15 setembro 2020

O fim do verão no Parque da Cidade, Porto




09 setembro 2020

O aprendiz do mago


(Foto de autor desconhecido)


Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa quando ele saía. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:

— Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por cousa nenhuma do mundo, senão morres.

O rapaz assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter com ele. Fechou a porta a toda a pressa, passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:

— Desgraçado! Para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?

O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio, e fez-lhe a mesma recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio, e já o sentiu subir pela escada, e começou a gritar.

— Ai que agora é que estou perdido!

O cavalo branco falou-lhe:

— Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes em mim.

Palavras não eram ditas, o Mago abria a porta da casa; o rapaz salta para cima do cavalo branco e grita:

— Foge, que aí chega meu tio para me matar.

O cavalo branco correu pelos ares fora, mas ia já muito longe, e o rapaz torna a gritar:

— Corre, que meu tio já me apanha para me matar.

O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:

— Deita fora o ramo.

Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e enquanto o Mago abria caminho por ela, puseram-se muito longe. Mas o rapaz tornou outra vez a gritar:

— Corre, que já aí está meu tio que me vai matar.

Disse o cavalo branco:

— Bota fora a pedra.

Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto eles avançavam caminho. Mais adiante grita mais o rapaz:

— Corre, que meu tio agarra-nos.

— Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz, e disse-lhe que quando se visse em grandes trabalhos que chamasse por ele, mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou porque eram aqueles grandes prantos.

— É porque a filha do rei foi roubada por um gigante, que vive em uma ilha onde ninguém pode chegar.

— Pois eu era capaz de ir lá.

Foram dizê-lo ao rei, e o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha e trazer de lá a princesa, porque apanhou o gigante dormindo.

A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:

— Porque choras tanto, minha filha?

— Choro, porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha, e enquanto o não tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.

O rei mandou lançar um pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel, e o rei não lhe queria já dar a mão da princesa. Mas ela é que disse que casaria com ele para que se dissesse sempre — que palavra de rei não torna atrás.


Conto popular recolhido em Eixo, Aveiro. Contos Tradicionais do Povo Português, por Teófilo Braga (1843-1924)

05 setembro 2020

Seios com flores vermelhas


Les Seins aux fleurs rouges, Deux Tahitiennes ou Femmes aux mangos, óleo sobre tela pintado no Taiti por Paul Gauguin (1848–1903), Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, Estados Unidos da América

O pintor francês Paul Gauguin foi um dos mais destacados pintores europeus dos finais do séc. XIX e início do séc. XX. Rompeu com o Impressionismo e procurou uma nova forma de expressão estética, à semelhança do que fizeram muitos outros contemporâneos seus, os quais seguiram o seu próprio caminho e abriram os horizontes para a arte do séc. XX. Paul Gauguin foi um viajante incansável, que procurava encontrar uma terra pura, genuína e intocada pela chamada civilização. Acabou por ir parar à Polinésia, onde viveu os seus últimos anos e onde pintou alguns dos seus mais significativos quadros. Neles, Gauguin não procurou reproduzir o exótico, mas sim o que de mais autêntico existia na alma humana sem artificialismos. Veio a falecer num dos arquipélagos mais remotos do Pacífico, as Ilhas Marquesas.

30 agosto 2020

Sonata "Ao Luar", de Beethoven


Sonata para Piano N.º 14 em dó sustenido menor, Op. 27, N.º 2 ("Ao Luar"), de Ludwig van Beethoven (1770–1827), pelo pianista chileno Claudio Arrau (1903–1991)

24 agosto 2020

Um poema do bispo D. Pedro Casaldáliga





A PAZ INQUIETA

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta
Que denuncia a PAZ dos cemitérios
E a PAZ dos lucros fartos.

Dá-nos a PAZ que luta pela PAZ!
A PAZ que nos sacode
Com a urgência do Reino.
A PAZ que nos invade,
Com o vento do Espírito,
A rotina e o medo,
O sossego das praias
E a oração de refúgio.
A PAZ das armas rotas
Na derrota das armas.
A PAZ do pão da fome de justiça,
A PAZ da liberdade conquistada,
A PAZ que se faz “nossa”
Sem cercas nem fronteiras,
Que é tanto “Shalom” como “Salam”,
Perdão, retorno, abraço…
Dá-nos a tua PAZ,
Essa PAZ marginal que soletra em Belém
E agoniza na Cruz
E triunfa na Páscoa.

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta,
Que não nos deixa em PAZ!

Pedro Casaldáliga (1928–2020), missionário catalão, bispo em S. Félix do Araguaia, Brasil, e um dos expoentes da Teologia da Libertação

17 agosto 2020

Crenças e superstições (que já não há?)


Ferradura pregada numa porta (Foto: Rafael Carvalho)


Para tirar as sardas — trovisco macho, sangue de toupeira, unto de cobra ribeirinha e vinagre puro.

Amassa-se tudo e põe-se na cara, ao deitar na cama, três noites a fio, mas só se lava a cara no fim dos três dias. É «remédio santo».


(…)


Remédio para a dor de cabeça — alecrim, rosmaninho, arruda, politaira, aipo, mentrastos e segurelha. É tudo bem pisado e posto na cova-do-ladrão ao deitar, dizendo-se em seguida:

Com Deus me deito,
Aqui neste leito,
Deito-me doente
E levanto-me escorreito.
Em louvor de Santa Maria,
Paz téco, aleluia.
— Amen.

Como aborrecer o vinho — pega-se numa cobra viva e afoga-se em meia canada de vinho. Se não for tempo de cobras, também remedeia uma enguia, mas a cobra é melhor.

Quando o bêbedo pedir vinho, dá-se-lhe deste. Ao cabo de 24 horas, nunca mais torna a fazê-lo.

Para o pão levedar depressa — pega-se nas calças de um homem (que não use ceroulas), viram-se do avesso e põem-se sobre a massa, com um rosário bento em cima. (De notar a analogia entre o símbolo da potência masculina e o crescimento da massa.)

Para tirar o pano da cara — esfrega-se bem a cara com cueiros ainda húmidos.

Para conservar a vista — esfrega-se os olhos com ovos ainda quentes e pouco limpos.

Para curar ougamentos1 — come-se atrás da porta um bolo quente, com azeite e alho, e enterra-se o que sobrar. Aliás, fica ougado o animal que o comer.

Para preservar do diabo as casas — prega-se em cada porta, postigo e janela, uma cruzinha de trovisco macho.

Mas neste arsenal, existem igualmente os acautelatórios. E assim, quem quiser «zombar de bruxas e feiticeiras» deve trincar e mastigar, todos os dias, ao levantar da cama, um bocado de alho verde.

E, finalmente, esta «receita» que poderá, eventualmente, ser útil a alguma leitora em transes semelhantes:

Para a moça fazer andar o rapaz sempre «à cordinha», até que ele se resolva a casar com ela — traga, numa bolsinha pregada no colete, sobre o peito esquerdo, um osso de cão, outro de gato e outro de defunto, com um bocadinho de terra do caixão do mesmo, três folhas de ruda (arruda), três de alecrim macho e um alho verde. Lave bem o corpo em cruz — desde as pontas dos dedos da mão direita até às pontas dos dedos do pé esquerdo — e das pontas dos dedos da mão esquerda até às pontas dos dedos do pé direito. Sirva depois ao dito cujo rapaz café ou chocolate, preparado com aquela água, e ovos fritos, partidos no cachaço dele. É receita magnífica e muito experimentada.

Fizemos a amostragem de um receituário que nos chegou, pelo menos do século XIX (mas com origem certamente mais remota) Disparates, infantilidades, crenças pueris. Instantâneos de certa vida portuense — cada um chame-lhe o que entender — são, também, componentes de outra face da personalidade tripeira que se desvenda. Sem nenhum propósito apologético. Sem nenhuma simpatia pelas práticas. (Mas com muita simpatia pelas pessoas que as praticavam. Com as suas razões: abandono, atraso cívico, dificuldades, analfabetismo, isolamento, más habitações, superstição. Mudámos assim tanto as causas do sofrimento e do subdesenvolvimento para nos rirmos delas? E será a crença nas virtudes de um pó ou de uma bisnaga, impostos pela TV, superior à crença nas mulheres de virtude? Vale mais a «crença» electrónica do que a crença nas palavras e nos gestos — que se crêem — mágicos?)


1 De ougar: palavra que significa «aguar», muito usada pelas camadas populares do Porto. O ougamento é o desejo de comer ou beber qualquer coisa (à mulher grávida, deve-se dar tudo o que lhe apetecer, para que ela «não ougue»).


Hélder Pacheco, Tradições Populares do Porto, 3.ª Edição, Editorial Presença, Lisboa, 1991


GLOSSÁRIO (segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020)

Cova-do-ladrão — Depressão entre o pescoço e a nuca.

Pano — Nódoa amarelada no rosto ou noutra parte do corpo.

14 agosto 2020

Carlos Reis


Milheiral, c. 1889, de Carlos Reis (1863–1940), óleo sobre tela, Reitoria da Universidade de Lisboa (depósito), Lisboa, Portugal

Carlos Reis foi um pintor português, nascido em Torres Novas em 1863 e falecido em Coimbra em 1940. Estudou na Escola de Belas Artes de Lisboa, primeiro, e na École des Beaux-Arts em Paris, depois. Foi sobretudo um pintor paisagista, fundador do grupo Ar Livre, e a sua obra insere-se na corrente do Naturalismo. Foi professor da disciplina de Paisagem na Escola de Belas Artes de Lisboa, assim como diretor do Museu Nacional de Belas-Artes e do Museu Nacional de Arte Contemporânea. Morou na Quinta dos Lagares d'El Rei, uma quinta histórica classificada como Imóvel de Interesse Público, que é propriedade privada e fica entre a Avenida Estados Unidos da América e a estação de caminho de ferro Roma-Areeiro, em Lisboa. O seu nome foi dado a um museu em Torres Novas, a sua terra natal, onde se encontram algumas obras suas.


Depois da Trovoada, 1891, de Carlos Reis (1863–1940), óleo sobre tela, Academia de Belas Artes, Lisboa, Portugal


As Engomadeiras, 1915, de Carlos Reis (1863–1940), óleo sobre tela, Museu de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, Portugal


Asas, 1932, de Carlos Reis (1863–1940), óleo sobre tela, Museu Municipal Carlos Reis, Torres Novas, Portugal


Aspeto de Jardim com Tocador de Viola, não datado, de Carlos Reis (1863–1940), óleo sobre tela, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal

09 agosto 2020

COVID-19: o Brasil soma cem mil mortos e continua a somar


O carismático cacique (chefe tribal) Aritana Yawalapiti, do povo indígena brasileiro Yawalapiti, foi uma das muitas vítimas da pandemia COVID-19. Contraiu a doença na sua própria aldeia, no Parque Indígena do Xingu, de onde foi levado para a pequena cidade de Canarana, no Mato Grosso, onde não existiam condições para tratar o seu grave estado. De Canarana, o cacique Aritana foi então transportado para Goiânia, onde ficou internado num hospital após uma viagem de automóvel de mais de 700 km. Acabou por falecer no dia 5 de agosto de 2020. Quem o conheceu pessoalmente, elogia a sua sabedoria e o seu uso preferencial da diplomacia para a resolução de conflitos. Era um dos mais respeitados líderes indígenas de todo o Brasil (Foto: Renato Soares?)



MINHA HOMENAGEM AO QUERIDO ARITANA YAWALAPITI

Quando menino escutava a musica de abertura de uma novela em preto e branco chamada "Aritana". Achava fascinante os povos indígenas e sua luta para salvar a aldeia dos invasores. O tempo passou e um dia sentado na sala da casa de Orlando Villas Bôas, vejo entrar pela porta o grande cacique Aritana. Olhou para mim e sorriu. Eu falante que sou, emudeci de emoção e silenciei. Respirei fundo e fiz apenas uma pergunta: "Aritana, me leva para o Xingu?!"

Ele riu pois achou engraçado do jeito que eu falei. Orlando deu uma gargalhada e disse, "Leva ele e não traga de volta não!". Rimos e conversamos durante horas e naquele dia nasceu nossa amizade. Aritana foi um homem especial e amado por toda sua gente. Neste momento os peixes no rio Xingu choram, as onças na mata choram, os passarinhos deixaram de voar neste dia triste. Triste ficamos aqui na terra dos viventes. Minhas lentes e minhas maquinas se trancaram na escuridão pois sem a luz não há fotografia. Segue em paz sua jornada para o Ivati encontrar-se com os seus e contar novas historias.


Renato Soares, fotógrafo brasileiro



Existem índios isolados no Brasil, que também estão à mercê da pandemia COVID-19. O isolamento destes índios não é total. Eles podem nunca ter visto um branco ou um negro, mas contactam com índios de povos vizinhos, que já não vivem isolados e que podem transmitir-lhes a doença. É o caso do povo Yanomami (na imagem), em cujos territórios ainda habitam índios isolados e aonde a pandemia já chegou (Foto: Joédson Alves/EFE, na região de Surucucu, município de Alto Alegre, em Roraima, Brasil)

02 agosto 2020

Música popular de Zemba, município de Nambuangongo, Angola


Em 1972–73, a localidade de Zemba, situada na região dos Dembos, norte de Angola, era isto. À direita, com um formato aproximadamente quadrado, havia um quartel militar onde estava alojado um Comando de Batalhão, a respetiva Companhia de Comandos e Serviços, uma Companhia de Caçadores e um Pelotão de Morteiros. À esquerda, havia uma pequena sanzala com pouco mais de 100 habitantes, onde viviam as pessoas que tive o privilégio de gravar ao vivo (Foto: Fernando Vouga)

Quando terminei o meu serviço militar em Angola no ano de 1974, destruí quase tudo o que me pudesse evocar a guerra colonial em que tinha participado. Destruí quase todas as fotografias, cartas e diversos outros objetos, que atirei para o lixo. Mas não destruí duas cassetes áudio com gravações ao vivo feitas por mim, porque elas não evocavam a guerra. Antes eram expressões culturais das gentes que tive o gosto de conhecer e com as quais tive o enorme privilégio de conviver.

Uma das cassetes está completamente arruinada, incapaz de ser recuperada. Continha trechos de um genuíno batuque africano, em que também participei de modo completamente desastrado, aliás. Uma segunda cassete também se encontrava em estado lastimável. Sempre que eu tentava copiar o seu conteúdo para outra cassete ou para o computador, a sua fita partia-se e enrodilhava-se no mecanismo do gravador, estragando-se ainda mais do que já estava. Mesmo assim, consegui extrair três canções, uma delas em péssimo estado.

Agora, mais uma vez, tomando todos os cuidados a que fui capaz de recorrer, e rezando a todos os santinhos para que a fita não se voltasse a partir, consegui recuperar integralmente o seu conteúdo e passá-lo para o computador. Finalmente! As faixas das gravações ao vivo que só agora consegui recuperar são as que se ouvem a seguir.



Música popular de Zemba, município de Nambuangongo, província do Bengo, Angola. Cantada em quimbundo por Gabriel António, com acompanhamento à viola por Gabriel António e Gonçalo, e um coro constituído por Eusébio, Domingos e um habitante local não identificado. Gravada em cassete em dezembro de 1972 e recuperada em julho de 2020



Música popular de Zemba, município de Nambuangongo, província do Bengo, Angola. Cantada em quimbundo por Gabriel António, com acompanhamento à viola por Gabriel António e Gonçalo, maracas por Eusébio e um coro constituído por Eusébio, Domingos e um habitante local não identificado. Gravada em cassete em dezembro de 1972 e recuperada em julho de 2020



Música popular de Zemba, município de Nambuangongo, província do Bengo, Angola. Cantada em quimbundo por Gabriel António, com acompanhamento à viola por Gabriel António e Gonçalo, maracas por Eusébio e um coro constituído por Eusébio, Domingos e um habitante local não identificado. Gravada em cassete em dezembro de 1972 e recuperada em julho de 2020



Música popular de Zemba, município de Nambuangongo, província do Bengo, Angola. Cantada em quimbundo por Gabriel António, com acompanhamento à viola por Gabriel António e Gonçalo, maracas por Eusébio e um coro constituído por Eusébio, Domingos e um habitante local não identificado. Gravada em cassete em dezembro de 1972 e recuperada em julho de 2020

26 julho 2020

O achado da bolsa


O ator Jim Carrey representando o papel do avarento Ebenezer Scrooge em A Christmas Carol (Foto: Walt Disney Pictures)



Havia um mercador muito rico, e assim como cada dia se lhe iam acrescentando suas riquezas, assim nele se lhe ia multiplicando tanta avareza, que em outra cousa não trazia o sentido senão em ajuntar dinheiro. Este estando um dia vendendo suas mercadorias, tomou quatrocentos cruzados em ouro, que havia vendido, e deitou-os em uma bolsa, e despois de recolher seu fato se foi para sua casa entesourar. Indo pelo caminho fazendo suas contas com a imaginação, lhe acertou a cair a bolsa, e até que chegou a casa a não achou menos. Esteve para perder o juízo juntamente com a bolsa. Com grande dor e paixão se foi ao duque, que era senhor daquela cidade, e lhe pediu que mandasse sua excelência em seu nome apregoar que quem achasse uma bolsa com quatrocentos cruzados em ouro, que os trouxesse diante dele, que lhe daria quarenta cruzados de achado. Foi dado o pregão pela cidade, e sendo ouvido de todos, chegou a ouvidos de quem tinha achado a bolsa, que era uma mulher viúva, muito pobre e virtuosa. E ouvindo dizer, que davam quarenta cruzados de achado foi mui leda, entendendo que ficar com a bolsa seria infernar sua alma. Assim com esta determinação se foi diante do duque e lhe pôs em sua mão a bolsa que havia achado assim e da maneira que o mercador a havia perdido. Vendo o duque a pobreza desta mulher, e que era digna de ser grandemente favorecida, logo mandou chamar o mercador e lhe disse como a bolsa havia já aparecido, que não faltava mais que cumprir sua promessa àquela mulher honrada que a havia achado. Folgou em extremo o avarento mercador, porém achegou-lhe à alma o ver que havia de dar os quarenta cruzados que tinha prometido de achado, e assim imaginou logo naquele instante um ardil para os não dar, e foi que tomou a bolsa e vazou o dinheiro em uma mesa que ali estava, e contou-o, e posto que o achasse certo, contudo isso revirando para a mulher que o havia achado, lhe disse:

— Mulher de bem, aqui nesta bolsa faltam trinta e quatro escudos venezianos, que estavam de mais dos quatrocentos cruzados em ouro que aqui estão.

A boa velha afrontada e corrida, lhe disse:

— De maneira, senhor, que credes de mim que vos havia de furtar o vosso dinheiro! Quem me obrigava, tendo eu em meu poder essa bolsa, a trazê-la aqui, senão não querer eu o alheio?

Não deixava o mercador de gritar e dar vozes dizendo que lhe fosse buscar os trinta e quatro escudos venezianos que faltavam, se queria que lhe desse o achado que tinha prometido. O duque, conhecendo a malícia do mercador e tudo aquilo que fazia e dizia era a fim de se escusar de dar o que prometera, entendendo que quanta era a bondade da virtuosa mulher tanta era a maldade do avarento mercador, imaginou que a maior pena que podia dar a um homem tão ruim como aquele era fazer que com seu engano se ofendesse a si mesmo, e a esta causa, virando-se para ele, lhe disse:

— Vinde cá; se isto é assi como dizeis, porque me não declarastes que a bolsa levava mais esses escudos de ouro? Ora eu tenho entendido que vós sois tal que quereis fazer o alheio vosso, e que esta bolsa que essa mulher honrada achou não é vossa, pois nela faltam esses ducados venezianos que dizeis; antes essa bolsa que se achou sem dúvida nenhuma é uma que esse próprio dia perdeu um meu criado com esta mesma soma de dinheiro que essa tem, e pois sendo assim como é, a mim e não a vós pertence.

E dizendo isto, virou-se para onde estava a velha, e lhe disse:

— Boa mulher, pois que achastes esta bolsa com estes cruzados de ouro, eu vos faço graça dela com o dinheiro que tem.

Não se atreveu o inconsiderado avarento a replicar ao que o duque dizia; antes arrependido de não haver cumprido a palavra que prometera se foi para sua casa chorar seu desastre.


Gonçalo Fernandes Trancoso (c.1520–1596), Contos e Histórias de Proveito e Exemplo

20 julho 2020

Música geladinha


Longyearbyen, na ilha de Spitzbergen, arquipélago de Svalbard, Noruega, de onde é transmitida a Arctic Outpost Radio (Foto: HylgeriaK)

Recentemente, tornou-se viral nas redes sociais a descoberta online, feita por Nuno Markl, daquela que deverá ser a estação de rádio mais setentrional do mundo. Chama-se Arctic Outpost Radio e localiza-se na ilha de Spitzbergen, em Svalbard, que é um arquipélago norueguês situado em pleno Oceano Ártico, mais ou menos a meio caminho entre o extremo norte da Lapónia e o Polo Norte. Além de estar presente online durante 24 horas por dia, a Arctic Outpost Radio transmite em ondas médias em 1270 kHz, a partir dos seus estúdios em Longyearbyen, a capital do arquipélago.

A Arctic Outpost Radio transmite unicamente música antiga, de entre os anos 1902 e 1958. E que música! Quase me atrevo a dizer que não há outra rádio no mundo que nos dê uma tão grande música. A Arctic Outpost Radio, de Svalbard, é uma rádio para ouvir e voltar a ouvir, vezes sem conta. O seu site tem o seguinte endereço:

https://www.aor.am/.



Base Esperança, na Antártida Argentina, de onde é transmitida a Radio Nacional Arcángel San Gabriel (Foto: Andrew Shiva)

No outro extremo do planeta fica a estação de rádio LRA36, Radio Nacional Arcángel San Gabriel, que emite a partir da base Esperança, na Antártida Argentina. A LRA36 é a rádio mais meridional do mundo. Transmite em ondas curtas na frequência de 15476 kHz, o que faz dela uma das rádios mais procuradas pelos entusiastas das ondas curtas. Teoricamente, pelo menos, poderá ser possível em Portugal sacar do "éter" os seus tangos, ainda que em muito más condições, por certo, mesmo com um bom aparelho de rádio, uma excelente antena e uma distância considerável de qualquer fonte de interferência.

A LRA36 tem uma programação própria, feita lá mesmo, na base Esperança, durante um ou dois pares de horas por dia apenas. É durante este período de tempo que emite em ondas curtas. De resto, está presente online durante 24 horas por dia. Quando não transmite a sua programação própria, a LRA36 dá-nos uma emissão proveniente de Buenos Aires ou de alguma outra cidade argentina.

Para escutarmos a LRA36, Radio Nacional Arcángel San Gabriel, poderemos abrir, por exemplo, a seguinte página:

http://www.radios.com.br/play/39834.

17 julho 2020

A mais recente imagem obtida pelo Hubble


Galáxia NGC 2775, situada a 67 milhões de anos-luz, tal como foi fotografada pelo telescópio espacial Hubble (Foto: ESA/Hubble & NASA, J. Lee and the PHANGS-HST Team; Acknowledgment: Judy Schmidt (Geckzilla))

O telescópio espacial Hubble está a chegar ao fim da sua vida. Completou vinte anos de órbita em volta da Terra, desde que foi lançado para o espaço em 24 de abril de 1990, o que em termos tecnológicos é quase uma eternidade. O Hubble é tão antigo, que já devia ter sido desligado e transformado em sucata espacial, mas a comunidade internacional tomou-se de amores por ele e movimentou-se no sentido de lhe dar mais um pouco de fôlego, até que o seu sucessor, o telescópio espacial James Webb, esteja em condições de pegar no seu testemunho e procurar levar muito mais longe ainda, e com muito mais pormenor ainda, a nossa visão do Universo.

O que o telescópio espacial Hubble nos mostrou ao longo dos seus vinte anos de existência é absolutamente assombroso. Este telescópio revolucionou, no mais completo sentido do termo, o nosso entendimento do Universo. Nunca ninguém tinha visto, ou sequer imaginado, imagens tão impressionantes como as que o Hubble obteve, algumas das quais se podem ver nesta página, por exemplo, e muitíssimas mais podem ser encontradas na Internet.

Pois agora, como uma espécie de "canto do cisne", o telescópio Hubble presenteou-nos com a imagem reproduzida acima, a de uma deslumbrante galáxia situada à distância de 67 milhões de anos-luz e fotografada na constelação do Caranguejo. É uma galáxia tão longínqua, que a sua luz demorou 67 milhões de anos a chegar à Terra. Os astrónomos puseram a esta galáxia o nome científico de NGC 2775.

O telescópio espacial James Webb está pronto para ser lançado para o espaço, o que deverá acontecer em Março de 2021, se tudo correr bem. Que surpresas nos reservará ele?

14 julho 2020

A Fábrica dos Sons, de António Victorino d'Almeida


A Fábrica dos Sons para Orquestra e Narrador, op. 45, de António Victorino d'Almeida, pela Orquestra Sinfónica "Tonkünstler" da Baixa Áustria (de Viena e Sankt Pölten), dirigida por António Victorino d'Almeida, e narração de Maria de Medeiros

09 julho 2020

Um "poema" pós-moderno de Donald Trump (em inglês) ;-)

I never understood wind.
You know, I know
windmills very much.
I have studied it
better than anybody
else. It’s very expensive.
They are made in China
and Germany mostly.
—Very few made here, almost none,
but they are manufactured, tremendous
—if you are into this—
tremendous fumes. Gases are
spewing into the atmosphere. You know
we have a world
right?
So the world
is tiny
compared to the universe.
So tremendous, tremendous
amount of fumes and everything.
You talk about
the carbon footprint
— fumes are spewing into the air.
Right? Spewing.
Whether it’s in China,
Germany, it’s going into the air.
It’s our air
their air
everything — right?
A windmill will kill many bald eagles.
After a certain number
they make you turn the windmill off.
That is true.
—By the way
they make you turn it off.
And yet, if you killed one
they put you in jail.
That is OK.
You want to see a bird graveyard?
You just go.
Take a look.
A bird graveyard.
Go under a windmill someday,
you’ll see
more birds
than you’ve ever seen
in your life.

Donald Trump



03 julho 2020

Dois nus numa paisagem exótica


Baigneuses: Deux nus dans un paysage exotique, óleo sobre tela de Jean Metzinger (1883–1956), c. 1905, Coleção Carmen Thyssen-Bornemisza, Espanha

Baigneuses: Deux nus dans un paysage exotique é um quadro a óleo da autoria do pintor francês Jean Metzinger (1883–1956), que foi um dos mais revolucionários artistas plásticos europeus do séc. XX.

Este quadro é um excelente exemplo de estilo divisionista, um estilo nascido ainda no séc. XIX, em que as cores não se encontram misturadas na tela, antes se nos mostram repartidas por pontos e pequenas manchas de tons puros. É no próprio cérebro humano, e não na mistura das tintas, que se faz a combinação dos tons com vista à perceção das cores pretendidas.

É de realçar que, neste quadro, Metzinger representa as figuras humanas com tons quase naturais, enquanto a paisagem ao fundo se apresenta em tons acentuadamente artificiais e vibrantes. Não é, portanto, pela intensidade da cor que o pintor chama a nossa atenção para as figuras principais. Ele chama a nossa atenção através de uma representação tridimensional, enquanto o fundo se nos mostra completamente plano. As duas mulheres nuas aparecem-nos em "relevo" relativamente ao resto do quadro.

26 junho 2020

+ perto do céu

Enquanto eu te escrevo,
Sarajevo morre lenta
uma morte amordaçada
no silêncio dos tiros
e na paz da granada.
A noite acoita o metralhar
será homem ou fera
este triste uivar?
Posso ver as avenidas,
coloridas, presentes,
hoje sombras despidas
do passado distante.
A vez do vizinho
que hoje foi a enterrar,
sozinho, claro, que morrer é ficar.
Os amantes ali estão
abraçados no asfalto
onde as balas lá do alto
os apanharam à traição,
no coração, que é o sítio ideal
para quem mata a paixão,
que amar é fatal.

(refrão)

+ perto do céu
anjo d'alma azul
+ perto do céu
+ longe que o sul.

Calor, já não há,
só se for o da mortalha
que é o lençol que me agasalha
e a cama onde me deito
e me enrolo sobre o peito,
recordando o céu azul,
e quer a norte quer a sul
a liberdade de fugir.
Ficar a resistir,
morrer, nem pensar,
que a coragem de aqui estar,
como ontem em Guernica,
é a vontade de quem fica.
Vazia a dispensa
é pior a indiferença.
Auschwitz ou Buchenwald
que afinal foram debalde,
porque as câmaras de gás
não ficaram para trás
estão aqui à minha frente.
Eu só quero estar presente
de novo em Nuremberga,
porque um povo não se verga.

(refrão)

Por isso aqui estou
com arma sem munição,
carne para canhão
para contar toda a verdade…
… e liberdade.
E no futuro, nem sequer se vão lembrar
que tudo dói, mesmo Tolstoi
lido à luz da curta vela.
Sarajevo donzela
tantas vezes violada,
sempre só, abandonada.
Tudo o que tenho
é o empenho de quem sonha.
O silêncio é vergonha,
arma mortal, punhal
que mata e maltrata
escondido, sem ruído,
tantas vezes repetido,
e penetra no meu corpo,
que deixa morto
pelas costas…
sem resposta.

Agora é de vez.
Faz frio no inferno deste Inverno.
Cada bomba é uma sombra de indiferença.
Crença que tem que mudar.
Há que gritar e mostrar
ao mundo os mortos
que o mundo ignora
e demora a perceber.
Uso a caneta
que é a minha baioneta,
país eterno
que deixo no caderno
tenho medo que me esqueças
e me peças para calar a voz,
mas não o faças,
porque ontem foram outros
e hoje nós.

(refrão)

Pedro Abrunhosa, in Viagens


Mais Perto do Céu, por Pedro Abrunhosa e os Bandemónio

24 junho 2020

A bebedeira do sargento Madeira


Segundo-sargento Madeira, que foi promovido a primeiro-sargento depois de ter terminado a sua comissão militar em Angola. Faleceu por volta de 1989 (Foto de autor desconhecido)

Num sábado à noite, o capitão Antunes e um outro alferes foram a Maquela do Zombo gozar a noite, enquanto eu fiquei a comandar o quartel da companhia. Estava eu na messe de oficiais, quando de repente alguém entrou pela messe dentro, gritando:

— Meu alferes, meu alferes! Venha depressa que o sargento Madeira quer matar o Jonas!

O que tinha acontecido? O Madeira apanhou uma bebedeira de caixão à cova e resolveu ir à sanzala. Na porta-de-armas estava de sentinela o soldado Jonas, que à passagem do sargento se pôs em sentido, de acordo com o estipulado no Regulamento de Disciplina Militar. O Madeira, julgando-se talvez muito importante por estar influenciado pelo álcool, não aceitou que o Jonas só lhe fizesse sentido. Exigiu que lhe fizesse ombro-arma. O Jonas respondeulhe que ombro-arma não lhe fazia, porque só aos oficiais se devia fazer ombro-arma e o Madeira não era oficial.

— Ai não queres fazer ombroarma? Já vais ver se fazes ombroarma ou não fazes ombro-arma! — exclamou o Madeira.

Foi ao seu quarto e saiu de lá com uma G3 nas mãos. Chegou ao pé do Jonas, apontou-lhe a arma e disse-lhe:

— E agora? Fazes ombro-arma ou não fazes ombro-arma?

E o Jonas, inflexível:

— Não faço!

— Faz ombro-arma!

— Não faço!

Era nesta situação que eles estavam quando fui chamado. Saí da messe, que ficava mesmo em frente à porta-de-armas, e perguntei, gritando todo empertigado:

— Mas afinal o que é que se passa aqui?!

Com a voz entaramelada pelo álcool, o Madeira respondeu-me:

— Meu alferes, ele não quer fazer ombro-arma…

Ao mesmo tempo que disse isto, virou-se para mim e a arma ficou apontada ao meu peito! Que grande susto que apanhei! Nem sei como é que não borrei as calças…

— LARGUE ESSA ARMA IMEDIATAMENTE!… JÁ!!! — gritei-lhe a plenos pulmões, aflito e esperando ser atingido por uma rajada de um momento para o outro.

O Madeira baixou a espingarda, que alguém lhe arrancou imediatamente das mãos. Virou as costas e dirigiu-se lentamente para a messe de sargentos, chorando convulsivamente.

— Ai, meus ricos filhos! — exclamava — Meus queridos leõezinhos, que têm um pai tão desgraçado!

E continuou a chorar e a dizer entre soluços que era pai de filhos órfãos, porque era obrigado a estar longe deles e isso era como se tivesse morrido. Os filhos não o conheciam nem ele os conhecia, porque ele passava a vida a fazer comissões no Ultramar afastado da família. Acrescentava que morria de saudades da mulher e dos filhos e que isso lhe era insuportável.

Enquanto isso, o camarada que lhe tinha tirado a G3 das mãos disse-me:

— Meu alferes, a arma estava pronta a disparar! Tinha uma bala na câmara e a patilha na posição de fogo… Só lhe faltou carregar no gatilho!

Regressei à messe profundamente dividido.

Por um lado, achava que devia participar do sargento Madeira, de forma a que ele fosse severamente punido, porque tinha posto em sério risco a vida de outras pessoas. Esteve na iminência de causar uma tragédia.

Por outro lado, pensava seriamente nas palavras que ele proferiu quando se retirou. No fundo, o Madeira não passava de um desgraçado. Era verdade que as bebedeiras dele eram frequentes e muitas vezes azedas e conflituosas. Mas se ele bebia, era para esquecer as saudades que sentia da família. Aquela comissão que ele estava a cumprir era a segunda ou mesmo já a terceira, sempre longe da mulher e dos filhos. Na verdade, ele era um pobre diabo que entrou para o Exército porque não tinha onde cair morto. Se não estivesse na tropa, seria um miserável; mas na tropa era um infeliz. Se eu participasse dele, só iria aumentar a sua infelicidade e a dos seus. Nem ele nem, sobretudo, os seus filhos viriam a ganhar o que quer que fosse com a punição e com o prejuízo que esta iria causar à sua carreira militar.

Decidi pôr uma pedra no assunto e não participar do sargento Madeira. Afinal, ele acabou por não provocar desgraça nenhuma.

Dois dias depois, o Madeira veio ter comigo, muito enfiado. Disseme que não se lembrava de nada do que tinha acontecido, porque estivera bêbado, e que tinha sido o primeiro-sargento Carrilho que lhe tinha contado. Declarou-se muito envergonhado pelo que tinha feito e pediu-me imensa desculpa, jurando que aquilo não voltaria a acontecer. Eu fingi que não tinha dado importância nenhuma ao incidente e mandei‑o em paz.


O soldado Domingos Jonas, assinalado na imagem, era o militar mais pequeno do meu pelotão, razão pela qual lhe puseram a alcunha de "Miúdo" (Foto de autor desconhecido)

Embora já não tenha qualquer relação com este assunto, posso ainda revelar que o outro protagonista desta história, o soldado Domingos Jonas, que era angolano, combateu na guerra civil que se seguiu à independência de Angola, tendo-se alistado nas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), o braço armado do MPLA. Morreu perto do Huambo em 1982. Era uma joia de rapaz e um grande valente, que deixou muitas saudades.

Quem divulgou a notícia da morte do Jonas foi outro antigo soldado da minha companhia, chamado Mário Sessendje, que se filiou na UNITA. Apesar de terem aderido a movimentos que se combatiam ferozmente, o Jonas e o Mário continuaram a ser amigos e a manter-se em contacto um com o outro. A amizade nascida no seio da nossa companhia prevaleceu sobre a hostilidade que opôs os movimentos a que aderiram.

19 junho 2020

Carlos de Bragança (Rei de Portugal)


O Sobreiro, pastel sobre cartão de Carlos de Bragança (1863–1908), Palácio Ducal — Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa, Portugal

Sou republicano convicto. Logo, não nutro especial simpatia pela figura de D. Carlos e pelo papel que ele representou como rei de Portugal. Com a arrogância própria de quem se julgava acima do comum dos mortais, D. Carlos chamava "Piolheira" ao seu próprio país e apoiou, contra ventos e marés, o governo autoritário (para não lhe chamar ditatorial) de João Franco. Quanto ao ultimato britânico, não atribuo particulares responsabilidades a D. Carlos pelo sucedido; acho que D. Carlos foi apanhado por um turbilhão de acontecimentos que o ultrapassaram. Como prezo a vida humana, também condeno o seu assassinato em 1908, juntamente com o príncipe herdeiro Luís Filipe.

Neste momento, o que eu pretendo salientar é o valor do rei D. Carlos como pintor de grande talento, que de facto foi. Também foi fotógrafo, ceramista, ornitólogo, oceanógrafo, etc., dos mais destacados na Europa do seu tempo. A pintura que aqui se reproduz é um exemplo eloquente do seu grande valor artístico.

15 junho 2020

ESTE PRETO HE DE AGOSTINHO DE LAFETÁ DO CARVALHAL DE ÓBIDOS





Carvalhais não faltam em Portugal. Uns benfeitos, outros meãos, outros redondos, uns no singular, outros no plural, aí estão a lembrar que houve tempos em que abundavam na terra portuguesa os carvalhos, essas árvores magníficas a que ninguém pedia frutos e a que todos requeriam madeira. O carvalho para ser útil, tinha de morrer. Tanto o mataram, que o iam exterminando. Em alguns lugares não resta mais que o nome: o nome, como sabemos, é a última coisa a morrer.

A este Carvalhal, para o distinguir, acrescentavam-lhe antigamente Óbidos: Carvalhal de Óbidos. Há aqui uma torre a que chamavam dos Lafetás, por assim ser conhecida uma família cremonense vinda a Portugal no final do século XV e que aqui teve esse e outros bens. Quando se diz que veio essa família a Portugal, não se pretende afirmar que viesse toda. Eram banqueiros riquíssimos, poderosa companhia mercantil internacional desse século e do seguinte, com negócios em Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Flandres. Credores de reis, contratadores de pimenta e açúcar, os Affaitati vêm a esta viagem para lembrar que os descobrimentos foram também um gigantesco negócio, e sobretudo por causa de um escravo que neste Carvalhal tiveram. Na torre que aqui está foi em tempos encontrada uma coleira com dizeres gravados, os quais assim rezavam: «Este preto he de Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos.» O viajante [José Saramago] não sabe mais nada do escravo preto, a quem a coleira só deve ter sido tirada depois que morreu. Foi deixada aí pelos cantos, brincaram talvez com ela os filhos de Agostinho de Lafetá e de sua mulher, D. Maria de Távora, e pelo modelo se terão feito as que serviram aos cães e que até hoje se usaram: «Chamo-me Piloto. No caso de me perder, avisem o meu dono.» E depois vem a morada e o número de telefone. E ainda assim houve progressos. Na coleira do escravo de Agostinho de Lafetá nem sequer se mencionava o nome. Como se sabe, um escravo não tem nome. Por isso, quando morre, não deixa nada. Só a coleira, que ficava pronta para servir a outro escravo. Quem sabe, pergunta o viajante fascinado, a quantos escravos teria ela servido, sempre a mesma, enquanto houve pescoço de escravo em que servisse? O viajante tem informação de que a coleira está em Lisboa, no Museu de Arqueologia e de Etnografia. A si mesmo promete, com a solenidade adequada ao caso, que será a primeira coisa que há-de ver quando chegar a Lisboa. Cidade tão grande, tão rica, tão afamada, onde todos os Lafetás de dentro e de fora fizeram os seus muitos negócios, pode ser principiada de muitas maneiras. O viajante começará por uma coleira de escravo.

(…)

Cá está a coleira. O viajante disse e cumpriu: mal entrasse em Lisboa iria ao Museu de Arqueologia e de Etnologia à procura da falada coleira usada pelo escravo dos Lafetás. Podem-se ler os dizeres: «Este preto he de Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos.» O viajante repete uma vez e outra para que fique gravado nas memórias esquecidas. Este objecto, se é preciso dar-lhe um preço, vale milhões e milhões de contos, tanto como os Jerónimos aqui ao lado, a Torre de Belém, o palácio do presidente, os coches por junto e atacado, provavelmente toda a cidade de Lisboa. Esta coleira, é mesmo uma coleira, repare-se bem, andou no pescoço dum homem, chupou-lhe o suor, e talvez algum sangue, de chibata que devia ir ao lombo e errou o caminho. Agradece o viajante muito do seu coração a quem recolheu e não destruiu a prova de um grande crime. Contudo, uma vez que não tem calado sugestões, por tolas que pareçam, dará agora mais uma, que seria colocar a coleira do preto de Agostinho de Lafetá numa sala em que nada mais houvesse, apenas ela, para que nenhum visitante pudesse ser distraído e dizer depois que não viu.


José Saramago (1922–2010), Viagem a Portugal

09 junho 2020

Quando o José pensa na América


Carta para a Doreen Martin

Doreen:
Na Mafalala quando o José pensa na América
não inveja nem um só arranha-céus de Manhattan
não deslumbram José os feéricos letreiros da Broadway
e não convencem José as vitórias do marinheiro Popeye
só depois de ingerir uma lata de espinafres de publicidade.

Na Mafalala quando o José pensa na América
velhas lágrimas de spiritual salgam os encardidos
asfaltos de água do grande Mississipi com muitas recordações
e numa alegre avenida central da cidade de Chicago
uma farra de tiros desconsidera a camisa
de um cliente que ia comprar no supermercado
uma coca-cola para o seu lanche na fábrica
e a seguir ainda pretendem que o tal José
admire o modernismo da cidade de Chicago
quando de vez em quando ele põe-se
a pensar para que servem por exemplo
uma meia dúzia de Packards novos
para duzentos milhões de americanos
nas mil e uma auto-estradas da América

E nas fábulas verídicas
de locais como Nova Orleans e Harlem
entra Louis Armstrong
sai Jesse Owens.
Entra Joe Louis
sai Marian Anderson.
Entra Duke Ellington
sai Lena Horne.
Entra Paul Robeson
e sai Richard Wright todos com suas quinhentas
mil famílias incluindo a família do José
e que Duke Ellington faz o piano
resolver uma série de problemas
de jazz enquanto um obsceno
Cadillac azul lascivo brilha
os cromados por conta
da General Motors.

Enfim!
Tudo isto, Doreen, tudo isto
é sempre uma fortuita coincidência
entre os firmes princípios da Casa Branca
algumas toneladas de pacotes de chewing-gum
muitas palmas à voz de Nat King Cole e à sua carapinha alisada
e os efeitos da excessiva pintura dos bastões
pincelando de vermelho o suor
dos negros democraticamente.

E
mais ou menos trata-se de uma questão
abstracta mas as crianças que nascem obrigatoriamente
no Xipamanine ou brincam no anti-luxuoso lixo do Harlem
quando puderem falar hão-de nos gritar na cara o contrário
mesmo que um agente especial oiça em Nova Iorque
e comunique logo a certos funcionários de L. M.

Agora, amiga Doreen
agora que o José viu com os próprios olhos a Marilyn
12 meses com um sorriso e nada mais a tapá-la
e das unhas aos cabelos toda ela colorida
ao relento a aquecer as 12 páginas do calendário
o José admira sinceramente mais o Pato Donald
o José gosta sinceramente mais de Bucha e Estica
o José aprecia sinceramente mais um Rato Mickey
e além disso o José simpatiza sinceramente mais
com a filosofia inverosímil dos irmãos Marx
a ouvirem os ancestrais dialectos do ritmo
a bater nos metais o feitiço dos blues
de olhos afundados para dentro como os surumeiros
à décima quinta fumaça quando o medo não tem sentido
e a verem o novo dogma dos sprinters chegando em 1.° à meta
ou de luvas dois homens definindo a ideologia de um “nocaut”
ou ainda a descobrirem a magia revelatória dos livros
com os avós e os netos nos paraísos de minérios
como os pais e as filhas no gozo dos algodoeiros
e tudo junto na esquina do Mundo a meio metro
de um lindo juke-box a tocar-lhe barato
“made in Estados Unidos da América”
enfiando-lhe um simples cêntimo.

E no meio disto tudo, Doreen
sai uma terrível foto feminina publicamente confidencial
mas não passa de Marilyn Monroe uma star cheia de hipóteses
mas o José da Mafalala quando pensa na América
por acaso não pensa nas hipóteses da Marilyn
a mostrar a toda a gente o lucro lógico
dos sistemas de propaganda da América
U.S.A…. U.S.A…. U.S.A.!!!

Mas sabes, Doreen?
Uma espessa sombra de gente oscila os pés indolentemente
no terceiro poste de uma rua em frente a uma esquadra
e o José lembra-se que Jesse Owens foi aos Jogos
e contra todas as expectativas nazis ganhou 4 de ouro
e sabem onde foi isso? Mesmo no blindado coração do Hitler.
E além do mais o José também se lembra que Joe Louis na
                                                                                                    [desforra
pôs Max Schmmeling K.O. logo ao primeiro round
que Armstrong quando assopra o trompete
os agudos dão resposta concludente
às dúvidas sentimentais da Klu-Klux-Klan
e o retórico par de botas de Charlot

E para terminar esta carta, Doreen
os membros da Klu-Klux-Klan podem zangar-se comigo
mas pouco mais ou menos já sabem quase tudo
o que o José pensa sozinho ali na Mafalala
quando o José pensa na loura Marylin Monroe
pobre milionária da América do Norte
a descontar as insónias
dos outros o ano inteiro
toda nua.

José Craveirinha (1922–2003), poeta moçambicano


(Foto: munshots)