06 novembro 2026

O velho poilão

O tempo fez-me vergar
E as minhas raízes saltar
Agarro ao que de mim resta
E tento reconhecer a minha geração
De extrema solidão
No meu reino

Tenho pesadelos
Tractores de dentes aguçados
Ávidos lenhadores
De machado em punho
Meus oradores
Miram o meu tronco
Carcomido pelo tempo
À espera da queda fatal
Angustiado sonho com os belos tempos
Vejo os meus braços verdes
O meu tronco firme
Ostentando uma cabeça frondosa
De cabelos encarapinhados
Simulando perfis ocos
De rostos apinhados

Ainda recordo
De sombras que dei
Histórias de amor, noites de fogueira…
Quantas não assisti?
Fui símbolo de amor proibido
Refúgio de namorados
Hoje é isto o que de mim resta
Tudo que em mim presta
O tempo levou
E o chão aprovou

Mas não choro

Odete Semedo, poetisa da Guiné-Bissau


NOTA
Poilão é o nome dado na Guiné-Bissau e em Cabo Verde à sumaúma (Ceiba Pentandra), uma árvore de grande porte que costuma apresentar raízes espetaculares, que atraem a curiosidade das pessoas, e que produz uma espécie de lã macia usada no enchimento de estofos. Em Angola a sumaúma é chamada mafumeira e em São Tomé e Príncipe é conhecida por ocá. Nas florestas virgens de África e da Amazónia, esta árvore pode apresentar enormes dimensões, chegando a atingir dezenas de metros de altura.



As raízes de dois poilões, algures na Guiné-Bissau (Foto: hpc)
(Clicar na imagem para ampliá-la)

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