07 agosto 2022

Carta à Minha Filha, de Ana Luísa Amaral

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas — é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

Ana Luísa Amaral (1956–2022)


(Foto de autor desconhecido)

04 agosto 2022

José de Brito


Dançarina ou Mulher de Preto, c. 1891, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Paço Ducal, Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa

Mártir do Fanatismo, c. 1895, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa

Teto pintado por José de Brito (1855–1946). Teatro Nacional de São João, Porto

Batismo de Cristo, pintura a óleo de José de Brito (1855–1946). Igreja da Trindade, Porto

Garçon Jouant avec des Chats, de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Paisagem com animais, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Vista de Praia com Capela do Senhor da Pedra ao Fundo (Miramar), óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Natureza Morta—Vaso de Flores, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Retrato de Senhor, 1921, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Paisagem, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Paisagem com Árvores, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Paisagem com Árvores e Ribeiro, aguarela sobre papel de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Paisagem, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Mendigo, pastel sobre papel de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Ribeiro com Nora, 1909, aguarela sobre papel de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Porto, aguarela sobre papel de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Napolitana, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Batismo de Cristo, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Paisagem Campestre, óleo sobre tela colada em cartão prensado de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Um Trecho do Rio Portuzelo, 1909, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Varinas e Pescador, 1918, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Rosas, óleo sobre tela colada em cartão de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Retrato de Senhora, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Vista do Douro, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Implantação do Liberalismo, óleo sobre madeira de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Figura de Nobre, 1909, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Retrato de Senhora, 1909, carvão sobre papel de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Retrato de Senhora Idosa, óleo sobre tela, assinatura ilegível, provavelmente de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

Nu Feminino com Flores, óleo sobre tela de José de Brito (1855–1946). Coleção particular

José de Brito foi um pintor português, nascido em Santa Marta de Portuzelo, Viana do Castelo, no ano de 1855.

Aos 18 anos de idade, José de Brito inscreveu-se na Academia Portuense de Belas-Artes, onde foi aluno de Soares do Reis, Almeida Furtado e João Correia, entre outros, e foi colega de Henrique Pousão. Quando terminou o curso, regressou à sua freguesia natal, onde se dedicou à pintura de paisagens e de temas etnográficos locais.

O escritor Ramalho Ortigão veio a conhecer José de Brito pessoalmente e entusiasmou-se tanto com o seu talento, que propôs a quem de direito que lhe fosse atribuido um subsídio, para poder aprofundar os seus estudos no estrangeiro. Respondendo à proposta, o marido da rainha D. Maria II, D. Fernando de Saxe-Coburgo, o Rei-Artista, atribuiu-lhe uma bolsa de estudo e José de Brito rumou a Paris, onde estudou na Academia Julien. Após o falecimento de D. Fernando, José de Brito continuou a ser subsidiado pelo Estado até ao ano de 1890, quando achou que já era capaz de viver da sua arte sem precisar de subsídios.

Em 1896, José de Brito regressou a Portugal e tornou-se professor de Desenho Histórico na Academia Portuense de Belas-Artes. Em 1929 jubilou-se, mas continuou a exercer a sua atividade como pintor, com atelier no edifício da atual Biblioteca Pública Municipal do Porto, em frente ao jardim de São Lázaro. Ao longo da sua vida, José de Brito privou com alguns dos maiores vultos da cultura portuguesa do seu tempo, como Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Silva Porto, Marques de Oliveira, Sousa Pinto, etc.

José de Brito faleceu na cidade do Porto em 1946, com 91 anos de idade.

02 agosto 2022

Surf no meio da cidade


Um cartaz de uma competição de surf... em Munique!

A cidade de Munique, capital da Baviera, no sul da Alemanha, fica a centenas de quilómetros do mar. No entanto, ninguém se espante se vir um adolescente entrar numa carruagem do metro com uma prancha de surf debaixo do braço.

«Quem não tem cão, caça com gato», diz o nosso povo. Neste caso, quem não tem mar, faz surf no rio. E se o rio não tiver ondas, porque a cidade é plana, como é que se faz? Geram-se ondas artificiais e o problema fica (mais ou menos) resolvido. É certo que não são ondas iguais às do mar, mas são o melhor que se pode arranjar.

Em 1972 foi criada em Munique a primeira onda fluvial de surf do mundo, uma onda muito certinha, que não oferece quaisquer surpresas e que ainda existe. Deve ser a onda ideal para principiantes. Esta onda fica em Floßlände, na zona sul da cidade e bastante longe do centro, e é feita com água desviada do Rio Isar. Na sua vizinhança, situa-se um excelente parque de campismo e uma praia fluvial extraordinariamente aprazível, onde o nudismo está legalizado e é praticado por quase toda a gente como se estivesse no paraíso, e está mesmo. Um pouco mais afastado, encontra-se o jardim zoológico da cidade.

A onda de surf de Floßlände, no sul de Munique

Em vista do êxito conseguido pela onda de Floßlände, decidiu-se fazer uma outra, maior e mais alta, num rio artificial alimentado por águas subterrâneas que já existia, chamado Eisbach. Este rio atravessa o Englischer Garten, que é um magnífico parque situado muito perto do centro da cidade. Ainda por cima, a onda de Eisbach foi feita à entrada do parque para quem vem do centro, isto é, ela fica praticamente no próprio coração da cidade de Munique! Dada a sua localização central, a onda de Eisbach atrai numerosos surfistas e ainda mais numerosos mirones, que se acumulam nas margens do rio e se debruçam numa ponte sobranceira ao local para ver as habilidades deles.


A onda de surf de Eisbach, no centro de Munique. Neste vídeo, além das proezas do surfista que o fez, podem ver-se fugazes imagens da bela e hospitaleira cidade de Munique: Englischer Garten, Marienplatz, Viktualienmarkt, Odeonsplatz, Maximilianeum, etc.

30 julho 2022

Música refrescante para ajudar a suportar esta canícula


(Foto de autor desconhecido)


Oferece-me o teu sorriso, Maria, por Genio Trusa e a Orquestra de Karl Wüst

Granada, por Mario Lanza e uma orquestra dirigida por Ray Sinatra

Shreveport, pelo Trio de Jelly Roll Morton

La Violetera, por Raquel Meller

Santa Lucia, por Tito Schipa

Contos dos Bosques de Viena, por Johann Strauss (Filho) e a sua orquestra

La Paloma, por Amelita Galli-Curci (voz) e Homer Samuels (piano)

Coimbra, por Yvette Giraud

27 julho 2022

Elogio barroco da bicicleta


Andando de bicicleta no Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso, Brasil (Foto: Pirathá Mars)

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais — eu que era um teórico
do ar livre — e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me entangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas — trrrim! trrrim! — pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!


Alexandre O'Neil (1924–1986)

25 julho 2022

A morte a rir dos nossos verdes anos




OS VERDES ANOS
1963 – Carlos Paredes / Pedro Tamen

"Era um segredo
Sem ninguém para ouvir
Eram enganos e era um medo
A morte a rir
Dos nossos VERDES ANOS" …

(…)

PRIMEIRA HISTÓRIA:

Mucondo, (Norte da Angola), 17 de Setembro de 1968,

Estava uma tarde de cacimbo. Refastelado na minha cama, lia calmamente a “Comarca da Sertã”, chegada pela manhã no “Teco Teco”, com as notícias fresquinhas da “terra”.

Na outra, ao lado, o Saraiva esmiuçava as linhas e as entrelinhas do aerograma também recebido da madrinha de guerra ou namorada, não sei bem.

Nisto, alguém bate à porta e exclama em voz alta:

- Furriel Barata, o Sr. Capitão pede-lhe que vá falar com ele.

Com desembaraço levantei-me, desenruguei as calças e a camisa, ajeitei o cabelo e lá fui.

Chegado à sala dos oficiais encontrei o Capitão Sequeira Marques reunido com os três alferes. Este, ao ver-me, simpaticamente pediu-me que me juntasse ao grupo e me sentasse. Ao princípio, não percebi bem o que é que estava ali a fazer. Não era habitual um sargento reunir-se com os oficiais.

Afinal, tratava-se da preparação de uma “operação” a nível da Companhia, a ter início na madrugada do dia seguinte. Eu estava ali porque o Alferes Oliveira, comandante do meu “grupo de combate”, se encontrava de férias e eu, nessa circunstância, seria o seu substituto na cadeia hierárquica.

Ali estivemos reunidos uns dez minutos. Pouco nos foi adiantado sobre detalhes da “operação”, que seria confidencial. Mas, da curta conversa, percebi que seria de grande risco.

A minha missão, no momento, resumia-se a que deveria preparar “o pessoal” do meu “grupo de combate” para a partida no dia seguinte, às cinco e meia da manhã, e coordenar a logística de mantimentos e munições para dois dias.

À hora aprazada, lá estava “todo o pessoal” reunido na parada, subindo sem demoras para as “Berliets” e “Unimogs”. Tudo pronto para o arranque. Não tardou que o Capitão desse a ordem de partida.

Andada uma centena de metros, virámos à esquerda. Aí, apercebi-me de que iríamos para os lados do Rio Lifune, virando costas ao “Mufuque”, de má fama. Isso trouxe um pouco de alívio à minha alma inquieta, na pele de “condutor de um grupo de homens em missão de combate”, que sabia ser de alto risco, e por isso, sentia a enorme responsabilidade de os trazer todos a salvo, de volta ao quartel do Mucondo.

Meia hora de caminho. Desviámos da picada para uma zona de capim. Param os carros, desligam-se os motores, ordens para apear e montar de imediato a segurança. Os carros regressam, gera-se um profundo silêncio, os “quadros” juntam-se para ouvir, em surdina, as instruções do “comandante”. Só ali soubemos, em detalhe, ao que íamos.

Estávamos ,“estrategicamente”, em cima do “trilho” que deveríamos seguir até ao “objectivo”. Fazenda Caiado, uma roça de café há muito abandonada onde, recentemente, haviam sido detectados sinais de alguns movimentos….

Calhou ao “grupo de combate” que eu interinamente comandava, abrir caminho, ir na cabeça da fila.

Senti o enorme peso dessa decisão. Sem lamentos, porque esses ali não teriam lugar. Eramos um grupo muito disciplinado, solidário e amigo. Oficiais, sargentos e praças, vestíamos a mesma farda e já tínhamos passado por muito….

Afinal, alguém teria que ir na testa da coluna !

Por uma questão de coerência e respeito pelos dois outros sargentos do pelotão, mandei para a frente a minha Secção, comandada por mim próprio.

Para desanuviar, e para me sentir melhor com a minha consciência, preferi não atribuir posições. Os meus sete homens dispuseram-se, então, no “trilho”, de forma livre e aleatória.

Corajosamente, o Serafim (meu conterrâneo de Proença a Nova) colocou-se em primeiro. Em segundo o Santos, depois o Curto, a seguir o cabo Pires,. Eu era o quinto da fila. Atrás de mim o Norberto, o homem da ”bazuca” e, por aí fora, até ao último dos cerca de oitenta homens que compunham a “operação” em marcha.

Eram três os pelotões operacionais que compunham esta força militar, que, como de costume, ao longo do dia iriam revezar-se nas posições de maior exposição ao risco.

O Capitão Sequeira Marques que nos comandava, dava o exemplo, que incutia confiança ao pessoal. Seguia no primeiro terço da fila, acompanhado do radiotelegrafista Cristino e do enfermeiro Pedro.

Acabava de amanhecer. De mochilas às costas, olhos bem abertos e ouvidos atentos, cartucheiras carregadas e G3 em riste, iniciámos a marcha, muito devagar, espaçados de dois em dois metros.

A progressão iniciou-se dentro da mata cerrada. Primeiro uma extensa zona plana, depois uma íngreme e longa descida até que chegámos a uma larga clareira, sem arvoredo, uma extensa lavra de mandioca, muito bem cuidada, atravessada por um pequeno riacho de água corrente e límpida.

Percebemos de imediato que, a partir daqui, poderíamos ser surpreendidos. Pegadas muito frescas de poucas horas, no orvalhado trilho de terra batida, notavam-se agora muito claramente. Aconselhavam a uma progressão bem lenta, com toda a atenção e o maior cuidado.

Prosseguimos o nosso caminho. Não destruímos nada, a lavra ficou intacta.

Voltámos a entrar na mata fechada e a seguir o “trilho”. A partir daqui, era mais vivo e mais largo, parecia ter mais uso.

De início, uma cansativa escalada, depois mais suave, chegamos a um planalto. Enormes e frondosas árvores tapavam o sol que já ia alto. De repente fez-se escuro, parecia ter anoitecido. Não se ouvia nada, nem o chilrear das aves exóticas que por ali abundavam.

A “Companhia” continuava a sua marcha lenta, excessivamente lenta, num silêncio enervante, sepulcral. Os quatro homens que seguiam à minha frente marcavam a cadência. Despistavam a existência de qualquer armadilha, ou “bailarina” que pudesse estar enterrada no chão. O trilho seguia, serpenteando majestosos troncos. Parecia que não iria ter fim, que não iriamos encontrar por ali viva alma.

Nisto, no silêncio da floresta, ecoou com grande estrondo, o som de um tambor.

Veio da direita, da mata cerrada. Não se via nada!..Uma manobra de diversão, para desviar a nossa atenção para aquele local.

Quase em simultâneo, ouviu-se o forte estalido de um tiro!!!.

Não veio do mesmo sítio. Veio de mais de perto, um pouco mais à esquerda. Quase no “nariz da coluna”.

Todos para o chão!

Enquanto uns tomaram posições atrás das árvores, outros, já protegidos, responderam com ensurdecedoras e repetidas rajadas, para a frente e para a direita, a zona do ataque.

O Saraiva, meu camarada e amigo de “todas as guerras” (desde Tavira), para nos proteger as costas, chegou-se mais à frente com a sua Secção.

As G3 vomitavam estridentes rajadas. Era arrepiante o silvar das balas. Faziam ricochete nas árvores e provocavam zumbidos por todo o lado.! Um perigo para nós próprios.

Todos se movimentavam rastejando, procurando o melhor abrigo para o que aí viesse…..

Superando o barulho da metralha, um grito lancinante rasgou no ar:

- “O SANTOS” !

O Santos não rastejou…. Permanecia inerte. Deitado no trilho com a G3 ao lado, ali, a meia dúzia de metros de mim.

Avisei para trás:

- Passem a palavra ao Capitão.

Estará morto ou apenas ferido ?! Pensei, em pânico.!

Porra! Um “puto” de vinte anos! Isto não podia ter acontecido! Merda, que puta de vida !.

Mais meia dúzia de rajadas da “brawning” do Leitão para cima “deles”. Esta, falava-lhes mais grosso, impunha-lhes mais respeito!.

Mais três ou quatro morteiradas lá para o sítio!

Só para intimidar, criar uma maior distância com o “outro lado”, mantê-los de cabeça baixa…

Não havia tiros de resposta !!! Teriam fugido ou estariam a vigiar-nos?!

Tínhamos que nos afoitar…. Cobertos por outros camaradas, arrastámo-nos no descampado para junto dele.

Tinha uns olhos de aflição, fixos, muito abertos. Não falava, mas mexia a boca e respirava!

Agora era preciso socorrê-lo da sua agonia, criar um perímetro de segurança à sua volta.

O Capitão Sequeira Marques não tardou. Já está entre nós!….

Que grande alívio para mim !. Chegou como um relâmpago, acompanhado do Pedro, o enfermeiro.

Com a faca de mato, rasgou-lhe a camisa ensanguentada. Ficou exposta uma grande ferida na zona lombar. Era a cratera por onde lhe saíra a bala. Não se percebia muito bem por onde entrara, nem os estragos que teria provocada dentro do seu franzino corpo.

Temíamos o pior. O Santos continuava a respirar e a esvair-se. Foram momentos de grande tensão, momentos angustiantes aqueles que se seguiram.

O Pedro dá-lhe sedativos e tenta estancar-lhe o sangue que jorrava em catadupa da grande ferida. O Capitão já está no rádio com o Cristino. Tentam comunicar com a sede do Batalhão, no Zemba. Necessitávamos de uma rápida evacuação.

Passou um desesperante quarto de hora. O “Santos”, começava a dar sinais de uma grande debilidade, enquanto lutava pela vida.

Era preciso que aguentasse mais um pouco, até que chegasse o helicóptero e o médico. O Pedro estava, finalmente, a conseguir estancar-lhe a enorme perda de sangue, que lhe cobria todo o tronco.

Agora, teríamos que sair muito rapidamente daquele local. Estava a tornar-se extremamente perigoso permanecermos ali mais tempo, imobilizados, naquela mata fechada e húmida. Pairava no ar um estranho silêncio, a sensação de estarmos a ser cercados pelos “do outro lado”.

A acção directa do Capitão Sequeira Marques, oficial do quadro, pouco mais velho que nós, mas muito mais experiente, foi decisiva e da maior importância nestes momentos dramáticos. Transmitiu-nos a confiança e a serenidade que começava a faltar a alguns elementos sob grande tensão nervosa.

Feita a maca improvisada, abandonámos o trilho e seguimos pela mata, até que encontrámos uma larga clareira livre de árvores. Montámos um perímetro de segurança e ali ficámos, em tensão, contando os minutos que pareciam horas, até ao momento em que, para nosso grande alívio, o helicóptero desceu e levou o nosso camarada ferido.

Quebrado o efeito de surpresa, invertemos a marcha e regressámos ao quartel.

“O Santos”, que reside na Régua, de quem hoje continuo amigo, e vejo pelo menos uma vez por ano, foi evacuado para Luanda e mais tarde para o Hospital Militar de Lisboa.

Teve sorte. A bala entrou-lhe um pouco acima do externo e passou a escassos dois centímetros do coração. Contudo, afectou de forma irreversível outros órgãos vitais, o que lhe tem condicionado a qualidade de vida, com internamentos frequentes no Hospital Militar.

SEGUNDA HISTÓRIA :

Duas semanas depois, numa Sexta Feira…

à mesma hora… no mesmo trilho…no mesmo sitio… o mesmo tambor, …

….à frente seguia outra secção, que não a minha. No lugar do “Santos” ia o “Joaquim Pinto”.

Não teve a mesma sorte. O helicóptero não o levou para Luanda, foi para a Capela de Santo Estêvão, no quartel do Mucondo.

Durante vários dias repousou ali, em paz, dentro de uma urna de madeira…..

…. até que veio um avião e o levou, de volta a casa, onde a mulher e a família o esperavam !

Perdeu a vida nos seus “VERDES ANOS”, sem saber muito bem porquê !

Coisas do Tempo da Outra Senhora

Fevereiro de 2020


Joaquim Eduardo Silva Barata


A capela do quartel do Mucondo, no norte de Angola, dedicada a Santo Estêvão (Foto: José Prudêncio)

23 julho 2022

Eugénio Moreira


Autorretrato, c.1900, óleo sobre tela de Eugénio Moreira (1871–1913). Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, Portugal


Vale de Penacova,  de Eugénio Moreira (1871–1913). Coleção particular


Eugénio de Oliveira Pinto Moreira foi um pintor nascido no Porto em 1871. Começou por frequentar a Escola Médico-Cirúrgica do Porto, primeiro, e a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, a seguir, mas não concluiu o curso. Em Coimbra, conviveu com o grupo que editava a revista de literatura e ciência "Boémia Nova", tendo criado laços de amizade com Agostinho de Campos, António Nobre e Alberto de Oliveira.

Falhado o curso de Medicina, Eugénio Moreira regressou ao Porto e matriculou-se na Academia Portuense de Belas-Artes, onde também não concluiu os seus estudos. A seguir, foi viver para Paris, onde frequentou a Academia Julien e a Academia Décluse e onde contactou com outros artistas plásticos que viriam a influenciar a sua obra, como Jean Paul Laurens e Benjamin Constant. Viajou por França e por Itália e no fim regressou ao seu país.

De novo em Portugal, Eugénio Moreira pintou paisagens e personagens do Minho e da Beira, sobretudo de Vila Praia de Âncora e de Penacova, onde também viveu. Faleceu em 1913, com 42 anos de idade, com uma doença mental.

18 julho 2022

Mazepa


Mazeppa (c. 1820), óleo sobre tela de Théodore Géricault (1791–1824). Coleção particular

Ivan Stepanovich Mazepa-Koledinsky (c. 1632–1709) foi um príncipe polaco e chefe militar na Ucrânia, em Zaporijjia, cuja vida foi muito agitada e complexa. Enquanto era pajem do rei da Polónia João II Casimiro, Mazepa ter-se-ia tomado de amores pela mulher de um conde, que era trinta anos mais velho do que ela. Descoberto o adultério, Mazepa teria sofrido um castigo, à volta do qual se construiu uma lenda de que Lord Byron deu conta num seu poema muito longo, primeiro, e Victor Hugo num outro poema, depois.

De acordo com os poemas de Lord Byron e Victor Hugo, Mazepa foi amarrado nu a um cavalo selvagem, que a seguir foi largado num louco galope que durou três dias sem parar, atravessando montanhas, rios, desertos e florestas e que acabou por morrer exausto (o cavalo) na Ucrânia. Aqui, uma jovem encontrou Mazepa ainda vivo, amarrado ao cavalo morto, e os cossacos acabaram por fazer dele seu hetman, chefe militar. Esta lenda inspirou os delírios românticos de Lord Byron, Victor Hugo, do compositor húngaro Franz Liszt e de vários artistas plásticos.


Uma Jovem Cossaca Encontra Mazeppa Inconsciente num Cavalo Selvagem (1851), óleo sobre madeira de Théodore Chassériau (1819–1856). Museu da Cidade de Estrasburgo, Estrasburgo, França

Mazepa foi chefe guerreiro da Ucrânia. Umas vezes apoiou o czar da Rússia, Pedro I, o Grande, e outras vezes combateu-o, ao tornar-se aliado do rei da Suécia, Carlos XII. Alega-se que esta reviravolta nos apoios de Mazepa à Rússia se deveria ao facto de Pedro o Grande não ter honrado um compromisso assumido, que consistiria em ajudar Mazepa a defender a Ucrânia das ambições expansionistas do Império Otomano. Mazepa teria então procurado o apoio do rei da Suécia, inimigo de Pedro o Grande. Para os russos, Mazepa tornou-se um traidor, que trocou a Rússia pela Suécia. No final, Pedro o Grande derrotou Carlos XII (e Mazepa com ele), na batalha de Poltava, e consolidou o seu imenso poder. Mazepa acabou por morrer exilado na Moldávia, que então pertencia ao Império Otomano.


Mazeppa no Cavalo Moribundo (1824), óleo sobre tela (provavelmente um estudo) de Eugène Delacroix (1798–1863). Kansallisgalleria, Ateneum, Helsínquia, Finlândia

Aos poetas e artistas do séc. XIX, pouco interessaram as reviravoltas políticas e militares de Mazepa. O que lhes interessou mesmo foi a sua lendária cavalgada, amarrado ao dorso de um corcel, por amor a uma mulher. Tão romântico!

O longo poema de Lord Byron dedicado a Mazepa pode ser lido na página https://www.poetryverse.com/lord-byron-poems/mazeppa.

O poema de Victor Hugo, mais curto, está na página https://www.poeticous.com/victor-hugo/mazeppa-a-m-louis-boulanger.


Mazeppa e os Lobos (1826), óleo sobre tela de Horace Vernet (1789–1863). Museu Calvet, Avignon, França

O poema de Victor Hugo inspirou o compositor e pianista húngaro Franz Liszt, que escreveu o poema sinfónico "Mazeppa", estreado em 1854. Esta peça sinfónica procurou reproduzir por música o que Victor Hugo contou por palavras.


Mazeppa, poema sinfónico de Franz Liszt (1811–1886), pela Orquestra Nacional da Ópera de Montecarlo, dirigida por Paul Paray

11 julho 2022

Regras da casa


Numa janela ao nível do rés-do-chão, na cidade do Porto

04 julho 2022

Música de Damião de Góis


In Die Tribulationis, de Damião de Góis (1502–1574), pelo agrupamento musical Sete Lágrimas

29 junho 2022

Pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Columbina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão (1906–1997)

(Foto: Thiago de Moura)