas é falando com o seu moleiro.

Deixou cair o hábito de frade e o rei ficou pasmado com a esperteza do ladino.



Conto popular recolhido em Coimbra.

Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga

19 novembro 2019

José Mário Branco foi para longe, mas continua tão perto


Eu Vim de Longe, Eu Vou p'ra Longe ("Chulinha"), por José Mário Branco (1942–2019)

18 novembro 2019

Augusto Roquemont


Autorretrato, óleo sobre tela de Augusto Roquemont (1804–1852), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

Augusto Roquemont foi um pintor suíço nascido em Genebra em 1804, filho do príncipe alemão Frederico Augusto de Hesse Darmstadt. Aos 24 anos de idade veio para Portugal e em Portugal ficou até ao fim da vida. Fixou residência em Guimarães, primeiro, e no Porto, depois, além de ter passado cinco anos em Lisboa. Morreu no Porto em 1852. Tornou-se um dos pintores mais importantes do Romantismo em Portugal, do qual foi um dos introdutores, tendo-se dedicado, sobretudo, a pintar retratos de personalidades e cenas de costumes populares portugueses, sobretudo do Minho. Por este facto, Augusto Roquemont é frequentemente considerado um pintor português, apesar da sua origem estrangeira.


Chafariz de Guimarães, de Augusto Roquemont (1804–1852), Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

13 novembro 2019

A Sé Catedral da Guarda


Fachada lateral norte da Sé Catedral da Guarda (Foto: Antonio Martins)

Dizia-se que a cidade da Guarda era a cidade dos cinco efes: Forte, Farta, Fria, Fiel e... Feia.

Feia, a Guarda?! Lavro o meu protesto! Eu gosto muito da Guarda e não posso aceitar que alguém diga que ela é feia. A Guarda é a cidade dos cinco efes, sim, mas estes são: Forte, Farta, Fria, Fiel e FORMOSA!

«Formosa, a Guarda?», poderão alguns objetar por sua vez. «Como poderá ser formosa uma cidade que é talhada no duro e cinzento granito? Ainda se fosse em calcário ou outra pedra branda e branca…» E eu respondo: «Visitem a Sé da Guarda e depois venham dizer-me se pode ser considerada feia uma cidade que tem uma tal catedral.» Note-se que é uma catedral talhada no duro granito, como o resto da cidade. Muito trabalho ela deve ter dado aos seus pedreiros!


Fachada lateral sul da Sé da Guarda (Foto: Nuno Tavares)

A diocese da Guarda foi criada na transição do séc. XII para o séc. XIII pelo papa Inocêncio III, a pedido do rei de Portugal D. Sancho I, em substituição da diocese de Egitânia, com sede na atual vila histórica de Idanha-a-Velha. Por esta razão é que os naturais da Guarda são chamados egitanienses, à semelhança dos naturais de Idanha-a-Velha e também dos de Idanha-a-Nova.

A atual Sé Catedral da Guarda começou a ser construída nos finais do séc. XIV, mas só ficou concluída no séc. XVI. É, portanto, uma catedral gótica, mas com uma mistura de diversas variantes do gótico, incluindo o manuelino, fruto da sucessão de vários bispos e de vários arquitetos ocorrida ao longo do tempo. Os restauros que se fizeram nos séculos seguintes levaram ao acrescentamento de elementos de outros estilos, mas na transição do séc. XIX para o séc. XX foi reposta muita da sua traça original, que é a que hoje se vê, graças ao arquiteto Rosendo Carvalheira.

A Sé da Guarda está orientada no sentido nascente-poente e com a capela-mor virada para nascente, como era hábito nas igrejas, mas é a sua fachada lateral virada a norte que mais impressiona. Vêmo-la de baixo para cima, o que nos dá uma sensação de particular grandiosidade deste magnífico templo. O portal principal, que está virado para poente e é em estilo manuelino, também merece a nossa admiração.


Portal principal da Sé da Guarda (Foto: Catarina Leonardo)

Se por fora a Sé da Guarda é um templo notável, ainda mais notável é ela por dentro. A beleza simples mas harmoniosa e a amplidão do seu interior dão-nos uma impressão de grande elevação e misticismo. É, inquestionavelmente, uma catedral gótica, que convida a nossa alma a subir para o céu.


Aspeto do interior da Sé da Guarda (Foto de autor desconhecido)

De grande beleza e enorme valor artístico é também o retábulo do altar-mor, atribuído ao escultor francês João de Ruão (Jean de Rouen), que viveu no séc XVI, passou a maior parte da sua vida em Coimbra e tanta e tão maravilhosa escultura deixou neste cantinho da Europa chamado Portugal.


Retábulo renascentista da Sé da Guarda (Foto: Celestino Manuel)

Dir-me-ão: «Pois sim, a Sé da Guarda é muito bonita, as igrejas da Misericórdia e de São Vicente também são, a antiga Judiaria é um belo bairro medieval e o Museu da Guarda merece uma visita muito atenta. Mas quem é que se atreve a ir à Guarda neste tempo de neves e de geadas?» Eu respondo que a Guarda tem uma hospitalidade franca e aberta, que é própria das gentes beiroas e que compensa, com o aconchego do seu calor humano, o frio, os ventos e as neves desta que é a cidade mais alta de Portugal.

06 novembro 2019

A Menina do Mar


A Menina do Mar, conto de Sophia de Mello Breyner Andresen, narrado por Eunice Muñoz e com a participação dos atores Francisca Maria, António David e Luís Horta. Música de Fernando Lopes-Graça. Direção de Artur Ramos

05 novembro 2019

A Carruagem


Tema musical de Anne Victorino d'Almeida, para o filme de curta-metragem A Carruagem, de Anne Victorino d'Almeida e João Vasco, por um agrupamento musical constituído por Jordi Rodriguez (violino), Pedro Lopes (violino), Pedro Meireles (violeta), Daniela de Brito (violoncelo), Paulo Jorge Ferreira (acordeão) e Alexandra Simpson (piano), sob a direção de Pedro Neves

31 outubro 2019

The Feynman Lectures on Physics



O norte-americano Richard Feynman (1918–1988) foi um dos físicos mais influentes do século XX, não só por causa das importantes descobertas que fez, uma das quais (a Eletrodinâmica Quântica) lhe valeu o Prémio Nobel, mas também pela sua capacidade de comunicar e de ensinar. Foi um professor nato, além de ter sido um investigador genial. Muitas das descobertas da Física que estão na origem dos avanços mais recentes da Ciência e da Técnica têm a sua marca. Ainda há poucos dias, a Google anunciou uma proeza extraordinária que nos pode conduzir à realização prática da computação quântica. Pois a computação quântica tem a marca de Feynman. A ressonância magnética nuclear também tem a marca de Feynman. A nanotecnologia também tem a marca de Feynman. A supercondutividade também tem a marca de Feynman. Muitas coisas mais têm a marca de Feynman.

The Feynman Lectures on Physics é uma das bíblias da Física. É a mais lida e a mais consultada de todas as obras sobre Física que se publicaram até hoje. Para dizer a verdade, aliás, esta obra não foi escrita por Feynman, mas sim por Robert B. Leighton e Matthew Sands.

Tendo-se verificado que as aulas de Física dadas no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), onde ele trabalhava, eram consideradas aborrecidas e desanimadoras, foi cometida a Feynman a tarefa de lecionar um curso básico de Física que fosse estimulante para os alunos dos primeiros anos. Este curso decorreu entre 1961 e 1963 e não foi tão básico assim. Foi antes um curso geral de Física, que abordou os mais diversos campos desta ciência com uma certa profundidade, mas as qualidades didáticas de Richard Feynman fizeram-no dar-lhe uma forma nova e refrescante. Até outros professores do Caltech frequentaram as aulas do seu colega Feynman.

O Caltech gravou em áudio as aulas do curso deste seu notável professor, assim como fez fotografias às fórmulas e aos gráficos que ele foi escrevendo no quadro. Foi a compilação do material assim gravado e fotografado que deu origem à célebre obra The Feynman Lectures on Physics. Como nem todas as aulas tinham sido compiladas na primeira edição da obra, outros capítulos foram sendo acrescentados em edições posteriores, até que no ano 2005 deu-se por concluída toda a compilação com a publicação da chamada Edição Definitiva.

Em 2013, toda a obra The Feynman Lectures on Physics foi colocada gratuitamente na Web (em inglês) e pode ser lida e consultada online por qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Agora que as aulas começaram há poucas semanas, é a altura de chamarmos a atenção para este notável trabalho, não só aos estudantes de Física e de Engenharia, mas também a toda e qualquer pessoa que queira aprender Física ou refrescar a memória do que aprendeu e entretanto esqueceu. O curso não é elementar, como já disse, mas mesmo assim é bastante acessível, como se poderá verificar. The Feynman Lectures on Physics está disponível no seguinte site:

http://www.feynmanlectures.caltech.edu/.